Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

domingo, 26 de julho de 2009

Clássico pernambucano completa 100 anos (1)

Sport e Náutico jogam neste domingo no estádio da Ilha do Retiro, o clássico de número 513 de toda a história. Uma taça comemorativa estará em disputa. Quem vencer a partida, válida pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro, leva o troféu para casa. Se houver empate, cada um dos clubes receberá uma réplica. O primeiro clássico aconteceu no dia 25 de julho de 1909, no campo do British Country Club, da colônia inglesa em Recife, e se localizava onde hoje está o Museu do Estado, no bairro das Graças. O Náutico, fundado em 1901, para a prática de esportes aquáticos, foi o vencedor pelo escore de 3 X 1, perante cerca de 3 mil torcedores. O Sport foi fundado em 1905.

Para os jornais da época, uma surpreendente vitória alvirrubra, já que o Sport era considerado franco favorito. Quem marcou o primeiro gol da história foi Roland Maunsell, que também fez o segundo. A vantagem alvirrubra aumentou no segundo tempo, com D. Thomas. Em seguida, C. Chalmers diminuiu para os rubro-negros.

O Sport jogou com: L. Latham - N.D.T.Oliver e W.H.Muller - Frank Fellows - W.Pickwood e Willie Robinson - Alberto Amorim - S.T.Marsh - L.Griffith - C.Chamlmers e J.Amorim. Reservas: O. Von Shosten e A.Lundgren. O Náutico formou com: H. King - E. Montagne Smith e H.A.R. Ávila - R. Ramage - F.M. Ivatt e John Cook - A.Silva - H. Grant Anderson - R.Maunsell - D.Thomas e João Maia. Reserva: Mac Pherson. Ainda naquele ano os dois se enfrentaram mais uma vez, com nova vitória alvirrubra, por 2 x 0.

Tanto Náutico como Sport eram times formados por jogadores ingleses. O Sport jogou com calções brancos e camisas vermelhas e pretas em listras verticais, sem escudo. Tinha como vantagem a experiência de ter realizado outras dez partidas anteriormente. O Náutico, que fazia seu primeiro jogo de futebol atuou todo de branco, e na camisa havia um escudo com uma âncora, dois remos e as letras CNC. Após o jogo os atletas dos dois times confraternizaram no palacete do British Club, com discursos e muita champagne.

O primeiro jogo entre ambos valendo pontos foi realizado no dia 21 de maio de 1916, também no campo do British Country Club, com vitória do Náutico por 4 X 1. Quase quatro meses depois, veio a revanche. Num campo lotado, na Ponte d'Uchoa, os rubro-negros pagaram a dívida com juros e correção monetária e fizeram a maior diferença de gols entre os dois times nos 100 anos de história: 8x0. Motta fez 4, Vasconcelos 3, e Smith completou o marcador.

O Náutico levou 20 anos para devolver o vexame. A goleada começou em dezembro de 1934, num jogo bastante tumultuado. O Náutico vencia por 2 x 0 quando o Sport diminuiu e começou a pressionar. De acordo com o pesquisador Carlos Celso Cordeiro, o Náutico começou a fazer cera e provocar o juiz. Naquela época, quando o juiz era pressionado, era substituído, ao contrário de hoje quando os atletas indisciplinados são expulsos.

A demora foi tamanha que o jogo entrou pela noite. Como não havia refletores, a partida teve que ser suspensa. A prática previa que o tempo restante seria completado no dia seguinte. O Sport não aceitou e propôs uma nova partida começando do 0 X 0.

O novo confronto foi marcado para 31 de março, já em 1935 no campo da Avenida Malaquias. Aos dois minutos, Estácio fez 1 X 0 para o time vermelho e branco. Aos 15, Zezé aumentou para 2 X 0. Cinco minutos depois Fernando fez 3 X 0 em cobrança de pênalti. Mais três minutos e outro Carvalheira, Artur, marcou 4 X 0. Aos 37, Estácio fez 5 x 0, terminando o primeiro tempo.

Aos cinco da fase final, Fernando Carvalheira driblou quem apareceu pela frente e fez o sexto. O Sport conseguiu seu gol solitário aos 21, após Marcílio Aguiar aproveitar rebote de Osvaldo Salsa. Um minuto depois Fernando Carvalheira fez 7 X 1. Para fechar com chave de ouro, Artur Carvalheira fez o oitavo no minuto final.

Embora Náutico e Sport já tenham goleado um ao outro com oito gols, essas duas partidas não se constituíram como as maiores quantidades de gols marcados. O feito ocorreu no dia 14 de junho de 1947, quando o Náutico venceu por 7 X 3. O goleiro do Sport era o lendário Manuelzinho.

O jogo valia pelo turno eliminatório do Estadual. O Náutico estava repleto de juvenis, enquanto o Sport apresentava um time mais experiente, com Chicão e Zago, além de Manuelzinho. Antes dos 30 minutos da etapa inicial o jogo já estava 3 X 0 para o Náutico. Alcidésio, Zeca e Idimiar foram os goleadores. Dega e Molina diminuíram o marcador para o rubro-negro, mas Idimar fez mais um pouco antes do fim do primeiro tempo, que terminou 4 X 2 para o Náutico. No segundo tempo, o Náutico marcou mais três vezes, com Zeca, Carlos Alberto e Genival. Aos 43 minutos, Alheiros descontou, ficando o placar final em 7 X 3.

O clássico Náutico X Sport é o terceiro mais antigo do Brasil, ficando atrás apenas do “Clássico Vovô, entre Botafogo X Fluminense (22/10/1905), no Rio de Janeiro e o Gre-Nal (18/07/1909), no Rio Grande do Sul.

Segundo alguns jornalistas e pesquisadores Náutico X Sport é verdadeiramente o segundo clássico mais antigo do Brasil, e não o terceiro, como se pensa. A polêmica sobre o clássico mais antigo tem justificativa. O “Clássico Vovô” entre Botafogo x Fluminense, datado de 1905 seria o mais antigo. Mas na época existiam dois Botafogos: o Club de Regatas, e o Football Club. Com a união em 1942, o Botafogo de Futebol e Regatas de hoje, herdou os títulos do antigo Botafogo Football Club.

Há um grande equívoco sobre o “Clássico Vovô”, porque o Botafogo que jogou contra o Fluminense foi extinto. Só em 1942 que houve a fusão dos dois Botafogos, com outro estatuto. Já Internacional, Grêmio, Sport e Náutico são instituições centenárias de vidas perenes, sem interrupções, diz o jornalista e pesquisador Galvão Neto.

Por esta visão, o clássico gaúcho entre Internacional x Grêmio, iniciado em 18 de julho de 1909 passa a ser o mais antigo no Brasil, sendo seguido por Sport x Náutico de 25 de julho de 1909, seis dias depois do Grenal.

O jogo entre Sport X Náutico disputa em importância com o “Clássico das Multidões” envolvendo Santa Cruz X Sport e com o “Clássico das Emoções”, disputado entre Náutico X Santa Cruz. Bem antes, o jogo entre América Football Club e Sport Club do Recife era chamado de “Clássico dos Campeões”. A denominação surgiu por que até o inicio da década de 1930, eram os dois times que detinham a maior quantidade de títulos e também eram os dois principais clubes da cidade. O “Clássico dos Campeões” foi o primeiro clássico de expressão entre equipes da capital pernambucana.

A rivalidade entre alvirrubros e rubro-negros vai além da quantidade de vitórias. Isso, porque o Náutico é o único clube pernambucano que conquistou o hexacampeonato estadual, assumindo assim o slogan de que "Hexa é Luxo". Tal provocação mexe com o ânimo do Sport, que há alguns anos tenta derrubar o prestígio alheio. Em 2006, o rubro-negro iniciou uma caminhada que já soma quatro títulos no Campeonato Pernambucano.

Até os anos 40, o confronto entre Sport X Náutico era chamado de "Fla-Flu Pernambucano", uma referência ao maior clássico do país na época. Depois foi ganhando personalidade própria, até virar o "Clássico dos Clássicos".

Dos 512 jogos já disputados, o Sport venceu 197, o Náutico, 169 e se verificaram 145 empates. Até hoje não se sabe o resultado de um jogo, que valeu pelo “Torneio Terezinha de Jesus”, que completa a estatistica. Foram marcados 1.321 gols, 687 do Sport e 634 do Náutico. A Ilha do Retiro é o local onde se realizaram mais clássicos, 207 ao todo. O maior artilheiro é Fernando Carvalheira, atacante do Náutico nos anos 30, que fez 26 gols. O principal goleador do Sport no clássico é Traçaia, que jogou nos anos 50 e marcou 13 gols.

O maior público de todos os tempos foi no jogo Sport 2 X 0 Náutico, disputado no dia 15 de março de 1998, no Estádio do Arruda, com 80.203 torcedores. Os árbitros que mais apitaram o clássico foram Sebastião Rufino e Gilson Cordeiro, ambos em 35 oportunidades. O campeonato pernambucano é a competição onde mais se enfrentaram, 384 vezes. (Pesquisa: Nilo Dias)

Sport, bicampeão pernambucano, 1955/1956. (Foto: Acervo do Sport Club Recife).Náutico, campeão pernambucano de 1934. (Foto: Livro "A história do futebol em Pernambuco").

domingo, 19 de julho de 2009

Grenal, um clássico de 100 anos (Final)

Os anos 90 apresentaram algumas surpresas. Em 1991 o Grêmio realizou uma péssima campanha no Campeonato Brasileiro e acabou caindo para a segunda divisão, para delírio dos torcedores do Internacional. O presidente do clube era Rafael Bandeira, que passou a ser considerado um vilão por conselheiros e torcedores, a ponto de não ter sua fotografia colocada na Galeria dos Ex-Presidentes.

Como última tentativa de melhorar sua imagem, o presidente trouxe de volta o atacante Renato Portaluppi, que em 1986 havia se transferido para o Flamengo do Rio de Janeiro. De nada adiantou, o Grêmio perdeu a Copa do Brasil para o Criciúma, treinado por Luiz Felipe Scollari e o campeonato gaúcho para o Internacional.

Em 1993 o jogador Dener, com 21 anos de idade veio para o Grêmio e ajudou a conquistar mais um título gaúcho para o clube das três cores. Foi uma passagem rápida, no ano seguinte foi para o Vasco da gama do Rio de Janeiro, onde morreu tragicamente em um acidente automobilístico.

Nesse ano de 1994 aconteceu o mais longo campeonato gaúcho de todos os tempos. Foram 506 partidas. O absurdo chegou ao ponto do Grêmio ter que realizar três jogos no mesmo dia. Foi em 11 de dezembro, no Estádio Olímpico, diante de um público de 758 pessoas, com 247 pagantes. Às 14 horas o Grêmio empatou com o Aimoré em 0 x 0. Às 16 horas ganhou do Santa Cruz por 4 X 3 e às 18 horas bateu o Brasil de Pelotas, por 1 X 0. O Inter foi campeão gaúcho e o Grêmio da Copa do Brasil, garantindo vaga para a Libertadores do ano seguinte.

Em 1997, no Grenal decisivo do Campeonato Gaúcho, o Internacional, para enganar o rival, simulou uma lesão grave em Fabiano, seu principal atacante. No último treino antes do clássico, Fabiano caiu ao chão se contorcendo de dor, imobilizou o joelho e ficou de muletas. Na hora do jogo revelou-se a farsa: Fabiano não estava lesionado, o que nem mesmo os outros jogadores sabiam até a hora de entrar em campo. Fabiano jogou os 90 minutos e fez o gol que deu o título ao Internacional, treinado por Celso Roth.

Em 1998 o interior voltaria a vencer o Gauchão, o que não acontecia desde 1939, quando o Rio-Grandense de Rio Grande foi campeão. Nesse ano o jogador Dunga, capitão da Seleção Brasileira nas Copas de 1994 e 1998 despedia-se dos gramados, vestindo a camisa do Internacional, onde iniciou a carreira. No Grêmio surgia Ronaldinho Gaúcho, que depois seria um dos mais perfeitos jogadores de futebol de todo o mundo, jogando na Europa. No Grenal de 20 de junho daquele ano, Ronaldinho Gaúcho aplicou um drible histórico sobre o veterano jogador de 36 anos.

No campeonato de 1998 foi o Internacional que andou as voltas com um pai-de-santo, que acusou o clube de não lhe pagar por serviços espirituais feitos no ano anterior. Efeito ou não do além, o certo é que o Inter empatou em 0 X 0 o jogo da semifinal contra o Veranópolis.

Consta que o pai-de-santo Antônio deu uma ajuda ao Veranópolis, espalhando enxofre e vinho no vestiário colorado, além de muita bala de mel pelo gramado do Estádio Antônio David Farina. E ainda faltou luz nos chuveiros, obrigando os jogadores do Internacional a tomar banho frio. No jogo de volta no Beira Rio, o Inter fez 4 X 0.

Em 2000 o interior voltou a brilhar, desta vez com o Caxias que se sagrou campeãs, depois de bater o Grêmio por 3 X 0 no Estádio Centenário, e empatar o segundo jogo no Olímpico, em Porto Alegre, por 0 X 0. O curioso é que o time da Serra Gaúcha estava sem receber salários há quatro meses.

Nestes anos 2000 o Internacional tem sido superior ao Grêmio. O atacante Fernandão marcou o gol mil do clássico e se tornou um ídolo da torcida. Em 2005 o Grêmio amargou sua segunda queda para o Campeonato Brasileiro da Série B. Por outro lado, o Internacional conquistou os maiores triunfos de toda a sua centenária história: campeão da Copa libertadores da América e do Mundo em 2006, campeão da Recopa em 2007 e Campeão da Copa Sulamericana em 2008.

Hoje a tarde, 16 horas, o Rio Grande do Sul vai parar para ver o clássico Grenal de número 377. A importância do jogo é enorme, por vários fatores: 1) – porque o clássico atinge 100 anos de história. 2) - porque o Grêmio não vence à 7 jogos. E 3 -, porque seio Internacional perder é provável que aconteça a queda do técnico Tite.
A estatística do clássico é amplamente favorável ao internacional. Em 376 jogos, o colorado venceu 141 e marcou 538 gols. O Grêmio venceu 118 vezes e marcou 499 gols. A diferença é de 23 vitórias e 39 gols pró Internacional. Nesses 100 anos, aconteceram 117 empates. (Pesquisa: Nilo Dias)

Hoje é o dia do Grenal centenário.

sábado, 18 de julho de 2009

Grenal, um clássico de 100 anos (6)

O Grêmio mandou no futebol gaúcho até 1968. Foram longos sete anos. Em 1969 o Internacional reagiria com várias ações que mudariam o destino do clube. Primeiro, foi contratado o técnico Daltro Menezes, vindo do Juventude de Caxias, que montou um time mesclado por jogadores experientes e alguns jovens. A diretoria também inovou ao confiar o futebol a um quinteto de jovens que trouxe novos conceitos e implantou uma filosofia vitoriosa de trabalho, que se prolongou pelos próximos oito anos. Eram eles: Ibsen Pinheiro, Ivo Corrêa Pires, Claudio Cabral, Hugo Amorim e Paulo Portanova, que entraram para a história como “os Mandarins”.

No Grenal decisivo do campeonato daquele ano, quando bastava o empate para o Inter ser campeão, aconteceram alguns fatos que mostraram claramente que os dirigentes não estavam para brincadeira. O árbitro Zeno Escobar Barbosa não deixava o jogo andar, cobrava falta em cima de falta. No intervalo o dirigente colorado Ivo Correia Pires se aproximou do juiz e o encheu de desaforos: “Gato, ladrão, gremista. Pode me expulsar se quiser, seu ladrão”.

Com o clima bastante quente, veio o segundo tempo de jogo. Aos 16 minutos Valdomiro fez 1 X 0 para o Internacional, mas o gol foi anulado sob a desculpa de que houvera falta em Everaldo. A torcida, na esmagadora maioria do Internacional, quase enlouqueceu. Os jogadores pressionavam o árbitro. Foi quando o dirigente Ibsen Pinheiro entrou no gramado, calmamente, com as mãos no bolso. A Policia Militar nem esboçou reação, visto que ele não gesticulou e nem estava agitado. Todos pensavam que ele ia acalmar os ânimos.

Ledo engano. Ibsen chegou junto a Zeno Escobar Barbosa e advertiu, olho no olho: “Isso aqui está uma loucura. Nós todos vamos morrer aqui dentro. O povo vai pular os portões da “coréia” (era um local onde os ingressos eram mais baratos) e vai ser um massacre”. O juiz apenas balbuciou: “Deixa comigo, deixa comigo, deixa comigo”.

E realmente as coisas começaram a se acomodar. O juiz expulsou Volmir e Alcindo saiu de campo machucado. O Grêmio já havia feito as duas substituições permitidas na época e ficara com 9 jogadores em campo. Tudo parecia encaminhar-se para um final tranqüilo, até que aos 40 minutos o zagueiro Áureo deu um chutão de longe, a bola ia em direção ao gol. Silêncio profundo no estádio. Até o juiz rezou para que a bola não entrasse. E esta, caprichosamente passou rente ao poste superior da meta de Gainete.

Alivio geral. Os minutos restantes foram gastos com a bola andando de pé em pé dos jogadores colorados. Zeno Escobar Barbosa não deu nem um minuto de acréscimo e o Internacional comemorou o título.

Em 1971 o campeonato parou no “tapetão”. Foi o famoso caso “Land”. O Internacional lançou o jogador, recém contratado junto ao Rio Branco, do Espírito Santo, em uma partida contra o São José. Porém, o jogador já havia participado do campeonato capixaba. Pela legislação, estava impedido de disputar outro estadual. O Grêmio chegou a pagar a viagem de um advogado do São José, ao Espírito Santo, em busca de provas contra o Inter. O caso acabou sem solução, e o Inter sagrou-se tricampeão gaúcho.

Ainda em 1971 o Internacional trouxe o zagueiro chieleno Elias Figueroa, que jogava pelo Peñarol de Montevídeu. E o Grêmio trouxe do Nacional, também do Uruguai, o zagueiro Atílio Ancheta, que se tornariam ídolos em seus clubes.

Os anos que se seguiram foram do mais completo desespero para os gremistas. O Inter superou o hepta do Grêmio e se tornou octacampeão. Além disso, ainda ganhou três campeonatos brasileiros, em 1975, 1976 e 1979, este de forma invicta, marca que permanece até hoje como única. O time era uma verdadeira máquina de jogar futebol: Manga – Cláudio – Figueroa – Hermínio (Pontes) (Marinho) e Vacaria – Caçapava (Jair) – Batista (Escurinho) e Falcão – Valdomiro – Dario (Flávio) e Lula.

Em 1977 o Grêmio conseguiu romper a longa série de conquistas do rival. O time era: Corbo – Eurico – Ancheta (Cassiá) – Oberdan e Ladinho – Vitor Hugo – Tadeu Ricci e Iúra – Tarciso – André Catimba (Alcindo) e Éder.

Nesse ano foi o Inter quem recorreu ao “tapetão” para tentar anular o Grenal que deu o título ao Grêmio. Cinco minutos antes do jogo terminar a torcida invadiu o campo e a equipe colorada optou por se retirar. Não levou. O dirigente gremista Nélson Olmedo proferiu a frase que virou jurisprudência esportiva: “Bicho no bolso, faixa no peito, taça no armário, não há o que discutir”.

Os anos 80 foram marcados pelo equilíbrio entre os dois clubes. De 1981 a 1984 só deu Internacional. De 1985 até 1990 o Grêmio foi campeão. E ainda ganhou o Brasileiro de 1981, a Libertadores e o Mundial de Clubes em 1983.

Em 12 de fevereiro de 1989, aconteceu o clássico de número 297, que entrou para a história como o “Grenal do Século”. Talvez ainda demore muitos anos, para que ele seja superado em emoção e drama. Depois dele, já aconteceram muitos outros clássicos, mas nenhum tão eletrizante. O jogo valia pelas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1988 e garantia uma vaga a Copa Libertadores de 1989. Quem vencesse iria decidir o título nacional.

O Internacional era treinado por Abel Braga e o Grêmio por Rubens Minelli, que havia ganho pelo Internacional os campeonatos brasileiros de 1985 e 1986. O Beira Rio recebia quase 80 mil torcedores. O Grêmio fez 1 a 0 aos 16 minutos, com Marcos Vinícius. O drama do Inter aumentou com a expulsão de Casemiro aos 37.

No segundo tempo, aos 16 minutos, Nilson empatou o jogo. Aos 26, virou, ao aproveitar cruzamento de Maurício. Na comemoração, imitou o personagem Sassá Mutema, um cortador de cana interpretado por Lima Duarte na novela “O Salvador da Pátria”. Festa vermelha no Beira Rio (Pesquisa: Nilo Dias)

Nilson comemorando o gol da vitória do Internacional, no "Grenal do Século". (Foto: Acervo do S.C. Internacional)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Grenal, um clássico de 100 anos (5)

Em 1961, com a saída do técnico Osvaldo Rolla, o “Foguinho”, do Grêmio, o Internacional aproveitou para quebrar a série de conquistas do adversário. A contratação do ponteiro-direito Sapiranga, vindo do Novo Hamburgo deu maior poderio ofensivo ao time colorado. Foi um período marcado pelos duelos entre o lateral-esquerdo do Grêmio, Ortunho e o endiabrado atacante do Internacional. Sapiranga fez 16 gols ao longo do campeonato e foi o primeiro goleador oficial do Gauchão.

O primeiro Grenal de 1961 estava marcado para o dia 27 de agosto, mas foi adiado em virtude da “Campanha da Legalidade”, liderada pelo ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, através uma rede de rádio para garantir a posse do vice-presidente João Goulart, devido a renúncia do presidente Jânio Quadros.

O clássico foi realizado no dia 10 de setembro e o Internacional venceu por 2 X 1. O Grêmio se arrependeria amargamente de ter permitido a saída de “Foguinho”. Este foi para o Cruzeiro. Coisas do futebol. O técnico que deu ao Grêmio o pentacampeonato, seria o grande responsável em impedir o exacampeonato e a igualdade ao rival Internacional. O Cruzeiro venceu o clássico Gre-Cruz do dia 15 de novembro, por 1 X 0, gol de Mauro “Barrilzinho de Pólvora”, um jogador baixinho e gorducho. E o Internacional festejou o título.

Mas ainda faltava um clássico para ser disputado, o último do ano. Foi o chamado “Grenal do Natal”. O Internacional vencia por 2 X 0 e o Grêmio em sensacional reação virou para 3 X 2. Mesmo sem o título, os gremistas alucinados fizeram ruidosa passeata pelas ruas de Porto Alegre, tendo a frente o hoje cronista esportivo Paulo Sant’Anna, que vestido com uma roupa “azul” de Papai Noel, emprestada por um comerciante, havia entrado no gramado do Estádios dos Eucaliptos, ao término do jogo.

Os torcedores gremistas foram em direção ao centro da cidade, mas ao chegarem na avenida Borges de Medeiros se depararam com torcedores colorados, vindos em direção oposta. Paulo Sant’Anna, para fugir de uma agressão certa, correu em direção a um ônibus que passava por ali. Não teve sorte. O coletivo carregava vários torcedores colorados que por pouco não o mataram.

Em fevereiro de 1962, o Grêmio conquistou a Taça da Legalidade, ao empatar o primeiro clássico, disputado nos Eucaliptos, em 1 X 1 e vencer o segundo, no Olímpico, por 2 X 1. Logo em seguida o Grêmio foi excursionar pela Europa, e o Internacional ficou somando pontos no “Gaúchão”. No retorno, o tricolor estava 5 pontos atrás e em seguida perdeu mais 1, ao empatar com o Cruzeiro em 2 X 2. Eram seis pontos de diferença e apenas quatro rodadas para terminar o campeonato.

A dupla venceu os dois jogos seguintes. Faltavam apenas dois para o campeonato acabar. Na noite de 9 de dezembro o Grêmio viajaria a Pelotas para enfrentar o Pelotas e o Internacional jogaria nos Eucaliptos, contra o Aimoré. Confiantes na vitória, que garantiria o título, os torcedores do colorado traçaram um plano cruel para humilhar o tradicional rival. Esperar a delegação gremista na Ponte do Guaíba, com um caixão de defunto e obrigá-los a acompanhar o próprio “enterro”. Mas ninguém contava com a vitória do Aimoré por 3 X 1 e do Grêmio por 4 X 0.

E veio o Grenal, com o Internacional precisando apenas do empate para ser campeão. O Grêmio teria de vencer para obrigar a realização de um jogo extra. Em 16 de dezembro o Grêmio fez 2 X 0 e se igualou ao adversário em pontos. No Grenal extra o Grêmio venceu por 4 X 2 e recuperou a hegemonia do futebol gaúcho.

Os anos seguintes foram de quase interminável sofrimento para os colorados. O Grêmio empilhou sete títulos na corrida, só parando em 1969 quando o colorado voltou a ser campeão. A gangorra, que sempre esteve presente no futebol gaúcho, mudara de lado. O Internacional se vingara dos sete títulos seguidos do rival, com oito conquistas e o inédito octacampeonato gaúcho, feito até hoje não igualado.

Em 1967 aconteceu algo inimaginável, uma união entre Grêmio e Internacional, os clubes que detém a maior rivalidade no futebol brasileiro. Pela primeira vez a dupla Grenal participaria do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que reunia os maiores clubes cariocas e paulistas desde 1950, e que naquele ano foi estendido a Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. O torneio, disputado até 1970, foi o “embrião” do Campeonato Brasileiro, que foi realizado pela primeira vez em 1971.

Como o critério para a participação no “Robertão” para os clubes de fora do eixo Rio-São Paulo era o convite – a princípio seriam convidados apenas os clubes mineiros, visto que as viagens a Belo Horizonte não eram dispendiosas para cariocas e paulistas – era preciso que as partidas em Porto Alegre fossem rentáveis, para que a dupla Gre-Nal continuasse a ser convidada. Os dois clubes jogavam no Estádio Olímpico, visto que o Inter ainda não tinha um estádio em condições de sediar jogos importantes – o Beira-Rio seria inaugurado somente em 1969.

Para obterem boas rendas, os clubes decidiram adotar o sistema de caixa único, e foi também conclamada uma união entre as duas torcidas, pela “afirmação do futebol gaúcho”. Surgia assim a “Torcida Grenal”. Parecia maluquice, mas a idéia deu certo. Gremistas iam aos jogos do Inter e apoiavam o time vermelho, e colorados iam às partidas do Grêmio e apoiavam o tricolor. Os dois clubes se classificaram para o quadrangular final, junto com Corinthians e Palmeiras, que foi o campeão. O Inter foi vice-campeão, e o Grêmio acabou em quarto lugar.

O Grenal 189, disputado dia 20 de abril de 1969 acabou com a paz entre os dois clubes. O Estádio Beira Rio havia sido inaugurado quatro dias antes. O Grêmio esperava ansiosamente o clássico, para tentar vingar o vexame da inauguração do Olímpico, quando perdeu por 6 X 2. Um detalhe chamava a atenção: o técnico do Grêmio era Sérgio Moacir Torres Nunes, goleiro da tarde fatídica da goleada colorada.

Já prevendo que o jogo poderia virar uma batalha campal, o técnico do Internacional, Daltro Menezes mandou que 37 jogadores se fardassem, 11 entrariam em campo e os demais ficariam no banco de reservas como reforços para o que viesse pela frente.

Às 15h30min o árbitro Orion Satter de Mello deu inicio ao jogo. O Internacional começou melhor. O Grêmio reagia com dureza as jogadas coloradas, principalmente do habilidoso Bráulio. Os jogadores do Inter responderam também com virilidade e o jogo tornou-se um festival de pontapés. Faltando 7 minutos para o jogo terminar aconteceu o tumulto.

A bola estava nas mãos do goleiro gremista Alberto, quando o atacante uruguaio, Urruzmendi do Internacional partiu em alta velocidade em direção a área adversária, chocando-se violentamente com o lateral Espinoza, que ficou estatelado no chão. Tupanzinho, do Grêmio veio correndo do meio de campo e só parou quando atingiu Urruzmendi, que não perdeu tempo e revidou.

O centroavante Alcindo, veio em socorro de Tupanzinho, mas no caminho foi agredido por Sadi. No entanto, não parou de correr até acertar um soco no rosto de Urruzmendi, que foi cercado por vários gremistas. Daí para frente a briga tomou grandes proporções. Os jogadores reservas se juntaram aos demais dentro de campo. Era soco e pontapé para tudo que é lado. O médico do Grêmio, doutor Jairo Cruz, de pequena estatura foi um dos que mais apanhou, acabando nocauteado por um soco no queixo.

Com o fim da briga os jogadores gremistas foram para o vestiário e os do Internacional permaneceram em campo para continuação do jogo. Foi quando descobriram que apenas o meio-campista Dorinho e o goleiro gremista, Alberto, não haviam sido expulsos. O escore estava em 0 x 0. (Pesquisa: Nilo Dias)

Briga generalizada no Grenal 189.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Grenal, um clássico de 100 anos (4)

Teté, o técnico do Inter, era um especialista em macumba. Na véspera do Grenal que decidiria o campeonato de 1953, o jogador Bodinho procurou o chefe para dizer que não poderia jogar, pois estava “macumbado”. Teté mandou que Bodinho ficasse quieto e chamou uma negra batuqueira de nome Geralda, bastante conhecida no clube. Os três ficaram trancados na cozinha por mais de duas horas, conversando e comendo lingüiça com farinha.

Ao final da festa, sem que nenhum ritual tivesse sido feito, disseram a Bodinho que ele estava desamarrado e poderia jogar sem problema algum. Bastante tranquilo Bodinho dormiu bem toda a noite, e no dia seguinte fez um verdadeiro Carnaval na defensiva gremista, ajuadando o Inter a se sagrar tetracampeão de Porto Alegre.

No dia 9 de maio de 1954 chegou ao Internacional o atacante Larry Pinto de Farias, vindo do Fluminense do Rio de Janeiro e que formaria ao lado de Bodinho, talvez a mais famosa dupla atacante do clube em todos os tempos. A estréia de Larry foi no Grenal 133, de caráter amistoso, disputado dia 18 de julho daquele mesmo ano no estádio dos Eucaliptos.

O Inter venceu por 3 X 1 e Larry marcou um dos gols. O atacante jamais esqueceu esse jogo, não só por que foi o primeiro que disputou com a camisa colorada, mas por um soco no queixo, que levou do zagueiro gremista Xisto, acompanhado da frase: “Toma, carioca filho da puta”.

Um ano antes, o mesmo Xisto deu um pontapé no ponteiro-direito Luisinho, do Internacional e o jogou fora do gramado. Não satisfeito, avançou até ele, apoiou a mão direita sobre sua nuca e esfregou seu rosto no chão. O árbitro Hans Lutzkat, com medo de também ser agredido, limitou-se apenas em pedir para que ele não fizesse aquilo outra vez. Xisto, tempos depois teve uma das pernas quebrada pelo jogador colorado Salvador.

Em setembro de 1954 o Grêmio inaugurava o estádio Olímpico Monumental, com capacidade para 38 mil torcedores, na época o maior estádio particular do Brasil. Um festival de futebol, com direito a banda e tudo o mais, marcou a inauguração do estádio. No primeiro jogo o Grêmio derrotou o Nacional de Montevidéu por 2 X 0. Vitor marcou o primeiro gol do novo estádio. Três dias depois o Grêmio golearia o Liverpool, também do Uruguay por 4 X 0.

A festa só seria completa se houvesse um Grenal. E este aconteceu no dia 26 de setembro de 1954. Triste recordação para os gremistas que tiveram de engolir uma goleada de 6 X 2, justamente na inauguração de sua nova casa. Esse jogo mexeu realmente com a estima dos dirigentes tricolores. Tanto é verdade, que no fascículo 4, da “História Ilustrada do Grêmio, foram escritas apenas estas lacônicas linhas, sem citar o placar do jogo: “Na terceira partida inaugural foi realizado o Grenal 153, no dia 26 de setembro. Equipe do Grêmio: Sérgio – Ênio Rodrigues e Orli – Roberto – Sarará e Itamar – Tesourinha – Milton – Camacho (Vitor) – Zunino e Torres (Delém)”.

Em 1955 o Grêmio, presidido por Luiz Carvalho contratou o seu ex-jogador Osvaldo Rolla, o “Foguinho” para ser o treinador e tentar a retomada de conquistas no futebol gaúcho. O novo preparador inovou, priorizando o preparo físico dos jogadores. Seus métodos não eram nada convencionais. Mandava os jogadores carregando outros nas costas, subirem correndo as escadarias do Estádio Olímpico. E ninguém reclamava, pois o próprio “Foguinho” também fazia o mesmo.

Naquele ano os resultados de campo ainda não foram os desejados. Chegou 1956, e com ele um novo time do Grêmio, com uma defesa bem estruturada, onde se destacava um zagueiro de nome Airton Ferreira da Silva, que veio do Força e Luz, um outro time da capital, trocado pelo pavilhão do velho estádio da Baixada.

Tendo no preparo físico sua mais eficiente arma, o Grêmio vencia seus adversários no segundo tempo. No Grenal que decidia o primeiro turno, disputado no dia 2 de setembro, aconteceu a jogada mais bonita até hoje, de toda a história do clássico. O Grêmio vencia por 1 X 0, quando Gessy lançou Juarez. O goleiro La Paz saiu para tentar a defesa e o atacante, com um leve toque o encobriu.

A bola estava quase entrando, a torcida gremista já festeja o segundo gol, quando surgiu repentinamente o zagueiro Florindo, que com um salto acrobático, de puxeta mandou a bola para escanteio. Incrédulos, os torcedores gremistas num primeiro momento ficaram calados, mas segundos depois juntaram-se aos colorados para aplaudir tão incrível jogada. O Grêmio terminou vencendo por 2 X 1.

Ao final do ano o tricolor festejava a reconquista da hegemonia do futebol gaúcho. O técnico Foguinho, responsável pela campanha vitoriosa ganhou de presente um flamante automóvel DKW Vemag. Já os dirigentes do Internacional começavam a mudar o grupo. Os melhores jogadores foram vendidos. Oreco, o craque do time foi para o Corinthians.

O que se seguiu os colorados não gostam de lembrar. O Grêmio dominou amplamente o futebol do Rio Grande do Sul até 1960, ganhando tudo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Airton, foi o melhor zagueiro de toda a história do Grêmio. (Foto: Acervo do Grêmio F.B. Portoalegrense)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Grenal, um clássico de 100 anos (3)

A fase do Internacional naqueles anos 40 era realmente maravilhosa. No campeonato de Porto Alegre em 1944, o Inter ganhou o primeiro Grenal, disputado em abril no Estádio dos Eucaliptos por 4 X 2. Em maio, antes do segundo clássico o Grêmio convidou o tradicional adversário para um jogo amistoso para inaugurar sua nova bandeira e homenagear os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que partiam para a Europa. Nova vitória colorada, desta feita por 7 X 3.

No dia 13 de agosto foi realizado o segundo clássico do campeonato. O favoritismo era todo do Internacional. O jornal “Folha da Tarde” chegou a publicar uma charge em que uma senhora gorda, gremista, apontava para uma folha do calendário mostrando que era 13 de agosto. O senhor colorado respondia: “Ora, deixe disso vizinha, esse negócio de azar não pega. No Grenal ganha quem joga melhor, o resto é conversa mole”.

O Inter entrou em campo arrasador e ao final do primeiro tempo já vencia por 3 X 0. Nas sociais torcedores gremistas faziam um abaixo- assinado para derrubar a Diretoria. Veio o segundo tempo e uma reação incrível do Grêmio, que virou o jogo para 4 X 3.

Até hoje esse jogo é lembrado. Há quem diga que na concentração do Internacional na Vila Elza, os sucos servidos teriam recebido misturas que deixaram os jogadores tontos durante o intervalo. Os dirigentes colorados da época garantiam saber até os nomes dos gremistas responsáveis pelo doping, mas nunca os revelaram.

No dia 8 de setembro o terceiro e decisivo Grenal. O ponteiro-esquerdo Carlitos havia operado os meniscos do joelho direito na quinta-feira que antecedeu o clássico e repousava em sua casa, quando recebeu inesperadas visitas. Eram alguns de seus companheiros do Internacional, que vieram lhe pedir para jogar.

Carlitos disse que isso seria impossível, mas o zagueiro Nena argumentou: “Não precisa nem jogar, é só vestir a camisa”. E Carlitos acabou convencido. O clássico mexia com toda a população da capital.

Os jornais anunciavam o clássico como o mais sensacional de todos os tempos. As firmas prometiam prêmios aos jogadores. A Casa Soares, da rua dos Andradas oferecia uma camisa no valor de Cr$ 60.00, para ser sorteada entre os vencedores. A empresa Lipio & Ludwig, fabricante da caninha “Grenal”, oferecia 12 garrafas do liquido, para ser entregue ao jogador que fizesse o gol da vitória. Um grupo de torcedores do Inter adquiriu 11 apólices de seguros para ser entregue aos jogadores, caso vencessem o jogo. Além de muitos outros brindes.

O Internacional começou o jogo a todo o vapor e em pouco tempo fez 2 X 0. O recém operado Carlitos fez o primeiro gol. O Grêmio descontou. O jogo se tornou dramático, Carlitos mal caminhava em campo, Assis com torção no tornozelo não podia mais dividir bolas, Alfeu também se machucou e o uruguaio Volpi não pegava como os demais. O time estava reduzido a sete jogadores inteiros. Naquele tempo não se podia fazer substituições.

No último minuto o gremista Aguiar pegou a bola sozinho e se preparava para o chute mortal. Foi quando apareceu Alfeu, arrastando a perna e jogando-se a tempo de evitar a tragédia. Ficou estendido no chão, gritando de dor, enquanto a torcida chamava seu nome e festejava o pentacampeonato da cidade.

Em 1946 o Grêmio fez uma mobilização geral para tentar conter o adversário. Trouxe reforços do Rio de Janeiro, criou o título de Patrono do clube, contratou o técnico Oto Pedro Bumbel, buscou ajuda sobrenatural no pai de santo conhecido como “Homem dos Cachos”, institucionalizou a frase “com o Grêmio onde o Grêmio estiver” e criou a figura símbolo do “Mosqueteiro”, com bota e espada a tiracolo.

E o movimento deu resultado. O primeiro Grenal daquele ano, no dia 5 de maio foi vencido pelo Inter por 1 X 0. No segundo e decisivo clássico, disputado no dia 23 de junho, o Grêmio ganhou por 4 X 3, conquistando o título.

Contam que os conselheiros gremistas que contrataram o pai de santo “Homem dos Cachos” esqueceram de fazer o pagamento. E este teria se vingado maldizendo o clube tricolor: “Isso vai sair caro para vocês, uma derrota para cada jogador”. E não é que o Grêmio passou 11 jogos sem conseguir ganhar.

Em 1949, o jogador Tesourinha , depois de ganhar oito campeonatos estaduais pelo Internacional e vencer o concurso nacional “Craque Melhoral”, foi embora para o Rio de Janeiro, onde vestiu com sucesso a camisa do Vasco da Gama. Em 1952, mesmo com um dos joelhos estourado, Tesourinha foi contratado pelo Grêmio. Não é verdade que ele tenha sido o primeiro negro a vestir a camisa tricolor, conforme é apregoado até hoje pela imprensa. Ele foi isso sim, o primeiro atleta negro de renome a jogar pelo Grêmio. Antes dele, brilharam nomes como Antunes (1913/1914), Adão (1926/935), Laxixa (1937/40), Mário Carioca, Hélio, Prego (anos 40) e Hermes (1948/50).

O Internacional não tinha mais os grandes craques da década de 1940, mas o novo time também era muito bom e os torcedores o chamavam de “Rolinho”. Dirigido pelo técnico Francisco Duarte, o "Teté", vindo do Brasil de Pelotas, o grupo contava com jogadores de qualidade, sobressaindo-se Florindo e Oreco na zaga, Paulinho e Odorico nas laterais e os atacantes Bodinho e Luizinho.

O primeiro jogo de Tesourinha com a camisa do Grêmio foi no dia 16 de março de 1952, na goleada de 5 X 3 sobre o Juventude. Seu primeiro clássico jogando pelo Grêmio foi um amistoso no dia 13 de julho de 1952. O Grêmio venceu por 2 X 1 e ele teve atuação discreta. O jogador, não era mais o mesmo, os ligamentos e meniscos estourados fizeram com que perdesse a velocidade. Jogou mais oito clássicos, não venceu nenhum e nem fez gol. E tão pouco foi campeão pelo clube tricolor. No último que disputou, o Internacional goleou por 5 X 1.

Tesourinha voltou a vestir a camisa colorada, 12 anos depois de ter abandonado o futebol. Estava com 47 anos e participou do jogo contra o S.C. Rio Grande, na despedida do velho Estádio dos Eucaliptos. Ao final do jogo ele retirou uma das redes para guardar como recordação. Tesourinha morreu, vítima de câncer, no dia 17 de junho de 1979, aos 57 anos de idade.

Foi nesse período de frustrações, que o compositor Lupicínio Rodrigues compôs o hino gremista, com a famosa estrofe: “até a pé nós iremos/para o que der e vier/mas o certo é que nós estaremos/com o Grêmio, onde o Grêmio estiver”. Mesmo de hino novo, o Grêmio não conseguiu impedir que o Internacional alcançasse naquele ano de 1953, o segundo tetracampeonato. (Pesquisa: Nilo Dias)

Na despedida do Estádio dos Eucaliptos, Tesourinha levou uma das redes como recordação. (Foto: Jornal "Zero Hora")

terça-feira, 14 de julho de 2009

Grenal, um clássico de 100 anos (2)

O termo Grenal, que serve para definir o clássico entre Grêmio e Internacional foi criado em 1926, pelo repórter Ivo dos Santos Martins. Numa sexta-feira a noite, antes de um jogo entre os dois grandes times de Porto Alegre, Ivo estava ocupando uma das mesas do Café Colombo, junto dos gremistas Armando Siaglia e Luiz Daudt.

Redator do jornal “Correio do Povo”, ele dizia estar cansado de escrever na íntegra os nomes Grêmio Foot-Ball Portoalegrense e Sport Club Internacional, a cada jogo entre ambos e pensava em uma forma de abreviar isso. Surgiu primeiro a expressão Intergre, mas não soava bem. Inverteram-se as posições e o Grenal caiu como uma luva.

O primeiro Grenal conhecido como tal foi disputado na Chácara dos Eucaliptos, no dia 27 de junho de 1926, com recorde de público para a época, 7 mil assistentes. O jogo ficou conhecido como o “Grenal das bengaladas”, tudo porque um torcedor do Internacional, aparentemente sem motivo algum, invadiu o gramado de bengala em punho e agrediu o juiz, Manoelito Ruíz, do Americano.

As bengaladas realmente foram fortes, tanto que o juiz foi substituído pelo desportista de nome Zapp, que também não conseguiu acalmar os torcedores. A Brigada Militar teve que intervir e a confusão foi das maiores, com torcedores e brigadianos se degladiando por todos os cantos do estádio. Faltavam 10 minutos para o jogo terminar quando foi interrompido, com o placar de 4 X 1 para o Grêmio.

O campeonato municipal de Porto Alegre, em 1935, denominado de “Farroupilha” foi o mais importante da história, porque estava sendo festejado os 100 anos da Revolução Farroupilha, o mais importante episódio da história do Rio Grande do Sul. A programação alusiva ao feito envolveu a população por inteiro. Campeonatos de várias modalidades esportivas foram realizados. Até o presidente Getúlio Vargas esteve na cidade para prestigiar as festividades.

Em 28 de julho foi realizado o primeiro clássico do campeonato. O Internacional, campeão da cidade e do Estado era o favorito. O Grêmio não tinha mais Luiz Carvalho, que se transferira para o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. E foi confirmado que o goleiro Lara era cardíaco. Mas mesmo assim entrou em campo no clássico, que terminou empatado em 1 X 1.

Esse jogo ficou conhecido como o “Grenal do avião”, graças a um lance inusitado. O Internacional vencia por 1 X 0, quando um avião sobrevoou o estádio, fazendo piruetas, coisa inédita nos céus de Porto Alegre naqueles anos 30. O goleiro Penha e os zagueiros Natal e Risada, do Internacional, levantaram o olhar para os céus, surpresos e assustados, do que se aproveitou o ponteiro-esquerdo Castilho, para marcar o gol gremista.

Depois desse jogo Castilho desapareceu. Dizem que os colorados, furiosos com o lance do gol, raptaram-no e o esconderam numa casa no bairro Belém Novo. Verdade, ou não, o fato é que Castilho só reapareceu em 1936, e como jogador do Internacional.

Em 22 de setembro de 1935 foi disputado o Grenal decisivo. O Internacional tinha um ponto a frente e bastava o empate para ser campeão. Mas perdeu por 2 X 0 e o Grêmio se sagrou “Campeão Farroupilha”, mesmo sem ter contado com o seu grande goleiro, Lara. Foi o “Grenal dos cachorros pintados”. Um torcedor colorado se deu ao trabalho de juntar 11 cães pelas ruas de Porto Alegre e pintá-los de vermelho. A intenção era jogá-los no gramado, após o jogo, pois tinha a convicção de que o Internacional seria campeão.

Em 1938 estreava no Internacional um jogador que teria seu nome gravado para sempre na história dos Grenais, Carlitos, um ponteiro-esquerdo ofensivo, desaforado e com fome de gols. Logo em seu primeiro clássico, deixou sua marca, fazendo o terceiro gol colorado e dando o passe para outros dois. Carlitos ficou no Internacional até 1951, quando tinha 30 anos. Disputou 61 Grenais, um recorde e marcou 485 gols com a camisa vermelha e branca.

No dia 1º de novembro de 1938, na Timbaúva o Internacional conseguiu aplicar sua primeira grande goleada no tradicional adversário: 6 X 0. O juiz, Álvaro Silveira, ainda anulou cinco gols do Internacional, alegando que dois foram feitos com a mão e três em situação ilegal. Após o clássico o presidente colorado Ildo Meneghetti perguntou ao árbitro porque anulara tantos gols. E esse teria respondido: “Era muito gol para um Grenal”. O jogo foi amistoso e serviu para a despedida do atacante gremista Luiz Carvalho.

Em 1940 o Internacional descobriu no “Areal da Baroneza”, um lugar de população na maioria negra, um jogador que viria a se tornar uma legenda no clube colorado: Osmar Forte Barcelos, “Tesourinha”.

O primeiro Grenal de “Tesourinha” foi no dia 4 de janeiro de 1940, com outra goleada do Internacional, 6 X 1. Ele teve de jogar na ponta-direita, pois a esquerda, sua real posição, era ocupada por Carlitos, o artilheiro do time. Acácio fez 3 gols, Carlitos 2 e Tesourinha 1. Estava nascendo o “Rolo Compressor”, apelido dado pelo ex-jogador do próprio Inter, ex-vereador, ex-Papai Noel e ex-rei Momo de Porto Alegre, Vicente Rao.

Em novembro de 1940 o Internacional se sagrava campeão gaúcho, com a base do fantástico ”Rolo Compressor”: Júlio – Álvaro e Risada - (Alfeu) – Assis (Magno) – Levi e Pedrinho – Tesourinha – Russinho – Marques – Rui e Castilhos (Carlitos). Em 1942 o grande time tinha em campo todas suas notáveis peças, que marcaram história no futebol gaúcho: Ivo – Alfeu e Nena – Assis – Ávila e Abigail – Tesourinha – Russinho – Vilalba – Rui e Carlitos.

Naquele ano de 1940, o Internacional venceu cinco dos quatro Grenais disputados, mantendo a média de quatro gols por jogo. Os gremistas não queriam falar em futebol, disfarçando e conversando sobre episódios da Guerra Mundial, que se desdobrava na Europa.

Em 1941, no tri-campeonato o time marcou 108 gols. O último Grenal não valeu nada, o Inter já era campeão. Para conter a euforia colorada o delegado de Polícia Câmara Canto, proibiu que fossem queimados foguetes e rojões, mesmo nas imediações dos Eucaliptos, sob pena de prisão. De nada adiantou. Depois da vitória colorada por 4 X 2, foguetes estouraram por todos os cantos de Porto Alegre. (Pesquisa: Nilo Dias)

Ilustração que deu origem ao apelido "Rolo Compressor". (Foto: Acervo do S.C. Internacional.)

COMENTÁRIOS DE LEITORES

Anônimo disse...
Eu sou neto do pedrinho,gostaria de ver uma foto dele,pois não cheguei a conheçe-lo.
15 de agosto de 2009 00:56

O Gre-Nal da pauleira

Internacional 0 x 0 Grêmio
Data: 20/04/1969
Local: Estádio Beira-Rio
Arbitragem: Orion Satter de Mello
Internacional: Gainete, Laurício, Pontes, Valmir, Sadi, Tovar, Dorinho, Valdomiro, Bráulio, Sérgio, Gilson Porto (Urruz Mandi).
Grêmio: Alberto, Espinosa, Ari Hercílio, Áureo, Everaldo, Jadir, Sérgio Lopes (Cléo), Hélio Pires, Joãozinho, Alcindo e Volmir (Tupãzinho).

A maior pancadaria já ocorrida em um Gre-Nal foi no dia 20 de abril de 1969, no clássico 189, que fez parte dos festejos de inauguração do Estádio Beira-Rio. Os gremistas queriam vingança por uma humilhação de 15 anos, quando foram goleados por 6 a 2 pelo Internacional na inauguração do Olímpico, em 1954.

A revanche tornava-se ainda mais quente devido a um detalhe: o goleiro do Grêmio, nos 6x2, que chorava e que ameaçava abandonar o campo, era Sérgio Moacir Torres Nunes. O mesmo treinador em 1969 do Grêmio. O jogo, portanto, tornou-se uma questão pessoal do técnico gremista. Caso perdesse mais uma vez, Sérgio passaria para a posteridade como o pé-frio das inaugurações.

Após uma semana de discussões entre dirigentes, o que quase cancelou o clássico, finalmente, as 15h30, o árbitro Orion Satter de Mello assoprou o apito e decretou o início do jogo.

O primeiro tempo começou com o Inter melhor, mas o primeiro tempo acabou sem gols. No entanto, não faltaram lances violência nas divididas. Na volta para o segundo tempo, o ponteiro Hélio Pires, do Grêmio, foi expulso aos sete minutos. O jogo continuou sem que os times dessem muita atenção para a bola.

Aos 37 minutos, o goleiro Alberto estava com a bola nas mãos. O lateral gremista Espinosa à frente. Urruzmendi, ponteiro do Inter, correu do risco da grande área em direção aos dois, numa evidente e perigosa rota de colisão. Espinosa deu-lhe as costas para proteger o goleiro. Urruzmendi não quis nem saber. Atropelou Espinosa como se fosse ônibus desgovernado. Espinosa caiu e a guerra começou.
Imagem do primeiro Gre-Nal realizado no Beira Rio após a inauguração do estádio colorado. O clássico foi disputado em maio de 1969. Como se nota, o clima de paz reinou apenas até a bola começar a rolar. No meio do confronto generalizado que envolveu os jogadores é possível notar Everaldo, Urruzmendi, Sérgio Lopes, o goleiro Gainete e Tupãzinho.
Tupãzinho foi o primeiro a atingir Urruzmendi. Que revidou. Lá do meio também vinha Alcindo, bufando e urrando, louco para entrar na briga. Sadi correu atrás dele, agredindo-o no caminho. Alcindo não ligou para o ataque do lateral colorado. Continuou sua corrida e só parou ao encontrar Urruzmendi e aplicar-lhe um soco diretamente no rosto. Urruzmendi retribuiu a agressão em Alcindo. Apesar de brigar bem, Urruzmendi estava em desvantagem numérica e apanhava dos gremistas.

A ajuda não demorou para chegar. Gainete atravessou o campo em linha reta, veloz, e saltou para uma voadora histórica entre os jogadores. Porém, errou o bote e caiu no meio dos gremistas. Levou porrada de todos. A esta altura, os integrantes dos bancos já estavam em campo, distribuindo e recebendo porradas por todos os lados.

Encerrada a confusão, o Grêmio desceu aos vestiários. O Internacional ainda tentou retornar a campo para continuar o jogo. Só então os colorados descobriram que apenas o meio-campista Dorinho não havia sido expulso. No Grêmio, o único a não levar o cartão vermelho fora o goleiro Alberto.

Na saída de campo, os repórteres correram para um dos jogadores que mais brigou, o goleiro Gainete. Rosto ensangüentado, ainda bufando de ódio, ele proferiu apenas uma frase: “Aqui nós é que vamos cantar de galo!”

Fontes:
Milton Neves - fotos
Blog do Internacional
Jose Carlos, gandula do Internacional no início da decada de 60

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Gre-Nal, um clássico de 100 anos (01)

Ninguém mais duvida. O Grenal é hoje o maior clássico do futebol brasileiro e um dos maiores do mundo, superando em rivalidade Vasco X Flamengo, Flamengo X Fluminense , Corinthians X Palmeiras e Cruzeiro X Atlético, entre outros de menor expressão. A revista “Trivela”, produzida pela Editora Confiança, a mesma da revista “Carta Capital” publicou em sua edição de outubro do ano passado, uma pesquisa feita com jornalistas de todo o país que elegeram o clássico gaúcho como o principal do Brasil e Real Madrid X Barcelona, o maior do mundo.

A rivalidade do Grenal teve início antes mesmo do Internacional ser fundado. Integrantes da família Poppe, Henrique, José e Luis chegaram a Porto Alegre, em 1908, vindos de São Paulo. Eram aficionados do novo esporte, que haviam praticado no Internacional, clube da capital paulista. Em Porto Alegre não foram aceitos como sócios do Grêmio para jogar futebol, sob a desculpa de que não eram pessoas conhecidas na cidade. Descontentes com a negativa, eles resolveram criar um novo clube na capital gaúcha, nascendo assim o S.C. Internacional.

No próximo dia 18 o clássico completará 100 anos. Uma curiosidade, o clássico tem numeração específica. O primeiro Grenal foi disputado no velho Estádio da Baixada, do Grêmio Portoalegrense, no bairro Moinhos de Vento, na tarde de 18 de julho de 1909. Os tricolores, que já praticavam o futebol desde 1903, não tiveram dificuldade em aplicar 10 X 0 no adversário de apenas três meses de vida. O Grêmio contava com dois jogadores estrangeiros, entre eles Edgar Booth, o qual foi o autor do primeiro gol do clássico. Edgar Booth ainda marcou mais quatro gols, totalizando cinco. O restante dos gols do Grêmio foram marcados por Grünewald, quatro, e Moreira, um.

O segundo jogo foi realizado no dia 17 de julho de 1910, ainda na Baixada. Esse jogo, que foi novamente vencido pelo Grêmio, desta vez por 5 X 0, marcou também a primeira briga no clássico. O jogador gremista Booth, apanhou a bola no meio do campo, driblou toda a defesa colorada e acabou barrado pelo zagueiro Wolksmann, que lhe aplicou violento pontapé. Fechou o tempo, e os 22 jogadores protagonizaram uma verdadeira batalha campal.

O terceiro confronto ocorreu no dia 18 de junho de 1911, no campo da Escola de Guerra e o Grêmio fez 10 X 1. O ponta esquerda Vinholes marcou o primeiro gol do Internacional no clássico. O Internacional ainda perdeu mais quatro clássicos – 6 X 0 (23-06-1912); 2 X 1 (05-09-1912); 2 X 1 (08-06-1913) e 4 X 1 (31-10-1915), até vencer pela primeira vez.

Foi em 31 de outubro de 1915, vitória por 4 x 1, com gols de Müller, Bendionda (2) e Túlio. Sisson marcou para o Grêmio.

Em 1918 foi fundada a Federação Riograndense de Desportos (FRGD), que reuniu os dirigentes da dupla Grenal para acertar a realização de um campeonato estadual. Não foi possível naquele ano, devido a gripe espanhola, que só na Europa matou mais pessoas que a I Guerra Mundial.

No dia 14 de agosto daquele ano, pelo campeonato da cidade, os dois times se enfrentaram pela 11ª vez. O Grêmio vinha ferido por quatro derrotas consecutivas. Não vencia desde 1913. O jogo foi tenso e violento, como sempre. A discussão para cobrança de um lateral foi motivo para mais uma briga. Naquele tempo não existia fosso separando o campo da torcida. A Polícia não conseguiu impedir a invasão do gramado por torcedores gremistas, que foram brigar com os jogadores do Internacional. Foi um festival de socos, pontapés e bengaladas. O saldo do combate deixou 100 feridos e um preso.

O tumulto tomou proporções dramáticas quando o funcionário da Empresa Telefônica Rio-Grandense, Manoel Costa, sacou de uma faca e ameaçou ferir quem se aproximasse dele. O jogador Ribas, do Internacional tentou contê-lo e se deu mal. Teve enfiada na barriga a lâmina de 15 centímetros. Um jovem torcedor do Inter também foi ferido ao tentar desarmar o enfurecido agressor.

Manoel foi preso e a Brigada Militar teve muito trabalho para evitar que ele fosse linchado. O jogador Ribas foi operado na Casa de Saúde e nunca mais jogou futebol. O clássico, cujo placar era de 1 X 0 a favor do Grêmio não terminou.

Justificando o termo “gangorra”, os anos seguintes foram de amplo domínio do Grêmio que montou uma equipe muito forte, onde se destacavam o lendário goleiro Eurico Lara, o centroavante Luiz carvalho, chamado de o “Rei da Virada”, o meia-esquerda Osvaldo Rolla, o “Foguinho”, que depois viria ser um vitorioso treinador, e também o back Py, o center-forward Lagarto e o half direito Assumpção.

Com esse time o Grêmio foi pentacampeão de Porto Alegre, de 1919 a 1923. Nesse período foram disputados 11 clássicos, o Grêmio venceu oito e o Inter apenas três. O tricolor conquistou o estadual pela primeira vez em 1921. De agosto de 1920 a setembro de 1923 Grêmio e Internacional estiveram de relações cortadas e não se enfrentaram durante três anos. Foi um período duro, em 1923 e 1924 não houve campeonato gaúcho devido a revolta tenentista contra o Governo Federal.

O Internacional precisava reagir. Não só contra o Grêmio, mas também contra os fortes clubes do interior que dominavam amplamente o futebol no Estado. Nesses times jogava qualquer um, branco ou preto, rico ou pobre, não havia discriminação. O Guarany, de Bagé foi o primeiro clube de futebol no Brasil a admitir negros, antes mesmo do Vasco da Gama, erroneamente considerado o primeiro a desafiar o preconceito de cor no país.

E o Internacional foi se reforçar na Liga da Canela Preta, uma entidade que organizava campeonatos exclusivos de negros em Porto Alegre. E dai por diante os negros fizeram a diferença ateeé montar anos depois, o super time que ficou nacionalmente conhecido como “Rolo Compressor”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Programa do primeiro Gre-Nal, em 18 de julho de 1909. (Foto: Livro "A História dos Grenais")

COMENTÁRIOS DE LEITORES

ricardo disse...
Os jogadores da Canela Preta começaram a jogar no Inter, oficialmente a partir de 1928 e o rolo compressor é da década de 40. vai uma boa distância.
Saudações.
20 de novembro de 2009 18:04

OIBSERVAÇÃO DE NILO DIAS REPÓRTER...
Realmente o texto havia ficado de dificil interpretação. Obrigado pela ajuda. Já arrumei.
8 de dezembro de 2009 17:03

sábado, 11 de julho de 2009

100 anos de teimosia


11 DE JULHO DE 1909
11 DE JULHO DE 2009


PARABÉNS AO GLORIOSO F.B.C. RIO-GRANDENSE, DA CIDADE GAÚCHA DE RIO GRANDE, BERÇO DO FUTEBOL BRASILEIRO, PELOS 100 ANOS DE EXISTÊNCIA!!!

COMENTÁRIOS DE LEITORES

Horácio Gomes disse...
Nilo: Parabéns pelo resgate da memória do "Guri Teimoso". Recentemente, na FEARG/FECIS, havia um stand do Rio-Grandense, onde o presidente do clube vendia camisetas coloradas. Eu disse ao Marandini em tom de brincadeira:"Tu és o melhor vendedor que existe. Consegues vender camisas de um time que não existe" E não é que havia fila para comprá-las. A torcida do Rio-Grandense, como diz o Paulo Corrêa, é maior do que a Kombi tão falada. Horácio Gomes
14 de julho de 2009 19:16

sexta-feira, 10 de julho de 2009

“Eu, “Guri Teimoso”

Autor: Paulo Acosta

Ali, na Buarque de Macedo, onde hoje se amontoam apartamentos, era o Torquato Pontes, um estadinho cercado de uma mureta cheia de buracos em círculos redondões, e uma tela em volta dele. Do lado de cá, um pavilhão de madeira. Do lado de lá, arquibancadas de madeira. No terreno da esquerda, o vizinho vovô, Sport Clube Rio Grande. No terreno da esquerda, como diziam os locutores, "os próprios da municipalidade". Ali, pela mão de meu pai, eu comecei a viver o futebol.

É claro que só fui dar o verdadeiro valor ao Rio-Grandense muito tempo depois. Torcer pelo Grêmio ou pelo Internacional é querer ganhar, ser obrigado a ganhar. E não importa se o adversário é o Fortes e Livres, de Muçum, o Hamburgo ou o Ajax.

Torcer pelo Rio-Grandense - e aquele que torce por um time do Interior sabe disso - é comemorar cada gol como se fosse uma vitória e cada vitória como se fosse um título. Quando os grandes nos enfrentam, dizem que fazemos "Copa do Mundo" contra eles. Para o Rio-Grandense, todo jogo era Copa do Mundo.

Não vi - é claro - o Rio-Grandense ser campeão em 1939, depois de ser vice em 37 e 38. Imagino que timaço, hein! Mas estive ao lado do “Guri Teimoso” (olha que apelido mais perfeito!) nas suas maiores façanhas da minha época. Aquele empate em 2 X 2 com o Grêmio de Irno – Altemir – Airton - Áureo e Ortunho - Cléo e Sérgio Lopes – Lumumba - Alcindo e Vieira, nos anos 60, em nosso estádio! Aquela goleada de 4 X 2 num amistoso contra o Internacional no Torquato Pontes.

O locutor (Paulo Corrêa) que dava o nome todo e fazia a gente decorar (quase todos): Milton Ernesto Schultz, Ari Lanau, Jair Cutiara, Oscar Conceição, Luis Carlos Scala Loureiro, Adair Padilha, Titico, Marcos Boroni, Sanches, Vilmar, Paulo Renato, Uga, Antônio Azambuja Nunes, o Nico, Ocimar... o Bangu

Que camiseta! Que garra! Lembro jornadas heróicas como a daquele ano em que subimos à Primeira Divisão, no tempo dos Gauchões de 12 clubes do Aneron. Perdemos de diferença de dois em Livramento e tínhamos que fazer dois de diferença em Rio Grande. Fizemos. Na prorrogação, tomamos um gol. No finalzinho, empatamos. Pênaltis. Nico! Era só um que batia, e Nico fazia todos. Classificados. Na saída, quase que meu pai teve um troço. Mas o coração dele era de “Guri Teimoso”. Meu pai, Maurílio.

Final com o Gaúcho de Passo Fundo. 3 X 1 pra eles em Passo Fundo. Primeiro tempo em Rio Grande, 3 X 1 pra eles de novo... Meu pai: Vamos embora? Eu sabia que ele não queria ir, e convidava pra ficar... Segundo tempo, 3 X 2, 3 X 3, 4 X 3 e, no finalzinho, 5 X 3. Diferença de dois. Prorrogação, 0 X 0. Pênaltis. Primeira série de 5. Nico fez cinco. Gitinha chutou e também fez 5. Segunda série de 3, Nico fez três, Gitinha errou um. Rio Grandense campeão da segunda, classificado pra primeira. Foi o maior título que eu vi meu time do coração conquistar.

Anos depois saí da cidade, e o Rio-Grandense se transformou em meia-linha das colunas "Placar" dos jornais da capital. O clube caiu pra segunda, e até pra terceira. Clubes que antes eu só conhecia pelos plantões de final de jornada das rádios (Botafogo de Fagundes Varela, Fortes e Livres de Muçum, Mundo Novo de Três Coroas, etc... passaram a ser nossos adversários. Dia desses, vi no jornal que o Rio-Grandense ia jogar contra o Canoas (cidade que nem time profissional tinha naqueles tempos).

Fui lá matar a saudade. Paguei 5 pilas pra mim e mais 5 pro meu piá. Ia mostrar pra ele "o meu time". Peguei das minhas lembranças uma daquelas camisetas antigas, um vermelho de doer os olhos com gola, os números e o distintivo em amarelo. Quando o meu time entrou em campo, eu não o reconheci. Vestia uma daquelas camisetas fabricadas em série, em tons e desenhos degradé. Ainda nas cores vermelho e amarelo. Mas procurei no peito o distintivo, o famoso FBCRG com letras arredondadas. Nada! Nem distintivo tinha.

O pior, que eu fiz que não vi, mas meu Guri fez questão de me mostrar: "Pô, pai, o goleiro tá com a camisa de goleiro do Juventude, com Parmalat e tudo..." Tomamos 3 X 1 daquele time ruim do Canoas, num campinho muito abaixo do antigo Torquato Pontes. Mas isso não tinha a menor importância.

Eu só tive saudade do distintivo do Rio-Grandense na camiseta. Espero vê-lo da próxima vez que o FBCRG entrar em campo diante dos meus olhos. Quem sabe no Colosso do Trevo, o nosso novo estádio, que eu não conheço.

O jornalista Paulo Roberto Acosta Dias faleceu no dia 17 de agosto de 2005, depois de lutar um ano contra uma anomalia no sangue que o obrigou a um auto-transplante. Estava otimista e mandou recado aos amigos, depois da última operação, que ficaria alguns dias sem atualizar seu site (www.osaiti.com.br).

Acosta nasceu em Rio Grande, trabalhou na imprensa gaúcha (Rádio Continental dos bons tempos, Rádio Farroupilha, Caldas Júnior, RBS) desde os anos 70. Estava no Correio do Povo. Tinha um excelente humor, um grande texto, conduta exemplar. Figura humana admirável, o jornalista chefiou gente preparada e orientou “focas” (novatos), trabalhando com dedicação, alegria e paciência.

O seu “saite” (devido ao seu indizível www.osaite.com.br) fazia piadas até com as derrotas acachapantes do Grêmio, clube que amava de corpo e alma. Sua outra paixão era o F.B.C. Rio-Grandense, de Rio Grande, sua terra natal. (Postagem: Nilo Dias)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Nico, o "bombardeador"

Antônio Azambuja Nunes, o Nico foi o símbolo maior do F.B.C. Rio-Grandense nos tempos modernos. Ninguém mais do que ele fez tanto dentro de campo envergando a gloriosa camisa vermelha e amarela. Sua carreira como futebolista foi vitoriosa em todos os aspectos, por isso é lembrado até hoje com carinho e saudade pelos torcedores mais velhos, que tiveram a primazia de vê-lo estufando as redes adversárias.

Nico nasceu no dia 23 de agosto de 1941, em Rio Grande. Desde pequeno mostrou grande habilidade para a prática do futebol. Embora seu pai fosse torcedor ferrenho do Rio-Grandense, Nico começou a carreira nos juvenis do S.C. Rio Grande, em 1957. Depois foi guindado aos aspirantes e em 1960 já era profissional e titular do time. Ficou no tricolor até 1963.

Mas foi no Rio-Grandense que Nico ganhou fama e teve oportunidade de jogar um grande futebol. Em 1964, depois de ter-se recuperado de uma lesão no joelho, que praticamente o afastou dos gramados em 1963, assinou contrato com o clube colorado. A partir daí Nico e o Rio-Grandense compartilharam conquistas inesquecíveis. Em 1965 o time ganhou tudo, campeão da cidade, região e Ascenso, alcançando memorável classificação para a “Divisão de Honra” do futebol gaúcho.

Nico lembra que na fase de classificação o Rio-Grandense enfrentou o C.A. Bancário, de Pelotas, S.C. São Paulo, de Rio Grande e G.E. Bagé, com quem empatou na primeira posição. Foram necessários dois jogos extras. O Rio-Grandense ganhou os dois, 1 X 0 em Bagé e 3 X 0 em Rio Grande.

Veio a fase do “mata-mata”, e aí o artilheiro mostrou todas as qualidades de um grande jogador: técnica e frieza. Um a um os adversários foram batidos. Cruzeiro, de São Gabriel, 14 de Julho, de Livramento e Gaúcho, de Passo Fundo, todos em decisões por penalidades máximas. Nico não errou nenhuma cobrança, garantindo o título para o Rio-Grandense.

Em 1967 Nico foi o principal artilheiro do Campeonato Gaúcho, competindo com jogadores como Claudiomiro, Ênio Souza, Sapiranga e outros. Marcou 17 gols. Nos anos anteriores o prêmio ao goleador sempre foi um carro, mas na última hora os patrocinadores mudaram as regras e deram a Nico apenas um relógio, que ele guarda até hoje como recordação. Antes de Nico o Rio-Grandense teve dois jogadores que também foram artilheiros do campeonato Gaúcho: Carruíra, em 1937 e Chinês em 1939, ano em que o clube foi campeão do Estado.

Em 1973 o Rio-Grandense ganhou a Copa Cícero Soares. O jogo final, contra o Pratense, de Nova Prata foi no Beira Rio, na preliminar de Internacional X Cruzeiro de Minas Gerais, pelo Campeonato Brasileiro. Nico conta que o Rio-Grandense, com uniforme vermelho conquistou a torcida, que ajudou a levar o time a vitória e mais uma vez a Divisão Especial do campeonato do Rio Grande do Sul.

Em 1979, aos 38 anos de idade, Nico deixou o futebol profissional levando consigo uma invejável bagagem de conquistas. Pena que os pesquisadores esportivos e a grande imprensa gaúcha e brasileira não queira mexer no pó da história, que com certeza vão ter uma grande surpresa: contando os juvenis, aspirantes e profissionais, Nico marcou entre 800 a 1000 gols e faz jus a figurar entre os maiores artilheiros de todos os tempos. E entre isso, um feito espetacular, nunca errou uma penalidade máxima e acredita que bateu mais de 200 em 22 anos de carreira.

Se levarmos em conta que ele jogou apenas em clubes do interior – além de Rio Grande e Rio-Grandense esteve dois meses no Atlântico de Erexim e um no Pelotas – é com certeza, proporcionalmente, o segundo maior artilheiro da história do futebol mundial, ficando atrás apenas de outro esquecido, Arthur Friendereich, que marcou mais de 1.300 gols em uma época que não se jogava tantas partidas no ano, como agora.

Nico jogou num tempo em que dificilmente se fazia fortuna no futebol, ainda mais em times do interior. Por isso, paralelamente trabalhava no Centro das Indústrias de Rio Grande, onde se aposentou em 1996.

Como o futebol está em seu sangue, Nico saiu dos gramados mas continuou fiel ao Rio-Grandense, onde exerceu os mais variados cargos de Diretoria. E os 67 anos de idade não o impedem de jogar gostosas peladas com amigos e defender o Milonários, antigo tradicional time salonista da cidade. Nas suas lembranças cita Paulo de Souza Lobo, o “Galego”, Wilson Sanchez e Ney Amado Costa, como os melhores treinadores que conheceu. Dos companheiros de equipe recorda de Titico, Bangu, Miltom e Oscar Conceição, que depois presidiu o clube, entre tantos outros de igual qualidade.

O apelido de “Bombardeador”, ele ganhou de Paulo Corrêa, o maior narrador de futebol que a Zona Sul do Estado conheceu, e que hoje ainda figura no rádio riograndino como comentarista esportivo. Foi também Paulo Corrêa que apelidou o Rio-Grandense de “Guri Teimoso”, alusão aos seus feitos heróicos, onde superava dificuldades, não desistindo nunca e pregando peças aos adversários.

Em 2007, Nico viveu um de seus grandes momentos fora dos gramados: foi o homenageado especial do evento “Amigos do Esporte”, organizado pelo desportista Alexandre Leite, do jornal “Agora”, que o consagrou como “o maior artilheiro de todos os tempos”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Nico, o grande nome da era moderna do clube. (Foto: Acervo do F.B.C. Rio-Grandense)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

F.B.C. Rio-Grandense, um celeiro de craques

Nessa história centenária foram muitos os jogadores que se destacaram envergando a camisa vermelha e amarela. Dentre eles, um ganhou a simpatia da torcida pela garra que sempre demonstrou dentro de campo, o saudoso Titico. Menino de rua, criado perambulando pela frente dos antigos “Café A Dalila”, de tantas histórias, “Nacional” e “Café Santos”, onde se reuniam os desportistas da cidade, entre os quais o conceituado médico da época, doutor Tola.

Dono de um bom coração, ele resolveu ajudar o Titico. Mesmo observando que o rapaz tinha as pernas tortas, em forma de arco de barril, ainda assim o levou para treinar no Rio-Grandense, time do seu coração. E não deu outra, destacou-se nos treinos e nos jogos demonstrando um raro espírito de luta. Suas atuações chamaram a atenção do jornalista riograndino Ivo Corrêa Pires, que o levou para o Internacional, de Porto Alegre.

No colorado da capital mostrou a mesma dedicação, embora não tivesse ganho a condição de titular absoluto do time. A torcida de lá também gostou dele. Era visto quase que como o “Saci”, símbolo do clube. Era um dos jogadores mais procurados pelos repórteres. Em uma dessas entrevistas, num período em que o time não passava por uma boa fase, para não se comprometer, proferiu a frase que lhe valeu a notoriedade perpétua: “Em baile de cobra não entro sem perneira”. Ibsen Pinheiro, outro jornalista riograndino, colorado frasista emérito disse que essa foi a mais completa e definitiva verbalização da prudência.

Sydney Colônia Cunha, o Chinesinho nasceu em Rio Grande em 15 de setembro de 1935. O apelido Chinesinho veio do pai, Chinês, que também se destacara como emérito futebolista. Foi um dos grandes jogadores revelados pelo F.B.C. Rio-Grandense. Meia-esquerda habilidoso, dono de técnica invejável transformou-se em pouco tempo no terror das defesas adversárias.

Não demorou para que sua fama chegasse a Capital do Estado. O Internacional adquiriu seu passe numa das maiores transações realizadas, na época, entre um clube de Porto Alegre e um do interior.

Do Internacional foi para o Palmeiras onde jogou por quatro anos (de 1958 a 1962). Chinesinho comandou o meio-campo e, por abrangência, todo o time. Tanto que foi o grande condutor da equipe na conquista do supercampeonato de 1959, batendo o Santos, de Pelé e Cia., na emocionante terceira partida final. Vendido ao pequeno Lanerossi italiano, deu lugar a ninguém menos do que Ademir da Guia.

Luiz Carlos Scala Loureiro era filho de Fernando Azambuja Loureiro, ex-jogador do S.C. São Paulo, de Rio Grande e de dona Maria do Carmo. Ele começou a carreira no time “Garotos do Parque”, passando pelo Floriano, time amador da cidade e pelos juvenis do F.B.C.Rio-Grandense.

Em 1964 o doutor Hélio Pontes, então presidente do F.B.C. Rio-Grandense, o levou para o Santos F.C., em São Paulo, onde ficou em período de testes por 10 dias. Como quase não teve oportunidade para mostrar seu futebol voltou a Rio Grande. Depois jogou pelo S.C. Rio Grande, quando se machucou e foi para Porto Alegre fazer tratamento.

Scala jogou apenas em quatro clubes e pela Seleção Brasileira, começando no F.C.B. Rio-Grandense, onde atuou de 1960 a 1964, transferindo-se para o S.C. Internacional, de Porto Alegre ainda em 1964, onde permaneceu até 1971, ano em que se sagrou campeão gaúcho pelo colorado.

Seus desempenhos pelo clube de Porto Alegre lhe valeram a pré-convocação para a Copa de 1970, porém uma fratura em um dos tornozelos impediu o sonho de disputar o Mundial do México, brilhantemente conquistado pelo Brasil. Envergando a camisa amarela, atuou em dois amistosos (1968/69): Brasil 3 x 3 Iugoslávia e Brasil 1 x 0 Milionários da Colômbia.

De 1972 a 1973 esteve no Botafogo F.R., do Rio de Janeiro, que por ter sido vice-campeão brasileiro um ano antes, disputou a Copa Libertadores da América de 1973.

Em 1974 foi para o América F.C., de Natal, onde encerrou a carreira, fixando residência naquela cidade. Nesse ano ajudou o América na conquista do título estadual, se despedindo dos gramados ao término do campeonato. Mas com negócios no ramo de imóveis, Scala permaneceu em Natal, e por 20 anos administrou a imobiliária Costa Azul.

O ex-atleta também ingressou na carreira de treinador, comandando as equipes de ABC, América e Alecrim. Por último, tornou-se comentarista esportivo, trabalhando em várias emissoras de rádio em Natal. Scala foi “Craque do Ano” em Rio Grande, nos anos de 1962 e 1963, e em 1964 foi o “Craque do Ano”, escolhido pelo jornal Zero Hora.

Chinesinho com a camisa do F.B.C. Rio-Grandense, em 1953. (Foto: Acervo do F.B.C. Rio-Grandense)

terça-feira, 7 de julho de 2009

F.B.C. Rio-Grandense, um "guri" de 100 anos (final)

Em 1960, o Campeonato Gaúcho foi disputado pela última vez no sistema de regiões. Nas finais estavam Grêmio, Pelotas, 14 de Julho de Livramento e Nacional, de Cruz Alta. O Grêmio foi campeão invicto, com 5 vitórias e um empate contra o Pelotas. O título foi confirmado com uma goleada de 7 X 0 sobre o Pelotas.

A Federação Rio-Grandense de Futebol resolveu modificar o formato de disputa do Campeonato Gaúcho, a partir de 1961, criando as divisões, com acesso e descenso. O primeiro campeonato teve 12 clubes: Grêmio, Internacional, Cruzeiro, São José, Pelotas, Farroupilha, Rio-Grandense de Rio Grande, Guarany de Bagé, Juventude, Flamengo (atual Caxias), Floriano (atual Novo Hamburgo) e Aimoré de São Leopoldo.

Em 1975 verificou-se um fato que alcançou grande repercussão em todo o Estado. Enquanto os três clubes de Rio Grande se classificaram para a fase final do campeonato gaúcho, os três clubes de Pelotas ficaram de fora. A gozação em razão da rivalidade entre as duas cidades foi enorme. Na ponte sobre o rio São Gonçalo, torcedores colocaram uma placa com os dizeres: “Futebol nesta região, só em Rio Grande. Ande mais 60 quilômetros”.

Um levantamento feito durante o campeonato da cidade de 1999, Copa Festa do Mar (2001), Regional (2002), mostrou que a maior torcida de Rio Grande, mesmo com os problemas que o clube vem enfrentando nos últimos anos, é do F.B.C. Rio-Grandense.

Os principais títulos conquistados pelo F.B.C. Rio-Grandense nestes 100 anos de trajetória no futebol gaúcho e brasileiro: Campeão da Cidade (1921, 1937, 1938, 1939, 1940, 1946, 1947, 1948, 1950, 1953 (invicto), 1955, 1957, 1960, 1974, 1975, 1976 e 1978; Campeão Gaúcho (1939); Vice-Campeão Estadual (1937, 1938 e 1946); Campeão do Torneio Extra (1953); Campeão Gaúcho da 2ª Divisão (1965); Vice-Campeão Gaúcho da 2ª Divisão (1963 e 1984); Vice-Campeão da Chave IV – 2ª Divisão do RGS (1971); Campeão da Chave VII – 2ª Divisão do RGS (1972); Campeão da Chave I – 2ª Divisão do RGS (1973) e campeão da Chave II – 2ª Divisão do RGS (1976).

O “colorado marítimo” participou do Campeonato Gaúcho em 1919/1937/1938/1939/1946/1948/1957/1961/1966/1967/1975 e 1985. O clube não disputa o principal campeonato do Rio Grande do Sul há 24 anos. As seguidas crises que o clube tem enfrentado nos últimos anos obrigaram os dirigentes a solicitar licenciamento das competições oficiais da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) em 1990, 1998, 2001, 2003, 2005, 2006, 2007 (jogou apenas amistosos), 2008 e 2009.

Este ano, para comemorar o seu centenário, o Rio-Grandense participou do campeonato da cidade, realizado em sua homenagem. Presidido pelo desportista Adilson Marandini, e passando por um período de ampla recuperação em todos os setores, o clube planeja seu retorno em breve para as disputas oficiais da Federação Gaúcha de Futebol.

Nessa história centenária foram muitos os jogadores “prata da casa” que se destacaram envergando a camisa vermelha e amarela e foram fazer brilhantes carreiras em outros clubes. Dentre eles: Oscar, Carruira e Chinês, o ataque infernal dos anos 30; Titico, lateral que jogou no Internacional, de Porto Alegre; Chinesinho, que atuou no Internacional, Palmeiras, Lanerossi, da Itália e Seleção Brasileira; Luiz Carlos Scala, que jogou no Internacional, Botafogo, do Rio de Janeiro, América de Natal e Seleção Brasileira; o goleiro Brandão, que emprestado ao Botafogo, do Rio de Janeiro, participou de uma excursão ao México; Osny Ballester, zagueiro que foi para o América, do Rio de Janeiro nos anos 40, quando este era time grande.

Osny foi considerado o segundo melhor na posição em todo o país, sendo superado apenas por Domingos da Guia; o atacante Severo, que jogou no Corinthians e Seleção Brasileira; O meio-campo Jadir, que brilhou no Grêmio Portoalegrense; o atacante Arlém, que foi para o Internacional; o goleiro Alberto, que jogou no Grêmio e América, do Rio de Janeiro e o artilheiro Nico, o grande destaque da era moderna do clube.

Entre os treinadores que passaram pelo Rio-Grandense estão nomes consagrados como Gentil Cardoso, Ayres Torres, que dirigiu o time na conquista do campeonato estadual de 1930, Paulo de Souza Lobo, o “Galego”, Ney Amado Costa, Waldir Fonseca, Casemiro, ex-lateral do Internacional e Bento Peixoto Castelã. (Resumo do livro “Guri Teimoso” – uma paixão centenária” (nome provisório), que está sendo escrito pelo jornalista e torcedor do F.B.C. Rio-Grandense, Nilo Dias)

Polaco Chico foi um dos grandes jogadores da história do Rio-Grandense. (Foto: Acervo do F.B.C. Rio-Grandense)

F.B.C. Rio-Grandense, um "guri" de 100 anos (7)

Em 1960, o Campeonato Gaúcho foi disputado pela última vez no sistema de regiões. Nas finais estavam Grêmio, Pelotas, 14 de Julho de Livramento e Nacional, de Cruz Alta. O Grêmio foi campeão invicto, com 5 vitórias e um empate contra o Pelotas. O título foi confirmado com uma goleada de 7 X 0 sobre o Pelotas.

A Federação Rio-Grandense de Futebol resolveu modificar o formato de disputa do Campeonato Gaúcho, a partir de 1961, criando as divisões, com acesso e descenso. O primeiro campeonato teve 12 clubes: Grêmio, Internacional, Cruzeiro, São José, Pelotas, Farroupilha, Rio-Grandense de Rio Grande, Guarany de Bagé, Juventude, Flamengo (atual Caxias), Floriano (atual Novo Hamburgo) e Aimoré de São Leopoldo.

Em 1975 verificou-se um fato que alcançou grande repercussão em todo o Estado. Enquanto os três clubes de Rio Grande se classificaram para a fase final do campeonato gaúcho, os três clubes de Pelotas ficaram de fora. A gozação em razão da rivalidade entre as duas cidades foi enorme. Na ponte sobre o rio São Gonçalo, torcedores colocaram uma placa com os dizeres: “Futebol nesta região, só em Rio Grande. Ande mais 60 quilômetros”.

Um levantamento feito durante o campeonato da cidade de 1999, Copa Festa do Mar (2001), Regional (2002), mostrou que a maior torcida de Rio Grande, mesmo com os problemas que o clube vem enfrentando nos últimos anos, é do F.B.C. Rio-Grandense.

Os principais títulos conquistados pelo F.B.C. Rio-Grandense nestes 100 anos de trajetória no futebol gaúcho e brasileiro: Campeão da Cidade (1921, 1937, 1938, 1939, 1940, 1946, 1947, 1948, 1950, 1953 (invicto), 1955, 1957, 1960, 1974, 1975, 1976 e 1978; Campeão Gaúcho (1939); Vice-Campeão Estadual (1937, 1938 e 1946); Campeão do Torneio Extra (1953); Campeão Gaúcho da 2ª Divisão (1965); Vice-Campeão Gaúcho da 2ª Divisão (1963 e 1984); Vice-Campeão da Chave IV – 2ª Divisão do RGS (1971); Campeão da Chave VII – 2ª Divisão do RGS (1972); Campeão da Chave I – 2ª Divisão do RGS (1973) e campeão da Chave II – 2ª Divisão do RGS (1976).

O “colorado marítimo” participou do Campeonato Gaúcho em 1919/1937/1938/1939/1946/1948/1957/1961/1966/1967/1975 e 1985. O clube não disputa o principal campeonato do Rio Grande do Sul há 24 anos. As seguidas crises que o clube tem enfrentado nos últimos anos obrigaram os dirigentes a solicitar licenciamento das competições oficiais da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) em 1990, 1998, 2001, 2003, 2005, 2006, 2007 (jogou apenas amistosos), 2008 e 2009.

Este ano, para comemorar o seu centenário, o Rio-Grandense participou do campeonato da cidade, realizado em sua homenagem. Presidido pelo desportista Adilson Marandini, e passando por um período de ampla recuperação em todos os setores, o clube planeja seu retorno em breve para as disputas oficiais da Federação Gaúcha de Futebol.

Nessa história centenária foram muitos os jogadores “prata da casa” que se destacaram envergando a camisa vermelha e amarela e foram fazer brilhantes carreiras em outros clubes. Dentre eles: Oscar, Carruira e Chinês, o ataque infernal dos anos 30; Titico, lateral que jogou no Internacional, de Porto Alegre; Chinesinho, que atuou no Internacional, Palmeiras, Lanerossi, da Itália e Seleção Brasileira; Luiz Carlos Scala, que jogou no Internacional, Botafogo, do Rio de Janeiro, América de Natal e Seleção Brasileira; o goleiro Brandão, que emprestado ao Botafogo, do Rio de Janeiro, participou de uma excursão ao México; Osny Ballester, zagueiro que foi para o América, do Rio de Janeiro nos anos 40, quando este era time grande.

Osny foi considerado o segundo melhor na posição em todo o país, sendo superado apenas por Domingos da Guia; o atacante Severo, que jogou no Corinthians e Seleção Brasileira; O meio-campo Jadir, que brilhou no Grêmio Portoalegrense; o atacante Arlém, que foi para o Internacional; o goleiro Alberto, que jogou no Grêmio e América, do Rio de Janeiro e o artilheiro Nico, o grande destaque da era moderna do clube.

Entre os treinadores que passaram pelo Rio-Grandense estão nomes consagrados como Gentil Cardoso, Ayres Torres, que dirigiu o time na conquista do campeonato estadual de 1930, Paulo de Souza Lobo, o “Galego”, Ney Amado Costa, Waldir Fonseca, Casemiro, ex-lateral do Internacional e Bento Peixoto Castelã. (Resumo do livro “Guri Teimoso” – uma paixão centenária” (nome provisório), que está sendo escrito pelo jornalista e torcedor do F.B.C. Rio-Grandense, Nilo Dias)

a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhxw7Fv1dmCSxHdFwHK_kJBfK1e0dD_RiYI03Otn1egWwYNzmZJXa6JbAsmLKuBNa3H1NWFujNIQ0oK11h2lLTodBBBluNZsmh6FmjWK6Ou0ZJ50T4NFAF1hCLJUK76of8-ELzNsa65MPQ/s1600-h/polaco+chico.jpg">Polaco Chico foi um dos grandes jogadores do Rio-Grandense. (Foto: Acervo do F.B.C. Rio-Grandense)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

F.B.C. Rio-Grandense, um "guri" de 100 anos (6)

Em 1941 aconteceu um dos fatos mais inusitados da história do futebol de Rio Grande. As relações entre os clubes locais estavam um tanto estremecidas há cerca de dois anos. Para apaziguar a situação, a Liga organizou um torneio com as participações de Rio-Grandense, São Paulo e Rio Grande denominado “Taça da Confraternização”.

Após os primeiros jogos, Rio Grande e São Paulo chegaram à final. Depois de uma disputa acirrada, com sucessivos empates, chegou-se a conclusão que era impossível declarar um vencedor. Como nenhum dos dois times abria mão do troféu, a solução encontrada foi declarar as duas equipes campeãs. Assim, com o objetivo de serenar os ânimos e acalmar as torcidas e os dirigentes, a taça foi dividida ao meio e cada um dos times recebeu a metade. Ao final da competição foram restabelecidas as relações esportivas entre os degladiantes.

Nesse ano o Botafogo carioca excursionou ao México e junto foi o goleiro Brandão, campeão gaúcho pelo Rio-Grandense. Logo em seguida, o zagueiro Osny Ballester foi para o América do Rio, levado por Gentil Cardoso, numa época em que o “diabo rubro” dividia as preferências da elite carioca com o Fluminense. Osny chegou a ser considerado o segundo melhor zagueiro do país, só não sendo o primeiro porque havia Domingos da Guia.

Osny tornou-se um dos xodós da sociedade carioca, especialmente da ala feminina. Transitava no “grand-monde” da então capital do país com a mesma elegância e desenvoltura com que dominava os gramados, formando a famosa zaga Osny-Gritta, este um do primeiros argentinos a jogar em time brasileiro.

Naquele ano o time base do Rio-Grandense era: Nobre – Osny Ballester e Rui – Hermes - Holmes e Martins – Oscar – Carruíra – Heitor - Chinês e Cleto.

Em 1943 o Rio-Grandense formava com: Fernando - Cleto e Nazir – Canário - Mariano e Cacato – Sorro – Oscar – Manoelzinho - Edemir e Mascarenhas.

Em 1946 o Rio-Grandense voltou a brilhar no cenário esportivo gaúcho, quando foi vice-campeão. A campanha teve início no dia 29 de setembro, quando pela fase regional eliminou o Brasil de Pelotas, com vitória de 1 X 0 e empate em 3 X 3.

Depois, em 15 de outubro o Rio-Grandense ganhou do Novo Hamburgo por 3 X 1. Em 19 do mesmo mês empatou em 1 X 1 com o Grêmio Santanense, no tempo normal e venceu por 1 X 0 na prorrogação , conquistando o titulo de campeão do interior e ganhando o direito de enfrentar o Grêmio F.B. Portoalegrense, na grande final. Em razão do Campeonato Brasileiro de Seleções, a decisão ficou para o início de 1947.

No dia 23 de março de 1947 no primeiro jogo da final, em Rio Grande, o Grêmio venceu por 3 X 2. No segundo jogo, dia 30 de março no Estádio da Timbaúva, em Porto Alegre, nova vitória tricolor, desta vez por 6 X 1. O Grêmio foi campeão com: Júlio - Clarel e Joni – Nidesberg - Touginha e Sanguinetti – Cordeiro – Beresi – Santana - Segura e Hélio. O F.B.C. Rio-Grandense foi vice-campeão gaúcho com: Nico (Paulinho) - Galego (Quida) e Rui - Vicente - Junção e Quida (Canhoto) - Patinho (Melado) - Heitor (Patinho)- Severo - Cleto e Galego (Moacir).

Os jogadores Galego e Severo, destaques do F.B.C. Rio-Grandense chamaram a atenção de clubes do centro país. Galego foi contratado pelo Botafogo, do Rio de Janeiro e depois ainda jogou em São Paulo, encerrando a carreira na A.A. Ponte Preta, de Campinas. Severo foi levado pelo ex-técnico do F.B.C. Rio-Grandense, Gentil Cardoso, para o Corinthians Paulista. Chegou a ser convocado para alguns jogos da Seleção Brasileira.

Severo Carúcio de Oliveira, ou simplesmente Severo, nasceu em Pelotas. Foi bi-campeão de Rio Grande em 1946/1947 e vice-campeão estadual nesses dois anos, defendendo o F.B.C. Rio-Grandense.

No dia 1º de maio de 1950, data dedicada ao “trabalho”, o F.B.C. Rio-Grandense realizou um jogo amistoso no antigo Estádio Torquato Pontes, contra o C.R. Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, na época um time quase imbatível, base da seleção brasileira. Graças a uma atuação espetacular, o time local conseguiu arrancar um honroso empate em 3 X 3. O Rio-Grandense jogou com Nico - Francisco e Rui Santos - Ramão - Ávila e Ferro - Cerrone - Chiquinho - Ivo - Cleto e Quida (Polaco).

E bem perto dali, na avenida Rheingantz realizavam-se as comemorações do Dia do Trabalho, que foram marcadas por graves acontecimentos envolvendo operários, líderes sindicais, políticos e polícia, gerando um grande conflito, que culminou com mortos e feridos. Segundo a polícia, era intenção dos manifestantes se dirigirem até a sede da União Operária, fechada por ordem do Ministério da Justiça, e abrir à força a referida sociedade, num ato de violência contra as ordens das autoridades constituídas.

Nas proximidades do cemitério os manifestantes foram interceptados pelo delegado Ewaldo Miranda, da Ordem Política e Social, e pelo tenente Gonçalino Carvalho, da Brigada Militar, que fizeram ver aos promotores da passeata a necessidade de ser a mesma dissolvida, já que tais manifestações estavam proibidas.

Surgiu então o conflito, que resultou nos graves e dolorosos acontecimentos que tingiram de sangue e encheram de luto a data máxima dos trabalhadores riograndinos naquele ano. De revólver em punho, autoridades e manifestantes estabeleceram cerrado tiroteio, que culminou com a morte de quatro pessoas e ferimentos em seis outras. Os mortos foram o soldado Francisco Reis, o ferroviário Oswaldino Corrêa e os operários Euclides Pinto e Angelina Gonçalves. Entre os feridos, o vereador Antônio Rechia, que, embora operado na mesma noite na Beneficência Portuguesa, ficou paraplégico.

Na segunda-feira, dia 2, os dois jornais de circulação diária – “Rio Grande” e “Gazeta da Tarde” publicaram portaria do delegado de Polícia, Ibory Krause, proibindo "todas e quaisquer reuniões públicas, quer a céu aberto, quer sob teto".

Além do jogo contra o Rio-Grandense, o Vasco se apresentou em outras cidades gaúchas, com estes resultados: 16-04, em Porto Alegre, Renner 0 X 5 Vasco da Gama; 20-04, em Pelotas, Pelotas 2 X 2 Vasco da Gama; 23-04, em Rio Grande, São Paulo 1 X 4 Vasco da Gama; 30-04, em Rio Grande, Rio Grande 4 X 4 Vasco da Gama; 06-05, em Porto Alegre, Renner 2 X 3 Vasco da Gama e dia 07-05, em Novo Hamburgo, Floriano 1 X 1 Vasco da Gama. (Pesquisa: Nilo Dias)

Atletas do F.B.C. Rio-Grandense no refeitório do clube. (Foto: Acervo do F.B.C. Rio-Grandense)

domingo, 5 de julho de 2009

F.B.C. Rio-Grandense, um "guri" de 100 anos (5)

Em 1938, o Rio-Grandense esteve novamente na final do estadual, mas acabou repetindo o vice-campeonato, perdendo o título para o Guarany, de Bagé, que já havia sido campeão em 1920. Na fase Regional o Rio-Grandense eliminou o 9º RI (Pelotas), com vitórias de 2 X 1 e 1 X 0. Na fase final, participaram Riograndense F.C. (Santa Maria), campeão da Zona Serra; Guarany F.C. (Bagé), campeão da Zona Sul; S.C. Uruguaiana, campeão da Zona Fronteira; F.B.C. Rio-Grandense (Rio Grande), campeão da Zona litoral e G.S. Renner (Porto Alegre), campeão da Zona centro. A dupla Gre-Nal mais uma vez não disputou o torneio.

Em 22 de dezembro, o F.B.C. Rio-Grandense ganhou do G.S. Renner, campeão cebedense de Porto Alegre, por 2 X 1. As finais ficaram para o início de 1939.

Em 8 de janeiro 1939, em Bagé, empate em 1 X 1 com o Guarany. Cardeal marcou o gol colorado. No dia 15 de janeiro, em Rio Grande o Rio-Grandense derrotou o Guarany por 2 X 0, gols de Osca e Cardeal. Na Série Extra para decisão do título, em Pelotas (campo neutro), no dia 22 de janeiro o Guarany ganhou por 3 X 1. Dois dias depois, ainda em Pelotas, empate em 1 X 1. Chinês fez o gol dos riograndinos. Na prorrogação deu Guarany 1 X 0, gol do uruguaio Rubilar, aos 3 minutos.

Após o gol, a torcida e os diretores do Guarany invadiram o campo. O juiz terminou a partida e a Federação confirmou o resultado, tornando-se o clube bageense o único do Interior a conquistar, por duas vezes, o título de campeão estadual.

O F.B.C. Rio-Grandense, inconformado com a perda do título estadual encaminhou protesto a Federação, alegando a inclusão indevida do zagueiro Jorge Bastos, ex-jogador do Força e Luz, de Porto Alegre, no time do Guarany. O protesto foi entregue pelo técnico Gentil Cardoso, mas não tinha fundamento e acabou arquivado. Dias depois, Gentil Cardoso retornou ao Rio de janeiro, para dirigir o Bonsucesso.

Depois de sofrer dois anos, chegar na decisão e perder o título no quarto jogo das finais para o Santanense, em 1937, e Guarany, em 1938, finalmente o Rio-Grandense, em 1939, pode comemorar o título estadual.

Na fase Regional o F.B.C. Rio-Grandense goleou por 7 X 0 e 4 X 0, ao Rio Branco, de Santa Vitória do Palmar. Depois, eliminou o Pelotas. No primeiro jogo derrota por 2 X 1. No segundo encontro, vitória por 2 X 1 (gols de Heitor e Plá) e no terceiro empate em 1 x 1 (gol de Carruira).

O Pelotas teve um pênalti a seu favor, que Arruda bateu forte e o goleiro Brandão defendeu espetacularmente. A FGF marcou nova partida desempate para Bagé no Estádio Estrela D´Alva, campo do Guarany F.C.. O F.B.C. Rio-Grandense negou-se a jogar no Estádio, dirigindo-se para o campo do G.S. Ferroviário. Estava formada a confusão. A Federação marcou nova partida para 12 de novembro em Porto Alegre. O S.C. Pelotas acabou desistindo e o F.B.C. Rio-Grandense foi proclamado campeão da oitava região.

Na fase semifinal participaram os seguintes clubes: S.C. Gaúcho (Passo Fundo), campeão da Zona Serra; Grêmio Santanense, campeão da Zona Fronteira; F.B.C. Rio-Grandense (Rio Grande), campeão da Zona Sul e S.C. Novo Hamburgo (Novo Hamburgo), campeão da Zona Centro. A dupla Gre-Nal não disputou o torneio, uma vez que estava participando da Amgea Especializada. O Rio-Grandense ganhou a condição de finalista com a desistência do Novo Hamburgo, de continuar na competição.

A final foi contra o Grêmio Santanense que eliminou o Gaúcho de Passo Fundo. Foi a chance de vingar a derrota de dois anos antes, marcando também o fim de uma era, em que o interior do Estado sorriu com títulos e belas jornadas de seus times.

O primeiro jogo da decisão foi realizado no dia 14 de janeiro de 1940, em Santana do Livramento, com empate em 4 X 4. O Grêmio Santanense chegou a estar vencendo por 4 X 0, mas o Rio-Grandense em sensacional reação, conseguiu chegar ao empate.

O segundo jogo foi disputado no dia 21 de janeiro, em Rio Grande e o F.B.C. Rio-Grandense venceu por 3 X 1. E no dia 28 de janeiro, uma quarta-feira, no estádio do C.A. Bancário em Pelotas, houve empate em 0 X 0. O resultado deu ao clube riograndino o sonhado título de campeão gaúcho de 1939. Equipe campeã: Brandão – Armando e Cazuza - Martinez - Pacheco e Mariano - Osca - Carruíra – Heitor - Chinês e Plá. Técnico: Aires Torres.

Feliz da vida, Chinês comemorou com seu filho Sidnei (Chinesinho) no colo, sem imaginar que o garoto de quatro anos seguiria as pegadas do pai, levando sua arte a gramados distantes.

Em 1940, aconteceu um fato curioso na vida do clube. Classificado para as finais do campeonato estadual pelo quarto ano consecutivo o Rio-Grandense, não pôde viajar até Bagé para o jogo contra o G.E. Bagé. A grande maioria dos jogadores trabalhava e teria desconto em seus salários e até corria o risco de demissão. O Bagé acabou vencendo por WO e classificou-se para decidir o título contra o Internacional que se sagrou campeão estadual. (Pesquisa: Nilo Dias)

Equipe do F.B.C. Rio-Grandense, que conquistou o Campeonato Gaúcho de 1939. (Foto: Acervo do F.B.C. Rio-Grandense)