Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Igreja entra em campo (Final)

Em 2007 a igreja católica comprou o clube italiano Ancona, através de um grupo de empresários ligados à Conferência Episcopal Italiana (CEI). O clube vivia um momento de dificuldades financeiras e judiciais, além de estar envolvido no último grande escândalo do futebol no país, quando vários times foram condenados por participar de um esquema de manipulação de resultados. Em razão disso o clube passou por processos de rebaixamento até parar na 3ª divisão italiana.

O Ancona foi fundado em 1905. Os adversários não perderam tempo e já o chamam de "clube dos bispos". Os novos dirigentes estão investindo em obras para ajudar os pobres do terceiro mundo com os eventuais lucros. O atual presidente do clube, Sergio Schiavon, vendeu 80% da sociedade, mas permanece com os restantes 20% para preservar o espírito da iniciativa em que foi constituído o clube. Ele garante que tudo está começando com o Ancona, mas o grande sonho é um time nacional do Vaticano.

Os esportes sempre foram bem vistos pela Igreja Católica. Vale lembrar que Karol Wojtyla, antes de se tornar o Papa João Paulo II, foi goleiro do Cracóvia, na Polônia. A prática do futebol não é nova no Vaticano, pelo contrário, remonta há mais de 30 anos atrás, quando começaram a ser disputadas competições reunindo eclesiásticos e laicos, ou seja, padres e pessoas comuns. Uma curiosidade: os únicos cidadão do Vaticano são aqueles que pertencem à Gendarmeria (vigilância do Estado) e à Guarda Suíça.

O primeiro torneio foi disputado em 1973, com a participação de poucas equipes e foi vencido pelo time do “Astor Osservatore Romano”, antiga denominação do “L’Osservatore Romano”, o jornal oficial do Vaticano. No ano seguinte cresceu o interesse pela competição, que teve de mudar o formato para todos contra todos, em jogos de ida e volta. A partir de 1978 foi criada a Copa do Vaticano.

Hoje, o número de clubes participantes varia entre seis e nove, dependendo da disponibilidade de atletas nos diversos setores. Os setores que mantêm times disputando o campeonato do Vaticano com maior continuidade são: L’Osservatore Romano, Tipografia, Guarda Suíça, Museus do Vaticano, Serviços Técnicos, Serviços Econômicos, Gendarmeria, IOR (Banco do Vaticano), Biblioteca e Rádio Vaticano, que tem um brasileiro em suas linhas.

Até 1975, os funcionários da residência de verão do Papa, em Castelgandolfo (região de Roma), também participavam do campeonato. O último campeonato foi disputado no inverno europeu e foi vencido pelo time do “Museus do Vaticano”. Historicamente, os times L’Osservatore Romano, Gendarmeria e Guarda Suíça, estão sempre entre os mais fortes.

O campeonato do Vaticano é o único no mundo disputado no “exterior”. Situado em Roma, entre a Villa Doria Pamphilli e o Parco Adriano, o Vaticano não tem um estádio próprio. Ao longo dos anos, as disputas foram realizadas no Complexo Esportivo Pio 12, próximo à Piazza San Pietro, que se localiza a 8,4 quilômetros do Estádio Olímpico, onde Roma e Lázio mandam seus jogos pelo campeonato italiano.

Também já foram formadas seleções, que na história já enfrentaram adversários como San Marino, Eslovênia e Áustria. O pequeno número de cidadãos impede também que o Vaticano seja filiado à UEFA como membro participante e que obtenha vaga para quaisquer torneios internacionais. (Pesquisa: Nilo Dias)

Equipe do North American Martyr's, no campeonato de 2008. (Foto: Pontifical North American College)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A Igreja entra em campo (01)

O Vaticano, o menor país do mundo, com 0,44 km² e cerca de 1000 habitantes há três anos realiza a “Clericus Cup”, uma espécie de Copa do Mundo católica, criada por iniciativa do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano. A competição, que é organizada pelo Centro Esportivo Italiano, e patrocinada pelo Conselho Pontifício para os Leigos do Vaticano, e o Comité Olímpico Italiano (CONI), reúne equipes formadas por religiosos, seminaristas e estudantes de Teologia de todo o mundo que estudam em Roma, e leigos que trabalham nos escritórios de Oltretevere e do Vicariato de Roma.

A primeira edição do torneio foi realizada em maio de 2007, contando com 16 times e jogadores representantes de 37 países. Também estiveram em campo 11 "atletas" do Vaticano, vestindo a camisa branca e amarela - cores da bandeira do país. Os religiosos abriram mão da batina e vestiram meias e calções.

O "Redemptoris Mater" sagrou-se o primeiro campeão, ao derrotar na final a "Universidade Pontifícia de Latrão" por 1 X 0, gol de pênalti bastante discutido. O jogo foi disputado no campo sintético do Oratório de São Pedro, e contou com a presença de 300 torcedores.

Na primeira edição os jogos foram realizados aos sábados, para não atrapalhar a Liturgia Dominical. Foram marcados 256 gols em 58 partidas, e apesar da incrível média de quase 5 gols por partida, o "Redemptoris Mater" não levou nenhum gol.

A edição de 2008, contou com mais de 380 jogadores de um total de 71 países, entre os quais Burkina-Fasso, Japão, Ucrânia, Iraque, Papua, Nova Guiné, Mianmar, Ruanda, Vietnã, Croacia e Suazilândia. Entre os clubes participantes havia um composto só por brasileiros da Universidade Gregoriana, também os do Pontifício Seminário Croata, das Universidades de Laterano e Gregoriana, do Pontifício Seminário Francês, do Seminário Romano Maggiore, do Colégio Norte-americano e da ordem de Santo Agostinho.

A final foi disputada no Oratório de São Pedro, no dia 3 de maio entre o "Collegio Mater Ecclesiae" (de base sul-americana) e o "Redemptoris Mater". Com todos os gols marcados no segundo tempo, o "Mater Ecclesiae" venceu por 2 X 1 e conquistou o título. Ao todo foram disputados 63 jogos.

Nessa segunda edição, todos os artifícios usados para produzir barulho durante as partidas foram proibidos, devido à reclamação dos vizinhos, acostumados com a "Lei do Silêncio". Os jovens sacerdotes que torciam para as suas equipes foram avisados que seriam impedidos de entrar no campo se aparecessem com tambores, megafones, trompetes e maracás, cantando alto e por vezes em latim.

Os mais empolgados eram os mexicanos torcedores do "Colégio Maria Mater Ecclesiae", que faziam um barulho ensurdecedor com seus tambores. Seminaristas africanos eram empurrados no ritmo do reggae, enquanto que torcedores italianos do "Pontifício Seminário Romano Maggiore" usavam megafones a todo volume. Já os americanos da "Rome's North American College", apelidados de CAN, cantavam "Vinde a você Knackers, chutem alguns popôs" antes dos jogos. Apesar da proibição do barulho, os torcedores do "Redemptoris Mater Seminary" continuaram a cantar seu hino nas arquibancadas antes de cada jogo.

Este ano a Clericus Cup foi realizada em maio. O "Seminário Redemptoris Mater", dos neocatecumenais, conquistou o título pela segunda vez, ao bater no jogo final o "North American Martyrs" por 1 X 0, gol de Davide Tisado, capitão do time. O terceiro lugar ficou para o time do "Mater Ecclesiae", que ganhou por 2 X 0 do "Colégio Urbano".

O Brasil foi representado por uma equipe do "Colégio Pio Brasileiro" que se apresentou com uma camiseta amarela, com bordas verdes, imitando a seleção oficial do Brasil. Por baixo, os jogadores usaram outra camiseta com os dizeres: “I belong to Jesus” (“Pertenço a Jesus”). Os sacerdotes brasileiros contaram com o reforço de seminaristas e padres do "Colégio Don Orione" de Roma. O treinador do time foi o Padre Eduardo Braga, natural do Rio de Janeiro. A edição deste ano teve como novidade um "terceiro tempo", no qual os participantes se uniam em oração.

A competição de 2009 foi abençoada pelo presidente da Uefa, Michel Platini, que cumprimentou a iniciativa "que propõe uma saudável competição de futebol" porque ser "um instrumento para a promoção dos valores de grande significado e importância para a sociedade". A Copa teve como padrinhos o presidente do Comitê Olímpico Nacional Italiano (Coni), Gianni Petrucci, o presidente do CSI, Edio Costantini, o monsenhor Carlo Mazza e don Antonio Mazzi.

Nessa terceira edição, participaram 386 atletas de 69 países dos cinco continentes. Os atletas italianos em número de 72 foram maioria, seguidos pelos mexicanos com 46, norte-americanos com 21, e por colombianos, brasileiros norte-americanos e croatas.

A "Clericus Cup" possui regras um tanto distintas do futebol convencional. Os jogos são divididos em dois tempos de 30 minutos apenas e, além de cartões amarelos e vermelhos, são distribuídos cartões azuis, que fazem o jogador passar 5 minutos fora de campo. Cada equipe tem também direito a um tempo-técnico de 1 minuto. Em caso de empate a decisão vai para os pênaltis. O vencedor leva dois pontos e o perdedor apenas um. É possível efetuar até 5 substituições por partida. Cada instituto religioso pode inscrever mais de um time com um mínimo de 16 jogadores e um máximo de 24.

Parece que o futebol veio para ficar no Vaticano. Em junho deste ano o time da "Guarda Suíça", responsável pela segurança do país disputou um amistoso contra uma equipee formada por ex-jogadores franceses. A partida aconteceu no "Trigória", centro de treinamento de Roma, e teve a participação de renomados jogadores, como Christian Karembeu, Dominique Rocheteau, Thierry Roland, Marius Tresor e o técnico do Lyon, Claude Puel.

Outro destaque da partida foi o tenista Rochard Gasquet. Antes do jogo, uma delegação da "Variété Club de France" foi recebida pelo papa Bento XVI na Praça São Pedro. Ao término da audiência, Tresor e Roland presentearam o Pontífice com uma garrafa de conhaque de 1927, data de nascimento de Bento XVI. O amistoso teve como árbitro o bispo francês de Saint-Etienne, monsenhor Dominique Lebrun. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time brasileiro na "Clericus Cup" (Foto: Divulgação)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A queda de um gigante (final)

Em 1975, o tricolor realizou uma campanha brilhante no Campeonato Brasileiro e chegou às semifinais, depois de derrotar o Palmeiras, na época chamado de "Academia", por 3 X 2 dentro do Parque Antárctica nas oitavas-de-final, e ao Flamengo em pleno Maracanã, de virada, por 3 X 1, nas quartas-de-final. Perdeu a vaga para o Cruzeiro, em jogo marcado por uma controvertida arbitragem de Armando Marques.

Caso tivesse chegado a final, o Santa Cruz decidiria o Campeonato Brasileiro em Recife, já que havia realizado a melhor campanha entre os finalistas, ratificando a sua condição de um dos grandes times do Brasil na época, assim como o Internacional, o Fluminense e o Cruzeiro, que disputaram as primeiras colocações naquele ano.

Em 1976, com o surgimento do centroavante Nunes, o Santa levantou o Campeonato Pernambucano (Bi Super-Campeão). No Campeonato Brasileiro o time chegou em 11º lugar, entre 54 participantes. No ano de 1977 foi 10º colocado e em 1978, 5º. Ainda na década, o Santa sagrou-se bicampeão pernambucano(1978 e 1979), somando 7 títulos estaduais entre 1970 e 1979.

Em 1980 a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) condecorou o Santa Cruz com o título de Fita Azul, por ter sido o único clube brasileiro a fazer uma excursão pelo exterior e ter retornado sem nenhuma derrota. O clube coral enfrentou as seleções do Oriente Médio, Kuait, Catar e Arábia e na Europa, a seleção da Romênia, e o Paris Saint Germain da França.

O ano de 2005 marcou a ultima conquista regional do Santa Cruz. Isso motivou os associados a votarem na chapa de oposição que tinha a frente o então vice-presidente licenciado do clube, Edson Nogueira, como esperança de mudanças. Foi a primeira vitória de uma chapa de oposição em toda a história do clube. Mas deu tudo errado, em vez de melhorar, a situação só piorou.

Em 2007 o time foi mal no Campeonato Pernambucano, amargando um 6º lugar e a eliminação da Copa do Brasil na primeira fase, em pleno “Arruda”, para o desconhecido Ulbra (RO). Na Série B, a campanha também foi péssima, com o segundo rebaixamento seguido, dessa vez para a terceira divisão do Brasileiro de 2008.

Em 2008, o clube ainda tentou se reorganizar, mas não conseguiu. Foi eliminado da Copa do Brasil na primeira fase, passou pela humilhação de disputar o “Hexagonal da Morte” do Campeonato Pernambucano, para se livrar do rebaixamento. E ainda perdeu seus melhores jogadores, Carlinhos Paraíba e Thiago Capixaba. Na Série C, não alcançou classificação para a segunda fase.

Tudo somado, o Santa Cruz conseguiu um feito inédito no futebol brasileiro, ser rebaixado por três anos consecutivos. O time pernambucano, que estava na Primeira Divisão em 2006, jogou a “Segundona” em 2007, a “Terceirona” em 2008, onde não conseguiu classificação para nela continuar em 2009.

Depois do fracasso na Série C, mais uma vez os torcedores apostaram na renovação da Diretoria e numa chapa de consenso elegeram o desportista Fernando Bezerra Coelho como presidente para o biênio 2009-2010. Isso fez com que várias empresas manifestassem disposição de patrocinar a reestruturação do clube. Nova frustração. O Santa Cruz disputou a recém-criada Série D e foi eliminado na 1ª fase. Agora, terá de buscar nova classificação para a 4ª Divisão do Brasileiro, no Campeonato Pernambucano de 2010.

Humberto de Azevedo Viana, o “Tará” é até hoje considerado o grande ídolo do Santa Cruz, e o melhor jogador que pisou nos gramados pernambucanos em todos os tempos. Ele começou a carreira em 1929, jogando pelo Mocidade de Beberibe. Em 1930 transferiu-se para o Atheniense e de 1931 a 1942 jogou pelo Santa Cruz. Sua estréia pelo tricolor se deu em setembro de 1931, no empate de 2 X 2 com o Iris.

Marcou o seu primeiro gol pelo Santa Cruz, na partida seguinte contra o Flamengo do Recife, na vitória por 3 X 1, quando visitou as redes adversárias por duas vezes. Encerrou a carreira defendendo o Náutico de 1943 a 1947, tendo jogado ao lado de quatro irmãos que defendiam o clube vermelho e branco, Orlando, Isaac, Gérson e Roldan.

Ganhou os títulos de Campeão Pernambucano em 1931, 1932, 1933, 1935 e 1940 pelo Santa Cruz, e 1945 pelo Náutico. Foi artilheiro dos campeonatos de 1938 (25 gols), 1940 (20 gols) e 1945 (28 gols – pelo Náutico). Em 1945, no jogo Náutico 21 X 3 Flamengo do Recife, Tará marcou 10 gols. Fez gol de bicicleta antes de Leônidas, que marcou o seu na Copa de 1938. Fez um gol do meio-de-campo, contra o Náutico, o goleiro era Djalma.

Tará, por tudo o que fez nos gramados mereceu uma homenagem no samba de Bráulio de Castro, intitulado “Mestre Tará”: “Depois de Garrincha e Pelé/Vou te falar/ O maior do mundo foi Tará/Mestre Tará/Não havia teipe/Pra registrar seu futebol/Mas o jornal diz que ele/Marcou dez vezes, num jogo só/Driblava até o goleiro/E fazia de calcanhar/O maior do mundo foi Tará/Era um Deus nos acuda/ jogando com Siduca/Deixava qualquer defesa/ dversária, lelé da cuca/Driblava até o goleiro/E fazia de calcanhar/O maior do mundo foi Tará.”

Tará faleceu, ao 86 anos, de ataque cardíaco, no dia 7 de setembro de 2000, no hospital da Polícia Militar, no Recife.

Títulos conquistados pelo Santa Cruz. Regionais: Torneio Norte-Nordeste: 1967; Estaduais: Campeonato Pernambucano: 24 vezes ( 1931, 1932, 1933, 1935, 1940, 1946, 1947, 1957, 1959, 1969, 1970, 1971, 1972, 1973, 1976, 1978, 1979, 1983, 1986, 1987, 1990, 1993, 1995 e 2005); Copa Pernambuco (2008); Torneio Início (1919, 1926, 1937, 1939, 1946, 1947, 1954, 1956, 1969, 1971, 1972 e 1976); Taça Recife (1971); Taça Refinaria (1995); Taça Recife (1971); Torneio de Verão Cidade do Recife (1997); Copa Pernambuco (2008); Nacionais: Campeonato Brasileiro Série B, 2 vices (1999 e 2005); Categorias de base: Campeonato Pernambucano de Juniores (1993, 1994, 1995, 1996, 2000, 2002 e 2003); Internacionais: Torneio da Amizade (1995); Torneio Vinausteel , no Vietnã (2003); Fita Azul Internacional (1980). (Pesquisa: Nilo Dias)

Time tri-súper campeão de 1983. (Foto: Acervo do Santa Cruz F.C.).

COMENTÁRIOS DE LEITORES

Sérgio disse...
Parabéns pelo documentário. Ficamos felizes em torcer por um time como o Santa Cruz. Esperamos que logo volte a nos dar alegria que já nos deu.
Sérgio Rocha.
29 de agosto de 2009 11:31

José Guibson Dantas disse...
Parabéns pelo post. O Santa Cruz é um grande clube e quem já viu a manifestação de fidelidade e amor de sua torcida sabe disso.
Abraços desde São Luís-MA.
29 de agosto de 2009 14:38

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A queda de um gigante (02)

Em 1943, o Santa Cruz fez uma excursão pelo Norte do país, em pleno período da 2ª guerra mundial. Devido a presença de submarinos alemães na costa brasileira, a delegação viajou escoltada por navios da Marinha. Esse episódio da vida tricolor ficou conhecido como a “Excursão da Morte”, que começou em Natal, passando por Belém indo até Manaus. Os problemas tiveram início quando a delegação saiu de Belém com destino a Manaus, em um vapor gaiola, viagem que durou duas semanas. Vários jogadores tiveram uma forte disenteria, diagnosticada depois como tifo. Alguns tiveram recaída e vieram a falecer.

A volta para Recife não foi nada fácil, pois em razão da guerra o governo brasileiro decretou a paralisação do trafego marítimo, o que obrigou o clube a conseguir novos jogos para poder pagar as despesas de alimentação e hospital. A delegação recebeu ainda a visita do chefe de polícia para prender um jogador que supostamente tinha feito "mal" a uma menor de 17 anos, e estava sendo obrigado a casar.

Liberado o trafego marítimo, a delegação conseguiu vaga em um rebocador e, quando todos estavam alojados, foram obrigados a desembarcar por causa de uma carga de inflamáveis que o navio recebera. No desespero, a comitiva conseguiu retornar a Recife, mas com parada de 4 dias em São Luiz. Para juntar algum dinheiro, os jogadores trocaram as passagens da 1ª classe por 3ª, sendo obrigados a viajar com uma corja de 35 ladrões que a polícia do Pará estava exportando para o Maranhão.

Em São Luiz, o navio ficou retido e o time foi obrigado a fazer novas partidas para angariar dinheiro. Com a morte de dois jogadores a equipe estava incompleta, e o cozinheiro do navio foi convocado para jogar. Na tentativa de voltar por terra, o trem que partiu de São Luiz a Teresina descarrilou duas vezes. A viagem finalmente foi completada de ônibus para Recife, com a chegada de uma delegação exausta e atônita. “A Excursão da Morte” teve início em 2 de janeiro e terminou em 2 maio de 1943.

Em 1943, graças ao trabalho do dirigente Aristófanes de Andrade, o Santa Cruz alugou um terreno próximo às ruas Beberibe e das Moças, onde alguns anos depois seria construído o Estádio José do Rego Maciel, o “Arruda”. Na década de 1940, a equipe levantou três títulos 1940, 1946 e 1947, para depois passar dez anos em jejum.

Na tarde de 16 de março de 1958, no Estádio da Ilha do Retiro, escolhido por sorteio, o Santa Cruz entrou em campo para decidir contra o Sport, o título de campeão pernambucano de1957. Caso tivesse sido vencedor, o Santa mandaria a partida nos Aflitos, estádio do Náutico, pois o Tricolor ainda não possuía estádio próprio na época.

Com arbitragem do uruguaio Estéban Marino, auxiliado pelos bandeirinhas Amílcar Ferreira (carioca) e José Peixoto, o Santa Cruz venceu por 3 X 2 e acabou com a longa espera. Os gols foram marcados por Rudimar, Aldemar de pênalti e Mituca, para o Santa Cruz. O Sport descontou com Carlos Alberto e Zé Maria. O time tricolor formou com: Aníbal - Diogo e Sidney – Zequinha - Aldemar e Edinho – Lanzoninho – Rudimar – Faustino - Mituca e Jorginho. O técnico era Alfredo González. O Sport jogou com: Manga - Bria e Osmar - Zé Maria - Mirim e Pinheirense – Roque - Traçaia – Liminha - Carlos Alberto e Geo.

Na década de 1970, o Santa Cruz adotou uma forma bastante democrática de administração, sob a forma de colegiado. E deu certo, pois empilhou títulos estaduais e ainda ganhou o Torneio Norte-Nordeste de 1967, inclusive goleando impiedosamente o Clube do Remo, de Belém do Pará por 9 X 0. Depois desse período de vitórias, o clube teve que enfrentar nove anos sem ganhar nada, até que em 1969 o jejum foi quebrado e teve início a era do Pentacampeonato do estado, feito até hoje não igualado por nenhum adversário. Onze Fuscas e uma Brasília foi o presente que o ilustre tricolor, o inglês James Thoper, deu aos jogadores tricolores, bicampeões de 1970.

Nos anos 70 o Santa Cruz finalmente conseguiu inaugurar o “Mundão do Arruda”. O nome oficial do estádio é José do Rego Maciel, pai de Marco Maciel, ex vice-presidente da República, uma justa homenagem ao prefeito do Recife na época, que em 1952 impediu a venda para outros, do terreno que estava alugado ao Santa Cruz. A Prefeitura desapropriou a área e a repassou em definitivo para o tricolor em 1954.

Somente em 1965, com a venda de cadeiras cativas e títulos patrimoniais é que o estádio começou a ser erguido com suor, sangue e lágrimas dos torcedores tricolores. Foi uma mobilização de torcedores nunca antes vista. As pessoas levavam ao clube todo tipo de material de construção e doavam a sua mão de obra.

O primeiro jogo no “Arruda” aconteceu no dia 4 de julho de 1972, contra o Flamengo do Rio de Janeiro. A partida terminou empatada em 0 X 0. A renda foi de CR$ 193.834,00, com um público total de 47.688 pagantes. O Santa jogou com: Detinho – Ferreira – Sapatão - Rivaldo e Cabral (Botinha) - Erb e Luciano - Cuíca (Beto) - Fernando Santana (Zito) - Rámon e Betinho. O Flamengo formou com: Renato – Moreira – Chiquinho - Tinho e Wanderlei - Zanata e Zé Mário (Liminha) - Vicente (Dionísio) - Caio (Ademir) - Doval (Fio) e Arilson. O primeiro gol no estádio foi obra de Betinho, no jogo Santa Cruz 1 X 0 Seleção Brasileira de Amadores.

A ampliação do “Arruda” foi concluída no dia 1 de abril de 1982, quando a capacidade subiu para 80.000 pessoas. O recorde de público ficou estabelecido com o jogo das Eliminatórias da Copa do Mundo em 1993, quando a Seleção Brasileira massacrou a Bolívia por 6 x 0. Neste jogo estavam presentes nada menos que 96.200 torcedores. Já o maior público do Santa Cruz foi em 1999, quando 95.567 pessoas assistiram o empate por um gol com o Sport.

Posteriormente, em função dos novos parâmetros de conforto e segurança estabelecidos pela FIFA, o “Arruda” teve a sua capacidade diminuída para 60.000 pessoas. (Pesquisa: Nilo Dias)

Em 1940 contra o Sport, Tará fez um golaço decisivo para a conquista do campeonato daquele ano, o quinto do Santa Cruz. Depois, em 1946 e 1947, seria bicampeão. (Foto: Acervo do Santa Cruz F.C.)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A queda de um gigante (01)

O Santa Cruz Futebol Clube, de Recife (PE), um dos mais tradicionais e queridos clubes esportivos do Brasil vive uma crise sem precedentes e que parece não ter fim. O clube entrou, futebolisticamente, naquilo que se pode chamar de “fundo do poço”, ao não conseguir classificação nem mesmo para a Série C, a terceira divisão do campeonato brasileiro, sendo superado por times quase desconhecidos na Série D, a trágica quarta divisão nacional.

O clube surgiu por idéia de um grupo de 11 meninos com idades entre 14 e 16 anos, que costumavam jogar futebol no pátio da Igreja de Santa Cruz, em Recife, pois naqueles distantes anos ainda não existiam campos para a prática do novo esporte. A reunião para fundação do clube aconteceu às 19 horas do dia 3 de fevereiro de 1914, na casa de número 2, da Rua da Mangueira, no distrito de Boa Vista.

São considerados fundadores os desportistas Quintino Miranda Paes Barreto, José Luiz Vieira, José Glacério Bonfim, Abelardo Costa, Augusto Flankin Ramos, Orlando Elias dos Santos, Alexandre Carvalho, Oswaldo dos Santos Ramos, Luiz de Gonzaga Barbalho e Uchôa Dornelas Câmara.

A primeira diretoria do Santa Cruz ficou assim constituída: Presidente, José Luís Vieira; Vice-presidente, Quintino Miranda Paes Barreto; Primeiro secretário, Luís de Gonzaga Barbalho e Diretor de Esportes, Orlando Elias dos Santos. O nome escolhido para a nova agremiação foi "Santa Cruz Foot-Ball Club", em alusão ao local onde treinavam. Em principio as cores escolhidas foram o branco e preto, mas logo depois foi acrescentado o vermelho, para não haver igualdade de cores com o Flamengo, um outro clube pernambucano da época. Uma “vaquinha” entre os fundadores rendeu 8.500 réis, que foram aplicados na compra da primeira bola do time.

O primeiro adversário do Santa Cruz foi o Rio Negro, em jogo realizado na campina do Derby. O “time dos meninos”, como era chamado, mesmo acostumado a jogar somente nas ruas, não teve dificuldade em aplicar uma sonora goleada de 7 X 0. Silvio Machado foi o autor do primeiro gol da história do clube. O Santa Cruz mandou a campo esta equipe: Waldemar Monteiro - Abelardo Costa e Humberto Barreto - Raimundo Diniz - Osvaldo Ramos e José Bonfim - Quintino Miranda - Sílvio Machado - José Vieira - Augusto Ramos e Osvaldo Ferreira.

O Rio Negro não se confirmou com os 7 X 0 e pediu revanche, impondo ainda algumas condições: que o jogo fosse realizado no seu campo, que se situava a Rua São Borja, e que o centroavante do Santa Cruz, Sílvio Machado, não fosse escalado. No jogo anterior ele foi o melhor jogador em campo, tendo marcado 5 dos 7 gols. O Santa Cruz aceitou as condições e escalou Carlindo para substituir o seu artilheiro. Pior para o Rio Negro, que dessa vez levou 9 X 0, e o substituto de Silvio Machado marcou 6 gols.

O terceiro jogo da história do Santa Cruz foi contra o Western Telegraph Company, o time mais famoso da cidade, formado exclusivamente por ingleses que trabalhavam no Recife. Não tomando conhecimento da fama do adversário o Santa Cruz foi para cima e conquistou sua terceira vitória em três jogos.

Ainda sem completar o primeiro ano de fundação o Santa Cruz conheceu sua primeira crise interna. Um dos fundadores propôs em reunião que o único dinheiro existente em caixa, 6 mil réis, fosse gasto na compra de uma máquina elétrica de fazer caldo de cana, o que era sucesso na época, na Rua da Aurora. Foi quando Alexandre de Carvalho deu um murro em cima da mesa e disse: “o Santa Cruz nasceu e vai viver eternamente”, evitando com esse gesto de revolta o fechamento do clube.

O Santa Cruz desde a sua fundação se caracterizou como um clube popular. Foi fundado por pessoas da classe média, por isso não teve dificuldades em aceitar negros na sua equipe, coisa rara naqueles tempos. O primeiro negro a vestir a camisa tricolor foi Teófilo Batista de Carvalho, mais conhecido por Lacraia, em 1915.

A maior e mais emocionante virada de virada de placar que o Santa Cruz realizou em toda a sua história, aconteceu em 1915 no Estádio dos Aflitos. O time perdia de 5 X 1 para o América até os 30 minutos do segundo tempo. Numa incrível seqüência, o Santa marcou seis gols e venceu a partida por 7 X 5. Três gols foram marcados pelo atacante Tiano - Martiniano Fernandes médico e ex-senador pelo Estado de Pernambuco.

No ano de 1915 o Santa Cruz filiou-se a Liga e disputou o campeonato. A estréia foi com vitória sobre o Coligação S.R. por 1 X 0. Apesar de não conquistar o título, o Santa Cruz terminou empatado com mais dois clubes, Torres e Flamengo, que foi o campeão ganhando o triangular final.

No dia 30 de janeiro de 1919 o Santa Cruz se tornou o primeiro time nordestino a vencer uma equipe do Rio de Janeiro. A vitima foi o Botafogo, que perdeu por 3 X 2. Tiano marcou dois gols e Pitota completou o marcador. O "Jornal Pequeno", da segunda-feira, 31, estampava a manchete: "O Botafogo Futebol Clube é derrotado pelos "meninos" cá de casa pelo escore de 3 a 2". O fato foi tão marcante que ofuscou a passagem pela cidade de Santos Dumont, o “Pai da Aviação”. Na cidade só se falava da vitória tricolor.

O primeiro título pernambucano veio em 1931, na vitória de 2 X 0 sobre o Torre, gols de Valfrido e Estêvão. Foram 10 jogos, com 8 vitórias, um empate e apenas uma derrota. O time fez 41 gols e sofreu 9. Ao todo o Santa conquistou 17 pontos, um a mais que o Náutico, vice campeão.

No time campeão estavam duas figuras lendárias no futebol pernambucano: Tará e Sherlock. O Santa utilizou na campanha do título os seguintes atletas: Dada, Sherlock, Fernando, Dóía, Julinho, Zezé, Walfrido, Aluízio, Neves, Tará, Lauro, Estevão, João Martins e Popó. Este time conseguiu também o título de 1935.

Em 1934 o Santa Cruz foi autor de um feito histórico, se tornando um dos três times (fora seleções) de futebol em todo o mundo a derrotar a Seleção Brasileira. Depois da Copa da França em 1934, a seleção fez uma série de amistosos em Recife. Ganhou do Sport por 4 X 2, do próprio Santa por 3 X 2 e do Náutico por 8 X 3. Porém, por causa do atraso do navio que levaria a seleção de volta, o Santa Cruz pediu revanche e ganhou a partida por 2 X 1. (Pesquisa: Nilo Dias)

Tricampeões (1933). João Martins, Zezé Fernandes, Sebastião Virada, Tará, Estevão, Diógenes e Lauro...
...Ernani, Carlos Benning, Sherlock, Marcionilo, Limoeiro, Walfrido e Dadá. (Fotos: Acervo do Santa Cruz F.C.)

domingo, 16 de agosto de 2009

“Mão de Onça”, um goleiro que deixou saudade

Até hoje os torcedores do Clube Atlético Mineiro lembram com saudade de Armando Giorni, o “Mão de Onça”, um dos melhores goleiros que já vestiu a gloriosa camisa do “Galo das Alterosas”. Era natural de Dores de Indaiá, no interior de Minas Gerais, onde nasceu no dia 15 de novembro de 1922. Começou a carreira de futebolista no extinto 7 de Setembro, de onde saiu em 1943 para jogar no Atlético Mineiro.

Ele atuou pelo Atlético em duas passagens, entre 1946 e 1951, tendo ganho dois campeonatos mineiros e fez parte da vitoriosa excursão à Europa em 1950. Em 1959, voltou ao “Galo”, mas só jogou uma partida amistosa. Com a camisa alvinegra, atuou em 101 jogos e sofreu 130 gols. Foi campeão mineiro em 1946, 1947, 1949 e 1950. Jogou ainda pelo Bangu do Rio de janeiro.

Ganhou o apelido de “Mão de Onça” devido às suas mãos enormes e fortes. Talvez, isto se devesse pelo trabalho que exercia fora dos gramados, era lanterneiro. No bairro Floresta, Região Leste de Belo Horizonte, diziam que o ex-goleiro desamassava carros com a força das próprias mãos, sem precisar de ferramentas.

O primeiro jogo de “Mão de Onça” pelo Atlético Mineiro foi no dia 2 de maio de 1943, na vitória de 3 X 0 sobre o 7 de Setembro, pelo campeonato mineiro. E o último no dia 4 de janeiro de 1959, no amistoso Atlético Mineiro 3 X 1 América. “Mão de Onça” morreu em Belo Horizonte, aos 84 anos de idade, no dia 14 de junho de 2007.

Na década de 1940 e começo da década de 1950 o Atlético era considerado o melhor time do Brasil. O grupo de jogadores era muito forte. No gol, além de “Mão de Onça" tinha Kafunga, outra figura lendária. Na defesa e meio-campo Afonso, Oswaldo, Juca, Moreno, Vicente, Zé do Monte, Haroldo, Barbatana, Vicente Perez e Márcio. No ataque, Lucas, Lauro, Cezinho, Alvinho, Vavá, Nívio, Vaguinho e Murilinho. O técnico era Ricardo Diez.

Com essa verdadeira seleção o Atlético Mineiro foi convidado em 1950, pela antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF), para representar o futebol brasileiro em uma excursão por gramados da Europa. Foi o primeiro clube brasileiro a viajar pela Europa depois da implantação do profissionalismo no futebol.

Foram 10 jogos contra equipes campeãs e vices de seus países, com 6 vitórias, 2 empates e duas derrotas, 24 gols a favor e 18 contra. Vaguinho e Lucas Miranda, com seis gols cada, foram os artilheiros do time na excursão. Alguns jogos foram disputados debaixo de neve.

Os jogos do “Galo” foram estes: Atlético 3 x 1 Schalke 04; Atlético 4 X 3 Munich 1860; Atlético 4 X 0 Hamburgo; Atlético 1 X 3 Werder Breemen; Atlético 3 X 3 Eintreicht Brauschweig; Atlético 2 X 0 Seleção de Sarrebruck; Atlético 3 X 0 Rapid Viena da Áustria; Atlético 2 X 1 Anderlecht da Bélgica; Atlético 3 X 3 Seleção de Luxemburgo e Atlético 2 x 1 Stade Français da França. O “Galo” foi proclamado pela imprensa como o “Campeão do Gelo”, conquista registrada no hino do clube composto por Vicente Mota.

A chegada ao Brasil foi apoteótica. Primeiro, no Rio de Janeiro onde a delegação atleticana foi homenageada pela CBD e pelos desportistas cariocas. O retorno da delegação atleticana a Belo Horizonte foi marcado por uma das maiores festas que a cidade já viu. A multidão se concentrou na Avenida Afonso Pena e os jogadores desfilaram em carro aberto, recebendo os aplausos e o carinho do público

Ainda em 1950, depois da vitoriosa viagem a Europa, o Atlético fez uma excursão de mais de dois meses por gramados do Nordeste do país, iniciada em Salvador (BA) e concluída em Fortaleza (CE). Na volta, a delegação ficou dois dias em Recife, onde o time já havia passado e os jogadores aproveitaram para se despedir da cidade e fazer compras.

Naquela época era comum a presença nas portas de hotéis de vendedores de animais silvestres, principalmente macacos e pássaros. Esses vendedores eram na maioria trapaceiros, que passavam tinta amarela nos canários para que as cores se destacassem. Os macacos eram dopados, apareciam dormindo, mansos, sem forças, diante de tanta cachaça.

Zé do Monte, o craque do time mineiro, comprou um destes macacos, com mais de quatro quilos. Normalmente, as pessoas traziam os conhecidos “mico estrela”, que cabem em uma mão, mas o jogador quis um macaco de porte. Fez sucesso, principalmente ao entrar no avião. Na época não era proibido levar animais dentro das aeronaves. Todos os passageiros ficaram surpresos com a tranquilidade do macaco.

Porém, passadas duas ou três horas de vôo, o efeito do álcool passou e o macaco começou a pular de um canto para outro do avião. Os passageiros ficaram assustados, o pânico foi generalizado. Foi quando o goleiro Kafunga gritou: “Chamem o “Mão de Onça”. Mas nem ele foi capaz de dominar a fera. A solução foi fazer um pouso forçado para que o macaco fosse retirado do avião.

Durante um jogo entre as seleções de Pernambuco X Minas Gerais, no Recife, pelo campeonato brasileiro, “Mão de Onça” viu de perto que a fama de violento que acompanhava o zagueiro pernambucano “Guaberinha” não era a toa. Embora não fosse craque, o “cangaceiro” coral era seguro, marcava bem. Dava porrada até na sombra do adversário, que, para ele, era inimigo. Vez por outra, o convocavam para jogar na seleção pernambucana. Nesse jogo, “Mão-de-Onça” se contundiu num lance. Médico e massagista foram socorrê-lo.

Nisso, Guaberinha foi onde ele estava estendido e, como se fora um gentleman, quis saber: “Tudo bem com você, meu querido “Mão de Onça?” “Mais ou menos. Foi uma torção no pulso direito”. Aí Guaberinha, como quem examina, pegou a munheca machucada do golquíper e a torceu num golpe violento. O pobre rapaz deu um urro lancinante. E saiu de campo, carregado.

O nome “Mão de Onça” foi inspiração para muitos outros jogadores, principalmente goleiros, que surgiram no futebol brasileiro. O mais conhecido deles – depois do homônimo mineiro – foi sem dúvida Durval Moraes, o “Mão de Onça” do Clube Atlético Juventus, famoso por ter levado o gol que Pelé considerou o mais bonito de sua carreira.

Foi no dia 2 de agosto de 1959, num jogo Juventus X Santos, na rua Javari, pelo campeonato paulista. Eram decorridos 36 minutos da etapa complementar, o Santos vencia por 3 X 0, mas os torcedores do Juventus tentavam irritar Pelé com vaias insistentes. Foi quando o camisa 10 santista fez uma jogada magistral.

O ponteiro Dorval recebeu um passe de Jair e cruzou a bola pelo alto. Esta caiu no peito de Pelé, que foi em direção à área, deu um chapéu em Julinho, outro em Homero e um terceiro em Clóvis. Depois, aplicou um lençol no goleiro “Mão de Onça” que saiu desesperado do arco e cabeceou para as redes. Foi o gol, o mais lindo entre os 1.283 de toda sua carreira.

Pena que nenhuma câmera tenha registrado o lance. Com base em depoimentos orais, o lance foi reproduzido em computação gráfica e fez parte do documentário “Pelé Eterno”. Como homenagem ao Atleta do Século, em 2006, o Juventus inaugurou um busto de Pelé logo na entrada do estádio da rua Javari.

O ex-goleiro “Mão de Onça” não ficou no esquecimento. O cantor e compositor Edvaldo Santana faz uma homenagem aos arqueiros do futebol brasileiro, na sua canção, "O Goleiro". A música relembra o lendário goleiro do Juventus, e também o desconhecido Gilson, camisa 1 de um time de várzea de São Miguel Paulista, em São Paulo, que o artista acompanhava em sua infância.

Durval Moraes, o “Mão de Onça” nasceu em Itu (SP), no dia 2 de junho de 1931. Hoje, viúvo, aposentado e pai de seis filhos, reside em São Paulo onde se dedica a pregação religiosa pela Igreja Testemunhas de Jeová.

Athanásio de Almeida, um outro goleiro que herdou o apelido de “Mão de Onça” , marcou efetiva presença no Operário de Campo Grande (MS), no final dos anos 70. Hoje mora no Jardim Anahy, na capital sulmatogrossense, onde é acadêmico de Direto e trabalha como comerciante.

Nascido no dia 27 de setembro de 1944, em Miranda (MS) começou a carreira no Indústria Futebol Clube, de campo Grande. Em 1962, quando servia na Aeronáutica jogou pelo ASA. Em, 1964 defendeu o Juventus (SP), time em que antes havia se destacado outro goleiro chamado “Mão de Onça”. Em 1966 se transferiu para o Operário de campo Grande e em 1970 foi para o Flamengo do Rio de Janeiro. Sem chances no rubro-negro, voltou a Campo Grande onde foi contratado pela Sociedade Esportiva Industriaria (SEI). Em 1977 retornou ao Operário, onde encerrou a carreira. (Pesquisa: Nilo Dias)

"Mão de Onça", em um jogo do Atlético contra o 7 de Setembro. (Foto: Acervo do C.A. Mineiro)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Peñarol, um gigante adormecido (Final)

O primeiro clássico foi jogado em 15 de julho de 1900, com vitória do Peñarol por 2 x 0. Em 01 de novembro de 1911, no Parque Central, aconteceu a maior goleada do clássico, Peñarol 7 X 3. Em 08 de novembro de 1925, na reunificação da FUF (Federación Uruguaya de Football) com a AUF (Associação Uruguaia de Futebol), aconteceu o chamado "Clássico da Reunificação", com vitória do Peñarol por 1 X 0.

Em 7 de agosto de 1932 foi disputado o primeiro clássico do profissionalismo com vitória, mais uma vez, do Peñarol.
Entre os anos de 1985 e 1986 se jogou a chamada "Copa de Oro dos Grandes", que consistiria em oito jogos envolvendo as duas equipes. Mas não foi preciso tanto, visto que o Peñarol, ao ganhar os cinco primeiros jogos levantou o “caneco”.

Em 1921 assumiu a presidência do Peñarol o senhor Julio Maria Sosa, responsável pela construção de um estádio, numa área de três hectares que a empresa “La Comercial” possuía na estação Pocitos, perto do famoso balneário de Montevidéu. Em outubro desse mesmo ano o campo, com medidas de 105 por 80 metros, já se encontrava em condições de uso e nele foram realizados alguns jogos da Copa do Mundo de 1930. Esse estádio foi demolido nos anos 40.

Atualmente o Peñarol manda seus jogos no Estádio Centenário, de propriedade estatal, embora disponha de um estádio próprio, denominado José Pedro Damiani, antigamente "Las Acacias". Apesar do campo estar apto a receber jogos da primeira divisão, normalmente não é utilizado, por carecer de maior estrutura.

Em 12 de novembro de 1922, a AUF decidiu pela desfiliação do Peñarol, sem que até hoje se saiba a causa. Desconfia-se que houve uma tramóia política, na qual estaria envolvido o seu maior rival, o Nacional, pois o Peñarol era campeão de grande parte dos campeonatos organizados pela entidade.

Depois disso o clube, juntamente com o Central formou o que se chamou de (FUF). A esta nova entidade, dissidente da AUF, se juntaram o Miramar, Roland Moor, Rosario Central, Gladium, Las Piedras e Misiones.

No ano seguinte, em 1923, houve o primeiro campeonato uruguaio da FUF e o Peñarol foi o campeão (até os dias atuais a AUF não reconhece este titulo). Somente em 1925 se reorganizou o futebol com a unificação das duas entidades com a volta do aos campeonatos da AUF.

Na história do Peñarol figura o primeiro titulo nacional da era profissional, em 1932. Mesmo com craques como Pedro Young (“El Tigre”), Luis Matozzo (“El Grande”), Ernesto Mascheroni, Obdulio Varela (“El Negro Jefe”), e, entre outros, Álvaro Gestido, imponente defensor que fez história ao travar e vencer o épico duelo com o avançado argentino Peucelle na final do Mundial de 1930, as décadas de 30 e 40 foram de domínio do Nacional.

Em 1949, o clube amarelo e preto montou um de seus mais famosos quadros de todos os tempos. Era uma equipe tão forte que se tornou a base da Seleção do Uruguai que ganhou a Copa do Mundo em 1950, diante de um Maracanã lotado com 200.000 pessoas. Esse time, conhecido como “La Maquina del 49” era composto por Roque Máspoli - Enrique Hugo - Mirto Davoine (Sixto Posamai) - Juan C. González - Obdúlio Varela - Washington Ortuño - Alcides Ghiggia - Juan Eduardo Hohberg - Juan Schiaffino - Oscar Míguez e Ernesto Vidal.

Em 1958 assumiu a presidência do Peñarol o desportista Gastón Guelfi, que se tornou o presidente mais vitorioso de toda a história do clube. Ele esteve a frente da agremiação amarela e preta ate 1973, quando morreu no exercício do cargo. Nesse período ganhou três Copas Libertadores, duas Copas Intercontinentais e o primeiro pentacampeonato uruguaio, que era chamado de “Quinquênio de Oro”. No total foram nove campeonatos nacionais.

Sob seu comando o Peñarol transformou-se numa potência do futebol sulamericano e mundial. Verdade ou lenda, contam que naqueles anos de glória, quando o Peñarol entrava em campo, os seus jogadores logo iam avisando aos adversários: “Trouxeram outra bola para jogar? Esta é só para nós”.

Finda a época de Obdulio Varela, chegou, em 1958, de Artigas, para o substituir, Néstor Tito Gonçalves, que comandava o time com os seus gritos “A la carga!”, mandando atacar o adversário. No gol tinha Luís Maidana, o “Homem Gato”. Nos dois primeiros títulos, 1958 e 1959, o técnico era Hugo Bagnulo, descobridor do ala direito Luís Cubilla e do goleador Spencer no Equador.

Sob seu comando o Peñarol formou um grande time com valores da qualidade de William Martinez, o “Canhãozito”, do brasileiro Alves da Silva, Walter Aguerre, Borges, Albert Hein, Linnazza, Roberto Garcia e Hohberg.

Com essa verdadeira “seleção”, em 1961, o argentino Hector Scarone, sempre fiel ao tradicional 4-4-2, comandou o Peñarol na conquista da primeira Taça Intercontinental da sua história, goleando o Benfica de Eusébio por 5 X 0, após perder por 1 X 0 no Estádio da Luz, em Lisboa. No jogo desempate, ainda no Uruguai, o Peñarol fez 2 X 0, gols de Sacia e ganhou a Taça.

Nos anos 60, se tornaram célebres os jogos entre o Real Madrid e o Peñarol, na Taça Intercontinental. No primeiro encontro entre ambos, em 1960, o Real Madrid aplicou uma goleada de 5 X 0. Seis anos depois, em 1966, o Peñarol, com Mazurkiewicz, Pablo Forlan, Gonçalves, Cortes, Abadie, Joya, Sasia, Spencer e Pedro Rocha finalmente se vingou, ganhando duas vezes do Real Madrid, ambas por 2 x 0. O time espanhol não tinha mais a mesma força, a geração de Di Stéfano dera lugar ao chamado onze yé-yé.

Durante os anos 70, jogou no Peñarol o maior goleador da história do futebol uruguaio: Fernando Morena, “El Potro”, o artilheiro infalível, autor de 235 gols na Liga uruguaia, 34 deles em 1975. Em 1978 fez 7 gols num só jogo, contra o Huracan. Foi o artilheiro do campeonato nacional em 7 oportunidades, 6 delas consecutivas, 1973, 1974, 1975, 1976, 1977 e 1978. Chegou ao Peñarol em 1973, vindo do River Plate de Montevidéu, saindo em 1978, para o Rayo Vallecano da Espanha. Foi 7 vezes campeão uruguaio.

Em 1982, depois de uma grande campanha para repatriar “El Potro”, o Peñarol conquistou sua quarta copa Libertadores, vencendo na final ao Cobreloa do Chile. E foi Morena, que no último minuto do jogo fez o gol do título.

No fim do ano, o Peñarol foi ao Japão disputar o titulo Intercontinental, enfrentando o time inglês do Aston Villa, e venceu por 2 x 0, gols do brasileiro Jair, ex Internacional de Porto Alegre e Walkir Silva.

Em 1987, o Peñarol ganhou sua quinta Copa Libertadores, enfrentando na final o América de Cali, que era chamado de "Los Diablos Rojos". Em uma final bastante disputada, os uruguaios perderam o primeiro jogo, realizado em Cáli, por 2 x 1. Mas, ao vencer os dois jogos seguintes, 2 x 1 em Montevidéu e 1 x 0 em Santiago (desempate), levantaram a taça.

Nos anos 90, para comemorar o centenário o Peñarol montou uma equipe forte e competitiva, que conquistou mais um pentacampeonato uruguaio: 1993, 1994, 1995, 1996 e 1997. Nesse período dois treinadores comandaram o time, primeiro Gregorio Pérez, que ficou célebre por seu lema: “Haveremos de recuperar a mística!”. Depois, com Jorge Fossati.

Era tarefa fácil treinar um timaço como aquele, onde se destacavam o central Nelson Gutierrez, o médio “Pato“ Aguilera, Carlos De Lima, De los Santos, El “Chueco” Perdomo e o último grande símbolo aurinegro, Pablo Bengoechea, “El Professor”, presente nos 5 títulos. Fez 188 jogos e marcou 48 gols

Alguns dos principais jogadores que vestiram a camisa do Peñarol: Alberto Spencer, Alcides Ghiggia, Antonio Alzamendi, Pablo Forlán, Darío Silva, Diego Forlán, Elías Figueroa, Ernesto Ledesma, Ladislao Mazurkiewicz, Luis Maidana, Obdulio Varela, Pablo García, Fernando Morena, Jair Gonçalves, Mário Pitoni, Oscar Omar Miguez, José Luis Chilavert, José Leandro Andrade, José Perdomo, José Piendibene, Luis Cubilla, Juan Delgado, Isabelino Gradín, Venancio Ramos, Pedro Rocha, Darío Rodríguez, Marcelo Zalayeta, Juan Alberto Schiaffino, Pablo Bengoechea, Rubén Walter Paz, Paolo Montero, Carlos Bueno, Cristian Rodríguez e Roque Gastón Máspoli, entre outros.

Máspoli marcou época no Club Atlético Peñarol, de Montevidéu, onde jogou e também foi treinador. Como técnico, levou o Peñarol aos títulos da Copa Libertadores e da Copa Intercontinental em 1966. Também comandou a Seleção Uruguaia, com a qual venceu a Copa de Ouro (Mundialito Fifa) de 1981. Roque Máspoli faleceu em 2004, aos 86 anos. (Pesquisa: Nilo Dias)

O time do Peñarol em 1949 era tão forte, que se tornou a base da Seleção Nacional do Uruguai. (Foto: Acervo do C.A. Peñarol)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

C.A. Peñarol, um gigante adormecido (01)

Quem acompanha futebol sabe que o Club Atlético Peñarol de Montevidéu já foi um dos clubes mais poderosos de todo o mundo. É detentor de três títulos mundiais, cinco Taças Libertadores da América e 47 títulos nacionais, além de ser o maior fornecedor de craques para a Seleção do Uruguai, duas vezes vencedora da Copa do Mundo e detentor da maior torcida do país.

O time da tradicional camisa amarela e preta mais uma vez ficará fora da Taça Libertadores da América, ano que vem, pois não foi além de um modesto sétimo lugar no último Campeonato Uruguaio. Não conseguiu nem mesmo disputar o playoff que apontou os dois representantes uruguaios na competição: o Cerro ficou com a vaga na fase de grupos, e o Racing vai disputar a Pré-Libertadores. O Nacional, atual campeão, já estava garantido na fase principal. E o pior, o Peñarol está fora até mesmo da Copa Sulamericana.

O último e único título de expressão nacional conquistado pelo clube no século XXI foi o campeonato uruguaio de 2003. O Peñarol ficou fora das últimas quatro edições da Libertadores da América, o que lhe custou, depois de 49 anos a perda do posto de maior pontuador da competição para o River Plate da Argentina, que tem sete participações a menos, embora venha de 15 disputas consecutivas.

Este ano, o Peñarol participou da fase Pré-Libertadores, mas foi eliminado pelo Independiente Medellín, da Colômbia. Antes, a última participação tinha sido em 2005, quando também não conseguiu chegar à fase de grupos, eliminado pela LDU.

Foi em 1958 no Rio de Janeiro que surgiu a idéia da realização da Copa Libertadores da América. O primeiro campeão em 1960 foi o Peñarol. Oito times disputaram o titulo: Bahia; Jorge Wilstermann, da Bolívia; Milionários, da Colômbia; Olímpia, do Paraguai; San Lorenzo, da Argentina e Universidad do Chile. Para ser campeão o time uruguaio disputou 7, das 13 partidas jogadas, tendo marcado 13 gols e sofrido 5.

No dia 19 de abril de 1960 no Estádio Centenário em Montevidéu, o Peñarol ganhou do time boliviano Jorge Wilstermann por 7 X 1 diante de 35 mil pessoas. O peruano Spencer que defendia o time uruguaio marcou 4 gols. A participação do time brasileiro foi bem discreta. Perdeu a primeira fora e ganhou a segunda em casa do San Lorenzo por 3 X 2, o que não foi suficiente para prosseguir na competição.

O ponteiro-esquerdo Carlos Borges, do Peñarol foi quem marcou o primeiro gol da Copa Libertadores da América. Foi no dia 19 de abril de 1960, no gramado do Estádio Centenário. O relógio marcava 12 minutos do primeiro tempo do jogo entre Peñarol e Jorge Wilstermann, quando Borges aparou um rebote e disparou contra o arco do time boliviano, anotando o primeiro gol da goleada de 7 X 1.

Hoje, o clube vive das lembranças de um passado glorioso. Quem quiser revivê-las, pode visitar o Museu do Clube Atlético Peñarol, que fica aberto às sextas e sábados, das 13h30 às 17h30. Ou o Museu do Futebol, no estádio Centenário, que abre de quarta a sexta, das 10h às 18h, e aos sábados e domingos, das 9h30 às 17h30.

O Peñarol jogou aquela partida com Luis Maidana - William Martínez - Milton Alves Da Silva (Salvador, ex-jogador do Internacional-RS) - Santiago Pino - Néstor Goncalves - Walter Aguerre - Luis Cubilla - Carlos Linazza - Juan E. Hohberg - Alberto Spencer e Carlos Borges. O artilheiro da competição foi Alberto Spencer, do Peñarol, com sete gols. Borges anotou apenas dois, justamente na goleada da estréia.

As raízes do Club Atlético Peñarol remontam a julho de 1890, quando a empresa inglesa Central Uruguay Railway Company (Ferrocarril Central del Uruguay) adquiriu 17hectares de terra a dez quilômetros de Montevideu, num local que se chamava Peñarol, para ali erguer as suas novas instalações. Sabe-se que muito tempo antes se instalara no local um agricultor italiano de nome Pedro Pignarolo (que em castelhano lê-se piñarolo). Com o tempo, o nome foi sendo moldado pelos locais, dando origem ao chamado “pueblo de Peñarol”.

A empresa começou a funcionar em 01 de maio de 1891, quatro meses antes da fundação do clube. Em 1891, Mister Roland Moor, presidente da companhia, decidiu criar uma instituição desportiva, destinada à prática do futebol, a que deu o nome de Central Uruguai Railway Cricket Club, o CURCC, sendo suas cores, o preto e amarelo da empresa ferro carril.

Em 28 de setembro daquele ano, as 8 horas da noite, se juntaram nas oficinas da empresa quinze desportistas para começar a grande história de fundação do novo clube. Após duas horas de discussão, se formou o Conselho Diretivo com oito membros, sendo eleito presidente o senhor Frank Henderson, que era gerente da empresa.

O novo clube foi batizado com o nome de CURCC (abreviação de Central Uruguay Railway Cricket Club), contando com 118 sócios fundadores, dos quais somente 45 eram uruguaios.

A primeira partida do CURRC ocorreu em 1892 contra a equipe do colegio English High, com vitória por 2 X 0. Neste mesmo ano o novo clube enfrentou o Albion, que seria durante anos o seu maior rival no futebol uruguaio.

O ano de 1900 marcou a fundação da The Uruguay Association Football League, que depois mudou a denominação para AUF (Associacion Uruguaya de Fútbol). O CURRC seria um dos fundadores ao lado de Albion Football Club, Uruguay Atletic Club e Deutscher Fussball Klub. O o primeiro presidente da Liga foi o desportista Percy D. Charter.

Nesse mesmo ano foi disputado o primeiro campeonato Uruguaio com os clubes fundadores, tendo o CURRC se sagrado campeão invicto, com 6 jogos, 6 vitórias, 36 gols a favor e 2 contra. A estréia do CURRC foi contra a equipe do Albion e vitória por 2 X 1. O Peñarol formou com Fabre - de los Ríos e Buchanan – Ward - Mazzucco e Davies – Pena – Acevedo – Lewis - Camacho e Jackson.

Em 13 de dezembro de 1913 aconteceu uma histórica assembléia que mudou a historia do clube e gera muita polêmica até hoje: qual a data que verdadeiramente deve ser oficialmente a de fundação? Em 28 de setembro de 1891 ou 13 de dezembro de 1913? É o que os uruguaios chamam de “decanato”. Quando o clube foi fundado com o nome de CURRC, existiam dois tipos de sócios - os trabalhadores e dependentes da empresa de Ferrocarril, que podiam votar e ser votados para os cargos de diretoria, e os não trabalhadores que não tinham voz nem voto.

Na assembléia ficou decidido que não mais haveria distinção de sócios. Durante os debates surgiu a idéia de mudança do nome do clube, que foi aceita sem contestação. O CURRC deixou de existir, nascendo o C.A. Peñarol, uma homenagem ao vilarejo onde a agremiação deu seus primeiros passos. O novo nome foi oficializado em 12 de março de 1914.

Em 1918 o Peñarol montou uma equipe formada por grandes valores do futebol, que poderia medir forças com qualquer adversário no mundo. O histórico onze formava com Roberto Chery - José Benincasa e Pedro Rimolo (Alfredo Granja) - Juan Pacheco - Juan Delgado e J.Delacroix - José Perez - Armando Artigas - José Piendibene - Isabelino Gradín e Antonio Campolo. A conquista do torneio nacional desse ano acabou com a supremacia do Nacional que vinha de um tri-campeonato.

Essa década de 1910 ficou marcada pelo surgimento dos primeiros grandes jogadores do Peñarol, como Juan Pena, Mazzucco, Los Camacho, Mañana, Isabelino Gradín, Acevedo e o elegante José Piendibene, que, grande goleador, nunca festejava os seus gols por respeito aos adversários. Em meados dos anos 10 também nasceu a grande rivalidade, que permanece até hoje entre os dois maiores clubes do Uruguai: Peñarol e Nacional, “os Monstros de Montevidéo”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time do Peñarol, em 1900 (Foto: Acervo do C.A. Peñarol)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A morte ronda o futebol

A morte não pede licença, e em menos de uma semana ceifou a vida de três conhecidos ex-jogadores do futebol brasileiro. Na sexta-feira, dia 24 morreu aos 47 anos José Carlos da Costa Araújo, o goleiro Zé Carlos, que ganhou fama jogando pelo Flamengo do Rio de Janeiro. Ele sofria de um câncer na região do abdômen e desde o dia 27 de maio estava internado no Hospital da Ordem Terceira da Penitência, no bairro da Tijuca, em estado grave.

Zé Carlos começou a carreira em 1983, jogando pelo Americano de Campos (RJ). Depois foi para o Rio Branco (ES), onde o Flamengo foi buscá-lo em 1984, quando tinha 22 anos. Alto e ágil, logo se destacou, e já como titular conquistou o Campeonato Carioca de 1986.

O grande momento de Zé Carlos foi na Copa União de 1987, ganha pelo flamengo que tinha um time fabuloso, onde se destacavam jogadores como Renato Gaúcho, Zico, Leonardo, Leandro,Bebeto, Zinho, Jorginho e Andrade. Nesse ano, consagrou-se como o segundo goleiro na história do clube a marcar um gol, em partida contra o Nacional de Montevidéu. O primeiro foi Ubirajara, que acertou as redes do Madureira, em jogo disputado no dia 19 de setembro de 1970, no Estádio Luso Brasileiro e vencido pelo Flamengo por 2 X 0.

Zé Carlos fez parte da equipe brasileira medalha de prata nas Olimpíadas de Seul em 1988, sendo reserva de Tafarel. Em 1989 conquistou a Copa América com a Seleção principal. Em 1990 foi convocado por Sebastião Lazaroni, seu técnico no Flamengo, para a Copa de 1990, na Itália, onde mais uma vez foi reserva de Tafarel.

Ele ainda ganhou outro título nacional pelo Flamengo, a Copa do Brasil, em 1990. O ex-goleiro teve passagens pelo Cruzeiro de Minas Gerais, XV de Novembro de Piracicaba (SP), Tubarão de Santa Catarina, Vitória da Bahia e pelo futebol português, onde defendeu o Vitória de Guimarães, Farense e Felgueiras e retornou ao Flamengo em 1996. No ano seguinte, foi vice-campeão do Torneio Rio-São Paulo, quando o rubro-negro perdeu a final para o Santos no Maracanã.

Depois de aposentado, Zé Carlos jogou pelas equipes de masters e de showbol do Flamengo e fez parte da comissão técnica do América em 2006, junto com Jorginho, amigo dos tempos da Gávea. No período em que esteve doente, o Flamengo apoiou seu ex-jogador criando um site para coleta de fundos para ajudar nas despesas com o internamento.

Na noite de sábado, 25, faleceu, aos 74 anos, José Ferreira Franco, mais conhecido como Zequinha, que brilhou no Palmeiras durante os anos 60, jogando como médio, como se dizia na época, ou atual volante ou meio-campo, apesar de seu 1m66 de altura. O craque pernambucano, nascido em Recife no dia 18 de novembro de 1934, jogou ainda por Auto Esporte (PB), onde começou a carreira como jogador profissional aos 20 anos de idade, Santa Cruz (PE), entre 1955 e 1957, Fluminense (RJ), Atlético (PR), onde atuou ao lado de Bellini e Djalma Santos, e Náutico (PE), onde encerrou a carreira em 1970.

Zequinha, que morava em Olinda (PE), onde era dono de uma agência lotérica, estava internado em um hospital particular do Recife e morreu de falência múltipla dos órgãos. O velório foi realizado no domingo (26) no Cemitério Bom Jesus da Redenção, no bairro de Santo Amaro, área central da capital e o sepultamento às 11h de segunda-feira (27).

Oriundo do Santa Cruz do Recife, Zequinha chegou ao Palmeiras em 1958, quando tinha 23 anos. No alviverde paulista conquistou títulos importantes: Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1967), Taça Brasil (1960 e 1967), Torneio Rio-São Paulo (1965) e campeonato paulista (1959, 1963 e 1966). Pelo “Verdão”, o volante fez 417 jogos (247 vitórias, 83 empates e 87 derrotas) e marcou 40 gols. Fez parte do time conhecido como “a primeira academia”, dirigido pelo treinador Filpo Nuñes. Cunhado do ex-zagueiro Minuca, só perdeu o lugar no time verde com a chegado de Dudu.

O título mais importante da sua carreira foi o de Campeão do Mundo, em 1962, quando integrou o grupo comandado pelo técnico Aymoré Moreira, como volante reserva de Zito. Fez 17 partidas (14 vitórias, 1 empate e duas derrotas) e marcou dois gols com a camisa da seleção.

Ainda no sábado, 25, enquanto participava de uma “pelada” com amigos, em Campo Grande (MS), também morreu o ex-volante Cléber, que fez parte daquele maravilhoso time do Fluminense dos anos 1970. O time montado pelo ex-presidente Francisco Horta, era chamado de “a máquina tricolor”.

Cléber havia completado 55 anos, no último dia quatro de abril. Ele morava em Campo Grande desde que abandonou os gramados, depois de jogar pelo Operário daquela cidade. Atualmente, era comentarista esportivo da Rádio Clube de Campo Grande, onde também comandava o jornalismo esportivo da emissora. Cléber deixou esposa e três filhos. O sepultamento aconteceu no Cemitério Parque das Palmeiras, em Campo Grande.

Cleber Ribeiro Machado nasceu no interior do Rio de Janeiro. Começou a carreira nas categorias de base do Fluminense, quando foi chamado diversas vezes para a seleção brasileira. Foi lançado no time titular tricolor em 1974, pelo treinador Duque. O auge de sua carreira aconteceu nas conquistas dos certames cariocas de 1975 e 1976, quando o Fluminense contava com jogadores da envergadura de Carlos Alberto Torres, Rodrigues Neto, Carlos Alberto Pintinho, Rivelino, Gil, Doval.

Também jogou ao lado de Félix, Toninho, Abel Braga, Marco Antônio, Zé Mário, Erivelton, Paulo César Caju, Cafuringa, Manfrini e Gilson Gênio, entre outros. Destes jogadores, Cafuringa, Doval e Dirceu também são falecidos, assim como o treinador Didi, que dividiu com Duque, Paulo Emílio e Mário Travaglinni o comando dos times do Fluminense quando Cléber jogava.

Depois do Fluminense esteve no Náutico e Operário e jogou no Equador e Portugal. No futebol paulista, teve uma rápida passagem pelo XV de Jaú. (Pesquisa: Nilo Dias)

Zé Carlos, ex-goleiro do Flamengo. (Foto: Acervo do C.R. Flamengo)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Clássico pernambucano completa 100 anos (Final)

O Campeonato Pernambucano começou a ser disputado em 1915. O Flamengo do Recife foi o ganhador daquele ano. A primeira decisão entre Sport e Náutico aconteceu apenas em 1951, no cinquentenário alvirrubro. O “Leão” venceu o primeiro turno e o “Timbu” o segundo. Foi preciso uma disputa em melhor de três para ver quem seria o campeão. O Náutico ganhou duas partidas e conquistou o título.

A revanche do Sport veio quatro anos depois, quando festejava 50 anos de fundação. Adelmar da Costa Carvalho, que emprestaria seu nome para o estádio, assumiu a presidência no dia 3 de janeiro. Para a diretoria de futebol, foi escalado outro empresário de grandes posses, José Rosemblit. Menos de 20 dias depois, chegava ao Recife um dos técnicos mais famosos do País, Gentil Cardoso.

Era o ponto de partida para quebrar a hegemonia do Náutico na década. Porém, o time demorou a se acertar, como previra o próprio técnico. Por conta disso teve que aguentar a gozação dos alvirrubros após um 3 x 1 em plena Ilha do Retiro, justamente na estréia de Osvaldo Baliza, ex-goleiro da seleção brasileira.

O treinador pediu paciência, principalmente pela confiança em seu setor ofensivo, comandado por Traçaia, que viria a tornar-se, mais tarde, no maior artilheiro do Sport, com 201 gols. Naninho, Gringo, Soca e Geo completavam o quinteto. A competição começou em maio, mas o jogo que deu o título ao Leão só aconteceu no dia 8 de janeiro do ano seguinte nos “Aflitos”. Foi apertado, por 3 x 2. Traçaia (2) e Naninho marcaram para o Sport. Wilton e Ivanildo descontaram para o Náutico.

Em 1966 aconteceu a maior goleada numa final do Campeonato Pernambucano na era do profissionalismo, que começou em 1937. Em 21 de dezembro de 1966, o Náutico fechou a melhor de três na final contra o Sport com um inesquecível 5 X 1, nos “Aflitos”, que valeu o até então inédito tetracampeonato. Os gols foram marcados por Lala, Miruca, Nilo, Zé Carlos e Bita. Nessa década de 60 o Náutico tinha o famoso ataque das quatro letras: Nado, Bita, Nilo e Lala.

Bita era conhecido como o "Homem do Rifle", devido ao seu poder de fogo. Ele foi o maior artilheiro da história do clube, com 223 gols. Era chamado pelos torcedores de "o homem do rifle". Ao marcar um dos gols no massacre registrado no decisivo clássico, Bita chegou a 22 tentos na competição, conseguindo a artilharia pelo terceiro ano consecutivo, marca que seria igualada apenas em 1983, por Baiano.
Bita faleceu em 1992, com apenas 50 anos de idade, deixando a família alvirrubra órfã de seu grande ídolo.

Os últimos 12 anos haviam sido os mais cruéis para a torcida rubro-negra. Afinal, eles assistiram impassíveis o Náutico ser hexacampeão e o Santa Cruz conquistar cinco títulos consecutivos - só não chegou ao hexa graças ao grande time alvirrubro de 1974. Em 1975, com a ascensão de Jarbas Guimarães a presidência, o Sport montou uma verdadeira "Seleção do Nordeste".

Foram contratados jogadores renomados na época, como Dario (o Dadá Maravilha), Tovar, Luciano Veloso, Assis Paraíba e o português Perez. Para comandar a equipe, um dos maiores conhecedores do futebol pernambucano: David Ferreira, o famoso “Duque”. Ao todo, o clube gastou o equivalente a 60 automóveis zero quilômetro. Na final do Campeonato Pernambucano - um dos mais disputados da história, pois Santa e Náutico também contavam com equipes qualificadas -, o “Leão” se deparou com o “Timbu”, nos “Aflitos”.

O Náutico buscava o bicampeonato comandado por Jorge Mendonça no ataque. O jogo entrou para a história como um dos mais conturbados em razão da polêmica arbitragem de Sebastião Rufino, que não marcou dois pênaltis a favor do time da casa e ainda anulou um gol legitimo do alvirrubro. O Sport venceu por 1 X 0, gol de Assis, que penetrou na área e deu um leve toque, deslocando o goleiro Neneca. Foi o 20º título estadual do Sport, que acabou com a gozação dos rivais, que já chamavam o rubro-negro de “Leão XIII" (se perdesse, seriam 13 anos sem ganhar nada).

Outra partida que entrou para a história do “Clássico dos Clássicos” aconteceu em 14 de outubro de 1977, no estádio do Arruda. O Náutico, para ser campeão, precisava ganhar a terceira partida da melhor de três não só no tempo normal, mas na prorrogação também. Draílton fez 1x0 para o Timbu ainda nos 90 minutos, mas o drama se estendeu.

Naquele tempo, não havia disputa de pênaltis, e o jogo só acabava quando alguém fizesse um gol. E coube a Mauro Madureira, do Sport, balançar as redes, no terceiro tempo da prorrogação, após 158 minutos de jogo, já na madrugada do dia seguinte.

Em 2001, o Sport, que fora 5º colocado no Brasileiro contava os dias para sagrar-se hexacampeão pernambucano. Na penúltima rodada do primeiro turno, uma vitória sobre o Náutico, na Ilha do Retiro, deixaria o time muito próximo de conquistar uma vaga na final do Estadual. Mas numa quarta-feira à noite, em 16 de maio, mais de 28 mil torcedores assistiram aquela que é apontada como a grande vitória “timbu” sobre os leoninos nesta década.

Comandado por Muricy Ramalho, o Náutico conseguiu a vitória com um gol antológico do volante Adílson. O jogador - que sempre foi contestado nos Aflitos - cobrou uma falta da intermediária, acertando o ângulo do goleiro Neneca. A vitória por 2 X 1 recolocou o Náutico na briga pelo título. Posteriormente, o “Timbu” faturou o primeiro turno e o título pernambucano. Logo no ano do seu centenário.

Em 1977, surgiu no Sport um jovem jogador de 18 anos, de nome Roberto Almeida Nascimento. Devido o empenho com que disputava as jogadas, os torcedores logo o apelidaram de “Roberto Coração de Leão”. Com ele o Sport ganhou três campeonatos pernambucanos, 1977, 1980 e 1981. Roberto chegou a vestir a camisa da Seleção Brasileira.

O campeonato de 1981, foi na verdade, um supercampeonato, o único do Sport. No terceiro jogo do triangular, em 6 de dezembro, já com o Santa eliminado, Sport e Náutico disputaram o agora centenário clássico na Ilha do Retiro, com 37.332 torcedores. Lotação máxima. Isso porque a Ilha era bem menor que hoje. Sequer existiam os tobogãs atrás dos gols. Em um jogo que passou ao vivo para o Recife (algo raro na época), Roberto e Denô, a grande dupla de ataque do Sport nos anos 80, marcaram os gols da vitória por 2 x 0, garantindo o bicampeonato estadual.

No Brasileirão as centenárias agremiações também já se encontraram. Em 1987, ano em que foi campeão nacional, o Sport ganhou por 1 X 0. Depois bateu o Guarani de Campinas e conquistou o mais importante título de sua história. No ano seguinte, junto com o bugre campineiro, representou o país na Taça Libertadores da América. Porém, foi o Náutico o primeiro clube pernambucano a disputar a Libertadores, isso em 1968.

O dia 25 de julho não está restrito apenas ao clássico. Esse dia parece não fazer bem ao Sport. Em 2000, o time perdeu a oportunidade de voltar ao torneio internacional após 12 anos, quando na decisão da extinta Copa dos Campeões, perdeu para o Palmeiras por 2 X 1.

Grandes jogadores participaram do clássico nesses 100 anos de história. Pelo Sport, Marcilio de Aguiar (talvez o mais completo jogador pernambucano de todos os tempos), Pacoty, Raul Betancor, Ademir Menezes, Elo do Amparo, “Queixada”, Traçaia, Zé Maria, Almir ”Pernambuquinho”, Ribamar, vavaá “Peito de Aço”, Manga, Raul Bettancourt, Djalma, Juninho Pernambucano e Leonardo. No lado do Náutico, os irmãos Carvalheira, Ivson, Orlando “Pingo de Ouro”, Manoelzinho, Bita, Marinho Chagas, Baiano, Nivaldo, Bizu, Kuki, entre outros.

De acordo com o Ibope e a revista “Lance!”, o Sport é o dono da maior torcida do Nordeste, ocupando a 15º colocação nacional. Já o Náutico, tem a terceira maior torcida de Pernambuco e ocupa a 22º posição no ranking da CBF.

A história do jogo entre Sport X Náutico está contada em todos os detalhes no livro ”Clássico dos Clássicos – 100 anos de história” de autoria dos pesquisadores José Lucídio de Oliveira, Carlos Celso Cordeiro e Roberto Vieira, lançado na última sexta-feira (17/07), no salão nobre da Federação Pernambucana de Futebol (FPF). A obra compreende toda a história do clássico, desde o primeiro jogo, até o último, o de número 512, em 19 de abril de 2009, que, embora terminado em 0 X 0, sacramentou o título do Sport de tetracampeão pernambucano.

O curioso é que o livro tem capa dupla, uma alvirrubra e uma rubro-negra e conta com os prefácios dos jornalistas Juca Kfouri e Celso Unzelte e as apresentações dos jornalistas Fernando Menezes, do “Jornal do Commercio”, e Lenivaldo Aragão. Já as orelhas foram escritas pelo pesquisador social Túlio Velho Barreto e pelo ex-goleiro do Sport e escritor, Valdir Appel.

A publicação aborda as 50 melhores vitórias de Sport Recife e Náutico quando se enfrentaram, 25 de cada clube. Curiosidades e estatísticas também compõem a obra, que é um documento muito valioso na história do futebol não só pernambucano, como nacional. A edição é limitada, apenas 500 exemplares.

Principais títulos do Náutico. Campeonato Pernambucano: (1934, 1939, 1945, 1950, 1951, 1952, 1954, 1960, 1963, 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1974, 1984, 1985, 1989, 2001, 2002, 2004); Tetracampeão do Torneio Norte-Nordeste: (1952, 1963, 1964 e 1965) e vice-campeão da Taca Brasil (1967),

Principais títulos do Sport. Campeonato Brasileiro: (1987); Campeonato Brasileiro Série B: (1987 e 1990); Copa do Brasil: (2008); Copa Norte-Nordeste: (1968); Copa Nordeste: (1994, 2000. Campeonato Pernambucano: (1916, 1917, 1920, 1923, 1924, 1925, 1928, 1938, 1941, 1942, 1943, 1948, 1949, 1953, 1955, 1956, 1958, 1961, 1962, 1975, 1977, 1980, 1981, 1982, 1988, 1991, 1992, 1994, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000, 2003, 2006, 2007, 2008 e 2009). (Pesquisa: Nilo Dias)

Sport, campeão brasileiro de 1987. (Foto: Acervo do Sport Club Recife)
Náutico, bicampeão pernambucano, 2001/2002. (Foto: Acervo do Clube Náutico Capibaribe)

OBSERVAÇÃO: O clássico disputado ontem na Ilha do Retiro, terminou empatado em 3 X 3.

domingo, 26 de julho de 2009

Clássico pernambucano completa 100 anos (1)

Sport e Náutico jogam neste domingo no estádio da Ilha do Retiro, o clássico de número 513 de toda a história. Uma taça comemorativa estará em disputa. Quem vencer a partida, válida pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro, leva o troféu para casa. Se houver empate, cada um dos clubes receberá uma réplica. O primeiro clássico aconteceu no dia 25 de julho de 1909, no campo do British Country Club, da colônia inglesa em Recife, e se localizava onde hoje está o Museu do Estado, no bairro das Graças. O Náutico, fundado em 1901, para a prática de esportes aquáticos, foi o vencedor pelo escore de 3 X 1, perante cerca de 3 mil torcedores. O Sport foi fundado em 1905.

Para os jornais da época, uma surpreendente vitória alvirrubra, já que o Sport era considerado franco favorito. Quem marcou o primeiro gol da história foi Roland Maunsell, que também fez o segundo. A vantagem alvirrubra aumentou no segundo tempo, com D. Thomas. Em seguida, C. Chalmers diminuiu para os rubro-negros.

O Sport jogou com: L. Latham - N.D.T.Oliver e W.H.Muller - Frank Fellows - W.Pickwood e Willie Robinson - Alberto Amorim - S.T.Marsh - L.Griffith - C.Chamlmers e J.Amorim. Reservas: O. Von Shosten e A.Lundgren. O Náutico formou com: H. King - E. Montagne Smith e H.A.R. Ávila - R. Ramage - F.M. Ivatt e John Cook - A.Silva - H. Grant Anderson - R.Maunsell - D.Thomas e João Maia. Reserva: Mac Pherson. Ainda naquele ano os dois se enfrentaram mais uma vez, com nova vitória alvirrubra, por 2 x 0.

Tanto Náutico como Sport eram times formados por jogadores ingleses. O Sport jogou com calções brancos e camisas vermelhas e pretas em listras verticais, sem escudo. Tinha como vantagem a experiência de ter realizado outras dez partidas anteriormente. O Náutico, que fazia seu primeiro jogo de futebol atuou todo de branco, e na camisa havia um escudo com uma âncora, dois remos e as letras CNC. Após o jogo os atletas dos dois times confraternizaram no palacete do British Club, com discursos e muita champagne.

O primeiro jogo entre ambos valendo pontos foi realizado no dia 21 de maio de 1916, também no campo do British Country Club, com vitória do Náutico por 4 X 1. Quase quatro meses depois, veio a revanche. Num campo lotado, na Ponte d'Uchoa, os rubro-negros pagaram a dívida com juros e correção monetária e fizeram a maior diferença de gols entre os dois times nos 100 anos de história: 8x0. Motta fez 4, Vasconcelos 3, e Smith completou o marcador.

O Náutico levou 20 anos para devolver o vexame. A goleada começou em dezembro de 1934, num jogo bastante tumultuado. O Náutico vencia por 2 x 0 quando o Sport diminuiu e começou a pressionar. De acordo com o pesquisador Carlos Celso Cordeiro, o Náutico começou a fazer cera e provocar o juiz. Naquela época, quando o juiz era pressionado, era substituído, ao contrário de hoje quando os atletas indisciplinados são expulsos.

A demora foi tamanha que o jogo entrou pela noite. Como não havia refletores, a partida teve que ser suspensa. A prática previa que o tempo restante seria completado no dia seguinte. O Sport não aceitou e propôs uma nova partida começando do 0 X 0.

O novo confronto foi marcado para 31 de março, já em 1935 no campo da Avenida Malaquias. Aos dois minutos, Estácio fez 1 X 0 para o time vermelho e branco. Aos 15, Zezé aumentou para 2 X 0. Cinco minutos depois Fernando fez 3 X 0 em cobrança de pênalti. Mais três minutos e outro Carvalheira, Artur, marcou 4 X 0. Aos 37, Estácio fez 5 x 0, terminando o primeiro tempo.

Aos cinco da fase final, Fernando Carvalheira driblou quem apareceu pela frente e fez o sexto. O Sport conseguiu seu gol solitário aos 21, após Marcílio Aguiar aproveitar rebote de Osvaldo Salsa. Um minuto depois Fernando Carvalheira fez 7 X 1. Para fechar com chave de ouro, Artur Carvalheira fez o oitavo no minuto final.

Embora Náutico e Sport já tenham goleado um ao outro com oito gols, essas duas partidas não se constituíram como as maiores quantidades de gols marcados. O feito ocorreu no dia 14 de junho de 1947, quando o Náutico venceu por 7 X 3. O goleiro do Sport era o lendário Manuelzinho.

O jogo valia pelo turno eliminatório do Estadual. O Náutico estava repleto de juvenis, enquanto o Sport apresentava um time mais experiente, com Chicão e Zago, além de Manuelzinho. Antes dos 30 minutos da etapa inicial o jogo já estava 3 X 0 para o Náutico. Alcidésio, Zeca e Idimiar foram os goleadores. Dega e Molina diminuíram o marcador para o rubro-negro, mas Idimar fez mais um pouco antes do fim do primeiro tempo, que terminou 4 X 2 para o Náutico. No segundo tempo, o Náutico marcou mais três vezes, com Zeca, Carlos Alberto e Genival. Aos 43 minutos, Alheiros descontou, ficando o placar final em 7 X 3.

O clássico Náutico X Sport é o terceiro mais antigo do Brasil, ficando atrás apenas do “Clássico Vovô, entre Botafogo X Fluminense (22/10/1905), no Rio de Janeiro e o Gre-Nal (18/07/1909), no Rio Grande do Sul.

Segundo alguns jornalistas e pesquisadores Náutico X Sport é verdadeiramente o segundo clássico mais antigo do Brasil, e não o terceiro, como se pensa. A polêmica sobre o clássico mais antigo tem justificativa. O “Clássico Vovô” entre Botafogo x Fluminense, datado de 1905 seria o mais antigo. Mas na época existiam dois Botafogos: o Club de Regatas, e o Football Club. Com a união em 1942, o Botafogo de Futebol e Regatas de hoje, herdou os títulos do antigo Botafogo Football Club.

Há um grande equívoco sobre o “Clássico Vovô”, porque o Botafogo que jogou contra o Fluminense foi extinto. Só em 1942 que houve a fusão dos dois Botafogos, com outro estatuto. Já Internacional, Grêmio, Sport e Náutico são instituições centenárias de vidas perenes, sem interrupções, diz o jornalista e pesquisador Galvão Neto.

Por esta visão, o clássico gaúcho entre Internacional x Grêmio, iniciado em 18 de julho de 1909 passa a ser o mais antigo no Brasil, sendo seguido por Sport x Náutico de 25 de julho de 1909, seis dias depois do Grenal.

O jogo entre Sport X Náutico disputa em importância com o “Clássico das Multidões” envolvendo Santa Cruz X Sport e com o “Clássico das Emoções”, disputado entre Náutico X Santa Cruz. Bem antes, o jogo entre América Football Club e Sport Club do Recife era chamado de “Clássico dos Campeões”. A denominação surgiu por que até o inicio da década de 1930, eram os dois times que detinham a maior quantidade de títulos e também eram os dois principais clubes da cidade. O “Clássico dos Campeões” foi o primeiro clássico de expressão entre equipes da capital pernambucana.

A rivalidade entre alvirrubros e rubro-negros vai além da quantidade de vitórias. Isso, porque o Náutico é o único clube pernambucano que conquistou o hexacampeonato estadual, assumindo assim o slogan de que "Hexa é Luxo". Tal provocação mexe com o ânimo do Sport, que há alguns anos tenta derrubar o prestígio alheio. Em 2006, o rubro-negro iniciou uma caminhada que já soma quatro títulos no Campeonato Pernambucano.

Até os anos 40, o confronto entre Sport X Náutico era chamado de "Fla-Flu Pernambucano", uma referência ao maior clássico do país na época. Depois foi ganhando personalidade própria, até virar o "Clássico dos Clássicos".

Dos 512 jogos já disputados, o Sport venceu 197, o Náutico, 169 e se verificaram 145 empates. Até hoje não se sabe o resultado de um jogo, que valeu pelo “Torneio Terezinha de Jesus”, que completa a estatistica. Foram marcados 1.321 gols, 687 do Sport e 634 do Náutico. A Ilha do Retiro é o local onde se realizaram mais clássicos, 207 ao todo. O maior artilheiro é Fernando Carvalheira, atacante do Náutico nos anos 30, que fez 26 gols. O principal goleador do Sport no clássico é Traçaia, que jogou nos anos 50 e marcou 13 gols.

O maior público de todos os tempos foi no jogo Sport 2 X 0 Náutico, disputado no dia 15 de março de 1998, no Estádio do Arruda, com 80.203 torcedores. Os árbitros que mais apitaram o clássico foram Sebastião Rufino e Gilson Cordeiro, ambos em 35 oportunidades. O campeonato pernambucano é a competição onde mais se enfrentaram, 384 vezes. (Pesquisa: Nilo Dias)

Sport, bicampeão pernambucano, 1955/1956. (Foto: Acervo do Sport Club Recife).Náutico, campeão pernambucano de 1934. (Foto: Livro "A história do futebol em Pernambuco").

domingo, 19 de julho de 2009

Grenal, um clássico de 100 anos (Final)

Os anos 90 apresentaram algumas surpresas. Em 1991 o Grêmio realizou uma péssima campanha no Campeonato Brasileiro e acabou caindo para a segunda divisão, para delírio dos torcedores do Internacional. O presidente do clube era Rafael Bandeira, que passou a ser considerado um vilão por conselheiros e torcedores, a ponto de não ter sua fotografia colocada na Galeria dos Ex-Presidentes.

Como última tentativa de melhorar sua imagem, o presidente trouxe de volta o atacante Renato Portaluppi, que em 1986 havia se transferido para o Flamengo do Rio de Janeiro. De nada adiantou, o Grêmio perdeu a Copa do Brasil para o Criciúma, treinado por Luiz Felipe Scollari e o campeonato gaúcho para o Internacional.

Em 1993 o jogador Dener, com 21 anos de idade veio para o Grêmio e ajudou a conquistar mais um título gaúcho para o clube das três cores. Foi uma passagem rápida, no ano seguinte foi para o Vasco da gama do Rio de Janeiro, onde morreu tragicamente em um acidente automobilístico.

Nesse ano de 1994 aconteceu o mais longo campeonato gaúcho de todos os tempos. Foram 506 partidas. O absurdo chegou ao ponto do Grêmio ter que realizar três jogos no mesmo dia. Foi em 11 de dezembro, no Estádio Olímpico, diante de um público de 758 pessoas, com 247 pagantes. Às 14 horas o Grêmio empatou com o Aimoré em 0 x 0. Às 16 horas ganhou do Santa Cruz por 4 X 3 e às 18 horas bateu o Brasil de Pelotas, por 1 X 0. O Inter foi campeão gaúcho e o Grêmio da Copa do Brasil, garantindo vaga para a Libertadores do ano seguinte.

Em 1997, no Grenal decisivo do Campeonato Gaúcho, o Internacional, para enganar o rival, simulou uma lesão grave em Fabiano, seu principal atacante. No último treino antes do clássico, Fabiano caiu ao chão se contorcendo de dor, imobilizou o joelho e ficou de muletas. Na hora do jogo revelou-se a farsa: Fabiano não estava lesionado, o que nem mesmo os outros jogadores sabiam até a hora de entrar em campo. Fabiano jogou os 90 minutos e fez o gol que deu o título ao Internacional, treinado por Celso Roth.

Em 1998 o interior voltaria a vencer o Gauchão, o que não acontecia desde 1939, quando o Rio-Grandense de Rio Grande foi campeão. Nesse ano o jogador Dunga, capitão da Seleção Brasileira nas Copas de 1994 e 1998 despedia-se dos gramados, vestindo a camisa do Internacional, onde iniciou a carreira. No Grêmio surgia Ronaldinho Gaúcho, que depois seria um dos mais perfeitos jogadores de futebol de todo o mundo, jogando na Europa. No Grenal de 20 de junho daquele ano, Ronaldinho Gaúcho aplicou um drible histórico sobre o veterano jogador de 36 anos.

No campeonato de 1998 foi o Internacional que andou as voltas com um pai-de-santo, que acusou o clube de não lhe pagar por serviços espirituais feitos no ano anterior. Efeito ou não do além, o certo é que o Inter empatou em 0 X 0 o jogo da semifinal contra o Veranópolis.

Consta que o pai-de-santo Antônio deu uma ajuda ao Veranópolis, espalhando enxofre e vinho no vestiário colorado, além de muita bala de mel pelo gramado do Estádio Antônio David Farina. E ainda faltou luz nos chuveiros, obrigando os jogadores do Internacional a tomar banho frio. No jogo de volta no Beira Rio, o Inter fez 4 X 0.

Em 2000 o interior voltou a brilhar, desta vez com o Caxias que se sagrou campeãs, depois de bater o Grêmio por 3 X 0 no Estádio Centenário, e empatar o segundo jogo no Olímpico, em Porto Alegre, por 0 X 0. O curioso é que o time da Serra Gaúcha estava sem receber salários há quatro meses.

Nestes anos 2000 o Internacional tem sido superior ao Grêmio. O atacante Fernandão marcou o gol mil do clássico e se tornou um ídolo da torcida. Em 2005 o Grêmio amargou sua segunda queda para o Campeonato Brasileiro da Série B. Por outro lado, o Internacional conquistou os maiores triunfos de toda a sua centenária história: campeão da Copa libertadores da América e do Mundo em 2006, campeão da Recopa em 2007 e Campeão da Copa Sulamericana em 2008.

Hoje a tarde, 16 horas, o Rio Grande do Sul vai parar para ver o clássico Grenal de número 377. A importância do jogo é enorme, por vários fatores: 1) – porque o clássico atinge 100 anos de história. 2) - porque o Grêmio não vence à 7 jogos. E 3 -, porque seio Internacional perder é provável que aconteça a queda do técnico Tite.
A estatística do clássico é amplamente favorável ao internacional. Em 376 jogos, o colorado venceu 141 e marcou 538 gols. O Grêmio venceu 118 vezes e marcou 499 gols. A diferença é de 23 vitórias e 39 gols pró Internacional. Nesses 100 anos, aconteceram 117 empates. (Pesquisa: Nilo Dias)

Hoje é o dia do Grenal centenário.

sábado, 18 de julho de 2009

Grenal, um clássico de 100 anos (6)

O Grêmio mandou no futebol gaúcho até 1968. Foram longos sete anos. Em 1969 o Internacional reagiria com várias ações que mudariam o destino do clube. Primeiro, foi contratado o técnico Daltro Menezes, vindo do Juventude de Caxias, que montou um time mesclado por jogadores experientes e alguns jovens. A diretoria também inovou ao confiar o futebol a um quinteto de jovens que trouxe novos conceitos e implantou uma filosofia vitoriosa de trabalho, que se prolongou pelos próximos oito anos. Eram eles: Ibsen Pinheiro, Ivo Corrêa Pires, Claudio Cabral, Hugo Amorim e Paulo Portanova, que entraram para a história como “os Mandarins”.

No Grenal decisivo do campeonato daquele ano, quando bastava o empate para o Inter ser campeão, aconteceram alguns fatos que mostraram claramente que os dirigentes não estavam para brincadeira. O árbitro Zeno Escobar Barbosa não deixava o jogo andar, cobrava falta em cima de falta. No intervalo o dirigente colorado Ivo Correia Pires se aproximou do juiz e o encheu de desaforos: “Gato, ladrão, gremista. Pode me expulsar se quiser, seu ladrão”.

Com o clima bastante quente, veio o segundo tempo de jogo. Aos 16 minutos Valdomiro fez 1 X 0 para o Internacional, mas o gol foi anulado sob a desculpa de que houvera falta em Everaldo. A torcida, na esmagadora maioria do Internacional, quase enlouqueceu. Os jogadores pressionavam o árbitro. Foi quando o dirigente Ibsen Pinheiro entrou no gramado, calmamente, com as mãos no bolso. A Policia Militar nem esboçou reação, visto que ele não gesticulou e nem estava agitado. Todos pensavam que ele ia acalmar os ânimos.

Ledo engano. Ibsen chegou junto a Zeno Escobar Barbosa e advertiu, olho no olho: “Isso aqui está uma loucura. Nós todos vamos morrer aqui dentro. O povo vai pular os portões da “coréia” (era um local onde os ingressos eram mais baratos) e vai ser um massacre”. O juiz apenas balbuciou: “Deixa comigo, deixa comigo, deixa comigo”.

E realmente as coisas começaram a se acomodar. O juiz expulsou Volmir e Alcindo saiu de campo machucado. O Grêmio já havia feito as duas substituições permitidas na época e ficara com 9 jogadores em campo. Tudo parecia encaminhar-se para um final tranqüilo, até que aos 40 minutos o zagueiro Áureo deu um chutão de longe, a bola ia em direção ao gol. Silêncio profundo no estádio. Até o juiz rezou para que a bola não entrasse. E esta, caprichosamente passou rente ao poste superior da meta de Gainete.

Alivio geral. Os minutos restantes foram gastos com a bola andando de pé em pé dos jogadores colorados. Zeno Escobar Barbosa não deu nem um minuto de acréscimo e o Internacional comemorou o título.

Em 1971 o campeonato parou no “tapetão”. Foi o famoso caso “Land”. O Internacional lançou o jogador, recém contratado junto ao Rio Branco, do Espírito Santo, em uma partida contra o São José. Porém, o jogador já havia participado do campeonato capixaba. Pela legislação, estava impedido de disputar outro estadual. O Grêmio chegou a pagar a viagem de um advogado do São José, ao Espírito Santo, em busca de provas contra o Inter. O caso acabou sem solução, e o Inter sagrou-se tricampeão gaúcho.

Ainda em 1971 o Internacional trouxe o zagueiro chieleno Elias Figueroa, que jogava pelo Peñarol de Montevídeu. E o Grêmio trouxe do Nacional, também do Uruguai, o zagueiro Atílio Ancheta, que se tornariam ídolos em seus clubes.

Os anos que se seguiram foram do mais completo desespero para os gremistas. O Inter superou o hepta do Grêmio e se tornou octacampeão. Além disso, ainda ganhou três campeonatos brasileiros, em 1975, 1976 e 1979, este de forma invicta, marca que permanece até hoje como única. O time era uma verdadeira máquina de jogar futebol: Manga – Cláudio – Figueroa – Hermínio (Pontes) (Marinho) e Vacaria – Caçapava (Jair) – Batista (Escurinho) e Falcão – Valdomiro – Dario (Flávio) e Lula.

Em 1977 o Grêmio conseguiu romper a longa série de conquistas do rival. O time era: Corbo – Eurico – Ancheta (Cassiá) – Oberdan e Ladinho – Vitor Hugo – Tadeu Ricci e Iúra – Tarciso – André Catimba (Alcindo) e Éder.

Nesse ano foi o Inter quem recorreu ao “tapetão” para tentar anular o Grenal que deu o título ao Grêmio. Cinco minutos antes do jogo terminar a torcida invadiu o campo e a equipe colorada optou por se retirar. Não levou. O dirigente gremista Nélson Olmedo proferiu a frase que virou jurisprudência esportiva: “Bicho no bolso, faixa no peito, taça no armário, não há o que discutir”.

Os anos 80 foram marcados pelo equilíbrio entre os dois clubes. De 1981 a 1984 só deu Internacional. De 1985 até 1990 o Grêmio foi campeão. E ainda ganhou o Brasileiro de 1981, a Libertadores e o Mundial de Clubes em 1983.

Em 12 de fevereiro de 1989, aconteceu o clássico de número 297, que entrou para a história como o “Grenal do Século”. Talvez ainda demore muitos anos, para que ele seja superado em emoção e drama. Depois dele, já aconteceram muitos outros clássicos, mas nenhum tão eletrizante. O jogo valia pelas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1988 e garantia uma vaga a Copa Libertadores de 1989. Quem vencesse iria decidir o título nacional.

O Internacional era treinado por Abel Braga e o Grêmio por Rubens Minelli, que havia ganho pelo Internacional os campeonatos brasileiros de 1985 e 1986. O Beira Rio recebia quase 80 mil torcedores. O Grêmio fez 1 a 0 aos 16 minutos, com Marcos Vinícius. O drama do Inter aumentou com a expulsão de Casemiro aos 37.

No segundo tempo, aos 16 minutos, Nilson empatou o jogo. Aos 26, virou, ao aproveitar cruzamento de Maurício. Na comemoração, imitou o personagem Sassá Mutema, um cortador de cana interpretado por Lima Duarte na novela “O Salvador da Pátria”. Festa vermelha no Beira Rio (Pesquisa: Nilo Dias)

Nilson comemorando o gol da vitória do Internacional, no "Grenal do Século". (Foto: Acervo do S.C. Internacional)