Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O futebol da Mondálvia

Em agosto do ano passado o futebol na Moldávia comemorou 100 anos de existência. Até o Presidente da União Européia de Futebol (UEFA), o ex-craque francês Michel Platini esteve em Chisinau, capital do país participando das celebrações e felicitando os dirigentes da “Federaţia Moldovenească de Fotbal” (Federação de Futebol da Moldávia-FMF), que completou 20 anos de existência em 14 de abril do ano passado.

A primeira partida de futebol disputada na Moldávia aconteceu em 29 de agosto de 1910. A data foi lembrada com um jogo amistoso entre as equipes de veteranos da Moldávia e da Geórgia, que foi assistida por Platini. A Moldávia já fez parte da Romênia e da União Sovética e nunca disputou uma Copa do Mundo e nem se classificou para as fases finais do campeonato europeu.

O presidente da UEFA elogiou o trabalho da FMF e seu presidente Pavel Cebanu, afirmando que existem todos os motivos para se acreditar que o futebol tem um grande futuro na Moldávia. O país conta com sólidas bases para futuras infra-estruturas de treinamento. A FMF está afiliada à UEFA desde 1993 e a FIFA desde 1994. Após o fim da União Soviética, a Seleção da Moldávia disputou sua primeira partida em 2 de julho de 1991, tendo como adversário a Seleção da Geórgia.

Os dois melhores resultados alcançados pelo time nacional vieram durante a qualificação para o Campeonato Europeu de Futebol de 1996, quando obteve vitórias sobre a Geórgia (1 X 0), em Tbilisi, e País de Gales (3 X 2), em Chisinau. ou da Copa do Mundo da FIFA.

A Seleção da Mondálvia teve três participações no Campeonato da Europa, tendo disputado 26 jogos, com cinco vitórias, quatro empates e 16 derrotas. O time marcou 23 gols e sofreu 63. O treinador da seleção é Gavril Balint, a braçadeira de capitão está entregue a Sergey Laschenkov. O maior artilheiro da equipe mondálvia é Sergey Kleschenko, que marcou 11 gols. O jogador que mais atuou foi Radu Rebeja, com 74 participações.

O histórico da Mondálvia em Copas do Mundo mostra que não se inscreveu em 1930 e 1938, pois estava integrada a Seleção da Romênia. De 1950 aa 1994, novamente não se inscreveu, pois integrou a seleção soviética de futebol. De 1998 a 2010, não se classificou.

O histórico em Campeonatos Europeus mostra que de 1960 a 1992 não se inscreveu, tendo integrado a seleção soviética de futebol. De 1996 a 2008, não se classificou.

O maior feito da história do futebol da Mondálvia aconteceu em 2009, no estádio do FC Sheriff. Na ocasião, em jogo válido pela Pré-Eliminatória do Campeonato Europeu Sub-21, a Seleção da Moldávia derrotou a Seleção da Alemanha por 1 X 0. A vitória ganhou em importância porque o time mondálvio atuou sem o seu melhor jogador, Terek Groznyi, que estava de serviço para a equipe ucraniana.

O principal clube do país é o Fotbal Club Sheriff, da cidade de Tiraspol, mais conhecido como Sheriff Tiraspol (em russo: ФК Шериф Тирасполь), fundado em 1997. É eneacampeão (nove vezes campeão) do Campeonato Mondálvio, tendo conquistado todos os títulos de forma seguida: 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008 e 2009. Ganhou ainda a Copa da Mondálvia em 1999, 2001, 2002, 2006 e 2008 e a Copa CIS em 2003 e 2009. O treinador é o russo Andrey Sosnitskiy.

O Sheriff Tiraspol, que usa camisa amarela e preta é recordista mundial em jogos invictos. Ficou mais de um ano e meio e 47 partidas sem perder. O São Paulo foi o clube brasileiro que mais chegou perto, porém acabou perdendo quando disputava sua 30ª partida.

O sucesso do Sheriff se deve a três fatores: a presença de um quarteto brasileiro bom de bola, ao dinheiro de seu presidente russo, Victor Gusan e ao fato de o Campeonato da Moldávia ser muito fraco. Thiago, Leandro, Wallace e Nadson são os primeiros brasileiros a jogar no gelado país europeu, e ganham cerca de R$ 12 mil por mês. Eles estão a 10.101,61 km, de Brasília.

Vivem num paraíso, por conta da grana investida no clube. Para se ter uma idéia, o Sheriff conta com três estádios: o maior é usado no verão; o segundo, coberto, é aproveitado quando neva; e o terceiro conta com grama artificial e também é completamente fechado. O centro de treinamentos apresenta nada menos do que dez campos com dimensões oficiais.

O Sheriff tornou-se o primeiro clube da Moldávia a chegar a Terceira Eliminatória da Liga dos Campeões da Uefa, coisa que os demais times moldávios não conseguiram nem pensar. Entretanto, o sonho de se tornar o primeiro clube moldávio na "Champions" foi por água abaixo em decorrência da derrota para os holandeses do Twente.

O time mais novo da Moldávia é o Football Club Milsami Orhei, antigo Football Club Viitorul, da cidade de Orhei, fundado em 1997. Nele joga o brasileiro Caio Garcia, que quando garoto no Saão Caetano. Passou pela base do Mesc e Mercedes, até chegar ao São Paulo (futsal).

Em seguida, foi para o ABC de Natal (RN), onde excursionou pela Espanha. Lá, firmou acordo e permaneceu no Velho Continente onde atuou em times da terceira divisão. A Romênia foi o próximo passo. Após passagem pelo Arad, surgiu a proposta para atuar na Moldávia. Outros dois brasileiros jogam no clube, o paranaense Ademir Xavier e o paulista Pedrinho.

A liga modalvia conta com 14 equipes e é jogada em três turnos de pontos corridos. A maioria das partidas são realizadas aos sábados ou domingos. A cada 15 dias, acontecem jogos no meio da semana.

A temporada começa no mês de agosto. No fim de dezembro e janeiro, ocorre pausa em virtude do inverno rigoroso. Após esse período, a competição retorna no começo de fevereiro e termina no fim de maio.

O Flamengo, em 11 de julho de 1964 enfrentou amistosamente a Seleção da Federação da Moldávia, pois o país, na época, integrava a URSS. O time carioca venceu por 1 X 0.

No fim da Segunda Guerra Mundial, a Moldávia, que foi incorporada à Romênia no passado, tornou-se parte da União Soviética. Em 1991 o país conquistou a independência. Entretanto, forças russas ficaram para dar apoio ao povo eslavo, predominantemente russos e ucranianos, que anunciaram uma república da “Transnístria”.

A República da Moldávia é um dos países mais pobres da Europa, e elegeu um comunista como seu líder em 2001. A capital é Chisinau (Kishinev) e a língua oficial é o moldávio, virtualmente o mesmo que o romeno. A bandeira tem três listras verticais iguais de azul (lado do mastro), amarelo e vermelho; o emblema no centro é de uma águia romana de ouro delineada em preto com um bico vermelho, no qual carrega uma cruz amarela.

Na garra direita carrega um ramo verde de oliva e na esquerda um cetro amarelo; em seu peito está um escudo dividido horizontalmente em vermelho e azul com uma cabeça de boi estilizada, uma estrela, uma rosa e um crescente, todos em amarelo delineados em preto; o mesmo esquema de cores da Romênia.

A Moldávia, que faz fronteira com a Ucrânia e Romênia, tem uma população de 4.324.450 habitantes, de acordo com o senso de julho de 2008. A maior cidade é Chisinau, com uma área de 33.843 km². O que chama a atenção é o índice de alfabetização que chega a 99,1%, segundo dados de 2005.

Mesmo quase sem analfabetos e apesar de seu desenvolvimento econômico recentes, a Moldávia ainda é um dos países mais subdesenvolvidos da Europa. A economia depende fortemente do tabaco, vinho, legumes e frutas. O país importa a maior parte de seus recursos energéticos, especialmente da Rússia. Os desafios enfrentados pela economia incluem um clima agrícola pobre, altos preços de combustíveis e a falta de investimento estrangeiro.

O índice de desemprego é de 2,1%. Aproximadamente 25% dos moldávios em idade produtiva estão empregados no exterior, de acordo com dados de 2007. (Pesquisa: Nilo Dias)

FC Sheriff, o time mais popular da Mondálvia. (Foto: Divulgação)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O “Homem de Papel” (Final)

Chegou o ano de 1934 e a segunda edição da Copa do Mundo, dessa feita na Itália. Os austríacos eram considerados os grandes favoritos. E o time começou bem, vencendo a França nas oitavas de final por 2 X 1, com um gol de Sindelar, e a Hungria nas quartas de final, também por 2 X 1. Na semifinal a Áustria pegou a Itália, a quem tinha vencido há pouco tempo, dentro de Roma, por 2 X 1.

Mas dessa vez foi diferente. O ditador Benito Mussolini fazia de tudo para a Itália vencer a Copa. Contam que o juiz sueco Ivan Eklind, jantou com Mussolini uns dias antes. E o cardápio deve ter sido ótimo, porque durante o jogo ele fez de tudo para ajudar os italianos. Não via uma falta a favor dos austríacos e não marcou um pênalti claro em cima de Sindelar. A Itália se classificou para a final e o sueco foi novamente escolhido para dirigir o jogo. E a Itália ganhou na prorrogação.

Sindelar apanhou tanto no jogo contra a Itália, que não conseguiu participar da decisão do terceiro lugar, quando os austríacos perderam para a Alemanha, por 3 X 2. Nesse jogo, como as duas seleções tinham camisas iguais, a Áustria teve de usar o uniforme do Nápoli.

A Áustria se classificou bem para a Copa de 1938, na França. Mas, no dia 12 de março de 1938, o país foi anexado pela Alemanha. Ou seja, a Áustria sumiu do mapa. Faltavam aproximadamente três meses para o Mundial. A invasão da Áustria pelo exército alemão significou o fim temporário do futebol austríaco. Apenas dois meses depois, todos os contratos de jogadores profissionais foram dissolvidos e os clubes judeus, entre eles o Áustria Viena, foram proibidos.

O "Wunderteam" (Time Maravilha), como era conhecida a fabulosa seleção austríaca dirigida por Hugo Meisl, foi obrigada a se fundir com a seleção alemã. Dali em diante os jogadores austríacos teriam que jogar pela seleção da Alemanha.

Nessa época, Sindelar havia comprado uma cafeteria para ter uma segunda renda e passou a se recusar a defender a seleção nacional do Império Alemão, embora tenha sido várias vezes convocado pelo técnico Sepp Herberger.

Sempre dizia que estava machucado. Foi quando a Gestapo (Polícia Secreta do Estado) começou a investigar o jogador, e descobriu que ele era amigo de judeus, e simpatizante dos comunistas. Se isso já era ruim, o pior veio na partida para festejar a anexação. Havia no ar a sensação de que os austríacos poderiam vencer. Poderia ser perigoso para a saúde dos jogadores.

Por sugestão de Sindelar a Áustria jogou com camisas e meias vermelhas e calções brancos, as cores nacionais. E os austríacos dominavam a partida com facilidade, mas propositalmente perdiam incríveis chances de gol. Era uma humilhação, mas não podiam desafiar os alemães. Havia sido combinado que o resultado do jogo seria um empate.

O jogo ficou naquele chove e não molha até o meio do segundo tempo, quando o público começou a vaiar. Foi nesse momento que os jogadores austríacos decidiram desafiar os alemães e começaram a correr feito loucos. O jogo virou uma guerra. Logo depois, a bola sobrou para Sindelar na meia lua. Ele deu um toque sutil, encobrindo o goleiro que estava adiantado.

O público delirou, ainda mais quando o craque foi até a tribuna de honra onde estavam as autoridades nazistas, e dançou uns passos de “Rheinland Pfalz”, uma dança popular austríaca. Foi uma gargalhada geral em cima das autoridades alemãs. Depois disso, cheios de brio os austríacos ainda marcaram mais um gol, deixando o placar final em 2 X 0. O nazismo perdia ali, o primeiro embate onde tentava utilizar o futebol como instrumento de imposição e fortalecimento do regime.

No dia 26 de dezembro de 1938, Sindelar disputou a sua última partida pelo Áustria Viena, que havia sido obrigado a mudar de nome para SC Ostmark Viena. O "Homem de Papel" marcou o último gol da sua brilhante carreira no empate em 2 X 2 contra o Hertha Berlim.

Sindelar nunca serviu aos alemães nazistas e foi encontrado morto junto com sua namorada no início de 1939. A sua morte é até hoje um enorme mistério. Conta-se que na madrugada de 23 de Janeiro de 1939 recebeu um telefonema da sua companheira Camila Castagnola, uma prostituta italiana radicada em Viena. Sindelar encontrava-se reunido com alguns colegas de profissão num café da capital.

O “homem de papel” dirigiu-se então para a Rua Anna, morada de Camila, e de lá não voltou a sair. Os amigos estranharam a sua ausência no café pela manhã desse dia 23, e um deles que havia visto Matthias entrar na casa da sua amante, resolveu fazer uma visita ao local. E lá chegando encontrou os dois amantes estendidos no chão com uma garrafa de conhaque e dois copos. Sindelar estava morto e Camila a seu lado desacordada. Nunca mais saiu do coma. Os documentos da investigação policial desapareceram.

A autópsia revelou intoxicação por óxido de carbono, porém outras teorias foram levantadas, como a de suicídio, diziam que Sindelar abrira as torneiras do gás quando pressentiu que as tropas de Hitler avançavam a caminho de Viena. Tinha 36 anos, e Viena chorou a morte de um homem que anos mais tarde se saberia que nem judeu era.

Seu enterro reuniu cerca de 20 mil pessoas e transformou-se em demonstração de repúdio ao III Reich. Recentemente, Sindelar foi eleito pelo povo austríaco o maior jogador do país do século XX. Seu legado é um exemplo de dignidade e jogo limpo tanto nos gramados quanto na vida.

O seu enterro foi debaixo de fortes medidas de segurança porque se temia uma rebelião dos assistentes. Em Viena hoje existe a "Sindelarstrasse", rua do rebelde goleador onde soam os ecos do poema dedicado a ele pelo austríaco Friedrich Torberg:

"Jogava futebol como ninguém;
Tinha graça e fantasia;
Tinha um toque fácil e alegre;
sempre jogava e nunca lutava"

Matthias Sindelar foi enterrado no Cemitério Central de Viena, o mesmo onde estão Brahms, Beethoven, Schubert, Johann Strauss e Johann Strauss Jr., dentre outros. A sua tumba fica perto da de Beethoven. Um lugar apropriado para o “Mozart do futebol”, como também era chamado. Até hoje é realizada anualmente no dia da sua morte uma cerimônia fúnebre. (Pesquisa: Nilo Dias)

Sindelar com a camisa da seleção austríaca. (Foto: Divulgação)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O “Homem de Papel” (1)

Matthias Sindelar, um mito do futebol mundial nasceu no dia 10 de fevereiro de 1903, numa pequena cidade chamada Kozlau, que era na Áustria, mas hoje por conta da mudança dos mapas fica na República Tcheca. Seu nome de batismo era Matěj Šindelář. Quando ele tinha dois anos de idade, seus pais mudaram-se para o bairro pobre de Favoriten, no subúrbio de Viena, a sofisticada capital austríaca. Foi lá que o jovem Matthias cresceu.

Em 1917, quando Sindelar tinha 14 anos, veio a I Guerra Mundial e seu pai morreu em combate. Teve então que começar a trabalhar como aprendiz de serralheiro para sustentar a mãe e três irmãs. Sua única diversão era jogar futebol no asfalto das ruas vienenses. Como os Sindelar não eram muito abastados, o futuro craque e os seus amigos não jogavam com bola de couro, e sim com uma bola feita de trapos.

Aos 16 anos, Sindelar foi descoberto por um olheiro que o levou para jogar nos juvenis do ASV Hertha, onde ele teve as primeiras experiências em uma equipe organizada. Após mostrar um alto rendimento nas categorias de base, fez a sua estréia no elenco principal quando tinha 18 anos.

Em 1923, sofreu uma séria lesão em um dos joelhos, fora dos gramados, e correu o risco de não poder mais jogar futebol. Graças ao famoso médico Hanz Spitzy, que o operou, o craque conseguiu se recuperar e dar continuidade à sua carreira. Um ano depois da lesão, o atacante deixou o Hertha, que foi rebaixado e em conseqüência passava por sérias dificuldades financeiras, sendo obrigado a vender seus principais jogadores.

Sindelar decidiu permanecer em Viena e em 1924 assinou contrato com o Wiener Amateure, o “time das camisas violetas”, que deu origem ao Áustria Viena, e que havia acabado de ser campeão nacional. Era um clube ligado à classe média judaica.

E logo vieram os títulos. Em 1925, o atacante conquistou o seu primeiro triunfo futebolístico, a Copa da Áustria, além de ter ficado com o vice no Campeonato Austríaco. Em 1926, com o fim do amadorismo o clube mudou a denominação para Áustria Viena e ganhou a copa austríaca e o campeonato nacional.

Em 1933, Sindelar conduziu praticamente sozinho o seu clube ao título da Copa da Europa Central, precursora da Liga dos Campeões da UEFA. Na final contra a Internazionale de Milão, que contava com ninguém menos do que Giuseppe Meazza em campo, o atacante fez os dois gols na vitória por 2 X 1 no jogo de ida e também balançou as redes no jogo de volta, vencido pela sua equipe por 1 X 0.

Depois de vencer a Copa da Áustria em 1935 e 1936, o Áustria Viena conquistou mais uma Copa da Europa Central em 1936. Para chegar ao seu segundo título continental em quatro anos, a equipe venceu o Sparta de Praga na final.

Sindelar era alto e magro, tinha 1,75 metro de altura e 76 quilos. Seu estilo de jogo era leve e elegante, sem usar o corpo. Por isso ganhou durante a Copa de 1934, o apelido de “Der Papierene”, que quer dizer “feito de papel”. É considerado o maior esportista austríaco do século XX. Era um centroavante goleador que também voltava para buscar jogo e puxar os marcadores para fora da área, tabelando com os meias.

O incrível é que detestava treinar, adorava fumar, beber, jogar baralho e se divertir com prostitutas nos bordéis. Apesar disso, foi um grande futebolista. Quando alguém lhe perguntava como conseguia ser um atleta com tantos vícios, costumava dizer: “Talvez por isso tudo. Só joga bem quem está feliz”.

Em 1926 Sindelar foi convocado pela primeira vez para jogar na seleção de seu país. No jogo de estréia contra a antiga Tchecoslováquia, tinha 23 anos e fez o gol da vitória por 2 X 1. Nos jogos seguintes, contra Suíça e Suécia, o atacante voltou a deixar a sua marca.

Depois de uma derrota para um selecionado do sul da Alemanha, o jogador ficou 14 jogos sem ser convocado pelo técnico Hugo Meisl, que por algum motivo não gostava da habilidade do atacante. Três anos depois, em 1931, voltou a ser chamado, principalmente devido à pressão dos torcedores e da imprensa, que exigiam a sua convocação.

Logo no primeiro jogo após o retorno de Sindelar, os austríacos conseguiram uma surpreendente goleada por 5 X 0 sobre a Escócia em uma partida que marcou a primeira derrota dos escoceses contra seleções de fora do Reino Unido. Foi o início de uma seqüência de vitórias sem precedentes e o nascimento do "Time Maravilha" austríaco.

Depois disso, a seleção austríaca conseguiu boas vitórias contra o Império Alemão, a Suíça, a França e a Bélgica. Mas o auge de Sindelar e dos seus colegas de selecionado aconteceu no dia 24 de abril de 1932 com a goleada de 8 X 2 sobre a Hungria. O craque de 29 anos marcou três gols e deu o passe para os outros cinco. No mesmo ano, a Áustria venceu a Copa Européia de Seleções (Coapa Doutor Gero), um torneio precursor da Eurocopa.

O "Time Maravilha" jogou 16 partidas entre 1930 e 1933, venceu 13, empatou duas e perdeu apenas para a Inglaterra, em Stamford Bridge, por 4 X 3, em dezembro de 1932. Aquela foi a primeira vez em que os ingleses levaram mais de um gol dentro da sua ilha.

Nesse jogo Sindelar marcou um gol maravilhoso, uma verdadeira obra de arte. “Ele pegou a bola no meio do campo e disparou com a sua incomparável elegância, driblando tudo o que aparecia pela frente, e concluiu para o fundo do gol." Foi assim que o árbitro belga John Langenus descreveu em sua súmula o gol de Matthias Sindelar.

Dias depois, em Viena, veio a desforra, 2 X 1. E entre as vitórias obtidas pela seleção da Áustria ocorreram algumas goleadas: 4 X 0 na Franca, 5 X 0 na Alemanha, 6X 1 na Bélgica, 8 X 2 na Hungria e 8 X 1 na Suíça.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Uma lenda chamada “Pantera”

O ano de 1947 marcou a chegada a Santana do Livramento, do goleiro Waldemar Silva, o “Pantera”, jogador que virou lenda no futebol local, defendendo a meta do E.C. 14 de Julho, o “Leão da Fronteira”. É até hoje considerado o melhor goleiro que pisou os gramados daquela cidade, em razão das defesas quase impossíveis que realizava.

"Pantera", que era natural de Erechim, defendia a bola chutada em sua meta segurando-a firmemente com apenas uma das mãos, direita ou esquerda, conforme o lado em que viesse. Sua figura impunha respeito aos adversários e a seus próprios companheiros, pelo modo destemido com que se movimentava, como se fosse mesmo uma pantera.

Quando abria seus compridos braços e pernas e esticava os dedos de suas grandes mãos, formava com eles um "x" que abarcava os quatro cantos da goleira.

“Pantera” jogou só três anos pelo 14 de Julho. Mas a sua passagem pelo rubro-negro mais velho do Brasil foi tão marcante, que muitas são as histórias contadas, verdadeiras ou não sobre esse legendário goleiro negro, que media quase dois metros de altura e era capaz de proezas tais como segurar uma cadeira com os dentes, e a erguer do chão com alguém sentado nela.

“Pantera”, não obstante a sua prodigiosa força física, tinha uma natureza tranqüila e uma leveza de gestos. Em 1949, numa campanha memorável da equipe quatorzeana, conquistou o título de campeão municipal, escrevendo seu nome na história do “Leão da Fronteira”, com letras douradas.

Ivo Gomes, ex-jogador do 14 de Julho nos anos 50, costumava dizer: “só existiram dois grandes goleiros no mundo, Iaschin e "Pantera”. O russo Iaschin, foi considerado pela FIFA o maior goleiro da história do futebol mundial.

É lógico que um goleiro com as qualidades de “Pantera” chamasse a atenção de vários clubes do centro do país, que quiseram contratá-lo, mas ele não queria sair do 14 de Julho. Contam, não se sabe se é verdade, ou não, que certa vez, pressentindo que iriam negociá-lo tomou uma bebedeira tão grande, que se manteve embriagado durante todo o tempo em que os dirigentes do clube interessado estiveram na cidade. E assim acabaram desistindo de comprar o seu "passe".

Sua prodigiosa carreira acabou cedo, devido o alcoolismo e mais tarde por distúrbios mentais, que o levaram a morar na cabina da Rádio Cultura, no Estádio João Martins, do 14 de Julho. Os últimos dias vividos pelo magnífico guarda-valas foram no Instituto Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre. (Pesquisa: Nilo Dias)

sábado, 2 de abril de 2011

Um bugre centenário

No dia de hoje está ingressando na seleta galeria dos clubes brasileiros centenários, o tradicional Guarani Futebol Clube, da cidade paulista de Campinas. Na realidade, a reunião que resultou na fundação do clube foi realizada no dia 1º de abril de 1911, na Praça Carlos Gomes. Mas para evitar gozações, principalmente de parte dos torcedores da A.A. Ponte Preta, o outro time da cidade, por causa do “dia da mentira (1º de abril), a data oficial de fundação passou a ser 2 de abril.

Os idealizadores do Guarani foram os estudantes do Gymnasio, Pompeo De Vito, Ernani Filippo Matallo e Vicente Matallo. Além deles, compareceram à reunião de fundação Antonio de Lucca, Romeo Antonio de Vito, Angelo Panattoni, José Trani, Luiz Bertoni, José Giardini, Miguel Grecco, Julio Palmieri e Alfredo Seiffert Jaboby Junior.

O nome do clube foi uma homenagem ao compositor campinense Carlos Gomes, autor da ópera “O Guarani”, baseada no romance homônimo de José de Alencar. Quem sugeriu o nome foi José Trani. As cores verde e branco foram sugeridas por Romeu de Vito, tendo em vista que todos estavam sentados sobre a grama da praça.

Depois de eleita uma diretoria provisória, tendo como presidente Vicente Matallo, estabeleceu-se que cada sócio contribuiria mensalmente com 500 réis. Em 9 de abril foi realizada uma segunda reunião, dessa vez em uma sala emprestada pela Sociedade Recreativa 7 de Setembro, para escolha da primeira Diretoria, com mandato de um ano.

Vicente Matallo foi confirmado como o primeiro presidente do Clube. Para os demais cargos foram escolhidos: Vice-Presidente: Adalberto Sarmento; 1º Secretário: Raphael Iório; 2º Secretário: Paulino Montandon; Tesoureiro: Pompeo de Vito; 1º Capitão: Luiz Bertoni; 2º Capitão: Francisco Oliveira; 1º Fiscal de Bola: Antonio de Lucca; 2º Fiscal de Bola: José Trani; e Procurador: Aurélio Rovere.

Os primeiros treinos e jogos do Guarani foram realizados num campo de terra batida cedido pela Prefeitura, na Vila Industrial. As traves foram feitas de bambu. No dia 23 de abril foi realizado o primeiro treino, quando se defrontaram dois times formados por associados.

O primeiro jogo da história do Guarani foi disputado no dia 18 de junho de 1911 e o adversário foi o Sport Club 15 de Novembro, que venceu por 3 X 0. A primeira vitória não demorou, veio no jogo seguinte frente, em 16 de julho de 1911, 2 X 0, contra o Corinthians Foot-Ball Club, de Campinas. O Guarani mandou a campo: Oliveira - Bertoni e Gonçalo – Marotta - Nick e Panattoni – Miguel – Trani – Fritz - Romeo e Grecco.

Em 1912 seis clubes se reuniram e decidiram fundar a Liga Operária de Foot-Ball e realizar o segundo campeonato municipal de futebol, da história de Campinas. O primeiro foi jogado em 1907 e vencido pela Associação Athletica Campineira. O Guarani sagrou-se vice-campeão, conquistando seu primeiro troféu - uma estatueta de bronze.

Como o clube começou a crescer e já contava com um número bastante grande de torcedores, foi preciso conseguir outro espaço para os jogos. Em 1913 foi alugado um campo de futebol junto ao S.C. Commercial, no bairro Guanabara, conhecido como “Ground do Guanabara”.

Em 1916 foi criada a Associação Campineira de Foot-Ball, que ficou com a responsabilidade de organizar um novo campeonato. O Guarani, que já era considerado o melhor time da cidade, apenas confirmou em campo sua superioridade, conquistando seu primeiro título de campeão citadino, e de maneira invicta.

Tempos depois, com o encerramento das atividades do Commercial, o Guarani conseguiu licença para usar gratuitamente o campo. A proprietária da área era a senhora Isolethe Augusta de Sousa Aranha, de família tradicional (filha do Barão de Itapura, Joaquim Policarpo Aranha e de dona Libânia de Sousa Aranha, Baronesa de Itapura), e tia de um dos pioneiros do clube, Egídio de Sousa Aranha.

Como a Prefeitura de Campinas não mostrou o menor interesse em conseguir uma área para que o Guarani construísse sua praça de esportes, Egidio de Souza Aranha teve papel decisivo ao convencer sua tia a vender o terreno de 20 mil metros quadrados, pelo preço irrisório de 900 réis o metro

Em seguida foi nomeada uma "Comissão Pró-Estádio", presidida por João Pereira Ribeiro. Várias promoções foram realizadas visando a arrecadação de fundos. Finalmente, em 15 de julho de 1923, foi inaugurado o chamado "Estádio do Guarany", na rua Barão Geraldo Resende.

Para o jogo inaugural foi convidado o Club Athletico Paulistano, na época o principal clube do futebol paulista, com Friedenreich e muito mais. O Guarani venceu por 1 X 0, gol de Zequinha, tendo jogado com: Pacheco - Joca e Tavares – Deputado - Juca e Joaquim – Miguel – Zequinha – Barbanera - Nerino e Pilla.

O Estádio da Rua Barão Geraldo de Resende passou por várias reformas e ampliações, servindo ao clube até 1953. Nele o Guarani recepcionou alguns dos maiores times do país, tendo ali mandado seus jogos pelos Campeonatos Paulistas de 1927; 1928; 1929; 1930; 1931; 1950; 1951 e 1952.

Em 1947 a Federação Paulista de Futebol implantou o profissionalismo no interior do Estado. O Guarani foi um dos primeiros clubes a aderir à iniciativa. Provém dessa época o acirramento da rivalidade com seu arqui-rival, a Ponte Preta, com quem faz o Derby Campineiro. Em 1947, o presidente da Federação Paulista de Futebol, Roberto Gomes Pedrosa, implantou a era profissional no esporte, criando os Campeonatos Paulista da primeira e segunda divisão.

Participou do Campeonato Profissional do Interior daquele ano e da 2ª Divisão de Profissionais de 1948, vencida pelo XV de Novembro de Piracicaba. Em 1949, porém, sagrou-se campeão da 2ª Divisão, ganhando o direito de disputar no grupo de elite do futebol paulista.

Mas isso trouxe um sério problema. O Estádio da Rua Barão Geraldo de Resende já não comportava o clube, e a FPF fez exigências que precisavam ser cumpridas. Então foi criada uma Comissão liderada por Antônio Carlos Bastos para estudar as alternativas possíveis. Descartadas as possibilidades de nova reforma ou ampliação do antigo estádio, o Guarani precisava partir para uma área maior, ainda que não tão próxima ao centro da cidade.

Foi quando uma empresa imobiliária propôs a troca da área do bairro Guanabara, por uma outra de 50.400 m2 na chamada “Baixada do Proença”, pagando ainda ao clube Cr$ 2 milhões em parcelas e encarregando-se da sondagem e a terraplenagem do terreno. E no local foi erguido o novo estádio do Guarani.

A denominação de “Brinco de Ouro” se deve ao jornalista João Caetano Monteiro Filho, do jornal “Correio Popular”. Ao ver a maquete do estádio, com a forma circular, ele logo pensou em um brinco. Como a cidade de Campinas era conhecida como "A Princesa D'Oeste", ele colocou em manchete: “Um Brinco de Ouro para a Princesa”. E epegou. A própria população passou a chamar o estádio de "Brinco de Ouro" e "Brinco da Princesa". Mas “Brinco de Ouro da Princesa” se tornou o nome oficial.

O estádio foi inaugurado em 1953, mesmo sem as cabeceiras, improvisando-se ali arquibancadas feitas de madeira. Na tarde de 31 de maio de 1953 adentravam ao gramado do "Brinco de Ouro" as equipes do Guarani e da S.E. Palmeiras, especialmente convidada para a inauguração. Num dia de muita chuva, o Guarani venceu por 3 X 1, cabendo a Nilo, meia-direita do Bugre, a marcação do primeiro gol, aos 44 minutos, cobrando falta no atual gol de entrada.

Completaram Dido e Augusto, no 2º tempo. Parte da cerimônia de inauguração acabou sendo adiada devido à chuva. Na segunda partida festiva, dia 4 de junho de 1953, o Guarani perdeu de 1 X 0 para o Fluminense F.C., do Rio de Janeiro. A iluminação foi inaugurada em 11 de janeiro de 1964, com um jogo amistoso em que o Guarani venceu ao Flamengo, do Rio de Janeiro por 2 X 1. O recorde de público chegou a 52.002 pagantes no jogo Guarani X Flamengo, pelo Campeonato Brasileiro de 1982.

O maior feito da história do Guarani é ter conquistado o título de campeão brasileiro de 1978. O time chegou ainda a dois vice-campeonatos brasileiros, em 1986 (em uma final inesquecível contra o São Paulo, decidida após uma prorrogação e disputa de pênaltis) e o Modulo Amarelo de 1987 (contra o Sport), classificando-se em três oportunidades para a disputa da Taça Libertadores da América, principal competição sul-americana de futebol.

O clube já revelou jogadores de projeção mundial, como Careca, Amaral, Júlio César, Deco, Evair, Amoroso, Luisão, Mauro Silva, Neto, Edilson, Ricardo Rocha, Elano e João Paulo, além de ter tido em seu elenco jogadores nacionalmente destacados, como Zenon, Jorge Mendonça, Djalminha e Neneca.

Em 1954, cedeu o primeiro jogador para uma Seleção Brasileira de Futebol, Fifi, que participou do Campeonato Sul-Americano Juvenil. Em 1963, o Guarani teve pela primeira vez atletas convocados para uma Seleção principal: Tião Macalé, Oswaldo, Amauri e Hilton, que jogaram o Campeonato Sul-Americano daquele ano. (Pesquisa: Nilo Dias)

Campeão da Copa do Brasil, em 1978. (Foto: Blog "Planeta Guarani")

quarta-feira, 30 de março de 2011

O futebol gaúcho está de luto

Morreu na tarde de ontem, aos 91 anos, com falência múltipla dos órgãos o ex-presidente e conselheiro do Grêmio Portoalegrense, Rudi Armin Petry. Ele presidiu o clube nos anos de 1966 e 1967. Entre todos os ex-presidentes do clube que continuavam vivos, ele era o mais velho. Também esteve no comando do departamento de futebol diversas vezes. Ultimamente morava no Litoral Norte e sofria de diabetes.

O velório está sendo realizado no Salão Nobre Patrono Fernando Kroeff, no Estádio Olímpico. O corpo será cremado em São Leopoldo à tarde. Rudi Armin Petry deixou os filhos Paulo, 54 anos, e Daniel, 51, e os netos Guilherme, Luíza, Mariana e Roberto.

A trajetória de Petry no Grêmio começou em 1948, quando se associou ao clube. Em 1963, pela primeira vez foi convidado para ser o diretor de futebol. Naquele ano, o tricolor conquistou o segundo dos sete títulos gaúchos em seqüência. Outros dois títulos dessa série, em 1966 e 1967, foram conquistados com ele na presidência.

Seu Petry, como era carinhosamente chamado, também teve participação importante nas maiores conquistas da história do Grêmio. Ele foi o diretor de futebol do time campeão da América e do Mundo, em 1983, ao lado de Túlio Macedo. Sob o comando dele, passaram grandes jogadores, como Airton, Alcindo, Vieira, Sérgio Lopes, Juarez e Ortunho, entre outros.

O ex-dirigente ficou famoso por criar frases de efeito, como "assunto de economia interna", quando não queria falar com a imprensa sobre determinados temas. E “o Grêmio é grande devido à grandeza do Internacional”.

Em 2010 o clube homenageou o antigo dirigente colocando o seu nome em uma sala no Estádio Olímpico, onde funciona a Assessoria de Comunicação e o Departamento de Mulheres Gremistas.

O S.C. Internacional também divulgou nota oficial lamentando a morte de Rudi Armin Petry. O colorado decretou luto oficial de três dias pela perda de um dos maiores dirigentes que o futebol gaúcho conheceu. (Nilo Dias)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O OPERADOR DO BLOG ENTROU EM FÉRIAS. VOLTA EM FINS DE MARÇO COM A GRAÇA DE DEUS. TCHAU!!!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Craque, marinheiro e escoteiro

Benjamim de Almeida Sodré, o “Mimi Sodré” foi um dos primeiros ídolos da história do Botafogo, do Rio de Janeiro e uma das mais interessantes figuras do futebol brasileiro. Cearense de Mecejana, cidade próxima a capital Fortaleza, nasceu no dia 10 de abril de 1892. Era filho de Lauro de Almeida Sodré, destacada figura do escotismo brasileiro.

Desde menino que “Mimi” gostava de jogar futebol, tendo como companheiros das memoráveis peladas nos gramados da sua cidade natal, os irmãos Lauro e Emmanuel e as vezes o tio, também de nome Emmanuel.

Ainda criança mudou-se para o Rio de Janeiro e depois de terminar os estudos secundários prestou concurso para admissão na Escola Naval sendo aprovado em primeiro lugar. Fez brilhante carreira na Marinha Brasileira. Durante a II Guerra Mundial chefiou a Comissão Naval Brasileira. Tornou-se almirante de Esquadra em 1954.

Benjamim foi um dos sobrevivendo do naufrágio do rebocador “Guarany”, que no final de setembro e início de outubro de 1913, participava de exercícios de manobras da Marinha Brasileira na região da Ilha de São Sebastião, no Estado de São Paulo. Na madrugada do dia 3 de Outubro, a esquadra se preparava para realizar um combate simulado quando uma tragédia a atingiu.

O rebocador “Guarany”, que transportava a bordo mais de 50 pessoas entre oficiais e taifeiros, além de uma guarnição de guardas-marinha que assistiam as manobras, foi atingido duramente, a 10 milhas do farol da Ponta do Boi, pelo rebocador “Borborema”, do Lloyd Brasileiro.

O impacto foi forte, muitos dos tripulantes do rebocador foram atirados ao mar e, em apenas 2 minutos, a embarcação se partiu ao meio e naufragou, levando para o fundo muitos dos tripulantes que se encontravam em seu interior.

O ex-jogador dividia a paixão do Botafogo com outra, a Marinha. Mas a profissão não permitia atenção total ao futebol devido às viagens de navio. Mesmo assim, ele sempre procurava dar um jeito de jogar e treinar, o que não era fácil. Por isso muitas vezes perdeu jogos do Botafogo e até da Seleção.

Jogar futebol no início do século XX não era fácil. Amador e ainda sem muito prestígio, o esporte era uma espécie de hobby dos jogadores da época, que tinham outras profissões. Sem a organização dos tempos atuais, surgiram histórias interessantes envolvendo Mimi Sodré. Os mais antigos contavam que ele era habilidoso, rápido, inteligente, responsável e mais profissional do que muitos jogadores de hoje. Fazia jogadas que admiravam os torcedores botafoguenses.

“Mimi Sodré” foi o primeiro jogador do Botafogo a marcar um gol pela Seleção, mas não jogou por muito tempo, só até 1917. E não deixou de ter uma história curiosa em sua passagem pela seleção nacional, que dava os seus primeiros passos.

Ele não se dedicava mais ao scratch brasileiro porque a Marinha não deixava, precisava fazer as funções dele fora do Rio de Janeiro. Foi assim que aconteceu uma história bem interessante em Buenos Aires. “Mimi” chegou ao cais do porto e tinham uns cartolas do Brasil esperando por ele para jogar contra a Argentina. Foram até o comandante do navio e pediram para liberá-lo. Saíram de táxi e foram direto para o campo. E já levaram o uniforme dele para se vestir no táxi e jogar.

Talvez por conviver com a rígida disciplina militar, “Mimi Sodré” sempre demonstrou lealdade dentro e fora dos gramados. Um exemplo disso aconteceu em um jogo da seleção brasileira militar, contra a seleção militar chilena. “Mimi” teve um gol validado, não achou correto e avisou ao árbitro que usara a mão. O juiz então anulou o lance. Depois ele mesmo tratou de fazer a compensação, marcando um gol que valeu e que deu a vitória ao Brasil por 2 X 1.

“Mimi Sodré” foi campeão carioca de 1910, jogando pelo antigo Botafogo F.B.C., precursor do atual Botafogo de Futebol e Regatas. O título foi conquistado depois do time perder na primeira rodada e vencer os outros nove jogos disputados, quase todos por goleadas. Ao fim da competição marcou 66 gols, com média de 6,6 por partida.

Apesar de não ser o esporte favorito da população carioca no começo do século, o “foot-ball” levou cerca de 5 mil pessoas ao Estádio do Botafogo, na Rua Voluntários da Pátria, para ver a partida que decidiu o Estadual de 1910. Casa cheia às 15h45, hora exata em que a partida principal iniciou. Logo aos três minutos, Aberlado marcou. No intervalo, a vantagem do Botafogo já chegava aos 3 X 0.

Na volta, o Fluminense até descontou, mas, no fim, o massacre por 6 X 1 deu matematicamente o título carioca para o Botafogo. Com o término do duelo, os torcedores invadiram o campo para abraçar os jogadores de ambos os clubes. “Mimi Sodré”, e os irmãos Emmanuel e Lauro jogaram as dez partidas do Carioca e juntos marcaram 16 gols.

Além do título de 1910, “Mimi Sodré” foi campeão carioca em 1912, quando também foi artilheiro do campeonato com 12 gols. Ainda
jogou pelo América carioca.

Nos dias seguintes ao título, a imprensa adotou de vez o apelido “Glorioso”, que era falado por poucos, por causa da campanha impressionante. A alcunha pegou, tanto que as cartas enviadas a sede do clube na rua Voluntários da Pátria tinham como remetente apenas “Ao Glorioso”, sem o endereço da casa alvinegra. Atualmente, no lugar da primeira sede do clube, e do estádio do título de 1910, encontra-se a Cobal de Humaitá.

“Mimi” foi contra a profissionalização no futebol. Ele achava ridículo o clube tal comprar fulano, que o jogador trocasse de camisa. Ele não aceitava. O amor pelo Botafogo foi do começo ao fim. Passaram-se os anos e “Mimi Sodré” não abandonou o clube. Em 1941, tornou-se presidente do Botafogo Football Club para tentar acabar com uma crise interna. E não aceitava falta de respeito com os adversários nos jogos, principalmente quando jogava no estádio dos outros clubes.

Além de militar e futebolista, “Mimi” encontrou tempo para se dedicar ao escotismo, em memória de seu pai. E todos que o conheceram afirmavam que foi um grande seguidor dos ideais de Baden-Powell, participando da fundação e organização dos “Escoteiros do Mar”, o primeiro Grupo Escoteiro de Belém, da Federação de Escoteiros paranaenses e da União dos Escoteiros do Brasil, entre outros.

Escreveu o "Guia do Escoteiro" de 1925, até hoje uma das mais importantes obras do Escotismo brasileiro. Foi honrado com uma série de títulos, entre eles o de “Cidadão Honorário do Rio de Janeiro” e outros Estados e medalhas de mérito, presidindo a “Ordem do Tapir de Prata”, a mais alta condecoração do escotismo brasileiro. Foi professor de Astronomia, Navegação e História da Escola Naval, publicou diversos trabalhos e foi maçom

Faleceu em 2 de fevereiro de 1982, no Rio de Janeiro onde residia, pouco mais de dois meses antes de completar 90 anos. Atualmente vários Grupos Escoteiros, ruas e espaços municipais levam o nome de Almirante Benjamin Sodré, em sua homenagem.

O “Velho Lobo”, como era chamado pelos colegas escoteiros deixou dois filhos, seu Luiz Sodré, de 81 anos, e Dona Maria Pérola Sodré, de 88, ainda vivos e que se constituem na memória viva do pai. (Pesquisa: Nilo Dias)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Vergonha no futebol brasileiro

Realmente o futebol brasileiro não tem mais jeito. Não sei se o que está acontecendo nas últimas semanas deve ser chamado de vergonha ou de anarquia. Ou as duas coisas. Primeiro foi juntar os títulos de outras competições disputadas no passado, como Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa, e considerar seus vencedores também como campeões brasileiros. E o pior veio agora, reconhecer o Flamengo como campeão brasileiro de 1987, quando até a Justiça já havia declarado o Sport Recife como legitimo vencedor.

O Sport não vai aceitar isso e já se prepara para uma nova guerra judicial. Dizem os dirigentes pernambucanos que a chance do Sport dividir o título com o Flamengo é zero. A matéria já está resolvida, foi julgada pelo STJ e todos os prazos para recursos já passaram. A CBF está se posicionando contra a Justiça Brasileira, que, após anos de batalhas, reconheceu o Sport como o verdadeiro Campeão Brasileiro de 1987. O Sport está amparado pela Justiça nesse assunto e espero que consiga mudar essa vergonhosa decisão.

E o que pretende fazer agora a CBF com relação a taça das bolinhas, que já foi entregue ao São Paulo, como o primeiro clube a conquistar o pentacampeonato brasileiro? Vai pedir de volta para entregar ao Flamengo? Ou vai entregar outra para o clube carioca? Ou vai declarar os dois exacampões ao mesmo tempo? Não vai poder fazer nada, porque a taça quem deu foi a Caixa Econômica Federal.

Os sãopaulinos não estão nem aí para o que pensa a CBF. Para o diretor jurídico do São Paulo, Kalil Rocha Abdalla, a Justiça já determinou o Sport como campeão brasileiro de 1987 e, por conta disso, a decisão da CBF não deve interferir no que diz respeito ao troféu. Para ele essa decisão é uma gentileza que a CBF está prestando ao Flamengo. O campeão de 87 reconhecido pela soberana Justiça de nosso país é o Sport. E se algum juiz quiser aparecer e mandar entregar a taça ao Fla, também não vai levar, porque o processo É entre o clube carioca e a CBF. O São Paulo não faz parte dessa ex-briga.

Ele ainda explicou que, no aspecto judiciário, a decisão não tem mais volta. A ação que tramitou e foi julgada na 10ª Vara Federal de Pernambuco, de 2 de maio de 1994, é favorável ao clube pernambucano. A Justiça comum tomou uma decisão "transitada e julgada", que não cabe mais recurso. Trocado em miúdos, o título do Flamengo não existe, é de brincadeirinha, só para deixar a dona "Patricinha" feliz.

Decisões como essas, feitas com o intuito único de agradar clubes do Rio de Janeiro e de São Paulo, não podem se repetir. As federações de futebol dos demais Estados precisam se unir e promover uma verdadeira revolução. Neste caso de agora, o que está em jogo é a renovação de contrato para transmissão pela TV do Campeonato Brasileiro. É negocioata do seu Teixeira que quer acabar com o Clube dos 13.

Está passando da hora de afastar o seu Teixeira e sua turma do comando do futebol brasileiro. A própria Justiça de nosso país deveria se encarregar de anular todas essas decisões benevolentes que não tem amparo legal. O futebol também precisa ser moralizado. E quanto a TV, deixem Flamengo e Corinthians com a Globo, e corra todos os outros para a Record. Quero ver o que vai dar.

Os desmandos e injustiças não param somente nesse reconhecimento fajuto de títulos, que na verdade não foram conquistados, sim dados por algumas pessoas que se acham acima de tudo e de todos. Também precisam ser revistos os critérios para distribuição das cotas pelo televisionamento de jogos. Porque clubes como o Flamengo e Corinthians recebem mais que os outros? Qual a razão? Os clubes do Rio vivem na miséria, fazem contratos milionários que não são honrados, não pagam ninguém, muitos dirigentes são abertamenter chamados de ladrões, e nada acontece.

Num país sério, clubes que agem como muitos que a imprensa teima em chamar de grandes, já teriam sido declarados falidos e fechados. Mas por aqui tudo vai na onda do samba. A contratação de Ronaldinho Gaúcho pelo Flamengo, certamente ainda vai dar muito que falar. O clube carioca nunca paga os salários de seus jogadores em dia. O de Ronaldinho, por força de contrato não vai poder atrasar. E os outros vão aceitar isso com um sorriso nos lábios? Duvido.

Por fim, temos um outro problema que é bastante sério: o favorecimento de clubes cariocas no televisionamento dos jogos. Em Brasília, onde o colunista mora, só se vê Flamengo. De vez em quando passam jogos de Fluminense, Vasco e Botafogo, que ganhou de presente por graça de seu torcedor e governador do Estado, o Engenhão, estádio feito com dinheiro público. Quando não tem mais ninguém jogando, aí vai um joguinho de clubes paulistas. E os outros? Bem, esses não existem, embora Internacional, Grêmio, Cruzeiro e Atlético de Belo Horizonte, sejam muitas vezes maiores que os times cariocas. Em tudo, da seriedade a capacidade técnica.

E para justificar tanta mentira é preciso fabricar pesquisas que apontam o Flamengo e Corinthians sozinhos, com quase a metade dos torcedores brasileiros. Dá vontade de rir. Se um torcedor cearense, por exemplo, disser que é Fortaleza e Flamengo, na pesquisa só aparece o Flamengo. Assim fica fácil. É por essas e por outras que não assisto mais os programas do Sportv e seus fraquissimos apresentadores. Estou pensando seriamente em cancelar minha assinatura do Campeonato Brasileiro. Como só torço pelo Internacional, acho que daqui para frente vou ouvir os jogos do colorado pela Gaúcha ou Guaíba, através da Internet. Vou economizar dinheiro e poupar meus ouvidos de tanta besteira que rola por aí. (Nilo Dias)

A "Taça das Bolinhas" tem dono, é do São Paulo. A Taça de campeão de 87 também, está lá na Ilha do Retiro.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Craque de 1 metro e meio

Reginaldo Castro, o “Bimbinha” foi um dos melhores jogadores que o futebol maranhense conheceu em todos os tempos. Ninguém jamais assistiu a uma partida em que ele tivesse jogado mal. Sempre atuou regular, ou brilhantemente. Nunca medíocre. Por isso era chamado de “Xodó da Vovo” e “Alegria do Povo”. “Bimbinha” nasceu no dia 10 de junho de 1956, no bairro do “Tamancão”, vizinho do famoso bairro do “Bacanga”, em São Luiz do Maranhão. Fazia parte de uma família de oito irmãos, quatro mulheres e quatro homens.

Quem o visse com seu 1m47 de altura, 51 quilos e calçando número 35, não acreditaria jamais que estava frente a um jogador endiabrado que na frente do gol adversário era fatal. Marcou mais de 250 gols na carreira. Quando recebia uma bola esticada pela esquerda, o marcador já sabia que seria desconjuntado e a galera iria gritar: “ripa na chulipa”. Para fazê-lo parar, só no tranco.

A primeira camisa que vestiu foi a do Atlântico, time amador do “Tamancão”, onde jogavam seus irmãos Egui e Reinaldo. Um dia Egui faltou a um jogo, e o treinador sem outra alternativa e só para “quebrar o galho” completou o time com “Bimbinha”, ainda um pirralho. E não teve motivo para se arrepender. O garoto encheu os olhos de quem estava assistindo o jogo e ninguém se lembrou do irmão titular. A partir daquele momento não seria fácil retirar “Bimbinha” do time.

Mas foi no “Pedrinhas”, um time interno do famoso presídio da Zona Rural de São Luís, que “Bimbinha” surgiu de vez para o futebol maranhense. Num jogo contra o Onze Irmãos, equipe formada por presidiários, ele deu um verdadeiro show de técnica e habilidade, que o diretor do presídio José Carlos Viana Mendes, que também era dirigente do Maranhão Atlético Clube falou em alto e bom som: “Moleque, você só vai sair daqui do presídio se der bode”.

Na verdade ele queria dizer que “Bimbinha” estava intimado a vestir a camisa do Maranhão, também conhecido por “Bode Gregório”. Para se ver livre do diretor do presídio, “Bimbinha” disse sim. Mas acabou indo jogar no time juvenil do Sampaio Corrêa, levado pelas mãos do ex-craque Djalma Campos (já felecido), um genial armador maranhense, que ficou encantado ao vê-lo “pintar os canecos” numa pelada na salina do “Tamancão”. Em dois anos passou dos juvenis, para o time principal, ganhando o titulo de “Pequeno Prodígio”.

Um dos lances mais lembrados da passagem de “Bimbinha” pelo Sampaio Corrêa aconteceu num clássico contra o Moto Clube, quando ele marcou um gol antológico. Depois de alguns dribles em outros jogadores da defesa motense, Bimbinha deu um “drible da vaca” passando por debaixo das pernas do zagueiro e entrando com bola e tudo. Outra vez aplicou um drible passando debaixo das pernas de Maria do Corinthians, e o estádio foi a loucura.

Em 1983, foi emprestado à Izabelense, do Pará, e o Moto Clube foi o campeão maranhense. Na sua volta, em 1984, o Sampaio Corrêa recuperou o titulo, com um gol seu, na final contra o Maranhão.

Em 1988, “Bimbinha” queria concorrer a Câmara de Vereadores de São Luiz. Mas teve de retirar a candidatura, para não prejudicar o presidente do Sampaio Corrêa, que já era vereador e precisava se reeleger. Mas esse seu ato de grandeza foi esquecido pelo dirigente, meses depois.

“Bimbinha” terminou sua história no Sampaio Corrêa naquele mesmo ano de 1988. Por lá conquistou dois títulos estaduais como juvenil, e mais nove, como profissional, tendo participado do pentacampeonato estadual na década de 1980 (1984, 1985, 1986, 1987 e 1988).

Ele pretendia “pendurar as chuteiras” jogando pelo time “boliviano” (o Sampaio era chamado assim por causa das cores da camisa, iguais a da bandeira boliviana) e depois ser aproveitado, como treinador de escolinhas. Mas seus planos deram errado. O clube o dispensou, sem ao menos dar baixa na sua carteira de trabalho e sem receber dinheiro algum, nem mesmo o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Mesmo com toda essa ingratidão, “Bimbinha” não quis brigar com o clube. Nunca fez bons contratos. O salário era sempre proporcional ao seu tamanho. Sempre que ia renovar o contrato, o clube estava em crise. Mesmo assim ele acreditava nos dirigentes, assinava fiado, para receber amanhã, e o tal amanhã nunca chegava. Era o menor jogador do futebol mundial em atividade na época, e talvez até hoje ninguém tenha batido este curioso recorde.

Tem um ditado que diz: a vingança tarda, mas não falha. Em 1989 ele foi jogar no rival Moto Clube, que se sagrou campeão maranhense, título que não conquistava desde 1984. Mas “Bimbinha” não estava feliz. No rubro-negro não conseguiu ser titular absoluto, indo para o banco de reservas e Lamartine, em melhor forma lhe tirar o titulo de melhor ponta esquerda do Maranhão. Não lhe restou alternativa a não ser deixar o Moto Clube. Antes de encerrar a carreira jogou ainda pelo Expressinho e o Tupã, também clubes maranhenses.

“Bimbinha” é casado com dona Silvana, e é pai de dois filhos Regis e Silvano. Anos atrás, com a perda do emprego, passou por inúmeras dificuldades financeiras e ganhava a vida com as cotas das peladas e Campeonatos de Masters pelo time de veteranos do Sampaio. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time de Veteranos do Sampaio Corrêa. "Bimbinha" é o penultimo dos "meio-agachados", a contar da esquerda para a direita.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Pequena Taça do Mundo

A Pequena Taça do Mundo, um torneio intercontinental de clubes promovido por um grupo de empresários internacional foi o precursor do Campeonato Mundial de Clubes atualmente organizado pela Fédération Internationale de Football Association (FIFA). A competição, que também era conhecida por “Mundialito de Clubes” foi disputada entre os anos de 1952 e 1963, NO Estádio Olímpico de Caracas, na Venezuela.

Participavam do torneio, por convite os dois melhores clubes da América e os dois melhores da Europa. O clube que mais venceu a competição foi o Botafogo, do Rio de Janeiro com cinco títulos conquistados nos anos de 1966, 1967, 1968 (duas vezes) e 1970.

Os outros vencedores do torneio foram o Real Madrid, da Espanha (1952, 1956 e 1980), Millonarios, da Colômbia, Corinthians Paulista (1953), São Paulo (1955 e 1963), Bangu, do Rio de Janeiro (1958), Barcelona, da Espanha (1957), Santos, do Brasil e Benfica, de Portugal (1965), Valência, da Espanha (1966), Athletic de Bilbao, da Espanha (1967), Spartak Trnava, da Tchecoslováquia e Dínamo de Moscou, da União Soviética (1969), Vitória de Setúbal, de Portugal (1970) e Cruzeiro, do Brasil (1970 e 1977), Seleção da Alemanha Oriental (1975), Deportivo La Coruña, da Espanha (1976) e Sporting, de Portugal (1981).

Nos anos de 1959 a 1962 e 1964, não foi disputado. Outros grandes clubes do futebol mundial que participaram da competição, porém sem lograr êxito foram: River Plate, da Argentina, Roma e Lázio, da Itália, Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, Sevilla e Zaragoza, da Espanha, Porto, de Portugal, Chelsea, da Inglaterra, Werder Bremen, da Alemanha e Nacional, do Uruguai.

Em 1957, com a criação da primeira Copa da Europa o torneio perdeu prestígio e deixou de ser disputado. Em 1963 voltou a ser organizado, repetindo-se em 1975. Entre 1965 e 1970, os torneios foram organizados pela imprensa esportiva de Caracas e empresários, com várias denominações.

“Troféu IV Centenário de Caracas (1965)”, “Copa María Dolores Gaubeka (1965)”, “Trofeo Prensa Deportiva (Troféu Círculo de Periódicos Esportivos – 1966 e 1967)”, “Troféu Simón Bolívar (1966)”, “Copa Del Cuatrocentenário (1967)”, “Troféu Julio Bustamante (1968)”, “Troféu Oldemario Ramos (1968)”, “Copa Reyes (1969)”, “Copa Carnaval (1969)”, “Torneio (Copa/Taça) de Caracas”, desde 1970. Em 1958 foi disputada a “Taça (Copa) Navidad”.

Porém, a concorrência com a Copa Intercontinental criada em 1960, e o sequestro do jogador Di Stéfano por um grupo rebelde em Caracas, acabaram vez com a idéia de retorno do torneio.

Em 1963, a Venezuela, assim como todos os países da América Latina, vivia um período turbulento, de profunda agitação sócio-política. Foi com esse clima de tensão que a Pequena Taça do Mundo foi disputada naquele ano. Real Madrid, da Espanha e São Paulo, do Brasil chegarão ao jogo final

O São Paulo teve um desfalque importante. Pagão, contundido, não estava em condições de jogo. O Real também jogou sem um de seus principais jogadores, só que por um motivo para lá de insólito.

Às vésperas do jogo, membros da organização clandestina de extrema esquerda denominada Frente de Libertação Nacional (FALN), fazendo-se passar por policiais, invadiram o Hotel Potomac, onde a delegação madrilenha estava hospedada, e seqüestraram Di Stéfano, com o objetivo de chamar a atenção do mundo para a causa do grupo.

Di Stéfano foi libertado três dias depois, são e salvo. Mas a mesma Frente de Libertação Nacional ainda aprontaria mais uma confusão. Ao final do primeiro tempo, integrantes da FALN invadiram o estádio, tentando pular a grade de ferro que circundava o campo, atiraram bombas e deram tiros contra os espectadores, que, apavorados, adentraram o gramado para se proteger do fogo cruzado.

Os policiais intervieram e o pandemônio aumentou, com mais disparos em direção às arquibancadas. Só um milagre explica o fato de ninguém ter morrido ou se ferido mais gravemente. O São Paulo venceu por 2 X 1 e garantiu o título.

Hoje a FIFA promove o campeonato mundial de clubes, que é disputado anualmente e de dois em dois anos muda de sede: Japão e Emirados Árabes. Até 1999 era disputado um torneio entre os campeões da América e da Europa, primeiro em dois jogos, um em cada país dos clubes litigantes, e depois num jogo único, em Tóquio, no Japão. A competição era patrocinada pela Toyota, uma empresa fabricante de automóveis e não era reconhecida pela FIFA.

Embora os torcedores de Santos, Flamengo, São Paulo (em duas oportunidades) e Grêmio não gostem, a FIFA os considera apenas campeões intercontinentais. Campeões do mundo mesmo, só Corinthians São Paulo e Internacional. (Pesquisa: Nilo Dias)

Troféu dado aos campeãoes da "Pequena Taça do Mundo).

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ponce de Leon, o craque boêmio

Norival Cabral Ponce de Leon, ou apenas Ponce de Leon, foi um famoso atacante que defendeu as equipes do Botafogo do Rio de Janeiro, São Paulo, Palmeiras e Noroeste de Bauru (SP), nas décadas de 1940 e 1950. Era carioca, nascido em 28 de agosto de 1927. Boêmio inveterado, Fez constar em seu contrato com o time de Bauru uma clausula que lhe permitia sair para dançar pelo menos duas vezes por semana.

Quem o viu jogar garante que tinha muita qualidade dentro de campo. Os torcedores o chamavam de “diabo louro”. Além disso, não levava desaforo para casa. Bailarino de primeira linha freqüentava casas de shows, sempre elegantemente vestido com terno de linho e sapatos de duas cores. Contam que ele fazia incríveis coreografias, dignas de um Fred Astaire.

Em uma destas casas, trabalhava sua namorada e parceira preferida, Mirian. Diz a lenda que em determinada noite, quando estava concentrado para uma partida, foi avisado de que Miriam estava dançando muito com apenas um cliente. Não teve dúvidas em comparecer ao local, agredir o tal cliente e retornar ao hotel para entrar em campo no dia seguinte.

Mirian foi uma das primeiras namoradinhas, mas Ponce de Leon casou com dona Dulce Rosalina, considerada a torcedora símbolo do Vasco da Gama do Rio de Janeiro. Da união nasceu um único filho, conhecido como “Poncinho”.

Comentavam, na época, que quando Ponce de León atuava por outros clubes, nas ocasiões em que derrotava o Vasco era recebido pela esposa com agressões verbais, pois Dulce não admitia que o Vasco perdesse. Dulce Rosalina faleceu em 19 de Janeiro de 2004.

Segundo o Almanaque do São Paulo, de Alexandre da Costa, Ponce de Leon disputou 107 jogos pelo tricolor paulista, com 70 vitórias, 17 empates, 20 derrotas e 52 gols marcados. O jogador chegou ao São Paulo em 1948, junto de outro atacante, Santo Cristo ambos vindos do Botafogo carioca.

Na conquista do título paulista de 1948, jogo realizado no dia 18 de dezembro, no Pacaembu contra o Nacional, Ponce de Leon foi o grande destaque na vitória de 4 X 2, tendo marcado 2 gols.

Segundo o Almanaque do Palmeiras, de Mário Sérgio Venditti e Celso Unzelte, Ponce de Leon vestiu a camisa do “Verdão” em 64 jogos com 34 vitórias, 12 empates, 18 derrotas e 27 gols marcados. Ele chegou ao Palmeiras já veterano, vindo do São Paulo. Na final da Copa Rio de 1951, substituiu Aquiles, que estava machucado, e comandou o ataque palmeirense na brilhante conquista do título, decidido contra a Juventus de Turim no Maracanã.

Boêmio assumido faleceu pobre em um leito hospitalar. Seu corpo está sepultado no Cemitério São Paulo, em um mausoléu reservado as ex-atletas de todos os esportes, inclusive futebol. Nesse local também está sepultado Arthur Friedenreich, grande jogador da década de 1930. (Pesquisa: Nilo Dias)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O goleiro que virou estrela

Algisto Lorenzato Domingos, mais conhecido por Batatais foi um dos melhores goleiros da história do futebol brasileiro. O apelido lembra sua cidade natal, Batatais (SP), onde nasceu no dia 20 de maio de 1910. Com seus 1.82 m e 76 kg, começou a carreira no time do Frigorífico Anglo, onde foi trabalhar ainda jovem, para ajudar nas despesas de casa, já que sua família era muito pobre. Sua primeira posição foi ponta-esquerda. Entrou para o gol, quando o titular se machucou, e nunca mais saiu.

Depois foi parar no Comercial F.C., de Ribeirão Preto. Em 1933 foi contratado pela Portuguesa de Desportos, onde estreou no dia 22 de maio com uma vitória sobre o Santos F.C. por 4 X 2. No seu jogo de despedida da “Lusa”, dia 26 de novembro de 1934, uma derrota de 1 X 0 para o Corinthians.

Em janeiro de 1935 Batatais foi para o Palestra Itália, onde ficou por seis meses. Jogou 11 partidas, com 8 vitórias, 2 empates, 1 derrota e 9 gols sofridos. Em junho de 1935 foi para o Fluminense F.B.C, do Rio de Janeiro, junto com vários outros jogadores que defendiam a Seleção Paulista, tricampeã brasileira de seleções estaduais.

No ano seguinte foi titular de todas as 18 partidas da vitoriosa campanha do Fluminense no Campeonato Carioca. O Fla-Flu voltou a decidir o campeonato de 1936, já no profissionalismo. Melhor de três em Laranjeiras: 2 X 2, 4 X 1 e 1 x 1. Novamente o Fluminense levantou a taça. O time campeão foi: Batatais - Guimarães e Machado – Marcial - Brant e Orozimbo - Mendes – Lara – Russo - Romeu e Hércules.

Em 1937 e 1938, lá estava Batatais novamente, tornando-se o goleiro do segundo tricampeonato da história do Fluminense. O goleiro vestiu a camisa tricolor até 1945, conquistando ainda mais dois títulos cariocas, em 1940 e 1941, e participando do confuso Torneio Rio-São Paulo em que o Fluminense foi declarado campeão, junto com o Flamengo, em 1940.

O Fluminense ficou famoso por uma tradição de possuir grandes goleiros. E se Marcos Carneiro de Mendonça foi o primeiro desta linhagem, o segundo foi com certeza Batatais. Pelo Fluminense disputou 309 partidas e sofreu 458 gols. Em 79 jogos não foi vazado.

A decisão do Campeonato Carioca de 1941, na Gávea, o famoso “Fla-Flu da Lagoa” ganhou ares de tira-teima, uma vez que o tricolor ganhara os campeonatos de 1936, 1937 e 1938, além do de 1940, enquanto o Flamengo, com uma equipe forte, sagrara-se campeão de 1939.

Nesse jogo Batatais foi o grande herói. Mesmo contundido - teve um braço pisoteado por Pirilo - manteve-se firme e garantiu o empate heróico de 2 X 2, que deu o bicampeonato ao tricolor. O Fluminense estava “rebentado” em campo. Naquela época não eram previstas substituições. Além do goleiro machucado, Brant estava fisicamente esgotado. E para piorar, Carreiro havia sido expulso.

O clássico foi eletrizante. O Fluminense começou melhor a partida, marcando dois gols, com Pedro Amorim e Russo. No fim do primeiro tempo, Pirilo diminuiu para o rubro-negro. No segundo tempo, depois de muito pressionar, o Flamengo empatou, novamente com Pirilo, aos 38 minutos.

A partir daí, o Flamengo – precisando da vitória – se lançou todo ao ataque, enquanto o Fluminense, encolhido na defesa, se valia dos chutões para a Lagoa Rodrigo de Freitas para aliviar a pressão. Quando as bolas sumiam, os dirigentes rubro-negros recorriam aos remadores do clube, a fim de que resgatassem as bolas com maior rapidez. Por isso o jogo ficou conhecido como o “Fla-Flu da Lagoa”.

Foi na temporada de 1938 que chegou à Seleção Brasileira. Na Copa da França, no mesmo ano, Batatais jogou em duas, das cinco partidas da equipe que terminou na terceira colocação. Após sofrer 5 gols na partida contra a Polônia, perdeu o posto de titular.

O técnico Ademar Pimenta passou a escalar Walter, goleiro do Flamengo que, como incentivo, recebeu a oferta de um prêmio de 30 mil francos do chefe da delegação brasileira, José Maria Castelo Branco, para cada jogo que ficasse sem sofrer gols.

Batatais ainda participou de um jogo amistoso da Seleção. Os companheiros diziam que ele passava muita segurança à equipe. Era tão bom, que para sofrer um gol o adversário precisava pegar mal na bola e enganá-lo, pois estava sempre bem colocado.

Batatais encerrou a sua carreira em 1946 defendendo o América F.B.C., do Rio de Janeiro. Sua carreira de futebolista valeu tanto pela qualidade, quanto pelo seu comportamento exemplar, que lhe garantiu o “Prêmio Belfort Duarte”, por nunca ter sido expulso de campo.

Outra honraria para Batatais, encontra-se presente em uma das três estrelas que se destacam no escudo do Batatais F.C., equipe de sua terra natal. O clube homenageia todos os jogadores nascidos na cidade e que participaram de alguma Copa do Mundo, pela seleção Brasileira. Até hoje foram três: Batatais, Zeca Lopes, ex-Corinthians Paulista e Baldocchi, ex-zagueiro do Palmeiras.

Os títulos conquistados por Batatais, todos pelo Fluminense: “Campeão Carioca” (1936, 1937, 1938, 1940 e 1941); “Campeão do Torneio Aberto da Liga Carioca” (1935); “Torneio Municipal” (1938); “Campeonato Extra” (1941); “Torneio Início” (1940, 1941 e 1943) e o inacabado “Torneio Rio-São Paulo” (1940).

Entre as centenas de milhares de admiradores de sua técnica e seu arrojo, Batatais se orgulhava de um deles: o presidente Getúlio Vargas. Certa vez, na cidade mineira de São Lourenço, no ano de 1938, estando lá concentrada a Seleção carioca, o chefe da Nação manifestou o desejo de cumprimentar o arqueiro. O governador Valadares foi o intermediário e Batatais recebeu a saudação do Presidente.

Pena que os últimos dias de Batatais não tenham sido iguais aqueles vividos no auge de sua carreira. Sem apoio do ex-clube, o Fluminense, o ex-goleiro conseguiu sobreviver graças ao emprego de porteiro da Tribuna do Honra do Maracanã, que lhe foi conseguido pelo ex-superintendente do estádio, Arno Frank. Batatais morreu pobre e esquecido, no dia 16 de junho de 1960, no Rio de Janeiro. (Pesquisa: Nilo Dias)

domingo, 16 de janeiro de 2011

A intolerância entra em campo (Final)

Nos últimos anos foram várias as manifestações racistas acontecidas no futebol, mundo afora. Como o que nos interessa mais é o Brasil, relembramos uma série de ocorrências registradas no cenário nacional.

Em abril de 2005, o zagueiro argentino Leandro Desábato, do Quilmes, da Argentina chamou o atacante Grafite, do São Paulo, de “negrito de mierda”. Os times jogavam uma partida pela Taça Libertadores da América. A televisão registrou o momento e, pouco depois do término do jogo, o agressor foi preso por crime de racismo. Ele pagou uma fiança de 10 mil reais e acabou extraditado do Brasil.

Poucos dias depois, em um jogo do mesmo Quilmes contra o River Plate, pelo Campeonato Argentino, torcedores racistas ergueram faixas reinterando as ofensas a Grafite. Uma o chamava de “Macaco” e outra de “Branca de Neve”.

Em maio de 2005, o atacante Marco Antônio, do Campinense (PB), acusou o árbitro Genival Batista Júnior de tê-lo chamado de "negro safado" e "macaco", durante um jogo valendo pelo campeonato Paraibano. Genival se justificou dizendo ter levado uma cabeçada do jogador, mas os responsáveis pelo caso não viram nada no vídeo da partida.

Em 12 de setembro de 2005, o goleiro Felipe entrou com uma queixa por racismo contra o então presidente do Vitória, Paulo Carneiro, porque ele havia lhe chamado de “negro safado”, “preto vagabundo” e “vendido”. O bate-boca ocorreu após o empate contra a Portuguesa, em um jogo do Campeonato Brasileiro. O resultado levou ao rebaixamento do clube para a segunda divisão. Por causa do incidente, Carneiro foi afastado da diretoria.

Um dos casos mais famosos aconteceu em 2006. Na época zagueiro do Juventude, Antônio Carlos Zago foi acusado pelo gremista Jeovânio de racismo em uma partida entre as duas equipes pelo Gauchão. Antônio Carlos foi expulso por acertar uma cotovelada no volante e deixou o gramado do Alfredo Jaconi fazendo gestos de passagem dos dedos nos dois antebraços, dando a entender que se referia à cor de pele de Jeovânio.
Após a partida, Jeovânio e o então presidente do Grêmio, Paulo Odone Ribeiro, foram até o Ministério Público do Rio Grande do Sul para relatar o fato, mas o caso acabou sendo arquivado.

A casa do Juventude ainda foi palco de outra manifestação preconceituosa. O volante Tinga, do Internacional, a cada vez que pegava na bola em um jogo pelo Brasileirão, ouvia grande parte da torcida alviverde imitar um macaco. O árbitro Alicio Pena Júnior chegou a interromper o jogo e solicitar que a diretoria do clube da Serra Gaúcha tomasse providências. O Juventude acabou sofrendo uma multa de R$ 200 mil e perdeu o mando de campo em dois jogos.

Na pré-temporada do Flamengo em Teresópolis, em 2008, durante um jogo-treino contra o Huracán Buceo, do Uruguai, os jogadores rubro-negros acusaram o zagueiro Fernando Caballero de ofensas raciais. No primeiro tempo, o uruguaio se desentendeu com Toró e houve bate-boca. Ibson, defendendo o companheiro, gritou: “Não vem de racismo aqui!” Toró confirmou a ofensa ao final da partida. A palavra usada pelo uruguaio teria sido "macaco".

Um caso de homofobia envolvendo o ex-jogador do São Paulo Futebol Clube, Richarlyson, que é negro, virou manchete dos principais veículos de comunicação do país. O juiz da 9ª Vara Criminal de São Paulo, Manoel Maximiano Junqueira Filho, mandou arquivar o processo movido pelo jogador contra um dirigente do Palmeiras que, em um programa de televisão, insinuou que o atleta era homossexual. Em seu despacho, entre inúmeras declarações preconceituosas, o juiz afirmou que “não poderia jamais sonhar em vivenciar um homossexual jogando futebol”.

Em 2009, pela Copa Libertadores da América o duelo brasileiro entre Grêmio e Cruzeiro foi marcado por mais uma acusação de racismo. Elicarlos, volante do time mineiro, disse que o atacante Máxi Lopez, dos gaúchos, o chamou de "macaco".
Em consequência da acusação, policiais cercaram o ônibus do Grêmio no final do jogo com o objetivo de tomar o depoimento do atacante argentino. Isso foi feito ainda no Mineirão, palco da partida, e o jogador deixou a delegacia de madrugada, sem dar declarações.

No jogo da volta, realizado em Porto Alegre, quando Elicarlos se preparou para entrar no decorrer do segundo tempo, a torcida gremista que lotou o estádio Olímpico começou a imitar sons de macaco. A manifestação perdurou até o fim do jogo sempre que o jogador recebia uma bola.

Em abril do ano passado, em jogo pela Copa do Brasil entre Palmeiras e Atlético-PR, o zagueiro Manoel, do time paranaense, acusou o também zagueiro Danilo, do clube paulista, de chamá-lo de "macaco" em partida disputada no Palestra Itália.

“Danilo cuspiu em mim e me chamou de macaco. Ser chamado de macaco é a pior coisa que tem", disse o jogador do Atlético, que pisou no rival durante o segundo tempo da partida como forma de revidar. Manoel foi a uma delegacia de Polícia da capital paulista, prestar queixa. (Pesquisa: Nilo Dias)

Grafite, quando jogava no São paulo foi vítima de preconceito racial.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A intolerância entra em campo (III)

O primeiro time a escalar um negro no Brasil foi o Bangu A.C., em 14 de maio de 1905, em jogo amistoso disputado contra o Fluminense, no Jardim da Fábrica Bangu. O jogador foi Francisco Carregal e o Bangu venceu a partida por 5 x 3. Em 1911, o clube industrial ganhou o campeonato carioca da segunda divisão, tendo em sua equipe quatro jogadores negros.

Mesmo que a CBF considere o C.R. Vasco da Gama pioneiro na aceitação de negros em sua equipe, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro pensa diferente. Tanto que em 2001 agraciou o Bangu A.C. com a Medalha Tiradentes, por ter sido o primeiro clube carioca a contar com jogadores de cor preta em seu grupo.

Pelos quadros do Bangu, ao longo da história passaram inúmeros jogadores negros importantes no futebol brasileiro, como Luiz Antônio da Guia, irmão mais velho de Domingos da Guia. Ele foi o atleta que por mais tempo defendeu um único clube de futebol no Brasil, de 1912 até 1931. Fora o Bangu, só vestiu a camisa da seleção carioca. Contam que nunca foi convocado para a seleção brasileira, por ser negro.

O América Mineiro foi fundado por jovens da elite de Belo Horizonte, em 1912. Entre seus fundadores estava um negro, Geraldino de Carvalho que fez parte do time que conquistou o decacampeonato mineiro, entre 1916 a 1925. Em razão disso, mesmo sendo considerado historicamente um clube elitista, o América guarda a honra de ter sido o primeiro a admitir um negro em Diretoria. Também foi o primeiro clube a ter um negro entre seus fundadores.

Em 1950, o Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai, em pleno Maracanã. Os atletas negros e mulatos do time, como Barbosa, Bigode, Zizinho e Jair foram responsabilizados pelo fracasso. A imprensa de Norte a Sul do país dizia que faltara coragem, fibra e raça aos jogadores.

Os negros enfrentaram tempos difíceis, sendo considerados como atletas fadados ao fracasso, por não terem estrutura emocional para grandes jogos internacionais, já que sentiam muita saudade de casa. O talento de Leônidas da Silva, na Copa de 1936 fora totalmente esquecido.

Quem mais sofreu com isso foi o goleiro Barbosa, que carregou esse estigma pelo resto da vida. A partir daí firmou-se a convicção de que os goleiros negros não eram bons, sendo raros os que conseguiram jogar em grandes clubes e na seleção.

O grande salto de qualidade para o negro no futebol brasileiro, aconteceu graças a Pelé, que sempre fez questão de dizer que era preto. Com isso ele se sentia bem, pois exaltava a mãe, o pai, a avó, o tio, a família pobre de pretos que o preparou para a glória. Nenhum preto, no mundo contribuiu mais para varrer barreiras raciais do que Pelé.

E Pelé orgulha-se de nunca ter precisado esticar os cabelos. Foi e ainda é aplaudido e respeitado no mundo inteiro pelo que é: preto como o pai, como a mãe, como a avó, como o tio, como os irmãos. E ele não se incomoda quando os demais pretos do futebol brasileiro o chamam de “Pelé, o crioulo”.

Mas nem por isso Pelé escapou de ser vitima de racismo. Ele relata em sua biografia, há pouco lançada, ter passado por uma situação dessas em sua juventude: “Houve uma garota, uma das primeiras, por quem eu sentia uma atração muito forte, mas o pai dela acabou com tudo: chegou na escola um dia e deu uma bronca nela por estar conversando comigo. "O que você está fazendo com esse negrinho?", gritava.

Foi a primeira vez, creio, que tive contato direto com o racismo, e foi absolutamente chocante. Minha namorada era branca, mas nunca tinha me passado pela cabeça que alguém pudesse se incomodar com aquilo – ou comigo”, conta Pelé no livro escrito por Orlando Duarte e Alex Bellos.

A redenção da tragédia de 1950 veio oito anos depois. Em 1958, na Suécia o Brasil finalmente se sagrou campeão do mundo, com um time repleto de negros e mulatos como Pelé, Garrincha, Didi, Djalma Santos, Rubens, Índio, Oreco. Caia por terra a teoria de que negros não tinham condições psicológicas para serem vencedores.

Em 1962, 1970, 1994 e 2002 o Brasil voltou a ser campeão do mundo. Nenhuma seleção possui tantos títulos como a nossa. É verdade que a situação já foi muito pior para os jogadores negros. Mas falta muito para que ocupem de vez um espaço de valor no futebol brasileiro.

Nem todos têm a mesma sorte de Ronaldo Fenômeno, Adriano, Ronaldinho Gaúcho e outros negros e mulatos que se tornaram astros de primeira grandeza do futebol mundial, e ficaram multimilionários. Mesmo que a maioria dos jogadores que atua no Brasil seja de negros e mulatos, eles ainda lutam contra o velho racismo, ganham menos que os brancos e não tem no esporte uma garantia de ascensão social.

Questionários feitos com 327 jogadores de 17 clubes do Rio de Janeiro mostraram que, enquanto 26.6% dos atletas brancos ganham até um salário mínimo, entre os negros a proporção é de 48.1%. No total de jogadores, é de 34.9%. No alto da pirâmide salarial, 24.8% dos brancos ganham mais de 20 salários mínimos. Entre os negros, o percentual é de 14.8%, abaixo do verificado no conjunto de jogadores (17.1% ganhando mais de 20 salários mínimos).

Os atletas negros ainda enumeraram diferenças: o salário deles costuma atrasar mais, recebem menos convites para sair com os cartolas ou são tratados com desprezo. Outra discriminação está no tratamento: macaco, crioulo, gorila.

Muitos casos de discriminação de jogadores negros no futebol brasileiro foram relatados ao longo da trajetória do esporte no país. Nos anos 20, o presidente da República, Epitácio Pessoa recomendou que não fossem incluídos mulatos na seleção brasileira que foi a Buenos Aires, para disputar o Campeonato Sul-Americano. Para o Presidente era importante projetar outra imagem do povo brasileiro no exterior, e era “absolutamente imperioso que o país fosse representado pela sua melhor sociedade”.

Outro caso interessante aconteceu na primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai em 1930. A seleção brasileira foi composta apenas por jogadores de um combinado de times cariocas, excluindo os paulistas, e a grande maioria dos atletas era de origem branca.

Na Copa de 1938, na França, nossa seleção chegou as semifinais contra a Itália e, nosso melhor jogador, Leônidas da Silva, de origem negra, “foi poupado” desse jogo para jogar a final. Resultado desta segregação: o Brasil perdeu o jogo para a Itália, com um pênalti cometido por Domingos da Guia. Domingos por ter cometido o pênalti levou a culpa pela eliminação da seleção brasileira.

A seleção de 1982, tida pela maioria da população brasileira e jornalistas esportivos como uma das melhores equipes já formadas, era constituída em grande parte por jogadores brancos, universitários e oriundos da classe média. Atletas negros ou mestiços estavam reduzidos a quatro: Luisinho, Toninho Cerezo, Júnior e Serginho. As críticas que surgiram em 1982 foram sobre eles.

Por fim, artigo do comentarista esportiva Juca Kfouri trata com maestria outra situação clara existente no nosso futebol: qual é o grande técnico negro da história do futebol brasileiro? Ao que se sabe, tivemos apenas dois em toda a história: Gentil Cardoso, em 1957, e Wanderley Luxemburgo, se é que ele se considera negro ou pardo, mais recentemente.

Kfouri pergunta: no país do futebol, onde a maioria dos atletas são negros, qual o dirigente importante do futebol brasileiro que é negro? Não tem nem um. O lugar é dos brancos. Negro é muito bom no gramado, mas no banco dirigindo o time ou na sala da presidência da confederação ou do clube, não tem lugar para ele. (Pesquisa: Nilo Dias)

Barbosa, por ser negro foi considerado o maior culpado pela perda da Copa de 50, pelo Brasil. (Foto: Acervo do C.R. Vasco da Gama)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A intolerância entra em campo (II)

A intolerância contra os negros no futebol brasileiro começou a diminuir a partir de 1923, quando o C.R. Vasco da Gama disputou e venceu o campeonato carioca, com um time formado por negros e brancos pobres. É claro que isso mexeu com os brios dos dirigentes dos clubes de brancos, e o Vasco sofreu séria perseguição por ter sido campeão.

Mas não adiantou nada. Todo mundo estava a frente de um fato consumado. Agora, se sabia que não se ganhava campeonato só com time de brancos. A mistura de brancos, mulatos e pretos respondera com eficiência dentro de campo, sendo campeã da cidade.

Não havia mais nada a discutir. A tão decantada vantagem de ser filho de boa família, estudante e branco, não queria dizer mais nada. A partir desse momento ele jovem teria de competir em igualdade de condições com o pé-rapado, o analfabeto, o mulato, o preto. Era uma revolução que se desencadeava no futebol brasileiro.

A entrada dos negros e dos populares em geral nos clubes até então freqüentados e comandados pela elite, não ocorreu sem que tivesse sido criada antes, uma fronteira demarcando o status entre associados e atletas. Os sócios mais prestigiados é que teriam a responsabilidade da gestão política e administrativa dos clubes.

A aceitação dos negros no futebol brasileiro teve a mistura de três fatores: o primeiro, de ordem econômica, com os clubes grandes percebendo que era importante à presença dos negros em suas equipes, para os estádios ficarem lotados. E em conseqüência, mais renda para os cofres. O segundo fator foi à habilidade técnica dos negros em relação aos brancos. E o terceiro, a paixão pelo futebol.

Os negros foram segregados também no Rio Grande do Sul, pois, tendo perdido espaço de trabalho para os imigrantes europeus, saíram do campo para a cidade, no chamado êxodo rural, e passaram a habitar as favelas, segundo um processo característico de marginalização.

Nesse tempo o futebol já havia alcançado grande destaque no sul do país, o que fez com que os negros também o praticassem. Clubes como o Grêmio, Internacional e Cruzeiro de Porto Alegre, porém, não os aceitavam em seus quadros.

Inconformados, os excluídos formaram entre 1911 e 1912, a Liga Nacional de Futebol Porto Alegrense, pejorativamente chamada pelos brancos de Liga da Canela Preta, onde qualquer indivíduo podia jogar independentemente da raça. Em 1922, a liga tradicional abriu a segunda divisão, ocasionando oportunidades para jogadores negros. Os de maior habilidade acabaram por preencher lugares em clubes de expressão como o Internacional.

Em 1928, o jogador Dirceu Alves, do 8 de Setembro, filho de pai branco e mãe mulata, se tornou o primeiro jogador não branco a vestir a camisa do clube colorado. Logo após, outros conquistaram espaço. Com seu campeonato enfraquecido, veio a decadência e o conseqüente fechamento da Liga da Canela Preta.

Pena que durante a grande enchente de 1941, em Porto Alegre, toda a documentação sobre a Liga foi destruída. Só restou o resgate oral dessa história. Alguns clubes que fizeram parte da Liga foram o 8 de Setembro, Palmeiras, Bento Gonçalves e Rio Grandense, este último dirigido por Francisco Rodrigues, pai do famoso compositor Lupicicio Rodrigues.

Nas cidades de Pelotas e Rio Grande, também existiram ligas exclusivas para times negros. Algumas fotografias publicadas na imprensa pelotense em 1931 mostram que alguns times da Liga José do Patrocínio aceitavam atletas "mulatos", caso do S.C. Universal. Outros como G.S. Sul América, o G.S. Vencedor e G.S. Luzitano eram compostos exclusivamente por indivíduos negros.

Em Rio Grande a liga dos negros era a Rio Branco. Mas não se tem maiores registros sobre sua atividade: quando foi fundada, quantos clubes eram a ela filiados e nem quando acabou.

O compositor Lupicínio Rodrigues, torcedor e autor do hino do Grêmio Portoalegrense conta que seu afeto ao clube tricolor, se deve a um fato ocorrido no início do século passado, envolvendo o time de futebol de seu pai, o Rio-Grandense. O clube desejava ingressar na liga principal de Porto Alegre, mas foi barrado pelo Internacional.

Em outubro de 1920 tivemos um dos piores momentos proporcionados pela intolerância. Quando a seleção Brasileira foi até Buenos Aires jogar uma partida amistosa contra a Argentina, em benefício do “Asilo de Huérfanos Militares”, o jornalista e advogado uruguaio Antonio Palacio Zino, do periódico porteño “La Crônica”, destilou todo o seu racismo e desconsideração ao Brasil.

A manchete da página de esportes estampava: "Monos em Buenos Aires" (Macacos em Buenos Aires). A matéria estava acompanhada de uma charge em que jogadores e integrantes da delegação brasileira eram mostrados como macacos. O texto, bastante ofensivo, chamava os brasileiros de “macaquitos” e ironizava a conduta moral de nossas mulheres. Eis o artigo, devidamente traduzido para o português.

“E estão os macaquinhos em terras argentinas. Hoje (6-10-20)) temos de acender a luz às 4h da tarde, pois os temos visto passeando pelas ruas, aos saltos (…) No carnaval, os maridos se abrem e as mulheres vão para a festa, como lhes dá vontade. Por isso que, cada vez que nasce uma criança, o casal tenta descobrir com qual vizinho se parece (…) A uma hora e meia da bela capital brasileira,gente inocente é degolada, se assalta sem medo e é latente a escravidão em suas nuances selvagens”.

Se um comentário desse teor fosse feito nos dias de hoje, certamente haveria um incidente diplomático entre Brasil e Argentina, com resultados inimagináveis.

O jogo foi inicialmente marcado para 3 de outubro, porém uma forte chuva provocou a transferência para o dia 6. Horas antes do jogo, o jornalista racista teve a cara de pau de visitar a delegação brasileira no hotel onde estava hospedada, e acabou sendo agredido pelo jogador Sisson, capitão da equipe do Brasil. Enquanto apanhava, gritava em bom castelhano: “Brincadeira, brincadeira” . Teve sorte, pois outros também queriam lhe surrar, mas foram evitados pela turma do “deixa disso”.

Na hora de entrar no gramado do estádio do Sportivo Barracas, outrora a casa principal da seleção argentina, o Brasil não tinha um time completo. Do grupo, só sobraram seis jogadores dispostos a entrar em campo. Então, foi preciso escalar o ex-jogador Osvaldo Gomes, autor do primeiro gol da história da seleção e agora chefe da delegação brasileira, e mais quatro “enxertos” argentinos: Balgorri, Rosado, Solari e Castro.

Mal o jogo começou, e os 3 mil torcedores presentes ao estádio se deram conta que o onze brasileiro estava “remendado”, e passaram a atirar objetos no gramado. O árbitro teve de interromper o jogo, tal os protestos. Como não tinha condições de devolver o dinheiro aos torcedores, aconteceu um acordo no mínimo estranho: os argentinos saíram do time brasileiro e o jogo prosseguiu com sete jogadores para cada lado. A Argentina venceu por 3 X 2. Depois do jogo, os argentinos ofereceram uma festa em homenagem aos brasileiros e um pedido formal de desculpas. (Pesquisa: Nilo Dias)

A charge em que os brasikeiros apareciam como macacos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A intolerância entra em campo (I)

O Brasil inteiro assistiu durante quase duas semanas uma verdadeira novela em torno do jogador negro Ronaldinho Gaúcho. Três dos maiores clubes do país – Grêmio, Palmeiras e Flamengo - brigaram intensamente para tê-lo em suas fileiras. Verdadeiras fortunas foram oferecidas, até que finalmente o pretendente carioca levou a melhor.

Mas nem sempre o negro foi valorizado como está sendo agora no futebol brasileiro. Quando o futebol aqui chegou em 1894, vindo da Inglaterra, era um esporte praticado só por representantes da elite dominante. Negros e brancos pobres eram excluídos. Dizia-se que “branco pobre, preto é”. Nesse nobre esporte não tinha lugar para os que não fossem “brancos e de boas famílias, sãos, puros, cordiais, ricos e de origem letrada”. Então, os negros não tinham a menor chance de ingressarem nesse ambiente fechado.

O público também acompanhava a elegância, sofisticação e modernidade do esporte. Assistir a jogos no estádio do Fluminense, por exemplo, era um evento social. Os negros e brancos pobres estavam nitidamente alijados do jogo e até mesmo da torcida. Para tanto, as ligas criaram mecanismos, como a cobrança de altas taxas de filiação, de modo a fazer do futebol um espaço de diferenciação e uma marca da “superioridade” da elite branca e abastada.

E não era só o futebol que fechava as portas para os negros. Naqueles tempos o turfe tinha muitos aficcionados nas cidades brasileiras e o remo atraía os jovens das boas famílias, proporcionando a fundação de clubes e as atenções de um público amplo até a primeira década do século XX. Impensáveis para negros. Jogadores e público, tudo pertencia a um grupo social comum.

Em várias capitais do Brasil, clubes de elite praticavam o futebol. Em São Paulo, Germânia e Paulistano eram referências das elites locais. O Paulistano chegou a ter um negro no time no começo do século, mas este era da elite, Friedenreich.

No Rio Grande do Sul o Grêmio Portoalegrense formou-se para a prática do futebol em 1903 e constituiu um clube calcado na experiência anterior de associatividade esportiva entre os teuto-brasileiros (ginástica, remo, esgrima), tecendo teias entre estes grupos de sucesso originários da emigração européia e outros grupos dominantes locais.

O futebol e as primeiras ligas foram criados para atender as elites sociais, formadas por cidadãos de origem branca, ficando para as classes economicamente menos privilegiadas, na sua maioria compostas por cidadãos de origem negra, o direito de jogar em ligas clandestinas.

Até o final dos anos 1920 nenhum clube que se prezasse ousava lançar um negro em seu time. A presença de alguns jogadores negros nos clubes menores era tolerada pela aristocracia, desde que tal presença não incomodasse o poder dos grandes clubes.

A crença geral era de que os negros se constituíam em seres inferiores. Desde que os primeiros deles chegaram ao Brasil para trabalhar nas lavouras de cana de açúcar, que foram vistos assim. Como eram escravos tinham muitos deveres, nenhum direito e eram totalmente submissos ao homem branco.

Em 1888 veio a abolição da escravidão, mas não foi acompanhada de um mínimo de condições para que os negros e seus descendentes pudessem começar uma nova vida. A liberdade só existia na letra fria da lei. Na realidade, continuavam reféns da boa vontade dos brancos e vítimas de toda a espécie de preconceito. Não tinha como isso não repercutir no futebol.

Apesar de tudo, o processo de apropriação popular do novo esporte não demorou a chegar. Crianças e adultos começaram a bater bola ao ar livre, nas ruas, campinhos de terra e onde quer que fosse possível.

A simplicidade das dezessete regras do futebol facilitava a popularização do novo esporte. A bola podia ser improvisada. Qualquer coisa arredondada servia. Um maço de folhas de jornal enfiado num pé de meia, jornal amassado amarrado com barbante, ou simplesmente uma laranja ou uma lata velha amassada. E até mesmo uma tampinha de cerveja.

Logo que os negros começaram a jogar futebol por aqui, tiveram de enfrentar regras rígidas, que só valiam para eles: não podiam derrubar, empurrar, ou mesmo esbarrar nos adversários brancos. Se assim agissem, eram punidos severamente. Já os demais jogadores e até os policiais podiam bater no infrator. Os brancos, no máximo, eram expulsos de campo. E tudo isso com a complacência dos árbitros, que eram todos brancos. Até a maioria do público que assistia aos jogos, era de predominância branca.

Essa diminuição dos espaços dentro de campo, originária de uma situação social obrigou os negros a tomarem mais cuidados, jogarem com mais ginga, com mais habilidade, evitando o contato físico. Assim o negro criou o drible, que não é outra coisa que a criação de espaço, onde o espaço não existe. Sem dúvida, foi o jogador negro que imprimiu no futebol brasileiro um estilo próprio de magia e arte.

O primeiro negro a alcançar sucesso no futebol brasileiro foi Arthur Friedenreich, um mulato de olhos verdes. Era tolerado por ser filho de pai alemão, embora a mãe fosse uma lavadeira negra brasileira. Fried, como era chamado pelos companheiros, jogou até na seleção. Morreu sem ter nunca admitido que nas suas veias corria sangue negro.

Ele costumava chegar atrasado aos jogos e se enfurnava no vestiário, tentando alisar e prender os cabelos crespos com brilhantina, para não ser visto pela multidão como o mulato que era. Naquela época, negro que quisesse jogar em time de branco, tinha de colocar uma touca na cabeça, para esconder o cabelo crespo. Os pretos do futebol, à medida que ascendiam, procuravam ser menos pretos. Sabe-se de casos até de operações plásticas, para fugir da cor.

No capítulo do racismo na história do futebol brasileiro, são muitos os casos dignos de registro. Episódios de discriminação e preconceito que incluíam atitudes humilhantes dos dirigentes de clubes diante dos atletas negros.

No aristocrático Fluminense F.C., do Rio de Janeiro tivemos o famoso episódio racista do "pó-de-arroz”. Para poder jogar no time, sem aparecer como preto diante da multidão que lotava os estádios, o jogador Carlos Alberto, vindo do América tinha de disfarçar a cor da pele. De colocar a máscara branca. Para isso, cobria o brilho negro mestiço de seu rosto com espessas camadas de pó-de-arroz. Robson, também ex-jogador do próprio Fluminense disse uma ocasião: “Eu já fui preto e sei o que é isso.”

Em 1923, o América F.C. foi buscar na área portuária do Rio de Janeiro, um marinheiro negro apelidado de “Manteiga”, para dar mais força e combatividade ao seu time. O apelido se devia a qualidade dos passes oriundos de seus pés, “vindos como se tivessem manteiga”, diziam.

No dia da estréia, quando ele se preparava para entrar em campo, outros jogadores do time saíram do vestiário, por preconceito, e negaram-se a jogar. Depois foram acompanhados por mais nove jogadores do primeiro e do segundo time, que insatisfeitos pediram demissão.

Por causa disso “Manteiga” não quis mais saber do América. O ano era de 1922, quando ele pegou a mala e se mudou para a Bahia. Lá, o cenário era bem menos racista que no Rio de Janeiro. Na Bahia se sentia em casa, bem ao contrário do Rio onde tinha de andar "quase fugido", escreveu Mario Filho, no livro “O negro no futebol brasileiro”.

Mesmo que Salvador tenha sido a cidade pioneira no Brasil no livre acesso de negros na liga de futebol principal, se sabe que a primeira liga baiana de futebol, fundada em 1904, era chamada de “Liga Branca”. Em 1912, fruto de conflitos surgiu a "Liga Democrática", que supostamente permitia a participação de atletas negros.

Também tivemos o caso do jogador Hércules, que se casou com uma associada branca do Fluminense. Em represália o clube proibiu o ingresso de atletas nos seus quadros sociais, num claro recado para que “Hércules soubesse qual era o seu lugar”. Hércules foi um dos raros jogadores negros que se deu bem na vida, naqueles anos difíceis. Quando pendurou as chuteiras, em 1946, era dono de casas e terrenos em São Paulo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Friedenreich, nunca admitiu que tinha sangue negro.