Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O gélido futebol finlandês

O futebol na Finlândia é praticado somente seis meses por ano, devido as condições climáticas. Ao invés do resto do mundo, nestas gélidas regiões o futebol é um desporto de Verão. Os rigorosos invernos duram de Novembro a Abril. Apenas seis meses por ano de competição não permitem grandes aspirações aos seus clubes e seleções.

Mas isso não quer dizer muita coisa, pois o esporte não é o primeiro na preferência popular. Perde para o Hockey no gelo e outros esportes de inverno. Mas num futuro bem próximo, a posição do futebol no país pode melhorar. È que jovens e crianças tem mostrando interesse no esporte inventado pelos ingleses.

Isso, associado ao destaque internacional conquistado por alguns de seus principais jogadores, como Litmanen, Forssel, Hyypia, Kolka, Johansson, entre outros, quase todos atuando no futebol inglês. Números divulgados pela Associação de Futebol da Finlândia mostram que existem cerca de 100.000 jogadores registrados e cerca de 400 times. De acordo com o Gallup poll, aproximadamente 400 mil pessoas têm o futebol como hobby.

O futebol chegou na Finlândia na década de 1890, levado por viajantes britânicos, e foi jogado pela primeira vez em Turku. No entanto, a primeira competição nacional só foi disputada em 1906, tendo como campeão o time da escola de Turku. A Associação de Futebol da Finlândia foi fundada em 1907, e associou-se á FIFA em 1908.

A primeira divisão (“Veikkausliiga”) é composta por 14 times profissionais de futebol. A segunda divisão (“Kakkonen”) tem 47 times divididos em Leste, Oeste, Norte e Sul, cada região com 12 times, com exceção do Norte, que tem atualmente 11 equipes. A Copa finlandesa é uma competição aberta á todos os clubes membros da Associação de Futebol da Finlândia.

Historicamente, a Seleção Finlandesa de Futebol nunca fez parte de grandes competições internacionais como Copa do Mundo e Eurocopa. Apenas participou dos Jogos Olímpicos por quatro vezes (primeira vez em 1912) não tendo ganho medalhas. A primeira vez que disputou um campeonato internacional foi contra Suécia, em 22 de outubro de 1911, quando foi goleada por 5 X 2. O seu maior feito foi participar das meias-finais dos Jogos Olímpicos de 1912.

Somente nos anos 80, o nível do seu futebol ganhou alguma dimensão internacional, quando se destacaram alguns jogadores como Ari Hjelm e Mixu Paatelainem, que atuaram em clubes da Alemanha e Inglaterra. Mas o grande salto de qualidade só aconteceu com a chegada do técnico dinamarquês Roger-Moller Nielsen, em meados dos anos 90.

Graças a ele a Finlândia, pela primeira vez na história, chegou perto de se classificar para um Mundial, quando derrotou a Suíça e empatou com a Noruega. Bastava uma vitória no último jogo, em Helsínqui, contra a Hungria, para carimbar o passaporte para o Mundial de 1998, na França. No entanto, depois de sair vencendo, cedeu o empate e perdeu o jogo no último minuto por 2 X 1 e viu o sonho acabar.

Quatro anos depois, a campanha realizada na fase de classificação para o Mundial-2002, onde empatou com a Alemanha e Inglaterra, é a prova mais eloquente da evolução do futebol finlandês.

O resultado mais expressivo da Finlândia nos últimos anos, foi a goleada de 4 X 1 aplicada sobre Portugal em amistoso realizado em 26 de Março de 2002, no Estádio do Bessa, na cidade do Porto. Os gols da equipe nórdica foram marcados por Jarí Litmanen (2), Kolkka e Forsell, com Sérgio Conceição descontando para o time da casa.

O desempenho da Finlândia nas eliminatórias para a Copa do Mundo mostra sua fragilidade. Em 1930 e 1934, não disputou; de 1938 a 2010, não se classificou. Na Eurocopa, em 1960 e 1964, não disputou; de 1960 a 2004, não logrou classificação.

Para não fugir a regra, jogadores brasileiros também deram as caras por lá. É o caso de Denis Ramos Santos, conhecido como Santos na Finlândia. O atacante teve passagens pelo América Mineiro, Alfenense, Democrata, e Funorte, todos de Minas Gerais. Também andou pelo São Paulo Liaoning, da China, antes de se transferir em 2008, para o PS Kemi Kings, clube que disputava a segunda divisão da Finlândia.

Outro que sofreu com o frio finlandês foi o atacante Cleiton, revelado pelas categorias de base do Fortaleza. Depois de três meses no gelo, retornou ano passado ao seu clube de origem no Brasil. (Pesquisa: Nilo Dias)

Jari Litmanen, o craque do futebol finlandês.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Filpo Nuñes, "El Saleroso"

Nelson Ernesto Filpo Nuñes nasceu em 19 de agosto de 1920, em Buenos Aires, na Argentina. Naturalizou-se brasileiro, e foi o único técnico estrangeiro em toda a história a dirigir a Seleção Brasileira. Também foi o responsável pela montagem da famosa “Academia”, da S.E. Palmeiras, nas décadas de 1960/1970.

Treinador considerado metódico, ousado, falastrão, quase folclórico, ficou carinhosamente conhecido no Brasil como “El Bandoneón”, o típico instrumento do tango, porque diziam que os times que treinava, jogavam por música.

Formou-se em Educação Física no Equador e depois ingressou na carreira de treinador de futebol profissional no seu país, dirigindo a equipe do C.S. Independiente Rivadavia, de Mendoza. Antes de chegar ao Brasil, "Don" Filpo Nuñes teve passagens por diversos países da América do Sul. Treinou o Santiago Nacional, do Chile, Sport Boys, do Peru, Espãna, do Equador, Municipal, da Bolívia, Libertad, do Paraguai e Sant Martins e Velez Sarsfield, da Argentina.

Filpo chegou ao Brasil ainda jovem para ser treinador. Dirigiu o Cruzeiro, de Belo Horizonte em 1955 e depois passou por várias equipes, entre elas Guarani, Atlético Paranaense, Jabaquara, Portuguesa Santista, América de Rio Preto e Vasco da Gama, antes de assumir o Palmeiras. Pelo alviverde, entre 1964 e 1965, Filpo adotou jogar em velocidade, tocar de primeira e chegar ao gol. Nesse período, o Palmeiras começou a ser batizado de “Academia de Futebol”.

O super time palmeirense começou a ser montado em 1964, quando a equipe era liderada pelo craque Ademir da Guia. Depois vieram Dudu, da Ferroviária de Araraquara (SP), Ademar Pantera, revelado pela Prudentina, de Presidente Prudente (SP) e Rinaldo, ponta esquerda do Náutico de Recife (PE).

Comandado por Filpo Nuñes, o onze palmeirense ganhou o Torneio Rio-São Paulo de 1965, que na época era considerado a competição nacional mais importante, com atuações de alto nível. Goleadas contra os principais rivais: 7 X 2 no Santos, 5 X 0 no Botafogo, em pleno Maracanã, 5 X 0 no São Paulo e mais 4 X 0 no Vasco . O título máximo chegou em outra goleada diante do Botafogo, dessa feita no Pacaembu.

A equipe era tão respeitada a ponto de a antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) requisitá-la para representar a Seleção Brasileira na inauguração do Estádio Magalhães Pinto, o “Mineirão”, no dia 7 de setembro de 1965, em partida amistosa contra o Uruguai. E foi show de bola dos palmeirenses, com goleada por 3 X 0, gols de Tupãzinho, Rinaldo e Germano. Nesse dia, pela primeira e única vez, a seleção brasileira jogou sob a orientação de um técnico estrangeiro:

O time era formado por Valdir de Moraes (Picasso) - Djalma Santos - Djalma Dias - Valdemar Carabina (Procópio) e Ferrari - Dudu -(Zequinha) e Ademir da Guia - Julinho (Germano) – Servílio - Tupãzinho (Ademar Pantera) e Rinaldo (Dario). O Uruguai jogou com Taibo (Fogni); Cincunegui (Brito), Manciera e Caetano; Nuñes (Lorda) e Varela; Franco, Silva (Vingile), Salva, Dorksas e Espárrago (Morales).

Árbitro: Eunápio de Queiroz; Gols de Rinaldo aos 27 e Tupãzinho aos 35 minutos do primeiro tempo; Germano fechou o placar aos 29 minutos da etapa final. Renda de Cr$ 49.163.125,00 por um público de 96.669 pessoas. No ano anterior, o Palmeiras já havia ganho a “Taça do Quarto Centenário do Rio de Janeiro”, batendo a seleção do Paraguai por 5 X 2.

O Palmeiras não foi o único grande clube da capital paulista a ter o argentino como técnico. Filpo Nuñes dirigiu duas vezes o Corinthians. Primeiro, em 1966, quando o alvinegro chegou a liderar o Campeonato Paulista. Depois, em 1976. O treinador comandou o “Timão” em 34 partidas, com 16 vitórias, 7 empates e 11 derrotas.

Filpo chegou a ter outras duas passagens pela Sociedade Esportiva Palmeiras: entre 1968 e 1969; e entre 1978 e 1979. Ao todo, foram 154 jogos no comando do “Verdão”, com 94 vitórias, 27 empates e 33 derrotas.

O técnico argentino fez sucesso por vários países. Em Portugal, por exemplo, dirigiu o Leixões, o Vitória de Setúbal e o Lusitano Évora. No México, trabalhou pelo Monterrey. No Brasil, ele também comandou o XV de Piracicaba (SP), Paulista de Jundiaí (SP), Galícia (BA), Coritiba, Marília (PR), Francana (SP), Sport Club Recife (PE), São José (SP), Fabril, de Lavras (MG), C. A. Atlanta (Buenos Aires (Argentina), Santo André (SP), Saad (SP) e Foz , de Foz do Iguaçu (PR).

Filpo Nuñes costumava ser convocado para tentar salvar equipes em crise, candidatas ao descenso, casos do Jabaquara e Portuguesa, ambas de Santos (SP). Em 1959, durante excursão com a Portuguesa Santista pela África, Angola e Moçambique, conseguiu uma importante conquista: a “Fita Azul” do futebol brasileiro. O título era dado ao clube do país que tivesse maior sucesso em uma excursão no exterior. De 15 partidas disputadas a “Briosa”, do então técnico Filpo Nuñes venceu todas, marcou 75 gols e sofreu dez.

Entre os clubes que dirigiu, excluindo o Palmeiras, estão o Cruzeiro (MG), Mogi-Morim (SP), Sport Recife (PE), Vasco da Gama (RJ), Guarani, de Campinas (SP), Sport Club Corinthians (SP), Jabaquara e Portuguesa Santista, de Santos (SP), Amparo (SP), Coritiba (PR) e São José (SP) e Galicia (BA).

Principais títulos e prêmios que conquistou. Campeão do Torneio Início de 1956 pelo Guarani; eleito o melhor técnico do “Torneio Preparação” de 1957, pelo Jabaquara; Campeão do Torneio Início de pelo América, de Rio Preto em 1958; “Fita Azul” do Futebol Brasileiro, pela Portuguesa Santista em 1959; Eleito melhor técnico do ano pela Agência de Notícias “Sport Press”, quando dirigia a Portuguesa Santista em 1960; Vencedor do “Troféu Conhecimento”, prêmio da Rádio Universal, de Santos”, em 1960; Vice-campeão paulista pelo Palmeiras em 1964; Campeão invicto do torneio internacional “IV Centenário da Guanabara”, pelo Palmeiras; Campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1965, pelo Palmeiras; Vice-campeão baiano pelo Galícia, em 1967; Vice-campeão do Torneio Mar del Plata de 1968, pelo Palmeiras e Vice-campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1969, pelo Palmeiras.

Filpo Nuñes dirigiu grandes jogadores. A lista é extensa. Entre eles: Julinho Botelho, Bellini, Djalma Santos, Dudu, Garrincha, Alfredo Mostarda, Zequinha, Servílio, Orlando, Brito, Ademir da Guia, Rivellino, Valdir Joaquim de Moraes, Vavá, Ademar Pantera, Wladimir, Cabeção, Barbosa, Piazza, Eurico, Leivinha, Dirceu Lopes, Tupãzinho, Jair Marinho, Zé Maria, Leão, Tostão, Luís Pereira, César, Djalma Dias, Procópio e Dino Sani.

Um dos grandes feitos do treinador Filpo Nuñes aconteceu no dia 31 de julho de 1957. Ele dirigia o Jabaquara, que venceu o poderoso Santos, bicampeão paulista, de virada em plena Vila Belmiro. O jogo entrou para a história do clube. A imprensa estampou manchetes do tipo “Terremoto na Vila”. Foi nesse dia que passou a ser chamado de “Dom”. Sob sua direção o Jabaquara alcançou um grande número de vitórias consecutivas.

O time do Santos era formado por Pelé, Pepe, Tite, Álvaro, Pagão, Fioti, Urubatão, Zito, Laércio, Hélvio e Ivan. O Jabaquara tinha um time formado na base do improviso, com um zagueiro completamente desconhecido. Aos 22 minutos de partida, o Santos já tinha marcado três gols, dois de Pagão e um de Tite, contra um gol do Jabaquara, anotado por “Melão”.

O “Peixe” não joga bem e até o final do primeiro tempo o “Jabuca” já havia empatado com gols de Bugre e Washington. O jogador Wilson Sório, o “Melão”, foi o grande herói do dia, ao voltar no segundo tempo e marcar mais dois gols e levar o Santos ao desespero. O estrago só não foi maior porque China, do Jabaquara, acabou por marcar um gol contra. Final: Jabaquara 6 X 4 Santos.

Quando o jogo terminou uma grande surpresa: o desconhecido zagueiro jabaquarense, Oswaldo Malcriado, era apenas o tesoureiro do clube, escalado pelo técnico Filpo Nuñes para completar o quadro de 11 jogadores. No time do Jabaquara estavam Fininho, Pavão, Getúlio, Dom Pedro, China, Osvaldo Malcriado, Ari, Hélio, Washington, Wilson Sório (“Melão”) e Bugre.

Os folclóricos nomes que dava para seus esquemas de jogo: “Pim Pam Pum” e “Carrousel”. Ele gostava de dizer aos seus comandados: “Sabe-se que só há três maneiras de se romper uma retranca: por ‘las puntas’, pela penetração de repente de um médio ou zagueiro, vindo detrás; ou pelas graças e obra da ação individual de alguém”.

O time base era formado por Valdir (Picasso) - Djalma Santos - Djalma Dias (Minuca) - Waldemar Carabina (Procópio) e Geraldo Scotto (Ferrari) - Dudu e Ademir da Guia (Zequinha) - Julinho (Gildo) - Servilio (Ademar Pantera) - Tupãzinho (Dario) e Rinaldo. (Germano.

Filpo tinha fama de folclórico. E não era por menos. Após uma partida, ele reuniu o elenco e perguntou a um jogador que atuava do meio para frente e que tinha sido eleito pela imprensa o craque do jogo: “Quantos gols você fez?” O jogador respondeu: “Nenhum”. “Quantos passes deu que resultaram em gols ou que deixaram os companheiros na cara do gol?” “Nenhum”. Filpo concluiu: “Então, você correu muito e não jogou nada.”

Outra ocasião, após o atacante César ter perdido um pênalti, transtornado, invadiu o gramado, colocou a bola na marca da cal, com a intenção de mostrar ao jogador como converter a cobrança. Só que ao correr para bola escorregou, caiu, e o estádio “retumbou” com as gargalhadas do público.

Na véspera de uma partida, já em regime de concentração, dirigiu-se ao arqueiro Leão: “Leão depois do almoço passa em meu quarto.”

Assim fez o goleiro. “Leoncito”, disse o Filpo. “Amanhã voy entrar com Neuri em tu lugar, pois necessitas de um descansio e quero probar el outro goleiro que tengo”, explicou em seu portunhol.

Leão não gostou nem um pouco: “Seu Filpo, não estou cansado e quero jogar. “Pero Emerson Leão, mi Leoncito”, retrucou Filpo. “Sentas do meu lado no banco e se necessito de ti, entras logo.”

“Não seu Filpo, vou jogar. Eu sou o titular e não tenho nada”, concluiu Leão já a ponto de perder a calma e apelar. “A si, si, así me gustas!”, exclamou vibrantemente Filpo Nunes. “Claro que vás jogar tu. Queria saber era como estava tu moral. Bravo Leon”. (Extraído do livro "Bombas de Alegria")

Antônio Medina Rodrigues, conhecido como o único poeta da “pelota” no Brasil, escreveu um poema dedicado a Filpo Nuñes:

Filpo, el saleroso

Eu não quiero nada. Solo peço que me den
emprego. Falem de mi no Palmeiras. Lá eu
fiz o gol mais rápido do mundo. Que fique
isso tamben para eles!!!

O talento de Filpo Nuñes era
proporcional à fala. E como a fala
não tem tamanho, Filpo era uma fera
de imaginação (entre nós) tão rara.

Foi ele que inventou o futebol
do pim-pam-pum e que ao Palmeiras deu
tudo que o torcedor sonhava, um rol
de títulos, medalhas, faixas.

Eu nunca vi como o Filpo ator nenhum.
Mas era argentino, milongueiro, e
Canastrão.
(Coro da crônica e da plebe, uníssonas)
E foi pelos abismos um por um,
após seu ostracismo do Verdão,
que o cisma foi demais, pim-pam-pum.

Filpo Nuñes morreu em São Paulo no dia 6 de março de 1999. Pouco antes de falecer, ele morava nas dependências do projeto “Jerusalém Ação Social”, no bairro do Heliópolis. Já havia perdido toda a fortuna acumulada nos muitos anos de fama. Por isso, morava lá. Antes de morrer, treinava um time de crianças carentes na escolinha de futebol das meninas. Passou os últimos dias da sua vida treinando aproximadamente 97 meninas. (Pesquisa: Nilo Dias)

Filpo Nuñes foi um técnico importante na história do futebol brasileiro.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

De ídolo gremista a cantor de boleros

Um dos grandes ídolos da história do Grêmio Portoalegrense, indiscutivelmente foi o zagueiro uruguaio Atílio Genaro Ancheta Weiguel, nascido em Florida, no dia 19 de julho de 1948. Começou a carreira em 1985 no San Lorenzo, de sua cidade natal. Em 1986 transferiu-se para o Nacional de Montevidéu, onde se profissionalizou e conquistou três títulos nacionais, em 1969, 1970 e 1971; a Taça Libertadores da América, em 1971 e o Mundial Interclubes, ainda em 1971, antes de ir para o Grêmio.

Em 1970 defendeu a Seleção de seu país no Mundial do México e foi considerado um dos melhores zagueiros da competição, ao lado de verdadeiras lendas do futebol como o italiano Cera e o alemão Franz Beckenbauer. O Uruguai conquistou um quarto lugar, sendo eliminado pela seleção brasileira, nas semifinais.

Em 1971 foi contratado pelo Grêmio, onde permaneceu até 1980. No clube gaúcho conquistou três títulos estaduais, 1977, 1979 e 1980. Apesar do sucesso que obteve defendendo o tricolor gaúcho, Ancheta não conseguiu se destacar mais do que o genial zagueiro chileno Elias Figueroa, que comandava um Internacional quase imbatível, na década de 70.

Mas é inegável que o chileno colorado e o uruguaio gremista fariam a dupla de zaga dos sonhos de qualquer clube nos anos 70. Eles jogaram juntos somente uma vez, foi no amistoso Seleção Gaúcha 3 X 3 Seleção Brasileira, disputado no Estádio Beira Rio, dia 17 de junho de 1972. O time gaúcho jogou com Scheneider – Espinoza – Ancheta – Figueroa e Everaldo – Carbone – Tovar e Torino – Valdomiro – Claudiomiro e Oberti. O técnico foi Aparício Vianna e Silva.

Em 1981, já em final de carreira, Ancheta foi para a Colômbia onde jogou pelo Millionários, de Bogotá. Em 1982 voltou ao Nacional, de Montevidéu para encerrar a carreira. De volta a Porto Alegre, foi comentarista esportivo da TV Pampa e deu aulas de futebol no G.E. Força e Luz.

Depois resolveu morar na cidade interiorana de Santo Antônio da Patrulha. Lá, montou uma escolinha de futebol, e também passou a dedicar-se à música, como cantor, com repertório que privilegia boleros, tangos, salsas e músicas românticas em português e espanhol. Até hoje ele faz shows em clubes, hotéis e festas particulares. Só não canta em restaurantes. Já gravou três discos, em português e espanhol. Futebol ele jogou por 13 anos, como cantor já tem 21 anos de carreira.

Pai de cinco filhos, o ex-zagueiro casou-se duas vezes. A primeira em Montevidéu, com uma uruguaia, tendo três filhos, e a segunda em Porto Alegre, onde mora atualmente, com a brasileira Nádia, com quem tem dois filhos, Pietro e Samara.

Como treinador foi campeão catarinense com profissionais e gaúcho com categorias de base. Em 2008, recomeçou sua carreira de treinador, quando foi contratado para treinar o Esporte Clube Passo Fundo, na disputa do da segunda divisão do campeonato gaúcho, mas foi demitido após quatro jogos e nenhuma vitória. (Pesquisa: Nilo Dias)

Ancheta, com a camisa do Nacional uruguaio.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Um técnico a frente do seu tempo

Cláudio Pêcego de Moraes Coutinho, ou simplesmente Cláudio Coutinho foi um dos maiores estrategistas que o futebol brasileiro conheceu em todos os tempos. Era meu conterrâneo, nasceu na cidade gaúcha de Dom Pedrito, em 5 de janeiro de 1939. Filho de militar, aos quatro anos de idade foi para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Escola Militar e seguiu carreira, alcançando o posto de Capitão de Artilharia.

Coutinho gostava muito de esportes, por isso se graduou na Escola de Educação Física do Exército. Em 1968, foi indicado para representar a Escola em um Congresso Mundial, realizado nos Estados Unidos. E lá conheceu o professor norte-americano Kenneth Cooper, criador do famoso método de avaliação física que leva o seu nome. Convidado por ele, Coutinho freqüentou o Laboratório de Estresse Humano da NASA. Depois, defendeu tese de mestrado na Universidade de Fontainbleau, na França.

Em 1970, durante o regime militar foi chamado para ser o preparador físico da Seleção Brasileira, que se sagrou tricampeã do Mundo, no México. Coutinho inovou na preparação, introduzindo o Método de Cooper. Depois do Mundial resolveu ser treinador, tendo dirigido a Seleção do Peru, foi coordenador da Seleção do Brasil na Copa do Mundo de 1974, treinou o Olympique, de Marselha, França, a Seleção Brasileira Olímpica em 1976 e o Flamengo, pelo qual foi tricampeão carioca e campeão brasileiro.

O bom trabalho realizado até então, o credenciou a ser chamado para o comando da Seleção Brasileira que se preparava para disputar as eliminatórias para o Mundial da Argentina. A imprensa foi surpreendida com a indicação de Coutinho, considerado ainda imaturo para tão importante cargo. Sem se importar com as criticas, o treinador foi logo imprimindo sua filosofia de trabalho.

Ardoroso defensor da europeização dos métodos, Coutinho acreditava que os jogadores brasileiros já não eram os craques intocáveis de antes, que a seleção brasileira não podia mais ficar a mercê de craques chamados “foras de série”, mas sim de um esquema em grupo, com disciplina tática.

Teórico, seu nome ficou ligado a algumas expressões até então desconhecidas no Brasil, mas muito usadas na Europa, como “overlaping”, ou “ponto futuro”, quando o atleta faz uma jogada com um companheiro e já se posiciona para receber a bola na seqüência. E a "polivalência", em que cada jogador passava a exercer mais de uma função em campo.

A classificação para o Mundial veio sem maiores problemas. Nos amistosos preparatórios para o campeonato, as convicções do técnico foram colocadas em xeque. No empate em 1 x 1 com a Inglaterra, o esquema tático deixou a desejar. Às vésperas da Copa, Coutinho passou a rever seus conceitos, mas era tarde.

E pior, errou feio na convocação dos jogadores. Não chamou Falcão, do Internacional, considerado na época o melhor armador do futebol brasileiro, para levar o truculento Chicão, do São Paulo, em nome de uma questão da obediência tática. No primeiro jogo da Copa, contra a Suécia o resultado foi um desastroso empate em 1 X 1. Depois, um novo empate contra a Espanha, dessa feita em 0 X 0.

Passou a ser chamado de retranqueiro. Coutinho se defendia dizendo que a Seleção ainda não tinha entrosamento, especialmente no ataque, com Zico e Reinaldo, dois craques, mas que estavam rendendo abaixo do esperado. Veio a minguada vitória frente à Áustria por 1 X 0, que não serviu para acalmar os ânimos.

Foi quando o presidente da CBD, almirante Heleno Nunes, acabou por intervir. Mandou que o técnico Coutinho escalasse Roberto Dinamite e Jorge Mendonça e substituísse o zagueiro improvisado na lateral esquerda Edinho, por um jogador da posição, Rodrigues Neto. O resultado veio no jogo seguinte, uma goleada de 3 X 0 sobre o Peru.

Depois a nossa Seleção enfrentou o jogo mais tenso da competição, contra a Argentina, que depois se sagraria campeã. Um empate de 0 X 0, A decisão para ver qual dos dois rivais iria para a final, ficou para a última rodada. O Brasil enfrentou a Polônia, e a Argentina o Peru. Os dois jogos estavam marcados para o mesmo dia e horário. Mas surpreendentemente a FIFA decidiu adiar o jogo da Argentina, para depois do compromisso brasileiro.

O Brasil ganhou por 3 X 1. A Argentina entrou em campo sabendo quantos gols necessitaria fazer, para chegar a classificação no saldo, primeiro critério de desempate. Em um jogo que ficou marcado pela suspeita de irregularidade, os argentinos fizeram 6 X 0, com uma visível colaboração do adversário.

Com isso, sobrou para a nossa seleção disputar o terceiro lugar com à Itália, partida ganha por 2 X 1. O Brasil, embora não chegasse à final, foi o único time invicto da competição, o que levou Cláudio Coutinho a dizer uma frase que se tornou celebre: “Fomos os campeões morais dessa Copa".

Mesmo com tudo de irregular que ocorreu na Copa, a imprensa e o público não perdoaram e Cláudio Coutinho foi considerado o grande culpado pela não conquista do título mundial. Depois da Copa, o treinador voltou ao Flamengo, deu a volta por cima e montou o time que chegou a ser considerado o melhor do mundo. No rubro-negro ganhou o tricampeonato estadual (1978-1979-1979, Especial) e foi Campeão Brasileiro em 1980.

Mesmo com grandes conquistas, Coutinho resolveu deixar o clube, magoado com a direção. Foi trabalhar nos Estados Unidos, mas deixou pronto para seu sucessor, Paulo Cesar Carpegiani, um super time, que em 1981, depois de vencer a Taça Libertadores da América, chegou ao título mundial de clubes.

Escaldado pela experiência e decepção da Copa na Argentina, ele reviu algumas idéias e realmente mudou todo o futebol brasileiro. No Flamengo, Coutinho conseguiu mostrar que era possível misturar seus avançados conhecimentos táticos com o talento individual, o que resultou em um uma equipe completa, um dos melhores esquadrões da história do futebol mundial em todos os tempos. Essa equipe, que jogava por música e com três ou quatro passes chegava ao gol adversário, durou até 1983, quando Zico foi vendido para a Udinese, da Itália.

Coutinho confidenciou a amigos que devia tudo o que era no futebol a Zagalo, a quem chamava de “mestre dos mestres”. Mas ainda assim teve que rever alguns conceitos, e talvez o tenha feito muito tarde. O treinador dizia que “se fosse hoje, ganhava fácil a Copa da Argentina. Talvez por inexperiência ou bobeira - sei lá - perdi o título”.

Em uma excursão do Flamengo por gramados da Hungria, Coutinho mostrou toda a sua inteligência. O time adversário costumava marcar homem a homem, pelo número da camisa. Esperto, o treinador brasileiro mandou o atacante Cláudio Adão entrar com a 2 e o Toninho com a 9. Na hora de começar o jogo, lá estava o Adão na lateral direita, e o Toninho junto do Zico. Todos acharam que o técnico havia pirado.

Mal a bola rolou e os dois trocaram de posição. Os gringos colaram nos jogadores errados. Quando eles viram a mancada, era tarde, o Flamengo já vencia por 2 X 0.
Claudio Coutinho dirigiu a Seleção Brasileira em 45 jogos, conquistando 27 vitórias, 15 empates e sofrendo apenas três derrotas. Já no Flamengo comandou o time em 76 jogos, com 47 vitórias, 20 empates e nove derrotas.

Seu sonho era voltar a dirigir a Seleção Brasileira, na Copa da Espanha. Mas a fatalidade não deixou. No dia 27 de novembro de 1981, quando se encontrava em férias no Rio de Janeiro, esperando o momento de ir trabalhar no futebol árabe, Coutinho, que era exímio mergulhador, praticava um de seus hobbies, a pesca submarina nas Ilhas Cagarras, arquipélago próximo a Praia de Ipanema, quando morreu afogado, aos 42 anos. Até hoje Claudio Coutinho é lembrado como um técnico que esteve a frente de seu tempo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Claudio Coutinho, quando treinava o Flamengo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O jogador que virou canção

Nos tempos românticos em que o Rio de Janeiro era uma cidade boa de se viver, em todos os sentidos, o futebol tinha uma outra magia. Os clubes representavam bairros e vilas e os jogadores tinham amor a camisa que vestiam. Tudo bem diferente de hoje, quando o crime organizado está presente em todos os lugares e o futebol vive em torno de dinheiro. Ninguém mais joga porque tem alguma afinidade com o time. E ninguém tem mais tranqüilidade para sair de casa.

Inspirado nesse romantismo do passado é que em 2003 o compositor carioca Nei Lopes compôs a música “Tempo de Dondom”, que dizia: “No tempo em que “Dondom” jogava no Andarahy/ a nossa vida era mais simples de viver/ Não tinha tanto miserê, nem tinha tanto tititi..." A canção, interpretada por Zeca Pagodinho e depois por Dudu Nobre, resgatou uma agremiação de suma importância para a popularização do futebol brasileiro, o Andarahy Athletico Club.

A música foi um grande sucesso em todo o Brasil. O personagem, “Dondom” se tornou nacionalmente conhecido através da novela “Celebridade”, levada ao ar pela Rede Globo de Televisão. O cenário era o bairro do Andaraí, zona norte da cidade do Rio de Janeiro. De repente todo mundo queria saber quem era “Dondom”, se realmente existiu ou era apenas um personagem fictício.

“Dondom” foi um zagueiro de verdade, que defendeu o time do Andarahy Athletico Club de 1932 a 1938. Em momento algum da carreira chegou a se constituir num jogador brilhante, embora suas atuações fossem convincentes. O Andarahy, que não era um clube grande, em toda a sua existência teve um único jogador que poderia ser chamado de craque: Chiquinho.

Ele jogou nas primeiras décadas do século passado. Era dono de uma habilidade incomum e goleador emérito. Não demorou para chamar a atenção pela genialidade de suas jogadas. Naquela época o futebol ainda sofria com a discriminação racial. Os brancos predominavam nas equipes e as grandes jogadas protagonizadas por negros ou mulatos, não recebiam a merecida valorização. Só por isso Chiquinho, com traços negros claramente marcados, não entrou para a história, como um dos grandes jogadores que passaram pelo futebol carioca.

Os colunistas esportivos dos jornais da época não admitiam que jogadores vindos dos clubes de bairros pobres representassem a cidade e muito menos o país. Por isso não eram convocados. A simples presença de negros em um selecionado nacional era, para a imprensa, motivo de chacota, o que rendia corriqueiras piadas sobre esses jogadores.

O Andarahy Club foi fundado no dia 9 de novembro de 1909. Era um clube formado por operários e um dos poucos que admitiam negros em suas fileiras. Seu campo se localizava na rua Prefeito Serzedello Correa, atual rua Barão de São Francisco no bairro que dá nome ao clube, na Zona Norte da cidade. Tinha capacidade para aproximadamente 5.000 pessoas. Durante muitos anos a GRES Unidos de Vila Isabel, tradicional escola de samba do Rio de Janeiro, utilizou o local para a realização de seus ensaios.

Em 1962 o campo foi comprado pelo América Futebol Clube para a construção de um estádio, rebatizando-o de Volney Braune. Em 1996, o terreno foi vendido por US$ 13 milhões. No lugar foi erguido o Shopping Iguatemi Rio, inaugurado em outubro daquele ano. Em troca, a mesma construtora do empreendimento ergueu um moderno estádio para o América em Edson Passos, na Baixada Fluminense.

As cores do Andarahy eram o verde e o branco. Durante a história, o clube alternou dois uniformes: camisa inteiramente verde e calções brancos e camisa listrada na vertical alviverde e calções brancos.

O clube disputou o Campeonato Carioca da Segunda Divisão, por duas vezes, sagrando-se campeão (1915 e 1925); Campeão Carioca de Juniores (1928); Vice-Campeão Carioca de 1934, perdendo no jogo final por 2 X 1 para o Botafogo, que foi campeão. Bianco marcou o gol do Andarahy; Campeão do Torneio Início da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres - LMDT (1924); Campeão Carioca de 2°s quadros da Segunda Divisão (1913 e 1914).

Ao todo, o alviverde disputou 20 campeonatos cariocas (1916, 1917, 1918, 1919, 1920, 1921, 1922, 1923, 1925, 1927, 1928, 1929, 1930, 1931, 1932, 1933, 1934, 1935, 1936 e 1937). Uma das últimas escalações do Andarahy foi esta, num jogo contra o Vasco da Gama, em 1936: Ruy – Lino – Dondom – Pacuera – Babi – Romualdo – Estanislau – Popó – Veranotti – Chagas e Ismael

O Andarahy foi contra o profissionalismo e resistiu até a década de 1950, praticando o futebol apenas como esporte amador nos campeonatos do Departamento Autônomo de Futebol do Rio de Janeiro. A extinção total do clube foi em 1973, até então funcionando somente a sua sede social, na Rua 28 de Setembro, bairro de Vila Isabel.

Mesmo passados 73 anos desde que extinguiu o futebol, o Andarahy não ficou no esquecimento. Sua trajetória está marcada com o nome de “Largo Dondom do Andaraí”, na confluência das ruas Barão de Mesquita com Rua Gomes Braga. Em 2004, o programa televisivo da Rede Globo, “Esporte Espetacular” fez uma matéria sobre o imortal Dondom, em que foram mostradas fotos antigas do jogador que virou canção. (Pesquisa: Nilo Dias)

O antigo estádio do Andarahy Athletico Club.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Os órfãos da mineradora

A privatização da Companhia Vale do Rio Doce em 1997 deixou dois times órfãos: o Valeriodoce Esporte Clube, de Itabira (MG) e a Desportiva Ferroviária, de Vitória (ES). Quando a empresa foi vendida pelo governo, ela parou de contribuir para o clube, mas entregou-lhe de presente o estádio Israel Pinheiro, no Bairro da Penha, em Itabira, com capacidade para 8 mil torcedores, onde manda seus jogos.

Com a perda de subsídios, os dois lubes passaram a enfrentar dificuldades financeiras. O time mineiro foi rebaixado para a segundona estadual em 2000 e até hoje não conseguiu voltar a primeira divisão.

O Valeriodoce foi fundado em 22 de novembro de 1942, por funcionários da empresa estatal Companhia Vale do Rio Doce, na cidade de Itabira, onde a empresa mineradora foi criada. O nome vem da junção da patrocinadora: VALE (do) RIO DOCE. As cores escolhidas foram camisa vermelha, calção branco e meias brancas.

A relação do time, torcedores e empresa sempre sofreu altos e baixos. Pela importância e tamanho da CVRD, cobrou-se durante muito tempo um apoio financeiro maior para o time, que chegou a disputar as Séries B, em 1988 e 1989 e a C em 1994 e 1995 do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Os títulos mais importantes conquistados pelo clube foram estes: Campeão Mineiro da Segunda Divisão (1965); Vice-Campeão Mineiro da Segunda Divisão (2003); Torneio Início do Campeonato Mineiro (1962 e 1959); Campeão Mineiro do Interior (1971); Torneio Incentivo (1980); Campeão Mineiro de Juniores (1986 e 1989). O Valeriodoce Esporte Clube foi o primeiro clube do interior, na era do “Mineirão”, a ter um artilheiro do estadual, Luiz Alberto com 12 gols, em 1978.

Fernando Pieruccetti, o “Mangabeira”, foi o chargista que criou os principais mascotes mineiros. Ele escolheu para o Valeriodoce a ave “Ferreiro” ou “Araponga”. Mais tarde o clube resolveu adotar o “Dragão” como símbolo. Foi uma homenagem a locomotiva "Maria Fumaça", que era chamada de "Dragão", devido à fumaça que soltava.

Um dos grandes feitos da história do Valeriodoce foi uma vitória frente o Botafogo, do Rio de Janeiro. Foi no domingo, 17 de fevereiro de 1957, que aconteceu o amistoso entre os dois times. O estádio lotou completamente, mesmo com o ingresso custando Cr$ 80.00. O clube carioca jogou completo, colocando em campo seus grandes craques como Didi, Nilton Santos, Bauer, Garrincha, Amauri, Canête, Orlando e outros.

O placar foi 2 X 1 para o VEC, construído por gols históricos de Nino e Vitorino. Rossi descontou para o Botafogo. Alguns acusaram a forte chuva que caiu durante todo o jogo como responsável pelo resultado inesperado. Outros consagraram a grande vontade e raça do time mineiro, que nesse dia fez uma grande apresentação.

Durante o governo do prefeito Olímpio Pires Guerra (1993-1996), a empresa doou à Prefeitura o Valeriodoce de presente, sem as condições para manutenção do clube. Ela chegou a planejar, estudar e criar o Valério S.A., mas tudo ficou apenas no papel.

O jornalista José Sana, diretor da Revista “De Fato”, de Itabira, fez um dramático apelo ao poder público e população de Itabira, para que ajudassem o Valeriodoce a se manter vivo. Eis alguns trechos da matéria:

“Quando o clube pertencia a mineradora, esta é que indicava seus presidentes. A torcida costumava vaiar os jogadores e os chamava de “come-quieto”, porque recebiam da empresa salários de supervisor. Quando o Valério ganhou a independência, cresceu o número de torcedores.

A Prefeitura é a dona das instalações do Centro Esportivo Israel Pinheiro. Também a municipalidade tem o dever de zelar pelo nome da instituição. Prefeitura e Vale chegaram a subvencionar jogos do clube durante algum tempo, até que veio a proibição do poder público manter a ajuda.

Sabidamente, todo o dinheiro que a Prefeitura depositar na conta do Valeriodoce Esporte Clube será considerado ilegal. E mesmo se fosse permitido, os valores seriam abocanhados pela Justiça. Muita gente contesta essa decisão, dizendo que não são apenas as dívidas que o clube acumulou através dos anos, que impede seu crescimento: falta vontade política do prefeito”.

Já o outro “órfão” foi fundado em 17 de junho de 1963, como Associação Desportiva Ferroviária Vale do Rio Doce, resultado da fusão de Vale do Rio Doce, Ferroviário, Cauê, Guarany, Valeriodoce e Cruzeiro, todos eles times formados por ferroviários da Companhia Vale do Rio Doce.

Como os funcionários ligados aos cinco clubes seguidamente solicitavam ajuda financeira a direção da empresa, esta deu a idéia de que todos se fundissem numa única agremiação. E para que isso fosse possível, a Companhia garantiu a construção de um estádio para o novo clube. Foi assim que surgiu o “Estádio Engenheiro Araripe” em 1966, localizado em Jardim América, um bairro de Cariacica, então com capacidade para 36 mil torcedores. Alencar de Araripe foi engenheiro da Vale do Rio Doce e morreu antes da construção do estádio.

O resultado não poderia ser outro. Com o apoio de uma grande empresa, como a Vale do Rio Doce, a Desportiva tornou-se o “bicho-papão” do futebol capixaba durante muitos anos. Além do patrimônio doado, a empresa também garantia as despesas de manutenção do estádio. A arrecadação do clube contava com as generosas contribuições sociais de milhares de ferroviários, descontadas em folha.

Quem sentiu o duro golpe de ter de enfrentar um rival poderoso financeiramente, foi o Rio Branco, o antigo “papa-títulos”. O clássico Desportiva X Rio Branco é chamado de “Derby Capixaba”. O outro grande rival é o Vitória. Os três formam o “Trio de Ferro Capixaba”, das equipes mais vencedoras do Estado.

A Ferroviária passou a empilhar títulos de campeão estadual, durante quatro décadas no Espírito Santo. Em contrapartida, o rival Rio Branco perdia espaço a cada ano. A Desportiva possui a segunda maior torcida entre os clubes capixabas. É conhecida como “Grená”, “Locomotiva” e “Tiva”. O mascote do clube é o “Maquinista”.

Um feito histórico na vida da Desportiva foi a série de 51 jogos invicto, a maior do futebol brasileiro até então, construida nos anos de 1967 e 1968. O recorde foi batido em 1977 pelo Botafogo, do Rio de Janeiro. Até hoje a Desportiva possui a terceira maior série invicta do futebol nacional.

O crescimento do clube o credenciou a disputar o Campeonato Brasileiro de 1973. Na tentativa de chamar para seus jogos um público maior, foi contratado o atacante “Fio Maravilha”, já em fim de carreira. O melhor resultado da Ferroviária no “Brasileirão” foi um 15º lugar em 1980, num campeonato de 80 times. Nesse certame o seu jogador Botelho, foi eleito o melhor atacante pela esquerda, ganhando uma “Bola de Ouro” da Revista “Placar”, até hoje fato único no futebol capixaba.

A Desporiva Ferroviária por duas vezes esteve bem perto de voltar à elite do futebol brasileiro: em 1994, foi eliminada nas semifinais pelo Goiás. E em 1998, chegou ao quadrangular final, mas quem subiu foram Gama (DF) e Botafogo, de Ribeirão Preto (SP).

A história vitoriosa da Desportiva começou a mudar quando a Vale do Rio Doce foi privatizada em 1996. Os novos donos retiraram todo o apoio ao time e ainda cobravam pelo uso do estádio. Começou então uma uma longa e árdua disputa envolvendo às lideranças locais, só terminando quando a empresa doou em caráter definitivo o estádio para o clube.

O “Engenheiro Araripe” é o principal estádio de futebol do Estado do Espirito Santo, com a sua capacidade atual estimada em 20 mil pessoas. O estádio foi inaugurado em 16 de janeiro de 1966, no jogo em que a então Desportiva Ferroviária perdeu para o América (RJ), por 3 X 0. O primeiro gol no estádio foi marcado por Roberto Almeida, da Desportiva, contra. A capacidade na época era para cerca de 36 mil pessoas. O recorde de público, 27.600 pagantes foi no jogo entre Flamengo 0 x 1 Vitória, em 1995.
Sem o auxilio financeiro de antes, a entidade enfrentou dificuldades de toda a ordem, dentro e fora de campo. Além de ver o título estadual ir para outros times, foi rebaixada para a terceira divisão do Campeonato Brasileiro.

A Desportiva sempre revelou bons jogadores nas suas divisões de base. As duas principais revelações já vestiram a camisa da Seleção Brasileira: o meia Geovani e o ponta-esquerda Sávio. Ambos começaram nas escolinhas do clube. Geovani nasceu em Cariacica, bem perto da sede do Desportiva e foi lançado aos 16 anos no time profissional. É o maior ídolo da história do clube. Sávio deixou a Desportiva mais cedo, aos 14 anos, indo para o Flamengo, onde projetou-se a ponto de chegar à Seleção Brasileira.

Em maio de 1999 a Desportiva Ferroviária passou a ser um clube-empresa, atendendo exigências da Lei Pelé, vendendo 51% de suas ações para o grupo Frannel, de derivados de petróleo, e passando a chamar-se Desportiva Capixaba S.A. Foi o primeiro clube empresa do Espirito Santo. A promessa de colocar o clube na elite do futebol brasileiro não foi cumprida. Não demorou para que a Frannel saisse e o grupo Villa-Forte assumisse.

Em 2000 a Desportiva ganhou o Estadual, mas sofreu dois rebaixamentos na Série B do Brasileiro. Em 2007 voltou a série principal do “Capixabão”, ao vencer a “Segundona”. Em 2008 venceu a Copa Espirito Santo, em cima do rival Rio Branco, quando revelou o atacante Kieza, que teve passagens por Fluminense (RJ) e Cruzeiro (MG). Também contou com o reforço de Sávio, revelado pelo clube e ex-jogador do Flamengo e Real Madrid (Espanha). Em 2009 não passou da metade da tabela do “Capixabão”. Em 2010 foi rebaixado para a “Segundona”.

No dia 8 de abril deste ano, a 2ª vara Cível de Cariacica decidiu que o clube voltaria a se chamar Desportiva Ferroviária, em razão do Grupo Villa-Forte não ter pago as ações adquiridas. Com isso a Desportiva Capixaba ficou com apenas 10% das ações do clube, e a Ferroviária com 90%.

A Desportiva, que deveria disputar a Série B estadual deste ano se licenciou. Vai voltar as atividades em agosto, quando confirmou presença na Copa Espirito Santo.

Os principais títulos conquistados pela Desportiva Ferroviária foram: Campeonato Capixaba, (1964, 1965, 1967, 1972, 1974, 1977, 1979, 1980, 1981, 1984, 1986, 1989, 1992, 1994, 1996 e 2000); Taça Cidade de Vitória, (1966 e 1968); Torneio Início do Espírito Santo, (1967); Campeonato Capixaba da 2ª Divisão, (2007); Copa Espírito Santo, (2008); Taça Rio de Futebol Juvenil, (1995); Campeonato Capixaba de Juniores, (1995, 1997, 2001 e 2002); Copa Internacional Águia Branca de Futebol Juvenil, (2000); Copa Lázio, (2000); Copa Jornal Correio Popular Infantil, (2001); Campeonato Capixaba Juvenil, (2002) e Campeonato Capixaba Sub-15, (2010). (Pesquisa: Nilo Dias)

Carataz convidando para o jogo Valeriodoce X Botafogo, do Rio de Janeiro, em 1957.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Histórias de gandulas

Todo o mundo sabe que gandula é aquele garoto escalado para buscar a bola que é chutada para fora do gramado. E que o nome é uma homenagem a um antigo jogador argentino do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, de nome Bernardo Gandulla, que gostava de correr atrás da bola para devolvê-la, quando saía do campo. Isso contribuiu para que ganhasse a simpatia dos torcedores. Quando retornou para a Argentina, seu nome passou a ser referência para os que apanham as bolas que saem do campo. Mas foi a partir da inauguração do Maracanã, que jovens foram chamados para a função, e logo apelidados de gandulas.

Segundo o Regulamento Geral das Competições, elaborado pela CBF, o clube mandante deve disponibilizar seis gandulas para cada jogo. São obrigatoriamente maiores de 18 anos, assim como nos campeonatos estaduais. Eles ficam em pé devendo buscar a bola e com a maior rapidez e devolvê-la ao campo de jogo.

Quem pensa que o gandula se limita apenas a sua tarefa de recolocar a bola em campo o mais rápido possível, está enganado. Existem registros de várias cenas pitorescas envolvendo esses personagens. A mais famosa de todas, sem dúvida é aquela que aconteceu em 2006, no Estádio Leônidas Camarinha, em Santa Cruz do Rio Pardo, num jogo entre Santacruzense X Atlético Sorocaba, pela Copa Federação Paulista de Futebol

O time sorocabano vencia por 1 X 0 até os 44 minutos do segundo tempo, quando aconteceu o inesperado: houve um lance polêmico que ninguém sabia dizer se tinha sido gol ou não. Foi quando o gandula tocou a bola para dentro do gol. Alguém na arquibancada gritou gol e o auxiliar Marco Antônio de Andrade Motta Júnior correu para o meio do campo, tendo a árbitra Silvia Regina de Oliveira validado o gol.

A brincadeira do gandula custou caro para o seu clube, que foi multado em R$ 50 mil e perdeu o mando de campo por toda a copa, já que segundo a Federação Paulista a culpa foi do clube pelo ato do gandula. Mas o jogo não foi anulado.

Na partida Grêmio Osasco 3 x 2 Juventus, pelo Campeonato Paulista da Série A3 deste ano, o gandula Luiz Antônio da Costa foi expulso pelo árbitro Thiago Luis Scarascatiz, por ter extravasado na comemoração do gol da vitória do seu time. O árbitro colocou o seguinte na súmula do jogo:

“Informo que, aos 82 minutos, expulsei o gandula Luiz Antônio da Costa por comemorar a marcação do terceiro gol da equipe do Grêmio Esportivo Osasco, subindo no alambrado e dando cambalhotas na lateral do campo. Após a expulsão, o mesmo adentrou ao campo de jogo, se deitou no gramado, rolando e saindo correndo fazendo aviãozinho. O mesmo foi retirado pelos fiscais e exerceu resistência para sair de campo”.

O jogo Rio Preto 0 x 1 Corinthians,no Estádio Anísio Haddad, pelo Campeonato Paulista de 2008, foi decidido com um gol de Héverton, mas o personagem principal da partida esteve fora das quatro linhas. O gandula Leandro Augusto Ribeiro chamou a atenção por seu comportamento durante os 90 minutos de jogo. Usando luvas de goleiro, distribuiu carrinhos cinematográficos cada vez que corria para pegar as bolas que caiam fora do gramado.

E o gandula não perdeu tempo, tratou logo de aproveitar o seu momento de fama e deu entrevistas dizendo da vontade de trabalhar num clube grande de São Paulo. “Depois do “Paulistão”, nem sei que campeonato o Rio Preto disputará. Se um time grande quiser me contratar para o segundo semestre, podemos negociar”. Se a transação tivesse se consumado, seria a primeira vez na história que um gandula sairia de um clube para outro.

No Rio Preto, onde começou a atuar em 1999, ganhava entre R$ 25 (jogos com clubes menores) e R$ 30 (contra os times grandes). E ainda recebia um lanchinho com suco no intervalo. Como quase todo garoto, tentou ser jogador de futebol. A carreira de zagueiro do Automóvel Clube ele largou aos 17 anos. Na infância, brincava como goleiro.

Num jogo do “Paulistão” deste ano, o lateral Roberto Carlos, do Corinthians, fez um gol olímpico contra a Portuguesa de Desportos. Para o jogador, o lance deu certo por conta da rapidez do gandula Rafael Nonato, na reposição da bola. Reconhecendo o bom trabalho do rapaz, ao final do jogo Roberto Carlos o presenteou com sua camiseta.

A vida de gandula não é fácil. Alguns jogadores costumam descarregar sua ira contra els. O goleiro Fábio Costa já derrubou um gandula do Flamengo. Consta que no final do jogo pediu desculpas e deu uma camisa ao garoto. Pior fez o goleiro do Bonito, em jogo contra o Corumbaense, em abril de 2007, pelo Campeonato do Mato Grosso do Sul. Agrediu e levou a desmaiar um gandula com apenas 13 anos.

Pela Copa Libertadores de 2008 no jogo Flamengo X Nacional, de Montevidéu, a bola saiu pela lateral esquerda e um gandula retardou a devolução e foi agredido por Toró, que acabou expulso de campo. O goleiro Luiz Müller, quando jogava pelo Brasiliense foi expulso num jogo contra o Santa Cruz, do Recife por agressão ao gandula. Também o goleiro Clemer, no jogo Internacional x Vitória, em 2004, foi expulso pela mesma razão. O goleiro do Vélez Sarsfield, Gaston Sessa, no início deste, ano chutou fortemente uma bola contra um gandula.

Pela Copa do Brasil deste ano no jogo entre Avaí X Botafogo, aos dois minutos do acréscimo do segundo tempo, o gandula Deivid Dias atirou uma bola dentro do campo com a intenção de prejudicar o contra-ataque. Como não houve interferência na jogada a partida prosseguiu. Por esse motivo o gandula foi expulso.

Entre os gandulas mais famosos está o menino José Mourinho Júnior, de 10 anos de idade, filho do técnico José Mourinho, do Real Madrid. Quando do jogo Real Madrid 4 X 0 Getafe, realizado em maio deste ano pelo Campeonato Espanhol, ele atuou pela primeira vez como gandula do clube “merengue”. Segundo informações da imprensa espanhola, o menino, que é goleiro das categorias de base do clube Canillas, pareceu tranquilo e muito atento ao jogo, desde o aquecimento da equipe em campo.

O zagueiro italiano Fabio Cannavaro tem uma história, no mínimo, curiosa. Amante de futebol desde quando era muito novo, nasceu em 1993 e participou da Copa do Mundo de 1990, mas não como jogador. Aproveitando o fato de o Mundial ter sido sediado em sua terra natal, ele trabalhou como gandula da competição. Mal sabia o que o destino lhe reservava exatos 16 anos depois, na Alemanha.

Muitas outras histórias envolvendo gandulas fazem parte do dia-a-dia do futebol. Uma das mais bonitas envolveu a gandula botafoguense Sonja Martinelli, que a TV mostrou chorando após uma derrota do Botafogo de 6 X 0 para o Vasco, em dezembro de 1988, em jogo pela Copa União. Apaixonada pelo alvinegro desde pequenininha ela estava realizando um sonho: chamada para ser gandula do clube, ia poder ver seus ídolos de perto, pisar no gramado do Maracanã. Ao final do jogo, emocionada, verteu lágrimas por ver de perto a goleada sofrida pelo seu Botafogo. (Pesquisa: Nilo Dias)

terça-feira, 31 de maio de 2011

O humorista do futebol

Em 1958, quando o Brasil conquistou pela primeira vez o título mundial de futebol eu tinha 17 anos, estava na flor da idade. No final do ano deixamos Dom Pedrito, minha terra natal para irmos morar em Pelotas, onde meu pai encontrou melhores condições para trabalhar. E foi nesse ano de 1958 que surgiu na Rádio Gaúcha, de Porto Alegre o programa humorístico “Campeonato em Três Tempos”, baseado no programa “Miss Campeonato”, da Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro. Produzido e apresentado por Carlos Nobre, tinha como tema o cenário esportivo gaúcho retratado de maneira caricaturada.

Naqueles tempos não havia televisão. O rádio era o grande meio de comunicação. Eu lembro que na minha casa, principalmente à noite, era costume a família reunir-se em volta de um grande aparelho de rádio, com enormes válvulas para escutar as novelas da Rádio Farroupilha. E nos domingos a noite tinha o “Grande Teatro Farroupilha” e o “Grande Rodeio Coringa”. Imperdíveis. Também se ouvia as rádios do Rio e São Paulo. Não esquecendo as emissoras locais e suas apreciadas dedicatórias.

Carlos Nobre criou um personagem para cada clube participante do Campeonato Gaúcho, além da “Miss Copa”, interpretada por Leonor de Souza, cujas atenções eram o prêmio disputado ardorosamente pelos clubes. Havia o “Greminho”, interpretado pelo próprio Carlos Nobre. Fábio Silveira era o “Colorado”. Os dois se constituíam como os mais fortes pretendentes a conseguir chegar ao casamento com “Miss Copa”.

De todos os participantes do programa, apenas o “Zequinha”, que primeiro foi interpretado por Eleu Salvador e depois por José Fontes, procurava resistir às investidas de “Miss Copa”. Isso por sua origem bendita, do Esporte Clube São José. Ficou famoso o bordão “Afasta-te, pecadora”.

Os tipos criados por Carlos Nobre exploravam características estereotipadas de cada clube ou da sua cidade de origem: Walter Ferreira vivia o gringo do Flamengo, de Caxias do Sul; Ismael Fabião, o algo afetado “Doutor Pelotas”, representante do Esporte Clube Pelotas; Pepê Hornes fazia o cheio de referências militares, representante do Grêmio Atlético Farroupilha, também de Pelotas; Gerson Luiz era o índio “Botocudão”, do Clube Esportivo Aimoré, de São Leopoldo e Dimas Costa, o “Gauchão” grosso do Guarany Futebol Clube, de Bagé.

Mas algumas situações não eram bem aceitas por todos. Por exemplo, o personagem que encarnava o E.C. Pelotas, o “Doutor Pelotas’, gerava protestos de lideranças políticas e até religiosas do município. Foi quando Carlos Nobre resolveu transformar o “Doutor Pelotas” num tipo másculo, promovendo um diálogo jocoso com “Miss Copa”.

Mas isso não se tornou praxe, foi num só programa. “Miss Copa” perguntava: “Mas, “Doutor Pelotas”, o que é isso?” E ele respondia, com voz grossa e gritando muito: “Não tem conversa, não! Não tem conversa! Agora vai ser assim”. E o diálogo foi se processando. No fim, houve uma pausa e a “Miss Copa” respirou: “Como é, “Doutor Pelotas”, mas o que houve?” E ele olhou e falou com voz em falsete: “Ah, cansei!”.

No término do campeonato havia o casamento do campeão com a “Miss Copa”, o que motivava a apresentação de um programa especial, geralmente em algum cinema da cidade. Em dezembro de 1961, para comemorar o título que acabou com uma hegemonia de cinco anos do Grêmio, o programa foi apresentado no Cinema Castelo. Além do elenco do “Campeonato em Três Tempos”, compareceram torcidas organizadas, jogadores e o presidente do campeão Sport Club Internacional.

José Evaristo Villalobos Júnior, o Carlos Nobre, nasceu na cidade de Guaíba, região metropolitana de Porto Alegre, em 7 de abril de 1929. Iniciou a carreira de radialista cantando seresta. Em 1954, já na Rádio Gaúcha, começou a levar ao público seu humor no programa "Jogo Bruto", que deu origem ao “Campeonato em Três Tempos”, pela simples mudança de nome. Um pouco antes de enveredar pelo humor e fugindo às proibições maternas, José Evaristo Villalobos Júnior adotou o pseudônimo Carlos Nobre, o mesmo escolhido por Nomar Nobre Chatelain, então intérprete conhecido no Rio de Janeiro, onde, com freqüência, apresentava-se no rádio, em especial no Programa Paulo Gracindo, da Nacional.

Ele chegou a escrever e interpretar nove programas por semana. O espaço nos estúdios da rádio era pequeno para o sucesso de público e de audiência. Nesta época, Carlos Nobre ingressava também nos jornais, através da coluna "Muro das Lamentações", que tinha no jornal “A Hora”. Em 62, passou a escrever na “Última Hora” e em 64 na “Zero Hora”.

Em 68, com o fim do programa “Campeonato Em Três Tempos”, Carlos Nobre passou quatro meses no centro do país, atuando em programas da TV Excelsior. Primeiro em São Paulo, no programa "Humor 62" dirigido por Procópio Ferreira e, em seguida, no Rio de Janeiro no "Times Square". Quando voltou para o Rio Grande Sul, passou a trabalhar para o Grupo Caldas Júnior, escrevendo para a “Folha da Tarde” e voltando a fazer na Rádio Guaíba, o programa “Jogo Bruto”. Em 1975, Nobre retornou à Rádio Gaúcha onde iniciou sua carreira, atuando novamente no rádio e no jornal.

No dia 16 de dezembro de 1985, faleceu aos 56 anos, vítima de uma parada cardíaca. Seu corpo foi velado na Assembléia Legislativa do Estado onde estavam presentes a viúva, Virgínia Vargas Villa Lobos, e seus dois filhos, José Evaristo e Marco Antonio. Além da família, centenas de amigos, colegas de profissão, intelectuais, políticos e boêmios da noite porto-alegrense compareceram para reverenciar o talento e o humor dos trabalhos de Carlos Nobre. Em 1970, em tom de sátira, ele criou um epitáfio para o túmulo dos humoristas: “Aqui jaz uma gargalhada cercada de choro por todos os lados”.

Hoje, existe um museu em Guaíba só para reverenciar a figura de Carlos Nobre. O Museu Municipal Carlos Nobre foi inaugurado em 10 de setembro de 1992, com documentos e fotografias pessoais do humorista. Depois é que a comunidade doou objetos e documentos referentes à história de Guaíba e também objetos doados pela viúva e filhos de Carlos Nobre e documentos coletados pelas funcionárias do museu. O acervo é composto por 400 códices antigos, 400 objetos, 6.700 fotografias e 100 obras artísticas, entre elas: mobiliário, medalhas, utensílios domésticos e roupas.

O prédio que abriga o museu foi construído em 1908. Serviu de residência, passando a abrigar um hotel, mas a partir da década de 1940 abrigou a Intendência Municipal e em 1988, a Prefeitura Municipal de Guaíba.

Carlos Nobre era um exímio criador de frases criticas. Eis algumas: “Lamentável a policia. Acredita que a imprensa tem este nome justamente para ser imprensada”. (ZH – 1966); “Foi criado no Brasil um grupo de trabalho para investigar, porque os grupos de trabalho não trabalham?” (ZH – 1982); “Se Deus é brasileiro, acho que ele nos deve uma explicação”; ‘Se Deus fosse um burocrata brasileiro, até hoje a criação do mundo estaria só no papel”; “Soldado de Israel não avança – investe” e “O que me grila nos debates políticos da televisão é que cada candidato me convence a não votar no outro”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Fábio Silveira e Carlos Nobre, início dos anos 60. (Foto: Acervo da Rádio Gaúcha, de Porto Alegre).

terça-feira, 24 de maio de 2011

Rosário do Sul já teve um grande futebol

Rosário do Sul (RS) já teve um grande futebol no passado. O articulista, na infância morou lá e lembra de que existiam quatro clubes, que disputavam o campeonato da cidade: Internacional e Brasil, ambos da Companhia Swift, Guarany e Ypiranga que era da unidade militar da cidade.

De todos eles, o Sport Club Guarany, fundado em 3 de fevereiro de 1909 foi o que alcançou maior projeção, tendo participado das finais do campeonato gaúcho de 1928. E também era o clube dono da maior torcida na cidade.

Em 1927 aconteceu um fato inusitado na historia do futebol gaúcho. Pelo camepeonato do Estado, o Guarany perdeu de 1 X 0 para o 14 de Julho, de Livramento, gol marcado aos 42 minutos do segundo tempo. O clube rosariense entrou com protesto na Federação, que acabou por anular a partida, pois naquela época os jogos eram de 40 minutos e não tinha acréscimos por minutos perdidos.

Um novo jogo foi marcado e dessa vez em campo neutro. O local escolhido foi a Baixada dos Moinhos de Vento, em Porto Alegre, antigo campo do Grêmio. Dessa feita o 14 de Julho não deu margem para nenhum protesto, tendo vencido por 2 X 0. O campeonato de 1927 foi o primeiro conquistado pelo Internacional de Porto Alegre.

Em 12 de outubro de 1928, o Guarany, dono do título de campeão da fronteira, foi até Porto Alegre enfrentar o Grêmio Esportivo Bagé da cidade do mesmo nome em partida semifinal pelo titulo de campeão do Estado. As duas equipes se defrontaram no Estádio Moinhos de Vento, registrando-se empate em 3 X 3. Isso obrigou a uma prorrogação, quando se verificou novo empate.

Dois dias depois outro jogo foi disputado, para ser conhecido o finalista, e o Bagé acabou vencendo por 2 x 0. O time da “Rainha da Fronteira” jogou com Tavico – Antonio e Pasqualito – Moreira – Magno e Chato – Roberto – Bate-Bate – Giumelli - Oliveira e Picão. O Guarany, de Rosário do Sul com: Aguirre – Gilbert e, Orozimbo – João – Salvador e Véco - Barroso – Otacílio – Ari - Costa e Floriano.

O Bagé jogou a final de 1928 e perdeu de 3 X 0 para o S.C. Americano, de Porto Alegre, que se sagrou campeão estadual. Antes, o clube da Capital já havia eliminado a dupla Grenal. Na classificação final o Bagé foi vice-campeão, o Gaucho de Passo Fundo, terceiro e em 4° o Guarany, de Rosário do Sul e em 5º, o Nacional, de São Leopoldo. Foi um feito histórico do clube da Fronteira, que num dia do passado foi superior ao da dupla Gre-Nal..

Em 1937, o Sport Club Gurany por pouco não fechou as portas. A Intendência Municipal obrigou o clube a entregar o Estádio da Praça Nova, onde mandava seus jogos. O município resolveu urbanizar o local e construiu ali a Praça Doutor Bozano, com Ginásio de Esportes e um monumento religioso. Hoje, o terreno é ocupado pela escola Padre Ângelo Bartelle e pelo ginásio Ervilhão.

O curioso é que na época a Intendência não homenageou ninguém da cidade. O doutor Júlio Rafael de Aragão Bozano, ou simplesmente Doutor Bozano, foi um ex-prefeito de Santa Maria que morreu assassinado.

Mesmo ficando sem casa, os torcedores do Guarany não se entregaram e foram a luta. Uma lista de resistência correu rápida e em menos de um ano o clube já tinha um estádio novo, numa vasta área cedida por comodato pelo senhor Cristalino Lopes, localizada aos fundos de sua chácara no fim da Rua General Osório, no começo da várzea do Rio Ibicuy D'Armada.

Como o novo estádio ficava próximo a uma vila de operários da Companhia Swift, onde o terreno era tomado por carrapichos, não demorou para que os torcedores dos clubes adversários o apelidassem de “Reduto dos Carrapichos”.

Eu cheguei a ver o Guarany jogar. Meu pai trabalhou na Companhia Swift em meados das décadas de 1940 e 1950. Por isso torcíamos pelo Internacional, que era azul e branco. Lembro bem da camisa do Guarany, com listras finas amarelas e pretas. O Ypiranga do quartel também era amarelo e preto, mas com uma faixa tipo do Vasco da Gama. O Brasil era colorado e o mais fraco dos times da cidade.O Guarany foi extinto em 1957.

Em 1977, os fundadores da Associação Rosário de Futebol escolheram as cores amarela e preta e um escudo idêntico ao velho Guarany, com a intenção de cativar os antigos e saudosistas torcedores do clube de futebol mais popular que a cidade conheceu em todos os tempos. (Pesquisa: Nilo Dias).

O S.C. Guarany foi quarto colocado no Campeonato Gaúcho de 1928, ficando a frente da dupla Gre-Nal. (Foto histórica)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O "Jogo das Barricas": verdade ou lenda?

O hoje poderoso São Paulo F.C. já teve de se render ao auxilio dos clubes rivais E.C. Corinthians Paulista, Associação Portuguesa de Desportos e Palestra Itália, que concordaram em participar de um torneio quadrangular, para poder minimizar uma situação de dificuldades financeiras que o clube atravessava em 1938. Essa festa esportiva, realizada no campo do Palestra Itália, o Parque Antártica, em julho daquele ano, logo após a Copa do Mundo da França, ficou conhecida como o “Jogo das Barricas”.

Os noticiários dos jornais da época mostravam claramente a finalidade da festival de futebol; “O torneio do proximo domingo no Parque Antarctica deve merecer de todos os bons esportistas de São Paulo o seu incondicional apoio, visto a sua renda destinar-se a um fim nobilitante, como seja o de prestar auxilio moral e financeiro a um clube, legítimo representante do futebol bandeirante, como é o São Paulo que, lutando com as difficuldades próprias do momento, vem atravessando uma crise (…)“

E os jornais também faziam um apelo aos torcedores; “Os socios do São Paulo, Palestra, Corinthians e Portugueza de Esportes, têm o direito de não pagar ingresso. Por nosso intermedio, no entanto, é feito um appello a todos os torcedores, indistinctamente, para collaborarem com a sua parcella, visto a sua renda reverter em beneficio do proprio futebol local.”

O São Paulo, na condição de anfitrião do torneio, ofereceu ao vencedor a “Taça Augusto Henrique Mündel Jr.” e todos os fundos arrecadados foram destinados ao caixa do clube. Os jogos foram disputados no dia 3 de julho de 1938 e tiveram estes resultados: Corinthians 0 x 0 Palestra Itália. Nos escanteios, o Corinthians venceu por 2 x 0. São Paulo 0 x 3 Portuguesa. Final: Corinthians 2 x 1 Portuguesa.

No sábado, 2 de julho, véspera da competição, na página 9, o jornal “Folha da Manhã” publicou o seguinte: “A LIGA NÃO COBRARÁ PORCENTAGEM – Conforme é corrente, a renda do festival em questão será em beneficio do São Paulo F. C., tanto assim que esse clube, pede, por nosso intermedio, que todos os affeiçoados contribuam com sua parcella, adquirindo ingresso, apesar do direito que assiste aos socios do São Paulo, Palestra, Portugueza de Esportes e Corinthians de não pagarem entradas.

“A L.F.E.S.P. querendo contribuir para o maior exito financeiro do festival abriu mão da porcentagem que lhe caberia, dando assim um bello exemplo do seu incondicional apoio ao tricolor”.

Ainda falta publicar detalhes desse “fantástico festival”, mas o jornal, que tantos apelos fez à população para que salvasse o São Paulo da bancarrota, pagando ingressos, não publicou a renda do encontro, na edição que deu conta do resultado do torneio.

Mas de uma coisa não restou a menor dúvida: Palestra, Corinthians e Portuguesa salvaram o São Paulo F.C. da falência iminente, em uma série de amistosos promovidos no Palestra Itália, em 3 de julho de 1938. O “Jogo das Barricas” existiu como se vê. Tal alcunha foi dada graças ao auxilio oferecido pelas duas grandes equipes paulistanas, mais a Lusa, em benefício do time tricolor.

O São Paulo F.C. foi fundado em 1930 na beira da Marginal do Tietê. Por má administração o clube faliu em 1934. Contam que as dividas contraídas nunca foram pagas pelo São Paulo, mas pelo clube vizinho, o C.R. Tietê que aceitou incorporar o terreno, ficar com as taças e garantir os pagamentos.

Finalmente o clube foi refundado em 1935 sem qualquer patrimônio. Só sobreviveram nessa terceira fundação porque se fundiram com o C.A. Estudantes da Mooca, passando a mandar seus jogos naquele bairro.

O São Paulo foi salvo de nova falência pelo torneio beneficente citado acima e até hoje conhecido como o “jogo da barrica”, pois foram colocadas barricas na entrada do estádio para o povo jogar dinheiro e ajudar o São Paulo a pagar suas dívidas. Neste jogo Porfírio da Paz, presidente são paulino na época, teria andado no meio das torcidas adversárias com a bandeira do clube, esticada, para o pessoal jogar dinheiro.

Torcedores corinthianos e palmeirenses realizam todos os anos o “Jogo das Barricas”, em gozação aos tradicionais adversários tricolores. Ultimamente o cotejo tem sido disputado em campos de várzea, e a única exigência é que sejam levadas moedas, com a intenção de se encher e despejar uma barrica cheia de níqueis na porta do Morumbi.

Os dirigentes e torcedores do São Paulo negam que tenha sido disputado esse torneio com a intenção exclusiva de tirar o clube de uma situação de extrema dificuldade financeira. O site “Ex-ciclopédia Tricolor” cita que o festival foi realizado em julho de 1938, logo após a Copa do Mundo da França.

A idéia era envolver as equipes do futebol paulista que estavam paradas durante esse torneio. Assim, Portuguesa, Palestra Itália e Corinthians foram convidados para um torneio, e o São Paulo, como anfitrião da disputa, ofereceu ao vencedor a Taça Henrique Mündel”.

Como era um torneio amistoso promovido e idealizado pelo SPFC, obviamente todos os fundos arrecadados foram destinados ao caixa do clube. Segundo os são paulinos essa é a verdade da famosa lenda do "Jogo das Barricas".

Acreditando-se que essa seja a versão verdadeira, de doação não houve nada. O que aconteceu é que os clubes envolvidos aceitaram os termos do acordo. Nunca houve doação de renda, pois de fato ela nunca foi dos clubes participantes, e sim do promotor do evento. Aos participantes somente cabia a disputa pela Taça do Festival. De qualquer maneira o episódio rende polêmica até hoje. (Pesquisa: Nilo Dias)

domingo, 1 de maio de 2011

O centenário do E.C. Novo Hamburgo (Final)

O Novo Hamburgo nunca ganhou um Campeonato Gaúcho, mas chegou a vencer algumas competições estaduais disputadas apenas por clubes do interior, sem a presença dos poderosos Grêmio e Internacional. Em 1972, a equipe ganhou o Título do Interior. Em 2000, depois de quase uma década sem disputar a primeira divisão gaúcha, o time venceu mais uma vez a Divisão de Acesso e voltou ao escalão principal, para cair novamente no ano seguinte.

Finalmente, o Novo Hamburgo foi vice da Divisão de Acesso em 2003 e retornou à elite gaúcha. Desta vez, não voltou a cair, pelo contrário: fez boas campanhas e conseguiu classificação para a Série C do Campeonato Brasileiro, voltando a uma competição nacional depois de 19 anos. E ainda fez bonito neste campeonato, conseguindo chegar no quadrangular final, mas sem subir para a segunda divisão.

Em 2005, o time disputou a Copa do Brasil pela primeira vez, conseguindo classificação por meio da posição final no Campeonato Gaúcho do ano anterior. Na mesma temporada, venceu a Copa Emídio Perondi, considerada uma extensão do Estadual, o que deu uma vaga para o time na Copa do Brasil de 2006.

Títulos: Campeão Gaúcho da 2ª Divisão (1996 e 2000); Copa FGF (2005); Copa Emídio Perondi (2005); Campeão Gaúcho do Interior (1961, 1965, 1972). E um recorde brasileiro e talvez mundial: foi por 34 vezes consecutivas, campeão municipal de Novo Hamburgo

O industrial Pedro Adams Filho, dono da fábrica de calçados que deu origem ao Esporte Clube Novo Hamburgo era natural de Santa Clara do Sul, tendo nascido a 13 de abril de 1870 e falecido em 1935. Foi um dos pioneiros do setor coureiro-calçadista no Rio Grande do Sul.

Quando tinha por volta de 16 anos a família mudou-se para Dois Irmãos e aos 18 anos iniciou seus trabalhos como aprendiz de seleiro com Jacob Bossle, dono de uma selaria e uma sapataria em Taquara. Logo depois voltou a Dois Irmãos onde trabalhou num curtume e numa correaria. Em 1888, estabeleceu seu próprio negócio como sapateiro e seleiro. Produzia arreios, selas, botinas, tamancos, chinelos, solas e sapatos. Na época com 12 empregados, Pedro Adams, embrenhava-se pelas picadas da colônia para vender seus produtos ao maior número de pessoas possível.

Em 1891 casou com Rosa Saenger, com quem teve 6 filhos. Com a chegada da linha de trem de Porto Alegre a Novo Hamburgo em 1898, mudou-se para lá, percebendo as oportunidades geradas pelo aprimoramento da rede de distribuição. Em 1901 resolveu associar-se a José Frederico Gerhardt e instalar uma fábrica de calçados em moldes mais modernos, com um maior número de máquinas e funcionários (mais de 100): a Fábrica de Calçados Sul RioGrandense.

Aproveitou para contratar seu irmão Alberto para gerente técnico, e dedicou-se integralmente às questões administrativas. Apenas três anos depois de iniciada a empresa, José Frederico Gerhardt retirou-se da sociedade satisfeito com seu capital e lucro, tendo a fábrica passado a chamar-se Pedro Adams Filho & Cia. Ltda.

Foi co-responsável pela fundação do Esporte Clube Novo Hamburgo, fundado em uma festa que o empresário ofereceu a seus funcionários em comemoração ao dia do trabalho, em 1911. Foi presidente da Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo de 1910 a 1911 e fundador do Jockey Club de São Leopoldo por volta de 1912. No mesmo ano era agente do Banco da Província na cidade o que lhe facilitou a obtenção de créditos para suas empresas.

Preocupado com a modernidade de sua fábrica importou máquinas da Alemanha e Estados Unidos, também trouxe técnicos para operá-las do Uruguai e da Itália. Estes técnicos, Salvador Ingletto, Nicolas Daile e Paulo Triebses, transformaram sua fábrica numa verdadeira escola, da qual saíram várias outras fábricas do Vale do Sinos.

Em 1917 fundou o Curtume Hamburguez, na mesma rua de sua fábrica, aumentando seus negócios. Nos anos da década de 1920 sua fábrica produzia mais de 700 modelos de calçados diferentes e sua produção diária era de 2.000 pares de calçados, sendo 1.500 sandálias e 500 sapatos masculinos.

Auxiliou de maneira indireta a Novo Hamburgo tornar-se um pólo do calçado feminino, pois quando um de seus empregados saía da empresa para abrir um negócio próprio, procurava não competir com o antigo patrão, optando pela produção de calçados femininos, já que, muitas vezes, Pedro Adams Filho ajudava financeiramente essa nova fábrica. Em 1924 faleceu sua primeira esposa. Dois anos depois casou-se com Olga Maria Kroeff que residia em Porto Alegre. Mudou-se para lá, tendo com ela três outros filhos.

Foi representante do Partido Republicano Riograndense na cidade de Novo Hamburgo, desde 1917, tendo sido durante dez anos conselheiro municipal representando o distrito de "Hamburger Berg" na Câmara de São Leopoldo. Junto com Jacob Kroeff e Leopoldo Petry foi um dos líderes do movimento que emancipou Novo Hamburgo de São Leopoldo em 1927.

Fundou em 1927 a Energia Elétrica Hamburguêsa Ltda. para fornecer energia elétrica à cidade e garantir também o abastecimento da sua indústria. Em 1929 fundou a Caixa Rural União Popular de Novo Hamburgo, com sede em sua empresa, sendo o primeiro diretor, tendo como auxiliares Oscar Adams, seu filho, e Alonso Bernd. A Caixa fornecia crédito rural e também financiamentos pessoais e para construção de moradias. Foi um dos criadores da Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo.

Em 4 de abril de 1930 sua empresa foi alvo da primeira greve de Novo Hamburgo, motivada pelo desconto proposto pela empresa de 10% nos salários por conta da crise econômica pela qual estava passando a economia nacional. A manifestação foi tratada como caso de polícia, conforme prática da época.

Por sofrer de asma passava temporadas no clima mais ameno do Rio de Janeiro. Em 1933 sua saúde piorou drasticamente, sofrendo de insuficiência cardíaca. Foi obrigado a se afastar dos negócios definitivamente e faleceu em casa dois anos depois. (Pesquisa: Nilo Dias)

O moderno Estádio do Vale abriu novos caminhos para o clube. (Foto: Acervo do E.C. Novo Hamburgo)

sábado, 30 de abril de 2011

O centenário do E.C. Novo Hamburgo (3)

O ano de 1961 também foi marcante para o Esporte Clube Novo Hamburgo. Presidido por Oscar Sperb, o Novo Hamburgo bateu de frente com a Seleção do Uruguai, em duas brilhantes partidas. Com uma grande equipe, o anilado perdeu a primeira partida por 1 x 0 e, na segunda, empatou em 1 x 1, com gol de Raimundo para o anilado. O time base contava com Valdir – Alduíno – Beiço - Hélio e Itamar - Ica e Vevé – Miltinho – Mujica - Raimundo e Casquinha.

O jogo mais longo de um Campeonato Gaúcho, válido pela fase classificatória em 1968, teve como protagonistas Grêmio e Novo Hamburgo. A partida começou a ser disputada em 22 de fevereiro, uma quinta-feira à noite, e só foi terminar quase três semanas depois, em 13 de março, numa tarde de quarta-feira. Faltavam ainda 35 minutos para se encerrar o jogo quando faltou luz no Estádio Olimpico. O placar era 0 X 0.

Esgotado o período de espera para volta da iluminação, o regualamento determinava que o tempo restante fosse disputado noutra data. A FGF só conseguiu marcar os últimos 35 minutos para 19 dias depois, novamente no Olímpico, com portões abertos. O Grêmio aproveitou e ainda conseguiu vencer por 1 X 0.

Mané Garrincha, “O Anjo das pernas tortas”, teve uma passagem pelo Esporte Clube Novo Hamburgo. Ele vestiu a camisa 7 na noite de 2 de julho de 1969, na partida amistosa, em que o Internacional venceu o Novo Hamburgo por 3 X 1, no Estádio Beira-Rio. Garrincha saiu de campo aos 15 minutos do segundo tempo, sendo muito aplaudido pelos torcedores gaúchos. Antes da partida, Garrincha fez um treino no Estádio Santa Rosa, quando conheceu um pouco do clube e o grupo de jogadores.

Em junho de 2001, para evitar que o estádio Santa Rosa fosse à leilão para pagar dívidas trabalhistas recebendo um valor muito abaixo de seu valor de mercado, a direção do clube precisou tomar uma medida corajosa: buscou um comprador para o estádio. Essa medida dura, porém necessária para salvar o clube, precisou ser tomada.

Demonstrando compromisso com a comunidade, a Associação Pró-Ensino Superior em Novo Hamburgo (Aspeur), entidade mantenedora do Centro Universitário Feevale, adquiriu a área por um valor expressivo, garantindo assim a continuidade do clube e de uma história centenária.

Uma nova área de 5 hectares foi adquirida no bairro Liberdade, situada entre as ruas Santa Tereza e Simões Lopes, onde foi construída a nova casa anilada, o moderno Estádio do Vale. O nome do novo estádio foi decidido através de uma eleição com os torcedores do clube. Em um total de 1.302 votos a opção estádio do Vale obteve 647 votos.

Desde 2007 o Novo Hamburgo sedia seus jogos no novo estádio, mesmo sem estar concluído. Estão prontos o pavilhão principal com 3.500 lugares, três lances de arquibancadas cobertas que totalizarão 12.000 lugares, um pátio com estacionamento para 300 carros, que futuramente será ampliado para 500 carros. O gramado é de última geração, com 105m x 75m, grama Bermuda Tif Way 419 e um sistema de drenagem que armazena a água da chuva numa cisterna de 200 mil litros e irriga o campo através de 32 torneiras.

O primeiro jogo no Estádio do Vale foi disputado no dia 17 de agosto de 2008, quando o Novo Hamburgo derrotou o Criciúma, de Santa Catarina por 2 X 1. O primeiro gol na nova praça de esportes foi marcado por Tiago Moraes, do Criciúma.

Para muitos torcedores o melhor time da história do E.C. Novo Hamburgo foi montado em 1952. A formação base era: Paulinho – Zulfe – Mirão - Heitor e Crespo – Casquinha - Pitia e Soligo – Niquinho - Martins e Raul Klein. O técnico era Carlos Froner.

O principal jogador era Raul Klein, ponteiro-esquerdo habilidoso, que chegou à Seleção Brasileira, tendo disputado, juntamente com o goleiro Paulinho, o Panamericano de 1956. O Brasil foi campeão com uma equipe formada, em sua base, por atletas gaúchos. Raul disputou várias partidas. Já Paulinho não teve a mesma sorte: foi reserva durante toda a competição.

Outros jogadores importantes que fizeram história no clube: o centroavante Geovani, no Campeonato Gaúcho de 1962, marcou 13 gols e se sagrou artilheiro da competição. Seu feito só seria repetido mais duas vezes por atletas da equipe do interior. Uma por Sapiranga, em 1966, e outra por Giancarlo, principal goleador da competição em 2006.

O zagueiro Erico Scherer, o popular “Fogareiro” é considerado um dos melhores defensores a terem vestido a camisa do Novo Hamburgo. Por 18 anos ele defendeu seu clube do coração. Faleceu no dia 6 de maio de 1966 e, em seu enterro, o caixão foi levado por seis atletas uniformizados do clube. Além disso, a bandeira do Novo Hamburgo foi posta sobre o caixão como uma homenagem.

O goleiro Periquito é considerado o melhor da história do Novo Hamburgo. Na década de 40, deixou o clube para atuar pelo Internacional, onde fez parte de um grande time da equipe colorada, conhecido como “Rolo Compressor”.Sapiranga, veloz ponta-direita que também jogou no Internacional nos anos 60. Em 1961 foi campeão gaucho e artilheiro do campeonato com 16 gols. Em 1966, deixou o Inter e voltou ao Floriano, onde conquistou pela segunda vez o título de artilheiro do Gauchão, dessa vez com 13 gols. Passou ainda pelo Flamengo de Caxias do Sul, onde encerrou a carreira, em 1968.

Ingo, centro-médio que também jogou no Cruzeiro, de Porto Alegre; Júlio Kunz, um dos melhores goleiros já surgidos no Brasil; Miro, que defendeu as cores do Grêmio Portoalegrense; Miguel, que jogou pelo Internacional e Seleção Gaúcha; o lateral-direito Josimar, titular durante a Copa de 1986, no México, com o técnico Telê Santana; Moeler, goleiro que figurou no Selecionado Gaúcho e Ritzel, o “Arranca Taboa”, apelido ganho devido a violência de seu chute, que também jogou pelo Internacional nos anos de 1915, 1916 e 1917.

Ele fez parte do primeiro combinado Portoalegrense, que enfrentou os uruguaios em 1916, e que esteve assim formado: Schiel – Mordieck e Simão – Mário Cunha – Saavedra e Hansen – Sisson – Ritzel – Bendionda – Lúcio Assunção e Vares.

O jornal NH, realizou recentemente uma pesqiisa com seus leitores, procurando saber quais os melhores jogadores que vestiram a camisa anialada nesses 100 anos. e Também os técnicos. Alguns nomes lembrados:

GOLEIROS: Ademir Maria, Eduardo Martini, Geninho, Luciano, Marquinhos, Osvaldo, Paulinho, Petzold e Periquito. ZAGUEIROS: Aládio, Fogareiro, Heitor, Beiço, Paulo Vieira, Bob, Solis, Dias e Claudio Luis. MEIAS: Dagoberto, Éderson, Helenilton, Preto, Rached, Robson, Valdo e Xameguinha. LATERAL-DIREITA: Celso Augusto e Manoel
. LATERAL-ESQUERDA: Lauri, Luis e Paulinho. VOLANTES: Caçapava, Claudio Reginato
Lourival, Müllerve Pedro Ayub. PONTA-ESQUERDA: Anchietinha, Gilmar, Loivo, Passos, Raul Klein e Soares. PONTA-DIREITA: Itamar, Kasper, Preto e Zé Melo. ATACANTES: Éderson, Geada, Guinga, Jéferson
Róbson e Sapiranga. CENTROAVANTES: Bira Burro, Bugrão, Caio Junior, Claudiomiro, Jorjão, Paraná, Pedro Verdum, Romário e Valdinei. TÉCNICOS: Crlos Froner, Enio Andrade, Ernesto Guedes, Gilmar Iser, Marco Eugênio e Vacaria.

Também não pode ser esquecida a figura do grande treinador Pedro Otto Bumbel, que conquistou sucesso internacional. Ele marcou não somente a história do Esporte Clube Novo Hamburgo, como também a história do futebol mundial. Bumbel estudou e se fascinou pelo futebol, assistindo jogos do Taquarense.

Era natural de Taquara, onde nasceu no dia 6 de julho de 1914. Tornou-se militar do Exército Nacional e foi galgando patentes. A par dessa atividade profissional, estudava o futebol e todas suas nuances. Jogou muito pouco futebol, mas entendia das regras, de esquemas táticos, de como conseguir fazer com que o jogador produzisse o seu limite.

De Taquara foi para Novo Hamburgo. Bumbel encontrou espaço na Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo, onde além do futebol, introduziu o voleibol e o basquete, que aprendera lendo.

Em 1938, Bumbel marcou sua história como treinador de futebol, sendo convidado pelo Sport Club Novo Hamburgo a comandar a equipe. Aceito o desafio levou o time ao titulo citadino. Bumbel treinou depois o Cruzeiro de Porto Alegre e o Flamengo do Rio de Janeiro, na condição de auxiliar técnico de Flávio Costa. Em 1946, foi contratado pelo Grêmio. Em 1947 se aborreceu com os dirigentes gremistas e deixou o clube, retornando em 1949.

Foram muitas vitórias e a mais consagradora delas, 5 x 0 diante da seleção principal da Costa Rica. Em meio ao Campeonato Gaúcho de 1951, a Federação da Costa Rica convidou Bumbel para ser seu treinador. Ele largou o Grêmio, largou o Exército, largou tudo. O Grêmio se conformou e contratou outro treinador. No Exército foi declarado desertor e condenado à prisão militar. Durante dez anos ficou exilado, sob pena de prisão.

Seguiu sua brilhante carreira como técnico de futebol, embora melancolicamente pela ausência de sua pátria. Dirigiu com sucesso a seleção da Guatemala, seleção de Honduras e o Saprissa, da Costa Rica, pelo qual foi campeão nacional. Na Europa treinou o Porto, campeão português, Lusitano, vicecampeão português e Acadêmica de Coimbra. Na Espanha, o Atlético de Madri, campeão espanhol, Elche, vice-campeão espanhol, Valência, Racing Santander, Sevilha, Málaga e Sabatel.

Passado o período no exílio, Otto Pedro Bumbel retornou à Porto Alegre, onde foi articulista do jornal Diário da Notícias e correspondente do jornal "A Bola", de Lisboa. No dia 2 de agosto de 1998, foi encontrado morto no pequeno apartamento onde morava sozinho, com suas lembranças. Havia aproximadamente três dias que havia falecido, quando foi encontrado.

O legendário técnico Pedro Otto Bumbel. (Foto: Site BDFutbol)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O centenário do E.C. Novo Hamburgo (2)

O Esporte Clube Novo Hamburgo foi o primeiro, mas não o único time de futebol na cidade. Nos anos seguintes, surgiram vários outros: em 1914, o seu maior rival, o Football-Club Esperança; em 1919, seria a vez da fundação do Sport-Club Olympio; em 1921, foi fundado o Sport-Club Progresso. Já em 1923, o Sport-Club Victoria; em 1924, o Sport-Club Palmeira; em 1925, o Sport-Club Guarany e Sport-Club Canudense e, em 1927, o Grêmio Sport Hamburguez de Football e Atletismo, bem como o Sport-Club Municipal e Sport-Club Ypiranga.

Essencialmente, o anilado, desde a sua fundação, caracterizava-se como um time de homens brancos, mas não necessariamente de descendentes de alemães. Essa posição hegemônica e excludente dos afro-descendentes em Novo Hamburgo seria rompida somente onze anos após a fundação do anilado, quando, em 1922, surgiu o primeiro clube de futebol que oportunizava a presença de negros, o Sport Club Cruzeiro do Sul.

Ao longo de sua história inicial, vários dos jogos de futebol do Novo Hamburgo serviram para arrecadar fundos para a comissão responsável pelo plebiscito de emancipação de Novo Hamburgo. Corria o ano de 1926, às vésperas da emancipação e a comissão distribuiu panfletos pela cidade, conclamando os habitantes para um jogo de futebol do Novo Hamburgo.

"Grande Meeting no Campo do Sport-Club Novo Hamburgo. Pede-se o comparecimento de todos os eleitores deste distrito munidos de seus títulos federais para assinarem um memorial que será dirigido ao Exmo. Sr. Presidente do Estado. Deverão comparecer também os cidadãos que não são eleitores ou que tenham extraviados seus títulos, para a comissão requerer segundas vias e dar andamento aos documentos para a qualificação.

No mesmo local realizar-se-á um MATCH AMISTOSO em benefício da Caixa Pró-Emancipação do 2º. Distrito, entre os seguintes quadros:
1º times - Bloco Nicolas D'Ajello versus Bloco Albano Adams
2º times - Bloco José J, Martins versus Bloco Guilherme Ludwig
Entrada Geral 1$000 Senhoras Grátis"

O Foot-Ball Club Esperança tinha sede em Hamburgo Velho, um arrabalde na parte alta da cidade. Apesar de Novo Hamburgo ser uma localidade que em 1927 possuía apenas 8.000 habitantes, criou-se uma intensa rivalidade social entre os dois clubes futebolísticos. O Esperança era integrado por segmentos populares, mas também contava com boa parte da elite comercial e industrial local. Além do futebol o clube mantinha departamentos de basquetebol, voleibol e teatro.

Relatos de torcedores e dirigentes que viveram este período do futebol gaúcho remontam grandes batalhas realizadas entre alvi-verdes e alvi-azuis. Quando o Novo Hamburgo mudou o nome para Floriano, o clássico passou a chamar-se “Flor-Esp”, e mobilizava a cidade em suas tardes de domingo ou qualquer outro dia que ocorresse. Toda partida se tornava uma decisão, capaz de fazer os jogadores irem além de seus limites para não perderem para o adversário.

A rivalidade era tanta que um dos prefeitos da época, Martins Avelino Santini, em uma última tentativa de unir os hamburguenses em torno da mesma bandeira, decidiu construir a sede da prefeitura justamente na divisa dos dois maiores bairros. Quem torcia para o Esperança morava no bairro Hamburgo Velho, enquanto os torcedores do Novo Hamburgo (Floriano) residiam próximo ao Centro. O estádio do Esperança estava localizado na área próxima ao Colégio Pasqualini, transferindo-se, anos mais tarde, para o bairro Rondônia.

No passado a política não conseguiu alterar a ordem dos fatos, a ponto de rapazes torcedores do Novo Hamburgo (Floriano) serem impedidos de namorarem com garotas do Esperança. Casar então, nem pensar. Ocorreram muitas desavenças durante as partidas, mas nunca foi registrado alguma capaz de ferir seriamente algum dos espectadores, como seguidamente vemos em todos os Continentes.

Nos primeiros anos de existência do Novo Hamburgo eram comuns jogos contra times de Caxias, em especial o Juventude. A imprensa da época se referia a essa rivalidade como o “Clássico da Colônia” ou o “Clássico Ítalo-Germânico. Era um tempo de futebol romântico, cheio de histórias sobre amor à camisa e à cidade acima de tudo. Foi quando surgiu o apelido do time: “Nóia”, criado através da abreviação de “Novo Hamburgo”, misturada ao sotaque alemão.

Em 1937, já completamente estruturado e dono de uma equipe forte e respeitada, o Novo Hamburgo venceu o Campeonato Metropolitano, derrotando, entre outros adversários, o Nacional, Renner, São José, Cruzeiro e Força e Luz.

Em 1942, o clube já era uma das principais forças do futebol gaúcho, tendo se sagrado vice-campeão do Estado do Rio Grande do Sul. Perdeu nos jogos finais para o Internacional por 10 x 2 e 4 X 1.

Era um tempo de guerra e o país vivia tempos difíceis com o “Estado Novo”, que exercia forte pressão sobre tudo que lembrasse a Alemanha. Quem falava alemão não era bem visto pelas autoridades, que impuseram a mudança do nome dos clubes e escolas, além da proibição do uso e do ensino da língua alemã em todas as atividades públicas e, mesmo, privadas.

Essa onda de mudança e de aportuguesamento dos nomes chegou mesmo a ameaçar a cidade, que quase mudou de nome para Marechal Floriano Peixoto, em uma homenagem forçada ao Marechal Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, o segundo Presidente da República do Brasil e um militar de linha dura. O time de futebol, porém, não resistiu à pressão política e houve a transformação de Sport Club Novo Hamburgo para E.C. Floriano. E foi com esse nome que o clube disputou sua primeira final de Gauchão, em 1942. E seria vuce-campeão gaúcho também em 47, 49, 50 e 52.

Essa pressão pela mudança de nome pode ser compreendida como uma das manifestações da influência das idéias fascistas no Brasil, especialmente no que se refere a sua perspectiva de uniformização da cultura nacional. Esse nome permaneceu até o final da década de 60, quando o clube retornou às origens, aportuguesando seu nome para o atual Esporte Clube Novo Hamburgo.

Em 1947, o Novo Hamburgo conseguiu chegar até a final do Campeonato Gaúcho. No dia 30 de novembro, no campo do Adams, no primeiro jogo das finais o Internacional venceu por 3 X 2. A torcida colorada foi de trem até Novo Hamburgo, lotando 40 vagões.

Alguns afirmam que a arbitragem favoreceu a equipe da capital. Aos 42 minutos do segundo tempo, quando o jogo estava empatado em 2 X 2, o árbitro Miguel Sallabery assinalou um pênalti a favor do Internacional, de Crespo em Alfeu, que somente ele viu. A torcida anilada invadiu o campo e não permitiu a cobrança. O jogo foi interrompido por falta de segurança e o tempo restante marcado para a sexta-feira seguinte, dia 5 de dezembro.

Carlito, batedor oficial do Internacional passou a semana recebendo telefonemas ameaçadores e respondendo sempre que Tesourinha era quem cobraria a pena máxima. Foi assim dentro de campo. Pressionado pelos adversários Carlito mandou Tesourinha tomar a frente para a cobrança e se escondeu atrás dele. Só na hora que o juiz apitou, cinco dias depois do pênalti cometido, ele tomou a frente de Tesourinha e chutou para marcar e vencer o jogo. Carlito nunca errou um pênalti.

Uma semana depois o jogo recomeçou e o pênalti foi cobrado por Carlitos, garantindo a vitória colorada. No segundo jogo, na Chácara das Camélias, em Porto Alegre, com arbitragem de José Carvalho, o Novo Hamburgo venceu por 2 X 1. Na prorrogação, o Internacional venceu por 1 X 0, gol de Carlitos, garantindo o título.

O time foi considerado por muito tempo como a terceira força do Estado. A cidade prosperava graças a indústria dos calçados e por causa delas, o mascote escolhido para o Novo Hamburgo foi a figura de um “Sapato”.

Na década de 50, quando a sede dos "Taquarais", a segunda do clube foi vendida, uma área de terra localizada na rua Avaí, 119 no Bairro Santa Rosa foi adquirida por Cr$ 1.250,00, de acordo com o tesoureiro da época e hoje Patrono do clube, Reinaldo Reisswitz. A nova sede, logo batizada de Estádio Santa Rosa, foi inaugurada em 1953 e abrigou o Novo Hamburgo até meados de 2008. A praça de esportes tinha capacidade para 17 mil torcedores. (Pesquisa: Nilo Dias)


Equipe do E.C. Novo Hamburgo, que no dia 16 de abril de 1936, goleou o Juventude, de Caxias do Sul, por 4 X 1, no chamado "Clássico da Colônia". (Foto: Acervo do E.C. Novo Hamburgo)