Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A lenda mineira

Mário de Castro foi um dos melhores jogadores surgidos no futebol mineiro, em todos os tempos. Natural da cidade interiorana de Formiga, onde nasceu no dia 30 de junho de 1905, Mário de Castro era de uma família rica e tradicional do oeste mineiro. Seu pai, Lindolfo Rodrigues de Castro, era um senhor de vastas terras e muito influente e poderoso na cidade de Formiga.

Quando o Senhor Lindolfo morreu prematuramente, foi sua esposa e mãe de Mário de Castro que assumiu o comando da família. Em 1925, dona Regina enviou seu filho a nova capital para que o mesmo estudasse medicina. Em BH Mário logo procurou uma equipe para jogar.

E primeiro foi ao América que abriu as portas imediatamente. Afinal, Mario de Castro era rico e estudante de medicina, dois atributos essenciais para se ingressar no América que só exigia um ou outro. Só que Mário de Castro tinha os dois e mais um, era um craque de bola.

No América participou de alguns treinos e de repente sumiu para aparecer alguns dias depois no Atlético. Numa época em que o futebol ainda começava a se profissionalizar, o time do Atlético era composto, basicamente, por estudantes.

Mário de Castro começou o seu "reinado" em 1926 em um jogo válido pela decisão do campeonato mineiro daquele ano. O jogo era entre Atlético X América e o endiabrado Mário de Castro fez 3 gols da vitória atleticana por 6 X 3 e impediu que o “Coelho” conquistasse o seu décimo primeiro título consecutivo. Só isso já bastou para que Mário de Castro conquistasse o coração da Massa. Mas o artilheiro não se contentou e marcou mais 192 gols totalizando 195 em sua curta passagem de cinco anos pelo “Glorioso”.

Não foi fácil para Mário driblar a vigilância implacável de sua mãe, dona Regina Oliveira, que não queria ver o filho trocar as aulas de Medicina pelos campos de futebol. Por isso ele teve de apelar para a criatividade, achando uma forma de vencer a resistência materna. Em vez de Mário, passou a chamar-se Oiram, seu nome invertido, para que a mãe não descobrisse a falseta, ouvindo as partidas pelo rádio. Algumas vezes na hora da foto, cobria o rosto com a mão ou se escondia.

Mário por durante 2 anos conseguiu manter seu verdadeiro nome preservado. Mas a notícia de que o filho de dona Regina andava correndo atrás de uma bola na capital chegou a cidade de Formiga. Indignada, dona Regina resolveu ir até BH. Ia impor ao filho uma escolha. A bola ou os estudos.

O futebol ao contrário do começo do século já não era muito bem visto pela alta sociedade. Visão que piorou quando veladamente os jogadores de futebol passaram a receber dinheiro para jogar. Em BH em conversa com o filho, dona Regina viu que Mário ia bem na faculdade e que financeiramente poderia se manter na capital sem a ajuda da família.

Sem como impor suas condições, a mãe de Mário de Castro acabou por aceitar que o filho ficasse com a bola e os livros. Voltou para Formiga convencida que o futebol não era tão nocivo assim. E Oiram, ou melhor agora Mário de Castro continuou no Atlético.

Naquele tempo o Campeonato Mineiro era o campeonato de Belo Horizonte, que tinha o América como principal campeão, tendo vencido a competição por 10 vezes consecutivas, feito só igualado pelo ABC, de Natal (RN).

A mudança dos rumos do futebol da capital mineira começou a acontecer após a chegada de Mário de Castro no Atlético. Com ele, o “Galo” foi bicampeão em 1926 e 1927, e ele o artilheiro nas duas conquistas, com 21 e 28 gols respectivamente. Em ambos os campeonatos, somente não marcou na última partida, quando o time já era campeão.

Mário de Castro foi um craque fenomenal, chutava com os dois pés e os seus tiros tinham a precisão e a força que só os grandes jogadores têm. Foi um dos maiores artilheiros do futebol mineiro. Seus números são impressionantes. Nos 100 jogos em que comandou o ataque atleticano entre 1926 e 1931 - jogava-se pouco, naquele tempo - balançou as redes 195 vezes, o que dá uma média de 1,95 gols por partida, a maior conhecida entre atletas de futebol do Brasil e do mundo em todos os tempos.

Foi o terceiro maior artilheiro da história atleticana, atrás apenas de Reinaldo e Dario, que fizeram 255 e 211 gols, respectivamente. Sua melhor temporada foi a de 1927, quando marcou 44 gols, 28 deles pelo Campeonato Mineiro.

Diz a lenda que fez gols em todos os jogos em que atuou com a camisa atleticana. Isso, com certeza, é verdade. Ele mesmo dizia: “Eu marcava meus gols quase sempre no segundo tempo e não me lembro de ter passado uma partida sem marcar um gol". Quem o viu jogar garante que era incapaz de errar um chute a gol. Ou a bola entrava ou era defendida pelo goleiro. Para fora, ela nunca ia. Batia na pelota com elegância, tinha senso de colocação e era voluntarioso.

José Secundino, antigo torcedor do Atlético afirmava que além da precisão no chute, nunca viu outro atleta possuir tanta habilidade com os pés. E considerava Mário de Castro muito melhor do que Pelé. Secundino nasceu em 19 de agosto de 1904 e faleceu em 2005, pouco antes de completar 101 anos. Era o sócio de número 1130 do clube. Assistiu, "in loco", à inauguração do Estádio Antônio Carlos, no bairro de Lourdes, em 1929, e, durante 76 anos nunca deixou de assistir sequer uma partida. Nunca torceu para outro time.

A precisão do tiro era apenas um dos detalhes do talento daquele gênio. "Ele dava um chute forte e a bola pegava um efeito tão impressionante que voltava para seus pés", recorda Fileto de Oliveira Sobrinho, que jogou no Atlético em 1923 e 1924. "Os outros tentavam fazer igual, mas ninguém conseguia". Mário transformou-se em verdadeira lenda, capaz de escrever o próprio nome no campo com a bola, ao driblar os adversários!

No dia 27 de novembro de 1927 aconteceu um esperado clássico entre Atlético X América, no antigo campo da Avenida Paraopeba. O primeiro tempo terminou com o placar de 2 X 1 para o Atlético. Veio a segunda etapa e os gols foram saindo num ritmo alucinante: três, quatro, cinco... nove tentos para o “Galo”. Todo o ataque atleticano teve participação na goleada de 9 X 2. Os gols mais bonitos – dois – e quase todas as jogadas que resultaram naquela goleada histórica, saíram dos pés de um jogador esguio e elegante identificado pelos jornais da época pelo nome de Oiram.

A partida em que, ao lado de seus companheiros de ataque, ajudou a trucidar o America foi apenas uma entre os diversos confrontos memoráveis em que defendeu as cores alvinegras. Em 1929, o “Fabuloso”, como era conhecido, fez nova proeza ao assinalar dois gols na vitória do Atlético por 4 X 2 sobre o Corinthians. Essa partida marcou a inauguração do estádio Presidente Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.

Sua última partida foi uma exibição de gala. Em 27 de setembro de 1931, no “Alçapão do Bonfim”, em Nova Lima o Atlético perdia do Villa Nova por 4 x 1, ainda na primeira etapa. De ressaca, Mário de Castro "andava" em campo. Insultado pela torcida do Villa, Mário de Castro foi para o intervalo, limpou o estômago (vomitou) e voltou para a segunda etapa e acordou: em apenas 15 minutos, ele marcou quatro gols seguidos.

O Atlético virou o jogo para 5 X 4 e conquistou o campeonato de forma inesquecível. Aí, o clima fechou no estadinho do Villa. Com o fim do jogo a delegação atleticana teve que fugir correndo da cidade com a torcida do “Leão” atrás. Até tiros foram dados e um torcedor do Villa Nova foi morto por um diretor atleticano. Para Mário de Castro esse fato foi um aviso que já era hora de parar e parou , aos 26 anos.

Assim era Mário de Castro, artilheiro de um tempo em que se jogava com amor à camisa, com o coração nas chuteiras e com o orgulho de se defender as tradições de seu clube. Era genial e genioso: de personalidade forte, não admitia que ninguém falasse mal do Atlético. E rejeitava a glória fácil em nome do respeito que ele e seu clube mereciam.

Mário formou com Said e Jairo, aquele que é considerado por muitos o melhor ataque do futebol mineiro em todos os tempos. O "Trio Maldito", como eram conhecidos os três atletas, foi responsável por 459 gols para o Atlético. Este trio, que imortalizou o seu nome no futebol mineiro, somente se reuniu novamente em 1998, após o falecimento de Mário de Castro. O craque foi enterrado no cemitério do Bonfim, em um túmulo próximo ao dos dois amigos.

Em 1929, o Fluminense do Rio veio a Belo Horizonte para contratar Mário de Castro, oferecendo-lhe cem contos de réis de luvas e dois contos de ordenados, para seguir com o clube carioca e se transformar em profissional. Mário não aceitou, encerrando as conversações. Mas os dirigentes do Fluminense não desistiram, pediram a Mário que desse o seu preço. Mário o fez: queria duzentos contos de réis depositados em um banco, e mais quinhentos mil réis por gol assinalado. Além disso, Mário fazia outra exigência: a de voltar do Rio quando bem entendesse. Diante destas exigências, o Fluminense acabou por desistir.

Em 1930, Mário de Castro foi convocado para participar da disputa da Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. Foi o primeiro jogador de um time mineiro, e o primeiro jogador fora do eixo Rio-São Paulo a ser chamado para a Seleção Brasileira de futebol.

O jogo de inauguração do estádio de Lourdes, cuja grama ele ajudou a plantar, foi visto por um diretor da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), Horácio Werner, e por um representante da Associação dos Cronistas Desportivos do Rio de Janeiro, Aloysio de Hollanda Távora. Os dois ficaram estupefatos com o futebol do craque.

Dias depois, Mário de Castro recebeu o comunicado. Ele deveria se apresentar no Rio de Janeiro para integrar a Seleção. Seria o reserva de Carvalho Leite, atacante do Botafogo do Rio. Respondeu que só vestia a camisa do Atlético. Décadas mais tarde admitiu que talvez tivesse ido, se fosse na condição de titular. E, assim, o Atlético não teve representantes na primeira Copa do Mundo, a de 1930.

Após a Copa, a diretoria do Atlético desafiou o Botafogo para um jogo em Belo Horizonte, disputado em 30 de agosto de 1930. O time mineiro venceu por 3 X 2, e Mário de Castro marcou os três gols de sua equipe. Na revanche, na festa de inauguração dos refletores do estádio do Botafogo, no Rio de Janeiro, em 1º de outubro do mesmo ano, o Botafogo deu o troco: 6 x 3. Carvalho Leite, que não marcou no confronto em Belo Horizonte, fez três. Mário de Castro, dois. No final, o artilheiro do Atlético venceu o duelo por 5 X 3. Estava provado: Mário era o melhor.

O Atlético Mineiro foi sua única equipe oficial, entre os anos de 1925 e 1931, quando se formou em Medicina, deixando os gramados de Belo Horizonte. Não sem antes conquistar mais um título de campeão mineiro pelo Atlético, naquele que foi o último campeonato antes do profissionalismo. Com a camisa do “Galo” foi campeão mineiro em 1926, 1927 e 1931.

Voltou para Formiga, onde trabalhou como médico durante 22 anos, até se aposentar, prestando grandes serviços à população. Nunca largou o futebol. Continuou a atuar no time local enquanto teve condições físicas.

Fez sua despedida do Atlético Mineiro em um jogo no ano de 1940, contra o Madureira, do Rio de Janeiro. E Mário de Castro marcou a sua despedida com o seu gol de número 195. Encerrava-se ali, uma das mais marcantes carreiras de futebol em Minas Gerais.

Mário casou-se com uma das primeiras mulheres a se formar em odontologia no país, a doutora Maria de Lourdes Cavalcanti de Castro, que exerceu sua profissão até aposentar-se, mantendo seu próprio consultório. Tiveram dois filhos, Wander Mário, médico ainda em exercício e Vanda Maria, contabilista aposentada, e adotaram Antônio Rosa, já falecido.

Ainda acompanhava as partidas do Galo pela TV, em seus últimos anos de vida, irritando-se profundamente quando percebia que um jogador não dava tudo de si. Em 1998, Mário de Castro faleceu com 90 anos, em Lavras, na casa de seu filho. (Pesquisa: Nilo Dias)

Mário de Castro, em 1929.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O criador da camisa canarinho

Eu conheci o jornalista Aldyr Garcia Schlee, que em 1953, aos 19 anos de idade, ganhou o concurso nacional promovido pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e pelo jornal carioca “Correio da Manhã, para desenhar um novo uniforme para a Seleção Brasileira de Futebol, diferente daquele da tragédia de 1950 no Maracanã. O uniforme da derrota para os uruguaios tinha camisas brancas com colarinho azul. A seleção usaria o projeto vencedor na Copa do Mundo de 1954, na Suíça.

Para participar do concurso existia uma única regra: o uniforme devia contemplar as quatro cores da nossa bandeira. Aldyr, que era desenhista e caricaturista, ganhou dos outros 201 concorrentes, colocando o verde e amarelo nas camisas e o azul e branco nos calções.

O modelo vencedor era assim: camisa amarela com colarinho e punhos verdes; calções azuis com uma faixa vertical branca; meias brancas com detalhes em verde e amarelo. Como não tinha o tom correto de azul celeste da bandeira, Aldyr usou o azul cobalto, que foi fielmente reproduzido e continua no uniforme até hoje. O Brasil estreou o novo uniforme no Maracanã, no dia 14 de Março de 1954, numa vitória de 1x0 sobre o Chile.

Nna final da Copa de 58 o Brasil enfrentou a Suécia, que também jogava de amarelo. Não tendo preparado um uniforme reserva, o Brasil recortou os escudos de suas camisas amarelas e os costurou sobre um jogo de camisas azuis compradas de última hora em uma feira livre de Estocolmo. Nasceu assim o uniforme de número dois da seleção brasileira.

Como prêmio, Aldyr ganhou o equivalente a vinte mil reais e um estágio no Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, onde pode conhecer e conviver com figuras expoentes do jornalismo da época como Nélson Rodrigues, Antonio Calado, Millor fernandes e Samuel Wayner.

A primeira vez que eu vi Aldyr Garcia Schlle, ele trabalhava no vespertino “Opinião Pública”, de Pelotas, fundado em 1896 e eu na Rádio Tupancy, que ficava em frente ao jornal. Quando cheguei ao matutino “Diário Popular”, no início dos anos 60, a “Opinião Pública” vivia seus últimos momentos, tendo fechado definitivamente em 1962.

Também trabalhou na “Opinião Pública” o jornalista e advogado Carlos Alberto Chiarelli, que tempos depois se elegeu deputado federal e senador. O editor de esportes era Salimen Júnior, que tempos depois brilhou na imprensa de Porto Alegre. Não lembro dos outros jornalistas, mas sei que era uma redação das mais qualificadas.

Aldyr Garcia Schlee nasceu em Jaguarão (RS), no dia 22 de novembro de 1934 e viveu sempre entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai. Além de jornalista é renomado escritor, tradutor, desenhista e professor universitário. As suas especialidades são a criação literária, a literatura uruguaia e gaúcha, a identidade cultural e as relações fronteiriças.

Doutor em Ciências Humanas, publicou vários livros de contos e participou de antologias, de contos e de ensaios. Alguns livros seus foram primeiramente publicados no Uruguai pela editora Banda Oriental. Traduziu a importante obra "Facundo", do escritor argentino Domingos Sarmiento, fez a edição crítica da obra do escritor pelotense João Simões Lopes Neto, quando estabeleceu a linguagem. Foi planejador gráfico do jornal “Última Hora”, repórter e redator.

Criou o jornal “Gazeta Pelotense”, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, foi fundador da Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), de onde foi expulso após o golpe militar de 1964, quando foi preso e respondeu a vários IPMs; foi professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), por mais de 30 anos, onde foi também pró-reitor de Extensão e Cultura. É torcedor do Brasil, de Pelotas, clube que chegou a ser tema do conto "Empate", publicado em "Contos de futebol" e também da Seleção Uruguaia.

Há uma explicação para o fato dele torcer para os uruguaios: Aldyr nasceu em Jaguarão a 200 metros do Uruguai e 600 km de Porto Alegre. Sua formação como torcedor foi baseada no futebol platino. Toda segunda chegavam em sua casa jornais de Buenos Aires e Montevidéu, com os craques e os jogos.

Recebeu duas vezes o prêmio da Bienal Nestlé de Literatura Brasileira e foi cinco vezes premiado com o Prêmio Açorianos de Literatura. Em novembro de 2009 pubicou "Os limites do impossível, os contos gardelianos", pela editora ARdoTEmpo e em 2010, pela mesma editora, o romance "Don Frutos", ano em que foi também destacado com o Prêmio Fato Literário de 2010.

Atualmente vive em um sítio no município de Capão do Leão. Tem três filhos, três netos e seu passatempo é o futebol de botão, cujo time "veste" a camiseta do Esporte Clube Cruzeiro, de Porto Alegre, com a escalação dos anos 60.Em Jaguarão, sua terra natal, existe uma rua chamada “Uma Terra Só,” em homenagem à obra e à história do escritor. (Pesquisa: Nilo Dias)

Aldyr Garcia Schlle e os três desenhos que criou para o concurso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Historinhas de juizes

Em 1974, na decisão do último campeonato amador de Brasília, jogavam CEUB X Ministério das Relações Exteriores, no antigo Estádio Pelezão. O juiz do jogo era Édson Rezende de Oliveira, que anos mais tarde foi presidente da Comissão de Arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Naquele tempo era comum acontecer de tudo no certame brasiliense, inclusive jogadores atuarem dopados.

Foi o caso de um zagueiro do Relações Exteriores, um tipo de altura descomunal, forte como um touro. Era daqueles jogadores que costumavam chamar de armários. Sob os efeitos das “bolinhas” milagrosas, o zagueirão estava com os olhos esbugalhados e derramando saliva pelos cantos da boca. Logo em seu primeiro lance no jogo, quase abriu ao meio um atacante do CEUB. Levou cartão amarelo.

Minutos depois outra entrada, ainda mais dura que a primeira. Precavido, para evitar ser agredido pelo violento jogador, o juiz discretamente chamou os dois únicos policiais presentes ao estádio. Assim que o “homão” foi seguro pelos PMs, Edson Rezende de Oliveira mostrou o cartão vermelho.

Foi então que o jogador completamente fora de si, tentou de todas as maneiras se desvencilhar dos PMs para sair em busca do juiz. Chegou a jogar um policial longe, acertou socos nos próprios colegas de time e gritava: “Eu quero achar ele. Cadê? Vou dividir este filho da p... em dois!”Finalmente algemado, foi levado ao distrito policial.

Em outubro de 1994, o Clube do Remo, de Belém do Pará, precisava vencer o Bragantino, de São Paulo, por 3 X 0, para escapar do rebaixamento para a Segundona do Brasileiro. O árbitro carioca Léo Feldman, preocupado com a hostilidade da fanática torcida local, sai do estádio de táxi, rumo ao hotel. No caminho, o motorista passa por um grupo de torcedores do Remo e grita:

“Ei pessoal, eu estou levando o juiz do jogo!”. Feldman, desesperado com a possibilidade de ser linchado, desce do táxi, correndo e consegue entrar em outro carro, livrando-se dos torcedores que corriam atrás dele.

Em 1997 as seleções do Paraguai e Colômbia jogavam no Defensores Del Chaco, em Assunció, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1998. O juiz era o brasileiro Wilson de Souza Mendonça. No gol paraguaio o polêmico goleiro Chilavert. Achando que o árbitro não estava olhando, deu uma cusparada em Asprilla. O colombiano passou a mão no rosto e revidou com um soco. Incontinente, Wilson foi até o local expulsou o agressor que saiu sem falar nada.

Caído, Chilavert recebeu o atendimento medico e após um bom tempo levantou- se meio zonzo. “ Tem condições de jogo?”, perguntou Mendonça. “Sim”, respondeu o goleiro. “Não, o senhor não pode. Está expulso!”. “O quê? Mas eu não fiz nada?”. “Eu sei o que vi e o senhor sabe o que fez “, completou Mendonça.

O estádio veio abaixo. Impassível, o árbitro esperou os ânimos serenarem, pegou a bola e apontou para a área do Paraguai: Pênalti! Nova confusão, mas a partida prosseguiu e a Colômbia marcou o gol. No final, o jogo terminou empatado e Wilson recebeu do inspetor de árbitros da FIFA uma das maiores notas da história da entidade: nove e meio.

Este fato eu contei no meu livro “100 anos de futebol em São Gabriel (RS). Segundo os jornais da época, no dia 8 de junho de 1935 foi disputada em São Gabriel, no “ground” existente no local onde hoje se acha o Ginásio São Gabriel e o Colégio Menna Barreto, “a mais sensacional, encardida e discutida partida de futebol já vista naquela cidade”.

Foram degladiantes as equipes do Artilharia F.B.C., que reunia militares do 6º Grupo de Artilharia de Campanha e G.S. Militar, formado por integrantes do 9º Regimento de Cavalaria independente. Os dois rivais eram considerados os “maiorais” do futebol gabrielense na época.

Antes do jogo o ambiente estava bastante carregado. Na cidade só se falava na possibilidade de haver uma grande briga entre os jogadores. Ninguém queria apitar o jogo. Por essa razão o prélio estava no sai não sai. Até que apareceu o salvador da pátria, o desportista Adair Menna Barreto de Abreu, considerado o melhor árbitro da cidade por muitos anos. “Competente, enérgico e rigorosamente imparcial”. Adair teve uma atuação sensacional, do principio ao fim, sem que houvesse um único lance de deslealdade entre os litigantes.

O pesquisador esportivo Celso Unzelte conta que certa vez, o Bangu foi jogar um amistoso em Barbacena, interior de Minas Gerais. A maior atração era Zizinho, o craque do time e da própria Seleção Brasileira vice-campeã mundial em 1950. Junto com a delegação, foi o juiz Eunápio de Queiroz, na época também apelidado pelos torcedores de “Larápio” de Queiroz, que dirigiu a partida.

Começa o jogo, Eunápio erra uma marcação e logo toma uma bronca de Zizinho: “Puxa, Eunápio, até em amistoso?” Eunápio não gostou e expulsou o Mestre Ziza. O jogador já ia saindo quando entram no campo os promotores do amistoso: “O que houve?” “Fui expulso.” “Nada disso. Volta já pro campo, porque nós pagamos um dinheirão foi pra ver você jogar, não pra ver esse cara aí apitar”. E quem acabou expulso foi o juiz.

Outra ótima historinha: nos anos 40, o São Paulo de Leônidas da Silva teria ido ao Recife jogar contra o Sport. E o juiz não deixava Leônidas avançar. Era só o “Diamante Negro” pegar na bola e lá vinha um apito, marcando falta, toque, impedimento, qualquer coisa que o impedisse de continuar a jogada.

Lá pelo segundo tempo, ainda 0 X 0, o juiz perdeu o apito, que sumiu na grama. Enquanto tateava o gramado na busca de seu instrumento de trabalho, o árbitro via Leônidas receber a bola e partir driblando para dentro da área. Então, desesperado, desistiu de procurar o apito e saiu gritando: “Perdi meu apito! Agarrem esse crioulo que ele vai fazer o gol!”

E para encerrar, a oração de Carlito Rocha, o histórico e folclórico presidente do Botafogo, destinada à arbitragem antes dos clássicos mais importantes: “Minha Nossa Senhora Aparecida, fazei com que esse ladrão roube hoje para nós!” (Pesquisa: Nilo Dias)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O lendário "Canhão 420"

Pedro Grané, um dos mais completos laterais direitos surgidos no futebol brasileiro, nasceu em São Paulo no dia 10 de novembro de1987 e morreu em São Paulo em 1985. Grané jogou de 1924 a 1932 no S.C. Corinthians Paulista. A simples menção de seu nome, fazia os goleiros de sua época e os meninos de uma década depois de ele ter pendurado as chuteiras tremerem de medo. Alto, forte, possuía, segundo os antigos, um petardo tão letal em seu pé direito, que logo foi apelidado de 420, o sinistro canhão do Kaiser utilizado na Primeira Grande Guerra Mundial.

Iniciou sua carreira no Ypiranga, que naquela época tinha um dos times de futebol mais fortes do cenário nacional, até se transferir para o Corinthians em 1924. Com a camisa do alvinegro do Parque São Jorge, Grané fez 51 gols em 179 partidas, o que lhe garante até hoje o título de defensor com maior números de gols na História do clube. Foram 113 vitórias, 30 empates e 36 derrotas.

No dia 22 de maio de 1932, na vitória por 5 X 1 diante do Atlético Santista, na Fazendinha, Grané cobrou um pênalti e marcou seu 50 gol com a camisa do Corinthians. Formou o mais famoso trio final do futebol paulista em todos os tempos, com o goleiro Tuffy e o zagueiro Del Debbio nos anos 20 e 30.

O sucesso do trio, chamado de “Divina Trindade”, foi tão grande, que o lateral-direito chegou a defender a Seleção Brasileira em seis oportunidades, marcando dois gols. Os principais títulos conquistados pelo Corinthians foram os Campeonatos Paulistas de 1924, 1928, 1929 e 1930.

Muitas lendas se criaram em torno de seu chute poderoso. Diziam que todas as vezes que Grané ia cobrar um tiro de meta os companheiros pediam para que chutasse devagar, senão a bola se perderia pela linha de fundo do gol adversário.

A mais célebre foi a de que Grané, num jogo decisivo viu-se na marca do pênalti diante de seu irmão Lara, goleiro do Ypiranga. Bem que Grané implorou várias vezes para o irmão sair da frente. Não saiu. Fez mais: saltou e agarrou o míssil com as duas mãos. E não mais se levantou. Estava mortinho da silva.

Num encontro entre Paulistas x Cariocas no Parque São Jorge, a "Casa Murano" oferecia uma vitrola ao jogador que marcasse o primeiro tento da partida. O juiz marcou uma penalidade contra os cariocas, e Grané que era o encarregado de bater as faltas, pois possuia o chute mais violento do Brasil, correu para a marca da cal, vibrando de alegria por dois motivos: a penalidade que na certa daria um tento para os paulistas, e pelo régio presente que iria abiscoitar. A torcida ficou apavorada e das arquibancadas pedia para Grané chutar devagar e não matar Jaguaré.

E antes do chute, gozava os companheiros: "amanhã apareçam em casa para ouvir discos em minha nova vitrola". Afastou quatro jardas e remeteu um violento chute contra o arco de Jaguaré, que era considerado o maior goleiro do Brasil na época (Jogou no Timão já no final de sua carreira em 1934).

Jaguaré que momentos antes disse "olha aqui, seu mastodonte.Vou tirar o seu chutinho com um soco. Tá ouvindo?" defendeu, mas largou a bola e foi cair meio desacordado e com um braço fraturado no fundo das redes! De Maria correu e consignou o tento! Depois, entre abraços e risos falou "amanhã vocês apareçam em casa para ouvir discos em minha nova vitrola" Grané ficou uma fera de tão brabo!

Grané seria presença certa na Seleção Brasileira que participou em 1930, no Uruguai, da primeira Copa do Mundo.Mão não foi convocado, porque naquela época, o "bairrismo" era muito presente no futebol brasileiro. Esse fator acabou prejudicando a campanha do país no Mundial, que não passou da primeira fase. A Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea) recusou-se a ceder à Confederação Brasileira de Desportos (CBD) os jogadores do Estado de São Paulo. O pretexto foi a recusa da CBD em admitir na comissão técnica um integrante da Apea. (Pesquisa: Nilo Dias)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O professor dos zagueiros

Agnelo Correia dos Santos, o Nelinho, certamente foi um dos melhores zagueiros surgidos no futebol baiano em todos os tempos. Sergipano de Estância, onde nasceu em 1934, começou a carreira no tradicional Botafogo Sport Club, de Salvador. No “diabo rubro” baiano formou uma linha média famosa, nos anos 1950, atuando ao lado de Flávio, volante e, mais tarde, campeão da Taça Brasil de 59, pelo Bahia, e Júlio, lateral-esquerdo.

Ainda nos anos 50 foi vendido para o Vitória, quando o Botafogo desmanchou o time todo para fazer caixa, a fim de construir sua badalada sede de praia, em Amaralina.

Em 1957 defendeu o Brasil, vestindo a camisa da Seleção, representada por uma seleção baiana na Copa O'Higgins, no Chile. Depois foi vendido pelo Vitória ao Flamengo do Rio, por quem disputou um torneio no Chile, sendo eleito o melhor jogador da competição.

Pretendido pelo Bahia, voltou para Salvador, acertando um contrato com o rival Vitória. Dessa vez teve de jogar de médio volante porque o jovem Roberto Rebouças, mais tarde ídolo eterno da zaga do Bahia, havia conquistado a posição.

Diziam, no Vitória, em tom de ironia, que Nelinho foi quem ensinou Medrado, Romenil, Tinho e muitos dos seus companheiros de zaga de como jogar bola. O dom de tanta categoria dava uma sede danada ao “professor dos zagueiros”. Contavam que numa passagem do Vitória pela cidade de Valença, no Baixo Sul, em 1964, Nelinho bebeu todas as garrafas de cerveja de um bar e o dono foi obrigado a buscar um novo engradado no vizinho.

Jogou no time bicampeão baiano 1964/1965. Sempre capitão, era o homem de confiança dos treinadores. Foi também campeão baiano pelo Galícia em 1968. Voltou ao Vitória, no final de carreira, tendo atuado no Leônico, ao lado de um garoto chamado Raimundo Varella. Encerrou a carreira no antigo Ilhéus Futebol e Regatas, onde foi jogador e treinador na década de 70.

De estilo clássico e elegante, o jogador é sempre lembrado com saudade pelos privilegiados torcedores e jornalistas que tiveram a sorte de vê-lo atuar nos anos 50 e 60. Contam que dava a impressão que as suas pernas tinham ímã para a bola. Ele dava o “bote” certo, porque sabia para que lado o atacante ia driblar. Tinha um senso de colocação fora do comum em campo.

Quem conviveu com ele, garante: era tanta facilidade com a bola que ela parecia querer, por vontade própria, ficar no seu pé. Nelinho desenvolveu essa habilidade de grudar a bola no pé, para compensar a falta de vigor que se exige de um zagueiro troncudo convencional.

Era baixo, uma antítese de zagueiro, mas tinha uma impulsão surpreendente. Seu estilo lembrava o de Gamarra, tomava a bola sem fazer falta. Dono de uma técnica invejável para um jogador de defesa, Nelinho impressionava também pela raça em campo. E tinha uma postura elegante de Beckembauer, sempre de cabeça erguida.

Nelinho morou a vida toda na Cidade Baixa, em Salvador. Dono de um apetite de fazer inveja, se esbaldava comendo mocotó e fazia farra a noite toda. E foi essa vida desregrada que acabou lhe causando sérios problemas no coração, logo depois que deixou de jogar. Havia parado de beber, mas não deixou o cigarro. Acabou sofrendo um infarto em casa, no bairro da Ribeira. Ultimamente os remédios não faziam mais efeito. Nelinho morreu aos 77 anos de idade, no dia 3 de maio do ano passado.

No velório, no cemitério Campo Santo, estiveram presentes os ex-jogadores Edmundo, Alencar, Ademir, André Catimba, Teixeira, Reginaldo, Catu, Paulo Leão e Valtinho. O Conselheiro Babau, único representante do Vitória no adeus a Nelinho, era só elogios: "Jogava como a porra, viu? Não teve zagueiro como ele".

André Catimba, acostumado aos duelos na área, garante: "Nelinho era um senhor quarto-zagueiro. Outro igual nunca existiu. Era craque". Pai do lateral Róbson, Nelinho encantou até o jornalista João Borges Bougê, que viu dezenas de zagueiros em ação, em 25 anos de carreira de cronista. “Nelinho era um negócio impressionante. Não dava um pontapé. Ele hoje seria um super-craque”, disse. (Pesquisa: Nilo Dias)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Clubes promovem cruzeiros maritimos

O navio italiano “Costa Concordia”, que recentemente naufragou depois de bater em uma rocha junto à ilha italiana de Giglio, participou dos festejos organizados pelo pelo S.C. Corinthians Paulista de 25 a 28 de fevereiro de 2010, para ceomemorar o seu centenário de fundação. Com cerca de 300 metros de comprimento, o navio levava 4.229 pessoas, sendo 3.200 turistas de 60 nacionalidades e mais de mil membros da tripulação, no momento do naufrágio. Ao menos 11 pessoas morreram no acidente.

A promoção corinthiana, até então inédita no futebol brasileiro, chamada de “Navio do Centenário”, se constituiu num cruzeiro marítimo levando jogadores, antigos ídolos, dirigentes e torcedores de Santos até Búzios e Ilha Bela, nos litorais do Rio de Janeiro e São Paulo.

Participaram da viagem, entre outros, Marlene Matheus, viúva do lendário ex-presidente Vicente Matheus, a família do torcedor Fernando Moraes Marques, que batizou seus dois filhos como Mateus e Vicente, Hortência, ex-jogadora de basquete, o cantor e compositor Toquinho, o ator Dan Stulbach, os apresentadores Serginho Groisman e Raul Gil e o piloto de Fórmula 1 Rubens Barrichello.

Entre os ex-jogadores, Basílio, Casagrande, Neto, Ronaldo (goleiro), Wladimir, Rivelino, Tobias, Dinei, Marcelinho Carioca, Marcio Bittencourt e Biro-Biro. A bateria da "Gaviões da Fiel" tocou no navio, que tinha escorregador gigante e feijoada com samba nas tardes.

Segundo a lista de passageiros, havia a bordo gente de 13 Estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal , Bahia, Pernambuco e Ceará, e de quatro diferentes países, Brasil, Portugal, Espanha e Argentina.

Os preços para os torcedores que participaram do cruzeiro variaram de R$ 1.550, para acomodação num quarto com quatro pessoas, até R$ 5.000, preço individual para a suíte mais luxuosa, para duas pessoas. O navio zarpou logo depois das 18h rumo a Búzios.

A idéia do S.C. Corinthians agradou a outros clubes, que também pretendem fazer cruzeiros comemorativos este ano. O São Paulo F.C. , por exemplo, vai realizar o seu “Navio Tricolor”, de 19 a 22 de abril, para comemorar os 20 anos do primeiro título mundial, em 1992, na vitória de 2 X 1 contra o Barcelona. Os craques do passado estarão a bordo do navio “MSC Armonia”, em uma viagem, que passará por Ilhabela e Búzios. A direção do São Paulo não fala em imitar o Corinthians, sim seguir o exemplo do clube italiano Milan, que recentemente promoveu um cruzeiro temático.

Com saída prevista para 19 de abril, a embarcação "MSC Armonia" deve zarpar com sua lotação máxima, ou seja, 1500 torcedores tricolores que devem se espalhar pelas 770 cabines. O clima no cruzeiro será de diversão durante o dia e à noite. Crianças podem conhecer de perto os grandes ídolos de seus pais, casais podem curtir uma viagem inesquecível e os solteiros podem aproveitar todas as mordomias do navio e as festas temáticas.

Além dos torcedores, ídolos da torcida são-paulina também estarão a bordo: Rogério Ceni, Raí, Cafú, Palhinha, Ronaldão, Serginho Chulapa, Oscar, Dario Pereira, Gilmar Rinaldi e Miller. Outros ex-atletas, que não foram campeões do mundo também estarão presentes. É o caso de Careca, campeão brasileiro em 86.

O cruzeiro sai de Santos e passa por Ilhabela e Búzios e prevê, entre outras atrações, sessões de cinema, uma mesa-redonda com os ex-atletas presentes, sessões de autógrafos, uma partida entre os times de amigos do Raí e amigos do Careca e uma grande festa, a "Vermelho, Branco e Preto".

Em seus 13 andares, o navio “MSC Armonia” comporta quatro piscinas, duas jacuzzis, um solarium com uma vista externa encantadora, academia de ginástica, quadra, pista de shuffleboard, campo de minigolfe, jogging, cassino, bares, restaurantes sofisticados, área para deixar as crianças ao cuidado de monitores com uma programação única, SPA e cabines luxuosas que mesclam o conforto e o requinte desde as cabinas internas até a suíte com varanda. As reservas de cabines podem ser feitas por meio do site “Navio Tricolor”. Os preços variam entre R$ 1450 e R$ 2290.

Assim como foi feito pelo Corinthians na temporada 2010, o Santos F.C. também terá o seu “Cruzeiro do Centenário”. O projeto pretende reunir até 1700 torcedores e simpatizantes no mês de março, em viagem que irá passar por Angra dos Reis e Búzios entre os dias 4 e 7. A expectativa da direção santista é faturar até US$ 500 mil (R$ 850 mil) com as vendas dos pacotes. A embarcação é o “Grand Mistral”, da Ibero Cruzeiros.

A possível presença de Neymar e de outros jogadores, e até de Pelé está sendo estudada. O cruzeiro terá grandes atrações de músicos torcedores do Santos, como Guilherme Arantes e Chorão, vocalista do Charlie Brown Júnior. O preço individual cobrado por cabine, no pacote mais simples, é de R$ 765, e vai até R$ 2730. Ambos têm o acréscimo das taxas portuárias.

Por fim, o S.C. Internacional, de Porto Alegre realiza de 30 de março a 2 de abril, o seu “Navio Colorado”. A embarcação, um “MSC Armonia”, de nove andares, sairá de Santos (SP) em 30 de março de 2012. O cruzeiro passará por Ilha Grande (RJ) e Ilhabela (SP) antes de retornar a Santos, dia 02 de abril.

O navio terá 103 cabines – em homenagem ao aniversário do Clube – exclusivamente reservadas a torcedores e convidados. Uma delas será sorteada entre os sócios adimplentes. O felizardo ganhará a viagem e poderá levar um acompanhante. (Pesquisa: Nilo Dias)

O navio "Costa Concordia", recentemente naufragado, esteve presente nas comemorações do centenário do S.C. Corinthians Paulista.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O time do Papai Noel

Quem disse que Papai Noel não existe, certamente nunca ouvir falar do F.C. Santa Claus, de Rovaniemi, que fica na região da Lapônia, na Finlândia. A cidade é a capital e centro comercial da Lapônia. Fica próxima ao Círculo Polar Ártico e possui cerca de 60 mil habitantes. Apresenta temperatura média anual de +0.2 °C, tendo registrado –47.5 °C, sua mínima absoluta, em 1999. Pela sua situação geográfica, é conhecida mundialmente como "A Terra Natal do Papai Noel".

Devido à inclinação do eixo da Terra em relação ao eixo do Sol, a Lapônia, passa até três meses no inverno sem que haja claridade e até três meses durante o verão sem que haja noite, no fenômeno conhecido como Sol da Meia-Noite.

O Santa Claus é uma equipe que participa da Terceira Divisão do campeonato finlandês, também conhecida como “Kakkonen”, onde os clubes têm seus nomes representados por siglas, como TP-47, FC YPA, PK-37, SJK. O Santa Claus já contou no seu elenco com dois jogadores brasileiros, Rafael de Oliveira Rodrigues e o centroavante Luiz Antonio, que foram dispensados em 2010.

Em 2010 o time fez a melhor temporada da sua história. O presente principal, no entanto, não veio. O time do “Bom Velhinho” foi o primeiro colocado entre os 14 que disputaram o Grupo Norte da Terceira Divisão e brigou por uma vaga com o melhor do Sul, na “Ykkönen”, como é chamada a Segundona de lá.

Na final, o Santa precisava de um empate para ser campeão, mas perdeu para o HIFK e não conseguiu o acesso. Já em 2011, o time não fez uma boa temporada, terminando em décimo lugar no grupo C da “Kakkonen” e só não caindo para a IV Divisão, por ter sido salvo pelo “goal-average”.

Em 1997, o F.C. Santa Claus também fez a alegria dos seus torcedores quando enfrentou o Crystal Palace, clube da segunda divisão inglesa, em um amistoso. Na ocasião, cerca de 4.500 torcedores assistiram a partida.

A temporada da “Kakkonen”dura aproximadamente seis meses. As partidas são disputadas de abril até outubro. Se a equipe não chega nos playoffs de promoção ou rebaixamento, a temporada dura um pouco menos. Na Finlândia o futebol deve ser praticado no verão, já que no inverno é impossível jogar devido a quantidade de neve.

O time manda as suas partidas em dois estádios, o “Saarenkylän Tekonurmi” e o “Susivoudin kenttä”, ambos em Rovaniemi, com capacidade para 2.000 e 400 torcedores, respectivamente. Seu uniforme é predominantemente vermelho, apenas as meias possuem cor diferente, são pretas, e a combinação branca é usada no segundo uniforme.

O número de torcedores do F.C. Santa Claus vem crescendo cada vez mais ao redor do mundo. Em dezembro de 2010, aproximadamente 17 mil fãs visitaram a página oficial do clube na Internet. Também existe muita publicidade internacional e grandes meios de comunicação esportivos já vieram conhecer o clube. A média de público nos jogos do Santa Claus fica entre 400 a 800 torcedores, e o objetivo é aumentar esse número.

Terminada a temporada, torcedores e jogadores se concentram no esporte principal do país, o hóquei. De novembro até maio de 2011, alguns jogadores do Santa Claus trocaram as chuteiras por patins e passaram a atuar em clubes de hóquei.

O FC Santa Claus ainda beira o amadorismo quando se fala do futebol dentro das quatro linhas. Os jogadores, por exemplo, são estudantes e trabalhadores que frequentam as escolas e as empresas locais. O Santa, porém, explora a boa imagem do clube para fazer uma fonte de renda extra para os seus atletas.

Sem uma dedicação exclusiva à equipe, os jogadores tiram férias prolongadas por conta do frio violento que atinge a região durante o inverno no hemisfério norte. Isso porque o campeonato vai de abril até outubro, quando a equipe avança para os playoffs, caso contrário o período fora de atividade é ainda maior. Nos meses restantes, atletas e comissão técnica têm mais tempo para priorizarem profissão e estudos.

No inverno os jogadores do F.C. Santa Claus participam junto com os visitantes da Escola de Futebol na Neve organizada pelo clube. Os atletas se juntam aos ajudantes do Papai Noel e jogam futebol com os turistas em um cenário que remonta a Lapônia, a terra do bom velhinho.

Os dirigentes sonham com a possibilidade de que algum clube internacional vá até Rovaniemi disputar uma partida na neve contra o F.C. Santa Claus. No inverno é muito difícil jogar futebol tradicional na Finlândia. Então, a temporada dá um tempo e o F.C. Santa Claus atua no futebol de neve.

Existem duas versões para a história da fundação do clube. Na oficial, a equipe finlandesa foi criada em 1993 após a fusão de dois clubes de Rovaniemi: o Rovaniemen Reipas e o Rovaniemen Lappi. Além dessa, há também a lenda de que o próprio Papai Noel teria fundado o time muitos anos atrás, e seus ajudantes formaram o primeiro elenco.

O marketing serve também para alavancar os projetos sociais tocados pelo F.C. Santa Claus. Parceiro da Unicef, o clube vende camisas e chapéus do clube para turistas, especialmente aqueles que visitam a Vila do Papai Noel, reservando 10 Euros (R$ 22) para a entidade. A Vila do Papai Noel está localizada no círculo polar. Partindo de Rovaniemi, calcula-se uma distância aproximada de 8 quilômetros do estádio até lá.

Anualmente, na primavera é realizado um torneio, em que toda a renda conseguida com a venda de ingressos é doada para a filial finlandesa da Unicef. Além dessas iniciativas, o clube participou de um projeto para levar água potável para o Sri Lanka, no verão de 2010.

Na Finlândia o “Bom Velhinho” é conhecido pelo nome de “Joulupukki”, e não Santa Claus, como nos países de língua inglesa. A escolha aconteceu porque com o nome de Santa Claus fica mais fácil a identificação.

Mitologias à parte, os fundadores decidiram levar ao clube a imagem do Papai Noel, que, segundo a lenda que se disseminou na Europa, habita a região da Lapônia. E o marketing chegou até lá e, com a venda de produtos licenciados e o investimento em jogos promocionais. A tradução foi um meio de globalizar a imagem do time.

A última vez que Papai Noel foi ao estádio assistir uma partida foi em abril de 2010, quando ele deu o pontapé inicial da temporada de futebol em Rovaniemi. Esta visita chamou a atenção da imprensa e até a Federação Finlandesa de Futebol anunciou o evento em sua página na internet. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time do F.C. Santa Claus, junto de Papai Noel. (Foto: Acervo do F.C. Santa Claus)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O artilheiro que virou lenda

João Baptista Ferrareto, o “Carruíra”, foi um dos mais habilidosos atacantes surgidos no futebol do Rio Grande do Sul. Era um artilheiro nato e exímio cobrador de pênaltis. Ele nasceu na cidade portuária de Rio Grande (RS), em 1913.

Começou a carreira futebolística no extinto General Osório, de sua terra natal. Em 1934, com 21 anos, foi jogar no S.C. Rio Grande.

Em 1935 foi contratado pelo F.B.C. Rio-Grandense, mas se deu mal. Meteu-se numa briga, em jogo válido pelo Campeonato da Cidade e foi punido com a suspensão dos campos de futebol, por um ano. Em 1936 retornou ao S.C. Rio Grande, para se sagrar campeão gaúcho.

As finais do campeonato reuniram o Botafogo F.B.C., de São Gabriel, campeão da região Fronteira, S.C. Novo Hamburgo, campeão da região Sudeste, Riograndense F.C., de Santa Maria, campeão da região Serra, S.C. Internacional, de Porto Alegre, campeão da região Metropolitana e S.C. Rio Grande, campeão da região Litoral.

O tricolor riograndino chegou ao título estadual derrotando o Novo Hamburgo, por 5 X 2 e no jogo final ao Internacional, por 3 x 2. O time campeão jogou com Munheco – Fruto e Cazuza – Juvêncio – Chinês e Roberto – Ernestinho – Darinho – Souza (Carruíra) – Marzol e Pecce. Técnico, Gustavo Kraemer Filho.

Em 1937 voltou ao F.B.C. Rio-Grandense, onde foi treinado pelo folclórico Gentil Cardoso. No colorado riograndino foi vice-campeão gaúcho em 1937 e 1938. Em 1939, finalmente o Rio-Grandense se sagrou campeão estadual e Carruíra ganhou o seu segundo título gaúcho, e também foi o artilheiro da competição.

O Rio-Grandense foi campeão derrotando o Grêmio Santanense numa final de "melhor de três", com uma vitória e dois empates. O time campeão jogou com Brandão – Cazuza e Armando – Martinez – Pacheco e Mariano – Osquinha – Carruíra – Cardeal – Chinês e Plá. Técnico: Aires Torres.

Carruíra faleceu em Rio Grande, no dia 26 de junho de 1982, aos 69 anos de idade, e não ficou no esquecimento. No Bairro Zona Portuária, em sua terra natal, existe a Travessa João Batista Ferrareto, homenagem da comunidade riograndina a um dos principais jogadores que pisou nos gramados da cidade.

Para que se tenha uma idéia do que Carruíra representou no futebol de Rio Grande, criou-se uma lenda envolvendo seu nome.

O famoso crônista Amaro Junior, que trabalhava para os jornais da Caldas Júnior, contava essa história e jurava ser verdade, garantindo que estava em Rio Grande e testemunhou tudo. La na "Cidade Maritima" só um jogador jogava na seleção gaúcha, era Carruíra, do S.C. Rio Grande, um esplêndido jogador.

E aí o Botafogo ia excursionar para a Argentina, mas havia uma epidemia de febre amarela no Rio e um jogador do clube alvi-negro carioca tinha morrido da doença. As autoridades sanitárias da Argentina mandaram que o navio que estava levando o Botafogo para jogar com o Boca Juniors, aportasse na cidade de Rio Grande, que eles iriam mandar seus representantes para fazer um exame no pessoal da delegação.

E demorava… um navio levava mais ou menos um mês para ir do Rio a Buenos Aires. E então, o Botafogo resolveu treinar lá e convidou para um jogo amistoso o S.C. Rio Grande, o "vovô dio futebol brasileiro", que era o clube de Carruíra. Foi o primeiro a ser fundado especificamente para o futebol, em 19 de julho de 1900.

Começou o jogo e o Botafogo fez um gol, com Carvalho Leite. Seguiu a partida e o Rio Grande tinha um ponta-esquerda chamado Chinês, pai do Chinesinho, que depois jogou no Inter, na seleção brasileira e no Milan, da Itália, jogava na meia-esquerda e na ponta-esquerda. Ele empatou o jogo.

Minutos depois, Benedito, que era um jogador gaúcho que atuava no Botafogo, fez o gol que deixou a partida em 2 X 1. Daí a pouco Carruíra pegou uma bola e driblou todo o time do Botafogo. Chegou na pequena área e botou a bola para fora do campo.

Quando ela voltou, naquele tempo se jogava com uma bola só, a FIFA é que determinava isso, o juiz mandou dar a saída do centro do campo. O capitão do Botafogo chegou para ele e disse: “Como? O jogador chutou a bola lá no meio da rua! Como o senhor quer dar a saída aí? Tem que dar tiro de meta”.

O juiz olhou para o capitão do Botafogo, botou a mão no ombro dele e com um sotaque bem de fronteira disse: “Bem se vê, moço, que você não é daqui. Se o senhor fosse daqui, nem vendo ia acreditar que o Carruíra, chegando na risca da pequena área fosse chutar pra fora. Eu não acredito! É gol!”.

Esse fato é comprovado, tem até a súmula no jornal "Correio da Manhã", do Rio de Janeiro. O Iata Anderson, que é um repórter de campo achou que isso era mentira e foi consultar os jornais da época e encontrou lá esse jogo e o famoso gol do Carruíra, sem dizer que não tinha sido gol.

Em 1944, Carruíra retirou-se dos gramados, voltando em 1946 como técnico do Rio-Grandense. Sua atuação como treinador foi a mais proveitosa, pois conseguiu levar o Rio-Grandense ao vice-campeonato estadual, com um time formado em parte com jogadores que foi buscar nas várzeas.

O Rio-Grandense abateu o Brasil, de Pelotas, o Floriano, de Novo Hamburgo e o Grêmio Santanense. Faltava o Grêmio Portoalegrense, mas como os tricolores constituíam a base do selecionado gaúcho em organização, a decisão do estadual foi deixada para depois do Campeonato Brasileiro, em 1947. Entrementes, Carruíra foi dispensado da direção técnica: “Essa foi a gratidão que demonstraram pelo meu trabalho”, disse ele.

Os melhores jogadores que conheceu foram Fruto, em Rio Grande, Mário Reis, em Pelotas e Lara, em Porto Alegre. Esse foi Carruíra, que atuou 25 anos em equipes principais da primeira divisão.

Foi encontrada uma legenda de fotografia publicada no jornal “O Tempo”, edição de 30-12-1949, que dizia: “Eis o maior de todos! A maior glória do E.C. Rio Grande, no tempo do esplendor do futebol papa-areia. Quando Carruíra aparecia em campo, milhares de olhos convergiam para a sua figura, que durante o jogo era um astro brilhando demais que os outros”.

Em Rio Grande quase ninguém sabe quem é João Batista Ferrareto. Mas basta falar no apelido deste homem, basta perguntar por Carruíra, que todos se prontificarão a informar, porém indagando antes? ”Quem, o novo ou o velho?” Carruíra tinha um filho que também desenvolvia um grande futebol. (Pesquisa: Nilo Dias)

domingo, 1 de janeiro de 2012

A morte de mais um ex--craque bageense

Parece que a “miudinha” chegou a Bagé nos últimos dias de 2011. Depois da morte de Vicente, zagueiro que marcou época no Santos de Pelé, agora faleceu Carlos Calvet, ponteiro-direito, também filho de Bagé e que jogou no Internacional, de Porto Alegre. Ele morreu na Santa Casa de Bagé, onde estava internado há várias semanas, tratando de problemas respiratórios. O enterro ocorreu no domingo, no Cemitério daquela cidade.

Carlos Donazar Calvet, o “Tóia”, nasceu em Bagé no dia 26 de julho de 1926. Mas a trajetória profissional foi iniciada fora da terra natal. Aos 18 anos foi morar em Pelotas. Quando estudava no Colégio Gonzaga, foi convidado a jogar nas categorias de base do E.C. Pelotas. Na Princesa do Sul atuou em 1944 e conquistou o vice-campeonato gaúcho de 1945.

Em 1946 foi contratado pelo Guarany, de Bagé e na mesma temporada foi negociado com o Botafogo, do Rio de Janeiro, onde atuou até meados de 1948 e serviu no Ministério da Guerra. A passagem pelo futebol carioca foi lembrada recentemente em entrevista concedida ao programa “Jogo Limpo” da "TV Sem Fronteira". “Excursionamos a Bolívia, onde fui interprete da delegação. Eles não sabiam nada de castelhano. Passamos um mês, jogamos três jogos, com duas vitórias e um empate” contou.

Atacante habilidoso, excelente finalizador e dono de forte chute, em 1948 foi contratado pelo Internacional, de Porto Alegre, com a função de substituir o craque Tesourinha, vendido ao Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. Em 1949 voltou a jogar pelo Guarany.

Em 1950 e 1951, foi jogador do Bagé. Em 1952, Carlos Calvet, retornou ao Guarany e jogou até 1961, quando aos 33 anos deu adeus à carreira vitoriosa como atleta. Várias vezes foi treinador do alvirrubro bageense. Atuou também pela Associação Atlética Gente Boa, no campeonato amador da cidade. E, a convite do radialista Mário Teixeira Codevilla, ainda jogou pela equipe de futebol da Rádio Difusora, na década de 1960.

O ex-jogador Carlos Calvet estava aposentado e residia no Bairro Getúlio Vargas, em Bagé. Artilheiro nato marcou 109 gols pela dupla Na-Gua, 84 gols pelo Guarany e 25 pelo Bagé, inclusive sendo o autor do gol 1000 do jalde-negro, na derrota por 4 X 3 para o Brasil, de Pelotas, em 12 de agosto de 1951.

Um dos grandes momentos da sua carreira profissional, aconteceu no dia 24 de março de 1957. O Santos F.C., que realizava uma série de jogos no Rio Grande do Sul, se apresentou em Bagé, no Estádio da “Pedra Moura”, diante da seleção Ba-Gua, jogo que terminou empatado em 1 X 1. Pelé marcou para os santistas, enquanto Carlos Calvet, que teve atuação destacada, anotou o gol do combinado.

Eu assisti aquele jogo. Tinha apenas 16 anos de idade e aproveitei a proximidade de minha terra natal, Dom Pedrito, com Bagé. O Santos de Pelé e companhia foi o primeiro grande time de futebol, que vi jogar. Na escalação monstros sagrados como Ramiro, Formiga, Del Vechio, Jair da Rosa Pinto, Pepe, Pelé e outros.

Carlos Calvet era irmão de Raul Calvet, que jogou no Grêmio e Santos e faleceu aos 72 anos de idade, no dia 29 de março de 2008, em Porto Alegre, onde se tratava de um câncer no esôfago. Um dia depois de sua morte, o corpo foi cremado na capital gaúcha.

Nascido em Bagé, no interior gaúcho, Raul Calvet foi revelado pelo Guarany local e depois esteve no Grêmio, antes de chegar na Vila Belmiro para vestir a camisa do Santos. No onze da Vila Belmiro foi bicampeão mundial, num time basicamente formado por Gilmar – Lima – Mauro - Calvet e Dalmo - Zito e Mengálvio – Dorval – Coutinho - Pelé e Pepe.

Jogou 10 partidas pela Seleção Brasileira e foi campeão mundial em 1962. Era considerado um jogador técnico e elegante. Abandonou o futebol aos 30 anos ao romper o tendão de Aquiles. (Pesquisa: Nilo Dias)

Carlos Calvet, quando jogava no Guarany, de Bagé.

Morre Mário Pereira, o "Perigo Loiro"

Morreu no último sábado, 31/12/2011, na cidade de Santos, onde residia, o último remanescente do time do Santos F.C., que conquistou o primeiro campeonato paulista para o clube, no distante ano de 1935. Mário Pereira tinha 97 anos de idade e na sua época de jogador era conhecido como “Perigo Loiro” por causa dos longos cabelos que já não possuia mais. A causa da morte não foi revelada.O corpo foi velado no Memorial Ecrópole Ecumênica, próximo ao estádio da Vila Belmiro.
Mário Pereira, que tinha 21 anos de idade, era titular absoluto da equipe que bateu o Corinthians no Parque São Jorge, por 2 X 0, gols de Araken Patusca e Raul Cabral Guedes, no jogo final, disputado no estádio de Parque São Jorge, que deu ao Santos o seu primeiro título de expressão. Hoje o clube soma 19 títulos estaduais.

Ele nasceu em Santos, no dia 4 de abril de 1914, dois anos após a fundação do alvinegro. Foi um meia-direita tão eficiente no ataque como na defesa, que marcou 24 gols nos 41 jogos que fez pelo Santos, média de 0,58 por jogo. Mário teve a carreira abreviada por uma grave lesão. Marcado às vezes com violência, teve a infelicidade de quebrar o joelho esquerdo em 1938, com apenas 24 anos, e ser obrigado a abandonar a carreira. “Nem me lembro quem foi. Só sei que entrou por trás e me quebrou aqui”, dizia ele, mostrando a cicatriz que já tinha 73 anos.

A última aparição pública de Mário Pereira foi em janeiro de 2011, no Memorial das Conquistas do Santos. Ao lado do Rei Pelé, o campeão paulista de 35 tirou fotos, distribuiu autógrafos e posou com a bola da competição que venceu sobre o Corinthians. O Santos estudava escalar o ex-meio-campista para uma série de ações referentes à celebração do centenário da equipe que será celebrado neste ano de 2012. Em 2004, como forma de homenagem, a equipe inaugurou um camarote com o nome do ídolo falecido neste sábado.

Ele adorava a cidade onde nasceu, foi criado e passou toda a vida. Nunca pensou em morar em outro lugar. Quando lhe perguntavam o que aconteceria se jogasse hoje e recebesse uma proposta milionária de um clube europeu, respondia apressadamente: “Não aceitaria nenhuma proposta para sair daqui. Aqui é a minha cidade, minha terra”, dizia sorrindo. Torcedor fanático do Santos, acompanhava todos os jogos do time pelo “pay per view”. Como ficava muito nervoso, colocava as mãos e os pés em bacias d’água, para se acalmar.

Antes de 1935 o Santos teve um período, mais especificamente de 1927 a 1931, em que foi um dos melhores times do país e poderia, naturalmente, ter sido campeão paulista em mais de uma temporada. Porém, vários fatores contribuíram para que isso não acontecesse. O Santos não só foi prejudicado pelo poder do futebol paulista, como pela intransigência de seus próprios dirigentes. Mário Pereira guardava certa bronca de um árbitro chamado Artur Cidrim, que segundo ele, beneficiava principalmente o Corinthians, que tinha “dirigentes dentro da liga” e “já era o time de maior torcida na época.

O ano de 1935 não começou bem para o Santos, que perdeu os dois primeiros amistosos que fez: 3 X 2 para o São Paulo e 1 X 0 para a Portuguesa de Desportos, ambos na Vila Belmiro. Como o Campeonato Paulista demoraria a começar, deu tempo para o time se redimir, com vitórias sobre Corinthians, por 3 X 2, São Cristóvão, 2 X 1 e Espanha, 10 X 1.

Deu até para aceitar um convite para uma excursão ao Rio Grande do Sul, de 12 a 26 de maio, quando venceu o Novo Hamburgo por 4 X 2 e Riograndense (Porto Alegre), 4 X 3, empate em 1 X 1 com o Internacional e derrotas para o Grêmio por 3 X 2 e Seleção Gaúcha, também por 3 X 2.

Uma excursão como essa, naqueles tempos de poucas viagens, era tudo que os jogadores queriam. Só que chegaram a Santos no dia 29 de maio e descobriram que a tabela marcava para o dia 2 a estréia contra o Palestra, que era o atual campeão paulista.

Logo de cara, um jogo decisivo, pois se o time tinha alguma pretensão de brigar pelas primeiras posições, deveria vencer o Palestra na Vila. No segundo turno o jogo seria no Parque Antártica e a dificuldade seria bem maior. Sabendo disso e lutando como nunca, o Santos venceu por 1 X 0, gol do centroavante Raul.

A vitória sobre um dos favoritos ao título animou os santistas, que em seguida venceram também o Espanha, no campo do Macuco, por 2 X 0, e o Paulista, da Capital, no Parque Antártica, por 5 X 1. No quarto jogo veio a derrota para o Corinthians, na Vila Belmiro, por 2 X 1. Mas o time se aprumou de novo e venceu a Portuguesa Santista, na Vila Belmiro, 3 X 1 e o Juventus, na Capital, 4 X 1. Nesta última partida, a que encerrou o primeiro turno, o time ganhou o reforço de Araken, que voltava ao Santos.

Na estréia do segundo turno, outro confronto com o Palestra, desta vez no Parque Antártica. Jogo tenso, difícil, que terminou sem gols. Depois, uma goleada no Espanha, na Vila, 4 X 1 e outra no Paulista, 5 X 2, também em casa. Mas a Portuguesa Santista complicou as coisas em Ulrico Mursa, empatando em 3 X 3. O time depois teve de vencer o Juventus em nervosos 2 X 1, na Vila. Na última partida, frente o Corinthians, no Parque São Jorge, o time precisava apenas de um empate para ser campeão.

Bilu, o técnico santista, temia que a emoção traísse seus jogadores, ou que o árbitro, Heitor Marcelino Domingues, pudesse puxar a sardinha para os times da Capital. O Corinthians não tinha chance de ser campeão, mas sua vitória daria o título ao Palestra Itália, mesmo clube que venceu o Santos na Vila Belmiro, em 1927, quando o empate bastaria para que a taça ficasse em Santos.

Bilu, que jogou a decisão de 1927 como zagueiro, jamais escondeu a mágoa pela forma com que o campeonato lhe tinha sido tirado, com uma atuação parcial e cínica do árbitro Antonio Molinaro. Naquele 17 de novembro, no Parque São Jorge, finalmente Bilu teria a chance de, por linhas tortas, saborear sua vingança.

A boa torcida que subiu de trem para São Paulo fez o time se sentir à vontade, mesmo no campo do rival. Um grupo de torcedores do Santos que trabalhava na estiva do Porto, cansados de ver o time ser prejudicado pela arbitragem em jogos decisivos, levou galões de gasolina para o estádio do Corinthians. Se o Santos fosse roubado mais uma vez, prometiam colocar fogo na Fazendinha. Mas não precisaram chegar a tal extremo. Jogando melhor, o Santos venceu por 2 X 0.

O título ficou mesmo com o melhor do campeonato. Em 12 jogos foram 9 vitórias, 2 empates, uma derrota, 32 gols marcados, 12 sofridos e saldo de 20 gols. Mário Pereira fez cinco gols na competição. O São Paulo faliu, nem disputou o campeonato, foi refundado no mesmo ano e voltou á Liga Paulista em 1936. O Palestra perdeu alguns jogadores para o Fluminense (RJ),como o meia Romeu Pelicciari. O Corinthians, depois de fazer um primeiro turno impecável, perdeu um jogo atrás do outro no segundo. O Santos não tinha nada com isso, e foi campeão.

Ficha Técnica do jogo que deu o primeiro título estadual ao Santos:

Corinthians 0 X 2 Santos
Data: 17 de novembro de 1935, domingo à tarde.
Local: Parque São Jorge
Gols: Raul aos 36 minutos do primeiro tempo; Araken aos 17 do segundo.
Árbitro: Heitor Marcelino Domingues.
Público: 15.000 pagantes.
Corinthians: José - Jaú e Carlos – Brito - Brandão e Munhoz – Teixeira – Carlito – Teleco - Alberto e De Maria. Técnico: José Foquer.
Santos: Cyro - Neves e Agostinho – Ferreira - Martelete e Jango – Sacy - Mário Pereira – Raul - Araken e Junqueira. Técnico: Bilu.

Em 2005, quando da comemoração dos 93 anos do Santos F.C., um dos momentos mais emocionantes, foi quando o presidente, na época, Marcelo Teixeira pediu uma salva de palmas para Mário Pereira, até então o único ex-jogador ainda vivo campeão paulista de 1935. Todos os convidados o aplaudiram de pé. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time do Santos, campeão paulista de 1935, com Mário Pereira.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O Jogo da Morte (Final)

Em 17 de julho o Start enfrentou pela primeira vez uma equipe alemã e venceu por 6 X 0. E em 26 de julho derrotou pela segunda vez a Guarnição Hungara. Isso acabou com a paciência dos ocupantes alemães. Em 6 de agosto foi disputada uma partida entre Start X Flakelf, equipe integrada por vários pilotos de “Lutwaffe”, que pretendia manter uma invencibilidade da aviação nazista. O Start venceu por 5 X 1. E três dias depois os alemães pediram revanche.

Em meio a esse clima de guerra aconteceu aquele que não foi apenas um jogo de futebol. O que aconteceu no ano de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, foi um ato de heroísmo que envolveu um time de ucranianos formado em uma padaria e composto na sua maioria por jogadores do Dínamo Kiev. Em plena ocupação alemã, eles cometeram a loucura de derrotar a uma seleção de Hitler, no estádio local.

Em 6 de agosto voltou a derrotar o Flakelf, dessa feita por 5 X 3, o que foi considerado uma afronta para os representantes do Terceiro Reich. O jogo foi apitado por um integrante da SS e foi disputado no Estádio Zenit, com a presença maciça de policiais e tropas alemãs. Ao contrário do clima festivo dos jogos anteriores, esse foi marcado pela tensão. Soldados alemães lotaram os melhores lugares das arquibancadas, deixando os ucranianos espremidos no que sobrou de espaço. Guardas com cães se mantinham postados diante da torcida para garantir a "ordem".

Outro fato que mereceu destaque foi a escalação do Start feita pelo governo da ocupação. O F.C.Start, jogou com Trusevich – Klimenko – Sviridovsky – Sukharev – Balakin – Gundarev – Goncharenko – Chernega – Komarov – Korotkykh – Putistin – Melnik - Timofeyev e Tyutchev. Ao entrar em campo, a equipe recusou-se a fazer a saudação nazista para os soldados e oficiais de alta patente reunidos no estádio.

Os soldados do Flakelf saudaram a tribuna do alto comando com "Heil Hitler" e a multidão aguardou para ver o que os jogadores do Start fariam. A apreensão tomou conta. Todos quietos e os jogadores de cabeça baixa. Um a um, os braços foram erguidos. Os torcedores do Start estavam confusos. Mas quando todos os braços estavam no alto, os jogadores do Start os dobraram sobre o peito e gritaram: "FizcultHura!". O alto comando alemão ficou estupefato. Os torcedores ucranianos aplaudiram e a escolha do termo utilizado para saudação nada mais é do que vida longa ao esporte.

Todo o tipo de jogada violenta foi permitido, sem que o juiz marcasse falta contra os alemães. Até um gol com o goleiro lesionado foi validado. Mesmo assim o primeiro tempo finalizou com o placar de 2 X 1 para o time da padaria de Kiev.

O que se passou no intervalo do jogo, não se sabe com certeza. Mas o time ucraniano foi aconselhado a não vencer, com o argumento: "Vençam e morram, percam e sobrevivam". O preço da vitória seria muito caro, a vida de cada um deles. Mas os companheiros de Trusevich não se intimidaram e aceitaram pagar o preço exigido. Foram melhores em todo o segundo tempo.

Já com o resultado de 5 X 3, aconteceu uma cena que não poderia ser mais humilhante. Klimenko, um zagueiro, ficou parado na linha do gol, com o pé sobre a bola, após ter deixado para trás toda a defesa adversária, até mesmo o confuso goleiro, que engatinhava desesperado de volta às traves. O moço observava.

Quando todos esperavam o gol, o lance inesperado: com um sorriso indisfarçável, o atleta mirou o centro do campo e recolocou a bola em jogo. Castigava seu adversário não fazendo o sexto gol e mostrando que o Start não poderia ser derrotado. O árbitro soprou o apito final antes de completados os noventa minutos. E os refugiados do padeiro Josef, sabiam que esse atrevimento teria consequências.

No dia 16 de agosto, na semana seguinte ao jogo contra os alemães, o Start derrotou o Rukh novamente, desta vez por 8 X 0. Foi sua última partida. Com a alegação de que pertenciam à NKVD, polícia secreta soviética que havia financiado o Dínamo, a maioria dos jogadores foram presos e torturados. Alguns dizem que Kordik, o padeiro, foi o primeiro a morrer: torturado até a morte na frente dos jogadores.

A maioria do time foi mandada para o campo de concentração de Siretz, que era dirigido pelo Obersturmbahnfürer Paul Radomsky. Cruel, sádico, Radomsky era um assassino metódico: levava a cabo fuzilamentos todas as manhãs às seis horas e em seguida retornava para suas dependências, para tomar o seu desjejum. Ali, entregues a um militar doentio, padeceriam e, em sua maioria, morreriam parte dos jogadores do F.C. Start.

Korotkykh foi o primeiro jogador a morrer no campo de concentração, sob tortura. Ali também foram executados, em fevereiro de 1943, os jogadores Ivan Kuzmenko, Oleksey Klimenko, e o goleiro Nikolai Trusevich, que dizem ter morrido com a camisa do FC Start.

Goncharenko, Sviridovsky, e Tyutchev não estavam na padaria no dia fatídico, e viveram escondidos até a libertação de Kiev em novembro de 1943. Foram os principais responsáveis por tornar conhecida a história do FC Start.

Makar Goncharenko, relatou em 1992 que, usando sua camiseta vermelha e negra, o legendário goleiro gritou antes de morrer: “o esporte vermelho nunca morrerá”. Um dia antes havia ocorrido a histórica vitória soviética de Stalingrado. O princípio do fim do nazismo estava em marcha. Em 6 de novembro de 1943 Kiev foi libertada. Apenas havia 80 mil sobreviventes, dos mais de 400 mil que lá moravam em 1941.

O escritor mexicano Juan Villoro, impecável homem das palavras e um preciso observador do fenômeno do futebol, descreveu em seu livro "La historia del fútbol mundial”, muitos episódios emotivos e comoventes, mas seguramente nenhum tão terrível como aquele protagonizado pelos jogadores do Dínamo de Kiev, nos anos quarenta. Na morte deram uma lição de coragem, de vida e de honra, que não tem, por seu dramatismo, outro caso similar no mundo.

As homenagens aos heróis ucranianos vieram com o tempo. Foram feitos filmes e documentários, foram escritos livros e contos e se ergueram monumentos. Mas houve um modo de evocá-los para sempre: os possuidores de um ingresso daquela partida da morte tiveram direito perpétuo a um lugar gratuito nos jogos do Dínamo. Uma pequena homenagem a quem pôde assistir “aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista”, como diz o monumento que honra os jogadores do Start.

O monumento em homenagem aos quatro heróis kievanos do F.C.Start, Nikolai Trusevich, Korotkykh, Ivan Kuzmenko e Alexei Klimenko está colocado numa praça em frente o estádio do Dínamo de Kiev. È uma estátua esculpida em um único bloco de granito de cerca de três metros de altura, na qual os quatro aparecem abraçados. Há poucos anos, os sobreviventes Goncharenko e Sviridovsky visitaram o monumento em honra aos colegas de time fuzilados.

O “Jogo da Morte” chegou aos cinemas de todo o mundo. O filme “Match”, conta a história do relacionamento entre o goleiro do Start (inspirado em Nikolai “Kolya” Trusevich, arqueiro morto no campo de concentração de Siretz) e uma professora de alemão, personagem sem inspiração real.

Para poder dar mais realismo às cenas e representar Trusevich, o ator principal, Sergei Bezrukov, treinou com o ex-goleiro do Benfica, Porto e seleção russa Sergei Ovchinnikov. Curiosamente, o próprio Nikolai Trusevich auxiliou um ator que protagonizou o filme soviético “O Goleiro”, de 1936, rodado em Kiev.

O filme mais famoso inspirado no “Jogo da Morte” ainda é “Fuga para a Vitória”, do premiado diretor americano John Huston. Na película, o jogo se passa em Paris e os prisioneiros de guerra são soldados aliados que planejam usar a partida para escapar. Entre eles, Pelé e outros jogadores famosos como o argentino Osvaldo Ardiles, o inglês Bobby Moore e o polonês Kazimierz Deyna, os dois últimos já falecidos. Sylvester Stallone faz o papel do goleiro. O filme é considerado dos melhores já produzidos com o futebol como tema.

Ao contrário da versão hollywoodiana, o primeiro filme estrangeiro baseado no “Jogo da Morte” passou longe de ter um final feliz. “Two Half Times in Hell” (“dois tempos de jogo no inferno”, em inglês) é o nome da película dirigida por Zoltán Fábri em 1961 e que conta a história de um time de prisioneiros húngaros convocados para enfrentar uma equipe de alemães em comemoração ao aniversário de Adolf Hitler durante a II Guerra Mundial. Assim como o Start, eles são aconselhados a perder, mas ganham a partida. No filme húngaro, porém, os vencedores acabam tragicamente executados ainda no campo de jogo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Os sobreviventes Goncharenko e Sviridovsky visitaram o monumento.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Jogo da Morte (1)

Em 21 de junho de 1941, os exércitos de Hitler iniciaram a invasão a URSS. O povo soviético, indefeso, foi tomado de surpresa. O ditador Stalin havia firmado um infame “pacto de não agressão” com Hitler em agosto do ano anterior. Os nazistas avançaram quase sem obstáculos e em menos de um mês fizeram mais de um milhão de prisioneiros.

Em 23 de junho, como grande parte da população de Kiev, o goleiro Trusevich, do Dínamo, se apresentou como voluntário ao exército. E responderam que não fazia falta, que tudo estava sob controle. Em julho, começou a evacuação de parte da população civil de Kiev. Um dos centros de operações foi no estádio do Dínamo. Três jogadores, Trusevich, Makhinya e Kuzmenko, foram admitidos finalmente no exército. Outros permaneceram na cidade.

Em que pese a luta feroz do 37º Exército Vermelho, de milicianos e guerrilheiros, em 19 de setembro os nazistas haviam ocupado a capital ucraniana, que se transformou em uma cidade sangrenta e escravizada, com grande parte de sua população encarcerada em prisões e campos de trabalhos forçados.

Os alemães fizeram prisioneiros 630 mil soldados, dos 677 mil que participaram da batalha. Trusevich foi preso e enviado a Darnitsa, um campo de concentração. Isoladamente aconteciam ações de resistência. Em novembro os nazistas disseram que fuzilariam 100 ucranianos por soldado alemão morto. Ao mesmo tempo, muitos habitantes dos campos de concentração foram encaminhados ao trabalho forçado.

Prisioneiros catalogados como "inofensivos" foram libertados e passaram a integrar a população da Kiev ocupada. Os ex-jogadores do Dínamo, “Kolya” Trusevich, Alexei Klimenko, Ivan Kuzmenko, Nikolai Makhinya, Pavel Komarov, Makar Goncharenko, Fyodor Tyutchev, Mikhail Sviridovsky e Mikhail Putsin viram-se de repente em condição de miséria perambulando pelas ruas da cidade, sem ter onde morar ou como se alimentar.

Os nazistas a partir de então começaram a restabelecer a infraestrutura industrial local. Foi quando retornou ao funcionamento a Padaria Nº 3, que era na realidade uma grande fábrica, na qual 300 trabalhadores produziam diariamente mais de 50 toneladas de várias qualidades de pães. A frente dela foi colocado um cidadão tcheco, Josef Kordik, que vivia em Kiev desde a primeira guerra. Havia lutado com os alemães e se somou aos ocupantes. Mas não havia abandonado seu amor aos esportes e seu grande fanatismo pelo Dínamo.

Um dia se encontrou na rua com o goleiro Trusevich, que vivia como um mendigo, faminto e esfarrapado. E o levou para trabalhar na padaria, onde já estavam numerosos desportistas, protegidos por Kordik. E colocou em prática um sonho que tinha oculto. Na primavera de 1942, Trusevich começou a buscar seus antigos companheiros. Foi o começo do Football Club Start , que tanto em russo ucraniano quanto em inglês, significa “começo”.

Nikolai Trusevich nasceu em Odessa, na Ucrânia, em 22 de novembro de 1909. Começou a jogar futebol aos 13 anos, porém só despontou no jogo anos depois por conta de sua condição familiar. Desde muito novo, ajudava a alimentar a família, já que seu pai não conseguia trabalho. Logo conseguiu ocupação como aprendiz numa padaria e acabou se tornando mestre padeiro. O compromisso com o trabalho, o pouco convívio social e a necessidade de retomar os estudos, não deixavam que o futebol fosse prioridade na vida de Trusevich, mesmo assim, quando algum tempo sobrava, ele jogava.

Começou a carreira em sua cidade natal, no time do Pishevik, equipe formada pelos operários da indústria alimentícia local, em 1926. Em 1929 foi vendido ao Dínamo de Odessa, aonde começou a ganhar fama a nível nacional. Durante sete temporadas foi ídolo no clube por seu estilo pouco convencional e arrastava multidões quando jogava justamente por seu jeito brincalhão e exuberante.

Em 1935 transferiu-se para o Dínamo de Kiev, que era um dos melhores times da Europa na época. E foi em Kiev que teve início a carreira trágica, porém heróica, deste grande goleiro ucraniano, que era considerado uma muralha em seu tempo.

Para quem o observava ficava óbvio que o Odessa era pequeno demais para sua habilidade, já que não se restringia à pequena área. Trusevich inovou saindo da área e fazendo muitas vezes a função de zagueiro além de utilizar os pés e não as mãos em grande parte de suas defesas.

História interessante é contada quando depois de uma vitória acachapante sobre a seleção da Turquia, Trusecivh organizou um banquete surpresa para os adversários derrotados. Não que esta atitude estivesse ligada a alguma arrogância, é que Trusevich era homem de maneiras impecáveis e para que a surra em campo sobre o adversário não ficasse vista como falta de educação ou de hospitalidade por parte do povo ucraniano.

Para alegrar os visitantes, Trusevich se incumbiu de distraí-los com sua "dança do goleiro", que consistia em dobrar-se, balançar-se, esticar-se e saltar para apanhar uma bola imaginária ao som de um pot-pourri de tango e jazz. O ponto alto do "espetáculo" de Trusevich se deu quando a música parou e ele se congelou.

De repente, caiu duro para frente, mas instantes antes de tocar o chão, ele esticou os braços e num salto voltou a ficar de pé e a fazer a sua "dança do goleiro" novamente. Inevitavelmente a platéia pediu bis, e Trusevich repetiu sua dança quantas vezes foram necessárias para deixar os visitantes satisfeitos e confortáveis.

Impecável, exigente e bem sucedido em tudo o que fazia, Trusevich não ficaria marcado apenas pela inovação dentro de campo, ou pelo ímpeto de se lançar aos pés dos atacantes em divididas perigosas ou por sua amabilidade, cortesia e alegria. Os tempos de guerra com a invasão alemã e posterior ocupação de Kiev mostraria ao mundo que Trusevich era um homem determinado e filho leal da mãe Rússia.

E na padaria de Kordik se reuniam os sobreviventes que permaneciam na cidade, como Mikhail Putistin, Ivan Kuzmenko, Makar Goncharenko, Mikhail Svyridovskiy, Fedir Tyutchev, Mykola Korotkykh e Oleksiy Klimenko. A eles se somaram três integrantes do Lokomotiv Kiev: Vladimir Balakin, Mikhail Melnyk e Vasil Sukharev. Shchegotsky havia saído da cidade e lutava no Exército Vermelho, assim como Makhinya. Yatchmennnikov havia morrido num campo de concentração. Lazar Kogen havia sido fuzilado por ser judeu, e Burdukov havia desaparecido.

Todo o grupo de limpeza externa da fábrica era formado por jogadores de futebol, e desde as janelas recebiam a solidariedade de seus companheiros que lhes atiravam pães, arriscando a vida, caso fossem vistos pelos nazistas

Kordik conseguiu que as autoridades locais recomeçassem o campeonato de Kiev. Foi organizada uma liga, que era mantida por Georgi Shvetsov, antigo futebolista e técnico do Rukh. A decisão de entrar para a liga não foi fácil para os jogadores do Start. Havia entre eles os que acreditavam que participar do campeonato de Shvetsov era o equivalente a colaborar com os nazistas, que patrocinavam a liga como meio de reintroduzir a "normalidade" na cidade sitiada. Outros eram da opinião de que jogar poderia ajudar a aumentar a moral da população de Kiev.

A equipe por fim decidiu participar. Para enfatizar o fato de que estavam jogando pela cidade, os futebolistas usavam camisas de malha vermelhas, que Trusevich e Putsin haviam encontrado em um depósito abandonado. Com Trusevich a frente, e os demais jogadores do Dínamo, e vários do Lokomotiv, formou-se o F.C. Start. O único jogador do time que tinha chuteiras apropriadas era o ponta Makar Goncharenko.

Em 7 de junho começou o torneio. Como um milagre apareceu uma equipe com camisas vermelhas. Apesar do estado de debilidade física de seus integrantes, o F.C. Start venceu ao Rukh por 7 X 2. Logo depois, no novo estádio, o Zenit, derrotou a Guarnição Húngara por 6 X 2. E poucos dias depois, a Guarnição Romena, por 11 X 0. Depois aplicou 9 X 1 nos Operários da Estrada de Ferro.

O MSG, da Hungria perdeu duas vezes, 5 X 1 e 3 X 2. Um ar nervoso começou a soprar. Os alemães aumentaram o preço dos ingressos para cinco rublos, numa tentativa de afastar os ucranianos dos estádios. Mas de nada adiantou, o futebol se tornara uma das poucas, se não a única forma de diversão e de esquecimento da vida difícil que estavam levando. Continuaram a encher os estádios para torcer pelo F.C.Start.

Um dos pontos fundamentais da ideologia nazista era o controle dos meios de comunicação, através da propaganda oficial e da destruição da imprensa livre. E na Ucrânia não foi diferente. Após a tomada de Kiev, um único jornal continuou aberto na cidade, o "Nova Ukrainski Slovo".

No início da retomada do futebol, quando o esporte era apoiado pelos alemães, o diário dedicava um bom espaço à apresentação das partidas. No dia seguinte, porém, relegava as vitórias do Start aos pés de alguma coluna de menor visibilidade. (Pesquisa: Nilo Dias)

O time do F.C. Stuart.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Campeão mundial morre em rodovia gaúcha

A morte anda rodando o futebol gaúcho. No último sábado morreu vitimado por um câncer o ex-zagueiro Vicente, que jogou no Santos e no Grêmio, entre outros clubes. Hoje, chega a notícia do trágico falecimento de Marcos Antônio Lemes Tozze, o “Catê”, que ficou conhecido no mundo futebolístico ao se tornar campeão mundial pelo São Paulo F.C., em 1992.

O ex-atleta tinha 38 anos de idade e morreu na colisão entre um caminhão Scania e o Fiat Uno, com placas de Itajaí (SC), em que viajava. O acidente aconteceu por volta das 10h40min da manhã desta terça-feira na RS-122, em Ipê (RS), a 184 km de Porto Alegre.

De acordo com policiais rodoviários, “Catê” viajava sozinho e provavelmente perdeu o controle do veículo em uma curva, o que fez com que seu Uno fosse parar no sentido oposto e batesse de frente com o caminhão. O motorista do outro veículo não se feriu. O ex-atacante morreu no local. Chovia no momento do acidente.

Natural de Cruz Alta, (RS), ele iniciou a carreira como ponteiro-direito no Guarany local, em 1989. Em 1990 foi para Grêmio antes de ganhar destaque no São Paulo, onde foi dirigido por Telê Santana entre 1991 e 1994 e integrou o grupo campeão mundial em 1992.

Depois do São Paulo jogou no Cruzeiro-BH (1994), Universidad Católica-Chile (1996-1997), Sampdoria-Itália (1998-1999), Flamengo-RJ (2000), Esportivo-RS (2006) e Brusque-SC (2008). Depois que parou de jogar, treinou o Itinga, do Maranhão em 2008. Atualmente dirigia clubes da várzea gaúcha.

Sua melhor fase foi no São Paulo, onde disputou 136 jogos e marcou 23 gols entre 1991 e 1997. Também esteve emprestado para outros clubes nesse período. Com a camisa são-paulina, foi bicampeão da Libertadores (1992 e 1993) e ainda conquistou o título mundial em 1992, além de um Paulistão (1992), Recopa (1993) e uma Copa Conmebol (1994).

Também foi campeão mineiro pelo Cruzeiro (1994), campeão carioca pelo Flamengo (2000), do Sul-Americano Sub-20 com a Seleção Brasileira em 1993, campeão mundial sub-20, em 1993 pela Seleção Brasileira e campeão chileno (1997), pelo Universidad Católica.

Na sua cidade natal, Catê era uma celebridade e servia de exemplo para jovens talentos que se inspiravam no seu futebol para obterem o mesmo sucesso que ele teve dentro das quatro linhas. “Catè” costumava realizar partidas amistosas e torneios de incentivo para crianças e jovens. (Pesquisa: Nilo Dias)

"Catê", nos bons tempos do São Paulo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A morte do ex-zagueiro Vicente

Morreu na madrugada de sábado (24), aos 62 anos de idade, completados em 5 de setembro, o ex-zagueiro Vicente Gonçalves de Paulo, que jogou no Santos de Pelé, nos anos 70. Ele lutava contra um câncer já há algum tempo. O sepultamente aconteceu sábado, às 18 horas, no cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre. Deixou a esposa Deise e três filhos: Rodrigo, Tatiana e Laura.

Vicente nasceu em Bagé (RS), e começou sua carreira de futebolista jogando de centromédio nos juvenis do Guarany. Depois mudou de posição, tornando-se zagueiro e capitão da equipe que em 1970 tinha como técnico o ex-jogador Saulzinho, que brilhou no Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. O time conquistou o hexacampeão citadino.

Em 1971, por indicação do saudoso Raul Donazar Calvete, bicampeão mundial, em 1962/1963, pelo Santos, Vicente foi vendido ao clube da Vila Belmiro. Calvete sempre se manteve muito ligado ao clube praiano, sendo amigo pessoal de muitos ex-jogadores, entre os quais José Eli Miranda, o "Zito", um centromédio de técnica apurada. O fabuloso time do Santos daquela época formava com Gilmar - Lima – Mauro - Calvete e Dalmo - Zito e Mengávio – Dorval – Coutinho - Pelé e Pepe.

Aos 21 anos de idade Vicente foi para o Santos. Na chegada a Vila Belmiro, a saudação do “Rei” foi marcada por um tapinha no rosto e o desejo de “boa sorte, gaúcho”. Não demorou para se firmar no time titular. Em 1973 foi campeão paulista, no célebre título repartido com a Portuguesa de Desportos, por erro do árbitro Armando Marques, na contagem dos pênaltis que decidiram a partida, depois de empate no tempo normal.

Antes da cobrança das penalidades, contava Vicente, Pelé chamou os demais jogadores e disse que, para descontrair, iriam dançar em roda, o que realmente aconteceu. Esse foi o último título ganho por Pelé. Em 1974, Vicente também era titular da zaga santista no jogo que marcou a despedida de Pelé com a camisa do alvinegro paulista, na vitória de 2 x 0 contra a Ponte Preta.

Depois que saiu do Santos em 1974, Vicente foi campeão paranaense com o Coritiba, em 1976. Em 1977 foi para o Grêmio Portoalegrense, onde se sagrou campeão gaúcho em 1977, 1979 e 1980. No tricolor do Olímpico foi ainda campeão brasileiro em 1981. Vicente também participou de vários Gre-Nais de 78 a 81 e lembra com orgulho desta história. Segundo ele, jogar Gre-Nal significa participar da história mais bonita e do clássico mais disputado do futebol.

Depois de 1982, ao deixar o Grêmio, defendeu o Caxias, São José, Operário, de Campo Grande (MS) e encerrou a carreira no Próspera, de Criciúma (SC). Lá mesmo, começou como técnico, em uma carreira meteórica. Trabalhou ainda no Avaí, de Florianópolis (SC), Marcílio Dias, de Itajai (SC) e Bagé. No clube jalde-negro bageense trabalhou por três oportunidades, 1983, 1987 e 1993. Foram 58 partidas, com 22 vitórias, 17 empates e 19 derrotas.

Treinou ainda os juniores do Grêmio Portoalegrense, revelando jogadores como Arílson, para Felipão aproveitar. Se afastou da profissão pela decepção que teve com dirigentes e alguns atletas. Depois, radicou-se em Porto Alegre, onde dirigia o Departamento de Futebol de 7 do Grêmio Portoalegrense, e desde 1997 presidia a Federação Gaúcha de Beach Soccer.

Em 2005, o Instituto das Crianças e Adolescentes São Francisco de Assis, antigo Instituto de Menores de Bagé, homenageou vários ex-jogadores nascidos na cidade e que jogaram em outros centros futebolísticos do país. Vicente foi um dos homenageados e na ocasião foi representado por sua irmã Maria Antonieta.

No livro “Enciclopédia do futebol gaúcho”, de autoria de Marco Antônio Damian e César Freitas, Vicente é descrito como “zagueiro estilo xerife, líder, limpa área, forte, firme, vigoroso, boa técnica e virtudes na bola aérea”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Vicente com a camisa do Santos F.C

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"Galego" eterno!!!

Não sei se Paulo de Souza Lobo, o “Galego”, foi o melhor treinador de futebol que o interior do Estado do Rio Grande do Sul conheceu. Mas que está entre os mais importantes, não tem a menor dúvida. Eu trabalhava na imprensa de Pelotas quando conheci “Galego” e fui seu amigo por muitos anos. Lembro que suas entrevistas quase não tinham fim por conta das respostas intermináveis. Certa vez pedi que fosse mais objetivo e ele não deixou por menos: só dizia sim, ou não.

Ele era uma figura pitoresca, capaz de protagonizar os episódios mais estranhos. Até uma barraca no meio do gramado do Estádio da Boca do Lobo, do E.C. Pelotas, chegou a montar. Se bem me recordo, foi uma promessa feita para ganhar o campeonato da cidade. Uma ocasião mordeu o dedo em riste de um juiz, desavisadamente em sua cara. Mas, loucuras à parte, sabia como lidar com sua equipe.

Costumava fazer os jogadores apertarem as mãos antes de cada jogo, como demonstração de união, e ensinava o respeito aos adversários, proibindo seus comandados de praticarem jogo violento. Também ensinava pelo exemplo. Insistia para que seus atletas não fumassem e nem bebessem, hábitos que ele nunca teve.

Ele também era um técnico criativo, pois quando estava doente e treinava o Rio-Grandense, as instruções aos jogadores eram mandadas em gravações vindas de Pelotas, onde residia. Galego era assim, uma figura interessante, quase um psicólogo, polêmico, mas de uma enorme competência.

Era casado com dona Geni Rodrigues Lobo, com quem teve três filhos. Eu conheci toda a sua família e muitas vezes o visitei em sua casa no Bairro Simões Lopes. Tudo o que juntou na carreira de jogador e técnico, Paulo de Souza Lobo aplicou na compra de uma frota de táxis, que operavam no ponto frente o Bar Cruz de Malta, no centro da cidade.

“Galego” nasceu em Piratini (RS), no dia 23 de fevereiro de 1926 e faleceu em Pelotas, no dia 9 de outubro de 1996,estando sepultado no Cemitério São Francisco de Paula, daquela cidade. Quando tinha apenas seis anos de idade ficou órfão e foi levado pelo irmão João Alfredo, para morar na "Princesa do Sul". A carreira de futebolista teve início em 1944, nas categorias de base do G.E. Brasil, de Pelotas.

Em 1945 já fazia parte do elenco de profissionais, promovido pelo técnico José Duarte Júnior, “Teté”. Seu primeiro jogo no time de cima foi um amistoso disputado em Pelotas, no dia 10 de junho de 1945, contra o Guarany, de Bagé, em que o Brasil venceu por 3 X 1.

Era um centro-médio de técnica apurada, ora defendendo, ora armando e um líder nato dentro de campo. Como jogador teve a oportunidade de enfrentar consagrados “monstros” do futebol brasileiro, como Jair da Rosa Pinto e Zizinho, que atuaram em jogos amistosos em Pelotas, frente o G.E. Brasil.

Em 1952 foi emprestado ao Cruzeiro de Porto Alegre. Não teve sorte, ficou apenas cinco meses no “estrelado” da capital, pois acabou sofrendo uma séria lesão em um dos joelhos, e em conseqüência teve de abandonar precocemente a carreira de jogador, aos 26 anos de idade. O técnico do Cruzeiro era Gentil Cardoso, que teve influência decisiva na sua carreira como treinador. Como atleta “Galego” participou de 185 jogos e marcou 76 gols.

Seu último jogo como atleta profissional foi no dia 29 de março de 1953, um amistoso em que o Brasil foi goleado pelo Olaria, do Rio de Janeiro, por 7 X 4. Depois foi aproveitado como técnico das categorias de base. E deu certo, tanto que ao final do ano já era treinador dos profissionais. E se sagrou tri-campeão da cidade, 1953, 1954 e 1955.

Seu primeiro jogo como treinador foi no dia 19 de abril de 1953, quando o Brasil perdeu de 2 X 1 para o Pelotas, pelo Torneio Quadrangular. Em 1956 foi contratado pelo rival E.C. Pelotas e continuou a empilhar títulos. No áureo-cerúleo foi também tri-campeão municipal, em 1956, 1957 e 1958. Ao final de 1955 jogou futebol de salão no time do E.C. Pelotas, que recém havia sido organizado para disputar o campeonato da cidade.

Paulo de Souza Lobo ficou no E.C. Pelotas até 1962. Em 1963 estava de volta ao G.E. Brasil, onde permaneceu até 1966, ano em que foi técnico do G.A. Farroupilha, de Pelotas. Em 1967 comandou o F.B.C. Rio-Grandense, de Rio Grande e em 1968 o S.C. São Paulo, também da “cidade marítima”. Ao final de 1968 voltou ao G.E. Brasil, onde ficou até 1970.

Em 1971 “Galego” foi contratado pelo G.E. Bagé, onde permaneceu até 1977, voltando em 1979 e deixando definitivamente o clube em 1980. Ele escreveu seu nome história do tradicional clube bageense, sendo o técnico que mais tempo permaneceu à frente do jalde-negro: foram 405 jogos, número jamais alcançado por outro treinador.

Sua passagem por Bagé foi tão marcante, que em 1977 foi condecorado com o título de “Cidadão Bageense”, através de um decreto aprovado pela Câmara Municipal de Vereadores, por indicação do Vereador Iolando Maurente, que disse na ocasião: “... um desprendido homem que sendo pago para ministrar futebol e fabricar vitórias para alegrar o povo, também forma ideais, cuida do homem pelo homem, ensina a vida pela vida, revela talentos, exerce liderança e assume, contesta, explica, entende. Paulo de Souza Lobo fez. Fez alegria dentro e fora do estádio.”

Também foi agraciado com a "Figueira de Bronze", que destaca pessoas dos mais diferentes ramos de atividades na zona sul do Estado, outorgado em 1983. E recebeu o título de “Cidadão Pelotense”, pela Câmara Municipal de Pelotas, em 5 de outubro de 1988.

Foi considerado inúmeras vezes "melhor treinador do ano" em Bagé e Pelotas. Foi sócio laureado pela Federação Gaúcha de Futebol. No dia 9 de fevereiro de 1994, “Galego” foi homenageado pela diretoria do E.C. Pelotas, durante um almoço que contou com a presença na época do técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira, e de seu auxiliar Zagalo. Uma rua do Pontal da Barra, em Pelotas, tem o nome de Paulo de Souza Lobo.

Durante mais de 40 anos de carreira, “Galego” trabalhou em apenas três cidades e sete clubes. Pelotas, onde treinou G.E. Brasil, E.C. Pelotas e G.A. Farroupilha, Rio Grande, onde comandou o F.B.C. Rio-Grandense e Sport Club São Paulo, e Bagé, onde foi treinador do G.E. Bagé e do Guarany F.C. Em três oportunidades treinou seleções gaúchas, contando com jogadores que jogavam nos clubes do interior. Seu último jogo como treinador foi no dia 29 de novembro de 1992, pelo Campeonato Estadual da 1ª Divisão, um clássico Bra-Pel, vencido pelo Pelotas, por 1 X 0.

Sempre dizia que os melhores treinadores que conheceu foram Gentil Cardoso e José Duarte Junior, o saudoso “Teté”. Antes de se tornar profissional, o seu ídolo era Teotônio Soares, ex-atacante do Brasil e que depois foi árbitro do futebol pelotense. Vários foram os jogadores revelados por “Galego”, entre eles Joaquinzinho, Suly, Ademir Alcântara e João Borges.

O consagrado treinador nunca quis treinar Grêmio e Internacional, embora tenha recebido vários convites nesse sentido. Ele achava que num clube grande sua maneira de trabalhar não seria bem aceita. Não gostava que se intrometessem naquilo que fazia. Ele saiu do próprio Brasil, em 1992, por divergir de alguns dirigentes. Nunca assinou um contrato formal como treinador. Ele acreditava que a palavra de um homem valia mais que qualquer papel.

Foi sempre bem mais que um treinador. Gostava de cuidar de tudo, nos mínimos detalhes. Não raras vezes foi cozinheiro, massagista, roupeiro, conselheiro, pai, amigo e segurança. Fazia rifas para ajudar o clube, cuidava da concentração, amparava famílias de jogadores, enfim, era um verdadeiro pai de todos.

Se algum jogador, em véspera de jogo pensasse em dar uma “fugidinha” da concentração, para ver como as coisas estavam do lado de fora, acabava desistindo, pois “Galego” sempre estava por perto. Nas concentrações, fazia questão de ele mesmo entregar o lanche aos atletas. Cuidava de todos como se fossem seus filhos.

Ao final dos treinos sempre reservava uma boa surpresa, fossem rodadas de melancias, que ele mesmo fazia questão de cortar e entregar os pedaços aos atletas, ou passeios em um dos carros novos que comprava para o ponto de taxi. Os seus atletas eram os primeiros a darem uma voltinha para experimentar.

“Galego” dirigiu a dupla Bra-Pel por cerca de 30 anos, estando sempre acima da rivalidade existente entre os dois tradicionais clubes da cidade. Treinou o “xavante” em 455 jogos, nos períodos de 1953 à 1955, 1962 à 1966, 1981 à 1982, 1989 e 1991 à 1992. Somando os 185 jogos como atleta, participou de 637 partidas pelo rubro-negro.

Títulos e troféus conquistados como jogador: Campeão Pelotense (1946, 1948, 1949, 1950, 1952); Campeão Regional (1949 e 1950); Campeão da Taça Eficiência (1945, 1946, 1947, 1948, 1949, 1950, 1951 e 1952); Campeão da Taça Galenogal Ltda – Torneio Início (1947); Taça Ouriversaria Cruz – Citadino (1950); Campeão da Taça Prefeitura Municipal de Pelotas – Festa de Encerramento da Liga Pelotense de Futebol - Temporada 1947; Campeão do Torneio Dia do Futebol (1949); Campeão do Torneio Início (1947); Campeão do Torneio Pelotas-Rio Grande (1952).

Títulos e troféus como treinador. Campeão da Cidade (1953, 1954, 1955, 1962, 1963, 1964 e 1982; Campeão da Copa Clébel Furtado (1992); Vice-Campeão Estadual (1953, 1954 e 1955); Campeão do Estadual da Divisão de Acesso (1991); Campeão do Interior (1953, 1954, 1955 e 1963); Campeão Regional (1953, 1954, 1955 e 1961); Campeão da Taça Casa Oliveira (1955); Campeão da Taça Cidade de Porto Alegre (1991); Campeão da Taça Eficiência (1953, 1954 e 1955); Campeão do Torneio Avant-Premiére (1963); Campeão do Torneio Início (1954, 1955, 1964 e 1965); Campeão do Torneio Início da Federação Gaúcha de Futebol (1965); Campeão do Torneio Quadrangular Barutot Veloso (1963); Campeão do Torneio Triangular Bagé-Pelotas (1954); Campeão do Troféu Doutor Waldemar Fetter (1965).

Quando Paulo de Souza Lobo, o “Galego”” morreu, a Federação Gaúcha de Futebol decretou três dias de luto oficial, e ordenou que em cada jogo de futebol realizado no Estado, fosse dedicado um minuto de silêncio em respeito à sua memória. (Pesquisa: Nilo Dias)