Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O centenário do "Barriga Preta" (I)

O Atlético Rio Negro Clube, de Manaus (AM), foi obra da insistência do jovem desportista Shinda Uchôa, de apenas 16 anos de idade, que reuniu um grupo de amigos, todos estudantes universitários, filhos de barões, de famílias tradicionais da cidade, para criarem um clube de futebol na cidade.

E a teimosia deu certo, visto que em uma reunião realizada na casa de Manoel Afonso do Nascimento, na rua Henrique Martins, às 16 horas do dia 13 de novembro de 1913, foi fundado o “Athletic Rio Negro Club”.

Estiveram presentes na reunião e são considerados fundadores do clube os jovens Edgard Garcia Lobão, Raymundo Vieira, França Marinho, Leopoldo Neves, Basílio Falcão, Paulo Nascimento, João Falcão, Ascendino Bastos, Afonso Nogueira e o não menos importante Manoel Afonso do Nascimento, o “Carranza”, que ofereceu a própria casa para ser a primeira sede do clube, localizada à época na Rua Henrique Martins.

O nome foi uma homenagem ao rio, que é um dos mais importantes da bacia amazônica e do país. A escolha de Rio Negro aconteceu por 10 votos a um. Sabe-se que no momento da fundação, os jovens desportistas estavam em um aposento que tinha vista para o “Rio Negro”. Por isso, apenas um dos presentes teve dúvida para a escolha do nome.

A grafia em inglês seguiu o costume dos vários clubes da época. A casa onde o clube foi fundado existe até hoje, e abriga o “Banco da Mulher”, mantendo, ainda, a mesma arquitetura do início do século.

Logo após a leitura da ata e sua consequente aprovação, os jovens fizeram um brinde com "Vinho do Porto", usando autenticas taças francesas de cristal Bacará. Depois foi escolhida a primeira diretoria do novo clube, tendo como presidente Edgar Lobão. 

Shinda foi eleito Presidente de Honra e Secretário. A idade de 16 anos não lhe permitia ser presidente,pois na época a maioridade era a partir dos 21 anos. Curiosamente, ele nunca presidiu o clube. 

E o ato virou tradição. Todos os anos, por ocasião do aniversário do clube, é repetido o brinde da fundação, que ganhou o nome de “Porto de Honra”, sempre realizado no “Salão dos Espelhos”, na sede social da agremiação.

Das doze taças de cristal utilizadas em 1913, seis foram recuperadas pelo diretor cultural do clube, Abrahim Baze e são guardadas no museu histórico do Rio Negro fundado por ele. Três delas são usadas no brinde anual pelo presidente e por mais duas autoridades escolhidas por ele, durante o evento.

O clube é chamado por seus torcedores de “Barriga Preta”, em razão de seu uniforme principal, camisa branca com uma faixa horizontal preta no peito, calção preto e meias brancas.

O que pouca gente sabe é que o primeiro uniforme do clube, escolhido ainda na reunião de fundação, tinha calção e camisa branca com o colarinho preto. Porém, o uniforme precisou ser modificado, visto que se parecia demais com o do “co-irmão” Nacional.

A alteração aconteceu no dia 15 de janeiro de 1914. Foi o associado Schinda Uchôa, que sugeriu o uso de uma camisa branca com listras pretas verticais e calção preto. Na verdade, Schinda “copiou” o uniforme do Botafogo, do Rio de Janeiro.

Mas esse uniforme não foi o definitivo. Em 1917, o então presidente Lauro Cavalcante, que era muito supersticioso, propôs nova mudança, pois achava que a camisa igual a do time carioca, não trouxera sorte ao Rio Negro, que já existia há quatro anos e nada de ganhar títulos.

Em Assembleia Geral os associados concordaram em mudar o visual da camisa, que passou a ser branca com uma faixa preta na altura da barriga, carregando ao centro o escudo do clube. Nascia assim  a lenda do “Barriga-Preta”. Os calções continuaram os mesmos.

O escudo é constituído de um circulo preto com seis furos vazados, quatro embaixo e dois em cima e as letras ARNC, dispostas em sequência com o “C” sobreposto sobre elas. Em algumas ocasiões form usadas quatro estrelas, simbolizando o tetra-campeonato amazonense, de 1987 até 1990.

O Rio Negro possui três hinos, algo atípico no país. Um é oficial, o mais conhecido e foi composto pelo tenente-maestro da Polícia Militar do Amazonas, Albino Ferreira Dantas, que era pernambucano de nascimento. Os outros dois são a marchinha, gravada em 1970, e o "Galo Carijó", do Aníbal Beça, de 1979. O oficial só é executado nos dias 12 de novembro, que antecedem ao famoso "Porto de Honra", véspera do aniversário do clube. 

O primeiro jogo do clube aconteceu no dia 24 de novembro de 1913, no campo da "Escola de Aprendizes e Marinheiros", contra o time da mesma escola. O Rio Negro venceu por 4 X 0.

Depois jogou torneios amistosos comemorativos, quando colecionou vários troféus. O primeiro título só veio em 1921. Até então o domínio era total do grande rival Nacional, com quem já havia se envolvido em alguns conflitos.

Em 1914 o Rio Negro participou de sua primeira competição oficial, o Campeonato Estadual. Não fez boa figura, pois seu time era muito jovem. Nesse certame o Rio Negro sofreu as duas maiores goleadas de sua história, no clássico Rio-Nal.

Em 1926 ganhou seu segundo título, um torneio promovido pela “Fada”, que até hoje não é reconhecido como oficial, do qual participaram Rio Negro, Nacional, União Sportiva, Luso Brasileiro e Libertador. Já nos primeiros anos de vida o Rio Negro se tornou uma das duas maiores forças futebolísticas do Estado, tendo levantado oito campeonatos e sendo o dono da maior torcida em Manaus.Também possui a primeira torcida gay do Amazonas, a "Galo Gay".

Hoje em dia a torcida é muito pequena, pois o clube vive um momento de decadência. Seus torcedores não são mais do que 300 por jogo, média igual ou pior que a de muitos times pequenos. Nos bons tempos essa média era de 4 mil pessoas em jogos de pequeno destaque e mais de 20 mil pessoas em jogos de grande porte.

Na década de 1930 o time montou um ataque que ficou conhecido como “Demolidor”. Contava com jogadores respeitados no futebol amazonense da época como Ciro, Goiot, Vidinho, Raimundo Bandeira e Ofir Corrêa, alternando com Adair Marques, “O Príncipe”.

Com essa linha de atacantes o Rio Negro foi campeão estadual de 1932, quando bateu o Fast Clube no jogo decisivo. Em 1939 o time contava com outro grande ataque, formado por Babá, Cláudio, Lé, Bezerra e Benjamim, que eram chamados de “Granadeiros”. Nessa época o Rio Negro contava com um dos maiores ídolos da sua história, o goleiro Iano, que foi tricampeão pelo clube.

Tinha o apoio das classes mais altas da sociedade, sendo conhecido como o “Clube Líder da Cidade”, pois também se consolidara como uma grande entidade social. A maior goleada aplicada nos 100 anos de existência do clube, foi 10 X 3 sobre o Independência, no dia 12 de Julho de 1942.

Nos seus primeiros anos de vida, o Atlético Rio Negro Clube teve várias sedes provisórias. Mas, por uma ironia do destino, o clube acabou tendo como sua “última morada” justamente um cemitério.

A sede da entidade, na atual “Praça da Saudade”, daí o nome, foi construída em cima do antigo “Cemitério São José”, que foi retirado do local por um motivo puramente estético, pois as autoridades achavam que sua localização na região central enfeiava a cidade. E foi inaugurado um novo cemitério em outro local, o “São João Batista”, e os restos mortais transferidos para lá.

A Prefeitura, tendo em vista que o local tinha pouco valor imobiliário, construiu lá uma praça e doou o restante da área para que o Rio Negro construísse sua sede. A doação foi sacramentada pelo então prefeito Antonio Maia, no dia 22 de maio de 1938, segundo relatos do livro “Sete Décadas de Barriga-Preta”.

A sede foi erguida com recursos dos próprios torcedores. Os mais abastados cooperaram com mais dinheiro. Os mais humildes colaboraram com o que podiam ou com mão de obra. A planta foi assinada pelo engenheiro-arquiteto, Aluisio de Araújo, que na condição de torcedor nada cobrou pelo trabalho.

Seu pagamento se constituiu num ato simbólico, o de dar o pontapé inicial nas obras do clube. Em seguida teve de sair de Manaus, para trabalhar na construção do “Cristo Redentor”, no Rio de Janeiro. A execução da obra ficou a cargo dos conceituados construtores J. Lopes & Cia., sob a fiscalização dos velhos “rionegrinos”, engenheiros Argemiro Pessoa e Ariolino Azevedo.

A sede, cuja construção começou em 1938, foi inaugurada no ano de 1942, em meio a “Segunda Guerra Mundial”, na gestão do presidente Flávio de Castro, que esteve mais tempo à frente do clube, até 1958.

Em 1945, o título estadual que era seu por direito, foi dado ao rival Nacional, o que desagradou os dirigentes que resolveram fechar o Departamento de Futebol. 

Depois disso, os torcedores do Rio negro passaram a chamar o Nacional de “Tribunaça”, em razão das conquistas, segundo eles, injustas.

O clube passou 14 longos anos fora dos gramados, mantendo somente às atividades sociais e um time caseiro que se limitava a realizar jogos amistosos contra clubes menores. Os torcedores de todos os clubes sentiam a falta do Rio Negro, o que diminuia a competitividade no campeonato estadual e pediam a sua volta.

Mas a ausência do Rio Negro não se limitava somente ao descontentamento pela perda do campeonato de 1945. Ela também era resultado da antipatia que alguns dirigentes tinham pela prática do futebol no clube. Esse afastamento acabou sendo prejudicial, pois permitiu ao Nacional alcançar um crescimento muito grande nesses anos em que o rival esteve ausente.

Com o retorno ao futebol em 1960, o Rio Negro não tinha mais a popularidade de antigamente. A volta só foi posível por insistência do torcedor Josué Cláudio de Souza. E ainda assim com um Departamento de Futebol autônomo, exigência do presidente Aristophano Antony.

Depois de 14 anos ausente, o primeiro jogo do novo Rio Negro, agora um time formado por jogadores na maioria vindos do interior do Estado, foi contra o São Raimundo. O resultado, um desastre, goleada de 7 X 1, o que não desmotivou os dirigentes e nem os torcedores. Tanto, que dois anos depois, em 1962, o clube voltou a ser campeão amazonense, feito repetido em 1965. (Pesquisa: Nilo Dias)


Shinda Uchôa, fundador do Rio negro. (Foto:blog "Baú Velho)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O goleiro que tinha “grude” nas mãos

Luiz de Souza Gonçalves, o “Luizinho Mão de Grude”, foi um dos melhores goleiros que o futebol amazonense conheceu em todos os tempos. Era natural de Parintins, onde nasceu em 1920. Chegou ao Atlético Rio Negro Clube, de Manaus nos anos 40, pelas mãos do doutor Rocha Barros, quando o futebol no Amazonas ainda era amador.

O goleiro Iano Monteiro já estava em final de carreira e Luizinho foi contratado para substituí-lo. Mas não foi fácil entrar no time de cima, pois Iano, mesmo veterano, ainda era o dono absoluto da camisa 1 do Rio Negro e grande ídolo do time. E não era para menos, estava no clube desde 1937, tendo sido campeão em 1938, 1940 e 1943.

Antes, Iano jogou no Nacional, onde foi revelado e conquistou os títulos do “Amazonense” de 1936 e 1937. Foi titular da Seleção do Amazonas nos jogos contra o Pará, pelo Campeonato Brasileiro de Seleções em 1939, 1941 e 1942. Mesmo assim, nas raras vezes em que foi chamado, Luizinho sempre se saiu bem.

Tinha todos os atributos para ser um grande goleiro, como realmente foi: ótima colocação e segurança, pois era incapaz de soltar uma bola, mesmo ela estando molhada. E isso num tempo em que a bola era de couro grosseiro e de bico, e nem se pensava em usar luvas. Essa foi a razão da torcida ter lhe dado o apelido de “Mão de Grude”.

Luizinho jogou numa época em que o Rio Negro tinha uma grande equipe, onde despontavam jogadores como Amâncio, Marcílio, Parintins, Lé, Benjamim, Cláudio Coelho, Meireles, Valdir Oliveira, Zenith, Raimundo Rebelo Dog, França, Silvio, Valdemir Osório e outros. Graças às suas extraordinárias defesas, Luizinho foi chamado para fazer parte da “Seleção do Amazonas” em 1943.

Conquistou os títulos estaduais de 1940 e 1943. Seria igualmente campeão em 1945, não fosse uma manobra de bastidores da Federação Amazonense de Desportos Atléticos (Fada), que declarou o Nacional campeão. Revoltados, os dirigentes do Rio Negro retiraram o time de campo por longos 15 anos.

Aos seus jogadores não restou outro caminho a não ser o de procurar novos clubes. Luizinho foi para o Nacional e em seguida para o Olímpico, onde foi campeão invicto de 1947. O time tinha bons jogadores como Tuta, Aurélio, Silvio, Gato, Omar, Gatinho, Dog, Zé Luís, Cabral, Juvenil, Silvio e Raimundo Rebelo.

Paralelamente ao futebol, Luizinho era funcionário da Polícia Civil. Depois foi cedido a Assembléia Legislativa do Estado, por iniciativa de seu amigo e conterrâneo, Gláucio Gonçalves. Na nova função ganhou mais tempo para escrever seus versos, a maioria deles falando dos clubes Rio Negro e São Raimundo, este, o seu segundo time.

E como ninguém é de ferro, Luizinho gostava de ingerir umas cervejinhas geladas, muitas vezes abusando da sede, embora enfrentasse sérios problemas de saúde. Um dia antes de morrer, esteve confraternizando com velhos amigos de São Raimundo, onde residia desde que casou com Dona Creusa, moradora do bairro.

Terminada a festa, chegou em casa onde se sentiu mal e teve de ser levado às pressas para uma clínica, onde faleceu na madrugada do dia 16 de março de 1993, aos 73 nos de idade, deixando a esposa Creusa, os filhos Dayse, Darly e Craveiro e os netos Ana Fátima e Luiz Neto.

Luizinho nunca esqueceu os seus dois times de coração. Tanto que era “Sócio Benemérito” do Rio Negro e membro da Diretoria do São Raimundo.

Depois de “Luizinho Mão de Grude”, outro grande goleiro do Rio Negro e do futebol amazonense foi Clóvis “Aranha Negra”, que defendeu o clube durante 10 anos, entre 1963 e 1973, tendo sido campeão estadual em 1965.

Clóvis Amaral Machado, o “Aranha Negra”, também era natural de Parintins, onde nasceu no dia 20 de outubro de 1943. Começou a carreira no Auto Esporte Clube. No início nem tinha pretensões de se tornar goleiro, mas o destino ajudou. Certa tarde o goleiro titular não foi treinar e o colocaram na posição. Fechou o gol, tomou conta da posição e se tornou um dos melhores goleiros do futebol amazonense.

O apelido de “Aranha Negra” ele ganhou porque jogava sempre de uniforme todo preto e uma toalha vermelha ao pescoço. Foi campeão pelo Rio Negro em 1962 e 1965. Encerrou a carreira em 1982, quando de um jogo amistoso entre Rio Negro X Bangu, do Rio de Janeiro, disputado no Estádio “Ismael Benigno”, em Manaus. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Um fenômeno chamado “Manga”

Haílton Corrêa de Arruda, o “Manga”, foi um goleiro fantástico, um dos melhores surgidos no futebol brasileiro em todos os tempos. Nasceu no dia 26 de abril de 1937, em Recife, capital pernambucana. Começou a vitoriosa carreira no Sport, de Recife, em 1955.

Em 1955 Aílton recebeu a alcunha de “Manga”. Ganhou o apelido por causa do goleiro do Santos, que era o “papão” da época e se chamava “Manga”. Não foi por gostar da fruta, que dizia não apreciar.

Tempos depois, a versão mudou, com a inclusão de um primo na história. Ele teria dito que, por causa da varíola, sua cara ficou com crateras do tamanho de “mangas”. E o apelido pegou.

Quando ainda era juvenil do clube pernambucano, já mostrava que era um excepcional goleiro, ao ser campeão da categoria em 1954, sem sofrer um único gol. No ano seguinte, aos 18 anos estreou no time de cima num amistoso contra o Náutico, na “Ilha do Retiro”, quando substituiu o titular “Carijó”, que se lesionou durante a partida.

O seu time venceu por 5 X 2 e ele teve boa atuação. Somente em 1956 defendeu o Sport pela segunda vez, e de novo substituindo “Carijó”, numa partida amistosa contra o Fluminense, de Feira de Santana (BA), na “Ilha do Retiro”.

A sua ascensão ao time de cima começou durante uma excursão do Sport à Europa e Oriente Médio, em 1957. O goleiro titular Oswaldo "Baliza" se lesionou logo no primeiro jogo, contra o Sporting, de Lisboa e o técnico Dante Bianchi escalou “Manga”, então com 20 anos, em seu lugar.

Em 1955, 1956 e 1958 conquistou seus três títulos de campeão pernambucano como jogador profissional do Sport. O time campeão era dirigido pelo técnico argentino Dante Bianchi e tinha no grupo, entre outros, o uruguaio Walter Morel e os artilheiros “Traçaia”, “Naninho”, que depois jogou no G.E. Brasil, de Pelotas, “Gringo”, “Soca” e “Geo”.

Dali em diante ele se tornou titular absoluto, ficando no clube pernambucano até 1959, quando tinha 22 anos e se transferiu para o Botafogo, do Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido nacionalmente. Seu último jogo com a camisa do Sport foi contra o Ferroviário, pelo certame estadual. Nesse jogo até marcou um gol.

Sua estréia pelo Botafogo aconteceu em julho de 1959. Por seu estilo arrojado, teve as mãos deformadas devido a tanto trabalho No total foram 445 jogos defendendo a camisa alvinegra, sofrendo 394 gols.

No alvi-negro carioca jogou por 10 anos, sendo considerado até hoje o melhor goleiro que o clube já teve em toda a sua história. Tinha um físico privilegiado, mãos grandes, elasticidade e boa colocação, além de ser veloz ao repor a bola e ágil debaixo das traves.

A torcida o tinha como um “santo milagroso”, pois não raras vezes fazia defesas quase impossíveis. Era conhecido por agarrar muitos penaltis que decidiram títulos importantes. Também ficava irritado com os adversários, quando a bola não era chutada em seu gol.

No clube da “Estrela Solitária” conquistou quatro campeonatos estaduais e três torneios Rio-São Paulo. Uma de suas caracteristicas marcantes no time carioca foi de sempre fechar o gol contra o Flamengo. Além, é claro, de declarações debochadas que deixavam os torcedores rubro-negros indignados.

Costumava dizer que o “o leite das crianças estava garantido e que já gastara antecipadamente o bicho pela vitória", antes de qualquer jogo contra o time da Gávea.

Em 1966 foi convocado para a Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo, da Inglaterra. Ele entrou no lugar do titular Gilmar dos Santos Neves na partida contra Portugal e não foi feliz. Foi sua única participação num “Mundial”.

A derrota por 3 X 1 para o time de Oto Glória serviu não apenas para selar a eliminação do Brasil no “Mundial”, como para encerrar o ciclo de “Manga” na Seleção, da qual foi banido após ser pego acompanhado de uma mulher na concentração.

Sua saída do Botafogo foi traumática. O goleiro deixou o clube acusado pelo então técnico João Saldanha, de ter-se vendido a Castor de Andrade, patrono do Bangu, no jogo final do Campeonato Carioca de 1967.

Nesse jogo contra o Bangu, “Manga” foi um dos responsáveis pelo placar de 2 X 1, para o Botafogo, que evitou o bicampeonato dos alvirrubros. Ainda assim, não foi perdoado pelo grande botafoguense João Saldanha, que o acusou de ter facilitado no lance do segundo gol do Bangu, anulado pelo árbitro Antônio Viug.

No primeiro encontro entre os dois após a partida, Saldanha mostrou o porquê do apelido de “João sem medo”: deu um tiro para o chão, do qual “Manga” escapou em desabalada carreira, saltando um muro. Por isso foi vendido ao Nacional, de Montevidéu. No clube uruguaio jogou de 1969 a 1974 com enorme brilho.

A imprensa de lá o considerou o melhor goleiro que já apareceu no futebol uruguaio em todos os tempos. No Nacional conquistou o mais importante título de sua carreira, o “Mundial Interclubes" de 1971, além de uma “Taça Libertadores da América” e vários campeonatos nacionais.

De volta ao Brasil, em 1974, com 37 anos, seguiu colecionando títulos pelo Internacional gaúcho, onde atuou até 1976, se tornando um dos maiores ídolos da história do clube. No “Colorado” foi Campeão Brasileiro de 1975 e 1976. A torcida não esquece aquela sólida defesa que era formada por Manga – Cláudio - Figueroa - Hermínio e Vacaria.

As mãos imensas com os dedos tortos faziam defesas elásticas e arrojadas. Os dedos entortados foram resultado de fraturas mal recuperadas, herança de seus tempos de Botafogo. “Manga” chegou a recusar uma cirúrgia corretora, que seria paga pelo próprio lendário presidente do Botafogo, na época, Carlito Rocha.

“Manga” era também excelente na reposição de bola. Em certas cobranças de falta preferia abrir mão da barreira, de modo a ficar cara a cara com o batedor. Não tinha chute de efeito que o enganasse no auge da sua carreira. Era um goleiro praticamente perfeito.

Na decisão do “Brasileirão” de 1975, contra o Cruzeiro, de Minas Gerais, “Manga” permaneceu em campo, mesmo com um dedo quebrado e foi um dos grandes nomes do jogo. Como já havia acontecido em todos os confrontos anteriores, aquele foi um outro dia de “Manga”.

Em sua passagem pelo Internacional, “Manga” foi mais do que um grande goleiro. Era um jogador inveterado, ganhava muito dinheiro em campo e jogava tudo fora nas mesas de carteio. Os cobradores iam direto a loja do presidente Eraldo Hermann, a “Hermann Materiais de Construção” e ele pagava às contas. “Manga” adorava uma boa cerveja gelada. Mesmo assim conseguia manter uma forma atlética fantástica.

Depois teve uma rápida passagem pelo Operário, do Mato Grosso do Sul, time que ajudou a ir até às semifinais do “Campeonato Brasileiro” de 1977, sendo eliminado pelo São Paulo, que se sagrou campeão naquele ano.

Jogou ainda no Coritiba (1978) e no Grêmio (1978-1979), que tinha uma defesa com Manga – Eurico – Ancheta - Vantuir e Dirceu. O tricolor gaúcho foi acusado pelo rival de ter quebrado um acordo tácito, de que um clube não contrataria jogador que tivesse atuado no outro.

Depois se mudou de vez para o Equador, onde defendeu o Barcelona, de Guaiaquil em 1981 e 1982. Após encerrar a carreira trabalhou como treinador de goleiros em Quito, no Equador e nos Estados Unidos. Depois foi morar na cidade de Salinas, no interior quatoriano.

Em 1º de maio de 2010 o Internacional repatriou “Manga” e o contratou para ser coordenador e preparador de goleiros das categorias de base e relações públicas, com a finalidade de buscar novos sócios. 

O ex-goleiro estava desempregado, passando por dificuldades financeiras, quando o Internacional jogou uma partida pela “Taça Libertadores” no Equador. “Manga” foi ao hotel onde o time estava concentrado e contou sua história e os problemas que enfrentava. O ex-goleiro ficou em Porto Alegre até março do ano passado, quando decidiu voltar a morar com sua esposa em “Litle Havana”, Miami, onde ensina futebol a colônia hispânica local.

Títulos conquistados: Pelo Sport: Campeão Pernambucano (1955, 1956 e 1958); Pelo Botafogo: Intercontinental de Clubes da França (1963); Copa do Mundo de Clubes (1967/1968); Roberto Gomes Pedrosa (1962, 1964 e 1966); Taça Brasil (1968); Torneio Rio-São Paulo (1962, 1964 e 1966); Campeonato Carioca (1961, 1962, 1967 e 1968); Torneio Início: 1961, 1962, 1963 e 1967);  Taça Guanabara (1967/1968); Torneio Internacional da Colômbia (1960); Torneio Pentagonal do México (1962); Torneio Internacional de Paris (1963); Torneio Jubileu de Ouro da Associação de Futebol de La Paz (1964); Torneio Quadrangular do Suriname (1964); Torneio Governador Magalhães Pinto (1964); Torneio Íbero-Americano (Quadrangular de Buenos Aires) (1964); Copa Carranza, de Buenos Aires (1966); Torneio Quadrangular de Teresina (1966); Taça Círculo de Periódicos Esportivos (1966); Torneio de Caracas (1967/1968).

Pelo Nacional, de Montevidéu: Campeonato Uruguaio (1969, 1970, 1971 e 1972); Taça Libertadores da América (1971); Copa Intercontinental (1971); Pelo S.C. Internacional, de Porto Alegre: Campeonato Gaúcho (1974, 1975 e 1976); Campeonato Brasileiro (1975 e 1976); Pelo Operário-MS: Campeonato Mato-Grossense (1977); Pelo Coritiba: Campeonato Paranaense  (1978); Pelo Grêmio: Campeonato Gaúcho (1979) e pelo Barcelona, de Guayaquil: Campeonato Equatoriano (1981).

Manga também tinha três irmãos que jogaram futebol: “Manguito”, “Dedé” e “Alemão”, que se destacaram no futebol pernambucano. O último, inclusive, era zagueiro central e atuou no América, do Rio de janeiro, sendo bom batedor de faltas e pênaltis. “Dedé” brilhou no Sport Club, do Recife.

“Manga” também ficou famoso por suas tiradas inocentes, que lhe deram a fama de folclórico. Contam que certa ocasião ele estava parado em uma esquina de Porto Alegre, quando passava um cortejo fúnebre imenso. Um transeunte lhe perguntou quem era o famoso falecido. Sem pestanejar, “Manga” teria respondido: “Acho que é o que vai no carro da frente”.

O “Dia do Goleiro” é comemorado em homenagem a “Manga”, nascido no dia 26 de abril de 1937. Essa data foi oficializada em 1976. Um ano antes, o primeiro “Dia do Goleiro” foi proposto para ser comemorado em 14 de abril, porque naquela data, uma grande festa reuniu goleiros e ex-goleiros no Rio de Janeiro.

Foi uma idéia do tenente Raul Carlesso e do capitão Reginaldo Pontes Bielinski, professores da escola de Educação Física do Exército. Mas já em 1976 definiu-se como data oficial o 26 de abril. (Pesquisa: Nilo Dias)


domingo, 10 de novembro de 2013

Um campeão de longevidade

Alcebíades Brizolara, o “Tibirica”, foi um jogador símbolo de garra e perseverança na história centenária do G.E. Brasil, um dos mais tradicionais clubes de futebol do Rio Grande do Sul. Jogava de lateral-direito e tinha na marcação forte a sua maior virtude. Nasceu em Pelotas no dia 22 de setembro de 1924 e faleceu em sua cidade natal no dia 28 de setembro de 1985, seis dias antes de completar 61 anos.

Começou a carreira de futebolista no time amador do Marechal Floriano F.C. Depois foi para as categorias de base do G.E. Brasil, em 1942, quando tinha 18 anos de idade. De cara sagrou-se campeão pelotense da categoria de aspirantes. No ano seguinte, “Tibirica” já era titular absoluto.

Seu primeiro jogo no time de cima foi um amistoso disputado no antigo “Estádio das Oliveiras”, na cidade de Rio Grande, contra o S.C. Rio Grande, dia 4 de abril de 1943, que terminou empatado em 3 x 3.

Seu último jogo com a camisa rubro-negra foi no dia 11 de fevereiro de 1962, no “Estádio Bento Freitas”, em Pelotas, válido pelo “Torneio da Morte” do Campeonato Estadual da Divisão Especial, num empate em 1 X 1 com o E.C. São José, de Porto Alegre.

A camisa rubro-negra foi a única que vestiu ao longo de 20 anos de carreira. Ao todo foram 445 jogos pelo time “Xavante” e sete gols marcados. “Tibirica” encerrou a carreira em 1962, aos 38 anos de idade, um ano antes do G.E. Brasil comemorar o seu cinquentenário.

Em sua passagem como jogador  do “Xavante”, participou de momentos gloriosos da vida do clube, como a excursão ao Uruguai, em 1950, quando o G.E. Brasil enfrentou a “Celeste Olímpica”, que se preparava para o Campeonato Mundial daquele ano, onde se sagrou campeão, no famoso “Maracanazzo”.

Naquele jogo inesquecível o clube pelotense conseguiu uma estrondosa vitória por 2 X 1, surpreendendo os “orientales” em pleno Estádio Centenário. Os gols foram de Darci e Mortosa, este. pai de Flávio “Mortosa” Teixeira, auxiliar técnico de Luiz Felipe Scolari, na Seleção Brasileira.

“Tibirica” também esteve na excursão que o clube pelotense realizou em 1965, por 10 países das América Central e do Sul. Foi uma maratona de 104 dias pelo exterior e 28 jogos disputados em países diferentes. O saldo foi esplendido, 16 vitórias, 6 empates e 6 derrotas.

Ele fez parte de célebres linhas-médias do G.E. Brasil, tais como: Tibirica, Juvenal (zagueiro da Seleção em 50) e Tavares, em 1946; Tibirica, Garcia e Tavares, em 1948 e Tibirica, Seara e Jari, em 1954 e 1955.

Títulos conquistados: Campeão da Cidade (1946, 1948, 1949, 1950, 1952, 1953, 1954 e 1961); Campeão da Taça Eficiência (1945, 1946, 1947, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952, 1953, 1954, 1955 e 1957; Campeão do Torneio Início (1947, 1950, 1955, 1956 e 1957); Campeão da “Taça Galenogal” (1947); Campeão da “Taça Ouriversária Cruz” (1950); Campeão da “Taça Prefeitura Municipal de Pelotas” (1947); Campeão da “Taça White Star” (1956); Campeão do Interior (1953,1954 e 1955); Campeão Regional (1949, 1950, 1953, 1954, 1955 e 1961); Campeão da “Taça Casa Oliveira” (1955); Campeão do “Torneio Dia do Futebol” (1949); Campeão do “Torneio Quadrangular Internacional da República de El Salvador” (1956); Campeão Estadual da Divisão de Acesso (1961); Campeão do “Torneio Rio Grande-Pelotas” (1952); Campeão do “Torneio Triangular Bagé-Pelotas” (1954); Campeão do “Torneio Triangular Rio Grande-Pelotas” (1956) e Campeão do “Torneio 50º Aniversário do 9º Regimento de Infantaria Motorizada (1959).

Foi ainda: Vice-campeão Municipal (1943, 1945, 1951, 1957 e 1959); Vice-campeão estadual (1953, 1954 e 1955); Vice-Campeão da Festa da Liga Pelotense de Futebol (1961); Vice-campeão do Interior (1949, 1950 e 1952); Vice-campeão Regional (1946); Vice-campeão da ”Taça Companhia de Cigarros Sudan (1949); Vice-campeão da “Taça Confeitária Gaspar (1947); Vice-Campeão da Taça Eficiência (1943); Vice-campeão da “Taça Eva Perón” (1952); Vice-campeão da “Taça Fayacal” (1943); Vice-campeão da “Taça Prefeitura Municipal de Pelotas” (1950); Vice-campeão da “Taça Sezefredo Ernesto da Costa, o Cardeal” (1954); Vice-campeão do “Torneio Cidade de Pelotas” (1956); Vice-campeão do “Torneio Dia do Futebol “ (1953); Vice-campeão do Torneio Início (1949); Vice-campeão do Torneio Municipal (1946) e Vice-campeão do “Torneio 32º Aniversário do E.C. Cruzeiro” (1959).

Eu fui amigo do “Tibirica”. Muitas vezes nos encontramos no antigo “Bar Cruz de Malta”, na esquina das ruas XV de Novembro e Voluntários da Pátria e falávamos de futebol. Eu era editor de esportes do jornal “Diário Popular”, quando “Tibirica” deixou de jogar.

Mas eu o conheci nos tempos de jogador. Uma vez até participei de um treino do Brasil, quando o técnico era o saudoso Teotônio Soares. Por azar, me colocaram na ponta-esquerda, sendo marcado pelo “Tibirica”, que era um sujeito forte e grandalhão. Costumava jogar com os cotovelos a mostra. Bater nele era o mesmo que se chocar contra um muro.

Lançaram uma bola em velocidade e eu rapidamente me desfiz dela, colocando entra as “canetas” do "Tibirica". E ele, furioso, deu uma trombada que me fez desistir de voltar a atacar. A partir daí me limitei a ficar pelo meio de campo, como quem não quer nada.

Quando “Tibirica” morreu, em 1985, eu morava em São Gabriel. Fiquei muito sentido com o ocorrido, pois além de um amigo, foi com ele uma parte importante da história do futebol gaúcho e brasileiro. “Tibirica” foi um campeão de longevidade, jogando numa época em que o máximo que um atleta aguentava era jogar até os 33, 34 anos. Ele foi até os 38.

Quando perguntado qual era o segredo de ter jogado por tanto tempo, ele costumava dizer brincando: “Não bebo, não fumo, me alimento em horas certas, faço sexo regularmente e durmo cedo”. Na verdade, “Tibirica” era o contrário disso tudo. (Pesquisa: Nilo Dias)


"Tibirica" marcava forte. (Foto: "Colecionador Xavante")

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O “fabricante” de vitórias

Paulo de Souza Lobo, o “Galego”, foi um dos grandes técnicos do futebol gaúcho. Poderia ter feito uma carreira mais vitoriosa se tivesse aceitado os convites que lhe foram feitos por Grêmio e Internacional. Preferiu sempre treinar clubes do interior do Rio Grande do Sul. Prestou serviços em somente três cidades, Pelotas, Rio Grande e Bagé.

Eu conheci muito bem o “Galego”. Em certa ocasião fomos colegas de rádio, pois ele quando não estava treinando nenhum clube atuava como comentarista esportivo na Rádio Pelotense. Nós até chegamos a “bater” uma bolinha juntos, no time de Futebol de Salão da emissora.

Eu guardo até hoje um recorte do jornal “Diário Popular”, de Pelotas, com uma foto da equipe salonista em que “posaram para a posteridade” eu, “Galego”, Benito Amato, Amir Curi, Volney Castro e José Carlos Cortez Sica.

 “Galego” também trabalhou como motorista de taxi. Era dono de um carro no ponto frente o Bar Cruz de Malta, na esquina da XV de Novembro com Voluntários da Pátria.

Nasceu na histórica cidade de Piratini, no dia 23 de fevereiro de 1926. Ainda era criança, com apenas seis anos de idade quando se mudou para Pelotas junto com o irmão João Alfredo, após ficarem órfãos. Passou a infância como qualquer criança da época, estudando em escola pública e brincando pelas ruas nas horas vagas. E pensava em um dia ser jogador de futebol.

Começou a carreira no time amador do G.E.America, de Pelotas. Em 1944 chegou às categorias de base do G.E. Brasil. Em 1945, já era titular absoluto do time profissional, que era treinado por Francisco Duarte Júnior, o “Teté”, que depois marcou época no S.C. Internacional, de Porto Alegre, quando montou o fabuloso time que ficou conhecido por “Rolo Compressor”. “Galego” era um centro-médio de boa técnica e forte liderança.

Depois de se sagrar campeão pelotense e do Interior por diversas vezes, “Galego” foi emprestado ao E.C. Cruzeiro, de Porto Alegre, em 1950. Mas não deu sorte no “estrelado” portoalegrense, pois sofreu uma séria lesão em um dos joelhos e foi obrigado a abandonar o futebol, como atleta, aos 26 anos de idade. Como jogador do “xavante” pelotense atuou em 182 jogos e marcou 76 gols.

Mas não deixou o futebol, sua grande paixão. Tornou-se treinador, profissão onde alcançou maior sucesso que na carreira de futebolista. Começou como treinador das categorias de base do G.E. Brasil, conquistando cinco campeonatos consecutivos. Foi guindado ao comando da equipe principal em 1953.

Com a chegada do futebol de salão a Pelotas em 1955, jogou no E.C. Pelotas, de quem foi treinador do time profissional, onde continuou a sequência de conquistas, como campeão da cidade, em 1956, 1957 e 1958. Em Pelotas, também dirigiu o G.A. Farroupilha. Em Rio Grande comandou o S.C. São Paulo e o F.B.C. Rio-Grandense. Em Bagé, o G.E. Bagé e por três vezes dirigiu seleções gaúchas, chamando sempre jogadores que atuavam em clubes do interior.

Foi no Bagé que mais trabalhou. Chegou ao clube em fevereiro de 1971, levado pelo presidente Jorge Kalil, para substituir Athayde Tarouco, depois de uma derrota para o Ypiranga, de Erechim pelo Campeonato Gaúcho da Divisão de Honra, competição que o jalde-negro disputava pela primeira vez.

Seu primeiro jogo como treinador do Bagé foi no dia 10 de março de 1971, com derrota de 2 X 0 para o Brasil, em Pelotas. A estreia em casa foi em 4 de abril, nova derrota de 2 X 0, dessa feita para o Grêmio Portoalegrense. A primeira vitória ocorreu em 4 de abril de 1971, em Santo Ângelo, 2 X 1 frente o Tamoio.

“Galego” treinou o Bagé, de 1971 até 1977, tendo conquistado a “Copa Governador do Estado” em 1974 e a “Taça Cidade de Bagé”, por duas vezes, além de se sagrar campeão de grupos, tanto na Divisão Especial como na “Segundona” e ter levado o time à elite do futebol gaúcho. Os torcedores do jalde-negro passaram a chamá-lo de “fabricante de vitórias”, pois nunca antes em sua história, o clube havia alcançado tão altos patamares.

Em 1978, voltou a Pelotas. Em 1979, reassumiu no Bagé em meio ao campeonato e permaneceu até 1980, quando retornou definitivamente a Pelotas, onde trabalhou novamente na dupla Bra-Pel. Em 1983 um encontro histórico, Luiz Felipe Scolari era o técnico do Brasil e Paulo de Souza Lobo, o “Galego”, dirigia o Pelotas.

Ao todo os dois treinadores se enfrentaram em seis oportunidades. “Galego” levou a melhor, não tendo perdido nenhum clássico para o hoje treinador da Seleção Brasileira. Foram quatro empates e duas vitórias do áureo-cerúleo.

Em 1994, quando completou 50 anos de atividade profissional, "Galego" decidiu abandonar o futebol, às vésperas do jogo festivo Seleção da Rússia 2 X 1 Pelotas, no qual seria homenageado. Era 9 de fevereiro, quando a Diretoria do clube áureo-cerúleo lhe ofereceu um almoço que contou com a presença do técnico da Seleção Brasileira, na época, Carlos Alberto Parreira, e de seu auxiliar Zagalo.

O experiente treinador, que aglutinava também outros adjetivos como exigente e disciplinador, estava decidido que iria descansar na praia do Laranjal como legítimo aposentado. A decisão durou pouco tempo. No começo do ano seguinte já estava dirigindo o time do Pelotas no "Gauchão".

Dirigiu o Bagé em 311 jogos consecutivos, um recorde que persiste até hoje, com 120 vitórias, 94 derrotas e 97 empates, 314 gols marcados e 247 sofridos. Participou de 39 clássicos Ba-Guá, com 14 vitórias, 16 empates e 9 derrotas.

“Galego” foi muito mais que um treinador no G.E. Bagé. Era uma espécie de gerente. Morava na concentração junto com os jogadores e se encarregava até mesmo da alimentação dos seus comandados. Nos treinos era o técnico e ao mesmo tempo o preparador físico.

"Galego" sempre foi um faz tudo, como lembrou o saudoso cronista esportivo, Paulo Corrêa, em um comentário escrito no jornal "Agora", de Rio Grande:

"Jamais assinou contrato a valer mesmo e por isso não ficou riquíssimo. Dizia que o que vale é a palavra, porque papel se presta para tudo, até para embrulho. Não fumava, não bebia álcool nem permitia excessos nos seus jogadores, proibidos de dar pontapé. Era preparador técnico, físico, cozinheiro, dirigente, gerente, fazia rifas para ajudar o clube, cuidava da concentração, amparava famílias de jogadores, enfim, era um verdadeiro pai de todos".

Seus números como treinador impressionam. Ao todo foram 455 partidas pelos sete clubes que dirigiu. O seu trabalho mereceu o reconhecimento da Câmara Municipal de Bagé, que lhe concedeu o título de “Cidadão Bageense”, em 1977, por proposição do vereador Iolando Maurente. Em Pelotas foi homenageado com o título de “Cidadão Pelotense”, em 1988.

Era casado com Dona Geni Rodrigues Lobo, com quem teve três filhos. Morreu em 9 de outubro de 1996. Seus restos mortais estão sepultados no “Cemitério São Francisco de Paulo”, em Pelotas. “Paulo de Souza Lobo” é nome de rua, na Praia do Laranjal, em Pelotas. (Pesquisa: Nilo Dias)


domingo, 3 de novembro de 2013

O artilheiro que virou estátua

Gabriel Omar Batistuta, um dos melhores atacantes do futebol argentino de todos os tempos nasceu na cidade de Reconquista, província de Santa Fé, Argentina, em 1º de fevereiro de 1969, ano em que o homem foi à lua. Ele só começou a jogar futebol quando tinha 17 anos de idade. Seu pai preferia que ele estudasse do que ser jogador de futebol.

Até então jogava vôlei e basquetebol, devido a sua alta estatura (1m85). Em 1978, depois do título mundial ganho pela Argentina, trocou de esporte. E tudo por causa do artilheiro Mário Kempes.

Como não havia campos de futebol na sua cidade, Batistuta e seus amigos jogavam na rua, sem chuteiras, e usando árvores como traves. Com 15 anos, juntou-se ao jovem time do Platense, e depois no Reconquista, em 1987. Mas, em 1988, se mudou para Rosário.

No mesmo ano Batistuta jogou pelas categorias de base do Newell’s Old Boys, levado pelo desportista Jorge Griff. O clube de Rosário lhe pagava um salário de 20 mil dólares por ano. O jogador dormia num pequeno quarto dentro do estádio, sentia saudade da família e sempre tinha pouco dinheiro.

O Newell’s era treinado por Marcelo Bielsa que o colocou no time de cima no lugar de Abel Balbo, que fora vendido ao River Plate. Depois o time abocanhou o campeonato nacional da temporada 1987/88, com uma equipe toda formada por jogadores da casa.

Nos seus seis primeiros meses no Newell’s, Batistuta chegou à final da “Taça Libertadores da América”, contra o Nacional, de Montevidéu. No primeiro jogo, em Rosário, venceu por 1 X 0, mas no segundo, no “Centenário”, em Montevidéu, perdeu por 3 X 0, perante 75 mil torcedores. No certame argentino, temporada 1988/1989 o clube não foi bem, terminando em 12º lugar.

Em 1989 foi vendido ao agente Settimio Aloisio, que o colocou no River Plate, curiosamente para também substituir Abel Balbo, a exemplo do que acontecera quando da sua chegada ao Newell’s. Batistuta disputou a final da “Liguilla”, e marcou o único gol na decisão contra o San Lorenzo que deu o título e a vaga na “Libertadores” ao seu novo clube.

Em 1990 o River Plate classificou-se para às semifinais da “Taça Libertadores” de 1990, sendo eliminado nos pênaltis. Mas conquistou o campeonato argentino de 1989/1990. Batistuta não teve o bom desempenho do ano anterior, jogou poucas vezes, mas assim mesmo foi mais uma vez campeão nacional. Em vista disso o técnico Daniel Passarella não o aproveitou mais. Terminada a temporada transferiu-se para o eterno rival, Boca Juniors.

A ida de Batistuta para “La Bombonera” coincidiu com a introdução na temporada 1990/91 do sistema “Apertura” e “Clausura”, dividindo o campeonato. No “Apertura” o Boca terminou na oitava colocação.

No “Clausura” foi primeiro, com Batistuta fazendo grandes partidas e marcando cinco gols nos três primeiros jogos. O time azul e amarelo somou 13 vitórias e seis empates, marcando 32 gols, 20 deles pela dupla Batistuta e Diego Latorre, e apenas seis gols contra.

Batistuta chegou a errar um pênalti contra seu ex-clube, o River Plate. Mas isso não foi capaz de diminuir o brilho de sua participação naquele campeonato, o que lhe valeu a primeira convocação a Seleção Argentina, em 1991, pelo técnico Alfio Basile. A partir daquela temporada, o atacante tornou-se um “anti-River” e um dos principais jogadores a dar ao Boca Juniors uma supremacia nos clássicos.

Os dois clubes se enfrentaram duas vezes na “Taça Libertadores da América” naquele semestre, e Batistuta marcou os dois gols da vitória por 2 X 0. Antes, já havia vencido também no “Monumental”, por 4 X 3.

O Boca Juniors ainda venceu os times brasileiros do Corinthians e Flamengo no “mata-mata”, mas o sonho do título continental parou nas semifinais, quando foi derrotado pelo Colo-Colo, do Chile, num jogo cheio de polêmicas, que ficou conhecido como “A Batalha de Santiago”, repleta de catimbas, brigas e discussões.

Com a convocação de Batistuta para a Seleção, o Boca Juniors foi muito prejudicado, pois não pode contar com seu artilheiro na decisão do Campeonato Nacional da temporada 1990/1991, entre os campeões do “Apertura” e do “Clausura”.

Os jogos decisivos foram disputados em datas que coincidiram com a realização da “Copa América”. Cada time venceu um jogo por 1 X 0, levando a decisão para os pênaltis. Em plena “La Bombonera” o Boca perdeu o título. Curiosamente, no ano seguinte foi determinado que os campeões do “Apertura” e “Clausura” dividiriam o título nacional.

Terminada a “Copa América”, vencida pela Argentina e com Batistuta como artilheiro, com seis gols, um deles sobre o Brasil no quadrangular final que decidiu o torneio, o craque foi vendido para a Fiorentina, da Itália por 2,5 milhões de dólares. Vittorio Cecchi Gori, então vice-presidente do clube italiano assistiu todos os jogos da Seleção Argentina e ficou encantado com o futebol do atacante.

Dois anos depois, na Copa América de 1993, foi novamente campeão. Embora tenha marcado apenas três vezes, dois desses gols foram decisivos, pois deram a vitória à Argentina por 2 X 1 sobre o México, na final, garantindo o 14º título continental ao país.

Mesmo com a vitória na “Copa América”, por pouco a Argentina não ficou fora da Copa do Mundo de 1994, disputada nos Estados Unidos. Na última rodada das "Eliminatórias", foi goleada por 5 X 0 pela Colômbia, em Buenos Aires.

Os colombianos ficaram com a única vaga direta do grupo de quatro países. A Argentina só foi à repescagem porque o Paraguai não saiu de um empate com o Peru, que até então não havia pontuado.

Na repescagem, contando com a presença de Diego Maradona, os argentinos empataram com a Austrália, em Sydney e garantiram lugar nos Estados Unidos após vencerem em casa por 1 X 0, com Batistuta marcando o gol.

A Argentina tinha um time muito forte, com Batistuta, Maradona, Fernando Redondo, Claudio Caniggia e Ramón Medina Bello. Na Copa, Batistuta fez três gols no jogo de estréia, uma goleada de 4 X 0 sobre a Grécia. No segundo jogo ganhou de virada da Nigéria.

Depois dessa partida Maradona foi expulso do Torneio, no escândalo do "dopipng". Abalados, os argentinos perderam para a Bulgária e chegaram em terceiro no grupo. Só conseguiram classificação para a fase seguinte, porque foram um dos melhores terceiros colocados, sistema que vigorou até aquela Copa.

A eliminação veio frente a Romênia. Batistuta marcou seu quarto gol na derrota por 3 X 2. O ano seguinte também foi de decepções com a "Seleção". Na Copa América, foi eliminada nas semifinais frente ao Brasil. O título ficou com o Uruguai.

O técnico da Argentina já era Daniel Passarella, com quem Batistuta não se entendia desde os tempos de River Plate. Apesar da série regular de gols na Fiorentina, Batistuta chegou a passar quase um ano afastado da “Seleção” por Passarella, que não queria jogadores de cabelos longos no seu time.

Pelo mesmo motivo não foram convocados os jogadores Redondo e Caniggia. Para ir à “Copa do Mundo” de 1998, Batistuta concordou em cortar o cabelo e lançou até um perfume: “Essenza di Campione”. Na França, marcou quatro gols na primeira fase, um contra o Japão e três na Jamaica.

Fez seu quinto gol na Copa nas oitavas-de-final, contra a Inglaterra, quando homenageou o filho recém-nascido, embalando-o na imaginação, imitando a comemoração de Bebeto em 1994. A classificação veio nos pênaltis, e deu lugar à frustração na fase seguinte, quando empatou em 1 X 1 com a Holanda.

Nesse jogo Passarella substituiu Batistuta, que era o artilheiro do "Mundial". O croata Davor Šuker só o ultrapassou em um gol, na partida pelo terceiro lugar, dois jogos depois.

Em 2002, Batistuta foi ao seu terceiro mundial, já veterano e vindo de uma temporada difícil na Roma. Começou bem na “Copa da Coreia e Japão”, marcando o solitário gol da vitória sobre a Nigéria, na primeira rodada. E foi só.

Os argentinos foram precocemente eliminados na primeira fase, depois de perderem para a Inglaterra e empatarem com a Suécia. Batistuta errou um pênalti contra os suecos. Esse foi o seu último jogo pela Seleção da Argentina, da qual é o maior artilheiro em Copas, com 10 gols e no geral com um total de 56 gols em 78 partidas. Ele marcou na “Seleção” o dobro de gols que Diego Maradona, o maior ídolo futebolístico do país em todos os tempos.

Mesmo tendo uma passagem sem títulos pelo Boca Juniors, ele garantiu um lugar destacado na história do clube e nos corações dos seus torcedores.

O começo na Itália não foi dos melhores, porque o jogador encontrou dificuldades de adaptação. Mas algum tempo depois reencontrou seu bom futebol. Na 18ª rodada da temporada 1991-92, Batistuta marcou seu primeiro gol pela Fiorentina, na vitória de 2 X 0, sobre a Juventus. Na primeira temporada marcou 13 gols. Na segunda, 16 em 27 jogos. O seu clube, a Fiorentina acabou sendo rebaixado.

Mesmo disputando uma divisão secundária, Batistuta continuou na Fiorentina e, com seus gols, ajudou o clube a retornar à "Serie A" na temporada seguinte, 1994/1995. De regresso à elite do futebol italiano, foi o artilheiro da competição com 26 gols, um recorde no campeonato. Também superou outra marca no futebol italiano, quando marcou 13 gols em 11 partidas consecutivas.

A fama de Batistuta correu mundo. Já era considerado um dos melhores atacantes do planeta. Surgiram propostas de todos os lados da Europa.

O Manchester United, da Inglaterra chegou a oferecer 44 milhões de dólares para contratá-lo, mas ele preferiu continuar por várias temporadas na “Associazione Calcio Firense Fiorentina”, que é um clube mediano da Europa. Essa dedicação à agremiação valeu-lhe uma estátua de bronze em tamanho natural, na “Curva Fiésiole”, no “Estádio Artemio Franchi”, na cidade de Florença.

Batistuta ganhou a fama de “sex symbol”, tal era a admiração das mulheres pelo seu amor incondicional a Irina – sua esposa. A maior prova foi em 1996, quando marcou o gol decisivo na vitória por 2 X 1 sobre o A.C. Milan e disse para a câmera: “Amo-te Irina”.

A sua fama com a camisa da Fiorentina foi tanta que Florença decretou 30 de Outubro como “o Dia de Batistuta”, uma homenagem ao artilheiro que tantas alegrias deu à cidade.

A relação de Batistuta com os torcedores da Fiorentina era muito especial. Com ele em campo, era questão de tempo até o grito de gol ecoar nas arquibancadas. Um deles entrou para a galeria de imagens imortais do futebol italiano: o gol de empate contra o Barcelona em pleno “Camp Nou”, na semifinal da “Taça das Taças”, em Abril de 1997. Com o dedo em riste nos lábios, calou 100 mil adeptos do Barcelona, ao vencer com classe e garra o conhecido goleiro Vítor Baía.

No tempo em que defendeu a Fiorentina, atuou junto de destacados jogadores como o meio-campo português Rui Costa, o alemão Stefan Effenberg, o dinamarquês Brian Laudrup, o sueco Stefan Schwarz, o russo Andrey Kanchelskis, os selecionáveis italianos Michele Serena, Stefano Borgonovo, Sandro Cois e Angelo Di Livio e cinco brasileiros: os tetracampeões mundiais de 1994 Dunga, Mazinho e Márcio Santos, Edmundo e Luís Oliveira (naturalizado belga). E fez uma grande dupla ofensiva com Abel Balbo, de quem foi sombra no início de carreira.

Mesmo com toda a fidelidade ao clube, conquistou poucos títulos. Consta um terceiro lugar na temporada 1998/99, em que foi vice-artilheiro, com 21 gols, o que classificou a equipe para a “Liga dos Campeões da UEFA”. A Fiorentina foi eliminada da competição, em casa, na última rodada da segunda fase de grupos, quando apenas empatou nos acréscimos do jogo contra o Bordeaux, da França.

Além da "Serie B" de 1994 e de pequenos torneios amistosos, o único grande título de Batistuta pela Fiorentina foi a “Copa da Itália” de 1996, com ele marcando nos dois jogos da decisão contra o Atalanta.

Em 1999, no time italiano da Fiorentina, Batistuta adotou a comemoração de “matador”, nos seus gols, simulando portar uma metralhadora. Ainda nesse ano, ficou entre os três melhores jogadores do mundo, perdendo a eleição da FIFA para Rivaldo (1º) e Beckham (2º). Omar Batistuta foi “batizado” pelos “tifolis” de “Batigol” e “Rei León”.

Em 2001, depois de vestir a camisa da Fiorentina por 10 anos, período em que marcou 40% de todos os gols da equipe, foram 207  em 332 jogos, foi vendido para a Roma, por quase 30 milhões de dólares, protagonizando a segunda mais cara transferência da história do futebol mundial, na época.

Na Roma, Batistuta jogou ao lado de consagrados jogadores como Cafu, Vincenzo Montella, Marco Delvecchio e Francesco Totti. No seu primeiro ano no novo clube, o artilheiro marcou 20 gols, ajudando na conquista do campeonato italiano, algo que não acontecia desde a temporada 1982/1983, quando jogavam na equipe Falcão e Bruno Conti.

Dizem que a Roma está quebrada até hoje porque bancou essas contratações da fase do “scudetto”: Batistuta, Nakata, Emerson e Samuel.

Em 2001/2002 quase que a Roma foi campeã de novo. A Internazionale liderou o certame até a última rodada, quando o time de Batistuta conseguiu ultrapassá-la em um ponto. Mas o campeão foi a Juventus, que somou um ponto a mais.

Naquela temporada Batistuta não foi bem e acabou sendo emprestado à Internazionale. Com isso, a equipe de Milão conseguiu substituir Ronaldo “Fenômeno”. Junto com Batistuta também foi contratado Hernán Crespo, vindo da Lazio.

A temporada 2002/2003 rendeu um vice-campeonato a Internazionale. Mas Batistuta não ficou até o final do contrato. As constantes lesões o atrapalharam demais. Uma irresistível proposta financeira o fez ir para o Qatar, onde já se encontrava Romário. Lá jogou futebol e paralelamente golfe, enriquecendo a sua reforma de luxo.

No pequeno país do Oriente Médio, em uma liga bem menos técnica, foi campeão e artilheiro pelo Al-Arabi Doha, onde encerrou a carreira em 2005, aos 36 anos, após não conseguir um acerto com o Boca Juniors, devido a uma séria lesão em um dos tornozelos. Ele queria encerrar a carreira no time argentino e aumentar o número de gols que fez pelo clube, mais de 300.

Sua passagem pelo Qatar, posteriormente, fez com que fosse chamado para ser garoto-propaganda da vitoriosa campanha do país para ser sede da Copa do Mundo de 2022.

Batistuta era um jogador completo, emérito cabeceador, chutava forte com os dois pés, tinha arrancada e velocidade e esbanjava raça e oportunismo. É verdade que as vezes abusava do individualismo. O craque argentino foi sempre um grande homem, dentro e fora de campo, um marido exemplar, um pai amoroso, enfim, um exemplo a ser seguido, ao contrário de muitos ex-jogadores de futebol.

Títulos conqistados: Campeonato Argentino, pelo Newell's Old Boys (1987/88); Liguilla Pré-Libertadores, pelo River Plate (1989); Campeão da Recopa Sulamericana pelo River Plate (1990); Campeonato Argentino pelo River Plate (1989/90); Campeão do Torneio “Di Viareggio” pela Fiorentina (1992); Campeão da Copa Kirin, pela Fiorentina (1992); Campeonato Italiano da Série B, pela Fiorentina, da Itália (1993/94); Campeão da Copa da Itália, pela Fiorentina (1995/96); Campeão da Supercopa da Itália, pela Fiorentina (1996); Campeão Italiano pela Roma (2000/01); Campeão da Supercopa da Itália, pela Roma (2001); Campeão Italiano pela Internazionale (2002/03); Campeão do Qatar pelo Al-Arabi Doha (2004); Campeão da Copa América pela Seleção Argentina (1991 e 1993); Campeão da Copa das Confederações pela Seleção Argentina.. (1992) e Troféu Artemio Franchi, pela Seleção Argentina (1993).

Batistuta também ganhou muitas premiações em sua vitoriosa carreira: “Chuteira de Bronze da Copa do Mundo da Fifa” (1994 - 4 gols); “Chuteira de Prata da Copa do Mundo da Fifa” (1998 - 5 gols); “Melhor Jogador Estrangeiro do Ano na Serie A” (1999); “3o Melhor Jogador do Mundo da FIFA” (1999); “Chuteira de Ouro da Liga do Catar” (2004); “Melhor Jogador Argentino do Ano” (1998); “Maior Artilheiro da História da Fiorentina na Serie A” (152 gols); “Segundo Maior Artilheiro da História da Fiorentina” (207 gols em 332 jogos no total); “Maior Artilheiro da História da Seleção da Argentina” (56 gols em 78 jogos) e “Prêmio Fifa 100” (2004)

Logo depois que deixou os gramados, Batistuta teve problemas até para andar, devido a dores nos joelhos, herança das infiltrações que fez ao longo da carreira para aliviar a dor e reduzir o tempo de recuperação das lesões.

Além disso, ele foi submetido a diversas cirurgias nas pernas. Teve uma época em que chegou a pedir ao médico para lhe cortar uma perna, de tantas dores que sentia. Mas foi operado e melhorou bastante.

Batistuta desmentiu às notícias que davam conta de que ele mal se aguentava ficar de pé. E disse que está praticando esportes, como tênis e pólo, uma de suas paixões, defendendo a equipe do “Loro Plana”, de Santa Fé.

Só não pode mais jogar futebol, correr muito ou fazer piques. E ainda encontra tempo para assuntos burocráticos do futebol, como ser dirigente do “Cólon”, time de futebol da Argentina. (Pesquisa: Nilo Dias)


A estátua de Batistuta, em Florença, Itáli. (Foto: Divulgação)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O "Tremendão da Aerolândia"

O “Calouros do Ar Futebol Clube”, que hoje amarga uma terceira divisão do Campeonato Cearense, já viveu seus momentos de glória. Fundado em 1 de janeiro de 1952, é conhecido como o “time da Base Aérea de Fortaleza”, unidade de elite da Força Aérea Brasileira.

Até então o clube era apenas um despretensioso time de futebol, chamado América. Quando foi oficialmente fundado, mudou o nome para homenagear o conjunto musical da Base Aérea de Fortaleza e os aspirantes a oficial aviador que chegavam todo ano à cidade.

Ascendeu à divisão principal da Federação Cearense de Desportos (FCD) em 1953, vindo, por uma dessas anomalias de nosso futebol, da terceira divisão.

O Comando da corporação dava todo o apoio ao clube. A torcida era formada pelo efetivo da Base e pessoas da população. Os jogadores eram quase todos militares. Vez que outra vinha alguém de fora, principalmente do interior do Estado, desde que não custasse muito dinheiro.

O uniforme do “Calouros do Ar” lembra o do Fluminense F.C., do Rio de Janeiro, camisas com listras verticais em vermelho, verde e branco, calção branco e meias brancas ou verdes. A única diferença do time carioca é que esse tem a cor vinho, em lugar do vermelho.

Seu mascote é o “Tremendão da Aerolândia”. Também é conhecido como o “Tricolor da Base Aérea”. O estádio onde mandava seus jogos era o “Brigadeiro-Médico José da Silva Porto”, que se localizava dentro da Base Aérea e possuía secretaria, lavanderia e vestiários e sua capacidade era para 3 mil expectadores.  O estádio ainda existe, mas hoje é de uso exclusivo de militares.

O primeiro jogo do “Calouros do Ar” como clube profissional, foi no dia 10 de maio de 1953, quando empatou com o Gentilândia por 1 X 1, em jogo válido pelo Campeonato Estadual daquele ano. O clube não conseguiu chegar ás finais da competição.

Em 1954, o “Calouros do Ar” surpreendeu a todos, quando derrotou o Botafogo, do Rio de Janeiro, que foi a Fortaleza participar da festa dos 40 anos de fundação do Ceará Sporting. O diretor do clube alvinegro cearense, Ivonisio Mosca de Carvalho, queria que o “glorioso” se apresentasse com todas as suas grandes estrelas da época, o que não foi possível, por problemas no calendário.

De qualquer maneira o Botafogo, que era treinado por Gentil Cardoso, acabou por jogar duas partidas em Fortaleza. A primeira foi no sábado, 12 de junho, no Estádio Presidente Vargas, contra o “Calouros do Ar”, que venceu por 1 X 0. O time carioca só trouxe de titular o atacante Garrincha. Didi e Nilton Santos não viajaram.

O “Calouros do Ar” tinha um time bem certinho, com muito conjunto, onde pontificavam o goleiro Chico Martins, Zanata e Orlando Ciarlini. O empate em 0 X 0 persistia, até que no segundo tempo o time local fez uma substituição que foi decisiva: saiu o avante Beto e entrou Orlando Ciarlini, que aos 40 minutos marcou o gol que deu a vitória ao time da Base Aérea.

O goleiro Chico Martins fez uma partida memorável, entrando para a história do futebol cearense. A lenda assegura que o goleiro pegou até pênalti, batido por Garrincha, o que não é verdade. O atacante teve, isso sim, um gol anulado porque foi feito com a mão.

Ao término do jogo o goleiro Chico, entre outros presentes, ganhou uma garrafa de uísque e o direito de conversar algum tempo com Garrincha. Seu nome verdadeiro é Francisco Martins de Lima. Jogou pouco tempo no “Calouros do Ar”, pois preferiu seguir a profissão de armador.

Sua paixão pelo mar superou a paixão pelo futebol, o que o impediu de aceitar uma proposta para atuar no Botafogo, do Rio de Janeiro e de defender a Seleção Cearense, que disputava o Campeonato Nacional da época. Suas constantes viagens de navio o impediam de dedicar mais tempo ao futebol.

Hoje, aposentado, ele dedica a maior parte do seu tempo ao “Iate Clube de Fortaleza”, localizado na Praia do Mucuripe, que já dirigiu por muitos anos até virar sócio benemérito. Inclusive a sede social, que foi toda reformada em uma de suas gestões, leva o nome de “Comodoro Francisco Martins de Lima”. “Comodoro” é um título dado ao mais velho capitão ativo, em uma companhia de navegação.

Esse triunfo sobre o Botafogo é considerado o maior feito da história do clube, somente comparado ao título estadual de 1955. Orlando Ciarlini saiu de campo como um verdadeiro herói, e seu gol é lembrado até hoje pelos torcedores mais antigos.

O “Calouros do Ar” venceu com: Chico Martins - Pedrinho e Azevedo – Jandir - Helder (Zanata) e Índio – Luciano – Zezinho - Beto (Orlando Ciarlini) - Nelsinho e Zuzinha. Botafogo: Pianoswisky - Gerson e Floriano - Arati, Bob e Juvenal – Garrincha – Dino – Carlyle - Paulinho e Vinícius. Juiz: José Tosta, da Federação Cearense de Desportos (FCD).

No dia seguinte, domingo, com a festa dos 40 anos perdendo seu brilho pela vitória do “Calouros do Ar”, na véspera, o Botafogo conseguiu a reabilitação, derrotando o aniversariante Ceará Sporting, por 2 X 0.

Após esse feito o clube começou a ser mais respeitado, e provou sua qualidade no Estadual de 1955, quando tinha apenas três anos de existência e conquistou outro feito histórico: foi campeão cearense. Sua equipe era formada, na maioria, por elementos do efetivo da Base Aérea de Fortaleza.

O Ferroviário ganhou o primeiro turno invicto. No returno, a surpresa, ficou com o “Calouros do Ar”, que chegou em primeiro. Na decisão do Campeonato, o time da “Base Aérea” ganhou a primeira partida por 2 X 0 e perdeu a segunda por 3 X 0, o que provocou um terceiro jogo.

A grande finalíssima só ocorreu no dia 11 de março do ano seguinte, e o “Calouros do Ar” repetiu o escore do primeiro jogo, 2 X 0, gols de Zezinho e Zuzinha, se sagrando campeão cearense. É o único título de expressão do clube em toda a sua existência.

O “Calouros do Ar” foi campeão jogando com Jairo - Pedrinho e Coité – Luciano - Jandir e Jesus - Edilson Araújo – Zezinho – Beto - Hélder e Zuzinha.

O ano de 1955 foi o de “ouro” para o “Calouros do Ar”, que conquistou os três títulos disputados pelos clubes da Divisão Principal cearense, uma verdadeira “tríplice coroa”. Orientado pelo treinador Paulo Salgueiro, o time ganhou o “Torneio Preparatório”, o “Torneio Início” e o “Estadual”.

A campanha do time, no campeonato de 1955: Calouros do Ar 1 X 1 Ceará; Calouros do Ar 0 X 0 Ferroviário; Calouros do Ar 1 X 2 América; Calouros do Ar 1 X 1 Nacional; Calouros do Ar 2 x 2 Fortaleza; Calouros do Ar 1 X 0 Usina Ceará;  Calouros do Ar 4 X 0 Gentilândia;  Calouros do Ar 4 X 2 Ceará; Calouros do Ar 3 X 0 Fortaleza;  Calouros do Ar 2 X 2 Ferroviário; Calouros do Ar 3 X 2 América; Calouros do Ar 0 X 1 Usina Ceará; Calouros do Ar 2 X 0 Ferroviário; Calouros do Ar 0 X 3 Ferroviário e Calouros do Ar 2 X 0 Ferroviário.

Foram 15 jogos, com sete vitórias, cinco empates e três derrotas. O ataque marcou 26 gols e a defesa sofreu 16 gols.

Os mais antigos contam que o segredo do sucesso daquela equipe era sua homogeneidade. Ela era toda integrada por jovens com idades entre 18 e 24 anos e sem nenhuma “estrela” no grupo. Outro fato que deve ser levado em conta é que durante todo o Campeonato foram utilizados apenas 13 jogadores, o que significa dizer que manteve quase sempre a mesma formação.

O grupo tinha: Jairo (goleiro), 23 anos; Pedrinho (zagueiro-direito), 22 anos; Coité (zagueiro-central), 21 anos; Luciano (médio-direito), 22 anos; Jandir (centro-médio), 23 anos; Jesus (médio-esquerdo), 24 anos; Edílson (ponta-direita), 18 anos; Zezinho (meia-direita), 22 anos; Beto (centro-avante), 23 anos; Helder (meia-esquerda), 21 anos; Zuza (ponta-esquerda), 28 anos; Azevedo (zagueiro), 25 anos e Vandir (avante), 20 anos.

Dos 13 integrantes do plantel, apenas dois não eram cearenses: o gaúcho Jesus e o potiguar Jairo.

O título do “Calouros doAr” só é comparado ao feito de um outro jovem clube, o “Tramsways”, que ganhou o campeonato de 1940. O “Tramsways” foi fundado em 1933 e era ligado a “The Ceará Tramsways Light”, empresa inglesa fornecedora de luz, força, bondes e ônibus em Fortaleza.

Em 1956 o principal feito do clube foi uma goleada de 6 X 1 sobre o Clube do Remo, de Belém do Pará, em Fortaleza. Foi terceiro colocado no Campeonato Cearense em 1953, 1956, 1960 e 1968. Em 1960, Juarez, atacante da equipe, foi artilheiro do campeonato com 14 gols. Em 1968, o artilheiro foi Célio, com 9 gols.

Nos anos 90 o time tricolor ficou sempre nas últimas posições do estadual. Em 1995 chegou a levar 10 X 1 do Tiradentes, um vexame. Até que no ano de 1998 foi rebaixado para a Segunda Divisão, ficando na antipenúltima posição de seu grupo, sem nenhum ponto, após 44 anos de participações ininterruptas na elite cearense.

Na Segundona não obteve êxito de voltar à elite, tendo chegado perto em 1999 e 2003, quando foi terceiro colocado. Em 2004, após péssima participação no estadual da Segunda Divisão, o clube foi rebaixado para a Terceira Divisão.

Em 2005 o clube foi definitivamente desligado da Base Aérea, o que acelerou mais a sua debacle.  Um ano antes, a equipe já havia caído para a Terceira Divisão do Campeonato Cearense, de onde não saiu mais.

Em 2008 fez uma boa campanha na “Terceirona”, mas acabou por não subir. E em 2009, após uma eliminação precoce o clube se licenciou das competições e ficou suspenso por suspeita de manipulação de resultado, na derrota por 8 Xa 0 para o Tauá, no desfecho da Terceira Divisão de 2008.

Em 2010, não participou de nenhuma competição, por falta de condições financeiras e se licenciou por um ano. Retomou as atividades em 2011, quando assumiu nova diretoria que lançou um projeto para o reerguimento do clube. O ex-jogador Gilberto Alenquer assumiu como presidente e técnico, renovando todas as funções do clube.

Mas a situação da agremiação é muito difícil. O quadro de sócios, que no passado foi bastante expressivo, hoje se resume a apenas 20 pessoas, que na maioria nem assiste os jogos da equipe. Apenas comparecem nas assembleias que definem novas diretorias. É o resultado de anos de maus resultados.

Muitos torcedores recordam com saudade uma partida realizada na década de 1960, reunindo o América, campeão de 1966, e o “Calouros do Ar”, vencedor de 1955, que levou uma grande multidão de torcedores ao “Estádio Presidente Vargas”.

Em âmbito nacional o “Calouros do Ar” chegou a disputar o “Torneio Norte-Nordeste “de 1968 e a 2ª Divisão brasileira em 1971 e 1972, sem conseguir passar da primeira fase.

Nesses últimos dois anos o clube teve a presença de Gildo, maior artilheiro da história do Ceará.

Títulos: Campeão Cearense (1955); Campeão do Torneio Preparatório (1955); Campeão do Torneio Início (1955, 1958, 1968 e 1971).

Competições oficiais disputadas: Campeonato Brasileiro da Série B (1971 e 1972); Campeonato Cearense da Primeira Divisão (1953 a 1998); “Torneio Norte-Nordeste” (1968); Campeonato Cearense da Segunda Divisão (1999 a 2004); Campeonato Cearense da Terceira Divisão (de 2005 até hoje).

O clube tem apenas dois torcedores que se pode dizer “de coração”. Eliseu Alves Feitosa, de 72 anos, que foi massagista e roupeiro do clube. Trabalhou lá de 1965 a 2009. E guarda até hoje a camisa do time.
O outro é o militar reformado da Aeronáutica, Wambar Menescal, considerado o grande baluarte do clube. Ele guarda até hoje fotos, camisas, documentos raros e até o troféu do Campeonato Cearense de 1955, a maior conquista do “Calouros do Ar”.

Tudo o que ele tem sobre o “Calouros do Ar” é bem organizado e conservado, até a partitura do hino e as letras do primeiro e segundo hino do clube. Além da taça de 1955, traz na memória a emoção vivida quando da vitória sobre o Botafogo, do Rio de janeiro, em 1954.

Seu Wambar é o próprio “Calouros do Ar”. A história mais vitoriosa do clube está com ele, em documentos e na memória. (Pesquisa: Nilo Dias) 
  
1955 - Campeão Cearense da Divisão Principal. Em pé: Jairo - Pedrinho - Coité - Luciano - Jandir - Jesus e o major Salgueiro (diretor). Agachados: Porenga (massagista) - Vandir - Zezinho - Beto - Hélder e Zuzinha. (Foto: Acervo de Jurandy Neves)