Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O “Mequinha” pernambucano agora é centenário

O América Futebol Clube, de Recife, Pernambuco, que já foi um time grande até um passado já distante, completou 100 anos de vida no último dia 12 de abril. O clube foi fundado em 1914, com o nome de João de Barros Futebol Clube, em razão da reunião que criou a entidade ter sido realizada em uma residência na avenida de igual nome.

Em 16 de junho de 1915, ainda com o nome de João de Barros, o América participou da reunião de fundação da Liga Pernambucana de Futebol, atual Federação Pernambucana de Futebol.

O clube passou a se chamar América, depois de uma reunião realizada dia 22 de agosto de 1915, atendendo a um pedido do desportista Belfort Duarte, que tinha fortes ligações com o América, do Rio de Janeiro.

Belfort também quis que o clube mudasse suas cores para vermelho, as mesmas do América carioca. O time pernambucano chegou a disputar os campeonatos de 1937 e 1938 vestindo vermelho, porém teve de voltar ao verde e branco original, com o retorno as disputas do Torre, que era registrado naquela cor.

Ele viera a capital pernambucana buscar apoio para a fundação da Federação Nacional de Esportes (FNE), antecessora da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD).

Belfort Duarte, em sua estada em Recife, foi homenageado na noite de 22 de agosto, pelo João de Barros F.C., com a distinção de “Capitão Honorário” do clube. Na ocasião a Diretoria atendeu ao pedido do ilustre visitante e passou a se chamar América F.C.

O clube mantém até hoje a sua sede na Estrada do Arraial, no bairro de Casa Amarela, zona norte da cidade, onde os saudosos carnavais promovidos pelo América eram marcantes, terminando sempre com uma bacalhoada na manhã da quarta-feira de cinzas.

A sua torcida era composta por grandes famílias aristocratas do Recife e por simpatizantes nos bairros de Casa Amarela, Casa Forte, Apipucos e Caxangá. Também tinha estreitos vínculos com a colônia portuguesa de Recife.

Um fato incomoda até hoje a gente americana. Em 1915, jogando pelo Campeonato Pernambucano contra o Santa Cruz, o América vencia pelo elevado escore de 5 X 1, até os 30 minutos do segundo tempo. E o incrivel aconteceu, o Santa Cruz conseguiu marcar seis gols e virou o jogo para 7 X 5.

Esse feito se constitui até hoje na maior virada ocorrida em um jogo oficial em toda a história do futebol brasileiro. A bola do histórico jogo é guardada com carinho na sede do clube “coral”, no bairro do Arruda, no Recife.

Em 1918, o fracasso de 1915 foi esquecido, com a conquista do primeiro título estadual do clube. Com um time dificil de ser batido, o América levantou o caneco com esta escalação básica: Jorge - Ayres e Alecxi – Rômulo - Bermudes e Soares - Siza - Angêlo Perez - Zé Tasso - Juju e Lapa.

No dia 28 de abril de 1918, no campo da Ponte d’Uchoa, local de todos os jogos do campeonato daquele ano, aconteceu a primeira grande goleada da história do futebol pernambucano. Foi o dia em que o América humilhou o Náutico, ganhando por 10 X 1.

A partida foi dirigida por Alcindo Wanderley (Pitota), tendo às equipes mandado a campo as seguintes formações:

América: Lopes - Ayres Alexi – Rômulo - Bermudes e Robison – Karl – Sigismundo - Zé Tasso - Monteath e Soares. Náutico: Nelson - Barbosa Lima e Guilherme – Oliveira - Bibi e Grevy – Amarrão – Amarinho – Manoel Lopes - Ivan e Nadu.

Em 1920 o América abandonou o campeonato em meio a competição, depois de derrotar Sport e Náutico por 2 X 1 e perder para o Santa Cruz por 2 X 1, em razão de divergências com a Liga. O Sport foi campeão. Em 1921, porém, voltou às disputas.

Em 1922, o América conquistou um dos maiores títulos de sua história, ao sagrar-se “Campeão do Centenário”, visto que nesse ano o Brasil comemorava 100 anos de sua independência.

Para chegar ao título o América realizou a seguinte campanha, em turno único: 7/5 - 9 X 1 no Sport; 21/5 - 4 X 0 sobre o Peres; 4/6 - vitória de 2 X 1 frente o Náutico; 23/7- 3 X 1 ante o Equador; 6/8 - perdeu para o Torres por 1 X 0; 22/10 - vitória de 2 X 1 sobre o Santa Cruz e em 5/11 - triunfo de 4 X 2 contra o Flamengo.

O América sofreu apenas uma derrota na competição, perdendo para o Torre por 1 X 0. A torcida alviverde fez muito barulho na comemoração da conquista, que até hoje é lembrada quando a imprensa se refere ao clube como o “Campeão do Centenário”.

O time base tinha Nozinho - Rômulo e Cunha Lima – Lindolpho - Licor e Faustino – Meirinha – Fabinho - Zé Tasso - Juju e Matuto. O técnico era o gaúcho Álvaro Barbosa, o “Barbosão”.

Em 1923 foi realizada a “Taça Nordeste”, a primeira competição regional do Nordeste, que se tem notícia. Foi disputada em Maceió, para comemorar o “Dia do Trabalho”. Participaram oito equipes, consideradas as melhores da região: Botafogo e Vitória (Bahia); Cabo Branco e América (Paraíba); CRB e CSA (Alagoas) e Sport e América (Pernambuco).

O América chegou às semifinais ao lado do Botafogo, da Bahia e enfrentou o Sport, vencendo por 6 X 2. As finais em dois jogos foram contra o CSA, que eliminou o Botafogo. No primeiro deles, realizado dia 4 de fevereiro, o América venceu por 2 X 1. Nelcino abriu o placar para o time alagoano e Zé Tarso e Juju deram a vitória à equipe pernambucana.

No segundo jogo, dia 6, o CSA ganhou por 4 X 3. Como o América detinha a vantagem, sagrou-se o primeiro campeão nordestino de que se tem notícias. Uma vitória consagradora no torneio e que repercutiu nos grandes jornais do Recife. A partir dai o time alviverde pernambucano passou a ser conhecido em todo o Nordeste como uma grande força.

O América foi campeão com Nezinho - Romulo e Faustino – Lyndolfo - Moreira e Zizi – Lapinho – Leça - Zé Tarso - Juju e Araújo. Há quem diga que essa foi a maior conquista do clube alviverde até hoje, superando o título de 1922, de “Campeão do Centenário”.

A última vez que o América ganhou um título importante foi em 1944, quando se sagrou campeão pernambucano.  O time base era Zezinho – Capuco e Julinho – Djalma – Edgard e Oseás – Pedrinho – Barbosa – Leça - Galego e Rubens.

Essa conquista é considerada a mais sofrida e heróica do América. Nas finais contra o Náutico, disputadas no início de 1945, houve empate de 1 X 1 no dia 28/1; Vitórias de 3 X 2, dia 4/2; 2 X 0, dia 9/2 e 3 X 0, dia 18/2. Depois disso, só Sport, Náutico e Santa Cruz foram campeões estaduais.

O América foi vicecampeão em 1952, quando perdeu o título para o Naútico. A partir daí teve início a decadência do clube, que se tornou maior durante o final dos anos 1950, 1960 e 1970. Mas ainda conseguia manter parte da sua torcida, especialmente do bairro de Casa Amarela.

Uma página inesquecível na história do América aconteceu no dia 3 de junho de 1956, quando o alviverde goleou o Santa Cruz por 6 X 3. Aquele triunfo tornou-se mais importante ainda pelo fato de o goleiro tricolor ser o famoso Barbosa, titular da Seleção Brasileira seis anos antes, na Copa do Mundo disputada no Brasil.

A torcida coral só não linchou Barbosa porque houve uma proteção especial para ele por parte do presidente do clube, o comerciante Boanerges Costa. Este desafiou torcedores armados de pedras e paus ao sair do vestiário em companhia do goleiro, levando-o para seu carro, de onde rumou para qualquer ponto da cidade.

O América jogou com Leça - Geroldo e Cido – Claudionor - Rosael e Claudinho – Zezinho – Dimas – Macaquinho - Celly e Gilberto Segundo. O Santa Cruz foi goleado com Barbosa - Palito e Guta – Zequinha - Aldemar e Edinho - Jorge de Castro – Wassil – Isaldo - Rubinho e Otávio.

Em 1959, o clube pediu licença e não participou do Campeonato Estadual daquele ano, pois enfrentava uma grave crise financeira. Era o mergulho na decadência. Em 1962 voltou às disputas, mas sem ter a importância de antes.

Em 1964 o América comemorou seus 50 anos com um baile em sua sede, com direito a Ângela Maria e Orquestra de Ivanildo Lucena. No intervalo, bate-papo com a eterna Dercy Gonçalves. A sede do América também trouxe pela primeira vez ao Recife Roberto Carlos, quando nem "Rei" era, no inicio da Jovem Guarda.

As apresentações do grupo de basquete norte-americano “Globetrotters” e dos “Aqualoucos”, equipe do Fluminense que fazia shows de saltos ornamentais, lotaram o clube. Foram as primeiras no Recife. Isso sem contar os carnavais.

Em 1975, enfim o América voltou a ganhar alguma coisa, sendo campeão da “Taça Recife”.  Na final venceu ao Naútico. Em razão dessa conquista a imprensa recifense passou a chamar o América de “Verdão 75”. O artilheiro da competição foi Edu Montes, com 7 gols.

Em 1981, o América transferiu seu futebol para Jaboatão dos Guararapes, cidade de grande porte geminada ao Recife. Era a tentativa de abrir um novo espaço e atrair o pessoal da terra. Não deu certo. Voltou para a Estrada do Arraial. Mais tarde houve outra mudança para Jaboatão. Nova frustração.

Depois que a FPF determinou que o clube inscrito no campeonato indicasse um estádio para mandar seus jogos, e que não fosse de um concorrente, o América andou de um lugar para outro, como Bonito e Goiana, sempre contando com a ajuda, que não era lá essas coisas, do município.

Nostálgicos, antigos americanos relembram glórias de tempos idos. Eram tempos em que o clube reunia figuras de expressão, como o comendador Arthur Lundgren, fundador das antigas Lojas Paulista, mais tarde Casas Pernambucanas, os irmãos Moreira – Zezé, Rubem e João – os Leça, os Cabral de Melo.

Um dos torcedores mais importante na história do América foi o destacado escritor pernambucano, João Cabral de Melo Neto, que costumava assistir os jogos de seu time, sempre que podia.

Além de poeta, João Cabral chegou a ensaiar uma carreira de futebolista, jogando de “center-half”, o volante de hoje e se constituiu em uma promessa do futebol pernambucano. Na juventude jogou pelos times do América e do Santa Cruz. Em 1935, aos 15 anos, foi campeão juvenil pelo Santa Cruz.

No final da década de 80, descobriu que sofria de uma doença degenerativa incurável, a qual lhe impunha fortes e constantes dores de cabeça, o que causaria, aos poucos, a perda da visão, fazendo-o parar de escrever e ficar depressivo, e a vontade de falar.

Morreu no dia 9 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro, aos 79 anos, encoberto com a bandeira do América e com a tristeza de não rever o Campeão do Centenário forte como antes, em sua juventude.

No discurso proferido por Arnaldo Niskier, no velório ocorrido no "Salão dos Poetas Românticos", na Academia Brasileira de Letras, o América foi lembrado:

“Fecham-se os olhos cansados do poeta João e não conseguimos realizar o sonho que agora desvendo: ver o América Futebol Clube voltar aos seus dias de glória. Nem o daqui do Rio, nem aquele que era a sua verdadeira paixão: o América do Recife."

Títulos. Campeão pernambucano (1918, 1919, 1921, 1922, 1927 e 1944); Torneio Início: (1921, 1930, 1931, 1934, 1936, 1938, 1941, 1943, 1955, 1967 e 1970); Taça Recife (1975); Liga Suburbana (1916, 1917, 1918 e 1929); Troféu Nordeste (1923); Copa Torre (1923 e 1924); Taça Casa Amarela (1926, 1927 e 1928); Troféu Bairro da Boa Vista (1933); Torneio da Paz (1940); Torneio Cidade do Cabo (1965); Copa Roman (1968); Copa da Juventude (1974); Torneio Aniversário da Cidade de Jaboatão (1981); Copa de Desportos Terrestres (1986) e Taça Joaquim Inácio (???).

Categorias de base. Campeonato Pernambucano de Juniores (1962, 1963, 1968, 1969, 1977 e 1984); Campeonato Pernambucano Infanto-Juvenil (1951) e Campeonato de Aspirantes (1928, 1930, 1932 e 1939); Futebol de Salão. Campeonato Pernambucano (1985) e Taça Cidade do Recife (1981). Futebol feminino: Copinha do Mundo Sub-17, representando a seleção dos Estados Unidos (2014). Basquetebol Vice-campeão pernambucano (1977 e 1978).

O América participou do Campeonato Brasileiro da Série B em 1972, 1981, 1989 e 1991 e da Série C em 1990. Disputou o Campeonato Pernambucano nos anos de 1916 a 1958, 1963 a 1995, 2011 e 2012.

Jogadores famosos que atuaram pelo clube: Alberto Salonni, argentino, jogou pelo América em 1932; Vavá, centro-avante campeão do mundo, vestiu a camisa americana em 1948, mas sem muito destaque. Logo se tranferiu para o Íbis Sport Club e Sport Club do Recife; Zé Tasso, que defendeu clube de 1918 a 1923; Dequinha, que depois participou da Copa do Mundo de 1950 e jogou pelo Flamengo e Osséias, único campeão vivo, da última conquista do América, campeão pernambucano em 1944.

O duelo entre América X Náutico é chamado de “Clássico da Técnica e Disciplina”; América X Santa Cruz,” o “Clássico da Amizade” e Amérca X Sport, o “Clássico dos Campeões”.

Os torcedores mais jovens não sabem que o América foi um grande clube em épocas já remotas. Hoje o futebol pernambucano tem três grandes equipes, mas até meados dos anos 50 eram quatro.

Os concursos com tampinhas de refrigerantes, como a laranjada “Cliper”, traziam as fotos dos craques do América, junto com os do Náutico, Sport e Santa Cruz.

Concorrente de peso ao título de campeão, o América lutava de igual para igual com alvirrubros, tricolores e rubro-negros, bem como com clubes já extintos – Torre, Flamengo e Tramways.

Sua decadência coincidiu com o surgimento do Náutico, como potência. O clube dos Aflitos, situado relativamente perto do América, começou absorver a criançada da região que ia despertando para o futebol.

Velhos torcedores americanos atribuem à falta de um estádio, ao contrário de Náutico, Santa Cruz e Sport, um dos motivos de o América ter encolhido através dos anos.

O alviverde nunca teve pouso certo. Ora treinava nos Aflitos, ora na Ilha do Retiro – ainda não havia o “Arruda”, em troca da indicação daquele local para os jogos cujo mando lhe pertencia. O campo de Bebinho Salgado, em Apipucos, durante muito tempo acolheu os periquitos, como também eram chamados os americanos.

Em 1995 o clube se licenciou e só retornou as atividades em 2010. Foram 15 anos de ausência. E de cara ganhou o direito de voltar à elite do futebol pernambucano, ao ser vice-campeão da Série A-2, correspondente a segunda divisão. Ele venceu a equipe do Chã Grande/Decisão, em pleno estádio “Barbosão”, pelo escore de  4 X 1. O campeão foi a equipe do Petrolina.

Ainda se mantendo na Primeira Divisão, o América agora pretende dar vôos mais altos e voltar a ser o que foi no passado. Está em pleno andamento um projeto bastante ambicioso para este ano de 1014, quando o clube completou 100 anos de existência.

Desde 2011 está em andamento uma parceria com o Sporting, de Portugal, Prefeitura de Abreu e Lima, que será sede dos jogos do time, a MSC Inter Sports e a Adidas, que entra com o material esportivo.

Em 2012, dentro da parceria, o América trouxe para apresentar seus uniformes a modelo paraguaia Larissa Riquelme. O time americano, que até hoje não tem um estádio próprio, terá não só um patrocínio de alto escalão, o Real Hospital Português, como um estádio com estrutura avançada e capacidade para 10 mil expectadores e Centro de Treinamento e alojamentos. Em troca, o “Periquito” tem a função de mandar jovens revelações para o clube português.

Os portugueses da MSC Inter Sports e do Sporting fecharam a parceria com o América e a Prefeitura de Abreu e Lima para construir um novo “ninho” para o “Periquito”. Um estádio com instalações modernas, capacidade para mais de 10 mil torcedores, Centro de Treinamento e alojamentos. Tudo para o "Mequinha" fortalecer a categoria de base e revelar cada vez mais atletas.

Ainda no acordo entre América e Sporting, ficou deliberado que este ano haverá um jogo amistoso entre ambos, em Pernambuco. (Pesquisa: Nilo Dias)

1922. Campeão do Centenário. Rômulo - João Batista - Faustino Oscar - Lindolpho - Henrique Luiz Selva - Manoel - Fernando _ Fábio - José Tasso - Artur - Carlos Lapa e jorge. (Foto:Acervo fotográfico do América F.C.)

terça-feira, 13 de maio de 2014

O Olympico Futebol Clube, de Bom Jesus do Itabapoana (RJ), a 320 quilômetros da capital, é mais um clube centenário do futebol brasileiro. A agremiação foi fundada em 23 março de 1914, quando de uma reunião realizada no bar do Manoel Belido, na Praça Governador Portela, a menos de 500 metros da divisa com o Espírito Santo.

Na ocasião ficou definido que haveria um clube recreativo na cidade, como os times tradicionais da capital. As cores da nova agremiação foram definidas como vermelha e amarela.

O primeiro time formado pelo time amarelo e vermelho do Olympico foi este: Chico Fragoso - Horácio Moraes e Juquinha Firmo – Duente - João Fraga e Fernando - Otis Menezes - Candico Peralva - Walter Franklin - Nilo Cunha e Purcino.

Na época do amadorismo o clube disputou e foi campeão do certame municipal por vários anos. Também jogou inúmeras partidas amistosas contra equipes do Espírito Santo, e contra o rival Ordem e Progresso, entidade também centenária da cidade, e considerado maior rival do Olympico.

Em 1968 o clube se profissionalizou, passando a disputar o Campeonato Estadual da Terceira Divisão. A experiência não foi nada animadora, ficando na sétima posição da fase inicial, última da sua chave, não conseguindo classificação para as finais.

Em 1986, ainda na Terceira Divisão, ficou em quinto lugar, no campeonato vencido pelo Tomazinho Futebol Clube com o Esporte Clube Nova Cidade em segundo. No ano seguinte foi segundo na sua chave, na fase inicial, atrás apenas do América, de Três Rios.

Na fase seguinte, conseguiu se classificar novamente em segundo lugar. O primeiro foi  o Paduano Esporte Clube, de Santo Antônio de Pádua. Na fase final foi terceiro colocado na classificação geral. O campeão foi o Paduano Esporte Clube, com o Esporte Clube Miguel Couto, na segunda colocação.

Em 1988, ainda na Terceira Divisão classificou em  segundo na sua chave, perdendo a liderança para o Cantagalo Esporte Clube. Na fase seguinte foi novamente segundo, perdendo a dianteira e a classificação para as finais, diante do União Nacional Futebol Clube, que se sagrou campeão invicto da temporada.

Em 1989 solicitou licenciamento das competições profissional por dois anos. Em 1991 retornou para disputar o Campeonato Estadual da Segunda Divisão, na verdade uma Terceira Divisão, já que a antiga Segunda virara naquele ano uma espécie de Módulo "B" da Primeira Divisão.

Alcançou classificação em segundo lugar na primeira fase, atrás do Saquarema Futebol Clube. Na segunda fase foi novamente segundo, ficando de novo atrás do Saquarema que chegou a final contra o Entrerriense Futebol Clube, e sagrou-se campeão.

Em 1992 o clube solicitou novo licenciamento por dois anos. Em  1994, retornou disputando a Divisão Intermediária, a Segunda Divisão da época. A campanha foi ruim e não passou do quinto lugar, penúltimo, em sua chave, sendo eliminado da competição.

Em 1995, disputou novamente a Divisão Intermediária, Grupo "D", ficando em sexto lugar. O campeão nessa chave foi o Barra Futebol Clube, de Teresópolis. Em 1996, se licenciou pela terceira vez das competições profissionais. Depois disso, não disputou mais os certames organizados pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ).

Desde então tem se dedicado mais as divisões de base. Em 2009, na condição de representante do município de Bom Jesus do Itabapoana, foi campeão da Seção da Região Noroeste Fluminense do Campeonato de Ligas Municipais Sub-17, organizado pela federação estadual, ao vencer no jogo final a seleção de Lajes de Muriaé. Ainda nesse ano representou a Liga Bonjesuense na categoria Adultos.

Existe um movimento para que o clube retorne aos gramados, mas esbarra nas dívidas existentes. E o estádio “General Fernando Lopes da Costa”, de propriedade do clube, que tem capacidade para receber até 2.500 torcedores, sofre com a falta de conservação e uma série de problemas estruturais. Até um busto foi roubado da sua entrada principal.

Para completar os problemas, o número de sócios tem caído nos últimos anos. A parceria com a empresa Goal Sports, que cedia jogadores ao clube e durou cerca de dois anos, acabou no começo de 2008. Atualmente, o time disputa apenas competições amadoras e de base dentro da própria região.

O escritor Pedro Teixeira está lançando um livro em que conta as histórias do Olympico e do Ordem e Progresso F.C., outro clube da cidade, que também se tornou centenário em 2014.

O livro conta fatos pitorescos, como este ocorrido com o o jogador Alvinho, do Olympico, que não tinha um braço. Quando foi cobrar um arremesso lateral, o árbitro o advertiu, explicando que a regra diz que o lateral tem de ser cobrado com as duas mãos. (Pesquisa: Nilo Dias)

Olympico F.C., em seus tempos áureos. (Foto: Divulgação)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Cachoeira centenário

O Cachoeira Futebol Clube, da cidade gaúcha de Cachoeira do Sul, foi fundado em 24 de fevereiro de 1914 na residência do estudante Henrique Müller Barros, que mais tarde se tornaria médico no município.

O clube participou dos primeiros campeonatos de futebol organizados no Rio Grande do Sul, fazendo parte da 3ª Região, disputando com equipes de Santa Maria, Tupanciretã, Passo Fundo e Cruz Alta.

Por 11 vezes foi campeão da Zona Centro do Estado, em 1944, 1948, 1951, 1955, 1959, 1962, 1963, 1969, 1971, 1973 e 1975. Das 11 conquistas, sete foram longe do Estádio Joaquim Vidal. Por duas vezes conquistou o vice-campeonato do interior e foi terceiro colocado no Campeonato Gaúcho, em 1944 e 1948. Sua maior conquista foi em 2001, ao sagrar-se campeão da Terceira Divisão do Campeonato Gaúcho.

Alguns grandes momentos do clube: em 1962 foi a primeira equipe a jogar fora do Brasil, depois do bi-campeonato mundial conquistado pela nossa Seleção no Chile. Apenas três dias após, perdeu por 5 X 3 para o Racing, de Montevidéu, no Estádio Centenário, na preliminar de um jogo entre às seleções do Uruguai X Tchecoslováquia, que  reuniu cerca de 60 mil torcedores.

Em 1964, Cachoeira X Racing jogaram novamente, desta feita no Estádio Joaquim Vidal, em Cachoeira do Sul, nas comemorações do cinquentenário do clube vermelho e branco. O Cachoeira venceu por 1 X 0, gol de Carlos Alberto Zinn.

Em 1979 o time foi rebaixado para a Segunda Divisão gaúcha. A crise que se instalou foi o ponto inicial para o fechamento do Departamento de Futebol Profissional em 1982, depois de perder um jogo para o G.A. Farroupilha, de Pelotas, por 4 X 2. Ademir e Zico marcaram os últimos gols do Cachoeira naquela fase.

Em 1999, renasceu das cinzas e voltou ao profissionalismo, com o presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), Emidio Perondi, cedendo às pressões.

Títulos. Vice-Campeonato Gaúcho 2ª Divisão (1978); Campeonato Gaúcho - 3ª Divisão (2001).

Os maiores ídolos da história do clube foram: Italo Patta, jogador, técnico, dirigente e presidente do clube em décadas passadas e Evir Borba, que também defendeu o Guarany F.C., time local extinto, o Grêmio Portoalegrense e o Maringá, onde foi tri campeão paranaense.

Hoje em dia o principal rival do Cachoeira F.C. é o São José, também de Cacheira do Sul, que fazem o clássico conhecido como “Ca-Sé". Em décadas passadas tinha o clássico com o Guarany, chamado de "Gua-Ca". (Pesquisa: Nilo Dias)


Foto enviada pelo pesquisador Douglas Marcelo Rambor.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O rei da pequena área

  
Christian Rogélio Benitez Betancourt, o “Chucho”, como era mais conhecido, foi um dos melhores jogadores surgidos no futebol do Equador, em todos os tempos. Ele nasceu em Quito, no dia 1 de maio de 1986 e faleceu em Doha, no Qatar, dia 29 de julho de 2013, após sofrer uma parada cardiorrespiratória. Jogava pelo Al-Jaish, e um dia antes de morrer fez sua primeira partida pelo novo clube.

No dia 29 de julho de 2013 às 20h30min Benítez deu entrada no hospital de Doha, com fortes dores que foram atenuadas com sedativos. Havia suspeita de apendicite. Porém, o jogador não teve atendimento médico indicado, acabando por falecer devido a uma peritonite. Em 2007 ele havia se casado com Liseth, filha do futebolista Cléber Chala. Tiveram dois filhos gêmeos em agosto de 2009.

Começou a carreira jogando nas categorias de base do El Nacional, em Quito. Em 2007 se transferiu para o Santos Laguna, do México, clube onde ganhou o “Tequilão” em 2008 e o prêmio de “Melhor Jogador do Clausura 2008”. Em 2007, ele já havia recebido o prêmio de melhor jogador do Equador, atuando fora do país.

Na temporada 2009-2010 esteve emprestado ao Birminghan City, da “Premier League”, da Inglaterra, mas em razão de problemas médicos voltou logo ao Santos Laguna, onde foi apelidado de o “rei da pequena área” e teve oportunidade de aprimorar o cabeceio, a movimentação e a conclusão.

O Santos Laguna, com a chegada de “Chucho” e de Vicente Matías Vuoso, conheceu uma rápida ascensão, com vitórias sobre vários grandes clubes mexicanos. Ele foi considerado um dos melhores atacantes estrangeiros no campeonato mexicano ao lado de Giancarlo Maldonado, Humberto Suazo, Salvador Cabañas e Hector Mancilla.

Em 2008 o clube mexicano chegou a receber uma proposta do Benfica, de Portugal, pelo jogador, mas não quis vendê-lo. E fez bem, pois na temporada “Chucho” marcou 10 gols pelo seu time, sendo fundamental na conquista do título.

Tudo na carreira de Benitez aconteceu muito rapidamente. Talvez porque o talento tivesse vindo de berço. O seu pai Ermen Benitez, que também começou a carreira no El Nacional, foi um dos maiores artilheiros da história do país nos anos de 1980 e 1990, e jogador da Seleção. Nos cinco clubes que jogou em 16 anos de carreira, marcou 191 gols.

“Chucho”, com 20 anos de idade participou de uma Copa do Mundo, tendo entrado em campo por alguns minutos no jogo contra a Alemanha. Jogou na seleção equatoriana de 2006 a 2013, tendo marcado 24 gols em 61 jogos, o terceiro maior goleador atrás apenas dos históricos Delgado (31) e Eduardo Hurtado (26). Pela idade que tinha e o ritmo que vinha desempenhando, todos acreditavam que chegaria logo ao posto de maior artilheiro da Seleção.

“Chucho” foi artilheiro do campeonato mexicano por quatro vezes. A primeira foi pelo Santos Laguna, em 2010. Depois, jogando pelo América, no Apertura 2012, Clausura 2012 e Clausura 2013. Pelo América foi campeão do Clausura 2013.

A transferência de Benitez para o América foi a mais cara da história do futebol mexicano, cerca de 10 milhões de dólares. No jogo de estréia pelo América, em 24 de julho de 2011, marcou um gol na vitória por 2 X 1 frente o Querétaro.

Em 2013 foi vendido para o Al-Jaish do Catar, em uma transação milionária, estimada em 15 milhões de dólares e se transformando no jogador mais bem pago do país. No meio do ano passado teve a carreira interrompida com mais de 150 gols em cerca de 360 partidas. Deixou um casal de filhos. E uma nação órfã de seu goleador.

Títulos conquistados. Pelo El Nacional: Serie A Clausura (2005 e 2006); Santos Laguna: Primera División Clausura (2008 e 2013); Club América: Liga Mexicana Clausura (2013); Seleção Equatoriana: Copa Desafío Latino (2007).

Prêmios Individuais. Artilheiro do Campeonato Mexicano de 2010 pelo Santos Laguna;Artilheiro do Campeonato Mexicano Apertura (2010-14 gols e 2012-11 gols); Artilheiro do Campeonato Mexicano Clausura (2013-17 gols); Melhor jogador da Liga Mexicana (2008 e 2012) e Bota de Ouro da Liga Mexicana (2010, 2012 e 2013). (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 29 de abril de 2014

O “Gaúcho da Copa”

O Brasil inteiro sabe quem é o “Gaúcho da Copa”, o homem que corre o mundo seguindo a Seleção Brasileira de Futebol. Seu nome é Clóvis da Costa Fernandes, 58 anos, comerciante em Porto Alegre, casado e pai de quatro filhos. Com justiça é reconhecido como o mais autêntico embaixador do Rio Grande do Sul em Copas do Mundo.
Ele vai pilchado aos jogos do Brasil, com o chapéu repleto de “pins” e uma réplica da Copa do Mundo nas mãos. O bigode e a taça da Copa do Mundo continuam com ele, mas já dão sinais dos tempos: completamente grisalho, o bigodão que já foi preto agora é cinza, e a taça já mostra sinais de desgaste, principalmente na base de madeira.

Nascido e criado no interior do Estado, Clóvis, ainda guri, lembra que em 1958 seu pai soltava foguetes no meio do mato, para comemorar a conquista da Seleção Brasileira na Suécia. Embora não fosse um torcedor dos mais entusiasmados, não tinha preferência por nenhum time, sempre acompanhava pelo rádio os jogos da Seleção Brasileira.

Em 1962, já mais crescido, Clóvis recorda da alegria de seu pai com o bicampeonato, conquistado no Chile. Ele viveu tudo isso ao lado dele. Em 1990, já casado, resolveu dar um presente para ele mesmo. E falou para a esposa, que estava com vontade de dar uma “esticada” até Milão, na Itália, para ver a Seleção Brasileira jogar a Copa do Mundo.

Tudo começou quando uma emissora de TV de Porto Alegre apresentou uma matéria sobre a Copa do Mundo de 1990 na Itália. Ali estava tendo início uma viagem emocionante. Clóvis Acosta Fernandes, então com 35 anos, foi fundo em seu sonho de assistir de perto a principal competição de futebol do planeta.

Mas antes, teria que fazer um pequeno favor para a sua esposa Débora: comprar um piano alemão. Somente com esta condição, ela o deixaria viajar para a Itália.

Não deu outra. Comprou o piano e 30 dias depois desembarcava no aeroporto de Milão para dar início a uma história de paixão pela Seleção Brasileira. Conta que essa sua primeira viagem foi  difícil, pois além de não conhecer ninguém, não tinha noção de como seria tudo.

Chegando em Milão, pegou um trem para Turim, onde se encontrava o time nacional. Como chegou 30 dias antes de todos, pode conhecer muita coisa. Garante que hoje conhece Turim, como Porto Alegre. Como não tinha nada para fazer, caminhava a pé por praticamente todas as ruas.

Nos primeiros dias em Turim pensou em trabalhar em alguma pizzaria para aprender, pois na época ele era proprietário de uma em Porto Alegre. Mas não levou a idéia adiante. Resolveu então apenas passear e fazer amizades. Uma destas amizades em 1990 foi com um gerente do Banco Nacional do Trabalho de Turim.

O “Gaúcho” lembra que ao chegar no banco para comprar ingressos para os jogos do Brasil, ficou impressionado com a grandiosidade do local. Entrou todo desconfiado, vestindo os trajes típicos do Rio Grande do Sul e todos ficaram olhando para ele.

De repente, apareceu um homem na sua frente perguntando, com português arranhado se ele era gaúcho de Porto Alegre. Ao responder que sim, ele disse: “Você precisa fazer um churrasco para mim”. Como churrasco é uma das especialidades do “Gaúcho”, o gerente do banco no outro dia mandou buscá-lo no hotel, com direito a motorista e tudo, para fazer o tal churrasco.

A única grande decepção que teve nessa sua primeira Copa do Mundo foi o resultado desastroso da seleção treinada por Sebastião Lazaroni, que foi eliminada nas oitavas-de-final pela Argentina, de Diego Maradona.

E de lá para cá não parou mais. Embora não beba nada de álcool, garante que é a sua cachaça, o seu vício. E sem esquecer o chimarrão. Sempre leva muita erva-mate em suas viagens.

O “Gaúcho da Copa” já recebeu criticas por ter viajado com dinheiro público, mas ele não se preocupa com isso. Confirma que sempre viaja calcado em parcerias, pois sozinho não tem como bancar os altos custos. No início ele tirava dinheiro de dentro de casa, mas todos o entediam e apoiavam.

Na Copa da África do Sul, ele buscou uma parceria com a Marcopolo, que colocou uma van à sua disposição, que foi devidamente personalizada com as bandeiras do Rio Grande do Sul, do Brasil e da África do Sul no meio das duas brasileiras, como se elas estivessem abraçando o país anfitrião.

Buscou também apoio da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), do presidente Francisco Novelletto, que deu uma passagem de avião. O Governo do Estado, gestão Yeda Crusius, bancou 19 diárias, no valor de 350 dólares, cada, para o “Gaúcho” assistir a Copa da África do Sul. O dinheiro foi utilizado para pagamento de alimentação e hospedagem. Ele era CC da Secretaria Estadual de Relações Institucionais.

O “Gaúcho” faz parte de um grupo de trabalho, de um comitê criado pelo governo do Estado, que entrou em contato com todas as autoridades na África, levando um material muito bonito do Estado, DVDs trilíngues mostrando todo o potencial turístico, industrial, comercial, toda a força do Rio Grande do Sul. E o “Gaúcho” levou também DVDs de Porto Alegre, para que as pessoas começassem a olhar para a cidade com mais carinho.

Mas não é só a Seleção Brasileira que mora no coração do “Gaúcho”. Também é torcedor apaixonado do Grêmio Porto Alegrense.

Nas suas andanças pelo mundo, Clóvis sempre traz para casa alguma coisa diferente. Não coleciona nada, e procura fazer trocas com pessoas de outros países. Também diz o destino que dá aos chapéus, garantindo que cada um deles tem certo período de vida.

Coloca-os dentro de uma caixa de vidro junto com um pendrive, ou DVD com as fotos que tirou das diversas autoridades mundo afora, e presenteia alguma entidade filantrópica, para que faça uma rifa, um sorteio, e arrecade fundos.

Otimista com a realização da Copa no Brasil, o “Gaúcho” acredita que mais de um milhão de pessoas estarão em visita ao nosso país, no período dos jogos. Ele esteve na Copa da Alemanha, que faz divisa com nove países, onde compareceram mais de 2 milhões de turistas. Como o Brasil faz divisa com 11, pode-se pensar com otimismo. Além do Brasil ser conhecido como o país do futebol

Tendo por base as suas próprias andanças mundo afora, o “Gaúcho” tem convicção de que pessoas de todas as nacionalidades têm vontade de conhecer o Brasil. E a razão é agora, com a realização da Copa do Mundo.

Quem viaja tanto, sempre se depara com situações cômicas ou trágicas. Pagar “mico” é comum. As dificuldades são muitas, a começar pela língua. Na Copa da Coréia, os torcedores brasileiros fizeram amizade com voluntários, que muito os ajudaram. Até um jogo de futebol fizeram com os voluntários, que mereceu cobertura da imprensa local.

Eles sempre nos falavam sobre a carne de cachorro. Queriam que a gente provasse, mas era difícil pois as autoridades a retiraram dos açougues, para evitar protestos, e para que a imprensa não divulgasse isso para o mundo.

Como queríamos de fato conhecer essa “iguaria”, no encerramento da Copa familiares dos voluntários se reuniram em uma fazenda e nos convidaram para um almoço. Era uma mesa comprida, daquelas baixinhas em que a gente senta com as pernas dobradas. O chefe da fazenda apresentou os pratos.

Foi um show, o primeiro era um tal de “howshubouká”. O segundo era um “heikinhanzin”. O terceiro, o “hofsmohal”, preparado com carne de cachorro. O “Gaúcho” disse que provou por educação, mas garante que nunca mais quer repetir a façanha.

Na Copa da França também aconteceu uma passagem no mínimo curiosa. O “Gaúcho” conta que o grupo de torcedores do qual fazia parte, alugou um apartamento em Paris. E logo cedo um dos integrantes foi comprar baguetes e patê. Na França se fabrica os melhores patês do mundo.

De repente, todos que estavam tomando café começaram a correr para o banheiro. Desconfiado, o “Gaúcho” resolver olhar a embalagem do tal patê e aí a surpresa. Era comida para cachorro. Foi muito engraçado. O companheiro achou que tinha comprado patê e se deu mal.

Em todos esses anos que acompanha a Seleção, o “Gaúcho” acha que o jogo final contra a Itália, na Copa de 1994, nos Estados Unidos, foi o mais emocionante que assistiu. Para ele o pênalti que Baggio bateu para fora, foi o grande momento daquela Copa.

Nessa sua segunda Copa, nos Estados Unidos, tudo ficou mais fácil para o “Gaúcho”, que em solo norte-americano, contou com o apoio do seu filho, Frank Damasceno, que lhe ajudou principalmente no inglês.

A sua última viagem acompanhando a seleção brasileira fora do país, foi na África do Sul. Por lá foi tratado como personalidade internacional, dando entrevistas, foi capa do principal jornal do país. Quando chegou ao aeroporto foi cercado por torcedores. Deu autógrafo e apareceu muitas vezes na TV africana.

Católico convicto, ele costuma rezar muito antes e durante os jogos. Lembra do jogo do Grêmio, contra o Náutico, nos Aflitos. Antes da cobrança de um pênalti contra seu time, o “Gaúcho” conta que fechou os olhos e pensou no seu pai. Pediu que ele não o abandonasse, e voltou de lá campeão da 2ª divisão.

A Copa das Confederações, disputada o ano passado, foi a quarta edição em que ele esteve presente. Além das Copas do Mundo, assistiu as Olimpíadas de Londres. A rotina é quase sempre a mesma: pegar um avião, alugar um carro no país sede e cair na estrada estrangeira com a ajuda de um GPS.

O “Gaúcho” já esteve em seis Copas do Mundo. Foram 46 países visitados, 112 jogos da Seleção Brasileira, quatro Copas das Confederações e cinco Copas América. De 1990, para cá, ele esteve presente em todas as competições que a Seleção disputou.

Hoje ele é conhecido e respeitado em todo o mundo. A própria FIFA já reconheceu a sua importância, ao gravar um documentário com ele em novembro de 2013, em Porto Alegre, intitulado “O Gaúcho da Copa é o torcedor símbolo”. Em agradecimento ele retribuiu oferecendo aos visitantes o churrasco e o chimarrão, coisas típicas do Rio Grande do Sul. (Pesquisa: Nilo Dias)

O "Gaúcho da Copa" entrga um brindea presidente Dilma Rousseff. (Foto: Divulgação)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O "Fio de Esperança"

Em 26 de abril deste ano foram completados 8 anos do falecimento do ex-jogador e técnico, Telê Santana da Silva, um dos mais importantes nomes da história do futebol brasileiro. Ele nasceu em Itabirito (MG), no dia 26 de julho de 1931 e faleceu em Belo Horizonte, aos 75 anos de idade, em 21 de abril de 2006, devido a uma infecção intestinal, que desencadeou uma série de outras complicações.

Telê começou a carreira de jogador de futebol em 1945, aos 14 anos, no time do Itabirense Esporte Clube, de sua cidade natal, que tinha a sede próxima de sua casa. E depois no América Recreativo de São João Del Rey, cujo técnico e presidente era o seu pai, caminho para o Fluminense, do Rio de Janeiro.

No tricolor carioca foi contratado depois de ser o destaque de um jogo treino contra o Bonsucesso, em que fez nada menos do que 5 gols. O então diretor de futebol do Fluminense, João Coelho Neto, o “Preguinho”, autor do primeiro gol da Seleção Brasileira em um campeonato do mundo, deu o aval para a contratação.

No Fluminense foi bi-campeão de Juvenis, em 1949 e 1950. Em fevereiro de 1951 foi promovido para os profissionais, tendo sido lançado pelo professor Zezé Moreira, de quem se tornou um grande amigo.

A partir daí teve a oportunidade de mostrar o seu melhor futebol e não largou mais a titularidade. Telê foi um dos ponteiros-esquerdos pioneiros na tarefa de voltar para marcar no meio de campo.

Os torcedores do Fluminense o apelidaram de “Fio de Esperança”, depois de um concurso promovido pelo jornalista Mário Filho, então diretor do “Jornal dos Sports”. “Fio” pelo seu porte físico, magro com apenas 57 quilos. E “Esperança” pela sua habilidade, rapidez, inteligência e aplicação tática.

O concurso surgira como ideia do dirigente tricolor Benício Ferreira. Na época, Telê tinha os apelidos pejorativos de "Fiapo" e "Tarzan das Laranjeiras", em função de seu corpo franzino.

O dirigente achava que o jogador merecia algo mais honroso e deu a ideia ao amigo Mário Filho, que criou o concurso com o tema "Dê um slogan para Telê Santana e ganhe 5 mil cruzeiros".

Mais de quatro mil sugestões foram enviadas à redação do jornal. O locutor esportivo José Trajano conta que seu pai participou do concurso propondo o apelido "A Bola". Três leitores acabaram empatados no primeiro lugar na votação final, com as alcunhas "El todas", "Big Ben" e "Fio de Esperança", que caiu no gosto dos torcedores.

Permaneceu no Fluminense por 14 anos. Do tricolor carioca foi para o Guarani, de Campinas (SP), que na época tinha como presidente o carioca Jaime Silva, que era torcedor do tricolor, o que facilitou sua transferência.

Já no final de carreira, foi de Campinas para o Madureira, do Rio de Janeiro, onde demonstrou seu amor pelo Fluminense. Embora seu time levasse 5 X 1, Telê chorou ao fim do jogo por ter marcado um gol no seu clube de coração. Ainda atuou pelo Vasco da Gama.

Telê jogou 557 partidas pelo Fluminense e marcou 165 gols, se tornando o terceiro jogador que mais atuou pelo clube e seu terceiro maior artilheiro. Como jogador conquistou os seguintes títulos mais importantes: Campeonato Carioca (1951 e 1959); Torneio Rio-São Paulo (1957 e 1960) e a Copa Rio (1952).

Depois de deixar os gramados foi aproveitado como técnico. Começou na categoria de juvenis, do próprio Fluminense, sendo campeão carioca em 1968. No ano seguinte foi guindado a treinador dos profissionais, conquistando o campenato carioca nesse mesmo ano, e formando a base do time que seria campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, em 1970.

Telê foi ainda um defensor dos jogadores do Fluminense, que eram obrigados a entrar e sair do clube pela porta dos fundos. Depois de uma reunião à noite com dirigentes, pediu que abrissem a porta dos fundos para ele. Disseram que como ele não era jogador poderia sair pela entrada social.

Telê recusou-se a fazer isso e pulou o muro, porque não encontrou ninguém para abrir a porta dos fundos.  Anos mais tarde, ao lembrar o episódio Telê disse que foi jogador e o aviso também servia para ele.

Em 1970 Telê foi treinar o Atlético Mineiro, ganhando de cara o certame estadual. Até hoje, é o técnico que mais dirigiu o “Galo”, 434 vezes em jogos oficiais. Entre janeiro e julho de 1973, treinou pela primeira vez o São Paulo, mas foi afastado ao entrar em conflito com os ídolos Paraná e Toninho Guerreiro.

Retornou ao Atlético Mineiro em agosto, substituindo Paulo Benigno. Permaneceu no clube até setembro de 1975, sendo substituído pelo inexperiente Mussula. No primeiro semestre de 1976 assumiu o comando técnico do Botafogo, sem obter os resultados esperados.

Em 9 de setembro de 1976, substituiu Paulo Lumumba no Grêmio , levando-o a recuperar a hegemonia do Campeonato Gaúcho após oito anos de domínio do Internacional. No Grêmio, permaneceu até o fim de 1978.

Em 1979, foi contratado pelo Palmeiras, substituindo Filpo Núñez. Treinou a equipe até fevereiro do ano seguinte, quando foi convidado a comandar a Seleção Brasileira. Foi anunciado oficialmente como treinador da “Canarinho” em 12 de fevereiro de 1980 pelo então presidente da CBF, Giulite Coutinho.

Na Copa do Mundo de 1982, implantou uma forma de jogo que encantou, tanto os torcedores brasileiros, como os do resto do mundo. O time contava com jogadores técnicos como Zico, Sócrates e Falcão, entre outros. Apesar de grande performance, a Seleção foi derrotada pela Itália. Nesta sua primeira passagem, comandou a Seleção em 38 partidas.

Em 1983 foi contratado por altos valores pelo Al-Ahli, da Arábia Saudita, levando com ele os assessores Marinho Peres e Moraci Sant'anna. No clube árabe ganhou todas as competições que disputou. Em novembro de 1984 foi convidado pela CBF para retornar à Seleção, porém o Al-Ahli não o liberou.

Em 23 de maio de 1985 aceitou dirigir a Seleção Brasileira nas Eliminatórias para a Copa do Mundo, substituindo Evaristo de Macedo. Ainda tinha vínculo com o Al-Ahli. Em dezembro desse ano conseguiu rescindir o contrato com o clube saudita.

Em 17 de janeiro de 1986 o dirigente Nabi Abi Chedid, recém-eleito vice-presidente da CBF, confirmou Telê como o treinador para a Copa do Mundo de 1986. Na competição mundial realizada no México, Telê buscou valorizar a experiência e montou um time com jogadores que atuaram em 1982, alguns já em fim de carreira.

A Seleção foi eliminada da Copa de forma invicta, em uma disputa de pênaltis com a França. A partir dai o técnico passou a conviver com a pecha de “pé frio" por parte da imprensa brasileira.

Telê voltou a carreira em 7 de agosto de 1987, novamente no Atlético Mineiro, onde ficou até outubro de 1988, quando saiu para assumir o Flamengo, do Rio de Janeiro. Começou com uma goleada do rubro-negro frente o Guarani, de Campinas, por 5 X 1, em 23 de outubro.

Ficou no clube da Gávea até 19 de setembro de 1989, depois de uma discussão com o jogador Renato Gaúcho. Voltou ao Fluminense em 29 de outubro, ficando até o fim do ano. Em 14 de maio de 1990 assinou contrato com o Palmeiras, substituindo Jair Pereira. O alviverde foi o único clube em que Telê não ganhou nenhum título.

Ainda nesse ano foi comentarista dos jogos da “Copa do Mundo” pelo Canal SBT. Permaneceu no alviverde paulista até 16 de setembro, quando foi demitido após uma derrota para o Bahia, em pleno Parque Antártica.

Em 12 de outubro daquele ano o São Paulo o contratou. No clube do Morumbi ficou até 1996, tendo conquistado duas vezes a “Taça Libertadores da América” e a “Copa Intercontinental de Clubes”. Telê, chamado no São Paulo de “Mestre”, é até hoje considerado o melhor treinador que o clube teve em toda a sua história.

Em janeiro de 1996, após sofrer uma isquemia cerebral, teve que abandonar o futebol e viu a sua saúde debilitar-se bastante, com problemas na fala e na locomoção, entre outros. Apesar de debilitado, acreditava que poderia voltar a trabalhar e, nos dias de mau humor, culpava a família por "impedi-lo". No começo de 1997, chegou a fechar contrato para ser o técnico do Palmeiras, mas seus problemas de saúde impediram que assumisse o cargo.

Após sua morte, recebeu diversas homenagens, entre as quais: “Troféu Telê Santana”, de Minas Gerais; “Estádio Mestre Telê Santana da Silva”, em Duque de Caxias; “Hotel Concentração Telê Santana”, no “Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras”, do Fluminense; e uma rua no bairro Cachoeira, em Curitiba, além de um busto no Mineirão, em 2008.

Em livro, foi publicado, em 2000, “Fio de Esperança — Biografia de Telê Santana”, com base em entrevistas dadas por ele ao jornalista André Ribeiro, e “Telê e a Seleção de 82 – Da Arte à Tragédia”, de Marcelo Mora. Em filme, foi lançado em 2009 o documentário “Telê Santana: Meio Século de Futebol-Arte”, dirigido por Ana Carla Portella e Danielle Rosa.

Títulos, como jogador. Fluminense: Campeão Carioca de Juvenis (1949 e 1950); Campeão Carioca de Profissionais (1951 e 1959); Copa Rio (1952); Campeão do Torneio José de Paula Júnior, em Minas Gerais (1952); Campeão do Torneio Início do Campeonato Carioca (1954 e 1956) e Campeão do Torneio Rio-São Paulo (1957 e 1960).

Como treinador. Fluminense: Campeão Carioca de Juvenis (1968); Campeão da Taça Guanabara (1969); Campeão Carioca (1969). Atlético Mineiro: Campeão Mineiro (1970 e 1988); Campeão Brasileiro (1971). Grêmio: Campeão Gaúcho (1977); Al-Ahli, da Arábia Saudita: Campeão Saudita (1983-84); Campeão da Copa do Rei Árabe (1982-83) e Campeão da Copa do Golfo (1985).

Flamengo: Campeão da Taça Guanabara (1989); Campeão da Copa Porto de Hamburgo, Alemanha (1989) Campeão do Troféu Clássico das Multidões (1989) e Campeão do Troféu Seis Anos da Rede Manchete (1989).

São Paulo: Campeão da Copa Intercontinental (1992 e 1993); Campeão da Copa Libertadores da América (1992 e 1993); Campeão da Supercopa Libertadores (1993); Campeão da Recopa Sul-Americana (1993 e 1994); Campeão Brasileiro (1991); Campeão Paulista (1991 e 1992); Campeão do Troféu Cidade de Barcelona – Espanha (1991 e 1992); Campeão do Torneio Ramón Carranza – Espanha (1992); Campeão do Torneio Tereza Herrera – Espanha (1992); Campeão do Troféu Cidade de Santiago – Chile (1993), Campeão do Torneio Santiago de Compostela – Espanha (1993); Campeão do Torneio Jalisco – México (1993); Campeão do Torneio Cidade de Los Angeles – EUA (1993); Campeão da Taça San Lorenzo de Almagro – Argentina (1994); Torneio Rei Dadá (1995) e Campeão da Copa de Clubes Brasileiros Campeões Mundiais (1995).

Prêmios individuais: Belfort Duarte, que homenageava o jogador de futebol profissional que passasse dez anos sem sofrer uma expulsão, tendo jogado pelo menos 200 partidas nacionais ou internacionais. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Garrafões e fitinhas

Nos anos 50 muitos clubes de futebol, especialmente das cidades pequenas, faziam de tudo para conseguir recursos que permitissem se manterem com certa tranquilidade. Lembro que na minha terra natal, a pequena Dom Pedrito, na zona de campanha do Rio Grande do Sul, os dois principais clubes da cidade, na época, E.C. Cruzeiro e Botafogo F.C., se superavam em termos de criatividade.

Nos jogos nos estádios Floribal Jardim, do Botafogo e no do Cruzeiro, não tinha jeito do torcedor escapar. Além do ingresso do jogo, era assediado por bonitas meninas, para colocar na lapela um alfinete com fitinhas com as cores do seu clube.

O Cruzeiro era azul e branco e o Botafogo vermelho, azul e branco. E como se isso não bastasse, ainda tinha um grande garrafão de vidro a espera de qualquer contribuição.

Fora dos dias de jogos, os torcedores juntavam garrafas vazias nas ruas e entregavam ao clube que as vendia. Tinha também o “Livro de Ouro”, que passava de casa em casa na incessante busca de recursos. Isso sem falar nas intermináveis rifas. Havia venda de votos para escolha da rainha do clube. E também um quadro social e “carteio” nas sedes.

O meu tio Quintino Tavares, já falecido, mais conhecido por "Violão", era quem cuidava da sede do E.C. Cruzeiro e organizava os "carteios", que na época se constituíam na mais forte fonte de renda do clube.

Creio que essas idéias bastante criativas no passado, viraram raridades hoje em dia. Talvez um ou outro clube, em lugares mais pobres e distantes do país, ainda as utilizem. Hoje existem outras maneiras mais modernas dos clubes pequenos  buscarem dinheiro.

Ajuda das prefeituras, quadro social, publicidade nos muros dos estádios, bingos, sorteios, participações em Loteria Esportiva, jantares, bailes, recolhimento de latinhas de bebidas, etc.

Já os chamados clubes grandes, gozam de outros métodos menos trabalhosos para conseguirem dinheiro. Recebem recursos das transmissões de Televisão, de empresas, quadro social, loterias e exploração de seus estádios.

Durante muitos anos participei de direções de clubes de futebol em São Gabriel (RS). Fui presidente da S.E.R. São Gabriel por seis períodos. As dificuldades eram imensas, os recursos mínimos.

Geralmente os campeonatos eram disputados no inverno e a chuva corria os torcedores do estádio. Tinha que se fazer das “tripas coração”, para conseguir o dinheiro para pagar a arbitragem.

É verdade que a prefeitura quase sempre ajudava, dando o transporte para os jogos fora de casa e uma ajuda mensal em dinheiro. Se conseguia no máximo uns 500 sócios, mas era uma “briga” danada” para receber de todos. Acabava não valendo a pena.

Em algumas viagens, quando o dinheiro estava curto, quase sempre, se levava um panelão no ônibus, com comida pronta. As vezes um carreteiro, outras macarrão com galinha. E o lanche, sanduiches e refrigerantes eram geralmente doados por um supermercado da cidade. E também se distribuia frutas, gentilezas de comerciantes locais.

Para concentrar os jogadores antes dos jogos, sempre se podia contar com as unidades militares existentes na cidade e com os alojamentos da Estação Experimental de Forrageiras. Os quartéis muitas vezes emprestavam beliches, colchões e até roupas de cama para os atletas vindos de fora.

Algumas vezes também se contava com a boa vontade de donos de restaurantes e hotéis que concordavam em “adotar” um ou dois atletas. O atendimento médico e hospitalar nunca foi problemas, nem o uso de uma ou outra academia para exercícios físicos.

A S.E.R. São Gabriel e o G.E. Gabrielense, clubes que participei de Diretorias em São Gabriel, ainda conseguiam auxílios importantes. Mas o que dizer de clubes de outras pequenas cidades em Estados mais pobres, por exemplo, do Norte e Nordeste do país?

Se a situação da maioria dos pequenos clubes é dramática, imaginem dos jogadores. Na S.E.R. São Gabriel, muitas vezes não havia salários estipulados. Os pagamentos aos jogadores era feito com a sobra das rendas de jogos. E nem sempre sobrava alguma coisa.

De acordo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), dos 30.784 jogadores registrados no país, atualmente, 82% recebem até dois salários mínimos. Nesse grupo, estão inclusos os atletas que jogam sem nenhuma remuneração. (Texto: Nilo Dias)


As fitinhas com as cores dos clubes, eram vendidas nos portões dos estádios.

sábado, 19 de abril de 2014

A imprensa esportiva está de luto

Morreu na tarde de hoje, aos 67 anos de idade, um dos mais conhecidos narradores de futebol do Brasil, Luciano do Vale Queirós, nascido em Campinas (SP), no dia 4 de julho de 1947. Ele sentiu um mal súbito dentro do avião, quando se dirigia para Uberlândia (MG), onde amanhã faria a narração do jogo Atlético Mineiro X Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro.

Ainda deu tempo de ser levado a um hospital de Uberlândia, onde morreu às 16h15min. Ao que se sabe, o locutor já sofria com problemas de saúde. Em início de 2012 ele teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC), que o obrigou a passar por sessões de fonoaudiologia, para reaprender a falar.

Luciano tentou voltar às atividades profissionais em um jogo entre Santos x Palmeiras, mas a doença não permitiu que fizesse a transmissão com êxito, errando quase tudo e virando motivo de chacota nas redes sociais.

Somente um ano depois do ocorrido e ainda com a saúde debilitada, é que revelou a existência do AVC. Mesmo assim continuou a narrar futebol, comandando sempre a partida principal do fim de semana na Band.

Tempos depois foi operado da bexiga e em consequência não pode participar das transmissões da Olímpíada de Londres, em 2012. Seu último trabalho foi na decisão do Campeonato Paulista deste ano, quando narrou a vitória nos pênaltis do Ituano sobre o Santos.

Luciano do Vale começou a carreira de locutor esportivo na Rádio Brasil, de Campinas, em 1963, quando tinha apenas 16 anos de idade. Também trabalhou na Rádio Educadora, de sua cidade natal.

Em 1967 foi morar em São Paulo e integrou a equipe de esportes da Rádio Gazeta, a convite de Pedro Luiz, famoso narrador da época. Mas ganhou destaque trabalhando na Rádio Nacional, de São Paulo, onde participou da cobertura da Copa do Mundo do México, em 1970.

Em 1971, já um narrador consagrado, chamou a atenção da Rede Globo, que o contratou para substituir Geraldo José de Almeida, um dos monstros sagrados da narração esportiva do país. Sua primeira transmissão na nova emissora foi um jogo de basquete masculino, válido pelo “Troféu Governador do Estado de São Paulo”.

A partir daí se tornou o principal locutor esportivo da TV brasileira, transmitindo os mais importantes jogos de futebol no país e no exterior, e também corridas de Fórmula 1, contando as vitórias de Emerson Fittipaldi.

Ele narrou com exclusividade para a Rede Globo a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, quando a emissora bateu todos os recordes de audiência no jogo Brasil X Itália.

Calcula-se que mais de 90 % dos aparelhos de TV ligados no Brasil naquela tarde, estavam sintonizados na Globo. Foi a partir da voz dele que o Brasil sofreu com os gols de Paolo Rossi no fatídico jogo que tirou a Seleção do Mundial da competição.

Foram 11 anos na emissora de Roberto Marinho, com duas Copas do Mundo (1978 e 1982) e duas Olímpíadas (1976 e 1980). Após a Copa do Mundo foi para a Record, onde ficou de 1982 a 1983. De 2003 a 2006, teve nova passagem pela emissora.

Ao sair da Record pela primeira vez, assumiu a direção do Departamento de Esportes da TV Bandeirantes, onde trabalhou de 1983 a 2003. A sua segunda passagem na Band foi no período de 2006, até hoje. Pela emissora transmitiu sete Copas do Mundo (1986, 1990, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010).

Em 2006 foi o apresentador do programa “Apito Final”, levado ao ar durante a Copa do Mundo e narrador dos principais jogos daquela competição, pelo Canal Band Sports. Graças a ele a emissora cresceu em audiência.

Luciano ajudou no desenvolvimento de diversas modalidades esportivas que antes não tinham espaço na TV brasileira, como o próprio Voleibol. Graças ao seu trabalho na TV Record o Brasil se tornou uma pujança mundial no esporte, consagrando uma geração de atletas como Bernard, William, Montanaro e Renan.

Já na TV Bandeirante ele promoveu o histórico jogo de Voleibol entre às Seleções do Brasil e da União Soviética, em 1983, numa quadra improvisada em pleno gramado do Estádio do Maracanã. O evento foi um sucesso, já que 97.325 pessoas pagaram ingresso. Foi o maior público a assistir um jogo de Voleibol no país, até hoje.

Foi ainda um incentivador da Fórmula Indy de Automobilismo, abrindo portas para que diversos pilotos brasileiros entrassem nesse tipo de competição. Em 1989 foi brilhante ao contar a vitória de Emerson Fittipaldi nas 500 Milhas de Indianápolis.

Ao final dos anos 80 Luciano do Vale montou a Seleção Brasileira de Masters, da qual era treinador, formada por craques veteranos, que fez muito sucesso. Entre outros jogavam Luís Pereira, Edu, Dario, Cláudio Adão, Rivellino, Ado, Nunes e Dicá.

Luciano transformou a Band numa emissora ligada ao esporte, ganhando o slogan de "Canal do Esporte". Aos domingos era levado ao ar o programa de longa duração “Show do Esporte”, em que era dada ênfase aos mais variados tipos de esportes como jogo de sinuca, boxe, automobilismo e esportes olímpicos.

Nos meses de verão costumava promover várias modalidades de esportes de praia. Foi ele que abriu espaço para Hortência e Paula do basquete feminino, que juntas, ganharam o Pan de 1991 em Havana e o título mundial de 1994. Ele, lógico, narrou as duas conquistas.

Deu força ao futebol feminino, alavancou a carreira do lutador de boxe de Maguila, e deu o início às transmissões da NBA, da Fórmula Indy e do futebol americano no Brasil. Nos últimos anos reduziu drasticamente suas atividades empresariais, tendo se dedicado somente a narração de futebol. (Pesquisa: Nilo Dias)

Luciano do Vale foi um dos grandes nomes da imprensa esportiva brasileira. (Foto: Divulgação)