Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Carruíra, “El Maestro”

João Baptista Ferraretto, o “Carruira”, um dos grandes jogadores oriundos do futebol da cidade gaúcha de Rio Grande, sempre foi amador, e garantia que nunca recebeu dinheiro para jogar.

Em 1937 deixou o S.C. Rio Grande e foi para o F.B.C. Rio-Grandense, juntamente com “Cazuza”. E fato curioso, o seu novo clube, que desde 1921 não vencia um certame, conquistou os campeonatos de 1938, 1939 e 1940.

Em 1944 retirou-se dos gramados, voltando em 1946 como técnico do Rio-Grandense. Sua atuação como treinador foi a mais proveitosa, pois conseguiu levar o time ao vice-campeonato estadual, com um time formado em parte por jogadores que foi buscar na várzea.

O Rio-Grandense bateu o Brasil, de Pelotas, o Floriano, de Novo Hamburgo e o Grêmio Santanense. Faltava o Grêmio, de Porto Alegre, mas como os tricolores constituíam a base do Selecionado Gaúcho em organização, a decisão do Estadual foi deixada para depois do Campeonato Brasileiro, em 1947.

Entrementes, “Carruira” foi dispensado da direção técnica. “Essa foi a grande gratidão ao meu trabalho”, desabafou ele, na época. E quando o Rio-Grandense, no início de 1947 voltou ao certame com novo técnico, foi eliminado pelo Grêmio, que assim, obteve o Campeonato Estadual de 1946.

“Carruira” disse que nunca se emocionou tanto no futebol, como quando conquistou o Campeonato Riograndino de 1922, pelo General Osório, que venceu o São Paulo por 3 X 1. “Carruíra” marcou um gol, e seu irmão, “Carruirão”, os outros dois.

“Carruíra” ganhou os títulos de Campeão do Estado, em 1936, pelo S.C. Rio Grande; em 1939, pelo F.B.C. Rio-Grandense, clube que lhe deu também os vices-campeonatos estaduais de 1937 e 1938 e, como técnico, de 1946. Foi ainda campeão de Rio Grande em 1922, pelo General Osório.

Nos 25 anos em que atuou por equipes das Divisões Principais do Estado, um recorde dificil de ser batido, conheceu grandes jogadores: Fruto, no S.C. Rio Grande; Mário Reis, no S.C. Pelotas e Lara, no Grêmio Portoalegrense.

O jornal “O Tempo”, de Rio Grande, edição de 30-12-1949, publicou a seguinte legenda, em uma fota de “Carruíra”: “Eis o maior de todos! A maior glória do S.C. Rio Grande, no tempo do esplendor do futebol papareia. Quando “Carruíra” aparecia em campo, milhares de olhos convergiam para a sua figura, que durante o jogo era um astro brilhando demais entre os outros”. (Matéria publicada no extinto jornal “Diário de Notícias”, de Porto Alegre e nos enviada pelo pesquisador Douglas Marcelo Rambor, de Três Coroas-RS.)

Também me vali do amigo Luiz Ernesto Ferraretto, sobrinho de "Carruíra", riograndino de nascimento e que reside há mais de 35 anos em Canoas (RS) e que gentilmente me passou valiosas informações. Ele tem 60 anos de idade, e como não poderia deixar de ser é um apaixonado por futebol, torcedor gremista e do “veterano” Sport Club Rio Grande, o time mais velho do futebol brasileiro em atividade.

Luiz Ferraretto chegou a jogar nos juvenis do “tricolor” riograndino em 1971, mais para manter uma tradição familiar, do que para fazer carreira. Para minha alegria, ele conta que chegou a ler artigos e matérias que publiquei nos antigos jornais “Folha da Manhã” e ”Folha da Tarde Esportiva”, nos tempos em que trabalhei na Empresa Jornalística Caldas Júnior, Sucursal de Rio Grande.

E também já visitou meus blogs www.nilodiasreporter.blogspot.com e www.reliquiasdofutebol.blogspot.com o que me deixa mais feliz, ainda. Conta que sabe de algumas coisas interessantes dos bons tempos do futebol riograndino, em especial de 1963 a 1968, quando o S.C. Rio Grande tinha um grande time. Costumava ir aos jogos com o seu pai e diz ter muitas saudades dos estádios “Arthur Lawson” e “Torquato Pontes” lotados e das narrações vibrantes do Paulo Corrêa e do Volni Dutra.

A família Ferraretto era toda muito ligada ao S.C. Rio Grande. Não perdiam por nada a tradicional “ceia veterana“, onde anualmente é celebrado o aniversário do clube e até hoje é realizada. Embora ainda “guri”, Luiz ia ao evento junto de seu pai e do seu tio.

E nas andanças pelo futebol daqueles anos memoráveis, teve a oportunidade de conhecer o famoso zagueiro “Fruto” e o inesquecível centro-médio “Tocco”, que foram ídolos do “veterano” e campeões gaúchos de 1936, num passado mais distante. Eles estavam sempre no antigo pavilhão do “Estádio das Oliveiras” como torcedores.

Também lembra de outro campeão, Ernestinho Ernest, que era vizinho dos Ferrarettos, que moravam na rua Francisco Marques e ele na Barão de Cotegipe. O velho “Chinês”, pai do craque “Chinesinho” e o seu Pesce, remanescentes de 1936, tinham uma casa de revistas, “A Gioconda”, parece que na Andradas ou Zalony.

O craque Mário Reis, do E.C. Pelotas frequentava a casa de primos de seu pai, Zeferino, em Pelotas. Todos eram amigos. E muitas vezes iam juntos assistir jogos da “Divisão Especial”, fosse em Rio Grande ou pelo interior, em excursões.

Até hoje Luiz lembra do primeiro jogo do Rio Grande que assistiu. O clube recém havia ganho o “Torneio da Morte”, da 2ª Divisão de Profissionais, contra o São José, de Porto Alegre,  em 1962. Foi em 1963, vitória de 5 X 2 frente o então Floriano, de Novo Hamburgo. O Nico, que na época jogava no “tricolor” fez dois ou três gols, se lesionou e tempos depois foi para o Rio-Grandense.

Em seu Lugar entrou Alcindo, o “Bugre”, emprestado Pelo Grêmio. No retorno ao clube da capital fez grande sucesso, inclusive participando de uma Copa do mundo pela Seleção Brasileira, em 1966, na Inglaterra. O time “veterano” era este: Caetano – Motini – Galego - Kim e Pedro - Lambari e Jadir – Celmar – Jesus - Alcindo e Luisinho. Um timaço, que acabou em 5° lugar no “Gauchão”.

Voltando ao foco principal deste artigo, Luiz Ferraretto conta que os “Carruíras” eram quatro, seu pai, Zeferino Luiz Ferraretto, volante, ou center half como era chamado no passado, os tios Vitor Modesto, goleiro, Arthur, meia atacante e João Baptista, atacante.

O “Carruira” que ganhou fama foi João Baptista Ferraretto, chamado de “El Maestro”, campeão estadual pelo Rio Grande em 1936 e pelo Rio-Grandense, em 1939.

Luiz conta coisas que ouviu do próprio tio. João Baptista Ferraretto, o “Carruíra”, nasceu em Rio Grande, no dia 22 de novembro de 1906. Filho do imigrante italiano, natural de Schio, Ernesto Ferraretto e de Fortunata Enderle Ferraretto. Era o terceiro, de nove irmãos, quatro homens e cinco mulheres.

Cresceu na Avenida Rheingantz, onde sua família residia no prédio de número 60, uma das casas que eram ocupadas pelos funcionários da tecelagem onde seu pai trabalhava como mestre-tecelão.

Os quatro irmãos Ferraretto, apelidados de “Carruíra” iniciaram a prática do futebol no General Osório, clube que dominava o futebol riograndino nas décadas de 1920 e 1930. O “Carruíra” que se tornou famoso, tinha apenas 15 anos. Em 1924 foi para o Rio Grande.

Quem os viu jogar dizia que o craque da família era o Arthur, dois anos mais velho que o João Baptista, mas que por problemas de saúde não conseguiu projeção no meio esportivo.

Vitor foi excelente goleiro e Zeferino Luiz, um "center-half" de grande categoria, 10 anos mais novo que o irmão famoso. Todos tiveram passagens pelo Sport Club Rio Grande e pelo Foot-ball Club Rio-Grandense.

“Carruíra”, atacante nato e goleador, já brilhava como exímio cobrador de faltas e pênaltis. No final desse ano transferiu-se para o Rio-Grandense, onde não foi feliz. Um fato inusitado aconteceu com ele em 1925.

Caçado durante todo o jogo num clássico contra o São Paulo, pelo campeonato citadino, quando o seu marcador lhe bateu bastante, terminada a partida, dirigiu-se ao agressor para cumprimentá-lo e quando o mesmo ficou a altura da mão, desferiu-lhe um soco, o que acabou ocasionando uma pancadaria generalizada que lhe rendeu um ano de suspensão.

Em 1927, cumprida a suspensão retornou ao Rio Grande, onde jogou até 1937, tendo sido campeão gaúcho em 1936, num time recheado de craques que contava com Munheco - Fruto e Cazuza - Juvêncio - Sanguinha e Tocco – Ernestinho – Marzol (Souza) – Carruíra - Chinês e Pesce.

Nesse mesmo ano de 1936, começou a ser criada a lenda de que “Carruíra” nunca errou um pênalti. Foi num jogo, no velho estádio das “Oliveiras”, contra a seleção carioca que tinha craques como Zarzur, Afonsinho, Roberto, Carvalho Leite, Feitiço, Patesco e Leônidas Da Silva, o “Pelé” da época, que dois anos mais tarde estariam na Copa da França (1938).

Essa partida por anos afora passou a constituir uma das glórias do Sport Club Rio Grande. No centro do país ninguém da crônica quis acreditar: o time carioca, com mais da metade da Seleção Brasileira apenas conseguiu um empate em 1 x 1, com o S.C. Rio Grande.

Mas a história daquele jogo, que fez vibrar a cidade foi entremeada de lances folclóricos. Tudo começou quando o Rio Grande abriu o escore com dupla cobrança de pênalti por “Carruíra”. O relato do fato consagrou o nome do jogador.

As reclamações dos cariocas surgiram bem antes da cobrança, pois segundo eles não houvera pênalti. Mas a grande encrenca viria após a primeira cobrança. “Carruíra” cobrou, o goleiro "Panela" defendeu e o árbitro tranquilamente apontou para o meio de campo.

“Não viemos aqui para sermos roubados, gritavam os cariocas. E o juiz, imperturbável, confirmou: “Foi gol. O goleiro de vocês defendeu dentro do gol. Bola ao centro”. Seguiu-se um “foi, não foi”, até que o juiz no auge da irritação deu o assunto por encerrado.

“Foi gol e não se fala mais, porque o “Carruíra” nunca errou um pênalti. Irritados com a posição do juiz, os cariocas queriam se retirar de campo e temendo isso, os dirigentes do Rio Grande sugeriram que o pênalti fosse batido de novo.

O juiz aceitou e avisou: “Vai dar no mesmo, “Carruíra” nunca erra”. Dessa vez o goleador correu para a bola e estufou as redes. Ele era mesmo infalível. Carvalho Leite empatou para os cariocas. Faltando 10 minutos para terminar a partida, o juiz marcou novo pênalti contra os cariocas, que ameaçaram outra vez deixar o campo.

A torcida vaiou e pediu a continuação da partida. O presidente do Rio Grande, num ato de cavalheirismo, mandou que o pênalti fosse cobrado para fora. Alguém muito previdente, alertou: “Presidente, não manda o “Carruíra” bater, porque ele nunca erra...” Marzol foi o encarregado da cobrança e como não tinha a tradição de batedor infalível, chutou para fora e o jogo terminou empatado.

“Carruíra” ficou no Rio Grande até 1937, quando se transferiu novamente para o Rio-Grandense onde foi campeão estadual em 1939,  num time que contava com Brandão - Cazuza e Armando – Martinez - Pacheco e Mariano – Osquínha – Cardeal – Carruíra - Chinês e Plá.

Encerrou a carreira em 1944, aos 38 anos de idade. Depois dirigiu técnicamente o F.B.C. Rio-Grandense. E ainda foi durante muitos anos chefe das Oficinas de Manutenção da extinta Viação Férrea do Rio Grande do Sul, onde aposentou-se

Foi casado com a uruguaia Adalila Saavedra Ferraretto, com quem teve dois filhos, que também foram conhecidos como “Carruíra”. Carlos Jorge, o “Carlinhos”, foi ponteiro direito do Rio-Grandense e João Alberto, atacante do Rio Grande e Juventude de Caxias do Sul, na década de 50. Os dois já faleceram.

“Carruíra” até os últimos dias de sua vida acompanhava o futebol no radinho de pilhas, e era torcedor apaixonado pelo Grêmio, como toda a família Ferraretto. Diversas vezes foi convocado para a Seleção Gaúcha. Chegou a receber propostas dos clubes da capital e do centro do pais, mas nunca quis deixar Rio Grande.

Sempre dizia que o melhor jogador de futebol que viu jogar foi Mario Reis, atacante do Pelotas, na década de 30. Quiseram os deuses do futebol que “Carruíra” nos deixasse durante a “Copa do Mundo”, de 1982. Ele faleceu em 26 de junho daquele ano.

“Carruíra” foi uma figura carismática, que tinha frases sobre o futebol que se eternizaram: “Um time de futebol tem que começar pelo goleiro. Ele tem que ser o mais bonito do time”; “A bola tem que ser tratada com carinho, como se trata uma mulher; “Jogador do meio de campo que joga para os lados, não joga nada. Tem de erguer a cabeça, fazer o lançamento e deixar o atacante na cara do gol”; “Ponteiro tem que ir a linha de fundo e cruzar para trás, para pegar o atacante de frente para o gol e os zagueiros de costas”.


F.B.C. Rio-Grandense, de Rio Grande, campeão gaúcho de 1939. "Carruíra" é o terceiro agachado, contando da esquerda para a direita. (Foto: Arquivo de Nilo Dias)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Um negro no futebol japonês

Foi um brasileiro o primeiro negro a jogar futebol no Japão, onde o esporte durante anos foi primazia dos brancos. Dorival Carlos Esteves, de apelido “Kalé”, correu pelos gramados nipônicos de 1968 a 1973. Por lá era conhecido por “Carlos Sam”, que quer dizer “senhor”, em japonês.

Ele deu inicio a carreira nas categorias de base da Ferroviária, de Botucatu (SP). Chegou ao time titular quando o lateral Zé Maria, que era seu amigo e um grande jogador, foi negociado com a Portuguesa de Desportos. Na época a Ferroviária estava na 1ª Divisão do Campeonato Paulista, a atual “Série B”.

Da Ferroviária foi para o Juventus, da capital, onde fez parte do elenco que tinha grandes jogadores, como Milton Buzzeto, Pando, Cabeção, Mão de Onça, Ferreirinha, Virgílio, Nenê, Tanezi, Jair Francisco, Chiquinho, Cosme, Toninho Minhoca, Valdir e Bira, que foi para o México.

Na Rua Javari “Kalé” ganhou experiência, primeiro no time de aspirantes e depois nos profissionais onde jogou algumas partidas, inclusive uma contra o São Paulo, que tinha na época o atacante Paraná.

Edu, do Santos F.C., na opinião de “Kalé” era um ponteiro difícil de marcar, pois costumava se mexer para os dois lados. Não chegou a enfrenta-lo. Já o Nei, do Palmeiras, considerava um jogador diferenciado. O mesmo achava de Kaneco, do Santos, um atacante bastante habilidoso.

Destacou, ainda, “Piau” e Edu Bala, à época na Portuguesa. E foi exatamente num jogo contra a “Lusa”, na Rua Javari, que um olheiro do futebol japonês, o senhor Vicente Hayashida, que era brasileiro, mas trabalhava para o time japonês, esteve presente para lhe observar.

“Kalé” soube da presença do olheiro através do dirigente juventino, Moacir Figueiredo, já falecido. Isso foi em 1968. O jogador tinha apenas 19 anos, havia acabado de fazer o “Tiro de Guerra”, no Exército.

Por pouco “Kalé” não perdeu a chance de ir para o Japão, pois nesse jogo teve uma distensão muscular. Mas mesmo assim foi aprovado, indo para o Yanmar Diesel, de Osaka, Japão, hoje Cerezo Osaka.

Toda a documentação foi feita e “Kalé” fez sua primeira viagem de avião. Foram 28 horas de voo. Conta que ficou meio receoso, mas correu tudo bem. Foi um voo da Varig.

Em terras nipônicas teve destaque como lateral-direito, tendo ajudado o time a conquistar por três vezes a "Chuteira de Ouro", em 1970, 1971 e 1972.

O contrato, na opinião do jogador foi bem feito. Tinha boa moradia, alimentação (café, almoço e jantar) e se constituiu no primeiro jogador de futebol negro e estrangeiro a atuar no Japão.

Havia um negro jogando beisebol, e eles queriam um negro para o futebol e “Kalé” teve a sorte de ser o primeiro deles, se bem que havia o Nelson Yoshimura, mas esse era nissei.

No começo Nelson Yoshimura o ajudou muito. “Kalé” disse que quando se vai morar em outro país, tem que assistir muita televisão, ouvir bastante. Em um ano já conseguia conversar, sair sozinho e se virar sem problema. Até hoje, consegue falar bem o japonês, não esqueceu.

Sobre a alimentação, “Kalé” fala que gostou, tanto que até hoje come sushi e sashimi, que gosta bastante. No Japão se come muita verdura e legumes, muito saudável. Sentiu sua saúde melhorar, principalmente porque por lá usam pouco óleo na comida.

No arroz, eles só usam água para cozinhar. Às vezes comia carne, mas pouco, era muito caro. Sentia falta de comida brasileira, embora as vezes recebesse feijoada em lata, vinda do Brasil. Dava para matar a saudade...

Chegou a jogar no mesmo time que Kunishige Kamamoto, considerado o “Pelé” japonês. “Kalé” garante que ele era um atacante muito bom. Tinha a força do “César Maluco”, mas era mais habilidoso, como o Leivinha. Naquela época ele jogaria tranquilamente em qualquer clube brasileiro.

“Kalé” gostaria de ter enfrentando “Pelé”, mas não o fez. Conta que uma vez estava em uma preliminar, na Vila Belmiro, jogando pelo Juventus, contra o Santos, e viu os titulares chegando.

Estava se encaminhando para cobrar um escanteio e viu o “Pelé”, que estava com uma camisa buclê cor-de-rosa. E o ficou admirando, era o “Rei do Futebol”. Uma vez ele foi ao Japão, fazer alguns amistosos pelo Santos.

“Kalé” foi ousado, conhecia algumas pessoas no hotel em que o Santos estava hospedado e subiu até o quarto do craque. Ele abriu a porta cordialmente, e “Kalé” se apresentou como jogador de futebol e pediu um autógrafo.

“Pelé” estava sozinho no quarto e deu o autógrafo. Depois “Kalé” foi assistir o jogo do Santos no ônibus do próprio time, com os jogadores.

Na Copa de 2002, “Kalé” conta que não assistiu o jogo final contra a Itália, porque estava na concentração com o seu time, que tinha jogo no dia seguinte, e o treinador não liberou para que fossem ao estádio. Mas ainda assim o penta do Brasil acabou valorizando “Kalé”.

Falando sobre o futebol atual, acredita que menos jogadores se destacam, caso de Neymar. Lembra que foi uma pena aquilo que aconteceu em 1982, quando o Brasil tinha um time maravilhoso com Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Júnior, etc.

Destacou também Beckenbauer e Gerd Muller, entre outros. Mas quem lhe chamou mais atenção, e também dos japoneses, foi o Zico. Eles até observaram o Maradona, mas preferiram levar o Zico para jogar lá.

Na opinião de “Kalé”, no futebol japonês o que vem em primeiro lugar não é o jogador, sim o valor do homem. O Zico é um grande homem, uma grande pessoa. Todos ficaram maravilhados com o que ele fez no Japão.

Considera Neymar o jogador que mais pode se aproximar de “Pelé”, se o deixarem jogar. Sobre o técnico Dunga, “Kalé” ressalta que essa é uma situação delicada, a grosso modo, embora respeite o Dunga, pelo jogador que foi, técnico também.

Mas na sua opinião, a CBF teria opções boas, dentro do território nacional, como por exemplo Tite e Muricy, um para ser técnico e outro para supervisor. Mas sem preferência para quem seria o técnico e quem seria o supervisor.

“Kalé” conta que melhorou de vida no Japão, fez aquilo que era possível e também ganhou muitos amigos. Não mostra nenhum arrependimento de ter ido jogar lá.

O jogador faz questão de dizer que foi muito bem tratado pelos torcedores japoneses, não tendo sofrido nenhum tipo de preconceito. Bem ao contrário do Brasil, onde passou por "algumas situações constrangedoras”, que ele enfrentou sem problemas.

Eles tinham curiosidade em ver um negro, principalmente no esporte. Chegavam perto de ”Kalé” e o achavam bonito. O Nelson Yoshimura servia de tradutor e lhe contava o que as pessoas diziam.

Até as torcidas adversárias sempre o respeitaram. Apenas pediam para que o marcassem, porque achavam que era um bom jogador. “Kalé” chegou a ganhar a "Chuteira de Ouro" por três anos consecutivos, como melhor lateral-direito do futebol japonês. (1970/71/72). Os jornalistas esportivos é que participavam da votação.

Certa vez os radialistas Fiori Giglioti e Alexandre Santos, da Rádio Bandeirantes, o entrevistaram sobre a sua experiência no futebol japonês e os prêmios que ganhou. “Kale” acha que essa entrevista foi muito bacana.

Falando sobre a cultura japonesa, disse que é muito diferente da nossa. São dois dialetos e três línguas. A maneira como o povo trata os estrangeiros é maravilhosa.

Depois de encerrar sua carreira, “Kalé” ainda permaneceu no Japão, contratado por uma empresa para ensinar garotos a jogarem futebol. Ele estava em Kobe, quando a cidade foi abalada por um forte terremoto em 17 de janeiro de 1995.

“Kalé” lembra que tudo começou às 5h45, de maneira lenta, mas foi aumentando. Ele teve que se proteger embaixo da mesa do apartamento. Tudo voava. O tremor foi de 7,2 graus, na Escala Richter. Perdeu amigos na catástrofe.

Depois que saiu as ruas viu os japoneses em pânico, crateras se abrindo, postes caindo, explosões de gás, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Parecia um filme.

Quando voltou ao apartamento para pegar seus documentos, os degraus balançavam e estava tudo destruído. Desceu com uma mala, com os objetos mais importantes e foi a pé até a cidade de Omeda.

Não havia telefone funcionando, um caos. Depois conseguiu falar com os familiares, que estavam muito preocupados. Foi restituído de tudo o que perdeu, até por um trem que atrasou, logo após o terremoto.

Depois, quando já estava de volta ao Brasil, o governo japonês depositou cerca de 10 mil dólares na sua conta corrente. Eles tem uma grande estrutura para atender as pessoas nesses casos.

Atualmente, com 68 anos de idade, “Kalé” mora em Americana, interior de São Paulo, e trabalha em uma empresa de transportes. (Pesquisa: Nilo Dias)


quinta-feira, 16 de abril de 2015

O centenário da "Raposa" campinense

O Campinense Clube, de Campina Grande (PB), é a mais nova agremiação do futebol brasileiro a se tornar centenária. O clube foi fundado no dia 12 de abril de 1915 por 29 pessoas. Nasceu como uma entidade recreativa dançante, com o nome de Sociedade Recreativa Campinense Club, numa época em que a cidade tinha um pouco mais que 10 mil habitantes e não possuía nem mesmo energia elétrica.

Os seus fundadores foram: Acácio Figueiredo, Adauto Belo, Adauto Melo, Alberto Saldanha, Alexandrino Melo, Antônio Cavalcanti, Antônio Lima, Arnaldo Albuquerque, Basílio Agustinho de Araújo, César Ribeiro, Dino Belo, Elias Montenegro, Gilberto Leite, Gumercindo Leite, Horácio Cavalcanti, João Honório, José Amorim, José Aranha, José Câmara, Luis Soares, Manoel Colaço, Martiniano Lins, Nhô Campos, Sebastião Capiba, Severino Capiba, Sindô Ribeiro, Tertuliano Souto, Valdemar Candeia e José Pereira.

Ocorreram diversas reuniões até que finalmente o jovem advogado Hortêncio Ribeiro sugeriu que o clube passasse a se chamar Campinense, que no seu entender retratava tudo, inclusive a vaidade e o bairrismo dos fundadores. A votação favorável foi unânime.

Oficialmente o primeiro uniforme do Campinense era vermelho e branco, sendo que o uniforme do goleiro era todo branco. O primeiro uniforme que o Campinense usou em Campeonato Paraibano, era branco, com listas horizontais vermelho e preto. Essas listas ficavam no meio da camisa.

O Campinense escolheu o preto e vermelho, em homenagem as cores da bandeira da Paraíba. O Rubro-Negro nunca mudou a camisa que tradicionalmente é listrada nessa ordem: vermelho, preto, vermelho, preto... O segundo uniforme do Campinense é branco, com apenas duas faixas vermelha e preta.

Em 1917, quando da gestão do presidente, Arnaldo Albuquerque, foi criado um Departamento de Esportes, o que propiciou o surgimento do Campinense como também um clube de futebol. Os primeiros atletas do clube eram jovens estudantes, que jogavam futebol sem interesse financeiro.

O primeiro jogo da história do clube foi disputado em junho de 1919, uma vitória por 1 X 0 contra o América, time da cidade que se tornaria o primeiro rival do Campinense. Sempre que acontecia um jogo entre essas duas equipes, era sempre esperada briga.

Naquela época os dirigentes do Campinense estavam insatisfeitos com as brigas e reivindicavam a prática do esporte somente para os filhos dos sócios. A presença dos populares não era bem vista entre as elites do clube.

Por isso em 1920 a diretoria resolveu acabar com o Departamento de Futebol. Antes de ser desativado, o Campinense realizou 8 partidas e foi vice-campeão do Campeonato da Cidade em 1920.

O clube continuou funcionando, mas apenas com festas e bailes, por 25 anos. Nesse tempo o Aliança Clube 31 foi o maior rival do Campinense, que disputavam para saber quem fazia o melhor carnaval de Campina Grande.

O futebol voltou ao Campinense só em 1954, quando o presidente era o desportista doutor Gilvan Barbosa. Ele teve de enfrentar a resistência de associados que eram contra. Mas acabou prevalecendo a vontade do dirigente.

Os treinamentos eram realizados nas tardes de sábados, visto que a maioria dos jogadores trabalhava. Alguns até tiveram que desistir do futebol, pois não conseguiam administrar as duas coisas.

No dia 12 de março de 1954, foi oficializado o retorno do futebol ao clube, já com a nova denominação de "Centro Esportivo Campinense Clube (CECC)”, que tinha como finalidade incentivar a prática de vários esportes, como basquete, vôlei, tênis etc.

Em julho de 1954 aconteceu o primeiro jogo do clube na volta ao futebol. Foi um amistoso contra o Ferroviário, de José Pinheiro, com vitória por 3 X 2. A decisão se deu na cobrança de pênaltis. Eurimar Oliveira bateu para o Campinense.

O futebol era separado das demais atividades do clube, inclusive com um estatuto a parte e presidente próprio. Os treinamentos aconteciam em um espaço fora das atividades sociais do Campinense, tornando-se a porta de entrada para popularizar a agremiação.

Em 1955 o Campinense tomou parte na sua primeira competição oficial, um torneio municipal promovido pela Liga Campinense de Futebol, tendo conquistado o segundo lugar, fato que se repetiu em 1956 e 1957, mesmo sendo um time amador.

O primeiro grande feito do Campinense aconteceu no dia 13 de outubro de 1957, quando derrotou a equipe profissional do Treze, por 2 X 1. Essa foi a primeira vitória do rubro-negro sobre o seu maior rival até hoje.

Depois disso cresceu o movimento para que o time se profissionalizasse, mesmo contra a desconfiança de muitos associados. Várias reuniões aconteceram, antes de uma decisão final. Na época existia na cidade uma outra equipe, conhecida como Esporte Clube Campinense.

Por isso houve uma tentativa de fusão. A ideia era chamar essa nova equipe de Campinense Esporte Clube, mas não houve acordo entre as  partes, os clubes tinham bens próprios e não abriam mão de suas referências clubísticas.

Finalmente em 1958, o clube se profissionalizou. Ao começo de 1959 chegaram os primeiros jogadores profissionais do Campinense, o goleiro Josil e o meio-esquerda Bruno. Depois vieram o meia-direita Tim, o centro-médio Jaime, do Esporte, e o apoiador Zito, que atuava na cidade de Patos.

A equipe também contava com nomes conhecidos como Marinho, Eudes, Paulo, Gilvandro, Murilo, ex-atletas do Guarany, do Senhor Elias Mota, principal equipe de futebol amadora dos anos 50 da cidade de Campina Grande.

O primeiro artilheiro do Campinense foi Miro. O banqueiro Newton Rique emprestou ao clube a importância de 50 mil cruzeiros, que viabilizou a profissionalização. Isso mostrava a força econômica do Campinense, que desde o princípio ficou conhecido como "Aristocrático". Dinheiro era o que não faltava no clube.

Quando tornou-se profissional, o Campinense precisava de um estádio. Foi então que os dirigentes da época solicitaram uma parceria com a prefeitura através de comodato. O prédio era público, mas administrado pela iniciativa privada, no caso o Campinense.

Pelo acordo, o Campinense ficou responsável por concluir o estádio, erguendo as arquibancadas, gerais e implantando pista de atletismo, quadra, piscina olímpica e iluminação.

Em 1965, o Campinense ergueu uma arquibancada geral com capacidade para 3 mil pessoas e parou por aí. Em 1967, implantou a iluminação que durou até 1973, quando a justiça trabalhista penhorou os postes e refletores. Em 1970 construiu uma quadra poliesportiva e uma piscina. 

A última obra foi um alambrado em 1975. Depois disso foram apenas obras de manutenção. O estádio tem um grande valor para o Campinense, foi lá onde o clube realizou verdadeiras batalhas contra times do Brasil inteiro na década de 60 e 70.

Em 1960, o ainda Centro Esportivo Campinense Clube, se inscreveu pela primeira vez no Campeonato Paraibano. Apenas o Campinense e o Paulistano eram de Campina Grande, os demais participantes eram da Capital.

O Campinense foi campeão, tendo vencido o primeiro turno de forma invicta. No returno perdeu um só jogo. Em 14 jogos disputados venceu 13 e perdeu um. O time marcou 28 gols e sofreu 8. Foi o primeiro título na história.

Em todo o ano de 1960 o Campinense realizou 41 partidas, com 28 vitórias, 6 empates e 7 derrotas. O campeonato de 1960, só terminou em abril de 1961, devido as dificuldades financeiras dos clubes. Pela demora o certame foi chamado pela imprensa paraibana de “Tartaruga".

Com o título, o clube ganhou o direito de disputar outras competições, entre elas a “Taça Brasil”, que foi o primeiro Campeonato Brasileiro, tornando-se o primeiro clube do Estado a dela participar. Ainda nesse ano, o Campinense disputou pela primeira vez o “Torneio Pernambuco-Paraíba”.

Nesse campeonato Campinense X Treze jogaram um clássico que terminou empatado em 1 X 1. Foi o primeiro que as duas equipes disputaram como profissionais. O Campinense foi vice-campeão.

Na Taça Brasil o clube enfrentou o CSA, ganhando o primeiro jogo em Alagoas por 3 X 2 e o segundo em casa, por 2 X 1. Mas foi desclassificado por escalar o jogador Ronaldo de forma irregular. Em 1962 mudou a denominação para Campinense Clube, que identifica o clube até hoje.

Em 1964, no centenário de Campina Grande foi disputado um torneio comemorativo que contou com a participação das equipes do Nordeste, além do Olaria (RJ). O campeão foi o Náutico, de Recife.

Dos títulos estaduais que coleciona, o mais importante foi conquistado em 1965. A vitória diante do Botafogo (1 X 0) deu aos rubro-negros o hexacampeonato.

O Campinense chegou à grande final após humilhar o Auto Esporte (6 X 2) e o 5 de Agosto (8 X 0). O único adversário que poderia estragar a festa era o Botafogo. Foi justamente contra ele que o rubro-negro decidiu a melhor de três.

O "Belo" tinha conquistado o primeiro turno enquanto o Campinense o segundo. Na primeira partida a "Raposa" sagrou-se vitoriosa por 1 X 0, gol de Debinha. Nenhuma outra equipe do estado conseguiu repetir o feito.

No Brasil todo só existem 10 times que já foram hexacampeão estadual, e o Campinense faz parte desse seleto grupo. No Nordeste apenas Campinense, Náutico, Sergipe já foram hexacampeão dos seus Estados.

Em 1971 o Campinense tornou-se a primeira equipe do estado a participar do Campeonato Brasileiro da Série B. A vaga foi conquistada ao vencer o Torneio Seletivo. A primeira participação da “Raposa” na Segunda Divisão, foi modesta, ficando em 13º lugar. O primeiro jogo do Campinense foi contra o ABC no dia 12 de setembro de 1971, com vitória de 1 X 0.

Na Série B de 1972, o Campinense chegou a aplicar a maior goleada da competição, 6 X 1 no Calouros do Ar, do Ceará. O Campinense passou em primeiro lugar no grupo F, sem nenhuma derrota, embora a maioria dos jogos tenha sido fora de casa.

Na final da série B, dia 17 de dezembro de 1972, contra o Sampaio Corrêa, em jogo único no Maranhão, aconteceu empate de 1 X 1 no tempo normal e de 0 X 0 na prorrogação. Na decisão por pênaltis, vitória do time maranhense.

Em 1975 o Campinense foi o primeiro time do Estado, a participar do Campeonato Brasileiro da série A. A campanha não foi boa, acabou em último lugar. O primeiro jogo do Campinense na série A, foi no dia 24 de agosto de 1975, derrota para o CSA por 2 X 0. Ainda em 1975 o Campinense inaugurou o estádio “Amigão”.

De 2000 a 2002, uma grave crise quase jogou o clube no fundo do poço. Em 2003, com a presidência de Carlos Lyra, o Campinense começou a viver novos caminhos. Em 2004, o clube pôs fim ao jejum de títulos que durava 10 anos, sagrando-se campeão do Estado.

Em 2008, o Campinense voltou a ser campeão da Paraíba. Na série C, uma campanha sensacional. Na primeira fase, ficou no grupo 5, e acabou se classificando em 1º lugar, aplicando uma goleada de 6 X 2 no Potiguar, de Mossoró.

Na segunda fase ficou no grupo 19, que tinha Santa Cruz, Salgueiro e Icasa, classificando em 2º lugar. O destaque foi ter rebaixado o Santa Cruz para a série D, dentro do “Arruda”, após um empate de 1 X 1.

O Campinense na terceira fase passou por momento complicado, tendo sido goleado dentro de casa pelo ASA, de Arapiraca, por 5 X 1. Depois disso, o Campinense teria que ganhar do mesmo ASA para se classificar, e venceu por 1 X 0.

Na fase final, mais de 16 mil pessoas viram o Campinense empatar em 0 X 0 com o Guarani, de Campinas, resultado que deixou a classificação para a última rodada, em Goiás. O Campinense empatou em 0 X 0 com o Atlético Goianiense, garantindo o acesso para a Série B.

Muita festa em Campina Grande, quando cerca de 5 mil torcedores receberam os atletas do “Clube Cartola”. O Campinense é o primeiro e único clube do Estado a conseguir um acesso à série B do Campeonato Brasileiro.

Em 2009, o Campinense não teve investimentos para disputar uma série B, e acabou sendo rebaixado para a Série. Em 2010,o clube viveu um dos seus piores momentos, a Justiça penhorou os bens do clube, que na época devia R$ 3 milhões.

Em 2011, o Campinense acabou sendo rebaixado para a série D. Eram dois rebaixamentos em três anos. A tranquilidade, só apareceu no clube na temporada de 2012, quando foi campeão estadual.

Com a conquista, o Campinense foi confiante para a série D, após eliminar nas oitavas-de-final o CSA. A “Raposa” ganhou o primeiro jogo em casa, por 2 X 1, e em Alagoas empatou em 0 X 0. Mas nas quartas-de-final, o clube foi eliminado pelo Baraúnas, do Amazonas,depois de empatar em casa por 1 X 1 e perder fora, por 2 X 0.

Em 2013, o Campinense conquistou o maior título de sua história e do futebol paraibano, ao ganhar a “Copa do Nordeste”, derrotando o CSA, de Alagoas, nos jogos finais, por 2 X 1, em Maceió e 2 X 0, em Campina Grande.

Já o ano passado foi complicado para o Campinense, que mesmo assim conseguiu ser vice-campeão paraibano, garantido vagas na Copa do Nordeste e na Copa do Brasil. No Campeonato Brasileiro da Série D, o time voltou a decepcionar e acabou sendo eliminado ainda na fase de grupos da competição.

O escudo do Campinense sofreu várias transformações ao longo do tempo. Em uma mesma temporada chegou a ter três tipos de escudos. O escudo da "Raposa" contém duas letras C, as iniciais de Campinense Clube. A palavra Campinense significa a pessoa que é natural de Campina Grande.

Em 1983, o Campinense colocou as seis estrelas em seu escudo, mas a ideia não funcionou. Em 1998 o clube implantou oficialmente as seis estrelas, em homenagem ao hexacampeonato estadual (1960-1965).

Em 2013 o escudo ganhou uma nova estrela, em alusão ao título da Copa do Nordeste. O escudo oficial do clube contém atualmente sete estrelas, seis do hexa e uma da Copa do Nordeste. A estrela da Copa do Nordeste fica em cima das demais e é a maior estrela.

O Campinense adotou a "Raposa" como seu mascote. O clube escolheu esse animal, pois o mascote do Treze, seu maior rival, era o "Galo" e naturalmente quem come galo é a "Raposa". O mascote teria surgido no inicio dos anos 60, principalmente por conta das várias vitórias seguidas do Campinense em cima do seu maior rival.

A rivalidade com o Treze é tão grande que o Campinense não utiliza em seu uniforme o número "13", e os “trezeanos” costumam dizer que são “campina-grandenses”.

O Campinense possui dois hinos. O popular "Pelos campos do Brasil, a "Raposa" a correr...", que foi criado pela "Tora", em 1969, para representar o time nos jogos. Foi cedido ao Campinense em 1970. Sem dúvidas, mesmo sendo o hino popular, composto por Geraldo Cavalcante Marinho, ele é bem mais tocado do que o oficial.

O hino oficial do Campinense Clube é o "Eu sou Campinense,com muito orgulho de coração..." Esse hino foi criado na década de 80, mas só começou a ser tocado nos anos 2000. Composto por João Martins de Oliveira.

O Campinense utilizou o Estádio Plínio Lemos de 1958-1999 e conquistou muitos títulos por lá. O estádio tinha capacidade para 8 mil pessoas e foi doado pela prefeitura de Campina Grande, através de uma parceria. O clube ficou responsável em cuidar do estádio.

Em 1965 o Campinense ergueu uma arquibancada geral,que tinha capacidade para 3 mil pessoas e em 1967 implantou a iluminação. Em 1973 a Justiça penhorou os refletores do estádio.

Em 1970 o Campinense construiu uma quadra poliesportiva e uma piscina, no estádio. Em 1975 colocou um alambrado nas arquibancadas. Depois disso,o Campinense não investiu mais, pois chegou a Campina o Estádio "Amigão". Hoje o Estádio Plínio Lemos, virou uma Vila Olímpica.

Em 1975, após a conclusão do estádio Ernani Sátiro, mais conhecido como "Amigão", de maior capacidade, o time passou a realizar todos os seus jogos nesta praça esportiva. O Campinense teve o privilégio de inaugurar o "Amigão" numa partida contra o Botafogo do Rio de Janeiro, em 8 de março de 1975. O placar foi 0 X 0.

O Estádio “Renatão” é o principal patrimônio do Campinense. Recebe essa denominação em homenagem ao conselheiro do clube, de mesmo nome, responsável pela sua construção. O estádio integra o Centro de Treinamento do Campinense Clube, está localizado no Bairro da Bela Vista. Sua construção começou em 2004 e foi concluída em 2006.

O Campinense sediou todos os jogos em casa da “Copa Paraíba 2006” lá no “Renatão”, aonde o clube foi campeão da competição de forma invicta. O “Renatão”, conta com alojamentos, salão de jogos, um campo, um mini campo, sala de imprenssa, sala de vídeo, cabine de impressa.

Em 2013, passou a ser chamado de "Toca da Raposa". No mesmo ano, a diretoria do Campinense fez uma grande reforma na Concentração do estádio, tornando-se assim uma das mais bonitas concentrações do Nordeste.

Títulos. Regionais: Taça Brasil – Nordeste. (1962); Copa do Nordeste. (2013); Estaduais: Campeonato Paraibano. (1960, 1961, 1962, 1963, 1964, 1965, 1967, 1971, 1972, 1973, 1974, 1975, 1979, 1980, 1991, 1993, 2004, 2008 e 2012); Copa Paraíba. (1973 e 2006);Torneio Início do Campeonato Paraibano. (1963, 1964, 1972, 1973, 1975, 1977 e 1980).

Outras Conquistas: l Vice-Campeão Brasileiro da Série B. (1972); Torneio Heleno Nunes. (1977); Campeão do Torneio Seletivo para o Campeonato Brasileiro da Série B. (1971); Campeão do Torneio Seletivo para o Campeonato Brasileiro da Série C. (1990); Vice-campeão da Taça Brasil fase Norte-Nordeste. (1962); Vice-campeão da Taça Brasil fase Nordeste. (1961 e 19650; Vice-campeão do Torneio Paraíba – Pernambuco. (1962); Campeão da Seletiva da Copa Norte-Nordeste. (1968); Quadrangular Alagoas-Paraíba. (1974); Torneio Mistão. (1970); Torneio Paraíba-Rio Grande do Norte. (1962); Taça Prefeito Ronaldo Cunha Lima. (1969); Taça Cidade de Campina Grande. (1967, 1985 e 1996); Taça ACEC. (1981); Taça Governador Guilherme Palmeira em Maceió. (1981); Taça Governador Ernani Sátyro. (1975 - por ter marcado o primeiro gol no estádio “Amigão”); Taça Estádio da Graça. (1962 - por ter inaugurado os refletores do estádio); Torneio Nabuco Barreto. (1973); Torneio Pedro Gondim. (1962); Torneio Independência. (1970); Taça Casa Civil do Governador. (1971);  Taça Ótica Boa Vista. (1973); Quadrangular Dr. Ivandro Cunha Lima. (1973); Quadrangular Antonio Gomes. (1974); Taça da Associação dos Cronistas e Desportistas de Campina Grande – ACDCG. (1969) e Torneio Pré-Centenário. (1963). (Pesquisa: Nilo Dias)

Foto: Acervo fotográfico do Campinense Clube.

domingo, 5 de abril de 2015

O adeus ao "Plantão das Multidões"

O mais famoso plantão esportivo do rádio gaúcho, Antônio Augusto dos Santos, nos deixou hoje, aos 77 anos de idade, depois de ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e morreu durante a madrugada em um hospital de Porto Alegre.

Antônio Augusto está sendo velado na Capela B do Cemitério Evangélico de Porto Alegre e o sepultamento ocorrerá amanhã, segunda-feira, às 10 horas, no mesmo local. O extinto deixou a esposa e dois filhos, um deles o advogado especialista em direito eleitoral, Antônio Augusto Mayer dos Santos.

Ele nasceu em Marcelino Ramos, região Norte do Estado, onde começou a carreira de radialista. Ao final da década de 1950 foi para Porto Alegre, onde queria ser médico. Entrou no rádio da Capital, por acaso. O seu objetivo era fazer Medicina.

A primeira experiência no microfone foi em novembro de 1960, na Rádio Difusora. Em seguida ele participou de uma promoção da emissora, que era basicamente gravar mensagens para os parentes no interior do Estado, em discos de papelão de 78 rotações.

O pessoal da rádio gostou da voz dele e não demorou para ser locutor da emissora. Sua primeira tarefa foi a apresentação da "Parada Esportiva", além de fazer o serviço de escuta.

Os resultados coletados ou informações esportivas eram passadas pelo locutor do horário. Posteriormente, Antônio Augusto passou a exercer também a função de setorista.

A Difusora, que pertencia a três freis da Ordem dos Frades dos Capuchinhos, resolveu investir no futebol. Para isso contratou nomes consagrados do rádio gaúcho, como os narradores Jesus Afonso e Antônio Carlos Rezende, este falecido o ano passado. E lançou Antônio Augusto como plantão.

O patrocínio das jornadas esportivas era da “Companhia de Cigarros Sabrati”. Foi feita uma parceria com a rádio Tupancy, de Pelotas, na qual fui incluído como comentarista em todos os jogos do Campeonato Gaúcho, que envolvessem times de Pelotas.

Em 1964 Antônio Augusto trocou de prefixo, indo para a Farroupilha. Em 1971 mudou de mala e cuia para a Guaíba, onde trabalhou por 20 anos, nas três vezes que por lá esteve. Em 1983 foi contratado pela Gaúcha. Em 1985 voltou à Guaíba. Em 1986 participou da cobertura da Copa do Mundo no México, sendo o primeiro plantão esportivo a ir a um Mundial, ao vivo..

Depois do Mundial mudou mais uma vez de emissora, indo dessa feita para a Bandeirante, que na verdade era a antiga Difusora, onde começou a trabalhar em Porto Alegre. Verdadeiro cigano do rádio, em 1989 transferiu-se para a Rádio Pampa.

Em 1991, a terceira passagem pela Guaíba. Depois foi para a TV Bandeirante, a convite de Rogério Amaral.  Em 1999 foi para a TV e Rádio Pampa, retornando as transmissões esportivas. Permaneceu por lá até o ano passado.

Em 2001 havia se despedido da atividade de plantonista, quando trabalhou ao lado de Roberto Brauner e Rogério Amaral. Seu último plantão foi no jogo Corinthians 1 X 3 Grêmio, pela Copa do Brasil. Mas ficou guardada para sempre a sua marca registrada: “Tem gol”. “Onde, Antônio Augusto?”

A título de enriquecimento da matéria, conto que trabalhei com Roberto Brauner na Rádio Pelotense. Eu era o chefe da equipe esportiva que tinha além dele, Luiz Carlos Martines, Romeu Machado dos Santos e Renato Carvalho.

Depois de deixar o plantão, Antônio Augusto apresentou o programa “Plantão das Multidões”, como era conhecido, que ia ao ar das 10 a meia-noite. Em 2007 a Pampa fechou seu Departamento de Esportes e “Totonho”, seu apelido, se declarou torcedor do Grêmio.

Em 2008, em parceria com o clube tricolor, abriu espaço do seu programa na emissora para levar ao ar, de forma pioneira, o som da “Grêmio Rádio”, nas ondas da FM e da AM.

Antônio Augusto não foi o primeiro plantão esportivo do país, como chegou a ser publicado pela imprensa gaúcha. O pioneirismo cabe a Narciso Vernazzi, na Rádio Panamericana, de São Paulo, em 1948, quando em meio às transmissões esportivas anunciava o escore dos jogos do Campeonato Paulista. Ele ficava o dia inteiro na rádio, informando a previsão do tempo e o esporte.

No Rio Grande do Sul a Rádio "Pelotense" começou a transmitir informações esportivas em 1926. Não se tem, infelizmente, documento algum que mostre como essas transmissões eram feitas.

De concreto, apenas informações do antigo comerciante de Rio Grande, Ernani Ramos Lages, que morreu em 2001, aos 92 anos, em Rio Grande.

Ele mesmo era quem transmitia as informações pelo telefone. Futebol não se irradiava como hoje, eram apenas poucas notícias passadas aos ouvintes no decorrer da partida e o resultado final. Anos depois a emissora contava com o plantão Romeu Machado dos Santos, se não o mais antigo do rádio sulino, com certeza um dos mais.

Quando eu fui chefe da equipe de Esportes da Rádio Tupancy, de Pelotas, fiz um concurso para escolha do plantão esportivo. O vencedor foi Dinei Avelar, isso ao início dos anos 60. Depois ele se notabilizou como o melhor profissional da área na cidade.

E nos plantões esportivos de Rio Grande cabe um destaque especial para Denis Olinto, que depois brilhou em rádios de Porto Alegre. Inteligente, esforçado, competente foi outro destaque na função, que tive a honra de colocar no rádio.

Na pré-história das transmissões esportivas só existia a figura do narrador. Mais tarde, começam a surgir os primeiros comentaristas. A figura de repórter era executada pelo próprio comentarista, que ia até os vestiários para pegar as escalações das equipes.

Em 19 de novembro de 1931 ocorreu a primeira transmissão de uma partida de futebol realizado no Rio Grande do Sul.  A emissora que transmitiu foi a Rádio Sociedade Gaúcha, utilizando o prefixo PRAG, com locução de Ernani Ruschel. 

O jogo foi no Estádio da Baixada, localizado no bairro Moinhos de Vento, com a vitória do Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense por 3 X 1, frente à Seleção do Paraná.

Matéria publicada no jornal “O Estado de São Paulo”, explica que quando as partidas começaram a ser transmitidas dos estádios, as informações de gols de jogos disputados no interior e nos Estados, eram passadas aos ouvintes pelo próprio narrador durante a jornada esportiva.

A forma de captação era bastante curiosa, o operador de som ouvia os jogos em seu rádio de ondas curtas e, à medida que surgiam os gols, avisava o narrador, que em seguida os anunciava.

A quantidade de material coletada nesse período, se comparada àquela conseguida nos dias de hoje, é infinitamente menor. No máximo chegavam até os ouvintes informações dos principais clubes de cada Estado, ainda sem a figura fixa do plantão.

Muitas vezes as informações chegavam até a emissora via telegrama. Naquela época, nem se sonhava com as tecnologias como o fax e a Internet.

Outro recurso para se ter acesso as informações dos resultados dos jogos era telefonar para o estádio ou clube, o que nem sempre resolvia, em razão da precariedade da telefonia naqueles distantes tempos.

Como a experiência da Rádio Panamericana de acompanhar outros jogos da rodada deu certo, outras emissoras passaram a copiar, como se tivessem feito todo o trabalho de coleta dos dados. A Panamericana era conhecida como a "Emissora dos Esportes".

Tupi, Bandeirantes e a Excelsior, copiavam os resultados. A comprovação de que o trabalho do plantão era copiado está no fato de que certa vez, o plantão da Panamericana passou um resultado errado, provocando o erro em cadeia.

Todas as emissoras deram o mesmo resultado. Logo após, a Panamericana corrigiu a informação e obrigou as concorrentes a fazerem o mesmo, evidenciando uma cópia pura e simples dos dados.

Antônio Augusto teve o mérito de estruturar a função de plantão esportivo, aprimorando o trabalho de escuta que já existia na emissora.

Qualquer locutor que estivesse presente na Rádio Difusora naqueles anos 60, mencionava durante a programação os resultados dos jogos de futebol. Não havia uma figura instituída do plantão, como acontecia com o narrador, por exemplo.

Redatores faziam a escuta de estações de fora de Porto Alegre e repassavam os dados para um locutor de estúdio, o mesmo que lia os textos dos patrocinadores. Ele divulgava os resultados no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo.

Tinham preferência os jogos disputados no centro país, Rio de Janeiro e São Paulo ou da região do rio da Prata, Buenos Aires e Montevidéu. Os resultados dos jogos no interior do Estado demoravam a ser divulgados, porque as linhas telefônicas, na época, eram precárias e escassas.

O mérito maior de Antônio Augusto foi montar bancos de dados, com os mais diversos detalhes sobre o desempenho de clubes e jogadores, dando a função de plantão esportivo um valor jornalístico, complementando a narração dos jogos.

Depois, nos anos 70, com a popularidade da Loteria Esportiva, o retrospecto dos times de futebol ganhou destaque, chamando a atenção dos apostadores que procuravam elementos para definirem suas apostas. Naquela época Antônio Augusto já possuía os arquivos mais completos da Região Sul do país.

Outra inovação idealizada por Antônio Augusto foi de enriquecer o momento do gol, com informações estatísticas sobre o artilheiro e a situação dos times. Exemplo. Num gol de Baltazar, para o Grêmio, contra o São Paulo, ele complementou: “É o décimo gol de Baltazar em 21 jogos. Gol 32 do Grêmio, que, agora, precisa o São Paulo fazer dois”.

Ele dispunha de todas as fichas de jogos da dupla Gre-Nal. Todo o material arrecadado foi coletado através de pesquisa no acervo dos jornais “Correio do Povo” e “Folha da Tarde” e nos museus dos dois clubes.

Antônio Augusto muitas vezes valeu-se dos quartéis da Brigada Militar ou postos da Rede Ferroviária, para conseguir os resultados esportivos. Em Rio Grande, por exemplo, era grande a dificuldade para se saber qualquer coisa sobre os jogos lá disputados.

Como havia a parceria da Difusora com a Tupancy, de Pelotas, muitas vezes o plantão era feito diretamente do estádio. Como as duas cidades são próximas, bastava ouvir uma emissora de Rio Grande para ter a informação “quentinha”.

A equipe de esportes se dirigia até Pelotas para transmitir uma partida e Antônio Augusto ficava no gramado, ao lado do repórter, para escutar uma rádio de Rio Grande que estivesse transmitindo outro jogo do Campeonato Gaúcho.

Esse trabalho era muito utilizado para partidas de futebol no interior do Rio Grande do Sul. Portanto, antes de ser plantão esportivo de estúdio, Antônio Augusto foi planto esportivo no estádio.

Antônio Augusto passou a ser plantão de estúdio, após uma situação curiosa. A equipe da Difusora viajava para uma cidade do interior do Estado, em uma camioneta dirigida por um dos padres donos da emissora, que não era muito bom no volante e provocou um acidente.

A partir daí, Antônio Augusto desistiu de viajar com a equipe, para evitar correr riscos desnecessários. Assim, ficava no estúdio fazendo o trabalho de retaguarda, abrindo caminho para a existência dos plantões esportivos nos moldes hoje conhecidos. Nesse aspecto ele foi realmente o pioneiro.

Além de Antônio Augusto, outros plantões se destacaram em rádios de todo o país. No Rio Grande do Sul os mais conhecidos foram Érico Sauer, Jorge Estrada, Ítalo Gall, Sérgio Lima e Raul Moreau.

No Paraná, Oldemar Kramer completou 50 anos de atividade como Plantão Esportivo, em 2008. Há quem afirme que na verdade ele era o Plantão Esportivo mais antigo da história do rádio brasileiro, depois de Narciso Vernizzi, na Rádio Panamericana. Começou a carreira em 1 de novembro de 1958, na Rádio Marumby, de Curitiba, ao lado de Willy Gonser, Cury Saliba e Reinoldo Cunha.

E não se pode esquecer de nomes importantes como Milton Neves, (Jovem Pan); Alexandre Santos e Paulo Edson (Bandeirantes); Silvio Filho (Nacional/Globo); Rui de Moura e Toni José (Gazeta); Manoel Ramos, José Ribeiro e José Roberto Ramos (Tupi); Domingos Machado (Globo-SP) e certamente muitos outros, cuja memória desgastada deste velho de 74 anos, não permite lembrar. (Pesquisa: Nilo Dias)

Antônio Augusto, revolucionou a função de plantão esportivo. (Foto: Divulgação)

domingo, 22 de março de 2015

O campo de futebol mais antigo do mundo

Duas cidades vizinhas no coração da Inglaterra, Sheffield e Nottingham, tem bons motivos para sentirem orgulho. Em Nottingham está o clube profissional mais antigo do Mundo, o Notts County. 

E no subúrbio de Crosspool, em Sheffield localiza-se o mais antigo campo de futebol do mundo ainda em atividade, o “Sandygate Road”, pertencente ao Hallam F.C., fundado em 4 de setembro de 1860.

O velho gramado foi inaugurado no dia 26 de dezembro de 1860, com o primeiro jogo oficial entre dois clubes na história do futebol, fato confirmado pelo prestigioso “Guiness Book of Records”, o famoso “Livro dos Recordes”.

Nessa data estiveram em campo as equipes do Hallam F.C. e do Shefield F.C. , que ainda disputa com o Notts County, o título de time mais velho do mundo. Não ficaram registros do resultado final, mas existem relatos que variam entre o empate e a vitória do Hallam.

Em 2010 os dois times voltaram ao mesmo local do primeiro jogo, para comemorar os 150 anos desse histórico encontro, transcendental na evolução do futebol de um desporto de colégios para um jogo de impacto global

Quem viu o filme “When Saturday Comes”, protagonizado por um jovem Sean Bean, um operário que sonhava em ser futebolista profissional, conhece bem o mítico recinto. Nesse filme de 1996, o “Sandygate Road” foi resgatado pela diretora Maria Gise, para servir como campo de jogos da equipe amadora onde Bean começou a dar os seus primeiros toques, antes de acabar por assinar um contrato profissional com o Sheffield United.

Na realidade o “Sandygate Road” existe desde 1804. Inicialmente era utilizado como campo de cricket, o desporto mais popular na Inglaterra ao início do século XIX. Só a partir de meados dos anos 1850 começaram a disputar-se ali os primeiros encontros não oficiais de futebol.

Em 1860 fundou-se num pub próximo o Hallam F.C., clube amador que ainda hoje subsiste. Suas cores são o azul e o branco. Nesse mesmo ano o clube decidiu organizar com os rivais locais o primeiro jogo oficial entre clubes.

A partir daí o recinto passou a ser a base de desenvolvimento do futebol na cidade. Durante dois anos foi o único local onde se disputavam jogos oficiais entre o número, cada vez mais crescente, de clubes na cidade.

Em 1862, quando o “Bramall Lane”, atual estádio do Sheffield United deixou de receber jogos de cricket para dedicar-se ao futebol, já havia 15 clubes na cidade e a utilização de Sandygate Road tinha atingido o seu auge de popularidade.

Chegaram a disputar-se, no mesmo dia, quatro jogos distintos naquele recinto. 
A popularidade do futebol em Sheffield era tal que se chegou a criar um conjunto de regras exclusivas para os clubes da cidade, conhecidas mais tarde como “Sheffield Rules”, um dos elementos fundamentais no que viria mais tarde a ser a base do Football Association.

Até ao final do século XIX, o “Sandygate Road” continuou a ser utilizado pelos times do Hallam, Sheffield F.C., Sheffield United e Sheffield Wednesday, mas com a crescente popularidade do jogo a maior capacidade do “Bramall Lane” e “Hillsborough”, levou progressivamente a que o pequeno campo se dedicasse exclusivamente a torneios de clubes amadores na cidade, funcionando como sede regular do Hallam F.C. Tal e qual como hoje em dia, mais de um século depois.

O Hallam ganhou a sua primeira competição de futebol em 1867, a Copa Youdan. O troféu de prata foi perdido pelo clube, e só foi encontrado em 1997, em posse de um escocês, colecionador de antiguidades que o vendeu ao Hallam pelo equivalente a R$ 2 mil.

No ano passado o troféu foi destaque na BBC, no programa “Antiques Roadshow”, tendo sido avaliado em 100 mil Euros. Posteriormente, o presidente do clube, Chris Taylor, disse que o clube não tem planos de vender a relíquia, considerada o mais antigo troféu de futebol do mundo.

Embora tenha experimentado jogar futebol profissional entre os anos 1870 e 1880, o Hallam preferiu permanecer totalmente amador. No verão de 1886 o clube, por razões desconhecidas, mas provavelmente por causa de contratos financeiros foi dissolvido, mas um ano depois, voltou as atividades.

O Hallam disputou pela primeira vez na Liga em 1892. Ganhou o “Hatchard”, tíítulo da “League” pela primeira vez em 1903. Um ano mais tare repetiu o feito, mas perdeu o play-off final, disputado entre as quatro melhores equipes, e assim entregou seu título. Também chegou à final da “Copa Senior Sheffield” e “Hallamshire” pela primeira vez em 1904, mas perdeu por 6 X 1 parao  Barnsley, em “Bramall Lane”.

Em 1911 o clube competiu pela primeira vez na “FA Cup Amador”. Três anos mais tarde, mesmo com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, o Hallam continuou a jogar, saindo da “Hatchard League”, para se juntar ao Sheffield Amador e ligas menores.

Em 1917, o clube paralisou as atividades futebolistas, só voltando a “Sheffield Amateur League”, após as hostilidades, em 1919.
No final da temporada 1932-1933 o proprietário da casa pública Plough Inn decidiu arrendar o “Sandygate Road”. Em vista disso o clube se absteve de jogar futebol por um período de 15 anos.

O retorno de Hallam ao futebol foi em 1947, quando conseguiu novamente a posse do “Sandygate Road”, disputando a “Sheffield Amateur League”, para depois filiar-se novamente a reformada “Hatchard League”, que posteriormente se uniu a “Associação League Sheffield”.

Em 1949 ganhou o título pela primeira vez. Um ano depois o Hallam conquistou a “Copa Senior Sheffield”, também pela primeira vez, quando bateu o Stocksbridge Works, em Hillsborough, frente 7.240 espectadores. 

Em 1952 ingressou na “Yorkshire League”. Depois de ganhar a promoção para a primeira divisão da “Yorkshire League” pela segunda vez em 1960, o Hallam passou 20 anos jogando no mesmo nível.

O clube passou a maior parte de sua história na “Divisão Premier”, que atualmente se encontra no nível 9 do sistema da Liga de Futebol Inglesa. Mas em 2011 eles voltaram a disputar a Primeira Divisão. Em 2004, o clube venceu a competição da “League Cup”, ao bater o Mickleover Sports, em Buxton.

Em 2012, o “Sandygate” foi reformado, graças a uma doação póstuma de um torcedor, deixando ao clube uma quantidade substancial de dinheiro em seu testamento. disputa atualmente a Northern Counties East League Division One. (Pesquisa: Nilo Dias)

Foto atual do "Sandygate Road". (Foto: Divulgação)

terça-feira, 17 de março de 2015

O jogador que escapou da morte

O jogador Bernardo, do Vasco da Gama, na época com 22 anos e pai de quatro filhos - Beatriz, Enzo, Lucca e Mattheo -, certamente não vai esquecer pelo resto da vida os momentos de pavor que viveu em abril de 2013, depois de ter-se envolvido com a mulher de um traficante de drogas, do Morro da Maré, no Rio de Janeiro.

Tudo começou quando ele e os jogadores Charles, que na época jogava no Palmeiras e Wellington Silva, do Fluminense, saíram à noite para uma festa na “Favela Salsa e Merengue”. Lá o vascaíno teria se envolvido com Dayana Rodrigues, uma das várias esposas do traficante Marcelo Santos das Dores, o “Menor P”, chefe do tráfico da comunidade.

Ao ficar sabendo que os dois estavam juntos, “Menor P” ordenou que fossem sequestrados e levados ao “Morro do Timbau”, na Maré, para serem mortos. Mas Wellington Silva, nascido na favela e conhecido dos traficantes, tentou amenizar a situação.

Segundo policiais do 21ª DP de Bonsucesso, as cenas foram brutais. O casal foi levado a uma casa na “Vila do João”, onde foram amarrados com fita crepe e nus passaram por sessões de tortura com choques elétricos e espancados, com chutes e pontapés.

Armados, os traficantes estavam dispostos a matar os dois. Foi quando Wellington Silva implorou pela vida de Bernardo. Argumentou que se o jogador morresse, “Menor P” se arrependeria mais tarde, pois assim que fosse divulgada a morte de Bernardo, certamente viria a retaliação.

O “Complexo da Maré” seria invadido e ali instalada uma “Unidade de Polícia Pacificadora” e “Menor P” não teria mais como traficar no local, perdendo o controle da favela. O argumento funcionou e Bernardo foi poupado. Mas Dayana comeu o pão que o diabo amassou.

“Menor P” perderia prestígio se não reagisse. Bernardo escaparia, mas a amante, não. Dayana tomou tiros de raspão e um na perna. Teve de ser operada, passou por dois hospitais. Assustada, não quis incriminar “Menor P”. Ao depor, disse que foi vítima de bala perdida.

Bernardo nasceu em Sorocaba, interior de São Paulo. É filho do ex-jogador “Hélio Doido”, com passagens por Vitória da Bahia, Fluminense, Palmeiras e Sport. De temperamento explosivo, surgiu no Cruzeiro. Jogou até na Seleção Brasileira sub-15.

Bernardo era uma grande promessa. Mas seu ponto fraco era conhecido, o gosto pelas noitadas. Os dirigentes cruzeiristas não gostavam de suas farras e por isso decidiram que o investimento não valia a pena. Seus maus exemplos poderiam influenciar outras jovens promessas do clube. Por isso foi emprestado ao Goiás e depois ao Vasco.

No time cruzmaltino Bernardo teve um ótimo desempenho em 2011, tendo marcado 18 gols. Por isso o Vasco pagou R$ 3,5 milhões para ficar com seus direitos. Mas o arrependimento não demorou a chegar, o jogador vivia nas baladas e as cobranças da Diretoria de nada adiantaram.

Bernardo não deixou por menos, acionou o clube na Justiça, alegando atrasos nos salários. Mas acabou entrando em acordo com o Vasco e a situação foi contornada e ele emprestado ao Santos.

Na época o técnico santista era Muricy Ramalho, que gostou do meia atacante. Mas o desencanto não demorou. Bernardo fez o mesmo que Adriano no São Paulo, mais interessado na noite do que em outra coisa. E logo foi afastado do grupo. O temor do técnico era que seus maus exemplos influenciassem principalmente Neymar, a jóia do time.

E não restou outra alternativa senão devolvê-lo ao Vasco. Com apenas 22 anos, perdera totalmente a confiança dos dirigentes, que estavam outras vez atentos as suas noitadas.

Foi quando veio a contusão, tendo rompido o ligamento cruzado do joelho esquerdo, num jogo frente o Quisamã. Era o artilheiro do fraco time vascaíno com sete gols. A contusão travou a vontade de negociá-lo. O diagnóstico: seis meses sem poder jogar futebol.

A expectativa era de que só voltasse a jogar em 2014. Mas como sempre as coisas podem piorar, veio o problema coma mulher do traficante “Menor P”. De acordo com policiais, Bernardo teve motivos de sobra para comemorar. Escapou por sorte de ser assassinado. E deve agradecer isso a Wellington Silva.

Bernardo entrou na época, no seleto grupo de jogadores problemas, como Adriano, Marcelinho Paraíba e Jobson. Bons jogadores, mas problemáticos crônicos. Chegou a fazer tratamento intensivo com a psicóloga do Vasco, uma tentativa extrema de tirá-lo das farras.

Mas não deu certo. Com o vazamento da notícia de quase foi morto no morro, o jogador ficou desesperado e chegou a dizer que poderia até se suicidar. Ele, com medo de represálias por parte do traficante, dizia que nada do que foi divulgado era verdade.

Em maio de 2014, Bernardo foi emprestado ao Palmeiras até o fim do ano. Pelo acordo, o Palmeiras teria a opção pela compra de 50% do atleta, que, por sua vez, está vinculado aos cariocas até dezembro de 2015.

Mas não deu certo. No clube paulista jogou sete partidas e não fez um gol sequer. Por isso em novembro foi devolvido ao Vasco, onde se encontra até hoje, sendo titular da equipe no Campeonato Carioca. (Pesquisa: Nilo Dias)

Bernardo está de volta ao Vasco. (Foto: Divulgação)