Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O "Flecha de Ouro" de Piracicaba

Romeu Italo Ripoli, conhecido como "Flecha de Ouro" foi um folclórico presidente do E.C.XV de Novembro, de Piracicaba (SP). Era filho de Piracicaba, onde nasceu em 21 de novembro de 1916, lá mesmo falecendo no dia 28 de outubro de 1983.

Vivaz, inteligente, dotado de excepcionais dinamismo e capacidade de liderança, muito combativo e irrequieto, salientou-se por seu entranhado amor a terra natal e ao Esporte Clube XV de Novembro, de que foi presidente, assim como pela participação apaixonada na vida política local. Fascinado pelos esportes desde cedo, foi inegavelmente o grande líder do XV de Novembro.

Romeu Italo Rípoli foi uma das mais fascinantes personalidades piracicabanas nas últimas décadas. Polêmico, controvertido, amado e odiado, tornou-se símbolo da saga do E.C.XV de Novembro. Ele e o "Nhô Quim" pareciam uma só entidade. Falar em um era pensar no outro.

Além de desportista de projeção nacional foi também engenheiro agrônomo, empresário e político. Era filho dos humildes imigrantes italianos Caetano Ripoli (1866-1940) e Emília Viccini Ripoli (1875-1972). Passou a infância e adolescência em sua cidade natal.

Estudou no Ateneu Piracicabano, na Escola de Comércio Cristóvão Colombo e no Colégio universitário. Após a formatura na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq), foi funcionário da Secretaria da Agricultura do Estado e técnico da usina Tamoio, em Araraquara, de Pedro Morganti.

No seu período universitário teve forte atuação e trabalho pela construção da sede própria do Centro Acadêmico Luiz de Queiroz, o que só se concretizou em 1963. Em 1943, publicou o livro "Quarenta Anos de Glórias", narrando a história da Associação Atlética Acadêmica Luiz de Queiroz, entre 1903 e 1943.

Ele jogou como ponta direita no time da ESALQ-USP, mas ganhou notoriedade na presidência do XV de Piracicaba, quando foi comparado a Vicente Mateus, lendário presidente do Corinthians.

Foi um dos responsáveis pela introdução do bicho da seda no oeste do estado de São Paulo, quando trabalhava no serviço estadual de agricultura. Rompeu com o Governador Adhemar de Barros e pediu demissão do serviço público por não concordar com o uso das suas ações profissionais para fins políticos e demagógicos.

Ainda nos anos 40, coordenou a construção das arquibancadas do estádio do XV de Novembro de Piracicaba, time de futebol da cidade.

Teve fazenda e criou a indústria piracicabana de seda. Atraído pelo ramo imobiliário, construiu inúmeras casas populares, vendendo-as a prestações. Em 1950, lançou no mercado imobiliário de Piracicaba um dos primeiros bairros tipicamente residenciais de alto padrão do interior de São Paulo e o primeiro asfalto da cidade, em terras da antiga fazenda do Pedro Rico, tendo como sócio empreendedor o comendador Mário Dedini, seu padrinho.

Homem visionário, Ripoli sentiu o impacto que teria a chegada da televisão ao Brasil. Fundou uma pequena empresa de montagem de aparelhos de TV, a Sociedade Brasileira de Televisão (Sobratel), com intuito de competir com as importadas.

No entanto, foi vencido pelo lobby das empresas de importação. Com recursos próprios instalou uma torre de TV na cidade, para retransmitir os programas da TV Tupi. Foi a primeira retransmissora de canal televisivo da América Latina, que captava os sinais da ex-Rede Tupi, de São Paulo.

Em 1954, montou uma comissão para construir o ginásio coberto "Waldemar Blatkauskas", para que Piracicaba pudesse receber os “Jogos Abertos do Interior”, em 1955. Coordenou, ainda, a arrecadação de fundos para a construção da maternidade da Santa Casa de Misericórdia de Piracicaba.

Foi vereador em Piracicaba nos seguintes mandatos: 1948 a 1951, 1952 a 1955, 1956 a 1959, 1969 a 1972. Durante essa última legislatura, foi presidente da Casa legislativa por pouco mais de 11 meses, uma vez que foi perseguido e forçado a renunciar, sob a acusação de sonegar o Imposto de Renda.

Na verdade, Ripoli havia aberto uma sindicância na Câmara para apontar irregularidades do seu ex-presidente, Francisco Antônio Coelho, acusado pela imprensa de patrocinar funcionários fantasmas.

Como Coelho era ligado a militares do 5º Grupo de Canhões Anti-Aéreos, de Campinas, fez valer tal condição para pressionar o então novo presidente. Por meses Ripoli foi intimado para interrogatórios de forte pressão psicológica, o que o levou a necessitar ser internado para tratamento em clínica especializada.

Algum tempo mais tarde, recebeu carta do general Rubens Restell, isentando-o de todas as acusações que lhe haviam sido feitas. No entanto, a área em que Ripoli mais se destacou foi como presidente do XV de Piracicaba. Esteve à frente do clube durante 17 anos, em dois períodos: entre 1959 e 1966 e depois entre 1973 e 1983.

Em 1964, levou o XV em excursão pela Europa e pela Ásia. Naquela época, o Brasil já era bicampeão mundial e apenas o Santos e o Botafogo faziam esse tipo de viagem. O time jogou na Suécia, na Polônia, na Alemanha (Ocidental e Oriental, divisão da época), na Dinamarca e, no auge da Guerra Fria, nas então repúblicas soviéticas da Rússia, Moldávia, Ucrânia, Casaquistão e Usbequistão.

Em 1976, o XV foi vice-campeão do Campeonato Paulista de Futebol, maior título do time até a presente data e o primeiro clube do interior paulista a atingir tal classificação. Nesse mesmo ano, extremamente popular, Ripoli foi candidato a prefeito.

Porém, devido a erros políticos cometidos, como falar demais sobre suas polêmicas idéias, acabou perdendo a eleição e chegando em terceiro lugar. A Prefeitura de Piracicaba foi o grande sonho não atingido por ele. Em 1977, o XV chegou a 8º lugar no Campeonato Brasileiro de Futebol.

Dirigente carismático, Ripoli envolveu-se em diversas disputas com a Federação Paulista de Futebol (FPF), sempre buscando trazer benefícios para os clubes do interior de São Paulo. Conhecido por sua grande inteligência, por falar vários idiomas e pela caracterização que fazia do caipira interiorano, Ripoli era fumante inveterado.

Sempre enrolando seu cigarro de palha, fazia tipo nos jornais e nos programas esportivos da TV, onde aparecia com frequência, criticando juízes e dirigentes da (FPF). Foi o mentor intelectual e o agregador dos clubes do interior paulista que levaram a FPF a ter, pela primeira vez na história, um presidente do interior.

Vítima de câncer no pulmão faleceu em 1983, pouco antes de seu 67º aniversário e do XV sagrar-se campeão da segunda divisão, voltando à elite do futebol paulista. Deixou a esposa Bela Ripoli e quatro filhos:

Tomaz Caetano Cannavam Ripoli (1947-2013), que foi professor titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-USP; Elizabeth Cannavam Ripoli (1952), pianista profissional e empresária musical conhecida como Beth Rípoli, que casou-se com Luiz Carlos Franco; Antonio Roberto de Godoi (1957), engenheiro de comunicações, pesquisador e empresário; e Edson Diehl Ripoli (1964), general do Exército Brasileiro.

Ninguém escapou às aprontadas de Romeu Italo Rípoli. Nem o filho Caetano. Ou melhor: especialmente o Caetano, filho “hóme” de Romeu Ítalo Rípoli, não conseguiu fugir às invenções, arrumações, aprontadas que ele fazia. Aconteceu em Maceió, onde Caetano morava, atuando em sua especialidade científica na área agronômica.

Querido na sociedade alagoana, o casal Caetano e Lúcia Rípoli participava das atividades locais, era requisitado para festas, encontros. Até que, um dia, o presidente de um dos principais clubes alagoanos, o CRB, descobriu que Caetano Rípoli era filho do famoso Romeu Ítalo Rípoli, presidente do E.C.XV de Novembro. E foi a festa.

Pois o presidente do CRB, todo assanhado, quis porque quis, insistiu e grudou no Caetano, pedindo que interferisse junto ao pai para emprestar alguns jogadores do XV para o time de Alagoas.

Solícito e querendo prestigiar o filho hóme, Rípoli enviou três atletas para o CRB, convencido de que, assim, colaboraria para Caetano aumentar ainda mais suas relações alagoanas. Entre os jogadores, estava o Joãozinho Paulista, que Romeu Rípoli inventava ser o “sucessor de Pelé”, só que era reserva no time do XV. E Joãozinho se tornou artilheiro do campeonato alagoano. E ídolo da torcida.

O valor do empréstimo não estava sendo pago pelo CRB e Rípoli não pressionava muito. Mas sabia que o XV, pelo Campeonato Nacional (antigo Brasileiro) iria jogar em Maceió, justamente contra o CRB. E lá embarcaram todos, Rípoli e o time do XV para a terra onde Caetano morava.

Toda a imprensa de Maceió foi recepcionar o polêmico presidente e sua famosa equipe. E Rípoli, ainda no aeroporto, mandou brasa: “Vim aqui em Maceió, pessoalmente, para ver o meu time dar uma sova no CRB e, também e especialmente, para cobrar o calote que estou levando do presidente dessa equipe pelo empréstimo do Joãozinho Paulista.”

Foi um fuá. E Caetano Rípoli enlouqueceu, pensando no que haveria de acontecer para ele e sua família, assim que o valentão do pai se fosse embora. Afinal de contas, Maceió é terra de gente valente, com “peixeira” na cintura.

Caetano, tremendo, tentou conter o papai Romeu: “Pai, você está em Alagoas. Você já ouviu falar em peixeira, em machismo alagoano, em honra de cabra macho? Eu moro aqui, caramba! E se eles vierem por cima de mim?”

Rípoli com o peito estufado e sorriso maroto no rosto entrou no carro do filho e disse: “Fique frio! Esta entrevista vai render para nós”. E no noticiário da noite do Jornal Regional de Maceió saiu o ofensivo e provocante pronunciamento.

Não levou 20 minutos e lá estava o presidente do CRB esmurrando a porta da casa de Caetano Rípoli, filho do presidente valentão. O homem entrou bufando, nem sequer olhou para o dono da casa, mal cumprimentou Lucia e partiu para xingação pra cima de Romeu Rípoli. Que, enrolando o cigarrinho de palha, começou a gargalhar e desmontou o presidente machão do CRB.

E antes de se apresentarem formalmente, de se sentarem e tomarem uma cervejinha, Rípoli falou para o colega de Maceió: “Presidente, depois que nos conhecermos melhor aqui, você vai aos estúdios da TV Gazeta e desce o cacete em mim. Diga que a honra do CRB precisa ser lavada, mas sem violência. Que se lave essa honra lotando de torcedores o jogo no Estádio Rei Pelé. Teremos uma baita de uma renda, você me paga o que me deve e todos ficaremos felizes…”.

Não deu outra. O jogo XV e CRB, que terminou com empate de 1 X 1, teve uma das maiores rendas daquele ano em Maceió. Rípoli voltou a Piracicaba, com o dinheiro que lhe era devido, e Caetano Rípoli foi empossado diretor de Esportes Náuticos do CRB, com direito a coquetel de apresentação e “oba-oba”.

Na década de 1960 a Portuguesa Desportos revelou para o futebol brasileiro um zagueiro chamado “Ditão”, um verdadeiro “Gigante de Ébano”, atlético, vigoroso e imponente. Não demorou para ser vendido ao Corinthians, onde logo se transformou em ídolo da torcida e alcançou consagração nacional.

“Ditão” tinha um irmão, o “Ditinho”, parecido fisicamente e no estilo de jogar, que atuava no XV de Novembro, de Piracicaba. Mas era inexpressivo, em relação à fama e ao prestígio do irmão mais velho.

O presidente do XV, na época, Romeu Ítalo Rípoli foi um dirigente muito esperto, que sabia tudo de futebol, por isso é até hoje lembrado na cidade.  Resolveu que o clube iria ganhar muito dinheiro, vendendo “Ditinho”. E passou a dizer na imprensa que se tratava de uma “jóia rara”, uma promessa de grande jogador, é o novo “Ditão”.

Com tanto barulho na imprensa, o Flamengo mostrou interesse em adquirir o passe de “Ditinho”, mas de maneira pálida, tímida. Ripoli, no entanto sabia “jogar”. Era amigo do presidente do Santos, na época, o influente Modesto Roma. E pediu ao colega santista que lhe fizesse um grande favor: comunicasse à imprensa que o Santos estava interessado em adquirir o passe de “Ditinho”.

E Modesto Roma atendeu o amigo, dizendo: “O Santos está negociando o passe de “Ditinho”, um craque com muito mais categoria que “Ditão”, do Corinthians. São irmãos, mas “Ditinho” é mais jovem, mais habilidoso e tem grande futuro”.

Não deu outra. O vice-presidente do Flamengo – o suíço Gunnar Goransson, todo-poderoso presidente da multinacional “Facit” quis “passar a perna no Santos” e “atravessou” o negócio, para alegria e felicidade de Romeu Ítalo Rípoli.

Resultado: o Flamengo comprou o passe de “Ditinho” que nunca chegou a ser “Ditão”. E, além de pagar um dinheirão, o Gunnar Goransson fez a “Facit” financiar e montar todo um esquema para o XV de Piracicaba excursionar à Europa e Asia.

Resultados da excursão do XV de Piracicaba;


2 de fevereiro de 1964 – Em La Paz: XV de Piracicaba 2 X 2 Bolivar

5 de fevereiro de 1964 – Em La Paz: XV de Piracicaba 3 X 1 Bolivar

Em Cochabamba: XV de Piracicaba 0 X 1 Aurora

19 de abril de 1964 – Em Tashkent, no Uzbequistão: XV de Novembro 0 X 1 Seleção do Uzbequistão

21 de abril de 1964 - Em Alma Ata, no Cazaquistão: XV de Novembro 1 X 3 FC Kairat Almaty

Em Moscou: XV de Piracicaba 0 X 2 Seleção da União Soviética

26 de abril de 1964 – Em Kichinev, Moldávia: XV de Piracicaba 2 X 4 Seleção Local

29 de abril de 1964 – Em Krasnodar, Rússia: XV de Piracicaba 1 X 3 Spartack

2 de maio de 1964 - Em Odesa, Ucrânia: XV de Piracicaba 0 X 0 Tchernomoretz

5 de maio de 1964 – Em Katovich , Polônia: XV de Piracicaba 1 X 1 Seleção da Polônia

7 de maio de 1964 – Bydgoszcz, Polônia: XV de Piracicaba 0 x 0 Seleção da Polônia

9 de maio de 1964 – Em Stettin (Szczecin), Polônia: XV de Piracicaba 0 X 0 Seleção do Estado da Pomerânia

12 de maio de 1964 - Em Copenhaguen, Dinamarca: XV de Piracicaba 0 X 2 Combinado Danish-Staevenet

14 de maio de 1964 - Em Leipzig, Alemanha Oriental: XV de Piracicaba 1 x 4 B.S Chemie
1
7 de maio de 1964 – Em Berlim, Alemanha Oriental: XV de Piracicaba 2 X 1 Motor Jena

Em OUE: XV de Piracicaba 1 X 3 Wismuth

23 de maio de 1964 – Em Kalshure, Alemanha Ocidental: XV de Piracicaba 0 X 3 Kalshure

26 de maio de 1964 – Em Hannover, Alemanha Ocidental: XV de Piracicaba 0 X 2 Hannover

29 de maio de 1964 – Em Munique, Alemanha Ocidental: XV de Piraciacaba 2 x 0 Munchen 1860

2 de junho de 1964 – Na Suécia: XV de Piracicaba 5 x 5 Gaevle I.F.

4 de junho de 1964 - Ostersund , Suécia: XV de Piracicaba 8 X 2 I.K.F.

7 de junho de 1964 – Na Suécia: XV de Piracicaba 4 x 1 Seleção do Norte

Em Harvick, Suécia: XV de Piracicaba 5 X 0 Garker

Jogos: 23
Vitórias: 6
Empates: 6
Derrotas: 11
Gols pró: 32
Gols contra: 39
Saldo negativo de gols: 7

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo alvinegro piracicabano durante sua viagem, o acontecimento ficou marcado para sempre na história centenária do XV de Piracicaba.


O fato inédito de romper a cortina de ferro, antes de qualquer outra equipe do futebol brasileiro, é mais uma dos marcantes acontecimentos do clube mais tradicional do interior de São Paulo.

Em 1976 – o XV já consagrado como vice-campeão do futebol paulista – Rípoli, com popularidade incontestável, aceitou ser candidato a prefeito de Piracicaba. Chegar à Prefeitura era-lhe o grande sonho, irrealizado. Pesquisas eleitorais davam-no como imbatível. Talvez, tivesse conseguido, mas Rípoli, como sempre, falou demais. E perdeu.

A luta política era intensa e Rípoli, um homem controvertido, polêmico, uma candidatura complicada. A imprensa estava dividida, mas as rádios eram-lhe claramente hostis, fosse ele candidato ou não. A paixão pelo XV despertava reações radicais. E uma das emissoras decidiu promover um debate público com os candidatos, começando por Romeu Ítalo Rípoli. Foi na “Sociedade Italiana”.

E a promessa de alguns debatedores era a de um massacre, de linchamento moral, de tiro ao alvo, misturando política com vida privada, um salve-se - quem puder. Haveria uma armadilha política e um momento de vingança. Havia sede de sangue.

O povo lotou as dependências do clube, lembrando os romanos na arena, torcendo mais para as feras do que para o gladiador. Ou público de tourada, à espera de sangue, do touro ou do toureador.

Estranhamente, Rípoli estava calmo, como se indiferente ao que lhe fosse perguntado. À espera de ser chamado, ficou enrolando o cigarrinho de palha. Ao ir ao palco, cumprimentou cada um dos debatedores. Mas de maneira estranha. Abraçava um por um, falava-lhes coisas no ouvido. E eles, contrafeitos, voltavam a se sentar. Ninguém entendia.

As feras, a cada cochicho do Rípoli, ficavam dóceis feito cordeiros. Tão dóceis que fizeram perguntas como se dirigidas à Branca de Neve. Rípoli usara a diplomacia do “eu sei…” Cochichando, dava o recado:

“Eu também sei de você…” E contava, no ouvido, o que ele sabia. Rípoli foi um especialista na arte dessa diplomacia do “eu sei…” Ainda que hipócrita e apesar dos tolos – ela conseguia, ainda, impedir o retorno à lei das selvas.

Rípoli era mestre em realizar o que hoje passou a se chamar de factóide. Se não havia notícia, ele inventava. Se nada de novo acontecia, ele criava. E seus blefes e invencionices eram tão absurdos que passavam por verdadeiros. 

Na década de 1970, o Corinthians perdeu um título tido como ganho num jogo contra o Palmeiras. E o bode expiatório foi o extraordinário craque Rivelino que, na verdade, tremeu naquele jogo. E a torcida o execrou, transformando, num momento, o ídolo em vilão.

Era incrível: a torcida corintiana não queria mais Rivelino no time. E, por quantia milionária, o Corinthias começou a negociá-lo com o Fluminense, do Rio de Janeiro. E o que fez, então, Romeu Ítalo Rípoli? Convocou a imprensa paulista, jornais, rádios e emissoras de televisão, informando que tinha uma grande notícia para dar, decisão bombástica.

Ora, todos sabiam da difícil situação financeira do XV, mas controlada de maneira genial por Rípoli. Ele contava tostões. Jogadores tinham salários  baixos, básicos. E ele dava "bichos" altíssimos por cada vitória. A estratégia fazia com que jogadores se matassem em campo para ganhar os "bichos". E dava certo.

Mas a situação financeira era precária. Mesmo assim, Rípoli convocou a imprensa, anunciando a "bomba", aquela que seria uma contratação de repercussão internacional.

Enrolando o cigarrinho de palha, diante de microfones e câmeras de televião, Rípoli anunciou, com aura de herói: o que o Corinthians está fazendo é uma vergonha para o futebol paulista. Rivelino é patrimônio dos paulistas e não podemos admitir que ele se transfira para o Rio de Janeiro.

Paralisaram-se microfones, máquinas fotográficas, emudeceram-se jornalistas e radialistas. Rípoli lambeu a palha do cigarrinho, deu o nó final, acendeu, tirou umas baforadas, fulminou a imprensa nacional:

Diante de tamanha agressão ao futebol paulista, eu resolvi: o XV irá fazer um grande sacrifício, mas não permitiremos que Rivelino vá para o Rio de Janeiro. Já comuniquei à diretoria do Corinthians que quero comprar o passe de Rivelino, que ficará em São Paulo e jogará com a camisa alvi-negra do "Nhô Quim".

A mentira era tão grande, mas tão grande que ninguém duvidou. E, durante um mês, o XV e Rípoli ocuparam espaços e tempo enormes nos meios de comunicação brasileiros. O Fluminense, diretoria e torcida,  quase enlouqueceram, o Corinthians aumentou o preço do passe de Rivelino e Rípoli, com cara de santo, alegava que a diretoria corintiana estava fazendo jogo sujo com o XV, leiloando Rivelino.

Que, obviamente, foi para o Fluminense. E Rípoli nunca confirmou ter sido blefe e mentira a oferta por Rivelino. "Eu ia comprar, estava tudo certo. O Corinthians é que me traiu. Para se ver que não se fazem mais Romeu Rípoli como antigamente.

Piracicaba o elegeu como uma das personalidades do ano, em 1975-76. Recebeu inúmeros diplomas e condecorações. Uma avenida tem seu nome, no Parque Residencial Eldorado, paralela a avenida Eurico Gaspar Dutra e perto da SP-308. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Morreu hoje o criador do Troféu FIFA

Morreu hoje em Milão, Itália, ode morava, o escultor italiano Silvio Gazzaniga, que criou o “Troféu FIFA”, que é disputado na Copa do Mundo de Futebol, realizada de quatro em quatro anos. Ele estava com 95 anos e morreu de causas naturais.

Silvio Gazzaniga nasceu em Milão em 23 de janeiro de 1921 e se tornou um escultor nas escolas de arte de sua cidade natal. Nos anos 40 participou da "Escola Humanitária de Arte Aplicada" e do "High School of Art" no Castelo Sforzesco, especializada como ourives e joalheiro.

Quando da Segunda Guerra Mundial, se dedicou a esculpir medalhas, copos e decorações e no final de 1953 começou a colaborar com a antiga empresa, Bertoni, como diretor artístico e mestre escultor.

O escultor foi casado com sua esposa, Elsa, há mais de 60 anos. Ela foi o grande amor de sua vida, juntamente com a arte. Foi a mãe de seus dois filhos, Gabriella e Giorgio.

Em 1971, depois que o Brasil ganhou a “Copa Jules Rimet” e a conquistou de maneira definitiva, a FIFA precisava de um novo troféu para ser disputado nas Copas do Mundo. E realizou um concurso, em que 53 projetos foram apresentados por artistas de todo o mundo.

O vencedor foi o italiano Silvio Gazzaniga, com um desenho que representava a alegria, exaltação e grandeza do atleta no momento da vitória: duas figuras estilizadas que seguram o mundo no alto. Com isso o escultor alcançou fama mundial.

O primeiro país a ganhar a taça da “Copa do Mundo” foi a Alemanha, no certame de 1974, disputado lá mesmo e levantada por Franz Beckenbauer. Uma honra que foi seguida por Daniel Passarella em 1978, Dino Zoff, em 1982, Diego Maradona em 1986, Lothar Matthaus em 1990, Dunga, em 1994, Didier Deschamps, em 1998, Cafu em 2002, Fabio Cannavaro, em 2006, Iker Casillas, em 2010 e Philipp Lahm, em 2014.

Esse troféu é de posse transitória, ao contrário do que foi a “Taça Jules Rimet”, ganha em definitivo pelo Brasil. Após as festividades, a equipe vencedora recebe uma cópia da Copa original. Este troféu continuará a ser atribuído como um prêmio, até 2038, quando todos os espaços de inscrição disponíveis das nações vencedoras serão preenchidos.

Pena que a “Taça Jules Rimet” tenha sido roubada no Rio de Janeiro em 1983 e possivelmente derretida. A estatueta era feita em ouro com uma base de pedras semipreciosas. Pesava 3,8 kg e media 35 cm.

Mas o roubo no Rio não foi o primeiro na história da Jules Rimet. Em 20 de março de 1966 a taça estava em exposição em Londres, quatro meses antes da Copa na Inglaterra. O troféu se encontrava sob tutela do Brasil, campeão de 1962, que havia concordado em exibi-lo junto a uma exposição de selos.

A segurança era grande, mas mesmo assim, a taça sumiu. O mistério gerou "vários dias de ansiedade e frustração", segundo reportagem da BBC à época, que avaliou o troféu em £30 mil (R$ 114 mil). O desaparecimento levou a uma caçada em toda a Inglaterra envolvendo investigadores da Scotland Yard.

Um pedido de resgate chegou a ser enviado por alguém que se identificou como Jackson, que ameaçou derreter a taça se a quantia de £15 mil não fosse paga – em notas de £1 e £5. Um policial à paisana foi ao encontro de Jackson com uma maleta recheada de jornais, cobertos por uma camada de notas de £5.

Jackson, na verdade, era o ex-soldado Edward Betchley, de 46 anos, que ainda era interrogado pela polícia quando o troféu foi encontrado, sete dias após o seu roubo. Foi graças a um pequeno cachorro mestiço, "Pickles", que a caça chegou ao fim: ele encontrou a taça embrulhada em papéis de jornal e escondida em um jardim num bairro no subúrbio de Londres.

O cachorro tornou-se um herói mundial: "Pickles" recebeu uma recompensa pela descoberta e diversas homenagens – inclusive ração canina por um ano, segundo o livro "The Theft of the Jules Rimet Trophy". Ele apareceu em vários programas de televisão, estrelou um filme e teve seu próprio agente, mas morreu um ano depois.

A criação de Gazzaniga é considerada pelo presidente atual da FIFA, Gianni Infantino, o mais bonito símbolo que a entidade maior do futebol mundial  poderia sonhar em ter como prêmio. “A Copa do Mundo é um objeto mítico para os jogadores e para todos os amantes de futebol”, disse ele.

Depois de tamanho sucesso internacional, o artista criou outros troféus importantes de futebol, como a Taça UEFA (1972) e da “Super Cup Trophy da UEFA” (1973). Ele também foi o criador do troféu para a “Copa do Mundo de Beisebol” (2001), do “Campeonato do Mundo de Voleibol” e de medalhas para eventos esportivos importantes, como basquete, natação, esqui e muitos outros.

Foi Gazzaniga que esculpiu em 2011 o troféu comemorativo ao “150º aniversário da unificação da Itália”. Em vista disso, em 7 de dezembro de 2003, recebeu a maior honra possível, o "Certificado de Mérito da Ambrogino d'Oro".

Também recebeu honras internacionais. Em 14 de outubro de 2011, enquanto participava de uma reunião para a edição anual da “Feira Internacional de Numismática”, em Vicenza, a "Associação Internacional de Numismatists e Medalha Designers" concedeu-lhe o Prêmio Internacional pela contribuição para a sua profissão.

Além do esporte, ele era apaixonado por design, carros esportivos e aeronaves. Sua fonte de inspiração vinha de caminhar nas montanhas e fotografar a natureza, o que também lhe permitia recarregar as baterias de sua alma artística. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 25 de outubro de 2016

A morte do capitão do tri

Faleceu na manhã desta terça-feira (25), o ex-atleta e comentarista esportivo da TV Globo, Carlos Alberto Torres, vitimado por um ataque cardíaco fulminante. Ele chegou a ser levado para o Hospital Rio Mar, na Barra da Tijuca. Os médicos tentaram reanimá-lo, mas já havia entrado em óbito.

Era conhecido como o “capitão do tri”, por ter levantado a “Taça Jules Rimet”, conquistada em definitivo pela Seleção Brasileira, na Copa do Mundo do México, realizada em 1970.

Carlos Alberto era carioca, nascido na Vila da Penha a 17 de julho de 1944. De longa carreira, foi um dos símbolos do clássico futebol brasileiro. Muitos cronistas dizem que foi um dos maiores laterais-direitos de todos os tempos.

Tinha habilidade, respeito dos companheiros e, como uma de suas características principais, uma forte personalidade, elegância e técnica em campo. Tanto é verdade que a crônica esportiva, na sua grande maioria, o considerava o maior jogador que usou a braçadeira de capitão da Seleção Brasileira. Todas suas qualidades puderam ser confirmadas na única Copa que disputou, a do México, em 1970.

No duríssimo jogo contra a Inglaterra, Carlos Alberto abandonou a posição só para dar uma entrada forte no ponta inglês Francis Lee, que tinha chutado o rosto de Félix. Depois do lance, Lee sumiu do jogo.

Episódios como esse fizeram com que fosse chamado de o “grande capitão”. Carlos Alberto também foi o autor do último gol da campanha brasileira após maravilhoso passe de Pelé, fechando os 4 X 1 contra a Itália na final, para logo depois ter a honra de levantar a “Taça Jules Rimet” conquistada em definitivo.

Carlos Alberto Torres podia ter disputado também a Copa da Inglaterra, de 1966. Ele chegou a ser um dos 47 jogadores convocados pelo técnico Vicente Feola, para o período de treinamento em Serra Negra (SP). Mas deu tudo errado. Não foi confirmado entre os 22 jogadores que viajaram.

O craque vestiu às camisas do Fluminense, onde começou a carreira, tendo sido campeão Carioca de 1964. Logo depois, se transferiu para o Santos F.C., em 1965, trocado por Ismael, quando o clube paulista tinha Pelé e atravessava o seu apogeu, com conquistas como o bicampeonato da Copa Libertadores da América e do Mundial de Clubes. 

Com a camisa alvinegra santista foi pentacampeão paulista em 1965, 1967, 1968, 1969 e 1973, ano em que conquistou seu último título pelo time da Vila Belmiro.

Em 1971, jogou por empréstimo no Botafogo, do Rio de Janeiro. No clube carioca atuou em 22 jogos, nos 3 meses que por lá esteve. Em 1976 retornou ao Fluminense, que na época era chamado de “Máquina Tricolor”, tendo conquistado o bicampeonato carioca daquele ano e sendo semifinalista do campeonato brasileiro.

Jogou, ainda, no Flamengo (1977), California Surf e New York Cosmos (ao lado de Pelé), nos Estados Unidos, onde encerrou a carreira como jogador em 1982. Em março de 2004, Carlos Alberto foi nomeado por Pelé um dos 125 melhores jogadores vivos do mundo.

Como treinador foi Campeão Brasileiro pelo Flamengo. Em 1985, foi bicampeão pernambucano pelo Clube Náutico Capibaribe.

Foi escolhido ainda para integrar a seleção da América do Sul de todos os tempos na posição de zagueiro. A enquete foi realizada com cronistas esportivos de todo o mundo. A FIFA o considera um dos maiores laterais direitos de todos os tempos.

Na política, Carlos Alberto era filiado ao Partido Democrático Trabalhista (PDT). Foi vereador de 1989 a 1993, ocupando a vice-presidência e a primeira secretaria da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Em 2008 tentou uma vaga para vice-prefeito da capital fluminense, na chapa de Paulo Ramos, não se elegendo.

Entre novembro e dezembro de 2014 ocupou o cargo de Ministro do Esporte do Botafogo, deixando a função alegando motivos particulares.

Carlos Alberto foi casado três vezes: com Sueli, mãe dos seus filhos Andréa e Alexandre Torres, também jogador profissional, com passagens por Fluminense, Vasco e Nagoya Grampus (Japão), com a atriz Terezinha Sodré e com Graça, sua ultima esposa.

Carlos Alberto Torres fez sua última aparição no SporTV, onde era comentarista, apenas dois dias antes de sua morte, quando participou do programa "Troca de Passes", no último domingo.

Ricardo Rocha, ex-zagueiro e amigo próximo do “Capita”, como era chamado por seus amigos, e o comentarista Luiz Ademar, também do SporTV, relataram que Carlos Alberto tinha boa saúde, a despeito da idad.

Títulos. Fluminense: Campeão Carioca (1964, 1975 e 1976); Taça Guanabara (1966 e 1975); Torneio de Paris (1976); Torneio Viña del Mar – Chile (1976). Pelo Santos: Recopa Sul-Americana (1968); Campeonato Brasileiro (1965 e 1968); Campeonato Paulista (1965, 1967, 1968, 1969 e 1973); Torneio Rio-São Paulo (1966). Pelo New York Cosmos: NASL Exterior Championships (1977, 1978, 1980 e 1982); Eastern Division - National Conference (1978, 1979, 1980 e 1982); Trans-Atlantic Cup Championships (1980). Seleção Brasileira: Copa do Mundo FIFA (1970) e Jogos Pan-Americanos - Medalha de Ouro (1963).

Como treinador. Flamengo: Campeão Brasileiro (1983); Fluminense: Campeonato Carioca (1984); Nautico, do Recife: Campeão pernambucano (1985); Botafogo: Copa Conmebol (1993) (Pesquisa: Nilo Dias)



sábado, 8 de outubro de 2016

E Deus não para de levar meus antigos colegas

Minha Nossa Senhora, o que está havendo? Deus está levando embora muitos companheiros de imprensa, que comigo conviveram durante muito tempo.  Dia desses foi o Jonas Cardoso, uma das mais bonitas vozes do rádio de Rio Grande. Fez parte da equipe esportiva da Rádio Cultura Riograndina, por mim comandada nos anos 80, e com certeza uma das melhores que existiram na Zona Sul do Estado, em todos os tempos.

Antes, já haviam partido o Jorge Ravara, advogado e comentarista esportivo dos melhores que conheci. Gilson Tilmann, repórter de campo experiente. E mais recentemente Ney Amado Costa, que além de comentarista esportivo teve carreiras brilhantes como jogador e depois técnico. Poucos dias atrás se foi o Pedro Pinheiro, excelente narrador de futebol.

O rádio esportivo de Rio Grande já tinha perdido, anteriormente, outros valores de renome, como o comentarista Volni Dutra e o narrador Paulo Corrêa, este, sem dúvida o grande nome da imprensa esportiva pelotense e riograndina em todos os tempos. E ainda José Paulo Rodrigues Nobre, narrador de qualidade e poeta admirável.

E nesta semana mais um golpe inesperado, com o falecimento do grande narrador de futebol, Carlos Roberto de Freitas Brauner, com quem tive a honra de trabalhar na Rádio Pelotense, nos anos 1970. Brauner nasceu em Pelotas, no dia 7 de novembro de 1951 e faleceu em Porto Alegre, ontem, 7 de outubro de 2016, na idade de 64 anos. 

Era sobrinho de Clóvis Brauner, grande jogador de futebol do passado, que brilhou no E.C. Pelotas, Grêmio Gabrielense, Santos e Seleção Brasileira.

Em um post em sua página no Fabebook, o narrador esportivo Mário Lima, da Rádio Eldorado, divulgou uma nota de pesar, ontem, sexta-feira pela morte do colega radialista Roberto Brauner.

Na mensagem, Mário Lima lamentou a perda do colega: “Dia triste para todos que conviveram com o querido Roberto Brauner, um cara do bem e grande narrador esportivo. Trabalhamos em prefixos diferentes desde os anos oitenta e dividimos muitas viagens e muitas mesas com muitas histórias ao final de cada transmissão. O “Bob, como eu o chamava não passou em vão neste plano. Vá em paz parceiro”.

Também fui colega do Mário Lima, na Cultura Riograndina. Eu o levei para lá. Pena que tenha ficado pouco tempo. A saudade de Porto Alegre falou mais alto e ele preferiu voltar para o rádio da Capital.

Desde cedo Brauner mostrava vocação para a narração esportiva. Já aos 11 anos de idade andava pelos corredores da Rádio Universidade, de Pelotas, ensaiando transmissões esportivas. Com menos de 20 anos, já era o narrador principal da emissora da Universidade Católica.

Depois foi para a Rádio Pelotense, levado por mim. Eu era o chefe da equipe esportiva da mais velha emissora gaúcha. Além do Brauner levei outro narrador de grandes qualidades, Luiz Carlos Martinez, falecido há pouco tempo.

O Martinez, além de excelente radialista foi um goleiro de futebol de salão dos melhores que o Estado do Rio Grande do Sul conheceu. Defendeu a meta salonista do E.C. Pelotas, que tinha um timaço: Martinez - Rosinha - Vianinha - Aldrovando Dutra – Joca - Galego e Gringo. O "Galego" era o grande treinador Paulo de Souza Lobo.

Eu e o Brauner apresentávamos quase todos os programas esportivos da emissora. Aos domingos à noite ia ao ar a “Grande Resenha Esportiva Mesbla”, também com a presença do Martinez.

O Brauner ria por qualquer coisa. Certa vez, em meio ao programa, o saudoso plantão esportivo Romeu Machado dos Santos, o “Machadinho”, abriu a porta do estúdio com o programa no ar, perguntando insistentemente: “Interessa bolão?”. Ele se referia a noticias sobre o bolão, esporte muito praticado em Pelotas, especialmente pela colônia alemã lá existente.

Foi o que bastou para o Brauner explodir em risadas. E como eu não era e nem sou de ferro, acabava por rir, também, o que provocava a pronta intervenção do técnico de som, colocando uma providencial cortina musical.

Muitas foram às transmissões esportivas que fizemos juntos. Uma, foi inesquecível. O Pelotas foi jogar em São Leopoldo, contra o Aimoré, em uma quarta-feira a tarde. A direção da emissora esqueceu de pedir a linha. Mas ainda assim eu e o Brauner fomos para São Leopoldo e conseguimos junto a Companhia Telefônica a condição para transmitir o jogo.

O telefone foi cedido pelo dono de um restaurante, que ficava a uns 300 metros do Estádio Cristo Rei. Mas houve a condição de que nós instalássemos a linha. A Telefônica nos cedeu uma escada e os fios, e fizemos o trabalho em tempo recorde.

A tarde transmitimos o jogo. O Brauner de narrador e eu de comentarista e repórter. Quase ao fim do jogo, o atacante Mortosa, aquele mesmo que é o eterno companheiro de Luiz Felipe Scolari, o “Felipão”, ponteiro-direito do áureo-cerúleo foi derrubado dentro da área. E gritamos ao mesmo tempo: é pênalti que o juiz não marcou.

Para que. Os torcedores que se encontravam abaixo da nossa cabine, partiram para a agressão. Derrubaram o aparelho de transmissão no chão. E se não fosse a pronta intervenção de soldados da Brigada Militar, não sei o que de pior poderia ter acontecido.

Brauner já alcançara a condição de narrador tipo exportação. Pelotas já ficara pequena para sua grandeza. E foi buscar novos horizontes, indo para a Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, onde estreou no dia 2 de fevereiro de 1977, narrando a final da “Copa Governador do Estado”, entre Brasil, de Pelotas e Esportivo, de Bento Gonçalves.

Permaneceu na rádio por mais de 20 anos, tendo  feito a cobertura das Copas do Mundo de 1978, 1982, 1986, 1990, 1994, 1998 e 2002.

Além de futebol era excelente narrador de outras modalidades esportivas. Esteve presente no tricampeonato de Ayrton Senna, jogos de Gustavo Kuerten na Copa Davis, jogos de vôlei da Frangosul, as 24 horas de Tarumã, as Olimpíadas de Atlanta 96 e várias outras modalidades, dentre elas, o basquete.

Em 1999 trocou de endereço, indo para à Rádio Pampa onde permaneceu até 2007, quando a emissora fechou o Departamento de Esportes. Apresentou o programa matutino “Grande Porto Alegre”, na Rádio Bandeirantes, entre 2007 e 2009.

Depois transferiu-se para à Rádio Eldorado, de Criciúma (SC), onde narrou os jogos da equipe do Criciúma na Série B. Foi demitido no mesmo ano, por ter alto salário na emissora e pelo fato de o time criciumense não ter subido àquele ano. Ganhou três “Prêmios Press” de melhor narrador esportivo em 2000, 2001 e 2002.

Além de esportes, Brauner também atuou em eleições, em Porto Alegre, quando estava na Rádio Gaúcha. Aposentado, confessou estar sentindo muita falta da vida de comunicador.

O velório aconteceu entre 15h e 20h, no Cemitério São Miguel e Almas, onde o corpo foi sepultado.

Fazia muito tempo que eu não via o Brauner. A última vez que falei com ele foi em 1991, quando eu era presidente da S.E.R. São Gabriel. Depois de um jogo amistoso com o Internacional, de Porto Alegre, vencido pelo “colorado” por 2 X 0, oferecemos um churrasco aos visitantes, no salão de festa dos Lederes, frente o Estádio.

E lá estava o Brauner, que havia narrado o jogo pela Rádio Gaúcha. Conversamos bastante e matamos à saudade dos bons tempos do rádio em Pelotas.

Para concluir esta matéria de saudade, lembro também de outros companheiros de rádio esportivo em Pelotas, que Deus já levou: Dinei Avelar, que foi o melhor plantão esportivo da cidade, levado por mim para a Rádio Tupancy. Depois foi para a RU, onde ganhou notoriedade.

Izabelino Tavares, meu irmão, que foi plantão esportivo na Rádio Tupancy. Benito Amato, comentarista esportivo. Trabalhamos juntos na Rádio Pelotense, nos tempos do prédio da rua Félix da Cunha. E também Paulo de Souza Lobo, o "Galego".

Fernando Cunha e Honório Sinott, colegas no jornal “Diário Popular”. Abrãao Gonçalves, o “repórter do rei”, que levei para a Rádio Pelotense. Antônio Carlos Alves, com quem formei uma inédita dupla de narradores de futebol, na Rádio Tupancy. E quem sabe tenha esquecido de outros, e peço desculpas por isso (Texto e pesquisa: Nilo Dias)


Roberto Brauner.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Uma incrível homenagem póstuma

Já pensou na possibilidade de seu clube de futebol lhe fazer uma homenagem com um minuto de silêncio, antes de começar um jogo de futebol e você estiver vivo? Pode parecer piada de mau gosto, mas isso aconteceu.

Na tarde de 24 de julho deste ano, o Jabaquara Futebol Clube, tradicional agremiação esportiva da cidade praiana de Santos (SP) jogou e venceu ao Grêmio Prudente, de Presidente Prudente, por 3 X 2, em partida válida pela primeira rodada da segunda fase do Campeonato Paulista da Série A2.

O início do jogo contou com um momento inusitado. O sistema de som do “Estádio Espanha”, do clube santista, na “Caneleira”, anunciou um minuto de silêncio após a notícia de que o presidente do Jabaquara, Antônio Gilberto Amaral da Silva, 70 anos, havia falecido.

Ao final do primeiro tempo, no entanto, a organização do clube esclareceu que a informação estava equivocada e que o dirigente ainda estava vivo.

O acontecimento seria cômico se não fosse trágico. Ricardo Gonçalves da Silva, filho de Antônio Gilberto esteve no estádio e explicou que seu pai sofreu uma complicação na cirurgia de que foi paciente, mas ainda estava sendo avaliado pelos médicos.

Antônio Gilberto estava há meses com um problema na coluna. Ele já havia operado o fêmur. Estava afastado do cargo pelos problemas de saúde, e já não andava mais. O presidente havia operado a cervical na semana passada, e na última sexta-feira passou mal e voltou para o hospital.

O falecimento ocorreu após a terceira cirurgia que Antônio teve de passar. Curiosamente sua morte aconteceu três dias depois da gafe da equipe ganhar destaque no país.

Ele chegou a jogar profissionalmente pelo Jabaquara na década de 60. Silva era presidente do clube desde setembro do ano passado, quando assumiu o posto no lugar de Manoel Rodriguez Gonzales, que morreu de câncer.

O velório aconteceu no “Memorial Necrópole Ecumênica”, em Santos, onde se realizou o sepultamento. O Jabaquara Atlético Clube lamentou a morte de seu presidente e lançou nota oficial prestando solidariedade aos familiares.

No jogo contra o Prudente, o Jabaquara marcou dois gols em apenas nove minutos no primeiro tempo. Aos 2 minutos, Welder marcou o primeiro gol do time da casa em uma jogada com Caique.

Logo depois, aos 9 minutos, Alef recebeu livre e não deu chances de defesa para o goleiro Douglas Silva. O início avassalador garantiu uma tranquilidade para a equipe que venceu o jogo por 3 X 2.

Ainda no primeiro tempo, o Grêmio Prudente descontou aos 30 minutos. Gustavo derrubou Renatinho na área. O próprio reduziu a diferença, cobrando pênalti com um chute certeiro no canto esquerdo.

Aos 19 do segundo tempo, Jé ampliou a vantagem do Jabaquara para 3 X 1. No final da partida, aos 46 minutos, Renatinho marcou mais uma vez para o time visitante. Reação tardia e os três pontos foram garantidos para o “Jabuca”.

Torcedor fervoroso do Jabaquara, Gilberto chegou a atuar com a camisa do “Leão da Caneleira” em 1965, mas devido a uma torção no joelho, acabou deixando o futebol. Apesar de ter participado por décadas da vida política do clube, ficou menos de um ano no cargo de presidente.

O Jabaquara foi fundado a 15 de novembro de 1914. Suas cores são o amarelo e o vermelho. A agremiação, anteriormente chamada de “Hespanha”, foi um dos membros fundadores da Federação Paulista de Futebol.

Disputou a Primeira Divisão estadual (atual A-1) entre os anos de 1927 a 1963, com sete ausências. Atualmente, disputa a Segunda Divisão do Campeonato Paulista de Futebol, organizado pela FPF.

O histórico do clube conta que ele foi fundado por um grupo de jornaleiros espanhóis, ou "tribuneiros", como eram chamados, ao início do século 20, que costumavam se reunir em torno do atual bairro do Jabaquara, em Santos.

Várias denominações foram sugeridas para a nova agremiação, como nova Cintra e Jabaquara. Mas acabou prevalecendo “Hespanha”, sugestão de um senhor negro, ex-escravo. E assim surgiu o “Hespanha Foot Ball Club”, em 15 de novembro de 1914.

A sua primeira partida oficial ocorreu em 1916, contra o Clube Afonso XIII, um resultado de 1 X 1, ocasião em que foi levantado o primeiro pavilhão do clube.

Nos anos de 1918 a 1920, conquistou a "Taça Grande Café D'Oeste" e participou como convidado na inauguração do estádio da Associação Atlética Portuguesa.

A partir dai o clube alcançou um grande crescimento, obrigando os dirigentes a construírem em 1924 uma praça esportiva maior, que se localizava no bairro do “Macuco”, o "Estádio Antônio Alonso", que levou o nome do seu proprietário. 

O primeiro jogo internacional do “Hespanha” aconteceu em 1930, tendo como adversário uma Seleção de Buenos Aires. Os brasileiros venceram por 3 X 2.

O Hespanha Foot Ball Club, como foi chamado até 1941, entrou para a Liga Santista em 1917. Dez anos mais tarde, a equipe começou a ganhar seu espaço e com campanhas impressionantes recebeu o carinhoso apelido de “Leão do Macuco”, numa alusão ao bairro em que ficava sua sede.

Uma lei datada da década de 1940, quando da Segunda Guerra Mundial, obrigou a mudança de nome. O clube, depois de uma votação, passou a chamar-se Jabaquara, em homenagem ao seu bairro de origem.

O ano de 1944 foi histórico. O ataque do time foi o melhor do futebol paulista. Esse período de grandeza resistiu até 1957, quando o treinador era Arnaldo de Oliveira, popularmente conhecido como “Papa”.

Tempos de revelações de grandes jogadores, como o goleiro Gilmar, com passagem pelo Sport Club Corinthians Paulista e campeão mundial pelo Santos Futebol Clube e Seleção Brasileira de Futebol. E Osvaldo da Silva, o famoso “Baltazar”, que depois se consagrou no Corinthians, recebendo o apelido de “Cabecinha de Ouro”.

Durante sua centenária trajetória o Jabaquara revelou outros bons jogadores, casos de Marcos (revelado para o Corinthians), Feijó, Getúlio, Ramiro e Álvaro (para o Santos), Célio (para o Vasco da Gama,do Rio de Janeiro) e Melão, (do Santos para a Itália).

Em 1945 o clube sofreu grave crise financeira e por pouco não foi rebaixado para à Segunda Divisão. Teve de vender um valorizado terreno, próximo à praia, no bairro “Ponta da Praia”, que não saldou as dívidas do clube. Restou treinar em um campo na cidade vizinha de São Vicente.

O ano de 1957 foi marcante na história do clube, que conseguiu bater de virada o rival Santos, em partida inesquecível disputada na Vila Belmiro.

O técnico do Jabaquara era Nelson Ernesto Filpo Nuñes, que a partir dali passou a ser chamado de “Dom Filpo” pelo seu feito de vitórias consecutivas no clube. Ele ainda salvou o clube de um rebaixamento em 1959. O inevitável rebaixamento ocorreu em 1963.

Em 1963 o Jabaquara comprou uma grande área de 67.380 m2, em um local alagadiço e pouco valorizado, mas que contribuiu para o crescimento no bairro da “Caneleira”, onde construiu seu atual estádio, que leva o nome de “Hespanha”. A área é bem maior que do Estádio Urbano Caldeira, da Vila Belmiro. Essa é a origem do nome da mascote, "Leão da Caneleira".

As seguidas crises de ordem financeira fizeram com que o clube se dedicasse durante algum tempo, a equipes amadoras, deixando o futebol profissional. O retorno aconteceu somente em 1977 inserido na Terceira Divisão (atual A-3).

A partir dai o Jabaquara vive uma alternância entre a Segunda Divisão (atual A-2) e a Terceira, mesmo sendo um privilegiado fundador da Federação Paulista de Futebol.

Em 2002 o clube parecia que ia se recuperar dentro de campo, quando foi campeão paulista da Série B3, antiga Sexta Divisão, atualmente extinta, chegando a se manter invicto por 23 jogos.

E assim tem sido sua trajetória. Em 2006 e 2007 na Quarta Divisão
Em 2008 a equipe anexou ao seu patrimônio o Litoral Futebol Clube, entidade de um projeto social idealizado por “Pelé”.

Com isso a equipe conseguiu apoio para as disputas da Série B estadual e para as categorias de base, além de um patrocínio com a empresa alemã “Puma”, fornecedora de materiais esportivos. Além do Jabaquara, o Monte Alegre e o Paulista, de Jundiaí também fazem parte do projeto.

Participações em campeonatos. Campeonatos Paulista: Série A1: 30 participações (1927, 1928, 1929, 1935, 1936, 1937, 1938, 1939, 1940, 1941, 1942, 1943, 1944, 1945, 1946, 1947, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952, 1955, 1956, 1957, 1958, 1959, 1960, 1961, 1962 e 1963); Série A2: 6 participações (1964, 1965, 1966, 1967, 1980, e 1982); Série A3: 12 participações (1981, 1983, 1984, 1985, 1986, 1987, 1988, 1989, 1990, 1991, 1992 e 1993); Segunda Divisão: 20 participações – 1977, 1978, 1979, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015; Série B2 (extinta): 4 participações (2000, 2001, 2003 e 2004); Série B3 (extinta): 1 participação (2002). Títulos Estaduais. Campeonato Paulista - Série A3 (1993) e Campeonato Paulista Segunda Divisão (2002).

Campanhas de Destaque. Taça Grande Café D'Oeste: (1918, 1919 e 1920); Vice-Campeonato Paulista Sub-20 - 2ª Divisão (2011 e 2012) e Vice-Campeonato Paulista (1927).

O Jabaquara Atlético Clube conta apenas com uma torcida organizada: a “Fúria Rubro-Amarela”, fundada em 2008. Essa torcida vem se destacando no cenário paulista da segunda divisão, comparecendo aos jogos, incentivando e apoiando o clube em todos os momentos. O seu lema é "Lado a lado com o Jabuca". (Pesquisa: Nilo Dias)

Antônio Gilberto Amaral da Silva, presidente do Jabaquara, que recebeu homenagem de um minuto de silêncio, ainda em vida. (Foto: Divulgação)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

O “santo” massagista do América de São José do Rio Preto

Homem de um milhão de amigos dentro e fora do futebol, de caráter ilibado e sempre solícito, Antônio Sutto, o “Tio Nico”, foi o maior massagista da história do América Futebol Clube, de São José do Rio Preto. Foram 33 anos dedicados ao “rubro”, uma de suas grandes paixões.

Nascido em Neves Paulista, no dia 10 de agosto de 1933, em sua longa carreira curou contusões de jogadores e de todos que o procuravam no alto da Vila Santa Cruz, na antiga sede do América, no estádio Mário Alves Mendonça.

Entre as muitas histórias que se contam sobre ele, o debutante América fazia boa campanha na elite paulista, com vitórias sobre o Taubaté, Ferroviária, 15 de Jaú e Guarani, de Campinas, empates com Portuguesa Santista e Nacional e somente uma derrota, para o Botafogo, de Ribeirão Preto.

"Nico", apelido que carregou desde a infância, ainda não era massagista do seu clube de coração. Trabalhava como enfermeiro no Pronto Socorro Municipal, no cruzamento das ruas Voluntários de São Paulo e Saldanha Marinho, frente o antigo “Tiro de Guerra”, no Centro de Rio Preto.

Seu irmão Arlindo Sutto e o amigo João Manoel Pereira Filho, também prestavam serviços no local. Os massagistas Osmar e Francis tinham deixado o América logo após a vitória de 3 X 0 sobre o Guarani, em Rio Preto, dia 18 de junho, pela sétima rodada do Paulistão.

Profissional qualificado, apaixonado pela profissão, nunca passou pela cabeça de "Nico" qualquer envolvimento com o futebol, a não ser o de torcedor.  

Foi quando o médico Carlos Cabbaz e o diretor Osvaldo Meucci, o “Dico”, foram até a sua casa pedir para que ele colaborasse com o América, que no domingo seguinte jogaria com o Jabaquara, em Santos.

Prestativo como ele só, "Nico" conseguiu uma folga no Pronto Socorro e foi com a delegação vermelha para o litoral santista. Deu sorte e o América conseguiu empatar em 0 X 0. E dessa maneira teve início a sua carreira de massagista.

O técnico americano era o argentino Filpo Nuñez. O time era bom e a torcida sabia a escalação de cor e salteado: Vilera - Xatara e Fogosa. Adésio - Bertolino e Ambrózio. Cuca – Leal – Dozinho - Vidal e Orias.

Era um mundo completamente diferente daquele que estava habituado. Além das injeções e medicamentos diversos, vestiário, jogadores, óleo elétrico e muita massagem também fizeram parte do seu cotidiano.

Passou a viver ativamente a vida do clube. Os jogadores aprenderam a gostar dele e confiarem no seu profissionalismo. Na hora da dor, era só consultar o "Nico" para ter alívio imediato.

Mas ele era exigente e gostava que os jogadores seguissem à risca as suas determinações. Costumava dizer que era mais fácil trabalhar quando todos são disciplinados e obedientes.

A atenção que "Nico" dedicava a todos, fez com que também se tornasse um verdadeiro conselheiro dos atletas. Muitos contavam a ele até intimidades. Foi assim com o jovem atacante Cardoso, artilheiro da equipe americana na conquista do título da Segunda Divisão de 1963.

Amante de pescaria, o “santo massagista do América” curtia os raros momentos de folga na beira do rio Turvo. Alguns atletas viraram companheiros de pesca, como o zagueiro "Nelson Coruja", que depois foi para o Palmeiras, e o goleiro Reis.

O jogador “Nélson Coruja”, que havia jogado no América e foi para o Palmeiras, chegou a indicar ao alviverde a contratação de "Nico" . Mas este agradeceu o convite e preferiu ficar no América, clube que aprendeu a amar. Além de manter suas raízes de riopretano.

"Nico" dizia que a parte financeira não era o que mais importava. Ganhando bem ou mal, o importante era executar o trabalho com dedicação, disse, em entrevista publicada em 1969 pelo jornal “Diário da Região”.

Trabalhou no América até 1991. Neste período, foi campeão da “Segunda Divisão”, de 1963 (atual A-2), com acesso ao Paulistão, e do “Torneio José Maria Marin”, de 1987 (equivalente a Copa Paulista de hoje).

Ainda participou da conquista da “Taça dos Invictos”, de 1973, quando o América ficou 17 jogos sem perder no “Paulistinha”. Também viu a equipe disputar os campeonatos brasileiros de 1978 e de 1980.

"Tio Nico" trabalhou com os treinadores Filpo Nuñez, Américo Brumell, Conrado Ross, João Avelino, Antonio Julião, Gilson Silva, Rubens Minelli, João Leal Neto, Wilson Francisco Alves, o “Capão”, Vail Mota, Urubatão Calvo Nunes, Barbatana, Candinho e outros conceituados mestres.

Em junho de 1992, Antônio Sutto sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o que complicou bastante a sua saúde. Os últimos 18 meses de vida foram passados em uma cadeira de rodas. Apesar da lucidez, conversava pouco.

Era um quadro bem diferente, que em nada lembrava daquela pessoa falante e divertida, dos tempos de massagista, que animava o vestiário ao contar causos saborosos.

“Nico” foi casado com Célia Rodrigues e teve os filhos Marcos Antônio, Márcio e Márcia Bruna, mas separou-se da mulher na década de 1980.

Com a saúde debilitada, foi morar em uma casa em Santa Fé do Sul, alugada por seu irmão Arlindo. Tinha acompanhamento diário de médico e de enfermeira.

Morreu de insuficiência respiratória aos 60 anos, no dia 9 de dezembro de 1993, numa manhã cinzenta de nuvens carregadas, como se o céu também chorasse a sua partida deste plano espiritual. (Pesquisa: Nilo Dias, baseada em artigo de Edwellington Villa, do jornal "Diário da Região", de São José do Rio Preto)