Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O futebol veste rosa

O recente escândalo envolvendo o jogador Ronaldo Fenômeno fez ressurgir a polêmica da existência de gays no mundo do futebol. É claro que ninguém está jogando no atleta a pecha de homossexual, muito pelo contrário. Ronaldo sempre foi um mulherengo inveterado e conquistou algumas das mulheres mais bonitas do mundo. Agora, ao que parece ele passou por aquilo que se chama de “hora boba”, ao ir para um quarto de motel com três homossexuais.

Neste artigo quero mostrar alguns fatos que a imprensa dificilmente comenta. São verdadeiros tabus. Será mesmo que procede aquele velho e surrado ditado que diz ser o futebol um esporte só de machos? Grosso modo, sim, mas a história está mudando. Já temos o futebol feminino, que cada vez mais se firma em todo o mundo. E o futebol disputado por gays dá seus primeiros passos.

Mas não vai ser uma tarefa fácil, o machismo ainda predomina. Todos devem estar lembrados do caso que envolveu o jogador Richarlyson, do São Paulo Futebol Clube que entrou com uma ação na Justiça contra o dirigente José Cyrillo Júnior, da Sociedade Esportiva Palmeiras que durante uma entrevista na TV Record o chamou de homossexual.

O juiz de Direito Manoel Maximiano Junqueira Filho, encarregado de julgar o caso, emitiu uma sentença negando o andamento da ação. E disse com todas as letras que “gays não podem praticar o futebol, que é um jogo viril, varonil, não é para homossexuais”. E mais adiante escreveu: “Não sou contra que gays joguem futebol, mas que formem seus times e iniciem uma federação só deles”.

Depois, em entrevista ao programa "Fantástico" da TV Globo, o jogador negou que seja homossexual e disse que pretendia casar. Ele contou também que, caso fosse gay, não teria nenhum problema, já que só deve satisfações à família.

A televisão deu ênfase o ano passado a “Copa do Mundo de Futebol de Gays e Lésbicas”, disputada pela primeira vez na América do Sul. Buenos Aires, na Argentina, foi escolhida como sede, por ter sido a primeira cidade da região a aprovar, no ano 2000, a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

A competição, que é promovida pela homossexual “International Gay and Lesbian Football Association”, uma versão da heterossexual Fifa, teve a participação de equipes de 14 países e foi realizada entre os dias 23 e 29 de setembro, sem a presença brasileira. Nenhuma equipe de lésbicas foi inscrita no torneio, por falta de patrocinadores. O time argentino do “Los Dogos (DAG)” foi o campeão, vencendo na partida final o time inglês do “Yorkshires Terriers F.C.”, por 1 X 0, com gol de um jogador brasileiro.

Entre os times participantes estavam o “Uruguai Celeste”, o “Chile Gay Deportes”, a “Seleção Inter México de la Diversidad”, o venezuelano “Ávila Futbol Club”, “Yorkshires Terriers F.C.” da Inglaterra, “Nuova Kaos Milano”, da Itália e os americanos “New York Ramblers”, “San Francisco Spikes”, “Philadelphia Falcons” e o “Federal Triangles Soccer Club”, além do campeão “DAG”, de Buenos Aires. As copas anteriores foram realizadas em Londres, que será sede do evento este ano, Sidney e Boston.

O “New York Rambles”, dos Estados Unidos, fundado em 1980 é considerado o primeiro time de homossexuais da história. Depois dele teria vindo o “Kamalions”, criado por jovens homossexuais de Bilbao, capital do País Basco.

Em todo o mundo, aumenta o número de times gays. No México foi realizado o “1º Campeonato Gay de Futebol”, com a participação de cinco equipes: “El Clan”, “Fashion Team”, “The Fucker”, “Fuerza G” e “Tu Mamá”. Os juízes e bandeirinhas também eram gays.

No Brasil, país do futebol, o fenômeno ainda é tímido. Mesmo sem ter participado de nenhuma “Copa do Mundo Gay”, existiu aqui até pouco tempo um clube relativamente organizado, o “Rozas Futebol Clube” (é com z mesmo), do Rio de Janeiro, fundado em 1998 pelo piauiense Raimundo Pereira, cantor, ativista e goleiro do time. O nome foi uma homenagem aos homossexuais marcados na Alemanha nazista com o triângulo rosa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a perseguição nazista também teve como alvo os homossexuais. Eles eram marcados com um triângulo rosa e mandados para campos de concentração. Por esse motivo, o triângulo rosa se tornou um dos símbolos do movimento ativista gay. O time do “Rozas” participou de uma “Olimpíada Gay” e foi mostrado em um documentário da rede de tevê inglesa, BBC.

Os atletas do time costumavam entrar em campo com maquiagem forte, peruca, cílios postiços, batom, muito blush, uniforme pink, dando gritinhos e cantando “Hey, Hey, Hey, o mundo é gay que eu sei”. Um dos jogadores do “Rozas”, o auxiliar de enfermagem e cabeleireiro, Sérgio Santana, o “Kayka Sabatella”, era a grande atração nos jogos, ao correr sem sutiã, sacudindo os seus 400 milímetros de silicone em cada seio, num corpo de 115 quilos. “Kaika”, fora das quadras é a famosa “Rainha Momo Le Boy”.

Todos os jogadores do time trabalham em profissões convencionais, como auxiliar de enfermagem e cabeleireiro, mas à noite “soltam a franga” em boates gays como transformistas ou “drag queens”. “Kayca” quer retomar as atividades do grupo em breve. Flamenguista doente, já fez parte da torcida organizada “Fla Gay”. Mas parou de ir aos estádios porque sofreu ameaças de homofóbicos de vários times.

Em Lorena (SP), é disputado anualmente o “Futgay”, uma partida de futebol com o objetivo de arrecadar brinquedos para o Natal das crianças, numa promoção da Prefeitura Municipal e de quatro cabeleireiros da cidade: Beto, Rodrigo, Rinaldi e Gigi. No ano passado o jogo foi apitado pelo árbitro catarinense Clésio Moreira dos Santos, o popular “Margarida”, profissional conhecido no mundo futebolístico, que garante não ser gay, apenas representa um personagem. Ele é casado e tem filhos.

Mas existiu um verdadeiro “Margarida”. Foi o árbitro carioca Jorge José Emiliano dos Santos, falecido de AIDS, em 21 de janeiro de 1995, aos 41 anos. Homossexual assumido e folclórico, “Margarida” costumava peitar os jogadores metidos a “machões”. Sempre arrumava um jeito de mostrar o cartão amarelo para Renato Gaúcho nos jogos do Campeonato Carioca. E segundo as más línguas, sempre o fazia de um jeito um pouco mais carinhoso.

Em várias cidades é disputado um outro tipo de “futgay”, apenas de brincadeira. É o caso do bairro de São Francisco, em São Sebastião (SP), onde há 20 anos moradores e turistas se reúnem na praia vestidos de mulheres, para divertidas disputas futebolísticas. A edição deste ano aconteceu em 1 de janeiro, com muita animação.

Não podemos esquecer das torcidas “coloridas”. No Brasil, muitos times têm torcidas gays, que brigam para provar qual é a mais numerosa, a mais antiga ou a mais animada. A “Cru-Gay”, do Cruzeiro (MG), clama ser a mais antiga. Mas tem a “Flu-Gay”, do Fluminense (RJ), “Coligay”, do Grêmio (RS), “Timbugay”, do Náutico (PE) e “Galo-Gay”. A “Fla-Gay”, do Flamengo (RJ), também clama ser a primeira torcida homossexual do Brasil. Surgiu nos anos 70 e deixou de existir depois de muito apanhar de outra torcida do mesmo time, a “Torcida Jovem”. Texto e pesquisa: Nilo Dias)

Atletas do "Rozas" Futebol Clube (Foto: Divulgação)

Horácio disse...
Oi Nilo: Tudo bem? è bom lembrar que aqui no RS, na cidade de Santa Maria, tem a "Maré Vermelha" que faz o maior "auê" nas partidas do Inter-SM. Horácio Gomes
7 de maio de 2008 17:15

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O Jogo da vida e da morte (Final)

Já contei sobre estádios de futebol que viraram cemitérios. Mas de cemitérios que viraram estádios, alguém já ouviu falar? Pelo menos de um, eu fiquei sabendo. O site da BBC, de Londres, tempos atrás divulgou um fato bastante polêmico ocorrido na Bielo-Rússia. O FK Neman Grodno, time que disputa a primeira divisão daquele país, pretende expandir seu estádio para se adequar às exigências da Uefa, para que a equipe tenha condições de disputar as copas européias.

O problema é que o estádio do clube, construído nos anos 50 e que já utilizava uma parte do cemitério velho de quase 300 anos, precisa ser ampliado. E para isso terá de avançar por toda a área restante do cemitério, que está desativado desde 1950. A maioria dos mortos ali sepultados são judeus, vítimas do Holocausto, na Segunda Guerra Mundial.

As escavações já começaram, inclusive com a retirada de várias ossadas encontradas em valas coletivas. Os judeus estão revoltados com o que consideram um desrespeito ao seu povo. Ainda restam em Grodno poucos parentes dos mortos, mas que se sentem atingidos com o projeto do clube da cidade.

A polêmica está aberta e já chegou aos dirigentes da Fifa, que alegam a impossibilidade de intervir, pois se trata de um problema dentro de um país soberano, a Bielo-Rússia. Agora, a comunidade judaica apelou a Uefa na busca de um possível acordo entre as partes.

Pelé, o rei do futebol sabe que será eterno apenas na história do esporte. Por isso já tratou de garantir um bom lugar para seu descanso eterno, quando chegar a inevitável hora. Foi notícia no mundo todo quando adquiriu um espaço na Memorial Necrópole Ecumênica, o cemitério vertical mais alto do mundo, segundo o Guiness Book. São quatro prédios, três deles, com 14 andares. O recorde será maior quando estiver concluído o novo edifício de 32 pavimentos, o mais alto da Baixada Santista.

Pelé garante que não tem medo da morte, tanto que compôs uma música que fala dela: “Que eu vou morrer eu sei, tô esperando a minha vez. A ciência não explica, a religião quer explicar para onde a morte vai me levar. Viajo de avião pelo mundo todo. Não tenho medo algum. Mas isso ainda vai demorar muito. E tem outra coisa. O Pelé não vai ser sepultado na Memorial. Ele é imortal, eterno. Quem vai ser sepultado é o Edson”. O jazigo escolhido por Pelé fica no 9º andar e com vista para o Estádio de Vila Belmiro. Vai servir também para abrigar os restos mortais de seu pai, sua tia e sua avó, que serão transferidos do cemitério do Saboó, onde estão sepultados.

A Memorial é realmente um cemitério para lá de moderno. Abriga a morte e patrocina a vida. São vários os atletas que usam a marca da empresa, entre muitas modalidades esportivas, tudo com o objetivo de divulgar a cidade de Santos. Entre os atletas de ponta estão Valmir Nunes, bicampeão mundial de ultramaratona (100 km) e recordista das Américas em provas de 24 horas; o argentino radicado em Santos, Oscar Galindez, campeão do Ironman Brasil, hexacampeão do Troféu Brasil de Triathlon e pentacampeão do Triathlon Internacional de Santos. E a equipe de ciclismo número 1 do ranking nacional nos últimos três anos, que conta com estrelas como Hernandes Quadri Júnior e Márcio May, representantes brasileiros em duas olimpíadas.

Tem também aqueles que descobrem outras utilidades para os cemitérios, além dos sepultamentos. Recentemente o goleiro Rafael Córdova, do Vitória da Bahia, vestido de viúvo, terno preto e com uma rosa vermelha no bolso do paletó foi fotografado em poses sensuais pela fotógrafa pernambucana Josefa Coimbra, em pleno cemitério “Campo Santo”, em Salvador. As fotografias foram encomendadas por algumas revistas, que andam atrás de imagens do jogador de futebol, que tem olhos verdes e 1m95 de altura.

Alguém já ouviu falar da existência de pessoas "viciadas" em velórios? Pode ser estranho e até mórbido, mas existem. O trabalhador autônomo Luis Roberto Squaris, um paulista de 42 anos, morador em Batatais, no interior de São Paulo, garante que freqüenta velórios há mais de 20 anos, desde o falecimento de seu pai, em 1983. Ele costuma levantar cedo, e a primeira coisa que faz é ligar o rádio para saber quem morreu. Caso não consiga nenhuma informação pelas emissoras locais, telefona para as funerárias.

No Velório São Vicente, único de Batatais, Squaris é presença certa, não importa se o morto seja conhecido, ou não. É um freqüentador tão assíduo, que já ficou amigo de todos os agentes funerários e do dono do bar do velório. Mas quando morrer, não quer ser velado no local tradicional. O "viciado" em velórios já escolheu outro local, o campo do time Batatais Futebol Clube, de quem é fervoroso torcedor.

No início do ano estive no Sul e aproveitei para fazer uma visita aos túmulos de alguns familiares falecidos, no cemitério de Pelotas (RS). E me surpreendi ao ver muitas sepulturas com escudos de clubes de futebol, principalmente do G.E. Brasil, o time mais popular de lá. Mas também encontrei do E.C. Pelotas, G.A. Farroupilha, S.C. Internacional, Grêmio Portoalegrense e até do C.R. Flamengo, do Rio de Janeiro.

Não sei como isso teve início, mas o rubro-negro carioca bem que pode ter sido a fonte inspiradora, pois diz em seu hino: “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”. Achei interessante, pois de alguma forma dá um tom mais ameno a um ambiente cheio de saudade. E resolve o problema do torcedor que ainda não conta com um cemitério próprio de seu clube de coração.

Em Manaus, a falta de locais mais apropriados para jogar futebol faz com que de tempos em tempos um grupo de rapazes use o cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, como campo para suas “peladas” de fim de tarde. Tudo lá é improvisado, as traves são dois túmulos e o campo é a parte do cemitério onde há grama.

A Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos da prefeitura de Manaus, responsável pela conservação dos cemitérios da cidade, está atenta ao problema e tem feito esforços para que o local seja respeitado. A garotada desaparece por um tempo, quando a coisa aperta. Mas quando menos se espera, lá estão eles de volta. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Capa do jornal "Amazonas em Tempo", mostra garotos jogando futebol dentro de um cemitério.

domingo, 4 de maio de 2008

O jogo da vida e da morte (1)

Não é brincadeira. A mais nova aposta dos clubes de futebol para aumentarem suas receitas está na criação de cemitérios para torcedores. O clube de futebol “R.C.D. Espanyol”, de Barcelona, pai da idéia, inaugurou em novembro do ano passado o seu novo estádio “Cornellá-Prat”, que tem incorporado um cemitério para 20.000 adeptos do clube, em uma área de cerca de 1.000 m2, divididos por 3 pisos.

Vai funcionar como uma extensão do museu do clube e as urnas serão cobertas por pinturas e fotografias com imagens da equipe catalã, escolhidas pelos futuros mortos. Cada local de repouso vai custar cerca de 4.000 euros, pouco mais de R$ 10 mil, por um período de 15 anos.

Uma pesquisa realizada pelo jornal diário “Marca”, que perguntou “você compraria um jazigo no cemitério de seu time de futebol?”, apontou que cerca de 30% dos cidadãos espanhóis têm o desejo de serem incinerados após sua morte, o que animou os dirigentes do Espanyol. Eles esperam lucrar 4,5 milhões de euros para o clube, cerca de R$ 11 milhões, com a venda dos lotes no primeiro período, até 2023.

O clube alemão Hamburgo HSV também aderiu à nova moda e está construindo o primeiro cemitério dedicado ao futebol da Alemanha, localizado a alguns metros do Nordbank Arena, onde o clube disputa seus jogos. O cemitério, que vai ser inaugurado este ano, será decorado com um portão de entrada no formato de gol e terá espaço para 300 a 500 sepulturas. Os torcedores já fazem reservas. O clube divulgou que por enquanto o comprador mais velho é Ernst Schmit, um viúvo de 85 anos de idade que torce há 57 pelo HSV. O mais novo tem 27 anos e seu nome não foi revelado.

Os túmulos serão organizados num semicírculo em três níveis diferentes para lembrar uma arquibancada. O local de 2.500 metros quadrados fica na esquina de um antigo cemitério. A construção do cemitério veio como resposta às consultas de alguns dos 50 mil sócios do clube que pediram para terem suas cinzas espalhadas pelo campo, enterradas no estádio ou até no local da cobrança de penalidade máxima.

A escolha da lápide ficará a critério dos torcedores. A idéia é que sejam plantadas flores em um canteiro no formato do emblema do time, e monumentos em pedra construídos em homenagem a famosos jogadores do HSV. O uso de cores extravagantes será desaconselhado.

Os fãs do clube Everton Football, da Inglaterra, podem ter suas cinzas enterradas em uma urna ao lado do campo. As leis de sepultamento alemãs não permitem que isso seja feito, mas os fãs dos clubes Schalke 04 e Borussia Dortmund podem ser enterrados em urnas em formato de bola de futebol, ou caixões pintados com as cores do time.

O Boca Juniors (ARG) idealizou um projeto semelhante, que virou fonte de receita para o clube. Desde 2006 está funcionando um cemitério para seus torcedores com capacidade para 3 mil sepulturas, todas decoradas com flores azuis e amarelas, as cores do clube. Está localizado em um setor do cemitério “Parque Iraola”, em Berazategui, a 30 km ao sul de Buenos Aires. Com isso o Boca Juniors põe em prática uma das estrofes de seu hino que diz: “nem a morte nos vai separar, desde o céu vou te alentar".

O cemitério foi inaugurado com a exumação dos restos mortais dos goleiros Juan Estradas e Júlio Elias Musimessi, antigos jogadores do Boca, cujas cinzas foram depositadas no local. Na ocasião o ex-atleta Antônio Ubaldo Rattin, que jogou no clube há quatro décadas disse: “Está tão lindo que dá vontade de ficar”. A motivação para a construção do cemitério foi idêntica a do Hamburgo HSV: muitos sócios pediam para jogar as cinzas de seus familiares em “La Bombonera”, o estádio do clube.

Clubes como Real Madrid, Arsenal, Manchester United, entre outros, já mostraram interesse em também criarem os seus cemitérios e para isso fizeram consultas ao pioneiro Espanhol, para saberem se o empreendimento é válido.

Mas a relação futebol-cemitério não é nova. Muitos fatos já aconteceram envolvendo coisas tão diferentes. O futebol é uma explosão de vida, de alegria. O cemitério é um local de morte, de saudade, de silêncio.

Eu sei de duas histórias de estádios que viraram cemitérios. Um deles foi o velho Estádio da Montanha, do Esporte Clube Cruzeiro de Porto Alegre, de tantas tradições, que eu cheguei a conhecer. Narrei muitos jogos entre o clube estrelado da capital e times de Pelotas, onde eu morava e trabalhava. O Cruzeiro atravessava uma fase financeira difícil, e a solução encontrada foi vender o estádio para a construção do Cemitério João XXIII, hoje o mais moderno de Porto Alegre.

Parece que o negócio não foi muito vantajoso para o Cruzeiro, clube tradicional do Rio Grande do Sul, fundado em 14 de julho de 1913, que já foi até campeão gaúcho (1929) e pioneiro no Estado em excursões para o exterior. Tanto é verdade que depois da venda do estádio o clube entrou em decadência total. Hoje amarga à segunda divisão gaúcha e ocupa um acanhado estádio no bairro de Alto Petrópolis e praticamente não tem torcida.

Moacir Scliar, escritor gaúcho e remanescente dos torcedores que acompanharam a fase áurea do clube inspirou-se no episódio da venda do estádio para escrever um divertido romance sobre uma equipe decadente, o “Pau Seco Futebol Clube”, que cede seu campo para a construção de um cemitério, a “Pirâmide do Repouso Eterno”. Entre as divertidas situações está Rubinho, o craque do time que tem medo de marcar gol em frente ao túmulo do falecido ídolo Bugio. Ao final da história o cemitério volta a ser estádio.

O estádio Manoel Brasil de Melo, em Coari, a 370 quilômetros de Manaus, é o outro estádio que virou cemitério. Coisa curiosa, uma cidade que tem uma das economias mais prósperas do Norte, em virtude da província petrolífera de Urucu e que recebe só de royalties, quase R$ 4 milhões por mês, não teve condições de manter em atividade um clube profissional de futebol. Por isso, o Grêmio Atlético Coariense, o “tricolor do petróleo”, que muitos pensavam ser a redenção do decadente futebol amazonense fechou as portas o ano passado.

Pior do que ver o time sair de campo, foi assistir o único estádio de futebol da cidade virar cemitério, sob a alegação de que não havia mais lugar onde enterrar os mortos. Junto, o prefeito de lá enterrou de vez, o futebol naquele pedaço de Brasil. A revista “Craque” fez uma série de três reportagens intituladas "A morte do futebol", com foco na incrível experiência de Coari, cujo time foi vice-campeão amazonense em 2004 e campeão em 2005. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O cemitério do Boca Juniors guarda restos mortais de seus torcedores (Foto: Divulgação)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Paulo Amaral, o pioneiro da preparação física no Brasil

O futebol brasileiro está de luto. Morreu ontem, aos 84 anos, em sua casa no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, ao lado da esposa Flórida, com quem era casado há 54 anos e da filha, Paula, o ex-jogador de futebol e preparador físico, Paulo Amaral, que sofria de câncer. Ele foi o responsável por comandar os exercícios da seleção brasileira bicampeã mundial nas Copas de 1958, na Suécia, e de 1962, no Chile, além de ter sido jogador do Flamengo e do Botafogo. O sepultamento aconteceu ontem mesmo, às 17 horas, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro.

O carioca Paulo Amaral, nascido em 18 de outubro de 1923, foi o primeiro especialista em preparação física da história da Seleção, assumindo funções que até então eram exercidas pelos próprios técnicos, como aconteceu com Flávio Costa, no Mundial de 1950, com Zezé Moreira, em 1954 na Suíça, e nos mundiais anteriores. Naquela época a preparação física não tinha a mesma importância de hoje. Era feita de forma simples, como se fosse um aquecimento.

Formado pela Escola de Educação Física do Rio de Janeiro, começou a carreira de preparador físico em 1953, no Botafogo. O atacante Pirilo, que tinha sido seu companheiro no Flamengo, assumiu como técnico e o convidou para cuidar da parte física do elenco alvinegro e dirigir o time de aspirantes onde alcançou a incrível invencibilidade de 52 vitórias em 52 jogos. Assim começou a trajetória vitoriosa do profissional.

Paulo Amaral foi considerado o mentor de uma revolução na preparação dos atletas no Brasil dos anos 60. Trabalhou, além do Botafogo e Seleção Brasileira, na Seleção Carioca, Fluminense (RJ), Vasco da Gama (RJ), Corinthians (SP), Clube do Remo (PA), Guarani (SP), Porto (POR), e Juventus e Genoa (ITA). Na época em que esteve no Vasco, introduziu o “interval training”, que até então só existia na Europa e em especial na Alemanha, o que se constituiu em um grande avanço na preparação física dos jogadores.

Como Preparador Físico ganhou os seguintes títulos: Campeão pela Seleção Brasileira nos Mundiais de 1958 e 1962; no Botafogo, Campeão Carioca em 1957, 1961 e 1963; no Fluminense, Campeão Carioca em 1969. Como técnico foi Campeão da Taça de Prata, em 1970, pelo Fluminense.

No Guarani, em 1977, Paulo Amaral foi o responsável pela primeira oportunidade do craque Careca no time de Campinas, escalando o jogador em um amistoso contra o Matsubara (PR), no estádio Brinco de Ouro.

Sua última aparição pública foi em 2006 quando foi homenageado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com a Comenda João Havelange. Na ocasião confessou que a maior alegria que teve na vida foi a Seleção Brasileira que lhe deu o orgulho de ostentar o título de bicampeão do mundo. Foi dele uma cena que entrou para a história do futebol, ao dar a volta olímpica depois do jogo final no Estádio Rasunda, em Estocolmo, carregando a bandeira da Suécia, “como retribuição ao carinho recebido do povo sueco”. O preparador físico também seria um dos convidados para os eventos comemorativos da entidade pelo cinqüentenário do título mundial da Seleção em 1958.

Com a morte de Paulo Amaral, o dentista Mário Trigo, 96 anos de idade, passou a ser o único integrante vivo da vitoriosa Comissão Técnica do Mundial de 1958.

O atacante da Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1962, Amarildo, foi um dos poucos presentes ao enterro do preparador físico e lamentou o ostracismo vivido por Paulo Amaral nos últimos anos e destacou sua importância para o futebol brasileiro. “Por tudo o que fez pelo Botafogo e pelo futebol brasileiro ele merecia uma homenagem mais marcante. Deu muito para o futebol e recebeu pouco. As pessoas têm que ser reconhecidas pelo que fazem. Uma homenagem no Maracanã seria o mínimo para que todos soubessem quem foi Paulo Amaral”, sugeriu o ex-jogador.

Como homenagem a Paulo Amaral, conto uma passagem descrita no livro “Nunca existiu um homem como Heleno”, de autoria do jornalista Marcos Eduardo Neves.

Em 1946 Paulo Amaral foi indicado para jogar no Botafogo. Antes de se tornar preparador físico já tinha um corpo atlético. Era muito forte. Atleta completo praticava boxe e levantava pesos. Jogando pelo Flamengo, no ano anterior, substituindo o titular Biguá, enfrentou a fúria do famoso e lendário Heleno de Freitas em uma partida do torneio municipal, disputada no estádio das Laranjeiras.

No segundo tempo, Heleno deu um passe perfeito, entre dois zagueiros, para Otávio. Na base da raça, Paulo Amaral conseguiu com a ponta da chuteira, por trás do ponta-de-lança, desviar a bola para escanteio. Heleno se virou para o companheiro e disse: “Porra, Sapo, até um merda desse tira a bola de você!”.

Paulo Amaral ouviu e retrucou: “Você não vai perder por esperar. Caia aqui perto para ver o que vai acontecer”. E Heleno não se aproximou mais da área adversária. Sorte do Flamengo, que conseguiu tranquilamente manter o resultado de 2 X 0 a seu favor.

Meses depois Paulo Amaral foi fazer teste no Botafogo. No primeiro treino marcou Heleno de Freitas e deu-lhe uma trombada bastante forte. Heleno, com a bola debaixo do braço partiu para cima de Paulo Amaral, dizendo: “Quer a bola, valentinho?” E Paulo Amaral não perdeu tempo, arrancou a bola dos braços de Heleno e a jogou em seu nariz. O sangue escorreu e o técnico Martim expulsou o agressor. Mesmo Assim, no outro dia Paulo Amaral foi contratado. Talvez porque não teve receio de enfrentar o temível e brigão Heleno de Freitas. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Paulo Amaral (de abrigo) foi um profissional destacado (Foto: CBF)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Esses loucos torcedores (Final)

O torcedor-símbolo da FIFA, Clóvis Fernandes, também conhecido como “Gaúcho da Copa” começou a seguir a Seleção, em 1990, na Itália. Depois, foi aos Estados Unidos (1994), à França (1998), ao Japão e Coréia (2002) e em 2006, à Alemanha. Além disso, assistiu mais de uma centena de jogos do Brasil, visitou 40 países, e acompanhou outros torneios como cinco Copas América, duas Olimpíadas e uma Copa das Confederações, sempre carregando uma réplica da Taça da Copa do Mundo.

O “Gaúcho da Copa” é dono de uma pizzaria no Rio Grande do Sul, o que não lhe dá um ganho tão grande, suficiente para custear aventuras futebolisticas tão caras, mundo afora. Sua fama faz com que empresas e amigos banquem as viagens. Os ingressos para os jogos são dados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Para provar seu amor a Seleção, o Gaúcho costuma dizer, em tom de brincadeira, que a esposa Débora é sua terceira paixão, atrás da “Canarinho” e da neta Eduarda.

Ele já planeja a sua sexta Copa do Mundo. E tem um plano ambicioso para por em prática, criar um Centro de Tradições Gaúchas itinerante, na África do Sul. Para isso mantém contatos com uma empresa do Rio Grande do Sul. Ele disse que quer mostrar a cultura do seu Estado “e comer muito churrasco”.
Na década de 1980 a Rede Globo encarregou os diretores Alexandre Machado e Mimito Gomes, de criarem um personagem animado, descontraído e divertido para agradar os telespectadores das classes C e D. Foi quando surgiu uma série de vinhetas de um personagem chamado “Araken, o showman”.

O personagem ficou seis anos no ar e obteve sucesso absoluto na Copa do Mundo, atingindo audiência de até 60 milhões de telespectadores. A campanha recebeu vários prêmios e entrou para o imaginário popular. Contam que muitas pessoas assistiam aos jogos da Seleção pela TV Bandeirantes, e depois mudavam para a Globo só para ver a vinheta.

A camisa de “Araken”, uma bandeira do Brasil estilizada, virou moda entre os torcedores. Em suas aparições na TV, o personagem criticava a seleção, como qualquer torcedor comum. A Globo também usou a figura de “Araken” em campanhas de doação de sangue, recadastramento eleitoral e alfabetização.

Quem não lembra do boneco Pacheco, o camisa 12, torcedor símbolo da Seleção Brasileira? Ele apareceu em 1980, dois anos antes da Copa da Espanha, numa bem bolada campanha publicitária da Gillette do Brasil. O sucesso foi tão grande que o Pacheco acabou se tornando celebridade. A Gillette resolveu então que Pacheco deixaria de ser apenas um boneco e ganharia forma humana.

Um funcionário da própria Gillette, Natan Pacanowski, foi escolhido para personificar Pacheco. A fantasia foi criada por um estilista da Rede Globo. Pacheco saiu dos comerciais na TV para ganhar forma humana e aparecer em público. Chegou até a animar bailes de carnaval. O sucesso do personagem não tinha limites. No jogo de despedida da seleção, em Uberlândia (MG), contra a Irlanda, até o presidente João Figueiredo esteve presente só para vê-lo em ação, fazendo piruetas no meio do campo, antes da bola rolar.

No dia da viagem para a Espanha, no aeroporto lá estava novamente o Presidente para desejar boa sorte. Pacheco gozava de mordomias mil, viajava com a delegação e tinha até um lugar separado no avião para trocar de roupa. Veio a Copa e o fracasso que todos lembram, com a eliminação precoce para a Itália. Na volta ao Brasil, o tablóide “O Pasquim”, de grande circulação na época, não perdoou. Em matéria de capa uma foto de Pacheco com a camisa 24 e a manchete “Este veado secou o Brasil”. Depois disso Pacheco nunca mais reapareceu.

São tantos os torcedores que mereceriam uma citação, que certamente eu estenderia meus artigos sobre esse importante personagem do futebol por muitas semanas. Fico devendo maiores comentários a respeito do “Vai na Bola”, um torcedor do Flamengo que costumava correr pelo gramado com dois pratos de metal nas mãos, batendo sem parar. Ribeiro, o ”Garfo de Pau”, que agitava as tardes esportivas na Vila Belmiro, torcendo pelo Santos. Depois veio Grilom, outro fanático torcedor santista que passava os jogos correndo pelos corredores gritando: “Camarão”.

No Internacional gaúcho tem José Antônio, o “Xuxu”, figura conhecidíssima no Brasil inteiro. No Botafogo do Rio, aplausos para “Russão”, uma verdadeira lenda que comandou a torcida nos anos 80. O folclórico “Binha de São Caetano”, torcedor doente do Bahia que a cada programa evangélico que passa na TV, coloca o nome dos jogadores da equipe em cima do aparelho de sua casa e fica orando por eles. O que dizer de “Dudé”, aguerrido torcedor do ABC, de Natal que foi proibido de usar seu megafone nos jogos de seu time, pois incomodava torcida e jogadores.

Eu poderia falar mais do comerciante Guto Moura, de 40 anos, um apaixonado pelo Atlético Mineiro, dono de 350 camisetas do time e uma incrível coleção de galos ornamentais de todos os tamanhos e cores. O espaço também não deixa que eu conte boas histórias sobre “Marrom”, o torcedor símbolo do Sobradinho, time da cidade satélite onde moro, em Brasília. Sua presença no Estádio, era alegria pura, tocando sem parar seu inseparável pandeiro. Hoje, Marrom mora no Rio de Janeiro e certamente não perde jogo de seu outro time, o Vasco da Gama. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O "Gaúcho da Copa" já se prepara para ir à África do Sul, em 2010 (Foto: Divulgação)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Esses loucos torcedores (4)

Demorou, mas a Secretaria de Esporte e Lazer do Estado do Rio de Janeiro começou a fazer justiça aos torcedores, a razão maior do espetáculo. O estádio do Maracanã, que já contava com a “Calçada da Fama”, para imortalizar os atletas que fizeram história, desde 22 de janeiro deste ano tem o “Hall do Torcedor”, inaugurado antes do jogo Fluminense X Duque de Caxias, pelo Campeonato Carioca.

O primeiro homenageado com uma placa, uma medalha com seu nome e um brazão tricolor foi o fanático torcedor do Fluminense, Armando Giesta, que mesmo com 80 anos de idade não deixa de acompanhar os jogos de seu clube, no Maracanã. O ilustre torcedor participou da campanha pela construção do estádio e viu importantes jogos, como Brasil x Suécia, Brasil x Espanha e o inesquecível Brasil x Uruguai. Pelo Fluminense, viajou incontáveis vezes e assistiu seu time ser campeão em 1937, 38, 40, 41, 46, 51, 59, 64, 69, 70, 71, 73, 75, 76, 80, 83, 84, 85, 95 e 2002. A escolha do nome de Armando foi unanimidade entre torcedores e dirigentes do clube.

No dia 24 de janeiro, antes do jogo entre Flamengo X Cardoso Moreira foi homenageado “in memoriam” o torcedor rubro-negro, Jayme de Carvalho, falecido em 1976aos 65 anos. Natural da Bahia chegou ao Rio em 1936 e tornou-se no mesmo ano, sócio do Flamengo. Foi Jayme quem introduziu a música na torcida, criando grande polêmica nos meios esportivos em relação a presença da Charanga nos estádios porque, além de apoiar os jogadores do Flamengo, desconcentrava os adversários.

Ivaldo Firmino dos Santos, o popular Zé do Rádio, torcedor símbolo do Sport Club do Recife foi escolhido pelo livro “Guiness Book, em dezembro de 2006, depois de sete anos de pesquisas, o torcedor mais chato do mundo. Foi o reconhecimento ao que o ex-técnico Mario Jorge Lobo “Zagalo”, já havia dito em 1999, quando treinava a Portuguesa de Desportos, de São Paulo. Zé do Rádio não se incomoda com isso, ao contrário, se orgulha do título.

A escolha de seu nome pelo “Guiness Book”, de torcedor mais chato do mundo mereceu uma grande festa promovida pela Prefeitura de Recife, no Marco Zero, para comemorar o título, considerado tão nobre quanto um “Prêmio Nobel da Paz”. Um outro motivo de orgulho para “Zé do Rádio” é ter sido homenageado no Carnaval de 2007, na cidade de Olinda, com um boneco gigante, o maior de todos, para êxtase total dos foliões rubro-negros.

Ele começou a freqüentar os estádios em 1972. Como passava sempre por perto da Ilha do Retiro, resolveu torcer pelo Sport. Mas não nega que antes torceu pelo Náutico durante 1 ano, 3 meses e 28 dias. Garante que foi apenas para conquistar a amizade de seu sogro, o professor de música, Miguel Barkokebas, e casar com Deomiyrza Barkokeba dos Santos, com quem ainda vive até hoje. Zé do Rádio temia que Barkokebas, alvirrubro alucinado, proibisse o seu namoro pelo fato de ser rubro-negro.

Zé do Rádio, ou Ivaldo Firmino dos Santos, ganhou esse apelido por ficar com um rádio gigante nos ombros durante as partidas de futebol. Não sei se ele ainda vai aos jogos, porque está com problemas de saúde, em 2001 fez um transplante de coração. O que sei é que ele costumava ficar atrás do banco de reservas do time adversário, com o som a todo volume e xingando o técnico, a quem chamava de burro.

O Sport teve outro torcedor de primeira linha, José Paulo Rodrigues, o “Paulino do HC”, funcionário do Hospital das Clínicas de Pernambuco, que faleceu recentemente. De acordo com amigos, o último pedido de Paulino foi ser enterrado com a camisa do Sport. Ele era um torcedor apaixonado pelo Leão, não perdia um jogo sequer.

O Santa Cruz pernambucano não quer ficar por trás e tem também o seu torcedor símbolo, embora não seja nenhum chato quanto Zé do Rádio. “Bacalhau” ganhou fama ao adquirir um túmulo no Cemitério São Miguel, em Recife, com as cores do clube. Recentemente ganhou o caixão, presente da Funerária Ferreira, também decorado com o vermelho, preto e branco do Santa Cruz.

Tivemos também os torcedores românticos. O melhor exemplo foi a poetisa Ana Amélia de Mendonça, que escreveu um poema em homenagem ao seu futuro marido, o goleiro Marcos de Mendonça, do qual enamorou-se durante uma partida do Fluminense. Ela ficou encantada com o perfil atlético do jogador. Já gostava de futebol, tanto é verdade que quando tinha 13 anos de idade foi a Europa e na volta trouxe além de livros de poesia, algumas bolas de futebol que foram usadas pelo time dos operários da fábrica de seu pai. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
"Bacalhau", fanático torcedor ganhou um caixão com as cores do Santa Cruz (Foto: Divulgação)

terça-feira, 29 de abril de 2008

Esses loucos torcedores (3)

No futebol amador de São Paulo, na legendária região varzeana da Barra Funda, era comum encontrar algumas dessas figuras que se agarram no alambrado, xingam o juiz incessantemente e topam qualquer briga. O mais famoso de todos foi o temível “Barrabás”, briguento e louco, o maior torcedor do Carlos Gomes, um clube quase tão velho quanto a Ponte Preta de Campinas.

O time varzeano do Falcão do Morro, também de São Paulo, se destacou pelo número de torcedores fanáticos. Seu Marcolino ganhou lugar perpétuo na história do clube, por não ter perdido um único jogo. Lá estava ele sempre sentado em um banquinho, com o guarda-chuva aberto, não importando se chovia ou fazia sol. O curioso é que ele não olhava o jogo, o que mais gostava era de jogar Sueca com qualquer um que se dignasse a sentar ao seu lado. Do jogo em campo ele só ficava sabendo o resultado quando alguém dizia o placar final. Já com a idade avançada, faleceu faz alguns anos.

Ainda no Falcão do Morro teve um outro torcedor que deixou saudade: Pedrão Jacaré. Era um mulato forte que ganhou o apelido pelo tamanho enorme da boca. Pedrão era funcionário da prefeitura, mas parecia que estava sempre de folga, pois não saía dos bares, onde “derrubava” generosas doses de pinga. Nos jogos, era o responsável pela pinga com groselha, comprada com o dinheiro que arrecadava junto aos torcedores, que depois rodava de boca em boca, até mesmo dos jogadores que davam uma escapada até a beira do campo sem que o treinador visse.

Havia o “Chico Torto”, também conhecido por “Neguita”, parecido com o cômico Grande Otelo. Ganhou o apelido de Torto, porque tinha um defeito na perna causado por um acidente, quando era ajudante de motorista. De sexta-feira a domingo estava sempre bêbado. Para colocá-lo no caminhão quando o time ia jogar fora de casa era um sacrifício. O local de embarque ficou conhecido como Embarque de Bêbado ou Ponto do Chico. Morreu de tanto beber pinga, aos 60 anos de idade.

Digno de admiração é Carlinhos, um fanático torcedor do Clube Atlético Paranaense. Gosta de usar gravata vermelha e preta, bóton na lapela, relógio e chaveiro com o escudo do time. A calça, sapato e camisa de mangas compridas são apenas acessórios que completam a indumentária do seu dia-a-dia. No celular, a cada ligação recebida ecoa o hino do “Furacão”.

Por causa do Coritiba, não veste verde, não come alface e nada da mesma cor. Recusa-se a pronunciar o nome do clube rival, que para ele é sempre “O Porco”. Também não assiste a jogos no Estádio Couto Pereira, do Coritiba, “para não dar lucro ao inimigo”. Costuma dizer que uma derrota do “Porco” lhe dá mais prazer do que uma vitória do Atlético.

O Ferroviário do Ceará teve um torcedor que entrou para a história: Zé Limeira, falecido em 2004. Ele deixou uma lacuna enorme no seio da torcida coral, de quem foi a expressão máxima durante décadas. Costumava levar uma buzina para o estádio, com um som estarrecedor. Sua importância era tanta, que participava quase que diariamente dos programas esportivos das principais rádios de Fortaleza. Sempre pregou a paz entre as torcidas dos três grandes clubes cearenses, por isso tinha passagem livre em todos eles.

Além de Zé Limeira, o futebol do Ceará teve e tem outros torcedores consagrados, como "Pedrão da Bananada", pelo lado do Ceará, que tinha uma lanchonete no Abrigo Central, lugar de muitas discussões. José Amaro Sobrinho, o “Bodinho”, Gumercindo, Rolim, com mais de 90 anos e que ainda vai aos jogos e mais recentemente o “Coca-Cola”, pelo Fortaleza.

O São Paulo F.C., e não poderia ser diferente, também tem o seu torcedor número 1. É Aparecido, o “Cidão”, um sexagenário que se tornou uma verdadeira lenda das arquibancadas. Foi ele que nos anos 80 fundou a torcida organizada “Dragões da Real”. O clube o imortalizou: sua imagem faz parte do Memorial do São Paulo: basta entrar no computador do Museu e procurar por "torcedor símbolo". Hoje, “Cidão” vive da fama e carisma que conquistou no passado. Depois de passar por muitos percalços, ganha seu sustento vendendo bonés, chaveiros e gorros do tricolor nas imediações do Morumbi, sempre antes ou depois dos jogos.

No Palmeiras o torcedor mais badalado é o personal trainer Maurício Bonatti, de 40 anos mais conhecido nas arquibancadas do Parque Antártica por “Incrível Hulk”. Símbolo do time na campanha da Série B, Bonatti é professor de academia. Já foi policial e dançarino do Clube das Mulheres. De vez em quando faz “bicos” como Hulk em festas infantis e programas de TV. Em 2003, surgiu a idéia de acompanhar os jogos do Palmeiras, vestido de Hulk. Foi até Garanhuns, no interior de Pernambuco, torcer pelo Palmeiras contra o Sport, no jogo que garantiu o retorno do clube à Série A.

Ele demora mais de uma hora para recobrir o corpo, de 103 quilos distribuídos por 1,85 metro, com uma maquiagem verde. Para completar o visual, veste uma bermuda jeans detonada, coloca lentes de contato brancas, iguais às usadas em fantasias de vampiro e põe na cabeça uma volumosa peruca preta.

Figura fantástica, digna de um filme foi Henrique Leite Ribeiro, o “Coalhada”, torcedor do Santos nos primórdios de sua história. Sempre ia aos jogos vestido com elegância, usando chapéu de palheta. Foi o primeiro chefe de torcida do clube.

Em 1917, num amistoso contra um combinado uruguaio, na Vila Belmiro, o “Coalhada” teve a idéia de que cada jogador visitante ao entrar em campo, viesse coberto por um guarda-chuva com gomos pretos e brancos empunhados por um jogador santista da posição correspondente. Foi um belo espetáculo visual dado de presente de boas-vindas aos uruguaios, que no final saíram derrotados de campo pelo placar de 6 X 2. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O torcedor palmeirense veste-se de Hulk e é atração em Parque Antártica (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Esses loucos torcedores (2)

No Flamengo do Rio, ninguém esquece de “seu Osório”, um baiano de Salvador que sabe de cor as escalações dos times de três tricampeonatos do rubro-negro. Passou quase toda a juventude na capital baiana e depois foi morar no Rio de Janeiro, na década de 50, se tornando figura obrigatória na Gávea, não perdendo nem treinos. Até hoje ele guarda as relíquias dessa saudosa época, entre elas uma carta-ofício do ex-presidente George Fernandes, nomeando-o representante do Flamengo no Estado da Bahia. Uma outra relíquia que o acompanha sempre é a carteirinha de sócio patrimonial do clube, datada de 1962. Depois de morar muitos anos no Rio e praticamente dentro do Flamengo, “seu Osório” voltou para a Bahia, e hoje mora em Juazeiro, mas não deixou de amar o seu Flamengo.

Uma das torcedoras mais queridas do Flamengo, Euzébia Silva do Nascimento, Dona Zica, famosa sambista da Mangueira, orgulhava-se de ter conhecido seu marido, Cartola, nas gerais do Maracanã, lugar que freqüentava desde os 11 anos de idade.

Dilmar Teixeira Brito, torcedor fanático do Flamengo, que não perdia um jogo foi reconhecido “in-memoriam”, pelo Rank Brasil, livro dos recordes brasileiros, como o “mais idoso portador da Síndrome de Down do Brasil”. Ele nasceu na cidade de Alto Parnaíba (MA), no ano de 1934 e morreu no dia 28 de dezembro do ano passado, aos 72
anos. Tinha duas grandes paixões: ir à missa e ver o Flamengo jogar.

O “Guiness World Records”, edição 2007, aponta o sul-africano Keith Roberts, 52 anos, como o mais idoso portador de Síndrome de Down no mundo, e a americana Nancy Siddoway, 67 anos, como a mulher mais idosa portadora da doença.

Como homenagem ao Flamengo, o clube com mais torcida no país, publico uma relação de alguns de seus torcedores famosos:

Alexandre Pires (cantor), Angélica (apresentadora), Baby do Brasil (cantora), Beth Faria (atriz), Bochecha (cantor), Carlão (atleta, vôlei), Cláudia Raia (atriz), Djavan (cantor e compositor), Elza Soares (cantora), Eric Faria (jornalista), Fafá de Belém (cantora), Fausto Silva (apresentador), Fernando Scherer (atleta, natação), Gabriel Pensador (cantor), Galvão Bueno (locutor), Hebert Vianna (músico e cantor), Ivete Sangalo (cantora), Jards Macalé (cantor e compositor), João Bosco (cantor e compositor).

Joãozinho 30 (carnavalesco), Jorge Ben Jor (cantor e compositor), Léo Batista (locutor e apresentador), Leo Jaime (cantor),Luiz Ayrão (cantor), Malu Mader (atriz), Moraes Moreira (cantor e compositor), Nalbert (atleta, vôlei), Neguinho da Beija Flor (cantor), Oscar Niemeyer (arquiteto), Pepeu Gomes (músico e cantor), Popó Bueno (piloto), Reginaldo Faria (ator), Ricardo Teixeira (presidente da CBF), (piloto), Romário (atleta, futebol), Ronaldo Fenômeno (atleta, futebol), Sandra de Sá (cantora), Tande (atleta, vôlei), Toni Garrido (cantor), Tony Tornado (ator e cantor), Vera Fisher (atriz), Wagner Love (atleta, futebol), Wanderley Luxemburgo (técnico de futebol), Xuxa, (apresentadora), Zico (atleta, futebol), Ziraldo (cartunista) e Zizi Possi (cantora).

E os já falecidos Ary Barroso (compositor, radialista), Bezerra da Silva (cantor), Bussunda (comediante), Carlos Drummond de Andrade (poeta), Ciro Monteiro (cantor), Dias Gomes (escritor), Garrincha (atleta, futebol, Grande Otelo (ator), Henfil (cartunista), Ibrahin Sued (jornalista), João Nogueira (cantor), José Lins do Rego (escritor e cronista), Juscelino Kubtischek (presidente), Maria Lenk (atleta, natação), Mário Filho (escritor e jornalista), Moreira da Silva (cantor), Mussum (comediante), Paulo Francis (jornalista), Roberto Marinho (jornalista), Rômulo Arantes (ator e atleta, natação) e Tom Jobim (compositor).

O Fluminense perdeu em 2 de dezembro de 2002 seu torcedor símbolo, Guilhermino Santos, o “Careca do Talco”, que costumava cobrir o corpo com pó de arroz. Qualquer tricolor que tenha vivido os anos 70 e 80 lembra dele com carinho. Ficava com sua indefectível bolsa branca, com o escudo do clube por fora e abarrotada de talco por dentro. Implacável, o “Careca do Talco” jogava o pó em quem estivesse à sua volta, fosse adulto ou criança. Os adultos o adoravam. As crianças o idolatravam.

Torcedor fanático não é privilégio de time grande. O ano passado morreu, aos 74 anos, Antônio Luiz Braga, o “Braga da Eucaliptaço”, ardoroso torcedor do Volta Redonda. Era tão querido na cidade que o prefeito Antônio Francisco Neto perpetuou seu nome na parte frontal das cabines de rádio do Estádio Municipal General Silvio Raulino de Oliveira, local onde Braga costumava estender em todos os jogos a bandeira da torcida “Eucaliptaço”, da qual era o principal líder.

O Anápolis de Goiás tem no folclórico Davi Bispo, o seu torcedor símbolo. Ele nasceu no ano da fundação do clube, em 1946. Sua infância foi marcada pela rivalidade entre Anápolis e Ipiranga, o clássico municipal que marcou os anos 50 e início da década de 60 na cidade. Quem passa pela banca que Davi possui há mais de 30 anos no Mercado Municipal, certamente vai cansar de ouvir o hino do Anápolis, que é tocado o dia inteiro. Quem não gosta nem um pouco disso são os torcedores da Anapolina, o outro clube da cidade.

Em abril do ano passado, a TV Bandeirantes mostrou uma reportagem de Felipe Andreolli, que visitou o famoso comediante inglês, Mister Bean em sua residência em Londres entregando-lhe uma camisa número 10 do Capivariano F.C., da cidade paulista de Capivari. A camisa é da época em que o time foi patrocinado pela Fast Work, empresa de Mauro Matta de Piracicaba. Na hora da entrega do presente foi tocado o hino do Capivariano. Mister Bean disse que agora é o torcedor símbolo do “Leão da Sorocabana”. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Guilhermino Santos, o "Careca do Talco", famoso torcedor do Fluminense, já falecido. (Foto: Acervo do Fluminense F.C.)

domingo, 27 de abril de 2008

Esses loucos torcedores (1)

O torcedor é a razão maior da existência de um clube de futebol. Que graça teria o nobre esporte se não houvesse essa figura, às vezes folclórica, outras nem tanto? Com certeza, os jogos não passariam de uma chatice repetida e burocrática. O bom do futebol é ver e sentir a reação do torcedor, quase sempre imprevisível. Existem aqueles que choram pelo clube, os que se irritam, os que procuram arruaça, os que roem as unhas e os que simplesmente não fazem nada, ficam apáticos, seja na vitória ou na derrota do seu time. Vou contar esta semana, em alguns artigos, histórias envolvendo torcedores, procurando dar uma idéia clara e divertida da paixão do brasileiro pelo futebol.

Eu conheci algumas figuras que se tornaram célebres em suas cidades pelo que de inusitado mostravam em dias de jogos dos clubes de seus corações. Em Pelotas, onde morei e trabalhei muitos anos, destaco a figura de “Marcola”, o torcedor símbolo do Grêmio Esportivo Brasil, o clube de maior torcida no interior gaúcho. “Marcola”, já falecido foi uma figura folclórica. Um negro de estatura baixa que vivia permanentemente alcoolizado. Não perdia um jogo do “xavante” pelotense, gritava o tempo todo, xingava o juiz e os jogadores adversários, mas em momento algum deixava de sorrir e mostrar os dentes milagrosamente inteiros e alvos.

Em Rio Grande, havia o “Fala Meu”, um estivador do tamanho de um guarda-roupa. Era torcedor apaixonado do Rio-Grandense, o “colorado marítimo”. Dono de uma voz potente, tipo trovão, que nunca mais ouvi nada parecido, abria as mãos ao lado da boca e gritava: “juiz ladrão”, entre outras palavras de um vocabulário rico em impropérios, que se ouvia em todos os cantos do estádio. Conheci muito o “Fala Meu”, figura popular e folclórica da cidade. Também gostava de Carnaval e sua escola favorita era a “Quem é do Mar não Enjoa”, entidade que eu presidi.

Em São Gabriel, cidade gaúcha em que também morei, lembro de uma torcedora chamada Margarida, que vendia amendoim durante os jogos da S.E.R. São Gabriel. Gostava de uma “branquinha”, chegava ao estádio com “todas” na cabeça, e a cada ataque do time local gritava e levantava o vestido para delírio dos demais torcedores. Já morreu e deixou um vazio imenso nas tardes futebolísticas do Estádio Silvio de Faria Corrêa.

Mas esses torcedores que conheci não passam de café pequeno perto de outros que existem ou existiram por esse Brasil afora. Na década de 20 o Corinthians tinha um torcedor de nome José da Costa Martins, que a cada gol que o time marcava, acendia um charuto. Foi ele que inspirou a criação do "mosqueteiro corinthiano", mascote do clube, que está sempre fumando um charuto. O Internacional gaúcho também teve um torcedor conhecido por “Charuto”. Foi nos anos 40. Seu amor ao clube lhe deu o direito de entrar no estádio sem pagar ingresso e de lambuja beber de graça na copa.

A paixão pelo Corinthians não pára de crescer, mesmo com o time na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. A torcida “Gaviões da Fiel” possui a maior bandeira de times do Brasil, com 143 metros de comprimento por 35 de altura e pesa aproximadamente duas toneladas. Esta bandeira foi feita em 1995 por Dentinho, idealizador e ex-presidente da polêmica “Gaviões da Fiel”.

Para ser levada ao estádio o departamento de bandeira da Organizada utiliza um caminhão baú e 60 homens na locomoção. A bandeira cobre 16.000 torcedores e é estendida no momento em que o time entra em campo no primeiro e no segundo tempos, e na hora em que sai gol do Corinthians. Até quando o time perde os fanáticos torcedores abrem o bandeirão, segundo dizem, “para calar a boca da torcida adversária".

A torcida possui ao todo sete bandeirões. O primeiro foi feito em 1989, medindo 25 metros por 50. O segundo mede 30 metros por 60, e foi feito para homenagear o piloto Ayrton Senna. Tem um de protestos, e outros quatro de exaltação ao clube.

Um caso muito famoso foi o de Elisa, uma fanática corinthiana que nas horas vagas era cozinheira e doméstica. Ela nasceu no mesmo ano que o Corinthians e carregava sua bandeira alvi-negra por todos os estádios em que o time jogava. Era dócil e educada, jamais xingou um jogador por mais perna de pau que fosse. Apoiou o time com garra durante todos os infindáveis 23 anos de fila para ser campeão paulista. Recebeu merecida homenagem da diretoria, que colocou uma placa com seu nome no Estádio Parque São Jorge. A Federação Paulista também lhe premiou com o direito de entrar sem pagar ingresso em qualquer estádio paulista.

Outra mulher que se destacou no cenário futebolístico foi Dulce Rosalina, que em 1961 ganhou o concurso de “Melhor Torcedor do País” e doou o troféu ao Vasco da Gama, seu time de coração. Ela costumava acompanhar o time em jogos pelo Rio de Janeiro afora, além de visitar as concentrações para animar os atletas, ouvir dirigentes e dar palpites. Andava sempre em companhia de Ramalho, outro torcedor destacado do clube da Cruz de Malta.

Dulce Rosalina foi a primeira mulher a liderar uma torcida organizada no Brasil. Em 1944 o torcedor João de Luca fundou a Torcida Organizada do Vasco (TOV), mas em 1956, muito doente passou a presidência para Dulce Rosalina. Em 1976, por problemas políticos ela deixou a TOV e fundou a “Renovascão”, da qual participou até morrer, em 2004. Foi casada com o jogador Ponce de Leon, que defendeu o São Paulo.

Na Bahia não existe quem não conheça “Alvinho Barriga Mole”, o maior torcedor do Vitória, por quem torce há longos 74 anos. Quem assistir jogos no “Barradão” com certeza já o viu ajoelhar-se e atravessar o gramado com a imagem de Padre Cícero nas mãos, mesmo carregando no peito rubro-negro, duas pontes de safena e uma mamária.

Se “Alvinho Barriga Mole” é um torcedor cordial, incapaz de dizer um palavrão ou ofender alguém, um outro torcedor do Vitória, Marciades Marinho Pereira, conhecido como “Louro”, já é bem diferente. É um provocador nato, que o digam os torcedores do rival Bahia. “Louro” chama mais a atenção nas ruas do que no estádio. É dono de um incrementado “Fusca 95”, todo pintado de vermelho e preto, decorado com o escudo do clube.

A torcida do Vitória foi comandada durante muito tempo pelo rubro-negro Osvaldo Hugo Sacramento, mais conhecido como "Barão de Mococoff", de saudosa memória. No tempo do Campo da Graça, seu grito "Vitóóóóóória" era ouvido em qualquer parte do estádio.

Já o Esporte Clube Bahia tem um torcedor para lá de especial, o servidor aposentado da Assembléia Legislativa da Bahia, Lourival Lima dos Santos, o “Lourinho”, chefe de torcida por mais de 30 anos. Desde o final dos anos 50 que acompanha os jogos do Bahia, se tornando o torcedor-símbolo do clube. Sua casa é quase um museu do tricolor baiano. Guarda com carinho fotografias de varias épocas, especialmente de jogos em que o Bahia derrotou o Vitória e ganhou títulos. Uma foto em preto e branco se destaca entre as demais, em que ele aparece ao lado do rei Pelé. “Lourinho” é casado com a piauiense Maria Lúcia Bezerra e desde 2002, quando começou a ter problemas de saúde, passou a residir em Teresina, longe do seu querido Bahia. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Dulce Rosalina foi a torcedora número 1 do Vasco (Foto: Acervo do C.R. Vasco da Gama)

sábado, 26 de abril de 2008

O goleiro que virou lenda

Desde que eu era guri lá em Dom Pedrito, minha terra natal, que escuto histórias a respeito de um goleiro que jogou no Grêmio de Porto Alegre, lá pelos anos 20 e 30. Nenhum jogador de futebol na história do Rio Grande do Sul foi tão reverenciado quanto Eurico Lara. Tanto é verdade que seu nome ficou imortalizado no hino gremista, composto para o cinqüentenário do clube por outro não menos imortal, o grande Lupicínio Rodrigues, o homem da “dor de cotovelo”: “Lara, o Craque Imortal, soube o seu nome elevar. Hoje, com o mesmo ideal, nós saberemos te honrar".

O começo de Lara no futebol foi igual ao de qualquer guri. Naqueles tempos não faltava um campinho para bater bola, pois a especulação imobiliária estava longe de aparecer. Nas tradicionais peladas às margens do rio Uruguai Lara, por ser muito franzino sobrava sempre no “par ou impar” e ia para o gol, posição que ninguém queria jogar. Sorte sua. Foi servir no Exército e ganhou a titularidade no time da farda verde.

Suas atuações foram tão boas que ganhou fama na região. Diziam que quando Lara jogava, era vitória certa do time militar, não importando quem fosse o adversário. Mesmo sem as facilidades tecnológicas de hoje, em que a informação é instantânea, a notícia de que em Uruguaiana havia um goleiro que era uma verdadeira muralha, não demorou a chegar aos ouvidos dos dirigentes gremistas, que mandaram um “olheiro” até a cidade fronteiriça confirmar se era mesmo verdade.

Em princípio Lara, não queria se mudar para Porto Alegre, pois estava acostumado com a vida calma da cidade pequena. Mas a insistência foi tanta que acabou aceitando. Não teve problema algum para a transferência militar, graças à participação de pessoas influentes dentro do Grêmio. Era o ano de 1920. Vestido com a farda verde-oliva - naquele tempo o soldado não podia andar a paisana - chegou ao Grêmio e em seguida foi campeão da cidade, seu primeiro título no tricolor.

O futebol ainda era um esporte amador. Por isso Lara dividia seu tempo jogando no Grêmio e no time do Exército. Em 1922, foi campeão das classes armadas. Sua fama começou a crescer, e se consolidou fora do Rio Grande do Sul depois de se destacar na seleção gaúcha que disputou um torneio preparatório para escolha dos jogadores da Seleção Brasileira que disputaria o Campeonato Sul-Americano de 1922, no Brasil.

Mesmo jogando no Grêmio e na Seleção Gaúcha, Lara não descuidou da sua carreira militar e chegou ao posto de tenente. Em 1930 participou e acompanhou as forças revolucionárias que escreveram uma página importante para a história do país. A revolução de 30 foi um movimento armado liderado pelos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, que culminou com a deposição do presidente paulista Washington Luis em 24 de outubro.

Com o fim do conflito Lara voltou a se dedicar ao futebol. Novamente convocado para a seleção gaúcha, fechou o gol em uma partida contra a Seleção Paulista, disputada no Estádio de Parque Antártica, em São Paulo. Os gaúchos perderam por 2 X 1, mas Lara foi a grande sensação do jogo, realizando magníficas defesas e encantando os torcedores, que após o apito final invadiram o campo para carregá-lo em triunfo. A consagração nacional, finalmente chegou. Pena, que não foi convocado para a Seleção Brasileira, apesar de ter defendido um pênalti e mais de 20 potentes chutes de Friendereich, o grande ídolo do futebol brasileiro naqueles tempos.

Em setembro de 1935, a tuberculose avançava rapidamente e os médicos proibiram Lara de continuar jogando. Contam que ainda assim, ele insistiu para entrar em campo na decisão do Campeonato Farroupilha de Porto Alegre, no “Fortim da Baixada”. O Grêmio precisava vencer, o Internacional tinha a vantagem do empate. Até na história do clube está relatado que mesmo doente Lara foi o herói do jogo, tendo realizado nesse dia talvez a sua melhor partida com a camisa do Grêmio.

E que entrou em campo com a saúde muito debilitada, só resistindo o primeiro tempo, quando começou a passar mal. No intervalo foi levado para o hospital da Beneficência Portuguesa onde morreu dois meses depois, no dia 6 de novembro. O Grêmio venceu de forma heróica aquele jogo por 2 X 0 com gols nos últimos dois minutos. Mas pouca coisa dessa história é verdade. Lara já estava internado e fugiu do hospital para assistir o jogo. Mas não entrou em campo, não jogou. Foi o princípio da lenda. Morreu, sim, dia 6 de novembro daquele ano. A tuberculose marcou um gol fatal, sem defesa contra o goleiro de 37 anos.

A morte de Lara causou uma comoção geral. Nas ruas de Porto Alegre os torcedores choravam a morte do ídolo. Tricolores e colorados se uniram na dor, pois afinal de contas Lara foi um verdadeiro símbolo do futebol gaúcho. O enterro foi um dos maiores que Porto Alegre viu. A cidade parou para dar o adeus a Eurico Lara, o goleiro que entrou para a história do Grêmio como o “Craque Imortal”, para nunca mais sair. Deixou uma herança invejável de conquistas: campeão de Porto Alegre em 1920, 1921, 1922, 1923, 1925, 1926, 1930, 1931, 1932, 1933 e 1935. Campeão gaúcho em 1921, 1922, 1926, 1931 e 1932.

Lara jogou no Grêmio de 1920 a 1935, quando faleceu. Em 1928 se desentendeu com o presidente tricolor e foi para o Fussball Club Porto Alegre, mas depois de perder uma partida para o próprio Grêmio, voltou ao clube.

Poucas pessoas que viram Lara jogar ainda são vivas. Afinal de contas, já se passaram 72 anos desde o dia da sua morte. E isso explica em parte porque o jogador virou lenda. Corre de boca em boca histórias incríveis, atribuídas ao grande goleiro. Salin Nigri, um apaixonado torcedor gremista, em entrevista a Rádio Gaúcha, de Porto Alegre contou duas delas, mas garantiu que são verdadeiras.

No primeiro treino no Grêmio, ao lhe entregarem a camisa de goleiro, Lara perguntou ao treinador: "Como assim? Por que recebi essa camiseta? Não sou goleiro". A surpresa foi geral. Lara explicou que nas peladas lá em Uruguaiana, ninguém queria ir para o gol e sempre sobrava para ele, que na verdade queria ser atacante. A outra historia é que Lara, em certa partida, quebrou um dos braços, mas não quis sair de campo e assim mesmo fez grandes defesas até o fim do jogo.

A revista da Federação gaúcha de Futebol, em uma de suas edições contou algumas histórias que mesmo não sendo reais, viraram verdades e se tornaram lendas. Foi assim, que, em muitos pontos do Rio Grande do Sul, o nome de Eurico Lara se tornou um mito.

Durante muitos anos se acreditou que Lara morreu dentro de campo, no “Gre-Nal Farroupilha”, ao defender um pênalti cobrado por um seu irmão, jogador do Internacional. Essa história não é verdadeira, mas os gremistas mais velhos a contam com orgulho até hoje, de pai para filho. O jornalista gaúcho e gremista de quatro costados, Airton Gontow escreveu uma crônica belíssima, que eu tomo a liberdade de transcrever.

Lara estava no quarto de um hospital, com turberculose, no dia da final do campeonato gaúcho contra o "inimigo" Internacional. Eurico Lara fugiu do leito para assistir ao jogo. Um empate daria o título ao Internacional, que estava com um ponto a mais na competição.

Faltando, três minutos para o jogo acabar o juiz marcou um pênalti para o Internacional. A torcida gremista, em grande maioria, ficou em silêncio, com medo da catástrofe. Foi neste momento que Eurico Lara disse para o homem que cuidava do portão junto ao gramado do estádio: "Abre".

Quando entrou em campo, Eurico Lara foi tirando a camisa, as calças... - estava de uniforme por baixo e de chuteiras. O estádio explodiu em espanto e alegria, mas, logo depois, aconteceu um silêncio sepulcral, que até hoje impressiona a todos os que assistiram à cena. Era como se não houvesse pássaros, vozes, vento...

O atacante do Internacional, um próprio irmão de Lara ajeitou a bola. Parecia um touro feroz, enquanto se preparava para iniciar a curta corrida em direção a bola. O chute saiu forte, alto, no canto esquerdo. Mas Eurico Lara, saltou como um gato e encaixou a bola no peito. Com ela continuou agarrado quando caiu no chão.

A torcida entrou em delírio. Os jogadores se aproximaram para reverenciar aquela lenda do futebol. O estádio era uma chuva de chapéus, como nunca mais se viu, nem mesmo com o anúncio do fim da Segunda Guerra Mundial. Mas Eurico Lara continuava deitado no chão. Com a bola no peito. Não queria soltá-la. Os jogadores foram se afastando. A torcida de pé, em silêncio, compreendeu o que acabava de acontecer: Eurico Lara estava morto. Morto com a bola grudada naquele imenso peito gremista. No gramado, milhares e milhares de chapéus agora eram como flores. Flores homenageando aquele deus do futebol.

Até hoje o nome de Lara é lembrado. Ao início do ano passado a Rede Globo, no programa “Esporte Espetacular” contou a história do craque. E em setembro a revista “Placar” publicou a matéria “O Primeiro Imortal”, onde o jornalista Dagomir Marquezi relembrou as façanhas de Lara, inclusive contando que o goleiro teria falecido logo após receber um potente chute no peito desferido pelo seu próprio irmão.

Euclides Lara é nome de rua em Porto Alegre. Em Uruguaiana, sua terra natal durante algum tempo o Estádio do E.C. Uruguaiana levou seu nome. Foi mudado depois para Felisberto Fagundes Filho. Eu desconheço as razões. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Eurico Lara, a lenda (Foto: Acervo do Grêmio Foot-Ball Portoalegrense)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

“Kafunga”, goleiro e frasista

Muita gente pensa que o termo “cabeça-de-bagre”, usado no futebol para definir um jogador ruim, sem a menor técnica, tenha sido criado pelo folclórico misto de jornalista e técnico João Saldanha. Mas não foi. A invenção foi de Olavo Leite “Kafunga” Bastos, considerado até hoje o melhor goleiro que vestiu a camisa do Clube Atlético Mineiro, em todos os tempos, apesar de seu 1,75 m. De acordo com o “Aurélio”, “cabeça-de-bagre”, uma gíria antiga, quer dizer indivíduo estúpido, idiota, imbecil. Faz o maior sentido, pois o bagre tem a cabeça oca e não serve para nada.

Quando parou de jogar, “Kafunga” não conseguiu ficar fora do futebol, por isso foi gerente e técnico (1961) do Atlético e depois comentarista esportivo de rádio, jornal e TV em Belo Horizonte. Dono de uma grande popularidade, não teve dificuldade para se eleger vereador por quatro mandatos e depois deputado estadual. Inteligente e mordaz soube criar muitas expressões que entraram para o vocabulário futebolístico nacional.

Além do “cabeça-de-bagre” achou inspiração para muitas outras frases que são repetidas até hoje; “No Brasil o errado é que está certo", para criticar algumas coisas do esporte ou fora dele; "Não tem corê-corê”; "gol barra limpa" ou "barra suja”, quando o lance era legal ou não; "Isso é lá dos tempos de mil e novecentos e Kafunga”, quando queria dizer que uma coisa era muito velha; "vap-vupt" , para o que era feito de qualquer jeito; “despingolar”, sair correndo, evadir-se, desvencilhar-se; “tá no filó”, gol, bola na rede; “lesco-lesco”, destramelar, abrir, liberar e “FAO”,Força Atleticana de Ocupação.

Sentindo o gostinho pelo rádio, “Kafunga” não se limitou apenas a falar sobre futebol. Aos domingos apresentava na Rádio Itatiaia um programa de música brasileira do passado, o “Kafunga de todos os tempos”, onde se divertia contando histórias de quando jogava.

Ninguém jogou tanto tempo pelo Atlético, único clube de sua carreira, quanto “Kafunga”. Ele foi diferente da maioria dos jogadores de futebol de hoje, que assinam contrato, juram amor pelo clube, beijam o escudo e logo, logo vão embora. “Kafunga” defendeu o “Galo” em 712 jogos, de 1935 a 1955, e foi campeão mineiro por 11 vezes, além de “Campeão dos Campeões”, em 1937. Participou da famosa excursão a Europa em 1950, sendo um dos “campeões do gelo”. Até hoje a torcida atleticana lembra um dos melhores times do Atlético, em toda sua história de 100 anos, formado ao final dos anos 40: Kafunga – Murilo e Ramos – Mexicano - Zé do Monte e Afonso – Lucas – Lauro – Carlyle – Nívio e Lero.

A contratação de “Kafunga” tinha tudo para não acontecer. Em 1933, defendendo a seleção fluminense, num amistoso, foi goleado por 11 X 1 pela seleção mineira. Mesmo assim os dirigentes gostaram de sua atuação e resolveram contratá-lo. E o tempo mostrou que não tiveram motivos para arrependimento.

Apesar de toda a afeição e dedicação que teve pelo Atlético e por Belo Horizonte, “Kafunga” não era mineiro. Nasceu em Niterói (RJ) no dia 7 de agosto de 1914 e faleceu no dia 17 de novembro de 1991, em Belo Horizonte. O apelido ele ganhou por causa do tamanho do nariz, que o fazia fungar constantemente. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Kafunga foi o melhor goleiro da história do "Galo". (Foto, "O Tempo")

terça-feira, 22 de abril de 2008

Os filósofos da bola

Confesso que não tenho muita convicção de que algumas dessas frases que proliferam na Internet, tenham sido realmente ditas por jogadores e dirigentes de futebol. Pode até que seja verdade, mas a coisa é tão descabida de lógica que penso se trate de invenção. Eu sei que nem todo o jogador de futebol é letrado, e nem teve o privilégio de frequentar bancos escolares de qualidade, exemplos dos irmãos Sócrates e Raí. Mas daí a imitar a personagem televisiva Ofélia, aquela que abria a boca só para dizer besteira, vai uma grande diferença.

Fora a turma do besteirol, existem jogadores que se notabilizaram por dizerem frases inteligentes. Dário, o “Rei Dadá” no meu modo de ver superou a todos. Folclórico? Sim. Fanfarrão? Nunca. Sou fã de carteirinha dele, até porque foi campeão brasileiro e artilheiro no meu Internacional. Selecionei algumas das filosóficas tiradas do ex-craque, hoje comentarista esportivo da Rede Globo.

"Não venha com a problemática que eu tenho a solucionática"; “Dadá não é eterno. Sua história será eterna”; “Se minha estrela não brilhar, eu passo lustrador”; “Tecnicamente, era horrível, mas na corrida, só de táxi. No ar, só de escada". “Se o gol é a maior alegria do futebol, foi Deus quem inventou Dadá, porque Dadá é a alegria do povo”; “Deus é o ser supremo, Dadá é a dádiva”; “Pelé, Garrincha e Dadá tinham que ser curriculum escolar”; “Me empolgo pelas palavras, me realizo nos atos”; “A lei do menor esforço é usar a inteligência”; “No futebol há nove posições e duas profissões: goleiro e centro avante”; “Faço tudo com amor, inclusive o amor”.

“Futebol é um universo maravilhoso, que faz as pessoas se aproximarem, que faz multiplicar os amigos, que ensina a gente a amar e a respeitar o próximo”; “O Divino Mestre é o fã mais poderoso de Dadá. Ele sempre esteve ao meu lado”; “Quando vou para o trabalho só penso em vitória”; “Eu sofri muito, minha tristeza exorbitou, meu sofrimento passou dos limites para um ser humano. Mas eu tive um auge violento, tive o mundo aos meus pés, bati recordes, fui falado em todos campos. Hoje vivo na imaginação do povo. Sou personagem do planeta bola”; "Três coisas que param no ar. Beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha".

Sobre seus gols de cabeça: "Isso é mamão com açucar"; "Com Dadá em campo não tem placar em branco"; "Não existe gol feio, feio é não fazer gol”; "Nunca aprendi a jogar futebol pois perdi muito tempo fazendo gols"; "Só existe três poderes no universo: Deus no Céu, o Papa no Vaticano e Dadá na grande área"; "Chuto tão mal que, no dia em que eu fizer um gol de fora da área, o goleiro tem que ser eliminado do futebol"; "Fiz mais de 500 gols, só correndo e pulando"; "O gol é o orgasmo do futebol"; "Um rei tem que ser sempre recebido por bandas de música". Dito no estádio da Internacional de Limeira, onde foi recebido por uma banda de música, já no final de sua carreira, aludindo a sua alcunha de "Rei Dadá".

Menino pobre do subúrbio carioca de Marechal Hermes, Dario ficou órfão aos cinco anos quando a mãe morreu num incêndio. Dos 10 aos 18 anos foi assaltante, cansou de apanhar da polícia, mas soube dar a volta por cima. Na Funabem, não o deixavam jogar porque era ruim demais. Aos 20 anos seu pai lhe arranjou emprego na Light. Um dia resolveu tentar a sorte no campo Grande. Depois de ser barrado por seis vezes acabou sendo aceito. E no primeiro treino disse ao técnico Gradin que estava sem café da manhã e almoço. E pediu que lhe dessem um prato de comida, que em troca teriam um goleador. Foi sincero, disse que não sabia driblar, que era ruim mesmo, e que já havia fugido muito de polícia. O Campo Grande topou, e o Dadá desencantou em 1967. O resto dessa história, todos sabem.

E a turma do lado de lá, os aficionados do besteirol, o que disseram? Começo pelo português João Pinto, que atuou pelo Futebol Clube do Porto. É considerado o “Pelé das asneiras”. Eis algumas de suas obras primas: “Não foi nada especial, chutei com o pé que estava mais à mão"; "O meu clube estava à beira do precipício, mas tomou a decisão correta: deu um passo à frente".

O saudoso presidente do Corinthians Paulista, Vicente Mateus, foi uma figura folclórica. Não sei se ele inventava as frases, ou realmente falava sério: "O difícil, vocês sabem, não é fácil"; "Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático”; “Haja o que hajar, o Corinthians vai ser campeão”; "Se entra na chuva é para se queimar”; "O Sócrates é invendável, inegociável e imprestável” (recusando uma oferta para vender o jogador); “O maior general da França é o General Eletric” (respondendo aos franceses que queriam comprar Sócrates).

Outras “maravilhas” atribuídas a nossos “inteligentes” craques: "No México que é bom. Lá a gente recebe semanalmente, de quinze em quinze dias (Ferreira, ex-ponta-esquerda do Santos); "Tenho o maior orgulho de jogar na terra onde Jesus nasceu" (Claudiomiro, ex-meia do Internacional (RS) ao chegar em Belém do Pará para disputar uma partida); "Tanto na minha vida futebolística quanto com a vida ser humana" (Nunes, ex-jogador do Flamengo); "Nem que tivesse dois pulmões eu alcançava essa bola" (Bradock, amigo de Romário, reclamando de um passe); "Realmente minha cidade é muito facultativa" ((Elivelton, ao repórter, que falava das muitas escolas de ensino superior existentes na cidade natal do jogador); "A partir de agora meu coração tem uma cor só: é rubro-negro" (Fabão, zagueiro baiano ao chegar no Flamengo).

Se tudo isso for verdadeiro, não vale a pena estudar. O melhor é fazer do filho um jogador de futebol. Se o cérebro é pequeno, a grana é grande: "Eu disconcordo com o que você disse” (Vladimir, ex-meia do Corinthians, em uma entrevista à Rádio Record); “Que interessante, aqui no Japão só tem carro importado” (Jardel, ex-Vasco e Grêmio, referindo-se aos Toyotas e Mitsubishis); “Nós vamos recuar para trás e depois atacar com tudo para frente" (Correia, jogador do Palmeiras em entrevista a TV Bandeirantes dizendo como o time iria jogar contra o Vasco).

Sei que não tem nada a ver com futebol, mas alguns dos vestibulandos de nossas faculdades, dão goleada de 10 X 0 nos futebolistas. Só a título de curiosidade e ilustração mostro algumas preciosidades retiradas de redações do provão do ENEM:

"Os desmatamentos de animais precisam acabar"; "É um problema de muita gravidez"; "Devido aos raios ultra-violentos"; "Na televisão o governo vem com aquela prosopopéia flácida"; "Todos os fiscais são subordinados, é a propina"; "Os lagos são formados pelas bacias esferográficas"; "No paiz enque vivemos, os problemas cerrevelam"; "A natureza foi discuberta pelos homens a 500 anos atrás"; "Não preserve apenas o meio ambiente, mas sim todo ele"; "O maior problema da floresta Amazonas é o desmatamento dos peixes"; "Hoje endia a natureza não é mais aquela"; "Vamos mostrar que somos semelhantemente iguais"; "Vamos deixar de sermos egoístas e pensarmos um pouco mais em nós"; "Por isso eu luto para atingir os meus obstáculos". (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Dario, com a camisa da Ponte Preta, em jogo contra o Corinthians (Foto: Acervo pessoal de Dario)

segunda-feira, 21 de abril de 2008

As várias faces do gol

Quem acompanha futebol com certeza já viu gol de todo o jeito. De cabeça, com o pé, de barriga, de costas, de bunda e até com a mão. O gol com a mão mais famoso do mundo foi de Maradona, nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, no México, no jogo Argentina X Inglaterra. Apelidado pelo próprio jogador como “La Mano de Dios”, o gol serviu de inspiração para um filme rodado o ano passado, além de músicas dos compositores Walter Olmos e Carlos Waiss.

O gol de barriga de Renato Gaúcho foi um dos lances mais pitorescos da história do futebol brasileiro. Aconteceu num clássico Fla-Flu pelo Campeonato Carioca, dia 25 de junho de 1995. O empate de 2 X 2 dava o título ao Flamengo. Ao Fluminense só a vitória interessava. O relógio marcava 42 minutos do segundo tempo. A torcida rubro-negra já cantava e festejava quando o incrível aconteceu: Ailton recebeu a bola na linha de fundo, pela direita, cortou para um lado, driblou Charles Guerreiro e chutou para o gol de Roger. A bola resvalou na barriga do atacante Renato Gaúcho e entrou. Vitória do Fluminense, taça nas laranjeiras, fim de um jejum de 11 anos e silencio profundo da torcida do Flamengo.

No dia 29 de abril do ano passado, em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro o goleiro Fábio, do Cruzeiro, no clássico que o Atlético venceu por 4 X 0, levou um gol de costas. O “Galo” acabara de marcar de pênalti o terceiro gol, aos 45 minutos do segundo tempo. O Cruzeiro deu a saída e perdeu a bola. O centroavante Vanderlei dominou, livrou-se de um defensor, aproximou-se da área e chutou enquanto o goleiro Fábio estava de costas para o gramado. Disse depois que fora buscar a bola do lance anterior, que ainda estava dentro da meta.

No Campeonato Brasileiro do ano passado, em jogo no Mineirão, dia 4 de julho, o Flamengo levou um gol do Atlético, aos 43 minutos do segundo tempo. Aos 47, o jogador Leonardo empatou o jogo com um gol de ombro. Mas isso, não é nada. Pior foi o gol de nuca que o atacante Abimael, do Figueirense fez contra o Caxias, em 2001, aos 39 minutos do segundo tempo no jogo do Brasileiro da Série B, que colocou o time catarinense na Série A.

Num dos jogos da decisão do Campeonato Paulista de 1977, o jogador Palhinha, do Palmeiras fez um gol de nariz contra o Corinthians e precisou de atendimento médico. Após chutar no gol adversário, a bola foi rebatida pelo goleiro, voltou e bateu direto no seu nariz e entrou no gol.

Em 12 de dezembro de 1993 o São Paulo ganhou seu segundo título mundial de clubes, em Tókio. Derrotou o poderoso Milan, da Itália, por 3 X 2 . O gol da vitória aconteceu aos 36 minutos do segundo tempo, marcado pelo atacante Muller. O tricolor paulista encaixou um contra-ataque, tocando a bola calmamente: Doriva, Dinho, Leonardo e Cerezo, e lançamento para Muller que de dentro da área adversária fez o famoso e histórico gol de “bunda”.

Alguém já ouviu falar de um gol feito com o “pinto”? Mas já aconteceu. Foi no dia 11 de novembro do ano passado na vitória do Stuttgart por 3 X 1 sobre o Bayern de Munique, pelo Campeonato Alemão. O jornal “Bild” publicou na edição de 14-11 o gol de “pinto” do atacante Mário Gomes, o primeiro do jogo. O periódico alemão assegura que foi com o pênis do jogador. O goleiro Oliver Kahn, do Bayern saiu da meta para tentar defender uma bola cruzada, que sobrou para Gómez, que pulou para cabecear, quando foi surpreendido pela trajetória da bola, que pegou efeito e bateu em seu pênis, enganando o goleiro. “Primeiro gol de pênis no campeonato alemão”, foi a manchete de capa do jornal. E no subtítulo esta pérola: “O gol foi geni(t)al”.

Sem a menor dúvida esses lances ganharam lugar de destaque na história do futebol pela maneira como foram marcados. Muitos outros gols foram feitos de maneira curiosa. Citei alguns, apenas como ilustração. Mas nada, nada mesmo se compara ao gol mais esquisito do mundo em todos os tempos, marcado por um jogador de nome Leônidas, que defendeu o América, do Rio de Janeiro, nos anos 50.

Nada a ver com o famoso Leônidas da Silva, o eterno “Diamante Negro”. O jornalista carioca, Sandro Moreira foi quem apelidou o Leônidas americano, de “Leônidas da Selva”, para não confundir com o outro. Em uma excursão do América pela Turquia, o "da Selva" tentou alcançar um cruzamento. Tropeçou e para não estatelar-se no chão plantou uma "bananeira.” Ao fazê-lo acertou com o calcanhar na bola que entrou no gol turco, sob o olhar estupefato da torcida.

“Leônidas da Selva” foi um bom jogador, um verdadeiro tanque, rompedor e goleador. Dono de um físico avantajado, Leônidas quando ainda morava no Sul do país, exibia-se em circo com um número sensacional: deitava no chão e mandava passar um caminhão por cima de seu peito. Foi ídolo da torcida americana e chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira. Fez parte daquele que é considerado o melhor ataque da história do América: Canário, Alarcon, Leônidas, Romeiro e Ferreira.

Seu nome verdadeiro é Manoel Pereira. Nasceu no dia 3 de janeiro de 1927, em Biguaçu (SC) e faleceu no dia 23 de abril de 1985, em Matinhos (PR). Foi para o América em 1956. Conquistou dois títulos importantes, as Copas Oswaldo Cruz e Atlântico, em 1956, pela Seleção Brasileira, por quem fez 1 gol.

Leônidas vestiu por seis vezes a camisa canarinho: em 12 e 17 de junho de 1956, contra o Paraguai; em 24 de junho, enfrentou o Uruguai; em 1 de julho de 1956, encarou a Itália; 8 de julho de 1956, jogou contra a Argentina e em 5 de agosto de 1956, enfrentou a Tchecoslováquia. Pelo América não conseguiu mais do que um vice-campeonato carioca, em 1955 e ser capa da revista “Esporte Ilustrado” (foto que ilustra este artigo).

Contam que no jogo de estréia na Seleção, Leônidas tinha como companheiro de ataque o genial Zizinho, um dos maiores craques do futebol brasileiro em todos os tempos. Era um jogo contra o Paraguai. Leônidas estava muito nervoso porque não conseguia aproveitar os passes milimétricos de Zizinho, que o lançava em profundidade. Foram cinco passes magistrais, verdadeiras obras de arte, que Leônidas não aproveitou. A torcida não perdoou e as vaias ecoavam por todo o estádio.

No intervalo do jogo, na conversa de vestiário, Leônidas chamou Zizinho a um canto e, quase chorando, pediu: “Seu Zizinho, por favor, não me dê mais aqueles passes inteligentes. Não adianta, não sei o que fazer. Para mim, não adianta. É melhor o senhor mandar a bola em cima dos “beques”, eu prefiro assim, vou lá e divido com eles.” Dito e feito: na primeira bola que Zizinho tocou na direção do zagueiro paraguaio, “Leônidas da Selva” foi pra cima, chutou, bateu canela com canela e fez o gol. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O apelido de "Leônidas da Selva" foi dado pelo jornalista Sandro Moreira (Foto: Revista Esporte Ilustrado)

domingo, 20 de abril de 2008

Te cuida, Ibis

O Íbis de Pernambuco já viu o seu status de “pior time do mundo” correr sério perigo. Já surgiram muitos candidatos. O Grêmio Atlético Sampaio, de Boa Vista, Roraima, ou simplesmente o GAS, como é mais conhecido foi o último time a assustar o rubro-negro pernambucano. Não foram poucos os críticos que chegaram a questionar o "título" do Íbis, dizendo que o GAS conseguia ser ainda pior. Em 2004 o time começou a afundar. Chegou ao fundo do poço em 2006, quando venceu um só jogo na temporada. E assim mesmo, sem jogar. Foi um W.O. sobre o Progresso, de Mucajaí, que não apareceu.

O GAS ficou sem vencer dentro de campo de 8 de maio de 2004, quando derrotou o São Raimundo, por 4 X 0 até 2007, quando venceu o Atlético Rio Negro Clube, por 4 X 3 e de virada. A história do clube até que é bonita. Em meados da década de 1960 chegaram a Roraima vários militares do Exército Brasileiro, vindos de diversos pontos do país para servirem em um dos quartéis de Boa Vista. Entre eles estava o cearense Agenor de Souza Almeida, o “seu Agenor”, que viria a fundar o GAS em 11 de junho de 1965. O nome foi uma homenagem ao seu conterrâneo General Sampaio.

O “leão” foi o mascote escolhido. O pobre animal, reverenciado como o “rei das selvas”, sinônimo de força e coragem não merecia tal “homenagem”. Os torcedores (?) apelidaram o time de “Leão do Norte” e “Leão Dourado”. O escudo tem fundo vermelho, no centro um leão em amarelo e bem em baixo o nome Sampaio, escrito em letras maiúsculas.

O clube aderiu ao profissionalismo na década de 1990. Em 1996 disputou pela primeira vez o Campeonato Roraimense de Futebol e sagrou-se vice-campeão, perdendo o título para o Baré. Foi um início promissor, tendo garantido vaga para a Série C do Campeonato Brasileiro de 1996. A campanha nacional foi terrível: perdeu todos os jogos, fez só quatro gols e abandonou a competição ainda na primeira fase.

Olhando bem, não é surpresa Roraima ter um time tão ruim. O campeonato de lá é uma verdadeira desgraça. Os outros times não são muito diferentes do GAS. E o público sabe disso. Adivinhem qual tem sido a média de público no campeonato, nos últimos anos? Não mais do que 50 pessoas nas rodadas duplas que são jogadas aos sábados à tarde. É a menor média do futebol brasileiro. Até na várzea de qualquer cidade, o público é maior.

Só um exemplo: no dia 22 de Julho de 1996, o jogo entre Progresso x Rio Negro pelo campeonato de Roraima teve apenas um pagante: o herói foi o funcionário do Ministério de Agricultura Abraão Pereira de Souza. A renda foi de R$ 5,00 e cada clube recebeu R$ 1,00.

O fundador do clube, “seu Agenor Sampaio” ainda é o presidente. A empregada doméstica de sua casa é que lava e passa o uniforme do time. Na Diretoria ele conta apenas com o genro e funcionário público, Jander Ramalho, uma espécie de “faz tudo”. Ele carrega os jogadores nos dias de jogos em sua caminhoneta “Pampa”. A maioria deles mora na periferia de Boa Vista. No elenco tem gente de tudo que é profissão, de pintor de parede a teólogo. Treino é coisa rara. E dinheiro, mais ainda. De vez em quando uma cesta básica, e fica por aí.

Já existiu um outro Grêmio Atlético Sampaio, mas no Acre. E não era ruim como o “xará” de Roraima. O Sampaio acreano, de Rio Branco foi fundado e dirigido pelo comando do exército local. Foi campeão acreano em 1967 e extinto pouco depois, em 1969. Treinava no campo da 4.a Companhia da Fronteira. O principal incentivador do GAS era o capitão Maia. Esse time deixou saudade, tanto que existe em Rio Branco uma rua que leva seu nome.

Mas o GAS de Roraima não está sozinho nessa briga para ver quem é ou foi o pior time do mundo. A lista é grande e incompleta, pois com certeza devem existir muitos outros candidatos por este mundo de Deus afora. Eis alguns.

O Estudantes, de Timbaúva (PE), foi o grande rival do Íbis no Estado. Enquanto o “pássaro preto” levava pancada na primeira divisão, o time timbauvense apanhava na segundona. Em 1995 teve um saldo negativo de 46 gols.

“Bonita” também foi a campanha do Expressinho (MA), que no campeonato de 1996 jogou 18 partidas e perdeu todas. Sofreu 67 gols e marcou apenas 3. O Vitória do Mar, também do Maranhão conheceu vitórias, só no nome. Dizem que tempos atrás o clube disputou com o Íbis o título de pior do mundo, mas nem isso conseguiu ganhar.

E do Cruzeiro de Arapiraca (AL), o que dizer? Em 1988 o time ficou conhecido como "assombroso". O técnico Eraldo Lessa era o administrador de cemitério e a torcida adversária não deixava por menos e chamava os jogadores de "coveiros", porque eles “enterravam” o time. O clube ganhou um único jogo naquela época, contra o São Domingos e num dia primeiro de abril. Vitória de “mentirinha”, diziam os gozadores de plantão.

Um outro Cruzeiro não fica atrás. É o Cruzeiro Esporte Clube, de Porto Velho (RO). A última vez que o time soube o que é uma vitória foi no dia 12 de abril de 2005, quando venceu o Pimentense, por 1 a 0, no seu estádio, o Aluízio Ferreira. Desde então, foram 18 jogos, com 15 derrotas, dois empates e mais uma vitória, mas no tapetão, contra o mesmo Pimentense. Dentre as derrotas acumuladas, o Cruzeiro sofreu uma goleada de 10 a 0 para o Ji-Paraná, no dia sete de maio de 2005. Dois jogos depois, o time melhorou e perdeu para o Genus por “apenas” 9 a 0. Nos 18 jogos disputados desde a última vitória, foram 56 gols sofridos, média de 3 gols por jogo e somente 10 gols marcados.

Outra proeza para ninguém botar defeito foi protagonizada pelo já extinto time do Bernardo, de São Bernardo do Campo (SP), que foi último colocado na 6ª divisão paulista, por seis anos consecutivos.

O mais novo aspirante ao título de pior do mundo não pode ser desconsiderado. É candidato fortíssimo. Trata-se do Esporte Clube Perilima, de Campina Grande (PB). O próprio nome do time é inacreditável. O dono, Pedro Ribeiro Lima, juntou o PE, de Pedro, o RI, de Ribeiro e o sobrenome LIMA e compôs a obra, PERILIMA.

O Perilima foi fundado em 8 de setembro de 1992, com o nome de Associação Desportiva Perilima e pertence a uma fábrica de “sordas”, uma mistura de bolachas de trigo e rapadura, típica da região Nordeste. Os jogadores são quase todos funcionários da empresa e recebem apenas um complemento de salário. O dono banca todas as despesas do clube, cerca de R$ 15 mil por campeonato. Sua única exigência é sempre ser escalado e só sair quando quiser. O que não é problema, pois além de jogador e capitão da equipe, é o técnico.

Pedro, que se diz viciado em futebol e que fica doente quando não joga, tem 1.62 metro de altura e pesa 80 quilos. Costuma jogar pelo menos o primeiro tempo, não marca ninguém e raramente toca na bola. O time não tem torcedores, mas conta com a simpatia de todos pelo seu caráter folclórico.

Em 2001 mudou o nome para Esporte Clube Perilima. Em 2003 voltou ao nome antigo de Associação Desportiva Pirilima. É conhecido como a “Águia de Campina Grande”. Vive num constante sobe e desce nos campeonatos da primeira e segunda divisões. A propósito, a segunda divisão paraibana é agora oficialmente denominada de “Troféu Chico Bala”. Entre os “craques” do time no ano passado figuravam nomes como “Chimba”, “Nego Pai”, “Fumaça” e “Foguinho”.

O ano passado a FIFA reconheceu seu Pedro como o mais velho jogador em atividade no futebol mundial (58 anos). O único gol que marcou na carreira foi no jogo em que perdeu por 5 X 1 para o Campinense, de Campina Grande, pelo campeonato paraibano, no dia 28 de março de 2007. O gol foi de pênalti, aos 35 minutos do segundo tempo. O “artilheiro” tinha dois sonhos, fazer um gol como profissional e encerrar a carreira aos 60 anos. Agora, só falta um.

No campeonato paraibano de 2007 o Perilima conseguiu 15 derrotas seguidas, sofreu 67 gols e marcou 7. Somando-se os dois jogos que perdeu na segunda divisão de 2006, um campeonato que teve apenas dois participantes - foi vice-campeão sem vencer – a marca de derrotas consecutivas em partidas oficiais sobe para 18 jogos, incluindo um jogo do estadual de 2005.

A última vitória do time das “sordas” foi em 26 de fevereiro de 2005, 1 x 0 sobre o Nacional de Cabedelo, outro time do mesmo DNA do Perilima. Foram 26 jogos oficiais sem vitória, e duas goleadas, 7 X 0 para o Campinense, a “Raposa do Nordeste” e 11 X 0 para o Treze, o “Galo da Borborema.” O único ponto conquistado no campeonato do ano passado foi no empate em 3 X 3 com o Esporte, de Patos, no estádio Amigão, em 14 de abril. Nesse jogo o “dono do time” desperdiçou um pênalti.

No exterior, perde-se a conta de quantos times ruins existem. A quantidade é enorme, por isso vou dar apenas um exemplo. O Deportivo Jalapa, da Nicarágua por incrível que pareça foi campeão nacional em 2001. E no ano seguinte foi disputar a Copa dos Campeões da Concacaf, em El Salvador. Confiram os resultados dos seus jogos: na estréia, derrota por 4 X 1. No segundo jogo, por 17 X 0. No terceiro, 19 X 0. Sofreu: 40 gols e marcou um. Ganhou o apelido de “Real Madrid às avessas”. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)