Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Yustrich, o técnico “Homão”

Muitos técnicos de futebol são criticados pela tolerância demasiada com os jogadores. São os chamados “paizões” ou “titios”. Casos de Orlando Fantoni, já falecido e Joel Santana. Já Luiz Felipe Scolari, mescla o estilo “paizão” com “durão”, receita de sucesso. Existem os estrategistas, exemplos dos falecidos Zezé Moreira e Cláudio Coutinho e mais recentemente Vanderlei Luxemburgo.

Não podemos esquecer os disciplinadores. Flávio Costa, Osvaldo Brandão e Aymoré Moreira foram famosos. Mas nesse quesito ninguém superou Dorival Knipe, o Yustrich, ex-goleiro do Flamengo que se tornou o mais exigente e intolerante treinador que o futebol brasileiro conheceu. Há quem diga que não teve similar no mundo.

Dorival Knipe nasceu em Corumbá (MS) no dia 28 de Setembro de 1917. O apelido Yustrich ganhou pela semelhança física com Juan Elias Yustrich, goleiro argentino do Boca Juniors. Também o achavam parecido com o ator de cinema Victor Mature. Começou no futebol aos 18 anos, jogando pelo Flamengo, por quem foi campeão carioca em 1939, 1942, 1943 e 1944, quando perdeu a titularidade para Jurandir. Descontente foi para o Vasco da Gama e depois América, também do Rio de Janeiro.

A carreira de técnico teve início na década de 1950. De cara ganhou a fama de “durão”. Arrogante e de temperamento explosivo, gostava de exibir valentia. Era chamado de “Homão”, por causa da alardeada macheza e pelos quase dois metros de altura e físico avantajado: “paquidérmico”, segundo um cronista esportivo da época. Era comum envolver-se em atritos com jogadores, colegas de profissão, dirigentes e até com a imprensa. Ele não permitia que atletas sob seu comando fumassem, deixassem a barba por fazer e usassem cabelo comprido. Não tolerava atrasos e nem falta de empenho nos treinamentos.

Tinha bronca permanente com a imprensa, que o malhava constantemente. Certa feita, quando treinava o América Mineiro, por implicância proibiu a presença de repórteres no vestiário do Mineirão. Depois proibiu na porta do vestiário, no corredor, no fosso e junto da pista. Um repórter reclamou e foi ameaçado. O presidente interino da Associação Mineira de Cronistas Esportivos (AMCE), jornalista Osvaldo Faria, foi tomar satisfações e o "homão" não quis nem saber, partiu para a porrada.

Felizmente a PM chegou a tempo e não houve nada de maior. Vendo tantos policiais cercando Yustrich, o repórter de rádio Dirceu Pereira, deu uma de bom e de punhos cerrados gritou: “Larga ele, solta esse cara que a torcida vai ver quem é quem. Solta esse Zé Mingau". E posou de herói da festa. Yustrich vendo aquilo apenas soltou um estrondoso urro: "eu te pego, eu te peeeego".

Dias depois o Dirceu, esquecido do atrito foi ao estádio do América fazer uma reportagem. Chegou num jipe da rádio, dirigido pelo motorista Alair Sabará, um baixinho também metido a brigão. Ao entrar, logo que viu Yustrich, lembrou de tudo e saiu correndo. O treinador também o reconheceu e gritou para o porteiro: “Bigoooode, fecha esse portão". Ordem dada e executada, mas Dirceu conseguiu passar e ofegante entrou no jipe aos berros: “Arranca, Sabará, arranca, Sabará".

Não deu tempo. Trêmulo, Sabará não achava o buraco da chave. Há quem diga que no aperto queria ligar o jipe com um pente. Por sorte, Yustrich estava num dia bom e não bateu em ninguém, só disse muito desaforo. O jipe sim, levou inúmeros pontapés. E Dirceu e Alair só não encheram as calças por que não tinha nada pronto. Nem líquido nem sólido.

O Atlético Mineiro foi o clube que mais se identificou com Yustrich, que chegou no “Galo” em 1952 e logo foi campeão estadual. Deixou o clube na temporada seguinte, após uma rebelião formada pelos jogadores Zé do Monte e Lucas Miranda, descontentes de verem alguns colegas preteridos pelo técnico. Dirigiu o clube mineiro em 159 jogos, nos anos de 1952, 1953, 1960, 1968 e 1969.

Em 1955 foi para Portugal, treinar o Futebol Clube do Porto, sagrando-se campeão depois de uma longa espera de 16 anos. No mesmo ano, o Porto venceu a Taça Portugal, fazendo a chamada ''dobradinha'', ganhando os 2 maiores títulos daquele país. Mesmo tendo sido um técnico vencedor no clube português, Yustrich era antipatizado por alguns jogadores, entre eles Hernani Silva, o ídolo do time.

Ao fim de um jogo em que o Porto venceu o Oriental por 5 X 0, o técnico mandou os jogadores agradecerem ao público o apoio dado. Hernani foi o único a não cumprir a ordem, dizendo que não iria “alimentar as palhaçadas do treinador”. Foi o suficiente para se iniciar uma troca de socos. No final da temporada, Yustrich foi dispensado. Dizem que por exigência da temida polícia secreta do então ditador Oliveira Salazar, que tinha no Sporting, de Lisboa seu clube preferido, e não via com bons olhos o sucesso do Porto, conduzido por um brasileiro.

Apesar dos métodos rigorosos e polêmicos, os times dirigidos por Yustrich sempre brigavam pelas primeiras posições. Por isso, era sempre requisitado por grandes clubes. Em pleno início da década de 1970, já utilizava os métodos de trabalho dos treinadores atuais. Foi um dos primeiros a perceber a importância da preparação física. Com ele os goleiros tinham treinamento especial, separados do resto do grupo. Era o único técnico da época que dava folga aos jogadores nas segundas-feiras.

De volta ao Brasil, dirigiu o Vasco da Gama em 1959. Depois o modesto time do Siderúrgica, de Sabará (MG), onde foi campeão estadual. O Siderúrgica tinha ganho o título pela última vez em 1937. No jogo decisivo contra o Atlético Mineiro, Yustrich obrigou o atacante “Noventa” a jogar com um dos braços quebrado.

Dali foi para o Vila Nova, de Nova Lima, onde jogava um meio-campista de apelido “Quelé”. Yustrich reclamava do jogador por relaxar na marcação: “Pô, rapaz, você domina fácil a bola, sabe driblar, passa bem, mas não combate. Isso é ruim. É preciso voltar para marcar. Por que não faz isso?” E o jogador respondeu: “Ah, seu Yustrich. O senhor acha que dominando bem a bola, driblando bem, passando certo e dando combate, como senhor deseja, eu estaria aqui nesse timeco?”

Yustrich dirigiu a Seleção Brasileira por um jogo. Em dezembro de 1968, o Atlético representou o Brasil num amistoso contra a antiga Iugoslávia. Vestindo a camiseta canarinho, o Atlético venceu de virada por 3x2. Nesse jogo Yustrich lançou o atacante Dario, que marcou dois gols. Em 1969, no Mineirão, o Atlético, com a camiseta vermelha da Federação Mineira venceu por 2 X 1 a Seleção Brasileira, de João Saldanha, que se preparava para a Copa de 1970. Ao final da partida, Yustrich obrigou seus jogadores a darem a volta olímpica no gramado, com a camisa alvinegra do Atlético. O Mineirão quase veio abaixo. Isto lhe valeu a inimizade de João Saldanha.

Em 1970, Yustrich foi para o Flamengo e começou o ano de forma arrasadora. Em fevereiro, num jogo pelo Torneio de Verão esmagou o Independiente, da Argentina com uma vitória de 6 x 1. Depois o Flamengo foi campeão da Taça Guanabara. E só. Os resultados decepcionantes que se seguiram e a perseguição ao atacante argentino Doval, porque usava cabelos compridos, determinaram sua demissão no segundo semestre de 1971.

Ainda no Flamengo escapou da morte por um triz. De olho no cargo de técnico da Seleção Brasileira, caso Saldanha fosse demitido, Yustrich carregou nas críticas ao treinador. “João Sem Medo”, que já estava irritado desde o jogo-treino no Mineirão, entrou armado de revólver na concentração do Flamengo, para “um ajuste de contas”, mas o técnico não estava lá. Por este gesto e pelo empate da seleção com o modesto time do Bangu, foi demitido. Em seu lugar entrou Zagalo.

Essa não foi a primeira vez que Yustrich correu o risco de levar um tiro. Em uma de suas estadas no Atlético Mineiro, se desentendeu com o jogador uruguaio Cincunegui, que havia retardado em uma semana o retorno das férias. Os dois discutiram violentamente e Cincunegui sacou do revólver e só não atirou, porque foi seguro por companheiros.

Depois do Flamengo, treinou o Corinthians e o Coritiba. Em 1977, foi para o Cruzeiro (MG) e encontrou um grupo de jogadores quase todos cabeludos, alguns barbudos e outros com penteado estilo black-power. Não se conteve e perguntou: “esse é um time de rock?” A primeira providência desagradou os jogadores: proibiu o jogo de sinuca na concentração. Ainda assim, o Cruzeiro foi campeão mineiro.

Yustrich foi dispensado do clube por conta de um fato banal. Após uma partida em Araxá, o jogador Roberto Batata deu a camisa para um garoto. Yustrich mandou o roupeiro buscar de volta. Na época, todos em Minas tinham medo dele. Ninguém desconhecia que gostava de ameaçar e bater em jogadores, e até por obrigar um então presidente do Atlético Mineiro a se abaixar e pegar uma caneta que tinha caído, em clara demonstração de poder.

No entanto o vice-presidente do Cruzeiro, Carmine Furletti enfrentou o furioso treinador, não permitindo que a camisa fosse trazida de volta. O dirigente foi curto e grosso “Aqui você não manda nada, é empregado e ponto final!”. A camisa ficou com o garoto. Foi o bastante para a diretoria se reunir à noite e tomar a decisão de demitir o técnico, que foi notificado através de uma carta.

A responsabilidade de entregar a correspondência ficou a cargo do supervisor Robson José. Ele viajou até o sítio do treinador, em Vespasiano. Há quem diga que o supervisor, temendo a reação explosiva do Homão” jogou a carta por debaixo da porta, tocou a campainha e saiu correndo.

O incidente foi só o pretexto para mandar Yustrich embora. Ele estava desgastado por tentar barrar o zagueiro Brito, por que tinha o hábito de fumar. Não conseguiu. Em represália, substituía o jogador sempre que possível. O craque se irritou a tal ponto que, ao ser substituído pela décima vez, jogou a camiseta suada no rosto do treinador e saiu em disparada. Seria suicídio enfrentar aquele brutamonte, mesmo já envelhecido.

Yustrich encerrou no Cruzeiro sua carreira de treinador. Retirou-se para o mais completo anonimato e só voltou a ser notícia quando morreu, em 15 de fevereiro de 1990. (Texto e Pesquisa: Nilo Dias)
Yustrich, um técnico de muita competência, mas "durão" ao extremo. (Foto: Acervo do C.A. Mineiro)

domingo, 11 de maio de 2008

Sima, o “Pelé do Piauí”

Dia desses um amigo meu se queixava da grande imprensa brasileira, principalmente a Rede Globo que dedica os maiores espaços de seus noticiários esportivos para os clubes de futebol do Rio de Janeiro e São Paulo. Lá de vez em quando se fala alguma coisa sobre os clubes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e algum outro Estado que tenha representante na Série A do Campeonato Brasileiro. E os outros? Absolutamente nada, a não ser que aconteça alguma coisa de ruim. Lembrem as mortes acontecidas no Estádio da Fonte Nova, na Bahia. Por vários dias o acidente ocupou grandes espaços na mídia.

O amigo tem toda a razão. Mas, convenhamos o próprio torcedor é culpado nessa situação, pois além de comprar os pacotes de transmissão dos jogos, ainda torce por equipes de fora do seu Estado de origem. No Nordeste isso acontece com freqüência. No Distrito Federal, é bem pior. Nunca vi um jogo no Estádio Mané Garrincha, em que o time local tivesse mais torcedores que o adversário. A imprensa sabe disso, e não vai mesmo dar importância para quem não está na vitrine. É a velha história do peixe maior que come o menor.

O meu amigo é do Piauí e mora em Brasília há vários anos. E torce pelo Flamengo, o do Rio de Janeiro. Quer dizer, não dá para entender a preocupação com o futebol da sua terra, onde tem um cronista esportivo de apelido Garrincha, um jogador de nome Maradona e um time chamado Flamengo. De qualquer maneira, procurei pesquisar sobre a carreira de um jogador piauiense, que esse meu amigo falou maravilhas. E confesso que nessa particularidade existe mesmo desinformação. Eu nunca tinha ouvido falar no jogador Sima, que foi chamado por lá de “Pelé do Piauí” e “Pelé do Nordeste”.

Simão Teles Bacelar, é o nome da fera, nascido em 7 de março de 1948, na cidade de Miguel Alves (PI). Não encontrei nada que explicasse o porquê do apelido Sima, mas é fácil perceber que isso tem a ver com o nome Simão. Mas o importante é que ele está inserido na seleta lista dos 10 maiores artilheiros do futebol brasileiro em todos os tempos, ao lado de Friedenreich, Pelé, Zico, Roberto Dinamite, Romário, Túlio e outros monstros sagrados.

Entre 1969 e 1983, o centroavante conseguiu a proeza de ser dez vezes o artilheiro do campeonato estadual. Em 1977 foi o maior goleador dos campeonatos estaduais em todo o país, quando fez 33 gols jogando pelo River Atlético Clube. O que, convenhamos é um feito para ficar na história.

Sima fez 529 gols em toda a carreira, números impressionantes para quem jogou apenas em clubes sem muita expressão no cenário futebolístico nacional. Ele me lembra um artilheiro lá do Rio Grande do Sul, Antônio Azambuja Nunes, o “Nico”, um grande amigo meu, que fez mais de 700 gols jogando no Rio-Grandense, de Rio Grande.
Mas essa é outra história, que oportunamente quero contar.

A carreira de Sima teve início nos juvenis do Piauí Esporte Clube em 1964. Na temporada de 1967 defendeu Barras no torneio Intermunicipal e foi o artilheiro da competição com 12 gols. Em 1968 passou a titular do Piauí e começou uma trajetória de títulos e gols. No próprio Piauí, no Tiradentes e no River foi várias vezes campeão estadual e bateu todos os recordes de gols.

O artilheiro, que hoje é empresário no ramo de material esportivo lembra de dois gols marcantes na carreira: em 1974, contra o Internacional de Figueroa e companhia, em pleno Estádio Beira Rio, em Porto Alegre, na derrota do River por 2 X 1. E em 1975, em São Januário, no Rio de Janeiro no empate de 1 X 1 do extinto Tiradentes, com o Vasco. O gol que ele considera o mais bonito da carreira foi marcado contra o Botafogo, no Maracanã, em 1982, num chute quase sem ângulo.

Lá pelas bandas do Piauí correu uma história de que o clube que almejasse ser campeão estadual teria de contar com Sima e mais 10. Uma vez ele fez quatro gols num jogo contra o América de Natal, pelo Campeonato Brasileiro e ficou algumas semanas como artilheiro isolado da competição, na frente de Zico, Roberto Dinamite e Serginho Chulapa.

Mesmo com toda a predestinação de artilheiro, Sima não chamou a atenção de nenhum grande clube do centro do país. Sua carreira foi quase toda limitada aos clubes do Piauí e do Nordeste, principalmente, o River. Em 1972 jogou o campeonato baiano e o Brasileirão pelo Bahia, sem muito brilho. Sua passagem pela “boa terra” é lembrada pelo gol que marcou contra o time rival do Vitória, no clássico que levou o tricolor baiano até as finais do campeonato.

Na pesquisa que fiz, o que mais me chamou a atenção sobre Sima, não foi nem seu faro de gol, técnica, velocidade ou qualquer outra coisa do gênero, sim a disciplina. Ele nunca sofreu uma punição na carreira, o que lhe valeu o prêmio Belfort Duarte, que era outorgado pela CBF ao atleta que ficasse 10 anos sem ser expulso de campo.

Os 529 gols que marcou foram divididos assim: River (PI) (1977 a 1983 e 1987), 185; Piauí (1966 a 1971 e 1984 a 1986), 156; Tiradentes (PI) (1973 a 1976), 93; Auto Esporte (PI) (1983/1984), 30; Ferroviário (CE) (1981), 12; Seleção de Barra (PI), 12; Flamengo (PI), 10; Moto Clube (MA), 09; Bahia, 09; Seleção Piauiense, 04; Seleção da Agpi (PI), 04; Sergipe (SE), 02; Seleção Prata da Casa (PI), 02; Leônico (BA), 02 e Seleção de Teresina (PI), 01. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Sima, o maior craque da história do futebol piauiense (Foto: Site do River Atlético Clube)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Tesourinha, o “Craque Melhoral”

Osmar Forte Barcellos, o Tesourinha, nasceu em Porto Alegre no dia 3 de outubro de 1921 e foi eleito pela torcida o melhor jogador de toda a história do S.C. Internacional. Dono de invejável habilidade e técnica sabia driblar com facilidade e chutar com precisão, o que lhe valeu a condição de emérito artilheiro. Foi um dos jogadores gaúchos mais laureados do futebol brasileiro em todos os tempos.

O apelido Tesourinha, ele ganhou nos tempos em que participava de um bloco carnavalesco de Porto Alegre, chamado “Os Tesouras”. A carreira de jogador de futebol teve início no clube amador do Ferroviário da Ilhota, uma antiga vila de Porto Alegre, hoje Praça Garibaldi. Em 1939, foi convidado a fazer testes no Internacional, sendo aprovado.

Tesourinha gostava de jogar como centroavante, mas teve de se contentar com a ponta-direita, devido à concorrência com Carlitos, um dos grandes jogadores da história do clube e maior artilheiro gaúcho de todos os tempos, com 485 gols. Seu jogo de estréia no Internacional foi pelo campeonato municipal, em 23 de outubro de 1939, com vitória de 2 X 1 sobre o Cruzeiro, na época a terceira força da capital gaúcha. O primeiro gol que marcou como profissional foi num jogo amistoso contra o Força e Luz, outro time de Porto Alegre já extinto, em 14 de dezembro daquele ano, com vitória do Internacional por 7 X 0.

Quando chegou ao Internacional em 1939, vindo de uma família muito pobre e com um físico bastante franzino, a diretoria do clube autorizou uma padaria próxima ao estádio dos Eucaliptos, a lhe entregar todos os dias meio quilo de carne e dois litros de leite, para que melhor alimentado ganhasse massa muscular.

Com a seqüência de treinos começou a mostrar um grande talento, impressionando a todos pela habilidade e velocidade, virtudes que o acompanharam durante toda a vitoriosa carreira. Ninguém brilhou mais do que ele naquele fabuloso time do Internacional, chamado de “Rolo Compressor”, que garantiu ao clube oito títulos estaduais em nove anos.

O nome “Rolo Compressor” foi criado por um dos mais fanáticos torcedores colorados que existiram, Vicente Rao que ganhou fama nacional ao alegrar os carnavais de Porto Alegre como Rei Momo, num longo reinado de 22 anos, de 1950 a 1972. Foi jogador do Internacional na década de 20, fazendo parte do grupo que conquistou o primeiro campeonato gaúcho para o clube, em 1927. Foi ele quem criou as primeiras escolinhas de futebol do Internacional.

Vicente Rao nasceu em 4 de abril, data de aniversário do Internacional e gostava de dizer que não havia nascido, sim inaugurado. Exímio desenhista, fazia desenhos dos jogadores do time do Internacional em forma de um rolo compressor, amassando todos os adversários. Depois, levava essas charges para o seu amigo e também torcedor colorado, o jornalista Ari Lund que as publicava no jornal “Diário de Notícias”.

Também é dessa época o surgimento das grandes bandeiras e entradas do time em campo abaixo de foguetes, serpentinas e uma barulhada de sinos e sirenes. Por iniciativa de Rao surgiu nessa mesma década a primeira torcida organizada do Internacional e do Estado, denominada "Camisa 12", que existe até hoje.

Em 1948 aconteceu um concurso nacional para escolha do “Melhoral dos Craques”, patrocinado pela “The Sydney Ross Company”, fabricante do famoso comprimido. A torcida do Internacional votou em peso no seu maior ídolo, e não deu outra, Tesourinha foi o vencedor com 3.888.440 votos e ganhou como prêmio um apartamento no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Uma outra prova do prestígio de Tesourinha foi durante seu casamento, em 1944: os torcedores do Internacional lotaram a igreja e as ruas próximas. Até a Brigada Militar teve de ser acionada para evitar um tumulto de proporções, tal a multidão que disputava espaço para ver o grande craque.

A fama do habilidoso jogador ultrapassou as fronteiras do Sul e em 1944 foi convocado pelo treinador Flávio Costa para a Seleção Brasileira, que disputou a Copa Rio Branco. No jogo de estréia, no Estádio de São Januário contra a Seleção do Uruguai, em 15 de maio marcou um dos gols da goleada de 6 X 1. O ataque brasileiro nesse jogo formou com Tesourinha – Lelé – Isaias – Jair e Lima.

No Campeonato Sul-Americano de 1945, disputado no Chile e ganho pela Argentina, foi titular absoluto em todos os seis jogos da Seleção e craque da competição. Entre seus companheiros estavam alguns dos “cobras” de então: Ademir, Leônidas da Silva, Heleno de Freitas e Zizinho.

Em 1949, participou de nova edição do Sul-Americano de Seleções, disputado no Rio de Janeiro, quando fez 7 gols. O Brasil foi campeão e ele outra vez o melhor atleta. A seleção base do Brasil na competição foi esta: Barbosa - Augusto e Mauro - Eli – Danilo Alvim e Noronha – Tesourinha – Zizinho – Ademir - Jair e Simão.

Ainda em 1949, o jogador teve o passe vendido ao Vasco da Gama por 300 contos de réis, quantia considerada uma fortuna na época. Estreou no clube carioca no dia 4 de janeiro de 1950, fazendo de falta um dos gols da vitória de 5 X 2 sobre a Portuguesa de Desportos, em jogo do Torneio Rio São Paulo. O craque gaúcho fez parte do lendário time apelidado de “Expresso da Vitória”. Tinha participação certa na Copa do Mundo de 1950, mas num jogo contra o Corinthians, no Pacaembu machucou um joelho e nunca mais conseguiu ficar bom totalmente.

Em 1952 retornou ao futebol gaúcho. Queria jogar no Internacional, mas o presidente colorado Joaquim Difini não concordou. Foi então que o conselheiro gremista e jornalista, Aparício Viana e Silva lhe fez o convite para jogar no Grêmio, pois havia um grupo forte que queria acabar com o preconceito no clube. Tesourinha aceitou. No dia da sua estréia, 16 de março de 1952, um amistoso com vitória de 5 X 3 sobre o Juventude, o vice-presidente tricolor, Luis Assunção declarou para a imprensa: “Tesourinha acabou com o arianismo no Grêmio. É um abolicionista que o Vasco nos mandou”. Permaneceu no Grêmio até 1955, quando aos 34 anos resolveu parar, já que a lesão no joelho não lhe permitia mais apresentar o mesmo brilhantismo dos tempos de Internacional.

O Grêmio lhe ofereceu um jogo de despedida, foi contra o Corinthians, no estádio Olímpico. Pouco antes de começar a partida, Tesourinha entrou em campo vestindo a camisa do Nacional e acompanhado de seis garotos com as camisas dos clubes que ele defendeu. Era o “Dia do Cronista”. O craque respirou fundo tirou a camisa, as chuteiras e as meias, entregou tudo aos garotos e se encaminhou para o túnel chorando. E a torcida de pé aplaudiu.

Em 1957 fez alguns jogos pelo Nacional de Porto Alegre, clube ligado a classe ferroviária e já extinto, apenas para completar o tempo de aposentadoria. Em 1960 tentou seguir a carreira de técnico, ao dirigir o Futebol Clube Montenegro, da cidade gaúcha de Monte Negro, sem sucesso. Tesourinha ainda prestou serviço ao seu clube de coração, ao descobrir um outro talento que marcou história no Internacional: Valdomiro, “o craque que voava em campo”. Por indicação sua ele foi contratado junto ao Comerciário, de Criciúma (SC), em 1968 e se tornou um dos maiores ídolos da história do clube.

Tesourinha conquistou estes títulos: no Internacional, campeão gaúcho em 1941, 1942, 1943, 1944, 1945, 1947 e 1948. No Vasco, campeão carioca em 1949, 1950 e 1952. Na Seleção Brasileira, campeão da Copa Roca, em 1945, Copa Rio Branco, em 1947 e Sul-Americano de 1949.

Na partida amistosa de despedida do Estádio dos Eucaliptos, em 26 de março de 1969, quando o Internacional venceu o S.C. Rio Grande, de Rio Grande por 4 X 1, Tesourinha vestiu a camisa colorada pela última vez, tendo, na época, 47 anos de idade. Entrou apenas no segundo tempo, substituindo Bráulio. Ao final da partida, o craque retirou as redes de uma das goleiras do estádio para guardá-la como recordação.

O craque faleceu em 1979, aos 57 anos, vitimado por um câncer no estômago. A cidade onde nasceu não o esqueceu. Seu nome foi imortalizado no Ginásio de Esportes Osmar Forte Barcelos, popularmente chamado pelos porto-alegrenses, de “Tesourinha”. E foi um dos homenageados na coleção de livros em formato de bolso, “Esses Gaúchos”, que era adquirida junto com o jornal “Zero Hora”, em 1985.

A coleção também focou nomes ilustres da história riograndense como Getulio Vargas, Lupicinio Rodrigues, Fernando Apparício Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé, João Goulart, Leonel Brizola, Elis Regina, Érico Veríssimo, Roberto Landell de Moura, Flores da Cunha, Teixeirinha, Simões Lopes Neto, Sepé Tiraju, Honório Lemes, Mário Quintana, Fernando Ferrari, Pinheiro Machado, Júlio de Castilho, Gildo de Freitas, Luis Carlos Prestes, Alceu Wamosy, Padre Reus, Silveira Martins, Oswaldo Aranha, Assis Brasil, Bento Gonçalves da Silva e Alvaro Moreyra, entre outros.

Eu não vi Tesourinha jogar como profissional. Mas em 1973 tive a imensa felicidade de participar de um jogo festivo entre uma Seleção de Veteranos do Futebol gaúcho e do G.A. Farroupilha, de Pelotas, em que ele estava presente. Faltou gente no time pelotense e tive a sorte de entrar em campo e atuar os 90 minutos. Eu tinha 33 anos e ainda rolava uma bola redondinha pelos times amadores da cidade. E depois sentei ao lado de Tesourinha no churrasco servido no próprio Estádio Nicolau Ficco e conversamos um papo agradável. Por algumas coisas que aconteceram em minha vida, às vezes me sinto um iluminado. Esta foi uma delas. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Tesourinha foi eleito pela torcida o maior craque da história do Internacional (Foto: Acervo do S.C. Internacional)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Almir, o craque brigão

Uma das figuras mais extraordinárias, dramáticas e polêmicas do futebol brasileiro em todos os tempos, sem dúvida foi Almir Morais de Albuquerque, o “Almir Pernambuquinho”, nascido em Recife no dia 28 de outubro de 1937 e falecido em 6 de fevereiro de 1973, no Rio de Janeiro. A personalidade forte, aliada a uma boa técnica fez dele um jogador imprescindível nas equipes em que atuou, pois nunca deixou de mostrar dentro de campo uma disposição incomum.

Catimbeiro, valente e brigão foi o mínimo que a imprensa esportiva da época o chamou. Adjetivos que tiveram o acréscimo de desleal e mau caráter, depois de ter quebrado a perna do zagueiro Hélio, do América do Rio, em 1959. Se jogasse hoje, certamente seria chamado pelo nome moderno de “bad boy”, um jogador que cria tanto problema que ofusca seu imenso talento.

Almir foi revelado pelo Sport Clube do Recife (1956), de onde foi para o Vasco da Gama (1957 a 1960), aos 19 anos de idade, tornando-se em pouco tempo ídolo da torcida. Depois andou por Corinthians (1960), Fiorentina, da Itália (1961), Boca Juniors, da Argentina (1961), Genoa, da Itália (1962), Santos (1962 a 1964), Flamengo (1964 a 1967) e América, do Rio de janeiro (1967 a 1968), onde encerrou a carreira. Fez sete jogos pela Seleção Brasileira e marcou dois gols.

Os principais títulos de Almir foram: Super-Supercampeão pelo Vasco em 1958; campeão da Taça Brasil de 1963 e 1964 pelo Santos; Campão Paulista de 1964, campeão da Copa Libertadores da América de 1963 e do Mundial Interclubes de 1963, todos também pelo Santos Futebol Clube.

Dono de uma personalidade forte e explosiva ganhou fama de encrenqueiro e foi principal protagonista de diversas brigas. As mais famosas foram a batalha campal no jogo entre as seleções do Brasil e do Uruguai, em 1959 e a briga generalizada na final do Campeonato Carioca de 1966, jogo que ficou conhecido pela denúncia de um grande numero de jogadores na “gaveta”, inclusive o árbitro. Naquele ano, Almir atuava pelo Flamengo e, aos 26 minutos do segundo tempo, o Bangu vencia por 3 a 0.

Quase ao término do jogo, para impedir mais gols e a volta olímpica do time banguense, Almir, enfurecido, partiu para cima dos adversários distribuindo pontapés, socos e cabeçadas. Todo o mundo brigou e o juiz expulsou cinco jogadores do Flamengo, quatro do Bangu e acabou o jogo. O Bangu foi campeão, mas não deu a volta olímpica. Pesquisando jornais da época descobri algumas declarações do jogador, depois do jogo:

“Não dava para fazer outra coisa, a não ser brigar. O ponta-direito Carlos Alberto estava machucado e só fez número em campo. O nosso goleiro Waldomiro estava tremendo e não era para ter jogado. O Bangu estava em tarde endiabrada e foi empilhando gols. O “Sansão” (Airton Vieira de Morais) já havia expulso dois dos nossos jogadores. Continuasse assim, a gente ia levar um saco de gols e eu resolvi acabar com o carnaval. Quem passou pela minha frente apanhou”.

No Boca Juniors, treinado pelo técnico brasileiro Vicente Feola, campeão do mundo em 1958, Almir protagonizou uma grande confusão num jogo contra o Chacarita Juniors, pelo campeonato argentino. Ele vinha de lesão e não queria jogar. Mesmo assim foi escalado. O adversário fez 1 X 0 e a torcida vaiava Almir. Sorte, que o empate veio no primeiro tempo. Logo no começo do segundo tempo Almir arrumou uma briga, na tentativa de ser expulso junto com dois ou três jogadores do Chacarita. Mas só ele foi para a rua. Quando saía de campo, um jogador do Chacarita o ofendeu. Não deu outra. Almir acertou-lhe um violento soco no rosto e aí todo o mundo brigou. Dois jogadores do adversário foram expulsos e Almir saiu de campo como herói. Ao final, o Boca ganhou o jogo.

Ainda quando jogava pelo clube argentino, em um clássico contra o River Plate, deu uma entrada violenta em um jogador adversário, que saiu contundido. Naquela época não era permitido fazer substituição, e foi expulso. Indo para o vestiário, agrediu outro jogador do River que revidou e também foi expulso. O Boca ficou com dez e o River com apenas nove jogadores em campo.

Mas não foi só de brigas ganhas a vida de Almir. Num jogo do Corinthians, em pleno Parque São Jorge contra o Jabaquara, o valente “Pernambuquinho” encostou o pé em Célio, não menos brigão e duro zagueiro do “Jabuca”. Garoto valente, Célio não afinou, revidou na hora. O Almir ficou louco e partiu para cima. Aí é que não prestou. O jogador do Jabaquara deu um pulo para cima e mandou um pontapé na cara do atacante, que saiu de maca e não voltou mais para o jogo.

Até hoje muitas coisas são contadas a respeito de Almir, mas a maioria não passa de lenda. Os jornalistas Fausto Neto e Maurício Azedo acompanharam Almir durante três meses, quando fizeram uma entrevista que depois de publicada em capítulos semanais na revista “Placar” virou o livro “Eu e o Futebol”. No depoimento, além de fatos de sua vida e denúncias dos bastidores do futebol, constam divertidos diálogos com os treinadores Renganeschi e Yustrick.

O técnico Armando Renganeschi, argentino exigente, perguntou ao jogador, porque bebia tanto. E a resposta: “Olha, seu Renga, não paro por duas coisas. Porque gosto e a bebida não me prejudica. Eu não treino direito? Não estou sempre em forma? Alguma vez deixei de jogar a não ser por contusão grave?”. Renganeschi bateu nas costas de Almir e foi embora.

Com o técnico Iustrick, também famoso pela intolerância, teria acontecido este diálogo: “Almir, você não acha que Copacabana fica muito distante do Vasco?”. E Almir: “Não acho não”. Iustrick: “Mas eu acho que você tem que morar perto do Vasco”. Almir: “Eu não”. Iustrick: “Estão escolhe, o Vasco ou Copacabana”. Almir: “Copacabana”. E Iustrick não tocou mais no assunto.

Em cada time que passou, Almir foi reverenciado: “O menino durão do Vasco”. “O homem furioso do Flamengo”. “O herói da “Bombonera”, no Boca Juniors. “O garoto que brigou pela seleção com meio time uruguaio”. “Um homem próspero, tomador de cerveja que sempre amou uma coisa: a vitória”. Quando de sua ida para o Corinthians foi chamado pelo folclórico presidente Vicente Matheus, de "Pelé Branco".

Quando jogou no Santos o famoso escritor Nelson Rodrigues o chamou de "Divino Delinqüente", depois de uma brilhante atuação no jogo final do Mundial Interclubes de 1963 contra o Milan. Os dois times vinham de duas partidas eletrizantes, onde cada um havia vencido por 4 X 2. Vejam o que é o destino: no terceiro e decisivo jogo, em 16 de novembro, Pelé se machucou aos 30 minutos do primeiro tempo e Almir o substituiu. Jogou um partidaço: fez um gol e ainda sofreu o pênalti inexistente que resultou no gol do título para o Santos.

No livro “Eu e o Futebol”, chama atenção duas revelações de Almir relacionadas a esse jogo decisivo contra o Milan: ter entrado em campo dopado e sabendo que o árbitro Juan Brozzi estava "comprado", assim poderia bater a vontade sem ser expulso.

Esse foi Almir, considerado o atacante mais brigão e corajoso da história do futebol brasileiro e mundial. Sua coragem e personalidade forte lhe custaram a vida. O jornalista Mário Prata, que presenciou tudo naquela noite fatídica de 6 de fevereiro de 1973, no bar “Rio-Jerez”, frente a Galeria Alaska, em Copacabana escreveu uma crônica no jornal “O Estado de São Paulo”, em 12 de janeiro de 1994, quando dos 20 anos da morte do jogador, contando como foi o crime.

Em uma mesa estavam o Almir, uma namorada e um casal de amigos. Na mesa de trás, três portugueses. Na frente da mesa de Almir, os atores gays do espetáculo “Dzi Croquetes”, ainda maquiados depois de mais um dia de trabalho. Os portugueses resolveram caçoar dos atores, chamando-os de veados, paneleiros e outras coisas. Almir não gostou do que ouviu e resolveu defender os atores, que não reagiram. Começou a discussão, até que um dos portugueses sacou um revólver, o amigo de Almir sacou outro e o tiroteio rolou solto no calçadão da Avenida Atlântica.

Os outros dois portugueses também sacaram as armas, os atores gritavam, foi uma correria, mesas foram viradas e pelo menos uns 30 tiros disparados. Quando o tiroteio parou, lá estava Almir no chão, já morto com um tiro na cabeça. Os portugueses saíram correndo. Debaixo de um coqueiro, o amigo de Almir agonizava com um tiro nas costas. Morreu ao dar entrada no hospital. As duas namoradas, apavoradas, gritavam. O resto foi silêncio. Esse crime nunca foi esclarecido pelas autoridades. Os portugueses sumiram e o grupo “Dzi Croquetes” há muito tempo não existe mais.

Fim trágico para quem nunca teve medo de nada. E por uma dessas armações que a vida prega, o violento e machão craque brasileiro morreu defendendo um grupo de homossexuais. No velório de Almir, sua mãe, dona Dedé, aos prantos gritava: "Meu Deus, para quê tanta glória? Preferia meu filho desconhecido, mas vivo". (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Almir, aos tempos de Vasco da Gama (Foto: Acervo do C.R. Vasco da Gama)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Um colecionador de faixas de campeão

Com Romário aposentado, é bem possível que o goleiro Clemer, do Internacional (RS) seja hoje o segundo jogador de futebol mais velho em atividade no Brasil. O primeiro, até a Fifa reconhece, é Pedro Ribeiro Lima, o dono da Associação Desportiva Perilima, da Paraíba, que tem 59 anos. É difícil afirmar que não tenha nenhum outro jogador com mais idade que Clemer atuando por algum pequeno clube, por este gigantesco Brasil afora.

Mais velho, ou não, de nada importa. A verdade é que Clemer Melo da Silva, 1,90 metro, 90 quilos, nascido em São Luis do Maranhão, em 30 de outubro de 1968 é hoje um dos melhores e mais respeitados goleiros brasileiros. Começou a sua carreira profissional no ano de 1986, no Maranhão Atlético Clube de São Luis. Dali se transferiu para o também maranhense Moto Clube. Suas boas atuações chamaram a atenção de clubes de fora do Estado, sendo contratado pelo então competitivo time do Ferroviário cearense.

Já mais conhecido, Clemer peregrinou pelo Santo André (SP), Catuense (BA), Guaratinguetá (SP), Clube do Remo (PA), Goiás (GO), Bahia (BA), até chegar a Portuguesa de Desportos (SP), onde realmente ganhou projeção nacional. Não demorou muito para que o Flamengo (RJ) o contratasse. E finalmente o Internacional, onde se encontra desde 2002. Em 1996, quando ainda jogava na Portuguesa de Desportos, e em 1999, quando defendia o Flamengo, Clemer foi convocado para a Seleção Brasileira.

Acho bastante difícil que algum outro jogador no futebol brasileiro tenha conseguido tantos títulos como Clemer, que chegou a dizer que não sabe mais o que fazer com tantas faixas: tricampeão paraense, pelo Clube do Remo, campeão goiano, pelo Goiás, tricampeão carioca, campeão da Mercosul, campeão da Copa dos Campeões Brasileiros e Campeão da Copa Guanabara, pelo Flamengo, cinco vezes campeão gaúcho, campeão da Copa Libertadores da América, Campeão Mundial de Clubes, campeão da Recopa Sulamericana e campeão da Copa Dubai, pelo Internacional.

Apenas como curiosidade cito o goleiro português Vitor Bahia como o maior colecionador de títulos do mundo. Que fantástica carreira: 10 Ligas Portuguesas (89/90, 91/92, 92/93, 93/94, 95/96, 98/99, 02/03, 03/04, 05/06, 06/07); 5 Taças de Portugal (90/91, 93/94, 99/00, 02/03, 05/06); 8 Supertaças de Portugal (89/90, 90/91, 92/93, 93/94, 02/03, 03/04, 05/06); 1 Liga Espanhola (97/98) ; 2 Copas do Rei de Espanha (96/97, 97/98); 1 Supertaça Espanhola (97/98); 1 Taça das Taças (96/97); 1 Taça UEFA (02/03); 1 Liga dos Campeões (03/04) e 1 Taça Intercontinental (04)

O goleiro Clemer é um tremendo bom caráter, incentivador dos jogadores mais jovens, um dos líderes do grupo e ídolo da torcida, tem contrato com o Internacional até dezembro deste ano, quando já terá completado 40 anos. Confessa que o colorado gaúcho é o clube que aprendeu a gostar e onde conheceu as maiores alegrias. Com toda a certeza vai permanecer no “colorado gaúcho” por muito tempo, como preparador de goleiros.

O jornalista Alexandre Alliatti, correspondente do globoesporte.com, em Porto Alegre escreveu este bonito artigo, após a vitória do Internacional por 8 X 1, frente o Juventude, de Caxias do Sul, domingo passado, que eu tomo a liberdade de reproduzir:

Se Clemer colocasse sobre o peito todas as faixas que já ganhou pelo Internacional, ficaria parecendo uma múmia. Ele é o goleiro mais vitorioso dos 99 anos de vida do clube colorado. Em sete anos de Beira-Rio foi campeão em todas as temporadas: campeão gaúcho, em 2002, 2003, 2004 e 2005; em 2006, campeão da Copa Libertadores da América e do Mundial de Clubes; em 2007, da Recopa Sul-Americana; em 2008, em apenas cinco meses, já ganhou a Copa Dubai e outro Campeonato Gaúcho. Desta vez, teve até gol, o oitavo do time na goleada de 8 a 1 sobre o Juventude.

“É que o pessoal não deixa eu fazer mais cobranças. Se deixassem, eu faria mais - empolga-se o camisa 1”. Clemer tem noção de sua importância na história do clube. O Internacional teve goleiros inesquecíveis, como Manga e Taffarel, mas nenhum deles levantou tantas taças quanto ele. “Não tem como expressar o orgulho que sinto. São sete anos aqui, e os outros talvez não ficaram tanto tempo, ou ficaram até mais. Isso é o que menos importa. O que sei é que outros títulos virão. Escreve aí: outros títulos virão. Tem a Copa do Brasil. Estamos de olho. Já estamos nas quartas”, comenta.

Além de tudo, o goleiro tem santo forte. Ele só foi o titular porque Renan, que vinha jogando, pegou hepatite e ficou fora da reta final da competição. A chegada de Clemer ao Beira-Rio, em 2002, coincide com a largada de um novo momento do Internacional, com Fernando Carvalho como presidente. O goleiro viveu de corpo presente todas as principais conquistas vermelhas nos últimos tempos.

Depois de domingo eu fiz uma pequena pesquisa para saber se Clemer não tinha marcado nenhum gol, quando defendia outro clube. E realmente não fez. Mas descobri uma raridade que ficou no esquecimento e ninguém lembrou neste novo momento de glória porque vive o goleiro colorado, quando a torcida de pé pediu que ele batesse o pênalti contra o Juventude. No campeonato brasileiro de 2003, Clemer fez um gol contra o Vitória da Bahia, em jogo pelo Campeonato Brasileiro, depois de uma confusão na área adversária. Mas o gol não valeu, o juiz marcou impedimento. E este ano, em um treino do Internacional fez um gol de bicicleta.

O Internacional tem uma histórica tradição de revelar bons goleiros. E parece que isso vai ser mantido, ainda por muito tempo. Estão aí Renan, favorito para vestir a camisa 1 da Seleção Olímpica, na China, e Muriel, várias vezes convocado para seleções brasileiras de base. E de prontidão duas novas caras: Agenor, 18 anos, e Alisson, irmão de Muriel, 15 anos e 1,88 metro. A dupla está treinando forte no grupo profissional e poderá ser aproveitada assim que for preciso no time colorado. E tem também Luiz Carlos, que sofreu uma lesão no final da temporada passada e já treina normalmente junto aos demais goleiros.

Renan, que está voltando aos treinos depois de enfrentar problemas de hepatite C, é recordista de invencibilidade de um goleiro colorado em campeonatos nacionais, até então ostentado por Taffarel. Ficou oito jogos sem ver suas redes balançarem. Antes dele, Taffarel havia ficado sete jogos e 72 minutos sem sofrer gols, na Copa União de 1987. A marca mais expressiva, no entanto, ainda é de Gainete, que ficou invicto em 1.202 minutos, quase 14 jogos, em 1970. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
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Clemer talvez seja hoje o jogador brasileiro com maior número de títulos conquistados (Foto: Site do S.C. Internacional)

terça-feira, 6 de maio de 2008

O futebol veste rosa

O recente escândalo envolvendo o jogador Ronaldo Fenômeno fez ressurgir a polêmica da existência de gays no mundo do futebol. É claro que ninguém está jogando no atleta a pecha de homossexual, muito pelo contrário. Ronaldo sempre foi um mulherengo inveterado e conquistou algumas das mulheres mais bonitas do mundo. Agora, ao que parece ele passou por aquilo que se chama de “hora boba”, ao ir para um quarto de motel com três homossexuais.

Neste artigo quero mostrar alguns fatos que a imprensa dificilmente comenta. São verdadeiros tabus. Será mesmo que procede aquele velho e surrado ditado que diz ser o futebol um esporte só de machos? Grosso modo, sim, mas a história está mudando. Já temos o futebol feminino, que cada vez mais se firma em todo o mundo. E o futebol disputado por gays dá seus primeiros passos.

Mas não vai ser uma tarefa fácil, o machismo ainda predomina. Todos devem estar lembrados do caso que envolveu o jogador Richarlyson, do São Paulo Futebol Clube que entrou com uma ação na Justiça contra o dirigente José Cyrillo Júnior, da Sociedade Esportiva Palmeiras que durante uma entrevista na TV Record o chamou de homossexual.

O juiz de Direito Manoel Maximiano Junqueira Filho, encarregado de julgar o caso, emitiu uma sentença negando o andamento da ação. E disse com todas as letras que “gays não podem praticar o futebol, que é um jogo viril, varonil, não é para homossexuais”. E mais adiante escreveu: “Não sou contra que gays joguem futebol, mas que formem seus times e iniciem uma federação só deles”.

Depois, em entrevista ao programa "Fantástico" da TV Globo, o jogador negou que seja homossexual e disse que pretendia casar. Ele contou também que, caso fosse gay, não teria nenhum problema, já que só deve satisfações à família.

A televisão deu ênfase o ano passado a “Copa do Mundo de Futebol de Gays e Lésbicas”, disputada pela primeira vez na América do Sul. Buenos Aires, na Argentina, foi escolhida como sede, por ter sido a primeira cidade da região a aprovar, no ano 2000, a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

A competição, que é promovida pela homossexual “International Gay and Lesbian Football Association”, uma versão da heterossexual Fifa, teve a participação de equipes de 14 países e foi realizada entre os dias 23 e 29 de setembro, sem a presença brasileira. Nenhuma equipe de lésbicas foi inscrita no torneio, por falta de patrocinadores. O time argentino do “Los Dogos (DAG)” foi o campeão, vencendo na partida final o time inglês do “Yorkshires Terriers F.C.”, por 1 X 0, com gol de um jogador brasileiro.

Entre os times participantes estavam o “Uruguai Celeste”, o “Chile Gay Deportes”, a “Seleção Inter México de la Diversidad”, o venezuelano “Ávila Futbol Club”, “Yorkshires Terriers F.C.” da Inglaterra, “Nuova Kaos Milano”, da Itália e os americanos “New York Ramblers”, “San Francisco Spikes”, “Philadelphia Falcons” e o “Federal Triangles Soccer Club”, além do campeão “DAG”, de Buenos Aires. As copas anteriores foram realizadas em Londres, que será sede do evento este ano, Sidney e Boston.

O “New York Rambles”, dos Estados Unidos, fundado em 1980 é considerado o primeiro time de homossexuais da história. Depois dele teria vindo o “Kamalions”, criado por jovens homossexuais de Bilbao, capital do País Basco.

Em todo o mundo, aumenta o número de times gays. No México foi realizado o “1º Campeonato Gay de Futebol”, com a participação de cinco equipes: “El Clan”, “Fashion Team”, “The Fucker”, “Fuerza G” e “Tu Mamá”. Os juízes e bandeirinhas também eram gays.

No Brasil, país do futebol, o fenômeno ainda é tímido. Mesmo sem ter participado de nenhuma “Copa do Mundo Gay”, existiu aqui até pouco tempo um clube relativamente organizado, o “Rozas Futebol Clube” (é com z mesmo), do Rio de Janeiro, fundado em 1998 pelo piauiense Raimundo Pereira, cantor, ativista e goleiro do time. O nome foi uma homenagem aos homossexuais marcados na Alemanha nazista com o triângulo rosa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a perseguição nazista também teve como alvo os homossexuais. Eles eram marcados com um triângulo rosa e mandados para campos de concentração. Por esse motivo, o triângulo rosa se tornou um dos símbolos do movimento ativista gay. O time do “Rozas” participou de uma “Olimpíada Gay” e foi mostrado em um documentário da rede de tevê inglesa, BBC.

Os atletas do time costumavam entrar em campo com maquiagem forte, peruca, cílios postiços, batom, muito blush, uniforme pink, dando gritinhos e cantando “Hey, Hey, Hey, o mundo é gay que eu sei”. Um dos jogadores do “Rozas”, o auxiliar de enfermagem e cabeleireiro, Sérgio Santana, o “Kayka Sabatella”, era a grande atração nos jogos, ao correr sem sutiã, sacudindo os seus 400 milímetros de silicone em cada seio, num corpo de 115 quilos. “Kaika”, fora das quadras é a famosa “Rainha Momo Le Boy”.

Todos os jogadores do time trabalham em profissões convencionais, como auxiliar de enfermagem e cabeleireiro, mas à noite “soltam a franga” em boates gays como transformistas ou “drag queens”. “Kayca” quer retomar as atividades do grupo em breve. Flamenguista doente, já fez parte da torcida organizada “Fla Gay”. Mas parou de ir aos estádios porque sofreu ameaças de homofóbicos de vários times.

Em Lorena (SP), é disputado anualmente o “Futgay”, uma partida de futebol com o objetivo de arrecadar brinquedos para o Natal das crianças, numa promoção da Prefeitura Municipal e de quatro cabeleireiros da cidade: Beto, Rodrigo, Rinaldi e Gigi. No ano passado o jogo foi apitado pelo árbitro catarinense Clésio Moreira dos Santos, o popular “Margarida”, profissional conhecido no mundo futebolístico, que garante não ser gay, apenas representa um personagem. Ele é casado e tem filhos.

Mas existiu um verdadeiro “Margarida”. Foi o árbitro carioca Jorge José Emiliano dos Santos, falecido de AIDS, em 21 de janeiro de 1995, aos 41 anos. Homossexual assumido e folclórico, “Margarida” costumava peitar os jogadores metidos a “machões”. Sempre arrumava um jeito de mostrar o cartão amarelo para Renato Gaúcho nos jogos do Campeonato Carioca. E segundo as más línguas, sempre o fazia de um jeito um pouco mais carinhoso.

Em várias cidades é disputado um outro tipo de “futgay”, apenas de brincadeira. É o caso do bairro de São Francisco, em São Sebastião (SP), onde há 20 anos moradores e turistas se reúnem na praia vestidos de mulheres, para divertidas disputas futebolísticas. A edição deste ano aconteceu em 1 de janeiro, com muita animação.

Não podemos esquecer das torcidas “coloridas”. No Brasil, muitos times têm torcidas gays, que brigam para provar qual é a mais numerosa, a mais antiga ou a mais animada. A “Cru-Gay”, do Cruzeiro (MG), clama ser a mais antiga. Mas tem a “Flu-Gay”, do Fluminense (RJ), “Coligay”, do Grêmio (RS), “Timbugay”, do Náutico (PE) e “Galo-Gay”. A “Fla-Gay”, do Flamengo (RJ), também clama ser a primeira torcida homossexual do Brasil. Surgiu nos anos 70 e deixou de existir depois de muito apanhar de outra torcida do mesmo time, a “Torcida Jovem”. Texto e pesquisa: Nilo Dias)

Atletas do "Rozas" Futebol Clube (Foto: Divulgação)

Horácio disse...
Oi Nilo: Tudo bem? è bom lembrar que aqui no RS, na cidade de Santa Maria, tem a "Maré Vermelha" que faz o maior "auê" nas partidas do Inter-SM. Horácio Gomes
7 de maio de 2008 17:15

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O Jogo da vida e da morte (Final)

Já contei sobre estádios de futebol que viraram cemitérios. Mas de cemitérios que viraram estádios, alguém já ouviu falar? Pelo menos de um, eu fiquei sabendo. O site da BBC, de Londres, tempos atrás divulgou um fato bastante polêmico ocorrido na Bielo-Rússia. O FK Neman Grodno, time que disputa a primeira divisão daquele país, pretende expandir seu estádio para se adequar às exigências da Uefa, para que a equipe tenha condições de disputar as copas européias.

O problema é que o estádio do clube, construído nos anos 50 e que já utilizava uma parte do cemitério velho de quase 300 anos, precisa ser ampliado. E para isso terá de avançar por toda a área restante do cemitério, que está desativado desde 1950. A maioria dos mortos ali sepultados são judeus, vítimas do Holocausto, na Segunda Guerra Mundial.

As escavações já começaram, inclusive com a retirada de várias ossadas encontradas em valas coletivas. Os judeus estão revoltados com o que consideram um desrespeito ao seu povo. Ainda restam em Grodno poucos parentes dos mortos, mas que se sentem atingidos com o projeto do clube da cidade.

A polêmica está aberta e já chegou aos dirigentes da Fifa, que alegam a impossibilidade de intervir, pois se trata de um problema dentro de um país soberano, a Bielo-Rússia. Agora, a comunidade judaica apelou a Uefa na busca de um possível acordo entre as partes.

Pelé, o rei do futebol sabe que será eterno apenas na história do esporte. Por isso já tratou de garantir um bom lugar para seu descanso eterno, quando chegar a inevitável hora. Foi notícia no mundo todo quando adquiriu um espaço na Memorial Necrópole Ecumênica, o cemitério vertical mais alto do mundo, segundo o Guiness Book. São quatro prédios, três deles, com 14 andares. O recorde será maior quando estiver concluído o novo edifício de 32 pavimentos, o mais alto da Baixada Santista.

Pelé garante que não tem medo da morte, tanto que compôs uma música que fala dela: “Que eu vou morrer eu sei, tô esperando a minha vez. A ciência não explica, a religião quer explicar para onde a morte vai me levar. Viajo de avião pelo mundo todo. Não tenho medo algum. Mas isso ainda vai demorar muito. E tem outra coisa. O Pelé não vai ser sepultado na Memorial. Ele é imortal, eterno. Quem vai ser sepultado é o Edson”. O jazigo escolhido por Pelé fica no 9º andar e com vista para o Estádio de Vila Belmiro. Vai servir também para abrigar os restos mortais de seu pai, sua tia e sua avó, que serão transferidos do cemitério do Saboó, onde estão sepultados.

A Memorial é realmente um cemitério para lá de moderno. Abriga a morte e patrocina a vida. São vários os atletas que usam a marca da empresa, entre muitas modalidades esportivas, tudo com o objetivo de divulgar a cidade de Santos. Entre os atletas de ponta estão Valmir Nunes, bicampeão mundial de ultramaratona (100 km) e recordista das Américas em provas de 24 horas; o argentino radicado em Santos, Oscar Galindez, campeão do Ironman Brasil, hexacampeão do Troféu Brasil de Triathlon e pentacampeão do Triathlon Internacional de Santos. E a equipe de ciclismo número 1 do ranking nacional nos últimos três anos, que conta com estrelas como Hernandes Quadri Júnior e Márcio May, representantes brasileiros em duas olimpíadas.

Tem também aqueles que descobrem outras utilidades para os cemitérios, além dos sepultamentos. Recentemente o goleiro Rafael Córdova, do Vitória da Bahia, vestido de viúvo, terno preto e com uma rosa vermelha no bolso do paletó foi fotografado em poses sensuais pela fotógrafa pernambucana Josefa Coimbra, em pleno cemitério “Campo Santo”, em Salvador. As fotografias foram encomendadas por algumas revistas, que andam atrás de imagens do jogador de futebol, que tem olhos verdes e 1m95 de altura.

Alguém já ouviu falar da existência de pessoas "viciadas" em velórios? Pode ser estranho e até mórbido, mas existem. O trabalhador autônomo Luis Roberto Squaris, um paulista de 42 anos, morador em Batatais, no interior de São Paulo, garante que freqüenta velórios há mais de 20 anos, desde o falecimento de seu pai, em 1983. Ele costuma levantar cedo, e a primeira coisa que faz é ligar o rádio para saber quem morreu. Caso não consiga nenhuma informação pelas emissoras locais, telefona para as funerárias.

No Velório São Vicente, único de Batatais, Squaris é presença certa, não importa se o morto seja conhecido, ou não. É um freqüentador tão assíduo, que já ficou amigo de todos os agentes funerários e do dono do bar do velório. Mas quando morrer, não quer ser velado no local tradicional. O "viciado" em velórios já escolheu outro local, o campo do time Batatais Futebol Clube, de quem é fervoroso torcedor.

No início do ano estive no Sul e aproveitei para fazer uma visita aos túmulos de alguns familiares falecidos, no cemitério de Pelotas (RS). E me surpreendi ao ver muitas sepulturas com escudos de clubes de futebol, principalmente do G.E. Brasil, o time mais popular de lá. Mas também encontrei do E.C. Pelotas, G.A. Farroupilha, S.C. Internacional, Grêmio Portoalegrense e até do C.R. Flamengo, do Rio de Janeiro.

Não sei como isso teve início, mas o rubro-negro carioca bem que pode ter sido a fonte inspiradora, pois diz em seu hino: “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”. Achei interessante, pois de alguma forma dá um tom mais ameno a um ambiente cheio de saudade. E resolve o problema do torcedor que ainda não conta com um cemitério próprio de seu clube de coração.

Em Manaus, a falta de locais mais apropriados para jogar futebol faz com que de tempos em tempos um grupo de rapazes use o cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, como campo para suas “peladas” de fim de tarde. Tudo lá é improvisado, as traves são dois túmulos e o campo é a parte do cemitério onde há grama.

A Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos da prefeitura de Manaus, responsável pela conservação dos cemitérios da cidade, está atenta ao problema e tem feito esforços para que o local seja respeitado. A garotada desaparece por um tempo, quando a coisa aperta. Mas quando menos se espera, lá estão eles de volta. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Capa do jornal "Amazonas em Tempo", mostra garotos jogando futebol dentro de um cemitério.

domingo, 4 de maio de 2008

O jogo da vida e da morte (1)

Não é brincadeira. A mais nova aposta dos clubes de futebol para aumentarem suas receitas está na criação de cemitérios para torcedores. O clube de futebol “R.C.D. Espanyol”, de Barcelona, pai da idéia, inaugurou em novembro do ano passado o seu novo estádio “Cornellá-Prat”, que tem incorporado um cemitério para 20.000 adeptos do clube, em uma área de cerca de 1.000 m2, divididos por 3 pisos.

Vai funcionar como uma extensão do museu do clube e as urnas serão cobertas por pinturas e fotografias com imagens da equipe catalã, escolhidas pelos futuros mortos. Cada local de repouso vai custar cerca de 4.000 euros, pouco mais de R$ 10 mil, por um período de 15 anos.

Uma pesquisa realizada pelo jornal diário “Marca”, que perguntou “você compraria um jazigo no cemitério de seu time de futebol?”, apontou que cerca de 30% dos cidadãos espanhóis têm o desejo de serem incinerados após sua morte, o que animou os dirigentes do Espanyol. Eles esperam lucrar 4,5 milhões de euros para o clube, cerca de R$ 11 milhões, com a venda dos lotes no primeiro período, até 2023.

O clube alemão Hamburgo HSV também aderiu à nova moda e está construindo o primeiro cemitério dedicado ao futebol da Alemanha, localizado a alguns metros do Nordbank Arena, onde o clube disputa seus jogos. O cemitério, que vai ser inaugurado este ano, será decorado com um portão de entrada no formato de gol e terá espaço para 300 a 500 sepulturas. Os torcedores já fazem reservas. O clube divulgou que por enquanto o comprador mais velho é Ernst Schmit, um viúvo de 85 anos de idade que torce há 57 pelo HSV. O mais novo tem 27 anos e seu nome não foi revelado.

Os túmulos serão organizados num semicírculo em três níveis diferentes para lembrar uma arquibancada. O local de 2.500 metros quadrados fica na esquina de um antigo cemitério. A construção do cemitério veio como resposta às consultas de alguns dos 50 mil sócios do clube que pediram para terem suas cinzas espalhadas pelo campo, enterradas no estádio ou até no local da cobrança de penalidade máxima.

A escolha da lápide ficará a critério dos torcedores. A idéia é que sejam plantadas flores em um canteiro no formato do emblema do time, e monumentos em pedra construídos em homenagem a famosos jogadores do HSV. O uso de cores extravagantes será desaconselhado.

Os fãs do clube Everton Football, da Inglaterra, podem ter suas cinzas enterradas em uma urna ao lado do campo. As leis de sepultamento alemãs não permitem que isso seja feito, mas os fãs dos clubes Schalke 04 e Borussia Dortmund podem ser enterrados em urnas em formato de bola de futebol, ou caixões pintados com as cores do time.

O Boca Juniors (ARG) idealizou um projeto semelhante, que virou fonte de receita para o clube. Desde 2006 está funcionando um cemitério para seus torcedores com capacidade para 3 mil sepulturas, todas decoradas com flores azuis e amarelas, as cores do clube. Está localizado em um setor do cemitério “Parque Iraola”, em Berazategui, a 30 km ao sul de Buenos Aires. Com isso o Boca Juniors põe em prática uma das estrofes de seu hino que diz: “nem a morte nos vai separar, desde o céu vou te alentar".

O cemitério foi inaugurado com a exumação dos restos mortais dos goleiros Juan Estradas e Júlio Elias Musimessi, antigos jogadores do Boca, cujas cinzas foram depositadas no local. Na ocasião o ex-atleta Antônio Ubaldo Rattin, que jogou no clube há quatro décadas disse: “Está tão lindo que dá vontade de ficar”. A motivação para a construção do cemitério foi idêntica a do Hamburgo HSV: muitos sócios pediam para jogar as cinzas de seus familiares em “La Bombonera”, o estádio do clube.

Clubes como Real Madrid, Arsenal, Manchester United, entre outros, já mostraram interesse em também criarem os seus cemitérios e para isso fizeram consultas ao pioneiro Espanhol, para saberem se o empreendimento é válido.

Mas a relação futebol-cemitério não é nova. Muitos fatos já aconteceram envolvendo coisas tão diferentes. O futebol é uma explosão de vida, de alegria. O cemitério é um local de morte, de saudade, de silêncio.

Eu sei de duas histórias de estádios que viraram cemitérios. Um deles foi o velho Estádio da Montanha, do Esporte Clube Cruzeiro de Porto Alegre, de tantas tradições, que eu cheguei a conhecer. Narrei muitos jogos entre o clube estrelado da capital e times de Pelotas, onde eu morava e trabalhava. O Cruzeiro atravessava uma fase financeira difícil, e a solução encontrada foi vender o estádio para a construção do Cemitério João XXIII, hoje o mais moderno de Porto Alegre.

Parece que o negócio não foi muito vantajoso para o Cruzeiro, clube tradicional do Rio Grande do Sul, fundado em 14 de julho de 1913, que já foi até campeão gaúcho (1929) e pioneiro no Estado em excursões para o exterior. Tanto é verdade que depois da venda do estádio o clube entrou em decadência total. Hoje amarga à segunda divisão gaúcha e ocupa um acanhado estádio no bairro de Alto Petrópolis e praticamente não tem torcida.

Moacir Scliar, escritor gaúcho e remanescente dos torcedores que acompanharam a fase áurea do clube inspirou-se no episódio da venda do estádio para escrever um divertido romance sobre uma equipe decadente, o “Pau Seco Futebol Clube”, que cede seu campo para a construção de um cemitério, a “Pirâmide do Repouso Eterno”. Entre as divertidas situações está Rubinho, o craque do time que tem medo de marcar gol em frente ao túmulo do falecido ídolo Bugio. Ao final da história o cemitério volta a ser estádio.

O estádio Manoel Brasil de Melo, em Coari, a 370 quilômetros de Manaus, é o outro estádio que virou cemitério. Coisa curiosa, uma cidade que tem uma das economias mais prósperas do Norte, em virtude da província petrolífera de Urucu e que recebe só de royalties, quase R$ 4 milhões por mês, não teve condições de manter em atividade um clube profissional de futebol. Por isso, o Grêmio Atlético Coariense, o “tricolor do petróleo”, que muitos pensavam ser a redenção do decadente futebol amazonense fechou as portas o ano passado.

Pior do que ver o time sair de campo, foi assistir o único estádio de futebol da cidade virar cemitério, sob a alegação de que não havia mais lugar onde enterrar os mortos. Junto, o prefeito de lá enterrou de vez, o futebol naquele pedaço de Brasil. A revista “Craque” fez uma série de três reportagens intituladas "A morte do futebol", com foco na incrível experiência de Coari, cujo time foi vice-campeão amazonense em 2004 e campeão em 2005. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O cemitério do Boca Juniors guarda restos mortais de seus torcedores (Foto: Divulgação)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Paulo Amaral, o pioneiro da preparação física no Brasil

O futebol brasileiro está de luto. Morreu ontem, aos 84 anos, em sua casa no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, ao lado da esposa Flórida, com quem era casado há 54 anos e da filha, Paula, o ex-jogador de futebol e preparador físico, Paulo Amaral, que sofria de câncer. Ele foi o responsável por comandar os exercícios da seleção brasileira bicampeã mundial nas Copas de 1958, na Suécia, e de 1962, no Chile, além de ter sido jogador do Flamengo e do Botafogo. O sepultamento aconteceu ontem mesmo, às 17 horas, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro.

O carioca Paulo Amaral, nascido em 18 de outubro de 1923, foi o primeiro especialista em preparação física da história da Seleção, assumindo funções que até então eram exercidas pelos próprios técnicos, como aconteceu com Flávio Costa, no Mundial de 1950, com Zezé Moreira, em 1954 na Suíça, e nos mundiais anteriores. Naquela época a preparação física não tinha a mesma importância de hoje. Era feita de forma simples, como se fosse um aquecimento.

Formado pela Escola de Educação Física do Rio de Janeiro, começou a carreira de preparador físico em 1953, no Botafogo. O atacante Pirilo, que tinha sido seu companheiro no Flamengo, assumiu como técnico e o convidou para cuidar da parte física do elenco alvinegro e dirigir o time de aspirantes onde alcançou a incrível invencibilidade de 52 vitórias em 52 jogos. Assim começou a trajetória vitoriosa do profissional.

Paulo Amaral foi considerado o mentor de uma revolução na preparação dos atletas no Brasil dos anos 60. Trabalhou, além do Botafogo e Seleção Brasileira, na Seleção Carioca, Fluminense (RJ), Vasco da Gama (RJ), Corinthians (SP), Clube do Remo (PA), Guarani (SP), Porto (POR), e Juventus e Genoa (ITA). Na época em que esteve no Vasco, introduziu o “interval training”, que até então só existia na Europa e em especial na Alemanha, o que se constituiu em um grande avanço na preparação física dos jogadores.

Como Preparador Físico ganhou os seguintes títulos: Campeão pela Seleção Brasileira nos Mundiais de 1958 e 1962; no Botafogo, Campeão Carioca em 1957, 1961 e 1963; no Fluminense, Campeão Carioca em 1969. Como técnico foi Campeão da Taça de Prata, em 1970, pelo Fluminense.

No Guarani, em 1977, Paulo Amaral foi o responsável pela primeira oportunidade do craque Careca no time de Campinas, escalando o jogador em um amistoso contra o Matsubara (PR), no estádio Brinco de Ouro.

Sua última aparição pública foi em 2006 quando foi homenageado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com a Comenda João Havelange. Na ocasião confessou que a maior alegria que teve na vida foi a Seleção Brasileira que lhe deu o orgulho de ostentar o título de bicampeão do mundo. Foi dele uma cena que entrou para a história do futebol, ao dar a volta olímpica depois do jogo final no Estádio Rasunda, em Estocolmo, carregando a bandeira da Suécia, “como retribuição ao carinho recebido do povo sueco”. O preparador físico também seria um dos convidados para os eventos comemorativos da entidade pelo cinqüentenário do título mundial da Seleção em 1958.

Com a morte de Paulo Amaral, o dentista Mário Trigo, 96 anos de idade, passou a ser o único integrante vivo da vitoriosa Comissão Técnica do Mundial de 1958.

O atacante da Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1962, Amarildo, foi um dos poucos presentes ao enterro do preparador físico e lamentou o ostracismo vivido por Paulo Amaral nos últimos anos e destacou sua importância para o futebol brasileiro. “Por tudo o que fez pelo Botafogo e pelo futebol brasileiro ele merecia uma homenagem mais marcante. Deu muito para o futebol e recebeu pouco. As pessoas têm que ser reconhecidas pelo que fazem. Uma homenagem no Maracanã seria o mínimo para que todos soubessem quem foi Paulo Amaral”, sugeriu o ex-jogador.

Como homenagem a Paulo Amaral, conto uma passagem descrita no livro “Nunca existiu um homem como Heleno”, de autoria do jornalista Marcos Eduardo Neves.

Em 1946 Paulo Amaral foi indicado para jogar no Botafogo. Antes de se tornar preparador físico já tinha um corpo atlético. Era muito forte. Atleta completo praticava boxe e levantava pesos. Jogando pelo Flamengo, no ano anterior, substituindo o titular Biguá, enfrentou a fúria do famoso e lendário Heleno de Freitas em uma partida do torneio municipal, disputada no estádio das Laranjeiras.

No segundo tempo, Heleno deu um passe perfeito, entre dois zagueiros, para Otávio. Na base da raça, Paulo Amaral conseguiu com a ponta da chuteira, por trás do ponta-de-lança, desviar a bola para escanteio. Heleno se virou para o companheiro e disse: “Porra, Sapo, até um merda desse tira a bola de você!”.

Paulo Amaral ouviu e retrucou: “Você não vai perder por esperar. Caia aqui perto para ver o que vai acontecer”. E Heleno não se aproximou mais da área adversária. Sorte do Flamengo, que conseguiu tranquilamente manter o resultado de 2 X 0 a seu favor.

Meses depois Paulo Amaral foi fazer teste no Botafogo. No primeiro treino marcou Heleno de Freitas e deu-lhe uma trombada bastante forte. Heleno, com a bola debaixo do braço partiu para cima de Paulo Amaral, dizendo: “Quer a bola, valentinho?” E Paulo Amaral não perdeu tempo, arrancou a bola dos braços de Heleno e a jogou em seu nariz. O sangue escorreu e o técnico Martim expulsou o agressor. Mesmo Assim, no outro dia Paulo Amaral foi contratado. Talvez porque não teve receio de enfrentar o temível e brigão Heleno de Freitas. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Paulo Amaral (de abrigo) foi um profissional destacado (Foto: CBF)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Esses loucos torcedores (Final)

O torcedor-símbolo da FIFA, Clóvis Fernandes, também conhecido como “Gaúcho da Copa” começou a seguir a Seleção, em 1990, na Itália. Depois, foi aos Estados Unidos (1994), à França (1998), ao Japão e Coréia (2002) e em 2006, à Alemanha. Além disso, assistiu mais de uma centena de jogos do Brasil, visitou 40 países, e acompanhou outros torneios como cinco Copas América, duas Olimpíadas e uma Copa das Confederações, sempre carregando uma réplica da Taça da Copa do Mundo.

O “Gaúcho da Copa” é dono de uma pizzaria no Rio Grande do Sul, o que não lhe dá um ganho tão grande, suficiente para custear aventuras futebolisticas tão caras, mundo afora. Sua fama faz com que empresas e amigos banquem as viagens. Os ingressos para os jogos são dados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Para provar seu amor a Seleção, o Gaúcho costuma dizer, em tom de brincadeira, que a esposa Débora é sua terceira paixão, atrás da “Canarinho” e da neta Eduarda.

Ele já planeja a sua sexta Copa do Mundo. E tem um plano ambicioso para por em prática, criar um Centro de Tradições Gaúchas itinerante, na África do Sul. Para isso mantém contatos com uma empresa do Rio Grande do Sul. Ele disse que quer mostrar a cultura do seu Estado “e comer muito churrasco”.
Na década de 1980 a Rede Globo encarregou os diretores Alexandre Machado e Mimito Gomes, de criarem um personagem animado, descontraído e divertido para agradar os telespectadores das classes C e D. Foi quando surgiu uma série de vinhetas de um personagem chamado “Araken, o showman”.

O personagem ficou seis anos no ar e obteve sucesso absoluto na Copa do Mundo, atingindo audiência de até 60 milhões de telespectadores. A campanha recebeu vários prêmios e entrou para o imaginário popular. Contam que muitas pessoas assistiam aos jogos da Seleção pela TV Bandeirantes, e depois mudavam para a Globo só para ver a vinheta.

A camisa de “Araken”, uma bandeira do Brasil estilizada, virou moda entre os torcedores. Em suas aparições na TV, o personagem criticava a seleção, como qualquer torcedor comum. A Globo também usou a figura de “Araken” em campanhas de doação de sangue, recadastramento eleitoral e alfabetização.

Quem não lembra do boneco Pacheco, o camisa 12, torcedor símbolo da Seleção Brasileira? Ele apareceu em 1980, dois anos antes da Copa da Espanha, numa bem bolada campanha publicitária da Gillette do Brasil. O sucesso foi tão grande que o Pacheco acabou se tornando celebridade. A Gillette resolveu então que Pacheco deixaria de ser apenas um boneco e ganharia forma humana.

Um funcionário da própria Gillette, Natan Pacanowski, foi escolhido para personificar Pacheco. A fantasia foi criada por um estilista da Rede Globo. Pacheco saiu dos comerciais na TV para ganhar forma humana e aparecer em público. Chegou até a animar bailes de carnaval. O sucesso do personagem não tinha limites. No jogo de despedida da seleção, em Uberlândia (MG), contra a Irlanda, até o presidente João Figueiredo esteve presente só para vê-lo em ação, fazendo piruetas no meio do campo, antes da bola rolar.

No dia da viagem para a Espanha, no aeroporto lá estava novamente o Presidente para desejar boa sorte. Pacheco gozava de mordomias mil, viajava com a delegação e tinha até um lugar separado no avião para trocar de roupa. Veio a Copa e o fracasso que todos lembram, com a eliminação precoce para a Itália. Na volta ao Brasil, o tablóide “O Pasquim”, de grande circulação na época, não perdoou. Em matéria de capa uma foto de Pacheco com a camisa 24 e a manchete “Este veado secou o Brasil”. Depois disso Pacheco nunca mais reapareceu.

São tantos os torcedores que mereceriam uma citação, que certamente eu estenderia meus artigos sobre esse importante personagem do futebol por muitas semanas. Fico devendo maiores comentários a respeito do “Vai na Bola”, um torcedor do Flamengo que costumava correr pelo gramado com dois pratos de metal nas mãos, batendo sem parar. Ribeiro, o ”Garfo de Pau”, que agitava as tardes esportivas na Vila Belmiro, torcendo pelo Santos. Depois veio Grilom, outro fanático torcedor santista que passava os jogos correndo pelos corredores gritando: “Camarão”.

No Internacional gaúcho tem José Antônio, o “Xuxu”, figura conhecidíssima no Brasil inteiro. No Botafogo do Rio, aplausos para “Russão”, uma verdadeira lenda que comandou a torcida nos anos 80. O folclórico “Binha de São Caetano”, torcedor doente do Bahia que a cada programa evangélico que passa na TV, coloca o nome dos jogadores da equipe em cima do aparelho de sua casa e fica orando por eles. O que dizer de “Dudé”, aguerrido torcedor do ABC, de Natal que foi proibido de usar seu megafone nos jogos de seu time, pois incomodava torcida e jogadores.

Eu poderia falar mais do comerciante Guto Moura, de 40 anos, um apaixonado pelo Atlético Mineiro, dono de 350 camisetas do time e uma incrível coleção de galos ornamentais de todos os tamanhos e cores. O espaço também não deixa que eu conte boas histórias sobre “Marrom”, o torcedor símbolo do Sobradinho, time da cidade satélite onde moro, em Brasília. Sua presença no Estádio, era alegria pura, tocando sem parar seu inseparável pandeiro. Hoje, Marrom mora no Rio de Janeiro e certamente não perde jogo de seu outro time, o Vasco da Gama. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O "Gaúcho da Copa" já se prepara para ir à África do Sul, em 2010 (Foto: Divulgação)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Esses loucos torcedores (4)

Demorou, mas a Secretaria de Esporte e Lazer do Estado do Rio de Janeiro começou a fazer justiça aos torcedores, a razão maior do espetáculo. O estádio do Maracanã, que já contava com a “Calçada da Fama”, para imortalizar os atletas que fizeram história, desde 22 de janeiro deste ano tem o “Hall do Torcedor”, inaugurado antes do jogo Fluminense X Duque de Caxias, pelo Campeonato Carioca.

O primeiro homenageado com uma placa, uma medalha com seu nome e um brazão tricolor foi o fanático torcedor do Fluminense, Armando Giesta, que mesmo com 80 anos de idade não deixa de acompanhar os jogos de seu clube, no Maracanã. O ilustre torcedor participou da campanha pela construção do estádio e viu importantes jogos, como Brasil x Suécia, Brasil x Espanha e o inesquecível Brasil x Uruguai. Pelo Fluminense, viajou incontáveis vezes e assistiu seu time ser campeão em 1937, 38, 40, 41, 46, 51, 59, 64, 69, 70, 71, 73, 75, 76, 80, 83, 84, 85, 95 e 2002. A escolha do nome de Armando foi unanimidade entre torcedores e dirigentes do clube.

No dia 24 de janeiro, antes do jogo entre Flamengo X Cardoso Moreira foi homenageado “in memoriam” o torcedor rubro-negro, Jayme de Carvalho, falecido em 1976aos 65 anos. Natural da Bahia chegou ao Rio em 1936 e tornou-se no mesmo ano, sócio do Flamengo. Foi Jayme quem introduziu a música na torcida, criando grande polêmica nos meios esportivos em relação a presença da Charanga nos estádios porque, além de apoiar os jogadores do Flamengo, desconcentrava os adversários.

Ivaldo Firmino dos Santos, o popular Zé do Rádio, torcedor símbolo do Sport Club do Recife foi escolhido pelo livro “Guiness Book, em dezembro de 2006, depois de sete anos de pesquisas, o torcedor mais chato do mundo. Foi o reconhecimento ao que o ex-técnico Mario Jorge Lobo “Zagalo”, já havia dito em 1999, quando treinava a Portuguesa de Desportos, de São Paulo. Zé do Rádio não se incomoda com isso, ao contrário, se orgulha do título.

A escolha de seu nome pelo “Guiness Book”, de torcedor mais chato do mundo mereceu uma grande festa promovida pela Prefeitura de Recife, no Marco Zero, para comemorar o título, considerado tão nobre quanto um “Prêmio Nobel da Paz”. Um outro motivo de orgulho para “Zé do Rádio” é ter sido homenageado no Carnaval de 2007, na cidade de Olinda, com um boneco gigante, o maior de todos, para êxtase total dos foliões rubro-negros.

Ele começou a freqüentar os estádios em 1972. Como passava sempre por perto da Ilha do Retiro, resolveu torcer pelo Sport. Mas não nega que antes torceu pelo Náutico durante 1 ano, 3 meses e 28 dias. Garante que foi apenas para conquistar a amizade de seu sogro, o professor de música, Miguel Barkokebas, e casar com Deomiyrza Barkokeba dos Santos, com quem ainda vive até hoje. Zé do Rádio temia que Barkokebas, alvirrubro alucinado, proibisse o seu namoro pelo fato de ser rubro-negro.

Zé do Rádio, ou Ivaldo Firmino dos Santos, ganhou esse apelido por ficar com um rádio gigante nos ombros durante as partidas de futebol. Não sei se ele ainda vai aos jogos, porque está com problemas de saúde, em 2001 fez um transplante de coração. O que sei é que ele costumava ficar atrás do banco de reservas do time adversário, com o som a todo volume e xingando o técnico, a quem chamava de burro.

O Sport teve outro torcedor de primeira linha, José Paulo Rodrigues, o “Paulino do HC”, funcionário do Hospital das Clínicas de Pernambuco, que faleceu recentemente. De acordo com amigos, o último pedido de Paulino foi ser enterrado com a camisa do Sport. Ele era um torcedor apaixonado pelo Leão, não perdia um jogo sequer.

O Santa Cruz pernambucano não quer ficar por trás e tem também o seu torcedor símbolo, embora não seja nenhum chato quanto Zé do Rádio. “Bacalhau” ganhou fama ao adquirir um túmulo no Cemitério São Miguel, em Recife, com as cores do clube. Recentemente ganhou o caixão, presente da Funerária Ferreira, também decorado com o vermelho, preto e branco do Santa Cruz.

Tivemos também os torcedores românticos. O melhor exemplo foi a poetisa Ana Amélia de Mendonça, que escreveu um poema em homenagem ao seu futuro marido, o goleiro Marcos de Mendonça, do qual enamorou-se durante uma partida do Fluminense. Ela ficou encantada com o perfil atlético do jogador. Já gostava de futebol, tanto é verdade que quando tinha 13 anos de idade foi a Europa e na volta trouxe além de livros de poesia, algumas bolas de futebol que foram usadas pelo time dos operários da fábrica de seu pai. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
"Bacalhau", fanático torcedor ganhou um caixão com as cores do Santa Cruz (Foto: Divulgação)

terça-feira, 29 de abril de 2008

Esses loucos torcedores (3)

No futebol amador de São Paulo, na legendária região varzeana da Barra Funda, era comum encontrar algumas dessas figuras que se agarram no alambrado, xingam o juiz incessantemente e topam qualquer briga. O mais famoso de todos foi o temível “Barrabás”, briguento e louco, o maior torcedor do Carlos Gomes, um clube quase tão velho quanto a Ponte Preta de Campinas.

O time varzeano do Falcão do Morro, também de São Paulo, se destacou pelo número de torcedores fanáticos. Seu Marcolino ganhou lugar perpétuo na história do clube, por não ter perdido um único jogo. Lá estava ele sempre sentado em um banquinho, com o guarda-chuva aberto, não importando se chovia ou fazia sol. O curioso é que ele não olhava o jogo, o que mais gostava era de jogar Sueca com qualquer um que se dignasse a sentar ao seu lado. Do jogo em campo ele só ficava sabendo o resultado quando alguém dizia o placar final. Já com a idade avançada, faleceu faz alguns anos.

Ainda no Falcão do Morro teve um outro torcedor que deixou saudade: Pedrão Jacaré. Era um mulato forte que ganhou o apelido pelo tamanho enorme da boca. Pedrão era funcionário da prefeitura, mas parecia que estava sempre de folga, pois não saía dos bares, onde “derrubava” generosas doses de pinga. Nos jogos, era o responsável pela pinga com groselha, comprada com o dinheiro que arrecadava junto aos torcedores, que depois rodava de boca em boca, até mesmo dos jogadores que davam uma escapada até a beira do campo sem que o treinador visse.

Havia o “Chico Torto”, também conhecido por “Neguita”, parecido com o cômico Grande Otelo. Ganhou o apelido de Torto, porque tinha um defeito na perna causado por um acidente, quando era ajudante de motorista. De sexta-feira a domingo estava sempre bêbado. Para colocá-lo no caminhão quando o time ia jogar fora de casa era um sacrifício. O local de embarque ficou conhecido como Embarque de Bêbado ou Ponto do Chico. Morreu de tanto beber pinga, aos 60 anos de idade.

Digno de admiração é Carlinhos, um fanático torcedor do Clube Atlético Paranaense. Gosta de usar gravata vermelha e preta, bóton na lapela, relógio e chaveiro com o escudo do time. A calça, sapato e camisa de mangas compridas são apenas acessórios que completam a indumentária do seu dia-a-dia. No celular, a cada ligação recebida ecoa o hino do “Furacão”.

Por causa do Coritiba, não veste verde, não come alface e nada da mesma cor. Recusa-se a pronunciar o nome do clube rival, que para ele é sempre “O Porco”. Também não assiste a jogos no Estádio Couto Pereira, do Coritiba, “para não dar lucro ao inimigo”. Costuma dizer que uma derrota do “Porco” lhe dá mais prazer do que uma vitória do Atlético.

O Ferroviário do Ceará teve um torcedor que entrou para a história: Zé Limeira, falecido em 2004. Ele deixou uma lacuna enorme no seio da torcida coral, de quem foi a expressão máxima durante décadas. Costumava levar uma buzina para o estádio, com um som estarrecedor. Sua importância era tanta, que participava quase que diariamente dos programas esportivos das principais rádios de Fortaleza. Sempre pregou a paz entre as torcidas dos três grandes clubes cearenses, por isso tinha passagem livre em todos eles.

Além de Zé Limeira, o futebol do Ceará teve e tem outros torcedores consagrados, como "Pedrão da Bananada", pelo lado do Ceará, que tinha uma lanchonete no Abrigo Central, lugar de muitas discussões. José Amaro Sobrinho, o “Bodinho”, Gumercindo, Rolim, com mais de 90 anos e que ainda vai aos jogos e mais recentemente o “Coca-Cola”, pelo Fortaleza.

O São Paulo F.C., e não poderia ser diferente, também tem o seu torcedor número 1. É Aparecido, o “Cidão”, um sexagenário que se tornou uma verdadeira lenda das arquibancadas. Foi ele que nos anos 80 fundou a torcida organizada “Dragões da Real”. O clube o imortalizou: sua imagem faz parte do Memorial do São Paulo: basta entrar no computador do Museu e procurar por "torcedor símbolo". Hoje, “Cidão” vive da fama e carisma que conquistou no passado. Depois de passar por muitos percalços, ganha seu sustento vendendo bonés, chaveiros e gorros do tricolor nas imediações do Morumbi, sempre antes ou depois dos jogos.

No Palmeiras o torcedor mais badalado é o personal trainer Maurício Bonatti, de 40 anos mais conhecido nas arquibancadas do Parque Antártica por “Incrível Hulk”. Símbolo do time na campanha da Série B, Bonatti é professor de academia. Já foi policial e dançarino do Clube das Mulheres. De vez em quando faz “bicos” como Hulk em festas infantis e programas de TV. Em 2003, surgiu a idéia de acompanhar os jogos do Palmeiras, vestido de Hulk. Foi até Garanhuns, no interior de Pernambuco, torcer pelo Palmeiras contra o Sport, no jogo que garantiu o retorno do clube à Série A.

Ele demora mais de uma hora para recobrir o corpo, de 103 quilos distribuídos por 1,85 metro, com uma maquiagem verde. Para completar o visual, veste uma bermuda jeans detonada, coloca lentes de contato brancas, iguais às usadas em fantasias de vampiro e põe na cabeça uma volumosa peruca preta.

Figura fantástica, digna de um filme foi Henrique Leite Ribeiro, o “Coalhada”, torcedor do Santos nos primórdios de sua história. Sempre ia aos jogos vestido com elegância, usando chapéu de palheta. Foi o primeiro chefe de torcida do clube.

Em 1917, num amistoso contra um combinado uruguaio, na Vila Belmiro, o “Coalhada” teve a idéia de que cada jogador visitante ao entrar em campo, viesse coberto por um guarda-chuva com gomos pretos e brancos empunhados por um jogador santista da posição correspondente. Foi um belo espetáculo visual dado de presente de boas-vindas aos uruguaios, que no final saíram derrotados de campo pelo placar de 6 X 2. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O torcedor palmeirense veste-se de Hulk e é atração em Parque Antártica (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Esses loucos torcedores (2)

No Flamengo do Rio, ninguém esquece de “seu Osório”, um baiano de Salvador que sabe de cor as escalações dos times de três tricampeonatos do rubro-negro. Passou quase toda a juventude na capital baiana e depois foi morar no Rio de Janeiro, na década de 50, se tornando figura obrigatória na Gávea, não perdendo nem treinos. Até hoje ele guarda as relíquias dessa saudosa época, entre elas uma carta-ofício do ex-presidente George Fernandes, nomeando-o representante do Flamengo no Estado da Bahia. Uma outra relíquia que o acompanha sempre é a carteirinha de sócio patrimonial do clube, datada de 1962. Depois de morar muitos anos no Rio e praticamente dentro do Flamengo, “seu Osório” voltou para a Bahia, e hoje mora em Juazeiro, mas não deixou de amar o seu Flamengo.

Uma das torcedoras mais queridas do Flamengo, Euzébia Silva do Nascimento, Dona Zica, famosa sambista da Mangueira, orgulhava-se de ter conhecido seu marido, Cartola, nas gerais do Maracanã, lugar que freqüentava desde os 11 anos de idade.

Dilmar Teixeira Brito, torcedor fanático do Flamengo, que não perdia um jogo foi reconhecido “in-memoriam”, pelo Rank Brasil, livro dos recordes brasileiros, como o “mais idoso portador da Síndrome de Down do Brasil”. Ele nasceu na cidade de Alto Parnaíba (MA), no ano de 1934 e morreu no dia 28 de dezembro do ano passado, aos 72
anos. Tinha duas grandes paixões: ir à missa e ver o Flamengo jogar.

O “Guiness World Records”, edição 2007, aponta o sul-africano Keith Roberts, 52 anos, como o mais idoso portador de Síndrome de Down no mundo, e a americana Nancy Siddoway, 67 anos, como a mulher mais idosa portadora da doença.

Como homenagem ao Flamengo, o clube com mais torcida no país, publico uma relação de alguns de seus torcedores famosos:

Alexandre Pires (cantor), Angélica (apresentadora), Baby do Brasil (cantora), Beth Faria (atriz), Bochecha (cantor), Carlão (atleta, vôlei), Cláudia Raia (atriz), Djavan (cantor e compositor), Elza Soares (cantora), Eric Faria (jornalista), Fafá de Belém (cantora), Fausto Silva (apresentador), Fernando Scherer (atleta, natação), Gabriel Pensador (cantor), Galvão Bueno (locutor), Hebert Vianna (músico e cantor), Ivete Sangalo (cantora), Jards Macalé (cantor e compositor), João Bosco (cantor e compositor).

Joãozinho 30 (carnavalesco), Jorge Ben Jor (cantor e compositor), Léo Batista (locutor e apresentador), Leo Jaime (cantor),Luiz Ayrão (cantor), Malu Mader (atriz), Moraes Moreira (cantor e compositor), Nalbert (atleta, vôlei), Neguinho da Beija Flor (cantor), Oscar Niemeyer (arquiteto), Pepeu Gomes (músico e cantor), Popó Bueno (piloto), Reginaldo Faria (ator), Ricardo Teixeira (presidente da CBF), (piloto), Romário (atleta, futebol), Ronaldo Fenômeno (atleta, futebol), Sandra de Sá (cantora), Tande (atleta, vôlei), Toni Garrido (cantor), Tony Tornado (ator e cantor), Vera Fisher (atriz), Wagner Love (atleta, futebol), Wanderley Luxemburgo (técnico de futebol), Xuxa, (apresentadora), Zico (atleta, futebol), Ziraldo (cartunista) e Zizi Possi (cantora).

E os já falecidos Ary Barroso (compositor, radialista), Bezerra da Silva (cantor), Bussunda (comediante), Carlos Drummond de Andrade (poeta), Ciro Monteiro (cantor), Dias Gomes (escritor), Garrincha (atleta, futebol, Grande Otelo (ator), Henfil (cartunista), Ibrahin Sued (jornalista), João Nogueira (cantor), José Lins do Rego (escritor e cronista), Juscelino Kubtischek (presidente), Maria Lenk (atleta, natação), Mário Filho (escritor e jornalista), Moreira da Silva (cantor), Mussum (comediante), Paulo Francis (jornalista), Roberto Marinho (jornalista), Rômulo Arantes (ator e atleta, natação) e Tom Jobim (compositor).

O Fluminense perdeu em 2 de dezembro de 2002 seu torcedor símbolo, Guilhermino Santos, o “Careca do Talco”, que costumava cobrir o corpo com pó de arroz. Qualquer tricolor que tenha vivido os anos 70 e 80 lembra dele com carinho. Ficava com sua indefectível bolsa branca, com o escudo do clube por fora e abarrotada de talco por dentro. Implacável, o “Careca do Talco” jogava o pó em quem estivesse à sua volta, fosse adulto ou criança. Os adultos o adoravam. As crianças o idolatravam.

Torcedor fanático não é privilégio de time grande. O ano passado morreu, aos 74 anos, Antônio Luiz Braga, o “Braga da Eucaliptaço”, ardoroso torcedor do Volta Redonda. Era tão querido na cidade que o prefeito Antônio Francisco Neto perpetuou seu nome na parte frontal das cabines de rádio do Estádio Municipal General Silvio Raulino de Oliveira, local onde Braga costumava estender em todos os jogos a bandeira da torcida “Eucaliptaço”, da qual era o principal líder.

O Anápolis de Goiás tem no folclórico Davi Bispo, o seu torcedor símbolo. Ele nasceu no ano da fundação do clube, em 1946. Sua infância foi marcada pela rivalidade entre Anápolis e Ipiranga, o clássico municipal que marcou os anos 50 e início da década de 60 na cidade. Quem passa pela banca que Davi possui há mais de 30 anos no Mercado Municipal, certamente vai cansar de ouvir o hino do Anápolis, que é tocado o dia inteiro. Quem não gosta nem um pouco disso são os torcedores da Anapolina, o outro clube da cidade.

Em abril do ano passado, a TV Bandeirantes mostrou uma reportagem de Felipe Andreolli, que visitou o famoso comediante inglês, Mister Bean em sua residência em Londres entregando-lhe uma camisa número 10 do Capivariano F.C., da cidade paulista de Capivari. A camisa é da época em que o time foi patrocinado pela Fast Work, empresa de Mauro Matta de Piracicaba. Na hora da entrega do presente foi tocado o hino do Capivariano. Mister Bean disse que agora é o torcedor símbolo do “Leão da Sorocabana”. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Guilhermino Santos, o "Careca do Talco", famoso torcedor do Fluminense, já falecido. (Foto: Acervo do Fluminense F.C.)

domingo, 27 de abril de 2008

Esses loucos torcedores (1)

O torcedor é a razão maior da existência de um clube de futebol. Que graça teria o nobre esporte se não houvesse essa figura, às vezes folclórica, outras nem tanto? Com certeza, os jogos não passariam de uma chatice repetida e burocrática. O bom do futebol é ver e sentir a reação do torcedor, quase sempre imprevisível. Existem aqueles que choram pelo clube, os que se irritam, os que procuram arruaça, os que roem as unhas e os que simplesmente não fazem nada, ficam apáticos, seja na vitória ou na derrota do seu time. Vou contar esta semana, em alguns artigos, histórias envolvendo torcedores, procurando dar uma idéia clara e divertida da paixão do brasileiro pelo futebol.

Eu conheci algumas figuras que se tornaram célebres em suas cidades pelo que de inusitado mostravam em dias de jogos dos clubes de seus corações. Em Pelotas, onde morei e trabalhei muitos anos, destaco a figura de “Marcola”, o torcedor símbolo do Grêmio Esportivo Brasil, o clube de maior torcida no interior gaúcho. “Marcola”, já falecido foi uma figura folclórica. Um negro de estatura baixa que vivia permanentemente alcoolizado. Não perdia um jogo do “xavante” pelotense, gritava o tempo todo, xingava o juiz e os jogadores adversários, mas em momento algum deixava de sorrir e mostrar os dentes milagrosamente inteiros e alvos.

Em Rio Grande, havia o “Fala Meu”, um estivador do tamanho de um guarda-roupa. Era torcedor apaixonado do Rio-Grandense, o “colorado marítimo”. Dono de uma voz potente, tipo trovão, que nunca mais ouvi nada parecido, abria as mãos ao lado da boca e gritava: “juiz ladrão”, entre outras palavras de um vocabulário rico em impropérios, que se ouvia em todos os cantos do estádio. Conheci muito o “Fala Meu”, figura popular e folclórica da cidade. Também gostava de Carnaval e sua escola favorita era a “Quem é do Mar não Enjoa”, entidade que eu presidi.

Em São Gabriel, cidade gaúcha em que também morei, lembro de uma torcedora chamada Margarida, que vendia amendoim durante os jogos da S.E.R. São Gabriel. Gostava de uma “branquinha”, chegava ao estádio com “todas” na cabeça, e a cada ataque do time local gritava e levantava o vestido para delírio dos demais torcedores. Já morreu e deixou um vazio imenso nas tardes futebolísticas do Estádio Silvio de Faria Corrêa.

Mas esses torcedores que conheci não passam de café pequeno perto de outros que existem ou existiram por esse Brasil afora. Na década de 20 o Corinthians tinha um torcedor de nome José da Costa Martins, que a cada gol que o time marcava, acendia um charuto. Foi ele que inspirou a criação do "mosqueteiro corinthiano", mascote do clube, que está sempre fumando um charuto. O Internacional gaúcho também teve um torcedor conhecido por “Charuto”. Foi nos anos 40. Seu amor ao clube lhe deu o direito de entrar no estádio sem pagar ingresso e de lambuja beber de graça na copa.

A paixão pelo Corinthians não pára de crescer, mesmo com o time na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. A torcida “Gaviões da Fiel” possui a maior bandeira de times do Brasil, com 143 metros de comprimento por 35 de altura e pesa aproximadamente duas toneladas. Esta bandeira foi feita em 1995 por Dentinho, idealizador e ex-presidente da polêmica “Gaviões da Fiel”.

Para ser levada ao estádio o departamento de bandeira da Organizada utiliza um caminhão baú e 60 homens na locomoção. A bandeira cobre 16.000 torcedores e é estendida no momento em que o time entra em campo no primeiro e no segundo tempos, e na hora em que sai gol do Corinthians. Até quando o time perde os fanáticos torcedores abrem o bandeirão, segundo dizem, “para calar a boca da torcida adversária".

A torcida possui ao todo sete bandeirões. O primeiro foi feito em 1989, medindo 25 metros por 50. O segundo mede 30 metros por 60, e foi feito para homenagear o piloto Ayrton Senna. Tem um de protestos, e outros quatro de exaltação ao clube.

Um caso muito famoso foi o de Elisa, uma fanática corinthiana que nas horas vagas era cozinheira e doméstica. Ela nasceu no mesmo ano que o Corinthians e carregava sua bandeira alvi-negra por todos os estádios em que o time jogava. Era dócil e educada, jamais xingou um jogador por mais perna de pau que fosse. Apoiou o time com garra durante todos os infindáveis 23 anos de fila para ser campeão paulista. Recebeu merecida homenagem da diretoria, que colocou uma placa com seu nome no Estádio Parque São Jorge. A Federação Paulista também lhe premiou com o direito de entrar sem pagar ingresso em qualquer estádio paulista.

Outra mulher que se destacou no cenário futebolístico foi Dulce Rosalina, que em 1961 ganhou o concurso de “Melhor Torcedor do País” e doou o troféu ao Vasco da Gama, seu time de coração. Ela costumava acompanhar o time em jogos pelo Rio de Janeiro afora, além de visitar as concentrações para animar os atletas, ouvir dirigentes e dar palpites. Andava sempre em companhia de Ramalho, outro torcedor destacado do clube da Cruz de Malta.

Dulce Rosalina foi a primeira mulher a liderar uma torcida organizada no Brasil. Em 1944 o torcedor João de Luca fundou a Torcida Organizada do Vasco (TOV), mas em 1956, muito doente passou a presidência para Dulce Rosalina. Em 1976, por problemas políticos ela deixou a TOV e fundou a “Renovascão”, da qual participou até morrer, em 2004. Foi casada com o jogador Ponce de Leon, que defendeu o São Paulo.

Na Bahia não existe quem não conheça “Alvinho Barriga Mole”, o maior torcedor do Vitória, por quem torce há longos 74 anos. Quem assistir jogos no “Barradão” com certeza já o viu ajoelhar-se e atravessar o gramado com a imagem de Padre Cícero nas mãos, mesmo carregando no peito rubro-negro, duas pontes de safena e uma mamária.

Se “Alvinho Barriga Mole” é um torcedor cordial, incapaz de dizer um palavrão ou ofender alguém, um outro torcedor do Vitória, Marciades Marinho Pereira, conhecido como “Louro”, já é bem diferente. É um provocador nato, que o digam os torcedores do rival Bahia. “Louro” chama mais a atenção nas ruas do que no estádio. É dono de um incrementado “Fusca 95”, todo pintado de vermelho e preto, decorado com o escudo do clube.

A torcida do Vitória foi comandada durante muito tempo pelo rubro-negro Osvaldo Hugo Sacramento, mais conhecido como "Barão de Mococoff", de saudosa memória. No tempo do Campo da Graça, seu grito "Vitóóóóóória" era ouvido em qualquer parte do estádio.

Já o Esporte Clube Bahia tem um torcedor para lá de especial, o servidor aposentado da Assembléia Legislativa da Bahia, Lourival Lima dos Santos, o “Lourinho”, chefe de torcida por mais de 30 anos. Desde o final dos anos 50 que acompanha os jogos do Bahia, se tornando o torcedor-símbolo do clube. Sua casa é quase um museu do tricolor baiano. Guarda com carinho fotografias de varias épocas, especialmente de jogos em que o Bahia derrotou o Vitória e ganhou títulos. Uma foto em preto e branco se destaca entre as demais, em que ele aparece ao lado do rei Pelé. “Lourinho” é casado com a piauiense Maria Lúcia Bezerra e desde 2002, quando começou a ter problemas de saúde, passou a residir em Teresina, longe do seu querido Bahia. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)