Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Chicão, um andarilho do futebol

Aos 59 anos de idade morreu ontem (7) em São Paulo, Francisco Jesuíno Avanzi, mais conhecido por Chicão, o volante que barrou Falcão na Seleção Brasileira, na Copa do Mundo de 1978, na Argentina. Um andarilho do futebol, Chicão passou por vários clubes, Santos, Atlético Mineiro, XV de Piracicaba e Ponte Preta, entre outros, mas foi no São Paulo F.C. que ganhou destaque. O enterro do ex-jogador aconteceu hoje, em Piracicaba.

A disposição foi marca registrada desse volante. A técnica era substituida pela raça e virilidade, por isso muitas vezes foi taxado de violento. Há quem afirme que em toda a história do São Paulo F.C., nunca houve um jogador que demonstrasse tanto amor a camisa, quanto ele. Talvez seja lenda, mas é voz corrente entre os tricolores, que Chicão costumava dizer que qualquer um que ameaçasse as vitórias são-paulinas era passível de punição.

Antes de jogar futebol, Chicão trabalhou como aprendiz de torneiro-mecânico, em uma fábrica na cidade de Piracicaba, coisa que não o agradava. Achava bem melhor jogar pela equipe amadora do “Filhos de Funcionários”, o que lhe abriu caminho para ingressar nas categorias de base do XV de Piracicaba, o famoso “Nho Quim”. Foi lá que ganhou o primeiro título de sua longa carreira, campeão de um torneio de juvenis.

Seu futebol guerreiro logo chamou a atenção de Cilinho, na época o técnico da equipe de profissionais do XV, que o chamou para treinar no time de cima. Mesmo assinando contrato em 1968, não conseguiu de início ser titular. Por isso foi emprestado ao União Agrícola Barbarense (atual União Barbarense Futebol Clube), de Santa Bárbara D’Oeste, onde acabou sendo o principal jogador do time.

Já bastante conhecido no futebol interiorano, Chicão logo despertou a atenção de outros clubes. Primeiro, o São Bento, de Sorocaba, e depois a Ponte Preta de Campinas. Na “Macaca”, voltou a se encontrar com Cilinho, o técnico que lhe deu a primeira oportunidade na carreira. Suas atuações na Ponte Preta valeram a cobiça do São Paulo, que o contratou em 1973. E ficou no clube do Morumbi por sete anos.

No São Paulo, Chicão disputou a Copa Libertadores da América, perdendo o título para o Independiente da Argentina, que venceu o jogo final por 1 X 0. O volante classificou essa derrota como a maior decepção de sua vida profissional.

Seu primeiro título pelo São Paulo veio em 1975, campeão paulista. Em 1976, foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira que disputou alguns torneios amistosos. Debutou com a camisa canarinho no jogo válido pela Taça do Atlântico, em que o Brasil derrotou o Uruguai por 2 X 1. Graças a boa atuação, conquistou a titularidade nas quatro partidas seguintes. No jogo contra a Argentina, em 19 de maio, rompeu os ligamentos do joelho direito aos 23 minutos do segundo tempo. A lesão não foi grave, e menos de um mês depois, Chicão já estava em campo, no dia 13 de junho, quando o São Paulo enfrentou o América, de São José do Rio Preto.

Em 1977, foi campeão brasileiro, o primeiro do São Paulo, conquistado em cima do Atlético Mineiro. Nesse jogo Chicão foi acusado de quebrar, de propósito, a perna do jogador mineiro Ângelo, ao pisar nela depois de um carrinho dado por Neca.
Outro fato que marcou a carreira de Chicão aconteceu em 1976, antes de um jogo entre São Paulo e Palmeiras. Ele foi advertido com um cartão amarelo antes mesmo do jogo começar. Tudo, porque chegou próximo do juiz José de Assis Aragão e disse: “Vê se apita direito essa porcaria”.

Em 1978, o saudoso técnico, Cláudio Coutinho, gaúcho de Dom Pedrito, minha terra natal e meu vizinho e amigo de infância, resolveu convocar Chicão para a Seleção Brasileira que iria disputar a Copa do Mundo da Argentina. Na convicção do treinador, Chicão era o jogador ideal para atuar nos jogos contra adversários catimbeiros, caso da própria Argentina. E foi contra os vizinhos “porteños” que Chicão teve sua atuação mais famosa pela Seleção, única em uma Copa do Mundo.

Logo ao início do jogo, na cidade de Rosário, ele deu um tapa no rosto do atacante argentino Mário Kempes, sem ser expulso. A partir do lance o artilheiro platino passou a evitar o choque com o brasileiro e em razão disso teve fraca atuação. Os argentinos não conseguiram fazer a famosa catimba e se encolheram dentro de campo. Quase ao final do jogo levou cartão amarelo, por uma entrada em Kempes. Depois dessa atuação, um jornal argentino chamou Chicão de “El Matador".

Pela Seleção Brasileira Chicão jogou nove partidas oficiais e duas não oficiais, com sete vitórias, três empates e uma derrota. Não marcou gols. Sua primeira partida oficial foi em 25 de fevereiro de 1976 contra o Uruguai, pela Taça do Atlântico (vitória por 2x1). A última foi contra o Paraguai, em 24 de outubro de 1979, pela Copa América (derrota por 2x1).

O jogador ficou no São Paulo até o fim de 1979, tendo atuado em 312 jogos e marcado 19 gols. Quando completou 31 anos, o Atlético Mineiro foi seu novo endereço, mesmo sofrendo no início forte oposição da torcida, que não esqueceu o lance da perna quebrada de Ângelo. Mas isso não durou muito tempo, pois seu espírito de luta e determinação logo serviram para conquistar os torcedores. E até o fato de jogar ao lado de Ângelo, ajudou na recuperação de sua imagem. No “Galo”, conquistou o Campeonato Mineiro de 1980.

Em 10 de setembro de 1981, transferiu-se para o Santos, ao lado de Palhinha. Nos anos que se seguiram defendeu ainda o Corinthians de Presidente Prudente, Botafogo de Ribeirão Preto e Mogi Mirim, onde encerrou a carreira em 1986, aos 37 anos, depois de quatro operações de menisco. Foi ali que conheceu a última conquista da sua carreira, ao ajudar o Mogi Mirim a subir para à primeira divisão paulista, em 1985. Nessa campanha, ficou fora de apenas 3 das 36 partidas do time, sendo uma por expulsão, uma por cartões amarelos e uma por contusão. Com os quatro meniscos operados, teve de parar.

O curioso é que Chicão sofria de um problema crônico no nervo ciático. No entanto, sua determinação e raça não deixaram que isso o atrapalhasse quando jogava.

Depois da aposentadoria Chicão tentou ser técnico. Começou no XV de Piracicaba e, em seguida, foi para o Independente de Limeira. A experiência não deu certo e o ex-volante abriu uma loja de material esportivo em Piracicaba, que funcionou por seis anos. Em 2000 resolveu atender o convite do Clube Atlético Montenegro, de Avaré (atualmente licenciado), para voltar a ser técnico de futebol. Dessa vez seu trabalho foi exitoso, já que o clube sob seu comando chegou a Série B-2 do Campeonato Paulista. (Pesquisa: Nilo Dias)

Horácio disse...
Caro Nilo Dias: Tive o prazer de conviver com Nilton Santos aquí em Rio Grande, quando ele treinou o São Paulo. Um caráter excepcional, uma pessoa de uma doçura incrível. O avô que todos nós gastaríamos de ter.
Lembro um fato que me marcou. Nilton Santos chegou em Rio Grande durante um inverno rigoroso. Ele vivia envolto num poncho e com chapéu. Certa vez o plantel do São Paulo foi fazer exercícios físicos na praia do cassino( A maior do mundo em extensão), e Nilton Santos ficou no ônibus.
Logo adiant apareceram alguns pinguins mortos, e ele rapidamente bradou: "O que eu vim fazer aqui nesse lugar onde até os pinguins morrem de frio?" Horácio Gomes
10 de outubro de 2008 15:28

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

S.C. São Paulo, mais um clube centenário

O Rio Grande do Sul é um dos Estados que abriga a maior quantidade de clubes centenários no futebol brasileiro. E a cidade litorânea de Rio Grande é berço do mais velho de todos, o S.C. Rio Grande, que em 19 de julho último, completou 108 anos de existência. Com muita justiça essa cidade já foi chamada de a “Capital do Futebol”, por manter três clubes de futebol profissional de muita tradição. O S.C. São Paulo está em festa, com o seu centenário, comemorado no último sábado, dia 4. E ano que vem será a vez do F.B.C. Rio-Grandense, o caçula da cidade também chegar à histórica marca centenária.

O “Leão do Parque”, como é chamado por seus ardorosos torcedores foi fundado pelo jovem Adolpho Corrêa. Em meados do mês de setembro de 1908, ele e três amigos, José Sartori, Bartholomeu Casanova e Hermenegildo Bernardelli, assistiam um treino do S.C. Rio Grande, no gramado da Compaigne Auxiliare de Chems de Fer Brésil, na avenida Buarque de Macedo, onde depois foi erguido o antigo Estádio Arthur Lawson (Oliveiras).

Em dado momento um zagueiro chutou a bola para fora do gramado, indo parar em umas macegas nas proximidades. Os três rapazes pediram ao auxiliar de mecânico, Alexandre Lempeck, ainda um adolescente que a fosse apanhar. De posse daquele instrumento raro e fundamental para a prática do futebol, os três amigos foram embora. Nos primórdios do futebol a bola tinha que vir da Inglaterra e a um preço nada convidativo.

Adolpho Corrêa, engenheiro ferroviário, de descendência portuguesa, que veio pequeno para o Brasil, primeiro para São Paulo e depois para Rio Grande, pensou logo em fundar um clube que abrigasse a colônia lusitana na cidade, bastante grande já na época. O futebol era até então, uma exclusividade dos ingleses e alemães do S.C. Rio Grande. Mesmo trabalhando na companhia de trens, os três não conseguiram fazer parte da equipe do S.C. Rio Grande.

Os quatro rapazes procuraram a direção do S.C. Rio Grande e da Compaigne Auxiliare, para pedir ajuda e colocar a idéia em prática. Não teve nenhum problema. Foi cedida uma área que dava frente para o cemitério católico, e onde hoje se encontra o Estádio Aldo Dapuzzo. E no dia 4 de outubro de 1908, reunidos em um prédio de número 133, da avenida Rheingantz, fundaram o S.C. São Paulo. O nome escolhido foi uma homenagem a capital paulista, primeira cidade brasileira em que Adolpho Corrêa morou e onde conheceu o esporte inventado pelos ingleses.

Em 16 de outubro foram escolhidas as cores vermelho e verde para serem as oficiais, naturalmente por inspiração da bandeira de Portugal, até porque o clube era dominado pela maioria lusitana. O primeiro fardamento era composto de boné verde e vermelho, camisa branca e calções pretos.

Estava dada a partida para uma trajetória cheia de glórias. O S.C. São Paulo ganhou o título de campeão da cidade em 24 oportunidades: 1916, 1918, 1920, 1927, 1928, 1931, 1932, 1933, 1935, 1943, 1945, 1952, 1954, 1958, 1959, 1966, 1967, 1968, 1969, 1970, 1971, 1973, 1980 e 1987.

O maior efeito da história do clube aconteceu em 1933, quando se sagrou campeão gaúcho. No jogo do título, o S.C. São Paulo venceu o Grêmio Portoalegrense por 2 X 1, em jogo realizado no dia 19 de novembro, no antigo Estádio dos Eucaliptos, em Porto Alegre. Darci Encarnação e Cardeal marcaram para os riograndinos e Nenê descontou para o Grêmio. O time base era: Odorico – Valentim e Fernandinho – Quico –Darci Encarnação e Riquinho – Archimino – Cardeal – Osquinha – Ballester e Scala (Vadi). O diretor técnico era Leomar Mena.

Tive a honra de conhecer Darci Encarnação, o maior jogador da história do clube. Eu era editor-chefe do jornal “Agora” e uma de suas filhas era minha colega de trabalho. Várias vezes conversei com ele, que me contou muitas passagens interessantes de sua brilhante carreira.

Outra grande conquista do rubro-verde riograndino aconteceu em 1985, quando ganhou a Copa Bento Gonçalves, enfrentando nas finais o poderoso S.C. Internacional: vitória de 1 X 0 no dia 13 de julho, em Porto Alegre e empate de 1 X 1, no dia 4 de agosto, em Rio Grande. O time base era: Nando - Marco Antonio - Carlão e Zé Moraes - Paulo Barroco – Odir – Ernane - Evans e Isaias - Rodinaldo e Luisinho. Reservas: Edson, Kiko, Caetano, Serginho, Claudinho e Nivaldo. O técnico era Jaime Schimidt.

Foi ainda campeão da Copa Associação dos Cronistas Esportivos (ACEG) (1986); campeão do interior (1979); campeão da Copa Sesquicentenário e Copa Governador do Estado (1981) e campeão da Divisão de Profissionais do Campeonato Gaúcho (1970).
Um momento histórico na vida do S.C. São Paulo foi a vitoriosa excursão em 1981 por gramados da Venezuela, Equador e Colômbia, quando ganhou um torneio contra o Deportivo Tachira, time que no mesmo ano eliminou o Internacional de Porto Alegre, na Copa Libertadores da América.

O clube participou dos campeonatos brasileiros de 1982 (31º colocado), 1980 (41° colocado) e 1979 (43º colocado). No dia 23/03/1980 o Estádio Aldo Dapuzzo recebeu um dos maiores públicos de sua história para assistir ao empate de 0 X 0 contra o Flamengo de Zico, Adílio e Júnior, e outros jogadores que formariam a base do time campeão do mundo em Tóquio. O Flamengo djogou com Raul – Rondineli – Marinho – Júnior - Andrade – Adílio – Zico – Reinaldo - Tita e Carlos Henrique (Júlio Cesar). O São Paulo teve Sérgio - Zé Augusto – Carlão - Tadeu e Cláudio Radar – Doraci - Paulo Cesar Tatu e Astronauta – Romário - Néia e Almir. O técnico era Ernesto.

Lembro bem desse jogo. Eu era o chefe da equipe de esportes da Rádio Cultura Riograndina, que tinha entre outras “feras” do rádio de Rio Grande, Gley Santana, Pedro Pinheiro, Jorge Ravara, Antônio Azambuja Nunes, o Nico, Horácio Gomes, João Ferreira, Denis Olinto, Jonas Cardoso, Édson Costa, Édson Figueiredo, Oledir José e Ney Amado Costa.

No Campeonato gaúcho da Primeira Divisão o São Paulo fez presença nos anos de 1919 a 1960, 1971 e 1972, 1975, 1977 a 1984, 1986 a 1989, 1992 a 1994, 2001 e 2002.
Eu já contei em artigo anterior uma passagem única no futebol brasileiro, que envolveu o S.C. São Paulo e o seu centenário rival, o S.C. Rio Grande. Em 26 de dezembro de 1940, os dois clubes disputavam o jogo final da Taça Confraternização, um torneio que também reuniu o F.B.C. Rio-Grandense e serviu para selar a paz entre os três clubes da cidade.

Nos 90 minutos houve empate. A decisão foi para os pênaltis, que foram batidos à exaustão, e o resultado seguia igual. O árbitro resolveu então conceder o título aos dois clubes. Quanto ao troféu, a solução encontrada foi cortá-lo em duas partes iguais e entregar uma parte a cada time. Eu testemunho que isso é verdade, pois vi as metades da taça nas sedes dos dois clubes.

O Estádio Aldo Dapuzzo é um dos orgulhos do S.C. São Paulo. Nos primeiros anos da década de 80, o clube passava por um momento magnífico, disputando a Taça de Ouro do futebol brasileiro. Para isso foi preciso que o estádio abrigasse no mínimo dez mil torcedores. Em menos de cinco meses, depois de sucessivas campanhas de arrecadação do cimento, a torcida e o patrono Aldo Dapuzzo levantaram o anel esquerdo do estádio com capacidade para aproximadamente sete mil pessoas. Mesmo assim, o estádio não deu conta e foi necessário que a Prefeitura colaborasse com a colocação de arquibancadas atrás do gol direito para mais duas mil pessoas.

Hoje, o S.C. São Paulo passa por um momento de transição, disputando a Segunda Divisão do futebol gaúcho, mas a meta é voltar o mais breve possível a Primeira Divisão. O atual presidente é o desportista Renato Lempeck, que deverá passar o cargo, provavelmente para o conselheiro Ivo Artigas, na eleição marcada para amanhã (5). (Pesquisa: Nilo Dias)
Equipe campeã gaúcha de 1933 (Foto: Acervo do S.C. São Paulo)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Apenas cinco grandes nunca foram rebaixados

Apenas 12 clubes são considerados como grandes forças do futebol brasileiro: Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense, Palmeiras, São Paulo, Corinthians, Santos, Cruzeiro, Atlético, Grêmio e Internacional. E desses, quantos já disputaram campeonatos de segundas divisões? Pergunta de difícil resposta, não é mesmo? Na verdade até hoje só cinco deles escaparam dessa situação: Flamengo, Vasco da Gama, Santos, Cruzeiro e Internacional. E o número pode diminuir para quatro, este ano, com a possibilidade de queda do Vasco da Gama.

Confira quem já esteve na segundona brasileira. O Corinthians, que este ano joga a Série B, já esteve antes na segunda divisão nacional. Foi em 1982, na época em que a classificação para o Campeonato Brasileiro era definida por meio dos campeonatos estaduais. O Palmeiras também, antes da Série B de 2003, teve que jogar a Taça de Prata de 1981 e 1982. Grêmio (1992 e 2005), Fluminense (1998 e na terceirona em 1999), Botafogo (2003) e Atlético Mineiro (2006).

Dia desses um torcedor do São Paulo F.C. ficou indignado quando comentei que seu clube, hoje um dos mais organizados do nosso futebol já passou por tal vexame. Não aconteceu no Campeonato Brasileiro, é bem verdade, mas foi bem pior. Em 1991 o tricolor do Morumbi teve que disputar uma espécie de segundona paulista, mascarada pelo nome de Grupo II.

Enquanto Palmeiras, Santos, Corinthians, Guarani e Portuguesa se matavam para chegar na fase final, o São Paulo, já comandado pelo saudoso mestre Telê, enfrentou inexpressivos times como a Catanduvense, Olímpia e Sãocarlense. A grande mídia paulista, na maioria formada por gente ligada ao São Paulo esconde tal fato, citando apenas outros clubes quando fala em rebaixamento. Mas ninguém pode apagar a história, ela resiste a tudo e a todos.

A Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro foi criada em 1971, mesmo ano em que começou a Primeira Divisão, mas de maneira desorganizada. Nos dois primeiros anos, Villa Nova (MG) e Sampaio Corrêa (MA) ganharam os títulos de 1971 e 72, respectivamente, mas não subiram para a Primeira Divisão. De 1973 a 1979 não foi realizada, só voltando em 1980 com o nome de Taça de Prata. Nesse período os certames regionais é que classificaram para o Brasileirão, que chegou a ter perto de 100 times.

Em 1987 os grandes clubes tentaram criar uma liga nacional, e organizaram a Copa União. Paralelamente, a CBF promoveu o Módulo Amarelo, uma espécie de segunda divisão, com os clubes que ficaram de fora. A CBF queria que os dois primeiros colocados de cada competição decidissem o título num quadrangular. Flamengo e Internacional foram campeão e vice da Copa União, mas se negaram a jogar contra Sport e Guarani, campeão e vice da competição da CBF. Diante disso, o Sport foi proclamado campeão brasileiro de 1987 e o Guarani, vice- campeão.

Em 1993, de novo não houve a Segunda Divisão. Dois anos antes, o Grêmio tinha sido rebaixado e, para facilitar sua volta, a CBF promoveu o acesso de 12 equipes na edição de 1992. Com isso a Série B acabou esvaziada, e impossibilitando sua realização no ano seguinte. Em 2000, a Série B voltou a ser bagunçada, quando foi disputada a Copa João Havelange, apenas para que Bahia e Fluminense não precisassem participar da Segunda. Hoje, com o fim da virada da mesa e a moralização do futebol brasileiro, a Série B, é um campeonato bem organizado e merecedor de destaque na imprensa nacional.

Os que gostam de fazer comparações entre o futebol brasileiro e o europeu, certamente não tem muita preocupação com essa questão de rebaixamento. Na Europa os times que nunca foram rebaixados são poucos. Na Itália, apenas a Internazionale. Na Espanha só Barcelona, Real Madrid e Atlhetic Bilbao. E na Inglaterra, pasmem, todos já caíram.

O Olympique de Marselha era a potência da França, algo como o Lyon é hoje. Mas, no início dos anos 90, o time teve suas finanças investigadas e foram encontradas irregularidades que o rebaixaram. Para piorar, o time perdeu o direito, em1993, de disputar a final do Mundial Interclubes contra o São Paulo, em Tóquio, já que perdeu seu título de campeão europeu para o Milan naquela temporada. Eles nunca mais foram os mesmos após a queda.

Não há grande que não tenha caído na Inglaterra. O Manchester United, que já foi considerado o clube mais rico do planeta e prioriza o planejamento, caiu em 1974, voltando no ano seguinte. O Liverpool, campeão europeu em 2005, visitou a segundona inglesa por cinco oportunidades: 1892, 1895, 1904, 1942 e 1954. E o Arsenal, da capital Londres, caiu já faz tempo, mas caiu: foi em 1913. Lá não tinha virada de mesa nem na época do amadorismo.

Na Argentina, Boca Juniors, River Plate e Independiente jamais disputaram a segundona. Mas nossos hermanos têm um regulamento que facilita para os grandes, sempre mais ricos que os rivais. O rebaixamento é feito com base na média da participação de oito: quatro “Clausuras” e quatro “Aperturas”, ou seja, de campeonatos seguidos. E fica impensável imaginar Boca ou River dando vexames em temporadas seguidas. Mas Racing e San Lorenzo, considerados forças do país, já foram rebaixados. (Pesquisa: Nilo Dias)

NOTA DO AUTOR: Tendo em vista que alguns leitores deste blog contestaram a informação de que o São Paulo F.C. já caiu para a 2ª divisão do campeonato paulista, publicamos abaixo algumas reportagens de jornais da época, que confirmam o fato. O autor não inventou nada, apenas se limitou a coementar algo que realmente aconteceu e que não desmerece em nada a trajetória gloriosa do São Paulo F.C.


Título da página interna da mesma edição do jornal: "São Paulo vai disputar Segunda Divisão"

Por mais que desagrade os são-paulinos, a verdade é a que segue:

Em 1990, o Campeonato Paulista foi disputado por 24 times. Havia a percepção de que eram times demais. Convencionou-se, então, que apenas 14 times disputariam o campeonato de 1991 – os 14 primeiros do certame de 1990. De alguma forma, o São Paulo "conseguiu" ficar em 15º, depois de ser eliminado na primeira fase (que classificou 12 times) e novamente eliminado numa repescagem (que classificou outros dois, completando 14).

Para não melindrar susceptibilidades, o regulamento de 1990 dizia que "não haveria descenso". Era só uma fórmula de cortesia: os times que não entrassem entre os 14 disputariam o que, na prática, equivaleria a uma segunda divisão.

Esse regulamento não foi cumprido. Diante do rebaixamento do São Paulo, houve uma virada de mesa.

Os times rebaixados em 1990 (não só o São Paulo, mas outros importantes, como a Ponte Preta) ganharam o direito de lutar por duas vagas nas finais. Foi assim que o São Paulo conseguiu a façanha, inédita no futebol mundial, de ser rebaixado em um ano e campeão no ano seguinte!

O argumento dos são-paulinos, portanto – de que o acesso no mesmo ano "já estava previsto" – é falso e errôneo.

Para não prolongar a explicação, reproduzo o texto da Folha de S. Paulo de 21 de junho de 1990 – dia seguinte ao dia em que o São Paulo caiu.

"SÃO PAULO VAI DISPUTAR A SEGUNDA DIVISÃO EM 91

Fernando Santos
Da Reportagem Local

O São Paulo foi eliminado pelo Botafogo na repescagem do Campeonato Paulista deste ano e vai disputar a Segunda Divisão em 91. O São Paulo goleou ontem o Noroeste por 6 a 1 no Morumbi, mas ainda dependia da derrota do Botafogo para se classificar. O time de Ribeirão Preto empatou em 0 a 0 com a Internacional em Limeira.

No próximo ano, o São Paulo vai disputar a série B do Campeonato Paulista, sem direito a lutar pelo título. É uma nova fórmula aprovada pelo conselho arbitral de clubes em janeiro. Farão parte dessa série os 10 clubes eliminados do campeonato deste ano mais quatro que vão subir da Divisão Especial.

(...) Resta ao São Paulo a chance de subir para a série A em 92. Apenas o campeão da série B sobe (...) Esta fórmula foi aprovada por unanimidade por todos os 24 clubes que iniciaram o campeonato este ano, segundo o presidente em exercício da Federação Paulista de Futebol, Antoine Gebran.

'Vamos cumprir a lei. Lei é lei', disse o diretor-adjunto do São Paulo, Herman Koester (...) Segundo ele, o São Paulo vai mesmo disputar a Série B, uma Segunda Divisão que só não recebe essa denominação por uma questão de nomenclatura jurídica. (...) Já o diretor de futebol Fernando Casal de Rey, 47, ainda não se deu por vencido. Ele disse que vai acionar o departamento jurídico do clube para saber se a aprovação da fórmula do campeonato de 91 é legal. Casal de Rey disse, sem ter certeza, que não existe um documento assinado pelos clubes sobre o assunto. Assim, ele poderia recorrer à Justiça Desportiva para mudar a fórmula. Ou seja, apelar para o tapetão. 'Estamos vivendo um pesadelo', disse Casal de Rey."

O resto é história conhecida. Houve a virada de mesa e, embora o São Paulo tenha disputado o equivalente à segunda divisão em 91, classificou-se para as finais, eliminando o Palmeiras, que vinha do grupo mais forte.

A Folha também ouviu, naquela ocasião, são-paulinos ilustres, como José Victor Oliva, o vocalista do Ultraje a Rigor, Roger, e o ministro do Tribunal Superior do Trabalho Almir Pazzianotto. Todos reconheciam o rebaixamento, repudiavam a virada de mesa e reafirmavam que o São Paulo voltaria à primeira divisão na bola.

Estes são os fatos.


O São Paulo foi rebaixado em 1990

De José Renato Sátiro Santiago Jr

Atendendo aos inúmeros pedidos, encaminho abaixo detalhes sobre os fatos ocorridos durante o Campeonato Paulista de 1990.

Ele foi dividido em 2 grupos:

Grupo 1: Corinthians, Internacional, Bragantino, Novorizontino, Palmeiras, São Paulo, Mogi-Mirim, Santos, Portuguesa, União São João, São José e Guarani.

Grupo 2: Catanduvense, Juventus, Botafogo, XV de Piracicaba, XV de Jaú, América, Noroeste, São Bento, Santo André, Ferroviária, Ituano e Ponte Preta

1) Segundo o regulamento do Campeonato Paulista, durante as duas primeiras fases as equipes se enfrentariam dentro e fora de seus grupos. Sendo que os 12 times com melhor campanha, independentemente do grupo do qual fazia parte, se classificariam, automaticamente, para a Quarta Fase:

O que aconteceu: As equipes classificadas foram o Corinthians, Palmeiras, Bragantino, Santos, Mogi-Mirim, Portuguesa e Novorizontino, pelo Grupo 1 e XV de Piracicaba, XV de Jaú, Ferroviária, Ituano e América, pelo Grupo 2.(Regulamento Cumprido)

2) Conforme o regulamento os campeões de cada grupo se classificariam automaticamente para a Copa do Brasil de 1991.

O que aconteceu: Corinthians e XV de Piracicaba foram os vencedores de seus grupos e se classificaram para a Copa do Brasil de 1991. (Regulamento Cumprido)

3) O regulamento informava que as equipes que não tivessem se posicionado entre as 12 melhores aos longos das duas primeiras fases, deveriam disputar a Terceira fase, uma espécie de repescagem. As equipes seriam divididas em dois grupos de 6.

O que aconteceu: As equipes foram divididas em 2 grupos, o primeiro formado por Botafogo, Internacional, Santo André, São Paulo, Ponte Preta e Noroeste e o outro por Guarani, Catanduvense, São José, Juventus, União São João e São Bento. (Regulamento Cumprido)

4) O regulamente definia que apenas os campeões de cada grupo desta terceira fase, se classificariam para a quarta fase, quando se juntariam aos demais 12 classificados anteriormente, e seriam divididos em 2 grupos de 7.

O que aconteceu: Botafogo e Guarani foram os campeões de seus grupos e se classificaram para a Quarta fase. Nesta fase, as equipes foram divididas em 2 grupos de 7. O primeiro grupo foi formado por Bragantino, Corinthians, Botafogo, Santos, Ituano, Mogi-Mirim e XV de Jaú, o segundo grupo foi constituído por Novorizontino, Palmeiras, Guarani, Portuguesa, América, XV de Piracicaba e Ferroviária. (Regulamento Cumprido)

5) Quanto ao rebaixamento, vamos ao texto original do regulamento oficial do Campeonato Paulista de 1990. Parágrafo 1º do artigo 5º: “Para o Campeonato da Primeira Divisão de Futebol Profissional de 1991, o Grupo I será constituído pelas 14 associações classificadas para disputar a quarta fase do Campeonato de 1990 e o Grupo II será constituído pelas dez associações restantes que não se classificaram para a quarta fase e mais quatro advindas da Divisão Especial de 1990.” Parágrafo 2º - “No campeonato da primeira divisão de futebol profissional de 1990, não haverá descenso à divisão especial de futebol profissional. Mas a partir de 1991, ou a cada ano haverá o descenso de uma associação da Primeira Divisão de Futebol Profissional e o acesso de uma associação da Divisão Especail de Futebol Profissional”

O que aconteceu: O Campeonato Paulista de 1991 foi constituídos por 2 grupos de 14 equipes: Grupo I formado pelos 14 classificados para a Quarta Fase do Campeonato de 1990 - Corinthians, Palmeiras, Botafogo, Portuguesa, Guarani, Bragantino, Santos, Ituano, América, Novorizontino, XV de Piracicaba, XV de Jaú, Ferroviária e Mogi-Mirim; Grupo II formando pelas 10 equipes que não se classificaram para a Quarta Fase do Campeonato de 1990: São Paulo, Internacional, Santo André, Noroeste, Catanduvense, Juventus, Ponte Preta, União São João, São José e São Bento, mais 4 equipes originária da Divisão Especial de 1990 que foram: Olímpia, Marília, Sãocarlense e Rio Branco (Regulamento Cumprido)

6) Por fim, voltando a Quarta Fase do Campeonato de 1990, o regulamento previa que os campeões de cada grupo disputariam o título

O que aconteceu: Bragantino e Novorizontino foram campões de seus grupos e decidiram o título em 2 jogos, nos dias 22 e 26 de agosto. O título foi conquistado pelo Bragantino (Regulamento Cumprido)



raferlizboa disse...
O S.P.F.C. nunca foi rebaixado, vc deveria pesquisar mais antes de postar.
24 de março de 2009 14:48

Anônimo disse...
O São Paulo foi rebaixado sim, e no Campeonato Paulista mesmo... o que ocorre é, devido ao sucesso do time, mascaram esse fato... nenhum São Paulino admite que caiu... mas ser rebaixado no paulistinha é foda, hein?
9 de junho de 2009 11:50

Anônimo disse...
vc ta maluco
o SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE , MAIOR DOS CLUBES BRASILEIROS
nunca foi rebaixado , vei no site da federação paulista de futebol e olha la bem grande e dp corrige isso ai que vc falou....
4 de julho de 2009 22:54

JEIEL disse...
os fatos históricos comprovam: o sao paulo foi sim rebaixado no paulista mas, como era de praxe naquela época os times que tinham grana roubavam e não disputavam a serie inferior e os sem grana se lascavam.
Só eram beneficiados qdo estavam na mesma virada de mesa que os "grandes" ou seja o são paulo deve muito do que é hoje à federação paulista de futebol.
18 de agosto de 2009 13:37

Martinelli disse...
Os BAMBIS sempre caem e sempre vão cair. No futebol ou não, uma coisa é certa: Eles caem sentados numa rola oblonga... Adoram isso!
SPFC maior do Brasil? Que merda de time, caiu no paulistinha!
asahishiahuishiahuisa
10 de dezembro de 2009 13:43

Rodrigo disse...
São Paulo é o maior do Brasil? kkkkk! Não me faz rir. O FLAMENGO é o time de maior torcida no mundo, 35 milhões de torcedores. Nós torcemos por um time de macho e não pra um time afeminado. É futebol masculino que o meu time joga.
O FLA nunca caiu em nenhuma competição. Vcs caíram no Paulistinha e querem falar merda? Perderam pra Portuguesa agora em pleno Morumbicha e depois empataram em 1X1 com o poderosíssimo Mirassol???!!!! kkkkkkkkkkkk! Vão se foder suas bichas arrogantes!
22 de janeiro de 2010 12:18

Duds Simini disse...
Meeeenos meu caro!Meenos!Bem menos!SE tivesse rebaixamento ele cairia!Mas em 90 não houve rebaixamento!Pesquisa mais!Bem +
9 de fevereiro de 2010 21:36

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A história do futebol de Sergipe

Não foi fácil implantar o futebol em terras sergipanas. A exemplo do que aconteceu em outros Estados, o novo esporte sofreu com o preconceito que imperava naqueles distantes anos. Quem praticava o futebol era mal visto e logo chamado de vagabundo. A primeira exibição pública de futebol, em Sergipe, remonta ao dia 7 de setembro de 1907 e aconteceu por iniciativa do major Crispim Ferreira, do 26º Batalhão de Infantaria, sediado em Aracaju. Soldados e recrutas daquela guarnição militar se reuniram num campo improvisado na Praça Valadão, que ficava defronte o Quartel e jogaram uma partida entre si. Ao que se sabe cada equipe tinha oito jogadores e o juiz foi o jovem Jaime Azevedo Villas Boas, que residia em Salvador e conhecia as regras. Ele arbitrou o jogo sozinho, não contando com o auxílio de bandeirinhas. O resultado foi um empate de 0 X 0.

Em 1909, Mário Lins de Carvalho, um jovem de 17 anos, natural da cidade de Lagarto e que morava em Salvador (BA), mudou-se para Aracaju, levando consigo a firme idéia de fundar um clube voltado para a prática do futebol. Contando com o auxílio do amigo Carlos Baptista Bittencourt foi realizada uma reunião na casa deste, na rua de Maruim, quando foi fundado o Sport Clube Lux. Como o nome não agradou, em seguida mudou para Club de Football Sergipano.

Na reunião também foram aprovadas o vermelho e branco como cores oficiais e para sede improvisada a casa de um dos fundadores, João Rocha, na rua Laranjeiras, 123. Os treinos eram realizados na Praça do Palácio, atual Fausto Cardoso. Depois do Sergipano, vários clubes de futebol começaram a surgir nos arredores de Aracaju. Tudo era improvisado, afora os campos de jogo. As chuteiras eram botinas adaptadas pelos sapateiros e as bolas, quando não podiam ser compradas em Salvador eram feitas pelos sapateiros locais. E quem não tinha dinheiro jogava com bolas de meias e pés descalços.

O Club Sportivo Sergipe é o segundo clube mais antigo do Estado, fundado em 17 de outubro de 1907. O Cotinguiba Sport Club nasceu uma semana antes, em 10 de outubro. Nos primeiros tempos os dois clubes se dedicavam exclusivamente aos esportes náuticos. Só forami aderir ao futebol em meados de 1916, e assim mesmo limitado aos seus sócios, em animados treinos realizados pelos "Team Green" e "Team Black" num campo improvisado da Praça Pinheiro Machado. Somente no final do ano é que oficialmente, os dois clubes resolveram adotar o novo esporte, graças aos esforços do capitão da Marinha, Aminthas José Jorge, um apaixonado pelo futebol.

Também foi graças ao prestígio político do almirante, que o prefeito Alexandre Freire construiu o campo de futebol da Praça Pinheiro Machado. As arquibancadas ficavam sempre lotadas às tardes de domingos, com uma forte presença de senhoras e senhoritas da sociedade local, derrubando de uma vez por todas os preconceitos daqueles que consideravam o futebol um esporte vulgar.

O Sergipe é o único clube que participou de todos os campeonatos do Estado. Também foi o primeiro a disputar jogos internacionais, tendo enfrentado equipes de porte como a Seleção de Novos da Argentina, Seleção de Ghana e clubes da Europa e America do Sul. Foi o primeiro clube do Estado a participar do Campeonato Nacional, em 1972, quando ficou na 26ª colocação. É o maior colecionador de títulos estaduais e o único hexacampeão. Foi o Sergipe o responsável por uma das maiores goleadas acontecidas no Estado: em 1996 goleou o Propriá pelo placar de 14 x 0.

Em outubro de 1916, quando o futebol foi adotado por Sergipe e Cotinguiba, os sócios jogadores desses dois clubes, formaram a “Seleção de Aracaju, derrotando o Sergipe F.C. de Própria por 4 x 0, no primeiro jogo de futebol organizado no Estado e conquistaram a “Taça Ao Preço Fixo”, o primeiro troféu da história do futebol sergipano. Isso criou um problema: a qual dos dois clubes pertenceria o histórico troféu?

Para resolver a situação, em dezembro daquele mesmo ano, Sergipe e Cotinguiba se separaram e um jogo foi marcado para decidir quem ficaria com o troféu. O Sergipe venceu por 3 X 2, com o jogador Alfredo Roque, um mulato carioca que trabalhava como contínuo no Banco do Brasil tendo marcado dois gols. No primeiro jogo interestadual disputado em Sergipe, em 1917, Roque foi o autor do gol da Vitória de 1 x 0 da Seleção de Aracaju sobre o S.C. Republica, campeão baiano. No final de 1921, Roque retornou ao Rio de Janeiro.

Em 1917 surgiu outro clube organizado; o Industrial, pertencente à Fabrica Sergipe Industrial do bairro da zona norte. No primeiro campeonato oficial, disputado em 1918, organizado pela Liga Desportiva Sergipana, quatro equipes participaram: Cotinguiba, 41° Batalhão F.C., Sergipe e Industrial. Industrial e Cotinguiba se reforçaram com jogadores vindos da Bahia, entre eles, o centro-avante Conceição, que foi o artilheiro do campeonato daquele ano e dois anos depois, retornou ao futebol da “Boa Terra”. O Cotinguiba foi campeão ao derrotar o Sergipe por 2 x 0 no jogo final.

No ano seguinte, 1919, o campeonato não foi realizado. Justamente quando se esperava que fosse o mais espetacular, rebentou uma crise inesperada. Devido ao grande número de jogadores vindos de Salvador, a LDS regulamentou o assunto, fixando um prazo mínimo de permanência dos baianos em Aracaju. O Industrial, que tinha 90% de baianos em seu grupo protestou e, da acirrada “briga administrativa”, resultou a sua desfiliação da LDS.Com dois clubes apenas, Sergipe e Cotinguiba não houve campeonato naquele ano.

Em 1920 o campeonato recomeçou e os jogos eram disputados no Estádio Adolpho Rolemberg, considerado na época o melhor e mais moderno de todo o Nordeste. Pela euforia do acontecimento a Liga perdoou o Industrial, que voltou às lides futebolísticas. Mesmo com apenas três clubes filiados, organizou-se o primeiro campeonato no novo estádio.Tudo parecia bem quando outra crise estourou: devido a uma punição sofrida por um jogador de seu segundo quadro, o Sergipe se indispôs com a Liga e abandonou o campeonato principal ainda no 1º turno. O título então teve de ser decidido entre Cotinguiba e Industrial.

Os campeonatos de 1921 e 1922 transcorreram normalmente, principalmente o “campeonato do centenário”, que contou com a participação de três novos clubes Esperança, Aracaju e Associação Desportiva Brasil, além de Industrial, Cotinguiba e Sergipe. Mas, na decisão do título de 1923, no início de 1924, outra crise estourou no futebol sergipano, desta vez com graves conseqüências.

Por causa de uma penalidade máxima assinalada pelo juiz baiano Oscar Coelho, contra o Industrial, quando o jogo estava em 1 x 1 o “tempo fechou”. Os atletas do clube proletário se insurgiram contra o juiz, provocando um enorme tumulto que culminou com a retirada de campo do alvinegro. No dia seguinte, o patrono do clube, o industrial Teles Ferraz, que presenciara o acontecimento, convocou uma Assembléia Geral, decidindo pela extinção da agremiação operária.

O certame de 1924 foi um fracasso. Com o desaparecimento do Industrial, uma espécie de Confiança daquela época, desencadeou um desinteresse geral, culminando com o afastamento do Esperança do bairro Santo Antônio. O público se afastou do Adolfo Rolemberg, que permaneceu fechado por longo tempo e seu gramado virou pasto para animais. Entre 1925 e 1926, o futebol praticamente desapareceu de Aracaju.

Em 1927 houve uma divisão no futebol do Estado, com o surgimento da Liga Sergipana de Esportes Atléticos (LSEA), com apenas três clubes filiados: Associação Atlética, América e Palmeiras, enquanto a Liga Desportiva Sergipana tinha quatro clubes filiados: Sergipe, Brasil, Cotinguiba e Aracaju.

No ano seguinte, com o fechamento da Liga Desportiva Sergipana, a nova entidade passou a comandar o futebol sergipano. Em 1931 mais oito clubes filiaram-se a ela, Vasco, Guarani, Paulistano, Palestra, Vitória, Siqueira Campos, 13 de Julho e ETEA. Em 10 de novembro de 1941 mudou a denominação para Federação Sergipana de Desportos, e em 20 de janeiro de 1976, por decisão da Assembléia Geral Extraordinária, para a atual Federação Sergipana de Futebol.

Os clubes do interior do Estado passaram a disputar o campeonato sergipano, apenas a partir de 1936, com a inclusão do Ipiranga, da cidade de Maruim. Em 1939 foram criadas as divisões do Interior, com quatro clubes, Ipiranga, Riachuelo, Socialista e Laranjeiras, e a da Capital. O Ipiranga ganhou a disputa interiorana e o Sergipe a de Aracaju. Para decidir quem ficaria com o título máximo, os dois clubes disputaram uma melhor de três partidas, onde o Sergipe levou a melhor, fazendo 2 X 0 na prorrogação do jogo decisivo. No entanto, o Ipiranga foi proclamado campeão, pois o Sergipe incluiu em sua equipe o jogador Renato Vieira, que estava inscrito na Liga Paulista. Essa fórmula de campeonato manteve-se até 1958.

A partir de 1959 o campeonato foi disputado por zonas: Leste (capital), Norte, Sul e Centro (interior). Os cinco melhores da capital e os campeões das zonas interioranas se juntavam para realizar o Campeonato Sergipano, em turno e returno. O primeiro campeonato de profissionais no Estado foi realizado em 1960, quando o Santa Cruz foi campeão.

O Estádio Lourival Baptista, o “Baptistão” foi inaugurado em 9 de julho de 1969, quando 45.058 torcedores assistiram o jogo Seleção Brasileira 8 X 2 Seleção de Sergipe. Os gols foram marcados por Toninho (3), Clodoaldo (marcou o primeiro gol da história do estádio), Gerson, Paulo César Caju, Beto (contra) e Paulo Borges, para o selecionado nacional e Vevé e Fernando para o time sergipano. O juiz foi Armando Marques.

Todos os campeões estaduais

Com 32 títulos: Sergipe (1922, 1924, 1927, 1928, 1929, 1932, 1933, 1937, 1940, 1943, 1955, 1961, 1964, 1967, 1970, 1971, 1972, 1974, 1975, 1984, 1985, 1989, 1991, 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1999, 2000, campeonato sub júdice, e 2003); com 16 títulos: Confiança (1951, 1954, 1962, 1963, 1965, 1968, 1976, 1977, 1983, 1986, 1988, 1990, 2001, 2002, 2004 e 2008); com nove títulos: Itabaiana (1969, 1973, 1978, 1979, 1980, 1981, 1982, junto com o Sergipe, 1997 e 2005); com seis títulos: Cotinguiba (1918, 1920, 1923, 1936, 1942 e 1952); com cinco títulos: Santa Cruz (1956, 1957, 1958, 1959 e 1960); com quatro títulos: Vasco (1944, 1948, 1953, 1987); com três títulos: Palestra (1934, 1935 e 1949); com dois títulos: Ypiranga (1939 e 1945), Olímpico (1946 e 1947) e América (1966 e 2007); com apenas um título: Passagem (1950), Pirambu (2006), Industrial (1921), Riachuelo (1941) e Lagartense (1998). Nos anos de 1919, 1925, 1926, 1930, 1931 e 1938 o campeonato não foi realizado. (Pesquisa: Nilo Dias)
Cotinguiba Esporte Clube, campeão sergipano de 1942 (Foto: Arquivo do Cotinguiba E.C.)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Grêmio, 105 anos de glórias

Hoje, 15 de setembro de 2008, o Grêmio Fott-Ball Portoalegrense está completando 105 anos de existência. O tradicional tricolor gaúcho nasceu com vocação para o futebol, já que sua origem se deu em razão de uma bola. O jovem comerciante Cândido Dias, um paulista que morava em Porto Alegre tinha recebido de presente de amigos de São Paulo uma bola de futebol importada e uma bomba de ar para enchê-la.

Conhecedor das regras, pois já havia jogado futebol em sua terra, Cândido se propôs a mostrar para um grupo de amigos como se praticava o novo esporte. Para isso, organizou uma "pelada". Não deu outra, os amigos gostaram tanto, que decidiram fundar um clube, o que aconteceu na noite de 15 de setembro de 1903, em um restaurante da antiga rua 15 de Novembro, hoje José Montaury.

Vinte rapazes estiveram na reunião, mas outros 12 também assinaram a ata, completando um total de 32 fundadores. Carlos Luiz Bohrer foi eleito o primeiro presidente do Grêmio, sem imaginar que ali estava começando uma história de muitas glórias.

O primeiro jogo do Grêmio aconteceu somente no dia 6 de março de 1904, quase meio ano depois da sua fundação. O adversário foi o Fuss Ball Porto Alegre, já extinto. Como naquela época era costume a realização de jogos preliminares entre os chamados segundos quadros, dois troféus foram colocados em disputa: o "Vereinpreiss" e o "Wanderpreiss".

O Grêmio venceu o seu jogo de estréia por 1 X 0, mas os jornais não informaram quem foi o autor do primeiro gol da história do clube. O programa dos jogos, com escalações dos times e outros detalhes, foi impresso em português e em alemão. O "Wanderpeiss", um bonito copo de metal, foi o primeiro troféu conquistado pelo tricolor gaúcho.

Nos primeiros seis anos de existência, o Grêmio jogou apenas 16 partidas, 15 contra o Fuss Ball e uma frente o S.C. Rio Grande, pois eram raros os adversários. Em 18 de julho de 1909, o Grêmio enfrentou pela primeira vez o recém fundado S.C. Internacional, aplicando uma goleada de 10 X 0, até hoje a maior da história do clássico.

O primeiro Gre-Nal teve cinco árbitros: Waldemar Bromberg, o principal; Castro Silva e Sommes, os bandeirinhas e Theobaldo Foergens e Theodoro Bugs os fiscais de gol, que ficavam sentados junto às traves para informar ao juiz se a bola passara por dentro, pois naquela época ainda não eram usadas redes nas goleiras.

O atacante Booth, do Grêmio, marcou o primeiro gol do clássico e também foi o primeiro jogador a tocar na bola na história do Gre-Nal, já que ele deu o pontapé inicial do jogo. O chute entrou para a história como o ponto de partida de uma rivalidade quase cenetenária.

A primeira divergência entre gremistas e colorados aconteceu antes do primeiro Gre-Nal. O Internacional, desafiante, queria pagar as despesas da festa de confraternização. O Grêmio insistiu em bancar os gastos e a polêmica só terminou diante da ameaça de cancelamento do jogo. O tricolor pagou a festa.

Ninguém sabe a autoria dos gols do Grêmio nas vitórias de 10 x 1 e 6 x 0 nos clássicos números três e quatro. Não há registros oficiais e nem os jornais informaram os goleadores. O Correio do Povo noticiou apenas o gol de Vinholes para o Inter.

O Gre-Nal número dois, disputado em 1910, já foi oficial. Valeu pelo primeiro campeonato municipal de Porto Alegre e o Grêmio venceu por 5 x 0. O jogo também teve uma novidade: redes nas goleiras, acabando com presença dos juizes de gol. O quinteto de arbitragem se transformou em trio, com o árbitro principal e os dois bandeiras.

Uma novidade apresentada no Gre-Nal número três, em 1911 gerou protesto dos torcedores: a cobrança de ingressos. A iniciativa foi do Grêmio, sob a justificativa de que precisava de dinheiro para cobrir as despesas de construção do novo pavilhão da Baixada.

As duas maiores goleadas do Gre-Nal aconteceram na primeira década do clássico e foram aplicadas pelo Grêmio: 10 X 0, em 1909, no jogo número um, e 10 x 1, em 1911, no número três.

O primeiro uniforme do Grêmio foi azul e havana. Em seguida o havana deu lugar ao preto, pois havia dificuldade para encontrar o tecido em quantidade suficiente. Por isso, até 1912 o uniforme se manteve nas cores azul e preto, quando começou a aparecer o branco em várias combinações. O modelo final da camiseta, tricolor em listras verticais azuis, pretas e brancas surgiu em 1929.

A Baixada, no bairro Moinhos de Vento foi o primeiro estádio do Grêmio, localizado ao lado de um antigo hipódromo. O terreno foi comprado da família Mostardeiro. A inauguração ocorreu no dia 4 de agosto de 1904. Os próprios associados ajudaram a limpar o terreno e posteriormente plantaram plátanos atrás da primeira arquibancada.

O primeiro campeonato de Porto Alegre vencido pelo Grêmio foi 1911, um ano depois da fundação da Liga de Porto Alegre. Em 1918, o Grêmio participou da fundação da Federação Gaúcha de Futebol, conquistando seu primeiro campeonato Gaúcho em 1921. A primeira viagem ao exterior aconteceu em 1936, quando jogou em Rivera, Uruguai, contra o Oriental Atletic Club. Porém um dos títulos mais festejados pelos torcedores gremistas na época foi o Campeonato da Cidade de 1935, em homenagem ao Centenário da Revolução Farroupilha.

O Grêmio virou o jogo nos últimos 5 minutos e em homenagem à heróica vitória, os jogadores decidiram que aquele título deveria ser comemorado por 100 anos. E, todos os anos, na mesma data, é realizado o "Jantar Farroupilha". Em 1961, foi a vez da primeira excursão à Europa. Foram 79 dias, onde o Grêmio disputou 24 jogos em 11 países. Mesmo com todas as glórias regionais, faltava ao Grêmio a consagração nacional. Em 1981, o clube chegou ao seu primeiro título nacional, derrotando o São Paulo por 1 X 0, em epeleno Morumbi, deixando mais de 100 mil torcedores emudecidos.

Em 1983, o Grêmio conquistou a Copa Libertadores da América, abrindo caminho para a conquista do maior título que um clube pode perseguir: o de campeão do Mundo. E no mesmo ano, o Grêmio foi até Tokio para vencer o Hamburgo e levantar a taça de Campeão Mundial. Depois disso ainda conquistou duas vezes a Copa do Brasil, em 1995 chegou ao Bicampeonato da Libertadores, e 1996 Bi-Campeão Brasileiro.

O Clube foi também campeão brasileiro em 1981 e 1996, da Copa do Brasil em 1989, 1994, 1997 e 2001. Na relação de títulos ainda se incluem 33 vezes em que obteve o campeonato de Porto Alegre. Até hoje, em 73 participações, o Grêmio foi campeão gaúcho 33 vezes, obtendo a sua maior série com o hepta (62-68). Além de ganhar a Copa Libertadores em 83 e 95, o Mundial de clubes em 1983, venceu diversos torneios internacionais.

A estrela dourada que tem no alto da bandeira gremista, acima do escudo, simboliza uma homenagem ao jogador Everaldo, campeão mundial pela Seleção Brasileira na Copa de 70, e que morreu num acidente de carro em 1974 quando percorria o interior gaúcho na sua campanha para deputado estadual. O Dodge Dart de Everaldo bateu de frente numa carreta que corria a 160 km/hora.

No dia 17 de setembro de 1916, dois dias depois de completar 13 anos de existência, o Grêmio chegou ao maior triunfo de sua história. Vencendo a grande Seleção do Uruguai por 2 X 1, no Estádio da Baixada, o Tricolor conquistava a Taça Rio Branco.

A maior Goleada do Grêmio Aconteceu dia 25 de Agosto de 1912, 23 X 0 sobre o Sport Club Nacional de Porto Alegre. O destaque da partida foi o jogador Sisson, que marcou 14 gols. (Pesquisa: Nilo Dias)
Time do Grêmio, em 1904 (Foto: Site do Grêmio)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Um novo rei no mundo do futebol

O artigo de hoje não é nenhum conto de “As Mil e uma Noites”, uma coletânea de fascinantes histórias inventadas e preservadas na tradição oral pelos povos da Pérsia e da Índia e que se tornaram célebres no mundo inteiro, pela pena do professor, educador, pedagogo, escritor e conferencista brasileiro Júlio César de Mello e Souza, nascido no Rio de Janeiro em 6 de maio de 1895, que se valia do pseudônimo Malba Tahan, para assinar suas obras.

Mas bem que poderia ser. O mundo do futebol acaba de conhecer um novo, rico, poderoso e surpreendente personagem, Sulaiman Al Fahim, um homem de negócios de Dubai, membro da família real de Abu Dhabi e representante do fundo de investimento Abu Dhabi United Group (ADUG), que comprou o tradicional clube inglês Manchester City por 245 milhões de euros, duas vezes e meia o montante pago pelo ex-primeiro ministro tailandês Thaksin Shinawatra, há um ano. Este permanecerá como presidente honorário, sem qualquer responsabilidade administrativa.

Aos 31 anos, Sulaiman Al Fahim, que estudou nos Estados Unidos e se especializou em gestão de bens imobiliários, já conta com uma fortuna colossal. E foi justamente no mercado imobiliário que consolidou sua riqueza, a frente do grupo “Hydra Properties”, construtor de vários complexos hoteleiros de luxo e com participação em diversos conselhos de administração de empresas dos mercados imobiliário e financeiro. De acordo com a revista “Arabian Business”, Al Fahim é hoje a décima sexta personalidade árabe mais influente. É presença assídua em Hollywood, onde gosta de ser fotografado ao lado de estrelas do cinema.

Por ser dono de um programa televisivo e face à semelhança do seu realty show com o “The Apprentice”, do multimilionário norteamericano, o dono do Manchester City já foi apelidado pela imprensa britânica de o “Donald Trump” do Golfo Pérsico, que chegou para ameaçar a liderança dos “Big Four”, os quatro grandes clubes ingleses: Manchester United, Chelsea, Liverpool e Arsenal.

Sulaiman Al Fahim sempre gostou de esportes. É o atual presidente da Federação de Xadrez dos Emirados e membro de honra do clube de futebol Al-Ain. Além disso, sua empresa, a “Hydra Properties” pretende construir uma academia de futebol nos Emirados, em parceria com a Inter de Milão.

O rei do deserto não está para brincadeiras, com sua fortuna a engrossar nas areias e nos mercados de capitais. Tem “chumbo grosso”, como diz o ditado para aplicar no Manchester City e torná-lo o mais forte clube da “Premier League”. A compra do atacante brasileiro Robinho, pela fortuna de 32,5 milhões de libras (42 milhões de euros), cerca de R$ 90 milhões, já deixou os adversários em posição de alerta. O ex-atacante do Santos, que não queria mais saber do Real Madrid, da Espanha, transformou-se da noite para o dia no jogador com o maior salário no mundo do futebol, 160.000 libras por semana (cerca de 211.000 euros).

Se alguém acha que é muito, está enganado. Os novos proprietários do City ambicionam muito mais, e querem o principal jogador do rival Manchester United, o craque português Cristiano Ronaldo, por quem estão dispostos a desembolsar a astronômica quantia de 135 milhões de libras (cerca de 178 milhões de euros). É voz corrente que o bilionário árabe é dono de uma fortuna 10 vezes maior que o patrimônio do russo Roman Arkadyevich Abramovich, proprietário do Chelsea. Com tamanho argumento no bolso, quem sabe em janeiro, quando reabrir o período de transferências, Cristiano Ronaldo não esteja vestindo uma nova camisa.

Na lista de compras do magnata estão ainda nomes como Fernando Torres (Liverpool), Fabregas (Arsenal), Ronaldo (ex-Milan), Messi e Henry (Barcelona), Kaká (Milan), David Villa (Valência), Mário Gomes (Estugarda) e Berbatov (Manchester United). No atual elenco do time da cidade de Manchester jogam, além de Robinho, outros três brasileiros: o zagueiro Glauber, o meio campista Elano e o atacante Jô.

O Manchester City FC foi fundado no ano de 1800, na cidade de Manchester, com o nome de West Gorton Saint Marks. Em 1887 mudou a denominação para Ardwick FC e finalmente Manchester City FC em 1894. Seu estádio é o City of Manchester Stadium, com capacidade para 47.726, que substituiu o anterior Maine Road, que antes de ser demolido, comportava menos de 40 mil torcedores. O atual estádio foi construído para os Jogos Olímpicos de 2000, mas a cidade perdeu a disputa com Sydney. Foi utilizado posteriormente nos Jogos da Commonwealth de 2002 e cedido ao Manchester City.

Além de ter conquistado duas vezes o Campeonato Inglês (1936/1937 e 1967/1968) , o Manchester City foi campeão da Copa da Inglaterra em quatro ocasiões (1903/1904, 1933/1934, 1955/1956 e 1968/1969), da Copa da Liga duas vezes (1969/1970 e 1975/1976, sua última conquista), da Supercopa da Inglaterra três vezes (1937, 1968 e 1972). No âmbito internacional foi campeão da Recopa Européia (1969/1970).

O Manchester City já enfrentou um time brasileiro. Foi no Troféu Joan Gamper de 1982, quando perdeu para o S.C. Internacional, de Porto Alegre, por 3 X 1. o clube gaúcho sagrou-se campeão da competição.

Que se preparem os torcedores ingleses. É bem provável que breve outro tradicional clube inglês siga os passos do Manchester City. Com dinheiro sobrando e em falta de melhores aplicações, os fundos soberanos de Dubai a um ano tentam comprar o Liverpool. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O poderoso Sulaiman Al Fahim , o dono do Manchester City (Foto: Hydra Properties)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Operários fundaram o S.C. Corinthians Paulista

Operários fundaram o S.C. Corinthians Paulista
O S.C. Corinthians Paulista, uma das mais tradicionais e populares agremiações futebolísticas do país, completa hoje 98 anos de fundação. Mesmo com o clube buscando saída para uma séria crise administrativa, que vem enfrentando desde o ano passado, os torcedores têm bons motivos para comemorar tão auspiciosa data: a diretoria não tem poupado esforços para recolocar o “timão” no seu devido lugar. O retorno à elite do futebol brasileiro é só uma questão de tempo. O time lidera absoluto a Série B e não tem tomado conhecimento dos adversários.

O Corinthians tem origem humilde. Nasceu no meio do povo. Os trabalhadores da São Paulo Railway, Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, César Nunes, Rafael Perrone, Anselmo Correia, Alexandre Magnani, Salvador Lopomo, João da Silva e Antônio Nunes decidiram fundar um clube de futebol de raízes populares.

Para tal, sobre a luz de um lampião de gás foi realizada uma reunião no dia 01 de setembro de 1910, às 20h30min, frente a uma confeitaria, localizada na casa de número 34 da avenida dos Imigrantes (hoje José Paulino), na esquina da rua Cônego Martins, no Bom Retiro. O hoje importante bairro comercial da metrópole, na época era uma área operária, onde moravam milhares de trabalhadores da São Paulo industrial do começo do século XX. A população era na maioria formada por imigrantes italianos, portugueses e espanhóis. Para essa reunião foram convidados vários outros desportistas que mostraram interesse pela idéia, entre eles Miguel Bataglia, funcionário da Light e primeiro presidente do clube.

As coisas começavam a andar, mas era preciso definir algumas situações, como o nome do novo clube. Sugestões não faltaram: Santos Dummont, Carlos Gomes e até Guarani, mas nenhum agradou. Foi então que o pintor Joaquim Ambrósio teve a idéia de homenagear o time de estudantes ingleses, Corinthian Casuals Football Club (homenagem à cidade grega de Corinto), que excursionava por São Paulo e Rio de Janeiro. Nos jogos que disputou no antigo estádio do Velódromo (na área do bairro da Consolação), esse time encantou muita gente pela beleza de seu futebol, inclusive Ambrósio. Na mosca. Não havia escolha melhor. A letra "s" foi acrescentada ao nome, e o clube passou a chamar-se Corinthians.

O curioso é que o clube inglês também foi fundado à luz de um lampião de gás, mas com uma diferença enorme: seus fundadores eram alunos de Oxford e Cambridge, universidades freqüentadas por pessoas da elite inglesa, geralmente filhos de burgueses. O novo Corinthians Paulista seria o oposto dessa situação, um clube de gente pobre e humilde. Tanto é verdade que a primeira bola do time foi comprada por 6 mil réis, dinheiro arrecadado em uma lista que passou de casa em casa pelo bairro.

Agora só faltava entrar em campo. E isso aconteceu pela primeira vez em 10 de setembro, apenas 10 dias após a fundação. O adversário foi o União da Lapa, destacada equipe da várzea paulistana. Era esperada uma goleada, até porque o jogo seria fora de casa, mas isso não aconteceu, o resultado foi apenas 1 X 0, aclamado como se fosse uma vitória. No segundo jogo, realizado quatro dias depois, a primeira vitória: 2 X 0 sobre o Estrela Polar. O autor do primeiro gol da história corinthiana foi o atacante Luis Fabi. E seguiram-se dois anos de invencibilidade.

Ganhando fama de verdadeiro “bicho-papão”, o número de torcedores cresceu bastante. Eles vinham de várias partes da cidade, não só do Bom Retiro.

Muitos dos primeiros sócios e torcedores do Corinthians eram imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, que às vezes não tinham dinheiro para pagar a mensalidade, devido à sua situação financeira, mas sempre davam um jeito de acertar as contas. E alguns dos jogadores que passaram pelo clube no seu início, também, como o espanhol Casemiro Gonzáles, o português Horácio Coelho e o italiano Américo Fraschi.

Hoje em dia a situação mudou pouco: os torcedores são de todas as classes, mas a maioria é da camada mais pobre da população. O clube tem a segunda maior torcida do país, ficando atrás apenas do Flamengo. Já os sócios do clube atualmente são, em maioria, da classe média paulista, e não da massa proletária, como antes. Até a localização do clube mudou: hoje está no Tatuapé, bairro de classe média.

Com os bons resultados dentro de campo, a diretoria começou a pensar em vôos mais altos: disputar o Campeonato Paulista de 1913. A Liga Paulista resolveu dar uma chance, mas o Corinthians teria que disputar uma eliminatória contra o Minas Gerais e o São Paulo do Bexiga. Não deu outra, dois jogos, duas vitórias, 1 X 0 no Minas Gerais e 4 X 0 no São Paulo do Bexiga e o direito de disputar o Paulistão.

A estréia oficial não foi boa, uma derrota para o Germânia, por 3 X 1. Joaquim Rodrigues fez o gol corinthiano, o primeiro em partidas oficiais, escrevendo seu nome na história do clube. Nessa primeira experiência, o “Timão” acabou o campeonato em quarto lugar. No segundo ano, em 1914, o Corinthians começou a mostrar para que veio. Foi campeão com uma campanha espetacular: 10 jogos e 10 vitórias, com 39 gols marcados e goleadas que não acabavam mais. Neco, com 12 gols se sagrou o artilheiro da competição. Começava assim a bonita história futebolística do Sport Club Corinthians Paulista, o mais brasileiro dos clubes.

Nos primeiros tempos, como consta em ata, o clube oferecia aos sócios pic-nics, saraus, torneios de ping-pong e matchs (partidas) de futebol. O Corinthians nunca foi só futebol. Inclusive, a primeira taça conquistada pelo clube veio do pedestrianismo em 1912, quando três competidores corintianos chegaram nas três primeiras colocações na prova disputada no estádio do Parque Antártica.

Os anos se passaram, muitos títulos e situações aconteceram na vida desse grande clube, como a bola quadrada até hoje guardada no clube, que foi jogada em campo não se sabe por quem. Outro caso é do torcedor José da Costa Martins que, na década de 20, a cada gol que o Corinthians marcava acendia um charuto. Por isso ele ficou conhecido como torcedor "mosqueteiro corinthiano" (mascote do time), que está sempre fumando um charuto.

E tem a história de Manuel Nunes, o Neco, primeiro grande craque e maior ídolo corintiano nestes 98 anos. Antes de jogar no time, quando era apenas um torcedor ele participou de um episódio inusitado, que ajudou o Corinthians a se manter vivo. O clube, em seus primeiros anos de vida passava por difícil situação financeira, não conseguindo pagar o aluguel da pequena sede. O dono trancou as portas com tudo o que havia de patrimônio do clube dentro, inclusive as primeiras atas e a Taça Unione Vigiatori Italiani, o primeiro troféu.

Tudo seria perdido se não fosse Neco e alguns amigos que na calada da noite arrombaram a sede pela janela, e retiraram todos os pertences do clube. Poucos anos depois, ele se tornaria um dos maiores jogadores da história do Corinthians.

O Corinthians sempre enfrentou preconceitos. No início, porque era um time de operários, hoje pela rivalidade que tem com outros clubes paulistas e brasileiros. Sabe-se que um dos primeiros jogadores negros do futebol brasileiro, Davi, jogou no Corinthians, mas somente no segundo quadro, pois se fosse titular o clube dificilmente seria aceito no campeonato.

Mesmo assim, em 1915 o Corinthians foi excluído do campeonato paulista, embora tenha sido o campeão em 1914. Os grandes times paulistas estavam divididos, entre duas ligas: a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA) e a Liga Paulista de Futebol (LPF). A primeira convidou o Corinthians a participar de seu campeonato de 1915, por interesses financeiros. Então, o alvinegro saiu da LPF e foi à APEA, mas, na hora de competir, não foi aceita sua participação, e também não pôde voltar à LPF, ficando fora dos dois campeonatos.

O preconceito existente no início da história corintiana se devia ao fato da elite paulistana, participar de clubes grandes, como o Paulistano, São Paulo Athletic e Mackenzie, e não aceitar que em seus campeonatos, se inserisse pessoas da classe mais baixa. E muito menos perder para um time de bairro, formado por operários que muitas vezes eram seus subordinados. Isso deixava os elitistas muito irritados, a ponto de tentarem tirar o clube das competições.

O Corinthians cresceu até chegar aos dias de hoje como uma das maiores forças do futebol brasleiro. E continua a derrubar preconceitos e a enfrentar dificuldades, mas vencendo todas, uma a uma. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
(Foto: site www.corinthians.com.br)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O futebol perde seu “Xerife”

O futebol brasileiro está de luto. Faleceu na madrugada da última terça-feira (26), no Rio de Janeiro, o ex-zagueiro Moisés Mathias de Andrade, o Moisés, aos 60 anos de idade, vitima de câncer pulmonar. O sepultamento foi no mesmo dia, no cemitério São João Batista, em Botafogo. Jogador viril, daqueles que não brincava em serviço, Moisés ganhou o apelido de “Xerife”, que a imprensa credita a todos os zagueiros que jogam de maneira dura e viril. Mas ele mereceu mais do que qualquer outro, tal rótulo. Foi de sua autoria a frase que se tornou famosa: “Zagueiro que se preza não pode ganhar o Belfort Duarte" (prêmio dado a jogadores que não são expulsos num período de 10 anos).

O ex-jogador não concordava em ser taxado de violento e se defendia dizendo que o zagueiro tinha que impor respeito, marcar duro, nunca deslealmente. E até que Moisés tinha certa razão, pois em sua passagem de dois anos pelo Corinthians foi expulso de campo apenas em duas oportunidades. Apesar do estilo duro em campo, fora dele era conhecido pelo bom humor. Gostava muito de Carnaval e ajudou a fundar o "Bloco das Piranhas", no qual jogadores de futebol desfilavam vestidos de mulher por ruas da Zona Norte do Rio.

Moisés nasceu em Rezende (RJ), em 10 de janeiro de 1948. Era casado com dona Eliete e tinha três filhos, todos adultos, Moisés, Vanessa e o caçula Iaponã, lateral-direito que jogou o último campeonato carioca da 2ª Divisão de Profissionais pelo Guanabara.

Antes de se tornar jogador de futebol, trabalhou no Banco Nacional, agência Rocha Miranda, na década de 60. A carreira de jogador teve início no Bonsucesso. Depois jogou pelo Botafogo, Vasco, Fluminense, Corinthians, Paris Saint-Germain, Flamengo, Portuguesa e Bangu, onde encerrou a carreira no começo da década de 1980. Em 1973 foi convocado por Zagalo e disputou uma partida amistosa pela seleção brasileira, contra a União Soviética no dia 21 de junho de 1973, em Moscou (1 a 0 Brasil). Fez aparte da lista de 40 convocados para a Copa do mundo de 1974, mas não chegou a estar entre os 22.

Moisés dizia que o melhor momento de sua carreira foi no Vasco da Gama, onde chegou em 1971 emprestado pelo Botafogo, que havia contratado o tricampeão Brito junto ao Cruzeiro para formar a zaga com Leônidas. O treinador vascaíno era Paulo Amaral. A defesa se constituía no ponto fraco do time, que ia mal no campeonato carioca. A chegada de Moisés arrumou o setor, e o Vasco melhorou na competição que tinha como atração o Olaria com uma equipe que enfrentava os grandes com igualdade, sob o comando de Afonsinho.

Pois foi o Vasco que tirou a invencibilidade do Olaria, numa noite de quarta feira com gol de Valfrido. Tendo se firmado na zaga do time e arrumado a casa, Moisés foi contratado em definitivo, formando com Renê, Miguel e Joel Santana, por alguns anos a zaga cruzmaltina. Em 1974 conquistou o primeiro título brasileiro pelo Vasco, juntamente com Roberto “Dinamite”. Saiu no início de 1976 para o Corinthians, onde participou da histórica conquista do título paulista de 1977, que interrompeu um jejum de 23 anos. No alvinegro paulista disputou 122 jogos, entre 1976 e 1978.

Da experiência que teve fora do país, no Paris Saint-Germain, onde ficou seis meses, Moisés não guardava boas recordações. Foi o primeiro zagueiro brasileiro a jogar pelo tradicional clube parisiense, antes mesmo de Abel Braga. Não se adaptou ao rigoroso inverno europeu e a solidão, pois era o único jogador brasileiro no grupo. Por isso retornou ao Brasil para defender o Flamengo. O ex-zagueiro contou que naquela época o futebol francês era fraco, o público nos estádios era pequeno e os clubes não pagavam grande coisa.

Depois que encerrou a carreira no Bangu, começou a dirigir o próprio clube em 1983, e ajudou o time carioca a viver um dos seus melhores momentos, em 1985, quando foi vice-campeão brasileiro e estadual, num time que tinha Mário (ex-Vasco), Marinho, Arturzinho e Ado. Moisés e os torcedores banguenses nunca se conformaram com os segundos lugares e garantiam que tudo aconteceu de forma premeditada.

Contra o Coritiba o Marinho recebeu a bola logo depois do meio-campo, entrou cara a cara e fez o gol. O bandeirinha não anulou, mas o juiz marcou impedimento. A decisão do Brasileirão foi para os pênaltis e o Coritiba venceu. Já no Estadual contra o Fluminense o zagueiro Vica, do tricolor agarrou o atacante Claudio Adão na área, um pênalti claro. Mas o árbitro José Roberto Wright não marcou, dizendo que já havia encerrado o jogo.

O Bangu era presidido na época pelo polêmico bicheiro Castor de Andrade, que pagava o “bicho” aos jogadores dentro do próprio vestiário, após os jogos. Ele abria uma maleta e distribuía o dinheiro. Os outros clubes depositavam na conta (quando isso ocorria). Além do técnico Moisés, a Comissão Técnica do clube alvirrubro contava com ex-jogadores famosos nos anos 1960-70. O supervisor era o ex-lateral-direito Neco (Bangu e Cerro Porteño); o treinador de goleiros era o ex-quarto-zagueiro Paulo Lumumba (Grêmio e Fluminense), e o assistente técnico era o ex-lateral-esquerdo Alfinete (Olaria e Vasco).

Do Bangu foi para o Santa Cruz de Recife e depois Ceará, de onde seguiu para Portugal, onde por três anos treinou o Belenenses. Voltou ao Brasil para comandar o Atlético-MG e o América (RJ), e ainda trabalhou sete anos nos Emirados Árabes. Também treinou a equipe da Cabofriense, de Cabo Frio (RJ), onde ficou sete anos.

Ultimamente, sem clube para treinar, e já com problemas de saúde, Moisés dividia seu tempo em duas novas atividades: jogando tênis na quadra do Condomínio Quebra-Mar, na Barra da Tijuca, onde morava ou em uma pescaria na praia do mesmo bairro.

Os títulos conquistados foram poucos: como jogador, campeão paulista de 1977 pelo Corinthians, e como treinador vice-campeão brasileiro e vice-campeão carioca de 1985, pelo Bangu. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Moisés, o "Xerife", deixou história (Foto: Site do C.R. Vasco da Gama)

domingo, 24 de agosto de 2008

Um clube com muita história (Final)

Para esta parte final da bonita história do C.R. Vasco da Gama, juntei alguns acontecimentos e curiosidades bastante interessantes, que marcaram estes 110 anos de vida do “Gigante da Colina”.

Quem assiste jogos do Vasco da Gama, em São Januário, ou qualquer outro estádio, com certeza já ouviu os torcedores cantando o refrão “Casaca, casaca, casa-casa-casaca! A turma é boa, é mesmo da fuzarca! Vasco! Vasco! Vasco!”. O canto surgiu por inspiração de um negociante de nome João de Lucas, torcedor apaixonado, que foi também o fundador da Torcida Organizada do Vasco (TOV). Ele comemorava as vitórias vascaínas em reuniões festivas junto a torcedores das mais diversas classes sociais. Entre eles, conhecidos membros da elite carioca, que exibiam impecáveis casacas. Em homenagem a eles, João criou aquilo que viria com o tempo se tornar um verdadeiro grito de guerra do clube.

O ano de 1931 reservou algumas alegrias históricas aos torcedores do Vasco. No campeonato carioca, o time impôs a maior goleada da história do clássico contra o Flamengo, um acachapante 7 X 0. Mas o fato mais importante foi a vitoriosa excursão à Europa, mais precisamente a Portugal e Espanha. O clube da Cruz de Malta se tornou o segundo clube brasileiro e o primeiro carioca a jogar no continente europeu. O primeiro, foi o Paulistano, de São Paulo.

Em 12 partidas disputadas, o Vasco venceu oito, empatou uma e perdeu três. Marcou 45 gols e sofreu apenas 18. A viagem abriu as portas para a contratação dos jogadores vascaínos, Fausto e Jaguaré pelo Barcelona da Espanha.

Em 1935, a rivalidade Vasco e Flamengo se acirrou. Um desentendimento ocorrido em disputas de remo, fez com que o Vasco abandonasse a Liga e junto com o Botafogo criasse a Federação Metropolitana de Desportos (FMD), que se filiou à Confederação Brasileira de Desportos (CBD). A briga durou dois anos. Em 1937 veio a reconciliação, graças à iniciativa dos presidentes do Vasco e do América, respectivamente Pedro Pereira Novaes e Pedro Magalhães Corrêa.

No dia 29 de julho uma nova entidade foi fundada, a Liga de Football do Rio de Janeiro, que uniu todos os médios e grandes clubes. O acontecimento não poderia passar em branco, por isso Vasco e América realizaram um jogo comemorativo no Estádio de São Januário, no dia 31 do mesmo mês, perante um público recorde. A partir daí o confronto entre os dois clubes passou a ser chamado de “Clássico da Paz”.

Em 1945 o Vasco contratou alguns jogadores que fizeram história no clube: Augusto, zagueiro do São Cristóvão, Eli, médio vindo do Canto do Rio, Danilo, centro-médio oriundo do América, Ademir, destaque do Sport Recife e Lelé, Isaías e Jair, os “Três Patetas”, do Madureira. O técnico era o uruguaio Ondino Vieira, que antes dirigiu a equipe argentina do River Plate. E inspirado no uniforme de seu antigo clube, pediu a direção do Vasco que acrescentasse uma faixa diagonal branca nas camisas pretas, até então usadas. E, para os dias mais quentes do verão carioca, um modelo branco, que absorvesse menos calor, com a faixa preta. Terminava assim a era dos “camisas pretas” e começava a trajetória do “Expresso da Vitória”, que virou o livro “O Expresso da Vitória, uma história do fabuloso Club de Regatas Vasco da Gama”, de autoria de Abraham B. Bohadana.

A denominação “Expresso da Vitória” surgiu num programa esportivo e musical da Rádio Nacional, que contou com a participação de Lamartine Babo, entre outros. Lá pelas tantas, um cantor, ao se apresentar, disse que dedicaria a música ao Vasco, o “Expresso da Vitória”, um time que atropelava os adversários em campo.

O ataque vascaíno era espetacular: Djalma, Maneca, Friaça (Dimas), Lelé (Ismael) e Chico. O treinador era Flávio Costa, tricampeão carioca (1942, 1943 e 1944) pelo Flamengo. No Estadual, um passeio. Foram marcados 68 gols em 20 jogos. No primeiro turno desse campeonato, o Vasco ganhou do Canto do Rio por 14 X 1, até hoje a maior goleada da fase profissional do futebol carioca. No jogo mais difícil, contra o Botafogo de Heleno de Freitas, um empate sem gols garantiu o título ao Vasco. O “Expresso” terminou o campeonato invicto, com sete pontos à frente do alvinegro.

O ano de 1948 foi muito especial, pois o Vasco, na condição de campeão do Distrito Federal em 1947, foi convidado pelo Colo Colo, do Chile para participar do Torneio dos Campeões Sul-Americanos, em Santiago, que teve a participação de grandes potências do futebol mundial, como o River Plate de Di Stéfano. Os brasileiros não tomaram conhecimento dos adversários e foram campeões invictos. Um dos destaques na conquista foi a goleada de 4 X 0 sobre o temido Nacional, do Uruguai, do artilheiro Atílio Garcia. Esse foi o primeiro título internacional do futebol brasileiro, seja de clube ou seleções.

Em 1949, com a contratação do atacante Heleno de Freitas, o Vasco passou por cima de seus oponentes, com goleadas históricas. Foram 84 gols em apenas 20 jogos, e mais um título invicto, ainda sob o comando de Flávio Costa. A supremacia vascaína sobre os demais clubes era tão grande, que em 1950 a seleção titular brasileira, que perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai, contava com cinco craques cruzmaltinos: Barbosa, Augusto, Danilo, Chico e o artilheiro da Copa do Mundo, o grande ídolo Ademir Marques de Menezes, o “Queixada”.

Em 1953, veio a renovação do elenco, surgindo valores como Vavá, Bellini, Sabará e Pinga. Até 1957 o Vasco ainda conquistou muitos títulos importantes: dois estaduais (1956 e 1958), o Torneio Rio-São Paulo (1958), a Pequena Copa do Mundo (Venezuela-1957), quando enfrentou clubes como o Real Madrid, Roma e Porto. No mesmo ano venceu o Real Madrid por 4 X 3, na final do Torneio de Paris e também o Barcelona por 7 X 2, em pleno Estádio Camp Nou.

Em 1958, quando da primeira conquista mundial para o Brasil, o Vasco cedeu a seleção os jogadores Bellini, Orlando e Vavá. A honra de levantar a “Taça” pela primeira vez, coube ao zagueiro e capitão do time, o vascaíno Hilderaldo Bellini, que ergueu com as duas mãos e sobre a cabeça, a “Taça Jules Rimet”, num gesto que se tornou famoso e acabou sendo copiado por todos os capitães de seleções campeãs do mundo.

Depois de 1958, o Vasco só viria a conquistar mais um título importante em 1966, o Torneio Rio-São Paulo, dividido com outros clubes. Os anos 60 marcaram uma profunda crise no clube que só acabaria em 1969. Nos anos 70 o time começou a reagir, com o título estadual de 1970 e o surgimento do maior ídolo da história do clube, Roberto Dinamite. Nessa época o Vasco alcançou brilhantes conquistas, como o Campeonato Brasileiro de 1974 e o estadual de 1977.

Durante a década de 80 o Vasco ganhou três títulos estaduais e o bicampeonato brasileiro. Em 1989, montou um time que ficou conhecido como “SeleVasco”, com destaque para Bebeto, contratado junto ao rival Flamengo. O Vasco foi campeão derrotando o São Paulo em pleno Morumbi, por 1 X 0. Os anos 90 marcaram a despedida de Roberto Dinamite em 1993. Em 1992, 1993 e 1994, a conquista do tricampeonato estadual, e em 1997, o tricampeonato brasileiro.

E veio o ano de 1998, e com ele o centenário do Clube e uma homenagem da Escola de Samba Unidos da Tijuca, no Carnaval carioca. O samba-enredo se imortalizou, e até hoje é cantado pelos torcedores do Vasco em dias de jogos. A conquista da Copa Libertadores da América aconteceu apenas cinco dias após o aniversário. Pena que a festa não foi completa, pois o time perdeu o Mundial Interclubes, para o Real Madrid, da Espanha.

No ano seguinte ao centenário, o Vasco conquistou o Torneio Rio-São Paulo e em 2000, o tetracampeonato brasileiro e a Copa Mercosul. Os anos seguintes foram de poucas alegrias para a torcida, com exceção de 2003, quando venceu seu 22° campeonato estadual. Desde então, o Vasco amarga um longo jejum de títulos.

Confira as principais conquistas do Vasco ao longo da história: campeão estadual (1923, 1924, 1929, 1934, 1935, 1945, 1947, 1949, 1950, 1952, 1956, 1958, 1970, 1977, 1982, 1987, 1988, 1989, 1992, 1993, 1994 e 2003); Campeão Sul-Americano (1948); Campeão do Troféu Teresa Herrera (1957); Campeão do Torneio Rio-São Paulo (1958, 1966 e 1999); Campeão Brasileiro (1974, 1997 e 2000); Campeão da Copa Mercosul (2000); Campeão da Taça Libertadores da América (1998) e Campeão da Copa João Havelange (2000), com o mesmo valor de Campeão Brasileiro. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O fabuloso "Expresso da Vitória" (Foto: Acervo do C.R. Vasco da Gama)

sábado, 23 de agosto de 2008

A construção do Estádio de São Januário (3ª Parte)

Os adversários não desistiram de tirar o Vasco das disputas oficiais. Como isso não era possível pelo regulamento da Liga Metropolitana, resolveram criar uma outra entidade para dirigir o futebol carioca, a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (Amea). Todos os chamados “grandes” foram aceitos, menos o Vasco e por um argumento muito frágil: os jogadores cruzmaltinos teriam profissões duvidosas e o seu estádio não apresentava as melhores condições para sediar jogos.

Sobre o campo da Rua Morais e Silva, até que as reclamações tinham fundamento, pois realmente não oferecia uma boa estrutura. Mas o problema principal, era outro. Para aceitar o Vasco como filiado a Amea queria que o clube excluísse 12 de seus jogadores, todos negros e operários. Naturalmente, que o Vasco não aceitou. O presidente do clube, José Augusto Prestes enviou uma carta histórica ao presidente da Amea, Arnaldo Guinle, nos seguintes termos:

"Estamos certos de que Vossa Excelência será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno de nossa parte sacrificar, ao desejo de filiar-se à Amea, alguns dos que lutaram para que tivéssemos, entre outras vitórias, a do Campeonato de Futebol da Cidade do Rio de Janeiro de 1923". E prosseguiu defendendo seus atletas. "São 12 jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de suas carreiras. Um ato público que os maculasse nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles com tanta galhardia cobriram de glórias". E finalizou, decidindo não entrar na nova entidade: "Nestes termos, sentimos ter de comunicar a Vossa Excelência que desistimos de fazer parte da Amea".

Fora da disputa com os “grandes”, nada mais restou ao Vasco, senão disputar com outros 21 times de menor expressão, o campeonato da então desvalorizada Liga Metropolitana de Desportos Terrestres. O clube era vítima do racismo e da falta de um estádio em melhores condições. Contra adversários fracos, os cruzmaltinos alcançaram dezesseis vitórias, sem nenhum empate ou derrota. No triangular final uma goleada de 5 X 0 sobre o Andaraí e uma vitória simples frente o Bonsucesso, garantiram o bicampeonato.

O Vasco ficou fora da Amea, por apenas um ano. Em 1925, por intervenção do dirigente botafoguense Carlito Rocha, que foi o juiz da polêmica partida contra o Flamengo, em 1923, o clube da Cruz de Malta foi aceito na entidade maior do futebol carioca. Para isso, teve que mandar seus jogos no campo do Andaraí, onde é hoje o Shopping Iguatemi. O episódio serviu para motivar os dirigentes vascaínos a construir um moderno estádio para a prática do futebol.

Foi lançada uma campanha para arrecadar fundos entre os associados e simpatizantes. Como o time se saiu muito bem no certame de 1925, sendo terceiro colocado com 13 vitórias, três empates e duas derrotas, e em 1926, melhor ainda, vice-campeão, com 14 vitórias em 18 jogos, não foi difícil conseguir apoio para o ambicioso projeto do estádio.

Em pouco tempo foram arrecadados Cr$ 690.895.00, dinheiro suficiente para a compra de uma área de 55.445 metros quadrados, no bairro de São Cristóvão, cuja escritura de compra foi lavrada no cartório do 18º Ofício, dia 28 de março de 1925. O segundo passo parecia mais difícil, buscar recursos na ordem de 2 mil contos de réis para construir o estádio. Os torcedores responderam positivamente e em pouco mais de um ano as obras tiveram início.

O Vasco ainda teve que enfrentar um sério problema: o presidente da República, Washington Luís, não autorizou a importação de cimento belga, que fora utilizado na construção do Jockey Club, mesmo sabendo que o Brasil ainda não dispunha do produto em quantidade suficiente para grandes obras. E aí a criatividade falou mais alto, os responsáveis pela obra encontraram a solução do problema com a mistura de cimento, areia e pedra britada.

Por isso, São Januário acabou se tornando mais do que um estádio, mas também um marco na história da construção civil do país. Dez meses depois do lançamento da pedra fundamental, em 21 de abril de 1927 era festivamente inaugurado o Estádio de São Januário, com a presença do Presidente da República, Washington Luís, o mesmo que antes havia dificultado a construção. Foi o comandante Sarmento de Beires, que acabara de cruzar o Atlântico no avião chamado Argos, percorrendo pela primeira vez o trajeto Lisboa - Rio, quem cortou a fita simbólica, dando por inaugurado o estádio de São Januário.

O jogo inaugural foi entre Vasco da Gama X Santos, com vitória dos visitantes, na época a maior potência do futebol paulista, por 5 X 3. Naquele dia o clube dos portugueses, negros e operários começava uma nova trajetória dentro do futebol brasileiro. O Vasco da Gama era dono do maior estádio do país, com capacidade para 40 mil torcedores, condição que durou 14 anos, até que em 1941, foi inaugurado o Pacaembu, em São Paulo.

São Januário foi palco de históricos acontecimentos. Em março de 1928, quando do jogo contra o Wanders, do Uruguai, na inauguração dos refletores e de uma arquibancada, o Vasco venceu por 1x0, com um gol feito na cobrança de córner através do jogador Santana, entrando direto no gol uruguaio. Não há notícia anterior de um gol olímpico no Brasil. A jogada aconteceu pela primeira vez num confronto entre Uruguai e Argentina.

O Complexo Esportivo-social de São Januário, além do estádio propriamente dito, conta com: Parque Aquático, inaugurado em 30 de agosto de 1953, composto de quatro piscinas, uma olímpica, outra para saltos ornamentais e duas pequenas, para o aquecimento dos atletas. Vestiários, uma estação para tratamento de água e uma sala de musculação. O Parque Aquático do Vasco da Gama sediou em 1998 uma etapa da Copa do Mundo de Natação, a primeira disputada no Brasil, como parte das comemorações do Centenário do clube.

Ginásio Poliesportivo, inaugurado em 23 de setembro de 1956, com capacidade para 2,5 mil torcedores. Quadra oficial para as partidas das equipes de futsal, basquete e handebol do clube. Capela de Nossa Senhora das Vitórias, Padroeira do Clube, inaugurada em 15 de agosto de 1955. Nela são celebradas Missas, batizados e casamentos. Salão de Troféus, lugar onde se encontram todas as glórias e conquistas do Vasco da Gama. São cerca de seis mil troféus, taças, medalhas, bronzes, copas, faixas, placas, flâmulas, diplomas, fotos e relíquias. Além de quadras poliesportivas, sede administrativa, restaurante, loja de materiais do clube e hotel-concentração para atletas;

O patrimônio do Vasco da Gama vai muito além de São Januário. O clube é dono da Sede Náutica da Lagoa, inaugurada em 18 de agosto de 1950. Foi construída devido à necessidade do clube de ter uma sede para abrigar os esportes náuticos quando as regatas passaram a ser disputadas na Lagoa. Além do salão de festas, usado para as reuniões do conselho deliberativo do clube, a sede é também garagem dos barcos usados nos treinos e competições de remo. Conta com três pavimentos, um subsolo e um terraço, carpintaria para construção e conservação de barcos, garagem de barcos, sala de musculação, alojamento para 40 atletas e a administração. Situa-se às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, no bairro da Lagoa. Possui em suas paredes externas, uma composição de azulejos de Burle Marx.

Calabouço: antiga sede náutica do clube, hoje destinada ao lazer dos associados, que conta com piscina, duas saunas, quadras esportivas, área de recreação infantil, salão de festas, departamento médico, administração e um restaurante. Situa-se ás margens da Baía da Guanabara na ponta do Calabouço, no centro do Rio de Janeiro, próximo ao Aeroporto Santos Dumont e ao Museu de Arte Moderna.

Centro de Treinamento Almirante Heleno Nunes. Terreno situado às margens da Rodovia Washington Luís, onde o clube projeta e inicia a construção de seu centro de treinamento, que terá diversos campos de futebol, dois ginásios e um hotel-concentração. Parte do terreno é área de preservação ambiental, devido às suas características naturais. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Foto histórica da inauguração do Estádio de São Januário (Foto: Acervo do C.R. Vasco da Gama)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A era do futebol no Vasco da Gama (2ª parte)

O futebol só chegou ao Vasco em 1915. O novo esporte, trazido da Inglaterra começou de maneira tímida nos campos cariocas. Em 1913, um combinado português realizou alguns jogos amistosos no Rio a convite do Botafogo. Mesmo não tendo ido bem, o time visitante empolgou a colônia lusa que, em pouco tempo, formou alguns clubes para a prática da modalidade esportiva: fora, o “Centro Esportivo Português”, o “Lusitano” e o “Lusitânia”, que foi o único que conseguiu se manter, porque só aceitava sócios portugueses.

Como o Vasco estava decidido a formar um time de futebol, procurou a direção do Lusitânia, propondo uma fusão, pois a Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA), que promovia o esporte no Rio tinha restrições de nacionalidade, o que impedia a participação de clubes sem jogadores brasileiros em suas competições. E o Vasco afirmava a união de irmãos de todas as raças. Só por isso o Lusitânia cedeu e aceitou a fusão.

O futebol no Vasco foi oficializado no dia 26 de novembro de 1915. O primeiro jogo do novo time de futebol aconteceu pouco mais de cinco meses após a fundação, no dia 3 de maio de 1916, contra o Paladino Futebol Clube, valendo pela Terceira Divisão carioca. O Vasco usou camisas pretas com a Cruz da Ordem de Cristo, equivocadamente chamada de Cruz de Malta, à altura do coração. O resultado não foi nada animador, uma derrota acachapante de 10 X 1. O gol de honra e primeiro da história do Vasco, foi marcado por Adão Antônio Brandão, um português que viera para o Rio de castigo, pois o pai não perdoava sua falta de gosto pelos estudos.

Adão foi um atleta polivalente, que marcou época no Vasco, pois além do futebol também se destacava em outros esportes, como atletismo, remo, natação e pólo aquático. Jogou futebol até 1933, quando o esporte se profissionalizou no então Distrito Federal.

A primeira vitória veio no dia 29 de outubro de 1916, quando o Vasco venceu a Associação Atlética River São Bento por 2 X 1, gols de Alberto Costa Júnior e Cândido Almeida. O jogo foi realizado no campo do São Cristóvão, na Rua Figueira de Mello, válido para a Terceira Divisão da LMSA. Mesmo com a vitória, o Vasco foi lanterna do campeonato.

Em 1917, com a reformulação da LMSA que mudou a denominação para Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMTD), foi aumentado o número de equipes em cada Divisão. Com isso, os seis clubes da Terceira Divisão, inclusive o Vasco, foram promovidos para a Segunda Divisão. Naquele ano o Catete foi campeão, mas o time da Cruz de Malta começou a mostrar força. Ganhou nove jogos, num total de 16 e alcançou a quarta colocação. Em 1918, o Americano, time da capital ganhou a taça, e o Vasco chegou ainda mais perto, sendo terceiro colocado.

Em 1919, houve um retrocesso. Mesmo com vitórias, o time foi quinto classificado e o Palmeiras campeão. Em 1920, quarto lugar. Em 1921, a Liga reordenou as Divisões, separando a Primeira Divisão pelas categorias A e B. O Vasco foi para a B e chegou ao vice-campeonato, apenas dois pontos atrás do campeão, o Vila Isabel. Finalmente, em 1922 o primeiro título. O Vasco foi campeão da Série B. No jogo final, dia 17 de julho, no campo da Rua Morais e Silva, o Carioca foi massacrado, num incrível 8 X 3, e levantou a Taça Constantino, primeira na história do futebol do clube.

O time vascaíno, treinado pelo uruguaio Ramón Platero, jogou com Nélson - Mingote e Leitão – Nolasco - Bráulio e Artur – Pascoal - Cardoso Pires – Torterolli - Claudionor e Negrito. O artilheiro foi Claudionor, que marcou quatro gols, seguido de Cardoso Pires, com dois. Pascoal e Torterolli fizeram um cada.

Mas para ganhar a vaga na Primeira Divisão A, o Vasco teria primeiro que jogar contra o São Cristóvão, último colocado da Divisão Principal em 1922. Como houve empate sem gols, o Vasco ganhou a almejada promoção e o São Cristóvão não foi rebaixado.

No ano seguinte, o Vasco entrou na disputa pelo título principal do futebol da cidade. Seus adversários eram Flamengo, Fluminense, Botafogo e América, times considerados grandes, já naquela época e que eram formados exclusivamente por jovens da elite carioca. Ao contrário, o Vasco tinha muitos jogadores negros e operários, todos egressos dos terrenos baldios dos subúrbios cariocas. O técnico Ramón Platero submetia os jogadores a um ritmo alucinante de treinos, fazia-os correr diariamente do campo do Vasco, então na Rua Morais e Silva, na Quinta da Boa Vista, até a Praça Barão de Drumond, em Vila Isabel. Os demais grandes, não acreditavam na força do time do Vasco.

O preparo físico vascaíno foi decisivo. Depois de um empate de 1 X 1, no primeiro jogo do campeonato, contra o Andaraí, em General Severiano, o Vasco esmagou todos os adversários que não agüentavam o ritmo alucinante imposto no segundo tempo. Todas as 11 vitórias no campeonato foram alcançadas na etapa final de jogo.

A primeira vez na história em que Vasco e Flamengo se enfrentaram, o onze cruzmaltino venceu por 3 X 1. Foi no domingo 8 de julho de 1923, no campo do Fluminense, na então Rua Guanabara. No segundo jogo, a Liga prevendo uma grande arrecadação, colocou ingressos demais à venda. Mais de 35 mil pessoas pagaram para ver o clássico. Os jornais da época contaram que muitos torcedores pularam a grade que separava o campo para assistir ao jogo da pista de atletismo. Torcedores de todos os clubes cariocas se uniram contra os temíveis “camisas pretas”.

O Flamengo foi o vencedor por 3 X 2. O jogo deixou uma polêmica histórica. Os cruzmaltinos afirmam, até hoje, ter havido um terceiro gol, mal anulado pelo árbitro. Mas não há qualquer registro desse lance na imprensa carioca.

Depois do Flamengo o Vasco enfrentou América, Fluminense e São Cristóvão. Rubros e tricolores caíram na mesma tática das demais vitórias vascaínas e foram liquidados, no segundo tempo, pelo suficiente placar de 2 a 1. Uma vitória de 3 x 2 sobre o São Cristóvão, na penúltima rodada, deu o título por antecipação aos cruzmaltinos. O time campeão formou com Nélson - Leitão e Mingote – Nicolino - Claudionor e Artur – Pascoal – Torterolli – Arlindo - Cecy e Negrito.

Foi nesse campeonato que os torcedores vascaínos instituíram a gratificação aos seus jogadores, o que mais tarde viria a ser chamado de “bicho”. Nos mercados de secos e molhados da Saúde e da Rua do Russel, os portugueses tinham o hábito de apostar nas vitórias do Vasco. Como o time quase sempre vencia, resolveram dividir os lucros com os jogadores.

Como era proibido que estes recebessem dinheiro, já que eram amadores foi criada uma tabela que rendia uma premiação de animal, de acordo com a importância do adversário. O América, campeão em 1922, valia uma vaca com quatro pernas. O Flamengo, bicampeão em 1920/1921, uma vaca com três pernas. O Fluminense, duas ovelhas e um porco e o Botafogo e outros times também rendiam algum animal, sempre de galo para cima.

Como o Vasco estava sendo difícil de bater dentro de campo, era considerado o inimigo número 1 das demais torcidas cariocas. Por isso, os dirigentes dos clubes rivais resolveram tirar o clube das disputas, investigando as posições profissionais e sociais dos jogadores vascaínos, pois o futebol ainda era amador e ninguém podia receber pela prática do esporte. Mas o Vasco soube reagir e todos os seus atletas foram registrados como empregados de estabelecimentos comerciais de portugueses. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)