Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

F.B.C. Rio-Grandense, um "guri" de 100 anos (3)

Com a revolução federalista, o campeonato estadual não foi disputado e vários campeonatos municipais também não ocorreram. As disputas foram mantidas em Rio Grande, Bagé, Livramento, Santa Maria e Porto Alegre.

Nos anos 20, os jogadores negros não eram bem vindos nos clubes de futebol mais tradicionais, tanto na capital quanto no interior do Estado. Em razão disso, os negros criaram suas próprias entidades como ato de resistência cultural em oposição ao futebol branco elitista praticado em todo o Estado. Em Porto Alegre, a famosa “Liga da Canela Preta, em Pelotas, a “Liga José do Patrocínio” e em Rio Grande a “Liga Rio Branco”.

Um dos melhores goleiros que jogou pelo Rio-Grandense foi Gilberto Oliveira, o “Truta”, que o clube foi buscar em Porto Alegre na histórica “Liga da Canela Preta”. Ele defendeu a meta colorada de 1921, até a sua morte no dia 27 de dezembro de 1924, depois de enfrentar grave enfermidade.

No dia 19 de junho de 1924, Rio-Grandense e Pelotas realizaram um jogo valendo pela “Taça Júlio Gross”, mas devido a sério desentendimento entre os jogadores a partida não terminou, quando o escore estava ainda em 0 X 0.

A avenida Buarque de Macedo já foi chamada de rua do futebol. Até pouco tempo estavam lá os velhos estádios das Oliveiras, do S.C. Rio Grande e Torquato Pontes, do F.B.C. Rio-Grandense. Mas pouca gente sabe ou não lembra que por lá existiu na década de 1920 e parte de 1930, um outro estádio, que pertencia a um clube que há muitos anos ficou só na lembrança, o Padeiral F.B.C.

Seu campo ficava onde hoje se localiza a escola Nossa Senhora Medianeira, depois da esquina com a 2 de Novembro. O campo era vizinho ao cemitério protestante, ocupando o espaço até a rua Johannes Moritz Minnemann, homenagem ao jovem alemão que fundou o S.C. Rio Grande.

O porquê da escolha de tão estranho nome para um time de futebol perdeu-se no tempo. Sabe-se apenas que as cores de seu uniforme eram o amarelo e o preto, semelhante ao Penharol uruguaio. Sem muitas ambições nas competições que participava, o clube se limitava a revelar alguns bons jogadores, que depois eram utilizados nos times maiores, São Paulo, Rio Grande e Rio-Grandense.

Ao início dos anos 30 o Padeiral foi enfraquecendo e fechou as portas. Ainda houve uma tentativa de reerguimento com a mudança de nome para Americano, com as cores vermelho e branco, mas de nada adiantou, resistiu pouco tempo e enrolou a bandeira.

Naqueles anos 30 era comum a formação de times de férias. Jogadores como os ex-sãopaulinos Darcy Encarnação e Scala, que jogavam em Porto Alegre, participavam de concorridas peladas com amigos e familiares. Para aproveitar esse espaço surgiram o Botafogo e o Palmeiras. Nenhum deles tinha campo próprio: o Botafogo utilizava um campinho da Praça Saraiva e o Palmeiras, o campo do Padeiral. No Botafogo a maioria dos jogadores era do S.C. Rio Grande e no Palmeiras, do Rio-Grandense. Mas em ambos jogavam atletas do São Paulo, como Darcy Encarnação, Odorico e Osquinha.

Depois surgiu o Vila Operária, por iniciativa de Maximo Schmutz, um gringo de quase dois metros de altura que uns diziam ser francês, outros polaco. Ele não jogava, mas era o dono do time. Schmutz montou um bom time, com base no São Paulo e jamais perdeu para os outros dois. No Vila Operária jogaram Fernandinho, Riquinho, Scala, os irmãos Ruy , Osny e Ciro Ballester e o goleiro Alemão, do Riograndense. Dos três times de férias, apenas o Palmeiras resiste ao tempo e se mantém vivo até hoje, jogando na maioria das vezes na Praça Saraiva.

Time base do Rio-Grandense em 1931: Debease - Astro e Lara - Hermes, Joaquinzinho e Paschoal – Pesse – Martins – Orlando - Darte e Antoninho.

No dia 26 de maio de 1935, o Rio-Grandense jogou sua primeira partida interestadual. O adversário foi o Santos F.C., que excursionou pelo Rio Grande do Sul e jogou em Rio Grande, onde venceu o F.B.C. Rio-Grandense por 4 X 3, em partida disputadíssima. Os gols santistas foram marcados por Junqueirinha (2), Sacy e Raul. Para o Rio-Grandense anotaram Cortado, Melo e Badu contra.

O Rio-Grandense jogou com Rocha - (Zezinho) - Osmar e Didico - Laza (Válter) - Joaquim e Mariano – Mello – Heitor - Rodrigues (Cortado) - Arthur e Canuto. O Santos formou com Cyro (Victor Lovechio)- Neves e Badu - Marteletti - Ferreira e Jango - Sacy - Moran - Friedenreich (Raul) - Zé Carlos (Mario Seixas) e Junqueira. Essa foi a única vez que o grande craque Arthur Friedenreich jogou em Rio Grande.

Empolgado pelos títulos estaduais do São Paulo, em 1933, e do Rio Grande em 1936, o Rio-Grandense, investiu forte em 1937 com o objetivo de também levantar a taça. A partir daí o clube escarlate escreveu as mais bonitas páginas de sua história, dominando amplamente o futebol gaúcho, estando presente em três finais consecutivas de campeonatos estaduais. Embora a dupla Gre-Nal não tenha participado dos campeonatos de 1937 a 1939, isso não tirou o brilho daquelas memoráveis jornadas. (Pesquisa: Nilo Dias)

F.B.C. Rio-Grandense em 1937. Identificados o goleiro Brandão, Osni Ballester, Carruira, o técnico Gentil Cardoso de quepe e farda e seu filho o primeiro em pé. (Foto: Acervo do F.B.C. Rio-Grandense)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

F.B.C. Rio-Grandense, um "guri" de 100 anos (2)

Em 25 de dezembro de 1915, sábado, dia de Natal, foi inaugurada a iluminação no campo do já extinto S.C. União, de Pelotas, que se situava na rua General Osório, esquina 3 de Maio. O G.E. Brasil, convidado para o jogo inaugural goleou o União por 5 X 1 entre titulares e empatou em 1 X 1 nos aspirantes. Foi a primeira iluminação de um clube de futebol no Brasil. No dia seguinte, 26, novamente à noite, no festival de inauguração da iluminação, o União venceu o F.B.C. Rio-Grandense, por 6 X 1.

Time do Rio-Grandense em 1917: Walter - Álvaro e Raul – Peres - Adolpho e Carlos – Santo – Cary – Rust - Oca e Edu.

No dia 18 de maio de 1918 foi fundada em Porto Alegre a Federação Rio Grandense de Desportos. O doutor Aurélio Py, primeiro mandatário do Grêmio Foot-Ball Portoalegrense foi indicado para presidente. O senhor Nestor Fontoura, representou a Liga Riograndina, da qual o F.B.C. Rio-Grandense era filiado.

O Rio-Grandense participou do primeiro campeonato disputado no Estado. Na fase regional perdeu de 2 X 1 para o G.S. Brasil, de Pelotas, que depois se tornaria o primeiro campeão gaúcho. O jogo foi realizado no dia 2 de outubro de 1919, na cidade de Pelotas.

O ano de 1921 foi muito importante para o clube, que no mês de maio disputou o “Torneio Liberdade”, que teve ainda a participação de S.C. São Paulo, que foi o campeão, S.C. Rio Grande, São Pedro, Guarany, Luzitano e Brasil. Depois, já sob a presidência de José da Rosa Martins, pai de Dario Torres Martins e avô de Gil Barlém Martins (recentemente falecido), o FBC Rio-Grandense conquistou seu primeiro campeonato da cidade.

O título municipal deu condições ao Rio-Grandense de disputar também o Campeonato Estadual. Na primeira fase da competição o clube integrou a Chave da 2ª Região, junto com o G.E. Brasil, campeão de Pelotas, Guarany F.C., campeão de Bagé e S.C. 247, campeão de São Gabriel. O Rio-Grandense goleou o time gabrielense por 8 X 0, venceu o Guarany por WO e perdeu a decisão para o Brasil, por 2 X 1.

O jogo decisivo foi disputado no dia 23 de outubro de1921, no antigo Estádio Doutor Augusto Simões Lopes (Estação Central Estrada de Ferro), em Pelotas. Cerca de 3 mil pessoas assistiram a partida, que foi dirigida pelo árbitro Carlos Moreira. O G.S. Brasil formou com Dias da Costa - Tica e Nunes – Floriano - Babá e Zabaleta - Nunes II – Nico – Proença - Rossel e Ignácio Gerlach. Técnico, Lourenço Borges de Mello (Capitão Geral). O F.B.C. Rio-Grandense teve Echevarria - Luvielmo e Alcides – Euclides - Nygard e Tavares – Santos – Coriolano – Rheint e Antoninho. Técnico, Catuta.

Nesse mesmo ano, o Rio-Grandense excursionou a cidade de Pelotas, enfrentando e vencendo o campeão pelotense, S.C. Ideal. Em sua gloriosa trajetória o clube escarlate conquistou vários títulos, mas o mais importante foi, sem dúvida, o de campeão gaúcho de 1939. Em seu acervo o F.C. Rio-Grandense conta com cerca de 150 taças, mais de 40 bronzes e centenas de flâmulas. Destaque para a célebre “Taça Caringi”, de difícil conquista.

Para perpetuar a memória de seus benfeitores o clube organizou a “Galeria de Retratos”, onde figuram nomes históricos entre os quais José da Rosa Martins, Antônio Russo, João Souza, Reinaldo Souza, Carlos Ferreira, Torquato Ribeiro Pontes, Hélio Ribeiro Pontes, Torquato Ribeiro Pontes Netto, Altamir Lacerda do Nascimento, Bolivar Nóbrega Frazão, Érico Gama, Pedro Araújo Ávila, Dario Torres Martins, Gil Barlém Martins, Lourival da Rocha, Wernich Pinto Sampaio, Lourival Gomes, Gentil Cardoso, Odilom Alves Fogaça, Hercílio Rodrigues Pinto, Élbio Garcia, Érico Peixoto, Renato Cramer Peixoto, Darte Lopes, Waldir Fonseca, Marco Aurélio M. Fonseca, Bertholdo Poester, Carlos Alberto Gonçalves, Rubens Cunha, Eduardo Alves, Theóphilo Farinha Camargo, Bento Castelã, Nicanor da Rosa Penha, Elmar Costa e muitos outros destacados “colorados".

No dia 10 de setembro de 1922, o Rio-Grandense foi convidado a participar do “Torneio do Centenário”, em Porto Alegre, quando enfrentou pela primeira vez o S.C. Internacional. O clube da capital, que foi o campeão, venceu por 2 X 0, fazendo jus ao troféu "Bronze da Independência", oferecido pelo Governo do Estado.

Além do S.C. Internacional e do F.C.B. Rio-Grandense participaram do torneio S.C. Cruzeiro (Porto Alegre), S.C. São José (Porto Alegre), S.C. Americano (Porto Alegre), Fuss-Ball (Porto Alegre), Tabajara (Porto Alegre), Ypiranga (Porto Alegre) e G.S. Brasil (Pelotas). A disputa foi em forma de torneio início.

Em março de 1923 foi realizado o “Torneio Initium” do campeonato municipal de Rio Grande, com a participação de São Paulo, Guarany, Rio-Grandense, Osório, Brasil, União Fabril e Padeiral. O General Osório foi campeão e o São Paulo, vice-campeão. O time base do Rio-Grandense era: Budere - Pompólio e Luovelmo II – Soiro - Campista e Luovelmo I - Schimidt - Ferrereto II - Ferrereto I - Palhares e Baleta. (Pesquisa: Nilo Dias)

Pavilhão do velho Estádio Torquato Pontes (Foto: Acervo do F.B.C. Rio-Grandense)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

F.B.C. Rio-Grandense, um "guri" de 100 anos (1)

Neste dia 11 de julho o F.B.C. Rio-Grandense, da cidade gaúcha de Rio Grande completa 100 anos de fundação. O clube nasceu nas salas de aulas do Colégio Rio-Grandense, renomado estabelecimento educacional dirigido pelo professor Ernest, destacada figura do ensino riograndino nos primeiros tempos do século passado. Alguns alunos, liderados pelo jovem Amaury Castello, que foi o primeiro presidente, resolveram fundar um time de futebol que representasse o colégio – daí o nome F.B.C. Rio-Grandense. As cores escolhidas foram o vermelho e o amarelo.

Nos primeiros dois anos de atividades, o Rio-Grandense desenvolveu uma programação voltada mais a disputas estudantis, dentro e fora de Rio Grande, fato inédito para a época. Em 1910, o jovem Rodolfo Moll assumiu a presidência e implantou uma nova filosofia de trabalho dentro do clube, que passou a enfrentar outros adversários, que não equipes escolares.

No dia 24 de junho de 1910, um ano depois da fundação, o Rio-Grandense jogou aquela que é oficialmente considerada a sua primeira partida, um amistoso contra a equipe local do União, com vitória de 4 X 1. O primeiro gol da história “escarlate” foi marcado pelo jogador Arlindo.

A partir daí o clube começou a participar ativamente da vida futebolística da cidade, sendo convidado para vários amistosos, pois ainda não havia um campeonato oficial. A organização começou em abril de 1912, quando foi fundada a Liga de Foot-Ball Rio Grande, que teve como primeiro presidente o senhor Arthur Cecil Lawson e integrada pelos seguintes clubes: F.B.C. Rio-Grandense, S.C. Rio Grande, S.C. São Paulo, S.C. Fábrica Túlio, Leal Santos F.C., S.C. União Phabril, S.C. União Democrata e S.C. Internacional.

É interessante salientar que no início do século passado, a fábrica Rheingantz mantinha um clube de futebol, o S.C. União Phabril que se manteve em atividade até o começo dos anos 30, quando deixou de disputar o campeonato principal da cidade. Manteve-se ativo ainda por vários anos no futebol menor. O União Phabril chegou a ser um dos times de ponta. Seu campo ficava em meio a uma vila. O acesso era por um portão largo, entre casas da rua Rheingantz, atual Getúlio Vargas, um pouco antes do estádio do São Paulo.

O primeiro campeonato municipal de Rio Grande foi disputado em 1913, mas infelizmente não ficaram registros apontando o clube campeão. Nessa história de 96 anos o clube que conquistou mais títulos foi o Sport Club São Paulo. Os outros campeões foram o Sport Club Rio Grande, Football Club Riograndense e o Grêmio Atlético Militar General Osório.

Uma curiosidade. O General Osório, time ligado ao Exército tinha o uniforme em quatro cores, coisa nada comum no mundo do futebol. Seu gramado ficava onde hoje se localizam as capelas mortuárias da Santa Casa de Rio Grande. Até pouco tempo ainda existia uma parte do velho muro do campo, onde em dias de jogo eram colocados quatro mastros, cada um com uma bandeirola nas cores do clube, verde, amarelo, azul e branco, as mesmas da bandeira nacional.

O General Osório encerrou as atividades no começo da década de 30, mas seu estádio permaneceu ainda por muito tempo como local de diversões e eventos, antes de serem construídos os atuais anexos da Santa Casa. Um fato curioso acontecido no campo do General Osório merece citação. Lá se realizou um casamento de três princesas ciganas. Centenas de ciganos vieram de todas as partes do país e até do exterior, para o grande acontecimento. A festa durou vários dias, com muita música, comida, bebida, danças típicas e, eventualmente, alguma desavença. Até o prefeito da cidade participou.

No dia 5 de abril de 1914 o Rio-Grandense enfrentou pela primeira vez uma equipe de Pelotas, o G.S. Brasil. O amistoso foi disputado em Rio Grande e o “colorado” venceu por 2 X 0. No dia 11 de julho de 1914, data em que comemorava seis anos de existência, o F.B.C. Rio-Grandense, jogou pela primeira vez em Porto Alegre, quando venceu o Fuss-Ball por 4 X 2, recebendo medalhas oferecidas pelo Grêmio Tamandaré.

Em 1915 aconteceu o primeiro jogo que se tem notícia do F.B.C. Rio-Grandense, contra o S.C. Pelotas. O jogo foi em Rio Grande e o Pelotas venceu por 5 X 0, com destacada atuação do jogador Décio Viccari.(Pesquisa: Nilo Dias)

Antiga foto do F.B.C. Rio-Grandense, chamando atenção os curiosos abrigos (agasalhos) da época. (Foto: Acervo do F.B.C. Rio-Grandense)

terça-feira, 30 de junho de 2009

O racismo no futebol (Final)

Mas a discriminação não se resume apenas ao campo de jogo. Ela é bem clara em muitas outras situações, como a distribuição salarial dos jogadores, segundo os aspectos cor/raça. Chama atenção a diferenciação nos percentuais de jogadores que recebem até 1 salário mínimo. Neste caso, 48,1% dos jogadores negros contra 33,6% dos pardos e 26,6% dos brancos. Torna-se nítido que são os negros que têm a maior tendência a ocuparem a base da distribuição salarial no futebol.

Na faixa salarial de 10 a 20 salários mínimos, encontramos 8,3 dos jogadores brancos contra 6,2% dos jogadores negros e 6,1% dos jogadores pardos. Esta diferença aumenta, ao observarmos os rendimentos acima de 20 salários mínimos. Neste temos 24,8% dos jogadores brancos contra 14,8% dos negros e 12,2% dos pardos. Diante disto fica nítido que os jogadores brancos estão situados nos estratos mais elevados da distribuição salarial.

O jornal “Folha de São Paulo” publicou em novembro do ano passado uma pesquisa que mostra com números impressionantes o tamanho do racismo no Brasil. Temos no país auto declarados: 37% Brancos, 36% pardos, 14% pretos. Embora 91% da população diga que o brasileiro é racista, apenas 3% se assume como tal.
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Pretos e pardos possuem somente 6,3 anos de estudo. Apenas 31% das pessoas no ensino superior são pretas ou pardas. Nesta cifra, 51% estão em cursos destinados a formar professores e somente 12% estão em Medicina. No ensino de elite, de 369 aprovados para Medicina no vestibular da Fuvest, só um se dizia preto.

Negros recebem 62% do salário de um branco. A mulher negra recebe somente 56 %. Dentre os 10% mais ricos, somente 22% são pretos e pardos. Dentre os 10% mais pobres, 68% são pretos e pardos. Brancos recebem, em média, R$ 977 enquanto pretos e pardos recebem R$ 506. Brancos, no mesmo emprego, ganham 11% mais que pretos e pardos. A polícia e a justiça são mais rígidas e truculentas quando se trata de pretos e pardos.

Segundo a pesquisa, o Brasil possui um racismo velado em que a discriminação se dá mais pela impossibilidade de acesso e aceitação: recusa de empregos, de namoros, de casamentos, de amizade, de cordialidade, de confiança. Ao mesmo tempo, é se mais rápido e rígido nas cobranças e nas condenações quando se tratam de pretos e pardos.

Apenas 9,7% dos médicos são pretos ou pardos. Dentre os dentistas, somente 8,6% são pretos ou pardos e dentre os advogados somente 17%. Praticamente não há padres negros nem técnicos de futebol negros no Brasil.

Historicamente, as elites brancas pensavam que países com maiorias não brancas jamais progrediriam. Embora no Brasil somente de 7 a 11% dos brasileiros participem de sindicatos e partidos políticos, as várias minorias que formam o movimento negro tem conseguido diminuir a intensidade do racismo no Brasil.

E o que existe de prático no país, para combate a essa discriminação racial e étnica? A Constituição Federal de 1988 estabeleceu, no seu Artigo 5º que "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais; XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei.

Em 5 de janeiro de 1989, foi aprovada a Lei 7.716, conhecida como "Lei Anti-Racismo" ou "Lei Caó" que trata dos crimes resultantes do prejuízo de raça ou cor. Apesar do seu nome, essa lei não representou maior avanço no campo da discriminação racial por ser excessivamente evasiva e lacônica e exigir, para a tipificação do crime de racismo, o autor, após praticar o ato discriminatório racial, declarar expressamente que sua conduta foi motivada por razões de discriminação racial. Se não o fizer, será a sua palavra contra a do discriminado.

Em vista disso, conclui-se que nada acontecerá ao jogador do Grêmio, que nega ter ofendido o jogador Elicarlos do Cruzeiro, de Minas Gerais, chamando-o de “macaco”. Em síntese, parece que o final deste acaso ficará no tradicional “dito pelo não dito.” E de sobra um clima de “guerra” para o time mineiro, no decisivo jogo de Porto Alegre, na quinta-feira (2/07). (Pesquisa: Nilo Dias)

Elicarlos diz ser vitima de racismo.Maxi Lopez, nega.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O racismo no futebol (02)

Apenas dois técnicos não brancos dirigiram a Seleção Brasileira de Futebol. Gentil Cardoso, em 1949, quando uma seleção pernambucana representou o Brasil no Campeonato Sul-Americano Extra. O outro foi Vanderlei Luxemburgo.

Chama atenção a quase ausência de técnicos negros no nosso futebol. Atualmente na Série A, do Campeonato Brasileiro parece que tem apenas Hélio dos Anjos, no Goiás. No passado não foram muitos os famosos. Talvez o primeiro técnico negro no Brasil tenha sido Gentil Cardoso. Como suboficial da Marinha, viajou pela Europa, estudando os segredos do sistema WM. Também teve Didi, que após pendurar as chuteiras, foi ser técnico. Obteve triunfos memoráveis com a seleção peruana na Copa de 70.

Valmir Louruz, que formou a dupla de zaga colorada com Scala, também foi técnico. Levou o Juventude de Caxias do Sul à conquista da Copa do Brasil de 99, façanha que garantiu o time da serra gaúcha na taça Libertadores do ano seguinte.

Apenas para ilustrar esta pesquisa, lembro alguns atos de racismo ocorridos no futebol brasileiro e mundial nos últimos anos.

Em 2001, durante um amistoso entre Polônia e Islândia, torcedores poloneses jogaram bananas no campo. Olisadebe foi o primeiro jogador negro a vestir a camisa da seleção polonesa e, apesar de ter marcado oito gols nas Eliminatórias para a Copa de 2002, foi alvo de insultos.

O atacante italiano Balotelli esteve em um evento com a seleção italiana sub-21 em Roma. Torcedores da Roma atingiram duas bananas no jogador, que foi parabenizado pelo treinador Casiraghi por não reagir e minimizar o caso.

No início de sua carreira no clube espanhol Barcelona, o camaronês Eto’o era alvejado por bananas toda vez que pegava na bola. Ele foi alvo de insultos racistas na partida entre Barcelona e Getafe, válida pelo Campeonato Espanhol. Cerca de 50 torcedores do Getafe imitavam macacos cada vez que o jogador tocava na bola.

Em 2004, os jogadores Juan e Roque Júnior foram ofendidos pela torcida do Real Madrid. Eles defendiam o clube alemão Bayer Leverkussen na Copa dos Campeões. Toda a vez que pegavam na bola, os torcedores espanhóis imitavam macacos. O Real Madrid foi obrigado a pagar 10 mil euros de multa pela agressão.

O mesmo ocorreu com o jogador Roberto Carlos, também em 2004. Toda vez que ele e os outros jogadores negros do Real Madrid pegavam na bola em um jogo contra o Atlético de Madrid, os torcedores atleticanos imitavam sons de macacos. O clube dos ofensores foi multado em 600 euros. O caso foi parar na Federação Espanhola de Futebol, pois o Atlético poderia ter sido cúmplice ao permitir que o som da torcida fosse ouvido no sistema de som do estádio.

A Nike lançou em fevereiro de 2005 uma campanha contra o preconceito no futebol. Lançada durante uma partida do Paris Saint-Germain contra o Lens, contou com a participação de jogadores como Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho e Adriano. Na mesma ocasião, torcedores ergueram bandeiras com o símbolo nazista e uma faixa dizendo “Adiante, brancos”.

Também em fevereiro de 2005, o árbitro Alfonso Perez Burrull teve que interromper um jogo entre o Málaga e o Espanyol. Sempre que o goleiro do Espanyol, Carlos Kameni pegava na bola, a torcida imitava macacos.

O zagueiro Fabão acusou o atacante argentino Frontini de tê-lo chamado de Macaco durante uma partida contra seu time, o São Paulo, e o Marília.

Em fevereiro de 2005, Ronaldo “Fenômeno” perdeu a cabeça e arremessou uma garrafa de água contra três homens que o chamaram de “Negro gordo”. O incidente ocorreu numa partida do Real Madrid, na época time do craque, contra o Málaga. No dia seguinte, ele se redimiu pedindo desculpas.

O zagueiro Wellington Paulo, do América-MG, levou uma suspensão de 30 dias por cahamar o colega de time André Luiz de macaco.

Em abril de 2005, o zagueiro argentino Leandro Desábato xingou o atacante Grafite de “negrito de mierda”. Os times de ambos – Quilmes e São Paulo, respectivamente – jogavam uma partida pela Taça Libertadores da América. A televisão registrou o momento e, pouco depois do término do jogo, o agressor foi preso por crime de racismo. Ele pagou uma fiança de 10 mil reais e acabou extraditado do Brasil.

Poucos dias depois, em um jogo do Quilmes contra o River Plate (Campeonato Argentino), torcedores racistas ergueram faixas reiterando os xingamentos a Grafite. Uma o chamava de “Macaco” e outra de “Branca de Neve”.

Também em 2005, foi a vez do volante Tinga, que defendia o Internacional, ouvir ofensas racistas. Porém, os gritos de "macaco" não vieram de um jogador adversário, mas sim da torcida do Juventude, em um duelo no Alfredo Jaconi pelo Brasileirão. Ao contrário de Elicarlos e Grafite, Tinga não levou o caso para a polícia e preferiu deixar na mão do árbitro o relato do ocorrido na súmula da partida.

O atacante Marco Antônio, do Campinense, acusou o árbitro Genival Batista Júnior de tê-lo chamado de "negro safado" e "macaco" durante um jogo valendo pelo campeonato Paraibano, em maio de 2005. Genival se justificou dizendo ter levado uma cabeçada do jogador, mas os responsáveis pelo caso não viram nada no vídeo da partida.

Em 12 de setembro de 2005, o goleiro Felipe entrou com uma queixa por racismo contra o então presidente do Vitória, Paulo Carneiro, porque ele havia lhe chamado de “negro safado”, “preto vagabundo” e “vendido”. O bate-boca ocorreu após o empate contra a Portuguesa, em um jogo do Campeonato Brasileiro. O resultado levou ao rebaixamento do clube para a segunda divisão. Por causa do incidente, Carneiro foi afastado da diretoria.

No Sesi do Cabo (PE), nas comemorações do dia 1º de Maio de 2006, numa decisão por pênaltis, o juíz Édson da Hora expulsou um batedor, após este fazer o gol e gritar; “Pega a bola, negro safado.”

Outro caso de racismo pôde ser visto em 2006, quando o zagueiro Antônio Carlos, do Juventude, teria chamado o volante Jeovânio, do Grêmio, de macaco. O primeiro foi expulso após agredir o adversário com uma cotovelada e, ao sair de campo, teria chamado Jeovânio de "macaco" - esfregou os dedos no braço para indicar a cor do volante gremista.

Na pré-temporada do Flamengo em Teresópolis, em 2008, durante um jogo-treino contra o Huracán Buceo, do Uruguai, os jogadores rubro-negros acusaram o zagueiro Fernando Caballero de ofensas raciais. No primeiro tempo, o uruguaio se desentendeu com Toró e houve bate-boca. Ibson, defendendo o companheiro, gritou: “Não vem de racismo aqui!” Toró confirmou a ofensa ao final da partida. A palavra usada pelo uruguaio teria sido "macaco". (Pesquisa: Nilo Dias)

O caso Desábato-Grafite, teve grande repercussão.

domingo, 28 de junho de 2009

O racismo no futebol (01)

As acusações racistas que pesam sobre o jogador argentino Maxi Lopez, do Grêmio de Porto Alegre, que teria chamado o jogador Elicarlos, do Cruzeiro de Belo Horizonte, de “macaco”, trouxeram a tona um velho tema que vem acompanhando o futebol brasileiro desde os seus primórdios. O esporte, originário da Inglaterra, foi trazido para o Brasil no final do século XIX pelo jovem Charles Miller, um brasileiro de origem inglesa que voltava de seus estudos em Southampton, na Inglaterra.
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Nos primeiros anos, o futebol era praticado apenas pelas classes dominantes, excluindo os negros e os brancos pobres. Os jovens das camadas privilegiadas da população, todos de pele clara e filhos de “boas famílias”, vários de origem inglesa, doutores ou estudantes de medicina e direito, é que podiam praticar o novo esporte.

Mas, logo teve início o processo de apropriação popular do futebol. Moleques e malandros começaram a bater bola ao ar livre, onde quer que fosse possível. A bola podia ser feita com um maço de folhas de jornal enfiadas numa meia, de jornal amarrado com barbante, ou, simplesmente, tomava-se uma laranja, uma abóbora, uma lata velha amassada ou uma chapinha de cerveja.

Arthur Friedenreich, um mulato de olhos verdes, filho de alemão e mulata brasileira foi o primeiro ídolo do futebol brasileiro. Não porque tivesse marcado o gol da vitória do Sul-Americano de 1919. A popularidade de Friedenreich se devia, talvez, mais ao fato de ele ser mulato, embora não quisesse ser mulato. Ele mantinha uma luta íntima para parecer branco. Entre outras coisas, chegava atrasado nos jogos e se escondia no vestiário, tentando alisar e prender seus cabelos crespos com brilhantina, para não ser visto pela multidão como um mulato.

O jogador Hércules se casou com uma associada branca do Fluminense e a diretoria do clube proibiu o ingresso de atletas nos quadros sociais da entidade. Hércules tinha de saber qual era o seu lugar - lugar de empregado, lugar de mulato, lugar de crioulo. Mas Hércules se deu bem na vida: ao pendurar as chuteiras, em 1946, era dono de casas e terrenos em São Paulo.

O Fluminense, de resto, ganhou o apelido de "pó-de-arroz" em conseqüência de um caso exemplar de racismo, hoje célebre. Para poder jogar no time, sem aparecer como preto diante da multidão que lotava os estádios, o jogador Carlos Alberto tinha de disfarçar a cor da pele. De colocar a máscara branca. Para isso, cobria o brilho negro mestiço de seu rosto com espessas camadas de pó-de-arroz.

O jornalista Mário Filho, em seu livro “O negro no futebol brasileiro”, conta com riqueza de detalhes toda a trajetória negra em busca da inclusão no esporte de origem inglesa. Ele define algumas datas como importantes nesse contexto: 1900 até 1910, a elitização; de 1910 a 1930, a exclusão de negros. E a partir de 1930, a ascensão social dos negros.

Não pretendo contar aqui em detalhes a história do negro no futebol brasileiro. A intenção é apenas mostrar que o racismo nunca saiu de campo, nesses 115 anos de existência do esporte em nosso país.

Um fato curioso é que após as pressões para popularizar o "foot-ball", os negros passaram a ser aceitos sob certas circunstâncias nada desportivas. Era comum os árbitros liberarem atos violentos, como fortes entradas dos jogadores brancos nos negros, sendo que a recíproca quando feita era advertida com séria reprimenda, inclusive expulsão de campo.

O Vasco da Gama foi o primeiro clube a eleger um presidente não-branco na história do futebol carioca. Numa época em que o racismo dominava o esporte, Cândido José de Araújo, um mulato que não dispensava a elegância de um cravo branco na lapela, fez uma gestão exemplar, apresentando o Vasco como um clube aberto e sem preconceitos.

Dois clubes cariocas reivindicam o pioneirismo na aceitação de negros em suas equipes: Vasco da Gama e Bangu. Mas, na verdade, não foi nenhum deles que primeiro abriu as portas para atletas negros, e sim o Guarany F.C. da cidade gaúcha de Bagé.
A primeira liga de futebol na Bahia, fundada em 1904 era chamada de "liga branca". Em 1912, conflitos geraram nova liga, a "liga democrática", que supostamente permitiria a participação de atletas negros.

O jogador carioca Manteiga abandonou o América (RJ) em 1922 para se estabelecer no futebol baiano, onde havia um cenário bem menos racista que o da cidade do Rio de Janeiro. Ele dizia que “na Bahia estava em casa", enquanto “no Rio tinha de andar quase fugido". Existem indícios de ser Salvador a cidade pioneira no Brasil no acesso franco de negros à liga de futebol principal.

Em Porto Alegre existiu entre 1915 e 1930 a Liga Nacional de Futebol Porto Alegrense, pejorativamente conhecida (e divulgada na imprensa "branca") como Liga da Canela Preta, a liga dos negros. Em 1922, a liga "branca" criou sua segunda divisão e nela abriu oportunidades para jogadores e clubes negros, fato que originou uma lenta e gradual decadência da Liga da Canela Preta.

No interior do Rio Grande do Sul também foram criadas ligas exclusivas de negros. Em Pelotas a Liga José do Patrocínio e em Rio Grande, a Liga Rio Branco, todas exclusivas para atletas negros, em modelo semelhante ao encontrado nos EUA até 1960 e África do Sul na vigência do apartheid, quando a discriminação racial assumia forma aberta institucional.

Em 1950, quando a Seleção Brasileira perdeu o Mundial para o Uruguai, os negros do time foram massacrados pela imprensa e pela opinião pública e considerados os culpados pela derrota. Os mais execrados foram o goleiro Barbosa, o zagueiro Juvenal e o lateral Bigode. Barbosa carregou consigo até a morte, em 2000, a culpa de supostamente ter falhado no gol de Ghiggia, que deu o título aos uruguaios. “No Brasil a pena máxima é de 30 anos. Eu já cumpri 50”, dizia, amargurado, pouco antes de morrer. (Pesquisa: Nilo Dias)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

No ano do centenário o “Leão do Sul” voltou a rugir

O centenário do Barra Mansa Futebol Clube, da cidade de Barra Mansa (RJ) passou quase despercebido pela grande imprensa brasileira, que sabidamente volta seus olhos apenas para os clubes do Rio de Janeiro e São Paulo, esquecendo os demais. O chamado “Leão do Sul” chegou a marca centenária o ano passado. O clube foi oficialmente fundado em 15 de novembro de 1908, com o nome de Barramansense e camisas nas cores azul e branca. Em 10 de outubro de 1915, mudou a denominação para Barra Mansa Football Club, que permanece até hoje.

A história oficial mostra que o futebol profissional foi implantado no Brasil a partir de 23 de janeiro de 1933, mas alguns historiadores tem outra versão: teria sido o Barra Mansa o primeiro clube a profissionalizar o futebol no Brasil, isto por volta de 1911. O período de profissionalização do clube se manteve até a década de 60. A partir daí, o clube passou a participar de torneios amadores e, em raríssimas vezes, montou times profissionais, que acabaram desfeitos.

Em dezembro de 1915, o Leão do Sul recebeu em casa o Atlhetic, do Rio Janeiro, para uma partida amistosa. Toda a movimentação do jogo foi descrita no extinto jornal local, “Cartão Postal”. O resultado frustrou aos torcedores, pois os visitantes venceram por 3 X 2, num confronto muito disputado, realizado sob temporal.

O Barra Mansa formou com: Quinzinho - Walter e Penna – Guimarães - Fernando e Soares - Samuel - Theophilo – Ismar - Heitor e Lourenço. O Atlhetic com Uimbyrê - Alvez e Rabello – Dualco - Paiva e Hugo – Adhemar – Cyro – Ruy - Renato e Albino. Os gols foram anotados por Cyro, Ruy e autor desconhecido, para os visitantes. Guimarães e Walter marcaram para o Barra mansa. Juiz, Francisco Leite.

O melhor momento do Barra Mansa aconteceu quando foi dirigido pelo rico empresário sírio Espiridião Geraidini, que não mediu esforços para formar times de ponta. Pelos quadros do Leão do Sul passou gente como o filho ilustre da cidade Jair da Rosa Pinto, na época conhecido como “Jajá de Barra Mansa”, um dos mitos do futebol brasileiro.

Jair começou a carreira no Barra Mansa F. C. e apesar da imprensa o chamar de “Jajá de Barra Mansa”, foi em Quatis que o craque nasceu. Surgiu no Esperança, time de peladas, de onde se transferiu para o Barra Mansa. Em 1938 foi para o Madureira, onde formou com Lelé e Isaías, o trio que ficou conhecido como “Os Três Patetas”. Em 1943, seus dribles e lançamentos impecáveis levaram-no para o Vasco. Lá, foi campeão invicto em 1945. Em 1947, foi vendido ao Flamengo, time onde fez 62 gols em 87 jogos. Em19 49, após desentendimentos com dirigentes rubro-negros, o Palmeiras adquiriu seu passe.

Foi nesse período que Jair vestiu a camisa 10 da seleção brasileira e perdeu a Copa do Mundo de 1950. Compensando, ganhou o título estadual de 1950 e o torneio Rio-São Paulo de 1951. Em 1956 foi defender o Santos e formou um ataque que tinha Dorval, Jair, Pagão, Pelé e Pepe. Na equipe santista, conquistou os campeonatos paulistas de 1956, 1958 e 1960. Em 1962, foi para o São Paulo, onde encerrou sua carreira vitoriosa.

O clube já possuiu grande rivalidade com a Associação Atlética Barbará, da mesma cidade, e os jogos entre essas duas equipes já foram consideradas o "clássico" da cidade. Esta rivalidade diminuiu com a decadência que os clubes enfrentaram na década de 80, em especial o Barbará que ainda hoje sofre para se reerguer.

Ultimamente a rivalidade maior do Barra Mansa é com o Volta Redonda Futebol Clube, da vizinha cidade. Nas vezes em que se enfrentaram, o clima de animosidade entre os clubes foi evidente, bem diferente da cordialidade existente entre Barbará e Barra Mansa.
Outro clube rival do Barra Mansa é o Fênix Futebol Clube, também de Barra Mansa, fundado em 2005. Os dois times se encontraram na primeira fase da “Terceirona” Carioca.

Principais conquistas: Campeão Fluminense de Futebol (1953 e 1953, supercampeonato); Campeão Carioca , Grupo B da 1ª Divisão (1995); Campeão do Torneio Início do Campeonato Fluminense (1953); Campeão da Copa Vale do Paraíba (1953, 1958 e 1965); Vice-campeão Carioca da 2ª Divisão (1993 e 1996); Vice-campeão Fluminense (1955); Vice-campeão do Supercampeonato Fluminense (1955); Vice-campeão da Copa Vale do Paraíba (1967 e 1968); Vice-campeão da Copa Zico, Copa da Integração (2001); Semi-finalista do Torneio do Interior (1995).

O centenário do clube mereceu muita festa, o ano passado: Sessão Solene na Câmara de Vereadores, com entrega de diplomas a ex-jogadores, ex-presidentes, imprensa e colaboradores. Entre os jogadores homenageados estavam o mais antigo do clube, Silas Silva, 80 anos e Rubens de Souza, o Rubinho, 78 anos. Foram realizados jogos de futebol no Estádio Prefeito Ismael de Souza, no bairro Colônia Santo Antônio, reunindo atletas de todas as idades.

A festa teve seu auge com um churrasco, onde estiveram presentes a diretoria do clube, colaboradores, os ex-jogadores Joãozinho, Adilson, Zezé, Getulinho, Pedal, Paulinho Cupim, Luis Amaral, Chiquinho, ex-presidentes, autoridades políticas, imprensa e torcedores do clube. Na ocasião, o presidente Celestino Rezende, à frente do Leão do Sul desde março do ano passado, lembrou que o Barra Mansa ressurgiu e já participou da Terceira Divisão do Campeonato Estadual de 2008.

Os jogos do “Leão do Sul” apresentaram estes resultados: Barra Mansa 2 X 1 Cidadania; Paraíba do Sul 0 X 0 Barra Mansa; Barra Mansa 1 X 1 Fênix; Campo Grande 1 x 0 Barra Mansa; Cidadania 0 X 2 Barra mansa; Barra Mansa 1 x 0 Paraíba do Sul; Fênix 0 X 1 Barra Mansa; Barra Mansa 1 x 2 Campo Grande; Várzea 2 X 2 Barra Mansa; Sampaio Corrêa 0 X 0 Barra Mansa; Barra Mansa 5 X 0 Várzea; São João da Barra 3 X 0 Barra Mansa e Barra Mansa 5 X 3 Sampaio Corrêa.

O time não obteve a classificação, mas a boa campanha deixou a certeza de que muitas vitórias estão por acontecer. É o renascimento de um dos grandes clubes do passado, que ressurgiu no ano do seu Centenário.

O clube não participava de qualquer competição desde 2001. Mas antes, entre as décadas de 20 e 60, era tido como um furacão nos gramados, vencedor de vários títulos. Entre eles, o de campeão fluminense de 1953, organizado pela extinta Federação Fluminense de Desportos. Já nos anos 70 e 80, o clube passou totalmente em branco. Sua última participação em competições foi na Copa Zico, em Resende, cidade vizinha, já com uma equipe amadora. O torneio reuniu outras equipes do Sul do Estado, além do CFZ (do próprio Zico, representando a capital), único time profissional a participar.

Através o Projeto de Lei 1581/2008, de autoria da deputada estadual Inês Pandeló, o Barra Mansa Futebol Clube foi considerado patrimônio cultural e esportivo do Estado do Rio de Janeiro, para fins de tombamento de natureza imaterial. A parlamentar salientou que o Barra Mansa Futebol Clube é o mais tradicional clube de futebol do município de Barra Mansa, sendo considerado o primeiro time profissional de futebol de todo o país. Suas tradicionais cores, o azul e o branco, são as mesmas que ostentam a bandeira do estado do Rio de Janeiro. (Pesquisa: Nilo Dias)

Barra Mansa F.C. em 1968. Em pé: Agostinho - Wilson - Roberto Bocão - Ênio - Luiz Carlos - Canário e Café. Agachados: Tarugo - Doca - Mário - Maurinho e Bira. (Foto: Acervo do Barra Mansa Futebol Clube)

terça-feira, 2 de junho de 2009

O “Galo Azul” comemorou 100 anos

Quando o futebol começou a ser praticado no Brasil, as empresas ferroviárias paulistas tiveram uma participação importante na difusão do novo esporte. Muitas foram as equipes fundadas pela influência dos trilhos, entre elas a tradicional Ponte Preta de Campinas (1900), Pirassununguense (1907), Ferroviária de Araraquara (1950), Noroeste de Bauru (1910) e o já centenário Rio Claro Foot-Ball Club, da cidade de Rio Claro, fundado no dia 9 de maio de 1909, entre outras.

Conta o jornal “Alpha”, de Rio Claro, edição de 19 de maio de 1909, que foram quatro os fundadores do clube, o professor Joaquim Arnold e três empregados da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, Bento Estevam de Siqueira, Constantino Carrocine e João Lambach. Eles se reuniram na avenida 8, número 2, para fundação do clube que hoje é o terceiro mais antigo do Estado de São Paulo em atividade, ficando atrás apenas de Ponte Preta e Pirassununguense. Esses apaixonados desportistas sonhavam em transformar Rio Claro na capital do futebol.

A primeira diretoria do Rio Claro Foot-Ball Club estava assim constituída: Presidente, Celso de Lima; Secretário, José da S. Franco; Tesoureiro, Américo Mendes ; Procurador, Adelino de Oliveira ; Capitão, Fulgêncio de Godoy ; Vice-capitão, José Antonio Braga e Fiscais de Campo, Bernardino Brandão e Augusto Bull. Nos primeiros anos pós fundação, o Rio Claro realizou seus treinos e jogos no campo do Grêmio Recreativo dos Empregados da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Um dos feitos mais memoráveis da história do clube aconteceu no dia 20 de setembro de 1914, quando enfrentou de igual para igual o S.C. Germânia, campeão paulista de 1906. O resultado de 1 x 1 fez com que o prestígio do rio Claro aumentasse consideravelmente. Em razão disso o time principal foi convidado para jogar em São Carlos, na inauguração do Ideal Club, recém fundado conforme noticiou o jornal "O Alpha", de 27 de setembro de 1914.

O mesmo jornal noticiou dias depois que o Rio Claro, jogando no gramado do Grêmio goleou impiedosamente o Club Vitória, da capital, por 8 X 0,. Os destaques do time foram João Gemignani e Nenê Marinho. Parque do Grêmio era o nome dado pelos diretores do Grêmio da Companhia Paulista para o espaço onde ficava o campo, o mesmo local que existe até hoje. A venda de bebidas era feita na área social, num local apelidado de “Botequim do Quintal.

Com a criação da Liga Oeste de São Paulo em 1915, também conhecida como Liga Regional D’Oeste, o Rio Claro participou pela primeira vez de uma competição oficial. A performance do time foi apenas regular, alternando bons e maus resultados. Foram adversários o Ideal Club de São Carlos, White Team de Campinas, Araraquara College, A.A. Bebedourense e Jaboticabal Atlético.

Em 1916 o Rio Claro disputou apenas partidas amistosas, mas contra equipes mais categorizadas. No dia 19 de março, em Rio Claro, empatou com o Paulista F.C. de Jundiaí por 3 x 3. Em 30 de abril foi até Ribeirão Preto e derrotou o Comercial por 2 X 0. No dia 27 de agosto, por ocasião ada inauguração de uma arquibancada no campo do Grêmio, recebeu e derrotou por 1 X 0, a A.A. das Palmeiras, campeão paulista da 1ª divisão de 1915 pela APEA, uma das entidades que organizava o campeonato estadual.

No dia 25 de dezembro, o Rio Claro deu um presente de Natal aos seus torcedores, levando até Rio Claro nada mais, nada menos, que o poderoso S.C. Corinthians Paulista. Com o campo completamente lotado, o time campeão paulista daquele ano pela LPF, a outra entidade que organizava o campeonato, venceu o amistoso por 3 X 2. O Rio Claro formou com: Tarante - Oscar e Ribeiro - João Gemignani - Lydio Camparoto e Collabone - Dario - Bento, Tonico, Nenê e Coli. O Corinthians Paulista jogou com: Casemiro- Fulvio e Casemiro II – Pollici – Plinio e César – Américo – Constantino – Amilcar - Marconi e Néco.

Em 1931, o Rio Claro inaugurou o seu próprio estádio, moderno para a época, no mesmo terreno onde hoje funciona o Espaço Livre. Em 16 de março de 1940, a praça de esportes ganhou um sistema de iluminação, que foi inaugurado num jogo contra a Ponte Preta, quando o Rio Claro conquistou a Taça Doutor Francisco Penteado. Ainda em 1940, o Rio Claro participou da fundação da Liga Municipal de Futebol de Rio Claro, sendo campeão do primeiro certame organizado pela nova entidade, no mesmo ano.

Em 1973 foi oficialmente inaugurado o atual estádio municipal Doutor Augusto Schmidt Filho, na época chamado estádio Doutor Álvaro Perin, com capacidade para 10.000 pessoas sentadas e considerado um dos melhores do interior paulista. O Rio Claro utiliza o estádio prioritariamente e por tempo indeterminado.

O Rio Claro é chamado de “Galo Azul” por sua entusiasmada torcida. O apelido se originou de uma verdadeira disputa de “galos” com o velho rival, Velo Clube, que era conhecido como “Galo Vermelho”, por causa de suas cores oficiais. A rivalidade entre ambos era tão grande que o Rio Claro também adotou um galo como mascote, mas com as cores azul e branco. Outros apelidos do clube são “Azulão” e " Aguinha", pois seu campo beirava as margens do córrego do Servidão.

Nessa sua centenária trajetória o Rio Claro conquistou importantes títulos. Pela Associação Paulista de Sports Athléticos (APEA): Campeão Regional (1931, 1935, 1936 e 1937); Pela Federação Paulista de Futebol (FPF): Vice-campeão paulista da 3ª Divisão (1971); vice-campeão paulista da 2ª Divisão (1973 ); Vice-campeão da Série B2 (2001); Campeão Paulista da Série B1 (2002); Acesso para a Série A2 (2005); Vice-campeão da Copa Federação Paulista de Futebol (FPF)valendo classificação para a Série C do Campeonato Brasileiro (2005). Apesar do acesso, o Rio Claro não disputou a Série C, ficando a vaga com o Grêmio Barueri; Acesso para a Série A1 (2006) e conquista da vaga para a série C do Campeonato Brasileiro (2007).

O clube é dono de um moderno centro esportivo, que conta com um conjunto aquático denominado “Clube Águas do Rio Claro”, que é administrado em parceria com a Tigre S.A. Tubos e Conexões. Trata-se de uma grande área de lazer, em um terreno de 25.000 m², que possui piscinas infantis e para adultos, vestiários masculino e feminino, quatro mini-campos de futebol, uma quadra de areia e uma poliesportiva. Conta ainda com bar social, quatro quiosques com churrasqueira, playground, ambulatório, saunas masculina e feminina e área de evento coberta.

O plano de expansão do complexo esportivo prevê a construção de novos espaços destinados a outras modalidades esportivas, além do futebol. Este trabalho já começou a render seus primeiros frutos, com alguns atletas da equipe de tênis de mesa aparecendo entre os 10 melhores do Brasil. O time de basquetebol infanto-juvenil também vem se destacando nas competições da categoria. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time do Rio Claro, campeão regional de 1931. (Foto: Memorial do Rio Claro Futebol Clube)

terça-feira, 26 de maio de 2009

O centenário “Galo da Japi”

O Paulista Futebol Clube, tradicional agremiação esportiva da cidade de Jundiaí (SP), foi oficialmente fundado no dia 17 de maio de 1909, por iniciativa de funcionários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF). Mas bem que poderia comemorar o aniversário em data diferente, pois o clube é uma continuação do Jundiahy Foot Ball Club, fundado em 1903 pelo escocês Thomas Scott, principal contramestre das oficinas. Esse primeiro clube atendeu aos funcionários da ferrovia entre 1903 e 1908. A troca de nome aconteceu em uma reunião entre torcedores e associados, ao lado da locomotiva 34 da CPEF.

Nos primeiros anos de sua existência, por não haver competições organizadas na cidade, a atividade futebolística do Paulista se limitava a disputas internas entre os associados e esporádicos jogos amistosos contra outras equipes. Em seus primeiros tempos, o clube utilizou um campo na atual Vila Rio Branco, e em 1913 mudou-se para instalações em um terreno na Vila Leme.

Em 1919, o Paulista filiou-se a A.P.E.A Associação Paulista de Esportes Athléticos (A.P.E.A.), precursora da atual Federação Paulista de Futebol (FPF) e passou a disputar o Campeonato do Interior, tendo como adversários Ponte Preta, Guarani, Rio Claro, XV de Piracicaba, Comercial, Taubaté e Corinthians Jundiaiense, entre outros. Logo em seu primeiro ano na competição, o Paulista sagrou-se campeão da fase. No jogo final, em São Paulo, contra o Club Athleético Paulistano, campeão da capital, o Paulista perdeu por 5 X 4. O gol do título foi marcado pelo lendário Friedenreich.

Em 1928 foi inaugurada a iluminação do campo da Vila Leme, graças a contribuições financeiras da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, com um amistoso contra a Ponte Preta que terminou empatado em 2 X 2. Nesse mesmo ano o Paulista transferiu-se da A.P.E.A. para a L.A.F. (Liga de Amadores de Futebol). Em 1930 a Liga foi desfeita e o Paulista voltou a disputar os campeonatos da A.P.E.A., o que fez até 1933, quando ingressou na recém-criada Federação Paulista de Futebol.

Em 1948, o Paulista, até então um clube basicamente aos ferroviários, assumiu o papel de representante de toda a cidade na recém criada segunda divisão paulista. Já como clube profissional, o Paulista precisava de um estádio em melhores condições que o velho campo da Vila Leme. E assim foi construído em uma área do Jardim Pacaembu, o atual Estádio Jayme Cintra, com capacidade para 15 mil expectadores, inaugurado em 1957 num jogo amistoso em que o Paulista veneceu o Palmeiras por 3 X 2.

O time só conseguiu subir para a primeira divisão depois de 20 anos, em 1968 quando foi campeão invicto do Ascenso. A alegria durou 10 anos, pois em 1978, o time foi rebaixado e voltou a disputar a segunda divisão estadual . E teve de amargar seis longos anos fora da elite paulista. Em 1984, conseguiu voltar à primeira divisão, porém não resistiu mais do que dois anos, caindo outra vez para a segunda divisão.

Sem muitas alternativas para enfrentar as dificuldades financeiras, o Paulista passou a ver na associação com empresas a melhor alternativa para estruturar-se, ganhar competitividade, retornar à Primeira Divisão e nela permanecer em condições de estabilidade. A primeira experiência nesse sentido foi em 1986, com o grupo coreano Magnata, que não teve conseqüências relevantes.

Em 1995 a associação foi com a Lousano, quando mudou o nome para Lousano Paulista. Com muitos recursos financeiros não foi difícil subir da Série A-3 para à Série A-2 em 1995, e a ganhar a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 1997, após derrotar o poderoso Corinthians. A parceria foi desfeita em 1998 e no mesmo ano conseguiu novo investidor, a Parmalat. E veio uma outra troca de nome, desta vez para Etti Jundiaí. A parceria deu certo e o time voltou à Série A-1 do Paulistão e à Série B do Campeonato Brasileiro.

Com o fim da parceria em 2002, o clube passou a se chamar Jundiaí Futebol Clube. A realização de um plebiscito entre a população optou pela volta do nome original de Paulista Futebol Clube. A partir daí o “Galo da Japi” conheceu sua melhor fase. Em 2004, dirigido pelo técnico Zetti foi finalista do Campeonato Paulista, depois de eliminar o Palmeiras. Na partida final, perdeu para o São Caetano, que foi o campeão daquele ano.

Em 2005, o Paulista conquistou o título de maior expressão em sua história, o de campeão da Copa do Brasil. Sob o comando do técnico Wagner Mancini, eliminou em sua vitoriosa trajetória somente times da 1ª Divisão Nacional. Juventude, Botafogo, Internacional, Figueirense, Cruzeiro e Fluminense conheceram a força do time jundiaiense, que se classificou para disputar pela primeira vez a Copa Libertadores da América.

Numa competição tão difícil, o Paulista não conseguiu passar da primeira fase. Mas ainda assim deixou sua marca, ao derrotar o grande River Plate da Argentina, por 2 X 1, em histórico jogo disputado no estádio Jaime Cintra, em Jundiaí. Nesse mesmo ano de 2006, o Paulista aplicou a maior goleada da história da Série B, ao vencer o Paysandu, de Belém do Pará, por 9 X 0.

No ano seguinte a boa fase chegou ao fim. Depois de uma péssima campanha na segunda divisão, o Paulista acabou rebaixado para a Série C de 2008.

A mascote do Paulista é o Galo. A adoção do animal como símbolo do clube veio em 1940, quando em uma partida contra seu maior rival, o Comercial, um galo foi jogado em campo enquanto o tricolor vencia a partida. Os jogadores do Comercial começaram a “caçar” o galo e a torcida do Paulista, é claro, torceu pelo animal.

Alguns jogadores importantes do futebol brasileiro vestiram a camisa do Paulista. Entre eles, Toninho Cerezo, Neto e Casagrande. Recentemente, o grande nome do time foi o meia Marcio Mossoró, destaque na conquista da Copa do Brasil de 2005, que foi para o Internacional, de Porto Alegre, sendo campeão da Libertadores de 2006 e do Mundial de Clubes no mesmo ano.

No início de 2009, o Paulista acabou montando seu elenco às pressas e lutou contra o rebaixamento até a última rodada, mesmo assim ainda conseguiu a classificação para a recém criada série D, do Campeonato Brasileiro.

Os principais títulos do Paulista em toda a sua história foram: Série A-2 do Campeonato Paulista (1968 e 2001); Campeonato Brasileiro da Série C (2001); Copa do Brasil (2005); Copa da Federação Paulista de Futebol (1999); Campeonato Paulista do Interior (1919 a 1921).

Em janeiro de 2007 o Paulista passou a fazer parte do projeto Campus Pelé que é um ambicioso e inovador projeto de estímulo aos jovens jogadores brasileiro. O Paulista é um dos pilares do projeto, sendo os outros: construção do Campus Pelé (Jundiaí), utilização da marca Pelé, parceria com um clube europeu, o FC Lausanne Sport (Suíça) e incorporação do Litoral Futebol Clube (Santos). (Pesquisa: Nilo Dias)

Os fundadores do Paulista Futebol Clube, junto a locomotiva 34 da CPEF. (Foto: Acervo do Paulista Futebol Clube)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O centenário "Galo" de Vinhedo

Três importantes clubes de futebol do interior paulista completaram 100 anos de fundação neste inicio de 2009: Associação Rosinhense de Futebol, de Vinhedo, Paulista Futebol Clube, de Jundiaí e Rio Claro Futebol Clube, de Rio Claro. Outros dois também vão entrar no seleto grupo de agremiações centenárias neste ano de 2009, o Coritiba Futebol Clube, de Curitiba (PR) em 12 de outubro e o Club Sportivo Sergipe, de Aracaju, em 17 de outubro.

A história da Associação Rosinhense de Futebol começou a ser escrita no dia 20 de Janeiro do ano de 1909, quando um grupo de desportistas reuniram-se em uma fábrica de chapéu de palhas, pertencente ao senhor João Benetti, que se localizava próximo a atual Praça de Sant’Ana, no centro do então Distrito de Rocinha, com o objetivo de fundar um time de futebol.

Não foi preciso muita conversa para que chegassem a um consenso quanto ao nome do novo clube: Associação Rocinhense de Futebol, uma referência ao distrito de Rocinha, que passou à município em 1948, mudando o nome para Vinhedo. As cores escolhidas para as camisas foram o vermelho e branco.

Na ata de fundação constam os nomes dos desportistas Romeu de Moraes, Antônio Gonçalves, Attílio Braghetto, Francisco Salustiano de Souza, Epifânio Salustiano de Souza e Fernando Biscardi. Curiosamente, não foi eleita uma Diretoria, dividindo-se de maneira igual às responsabilidades. Todos concordaram numa coisa, que a principal atividade da nova agremiação seria o futebol. De imediato foi conseguido um campo, no local onde hoje se encontra a Igreja Matriz. Depois, o time se transferiu para a Vila Planalto, em uma área que pertencia a Familia Pescarini e onde atualmente está o Colégio Patriarca da Independência.

Organizado e bem dirigido, não demorou para que o Rocinhense ganhasse muitos torcedores. O esforço de seus jovens dirigentes era reconhecido, tanto que o clube ganhou uma gleba de terra, pertencente à dona Leontina Swalles de Barros, proprietária da Fazenda Cachoeira. A terra doada é onde hoje se localiza o balneário do clube, perfazendo uma quadra inteira na área central da cidade.

Não demorou para que o Rosinhense passasse a ser um time conhecido e respeitado em toda a região. O crescimento rápido exigia pulos mais altos. Os jovens do distrito clamavam por um local onde pudessem se reunir e se divertir. A idéia foi amadurecendo e o clube, que já contava com um bom número de sócios e algum recurso em caixa, acabou por comprar uma área ao lado da Igreja Matriz, na Praça de Sant’Anna, de propriedade da Família Trevisan, por 30 contos de réis. E uma outra parte da área, onde foi erguida a sede social, foi presente da Família Magalhães.

Nos seus primeiros anos de existência o Rosinhense possuía uma das melhores equipes de futebol da região. O “Galo”, como era chamado por seus torcedores chegou a participar por diversas vezes de campeonatos regionais da Federação Paulista de Futebol. Disputou a 4ª Divisão de Profissionais em 1966 e 1967. Foi campeão da Série Carlos Rolim em 1953 pela Liga Campineira de Futebol, e por várias vezes campeão municipal de Vinhedo. A mascote do clube é o “Galo Vermelho e Branco”.

O Rosinhense foi o primeiro adversário do Guarani, fora de Campinas. O jogo amistoso foi realizado no dia 1 de outubro de 1911 e vencido pelos visitantes por 2 x 1.

Atualmente a Associação Rocinhense de Futebol é dona de um apreciável patrimônio, possuindo auma sede na Praça de Sant’Ana, um salão social, sala de troféus e reuniões, dois campos de bochas acarpetados, salão de jogos, lanchonete e secretaria. No balneário localizado na Rua Fernando Costa, existem duas piscinas, uma quadra de tênis e paredão, um campo de futebol society, uma quadra poliesportiva, sala para exercícios, parque infantil, salão de jogos, dois campos de bochas, pista para autorama, sauna, lanchonete, área para churrascos e vestiários. (Pesquisa: Nilo Dias)

Fundação do Rosinhense (Foto: Acervo da Associação Rosinhense de Futebol)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A morte entra em campo (Final)

O jogador de vôlei Cedric Schlienger, de 26 anos, do Clube Chaumont, da França morreu no dia 30 de agosto de 2007, enquanto era levado a um hospital, pouco depois de sofrer uma parada cardiorespiratória, durante um treino de sua equipe.

O jogador Jairo Andrés Nazareno, de 21 anos, do Chimborazo F.C., da terceira divisão do Equador, morreu no dia 1 de setembro de 2007, após disputar uma partida pela sua equipe, no estádio de Yaruquies, contra a Liga Politécnica. Nazareno há um mês tinha entrado na equipe da cidade andina de Riobamba.

O técnico do Chimborazo, Ramiro Sucuy disse que 20 minutos depois do final do jogo o atleta subiu às arquibancadas para assistir à partida entre Star e Atlético Universitário, quando começou a se queixar de dores no peito e paralisação progressiva do corpo. Ele foi levado a um hospital de Riobamba onde foi atendido pelos médicos, mas começou a ter convulsões e acabou morrendo.

Mais dois jogadores de futebol morreram nesse fatídico dia 1 de setembro de 2007. O atleta zambiano Chaswe Nsofwa, do clube Hapoel Beersheba, de Israel, de 26 anos morreu depois de desmaiar em um treinamento no dia 1 de setembro de 2007. Após seguidas tentativas de reanimação, o jogador foi atendido no Hospital Soroka, onde não resistiu e morreu. A temperatura durante o treinamento estava próxima aos 40ºC.

O futebolista espanhol Angel Arenales Torres, de 31 anos, do Club Veteranos del Atletico Sobrarbe, de Huesca, ao norte da Espanha morreu de parada cardiaca, logo após o término de um jogo amistoso de seu clube.

O experiente jogador Phil O’Donnel, 35 anos, médio e capitão do Motherwell, um time mediano da Escócia, morreu na tarde do dia 29 de dezembro de 2007, depois de ter desmaiado no gramado, quando ia ser substituído durante um jogo contra o Dundee United. O jogador foi assistido no local durante cinco minutos e levado para o Wishaw General Hospital, mas todos os esforços feitos para a sua reanimação foram inúteis. Pelas informações que chegaram, ele sofreu um derrame cerebral. Phil O'Donnell começou a carreira de futebolista no próprio Motherwell e depois alinhou no Celtic e no Sheffield Wednesday. Em 2004 regressou ao clube do Fir Park.

Frente a tantas mortes ocorridas nos gramados, a Fifa acendeu um sinal de alerta para a prevenção desses casos, passando instruções necessárias às seleções que disputam as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010 sobre as medidas para se tentar evitar que estes incidentes se repitam. Com relação às posturas adotadas pelos clubes, a Fifa afirmou que não pode fazer nada a respeito do assunto, já que possíveis punições por negligência ou qualquer outro tipo cabe à federação ou a membros da Justiça do país onde ocorreu o incidente.

Toda essa situação está chamando a atenção de cardiologistas do mundo inteiro, como Nabil Ghorayeb, um dos principais nomes de sua área no Brasil e especialista em Medicina do Esporte. Na sua ótica, só existe uma solução para prevenir o risco de novas mortes nos campos de futebol: a avaliação correta do estado de saúde do atleta antes do início das atividades.

Ele observa que o esporte não mata, e sim as doenças não diagnosticadas ou desvalorizadas. O fato do número de mortes súbitas ter aumentado é relacionado ao aumento no número de praticantes. “Como todos querem praticar exercícios físicos, aumenta o número de problemas”, disse.

O cardiologista chama a atenção para a obrigatoriedade da existência de equipamentos de socorro em casos de problemas cardíacos. Cerca de 90% das mortes súbitas ocorrem por um caos elétrico no coração, que faz o órgão bater acelerada e desordenadamente. E, em oito de cada dez casos desse tipo, a única esperança de sobrevivência da vítima é o uso de um equipamento de choque elétrico, o chamado desfibrilador.

Os especialistas afirmam que a presença do aparelho é fundamental em academias e locais onde se praticam esportes. ''É desejável que nesses lugares haja esses equipamentos e que eles estejam acessíveis'', diz o chefe do setor de Arritmia Cardíaca do Hospital Pró-Cardíaco, do Rio de Janeiro, Eduardo Saad. ''Respiração boca a boca e massagens podem manter a pessoa viva por um curto período, mas não resolvem'', alerta.

Nos Estados Unidos, as academias já se equiparam e os desfibriladores estão também em aeroportos, cassinos e shopping centers. O cuidado se justifica: as doenças do coração são as que mais matam os americanos. ''No Brasil, poucos lugares possuem desfibrilador'', diz Saad.

Um projeto de lei do senador Tião Viana (PT-AC) determina a obrigatoriedade de equipar locais públicos com desfibriladores cardíacos. Parado na Câmara dos Deputados, o texto prevê que os equipamentos sejam colocados em rodoviárias, aeroportos, centros comerciais, ginásios esportivos, hotéis, templos ou em locais que tenham aglomeração ou circulação superior a 2 mil pessoas por dia.

Além disso, os Conselhos Regionais de Educação Física e Medicina do Rio de Janeiro também estudam a obrigatoriedade do aparelho em academias de ginástica do Estado. Por enquanto, no Brasil, apenas o Estatuto do Torcedor obriga os estádios a ter desfibriladores. (Pesquisa: Nilo Dias)

Doutor Nabil Ghorayeb, médico cardiologista e especialista em Medicina do Esporte, explica porque cada vez mais pessoas morrem durante competições esportivas.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A morte entra em campo (2)

Uma parada cardíaca foi a causa da morte do jogador camaronês Marc-Vivien Foé, que caiu no gramado do estádio Gerland aos 27 minutos do segundo tempo do jogo semifinal da Copa das Confederações, em junho de 2003, quando a seleção de seu país enfrentou a Colômbia. Até o médico da seleção colombiana, Héctor Fabio Cruz, tentou ajudar o atleta, que ainda teve um ataque epilético antes de morrer num hospital de Lyon.

A autópsia feita no meia camaronense revelou que ele possuía uma hipertrofia cardíaca causada pelo hiperdesenvolvimento da válvula esquerda. Mesmo com a morte do compatriota, os camaroneses foram a campo para disputar a decisão da competição contra a França, após pedido formal do presidente da Fifa, Joseph Blatter, e foram derrotados por 1 X 0 na prorrogação.

Uma convulsão tirou a vida do zagueiro Maximiliano Ferreira, do Botafogo de Ribeirão Preto. O ataque ocorreu durante um treinamento do time, em 2003.

Com apenas 20 anos de idade o volante e capitão da equipe de juniores do Criciúma (SC), Edicam Gabriel da Rosa morreu durante um treinamento. Acredita-se que tenha sido vítima de uma parada cardiorespiratória, o que não foi confirmado uma vez que a família não permitiu que fosse feita a necropsia.

O jogador húngaro Miklos Fehér sofreu uma parada cardiorespiratória durante a final do Campeonato Português em 25 de janeiro de 2004. Ele jogava pelo Benfica e entrou na partida contra o Vitória de Guimarães aos 15 minutos de seu final.

Dois dias depois, um jogador de 30 anos, identificado apenas como Andreas, sofreu um colapso em treino do Kavlinge, da quarta divisão sueca.

No dia 30 de abril de 2004 o goleiro Dany Ortiz, de 28 anos, da seleção da Guatemala e do Municipal da Cidade de Guatemala, morreu depois de sofrer uma forte pancada no tórax, em uma jogada fortuita com um atacante da equipe rival, o Comunicaciones . Ele tombou no gramado do Estádio Olímpico Mateo Flores com uma grave hemorragia interna e acabou falecendo horas depois em um hospital privado do sudeste da cidade, também em decorrência de problemas cardíacos.

Em maio de 2004, o futebol português vivenciou outro drama de perto. O jovem Bruno Baião, 18 anos, teve uma parada cardíaca logo após treinar pela equipe júnior do Benfica. Ele foi levado para um hospital e, após permanecer quatro dias em coma profundo, teve a morte anunciada.

No dia 5 de dezembro de 2004 o jovem jogador de 19 anos, Diego Carvalho, do Soccer Club de Ribeirão Preto (SP), uma franquia da escola do São Paulo Futebol Clube ficou desacordado depois de cabecear uma bola aos 8 minutos de um jogo contra o José Sampaio, em Brodosqui (SP). Diego foi atendido por um assistente aposentado do Corpo de Bombeiros de nome Cabral, que fez respiração boca a boca. Como o estado do jogador não era bom ele foi levado ao posto de saúde da cidade de Brodosqui, onde chegou quase sem pulso e com dilatação de pupilas.

O pai do jogador, Pedro de Carvalho, estava presente e levou o filho às pressas para Ribeirão Preto, sendo atendido no Hospital Ribeirânia, através de convênio médico, mas não foi possível salvá-lo.

Diego de Carvalho era o artilheiro do campeonato e estava sendo preparado para ser observado nas categorias de base do São Paulo, onde o Soccer Club, sempre manda as revelações. Diego de Carvalho teve uma passagem nas categorias de base do Comercial, e estava em dúvida quanto a seguir a carreira, pois no ano seguinte deveria ingressar na faculdade.

No mesmo dia 5 de dezembro de 2004 o atacante brasileiro Cristiano de Lima Júnior, 25 anos, do time indiano Dempo Sports, morreu vitimado por um infarto. O jogador caiu desacordado no gramado do estádio de Bangalore, ao Sul da Índia, após se chocar com o goleiro adversário, Subroto Pul, pouco antes do término do jogo final da Copa da Federação (competição nacional da Índia).

Mas, de acordo com outro brasileiro da equipe, Douglas Silva, Cristiano foi agredido com um soco por Pul, e depois caiu desacordado. O jogador foi levado para o hospital, mas não resistiu e morreu no caminho. O Dempo venceu o Mohun Bagan por 2 X 0 e ambos os gols foram marcados por Cristiano.

O esloveno Nedzad Botonjic, 28 anos, morreu em fevereiro de 2005 durante um treino de sua equipe, o NK Ljubljana. O goleiro titular da equipe da Eslovênia teve um mal súbito, caiu e não conseguiu ser reanimado pelos médicos da equipe. Dirigentes e médicos do clube afirmaram que desconheciam qualquer problema cardíaco do atleta.

Em setembro de 2005 ocorreu a morte do jovem triatleta Tiago Machado, em Juiz de Fora (MG). Ele teve sintomas de tonturas e palpitações dias antes, não valorizados e possivelmente em razão disso sofreu uma parada cardíaca não recuperada, seguida de morte súbita irreversível durante treinamento.

O atacante paraguaio Sixto Rojas, do Sportivo Trinidense, teve um colapso durante treino em 11 de janeiro de 2006, e faleceu no hospital minutos depois. Os médicos acreditam que ele teve uma embolia cerebral.

Nilton Mendes, brasileiro, 30 anos, ex-jogador do Atlético Mineiro, defendia o Shakhtyor de Karagandá, no Casaquistão e morreu vítima de uma parada cardíaca em setembro de 2006. Nilton se sentiu mal durante um treino e foi examinado pelo médico da equipe, que constatou que ele estava com a pressão muito elevada. Os médicos tiveram tempo de chamar o resgate, mas o atleta não resistiu e morreu.

O jogador Alex Sandro de Souza Pereira, de 29 anos, que defendia o América de Avaré (SP), teve uma parada cardiorespiratória em 26 de novembro de 2006, durante uma partida amistosa contra o Vila Martins. Os companheiros de time tentaram reanimá-lo ainda em campo. Ele foi colocado em uma ambulância, mas não resistiu e morreu no hospital.

Maria de Souza, de 50 anos, tia do jogador teve um ataque cardíaco quando soube da morte do sobrinho e também morreu. Além da tia, a avó do jogador passou mal e chegou a ser internada na UTI do Hospital de Avaré, mas se recuperou, recebeu alta e foi para casa.

O jogador havia defendido a Matonense no Campeonato Paulista da Série A-3, no início do ano. Desde abril, no entanto, estava sem clube e vinha participando apenas de partidas do futebol amador.

No mesmo dia morreu o atleta Anderson Rocha da Silva, 17 anos, durante a Maratona de Curitiba (PR) e Raimundo Rodrigues Sobrinho, 57 anos, em Cuiabá (MT). Os dois foram vítimas do que os médicos chamam de morte súbita no exercício e no esporte (MSEE).

O jogador Antônio Puerta, de 22 anos, que defendia o Sevilla da Espanha morreu no dia 28 de agosto de 2007, vítima de falência múltipla dos órgãos, causada por uma parada cardíaca prolongada. Puerta desmaiou durante uma partida do Campeonato Espanhol, mas se recuperou e foi andando até o vestiário, onde sofreu a parada cardíaca. O jogador ainda ficou três dias no hospital Virgen Del Rócio, em estado crítico.

Com a morte desse jogador a UEFA se preocupou tanto que chegou a cancelar jogos das competições européias, e certos clubes, como o Olympikos se recusaram a jogar no dia posterior ao fato. Desta vez a coisa afetara um país europeu de grande porte em que é realizado um dos principais campeonatos de todo o mundo.

Depois da morte de Puerta, os exames médicos realizados por clubes espanhóis ganharam uma novidade: um teste genético para detectar doenças cardíacas. O teste consiste em um estudo do DNA para detectar alterações genéticas. O exame ajuda a prevenir casos de morte súbita em campo e outros problemas do coração. (Pesquisa: Nilo Dias)

Velório do jogador espanhol Puerta.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A morte entra em campo (1)

Estão reabertas as discussões sobre as causas de mortes súbitas de atletas de corridas populares como a São Silvestre, jogadores de futebol e de outras atividades esportivas, que vem aumentando nos últimos anos em todo o mundo. O caso mais recente e dramático foi o do jogador de futsal, José Carvalho da Cunha Júnior, o “Rabicó”, de 39 anos, que teve passagens pela Seleção Brasileira de futsal na década de 90 e Barcelona da Espanha. Ele morreu na noite de 30 de abril, ao sofrer um infarto minutos depois do final da partida pelo campeonato gaúcho da Série Ouro, em que sua equipe, a Associação Santa Cruz de Futsal (Assaf) perdeu por 6 X 3 para a Associação Carlos Barbosa de Futsal (ACBF).

Ainda na quadra do Ginásio Poliesportivo Municipal de Santa Cruz do Sul, o jogador, que marcara o último gol de sua equipe e que já projetava a aposentadoria, sofreu um mal súbito e caiu desacordado quando era entrevistado por uma emissora de rádio da cidade. Uma ambulância estacionada na frente do ginásio levou Rabicó ao hospital Santa Cruz, onde os médicos tentaram reanimá-lo por cerca de 30 minutos, sem êxito. A morte de Rabicó foi confirmada às 22h30min.

A morte do pivô Rabicó traz a lembrança outros casos de jogadores que faleceram após sentirem-se mal enquanto jogavam. No Brasil, o episódio mais conhecido é o do zagueiro Serginho, do São Caetano, que desmaiou em campo durante um jogo contra o São Paulo, em outubro de 2004. Serginho foi socorrido no gramado do estádio do Morumbi, e levado ao hospital, mas não resistiu e morreu na mesma noite.

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) puniu o clube paulista com a perda de 24 pontos no campeonato brasileiro daquele ano por negligência. De acordo com a corte, a direção do São Caetano tinha conhecimento de que Serginho enfrentava problemas de saúde e, mesmo assim foi escalado para jogar. No dia 11 de fevereiro, os jogadores do São Caetano passaram por uma série de exames de rotina no Instituto do Coração (Incor), de São Paulo. Durante um ecocardiograma foi detectado que o coração do zagueiro Paulo Sérgio de Oliveira Silva, o Serginho, apresentava uma arritmia, anormalidade na freqüência cardíaca.

Novos exames mostraram que o coração do atleta não funcionava bem, batia num ritmo desordenado e tinha dificuldade para bombear sangue para o resto do corpo. Apesar de nenhuma artéria estar comprometida, o coração do jogador estava dilatado e com suas funções comprometidas. De acordo com as diretrizes médicas internacionais, uma pessoa nessas condições deve ser proibida de praticar exercícios físicos extenuantes. Isso significa, portanto, que Serginho não poderia jogar futebol e o que aconteceu com ele foi uma tragédia anunciada.

Com a morte de Serginho as ambulâncias foram cobradas nos estádios e vários clubes fizeram convênios com hospitais para que elas estivessem presentes nos jogos.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) registra 25 mortes de atletas com menos de 35 anos por ano em vários esportes. O futebol está em primeiro lugar, o basquete em segundo e as corridas em terceiro, por que são os mais praticados em todo o mundo.

A lista de jogadores de futebol e outros atletas que morreram em atividade é extensa e praticamente impossível de ser registrada na totalidade. Segundo dados oficiais do Comitê Olímpico Internacional, de 1966 até o ano passado, se contabilizaram 1.101 mortes de atletas, com menos de 35 anos, em todo o mundo. O primeiro relato de morte súbita relacionada à atividade física intensa ou esportiva foi a do soldado grego Pheldippides, mensageiro da vitória dos gregos sobre os persas em 490 AC.

Em 1971, o zagueiro Tininho, do Guarani de Campinas sofreu um aneurisma cerebral durante um treino de seu time. Os jogadores já estavam deixando o campo quando o rapaz tombou morto.

Em dezembro de 1971 o jogador português Fernando Paschoal das Neves, do F.C. do Porto, morreu durante um jogo contra o Vitória de Setúbal. Foi vítima de uma parada cardíaca.

O jogador Valtencir, do Colorado (atual Paraná Clube) morreu aos 32 anos de idade, no dia 18 de setembro de 1978 por causa de lesões na coluna, sofridas em um jogo contra o Maringá. O lateral-esquerdo sofreu lesão na coluna cervical e no cérebro após choque com o jogador Nivaldo, e morreu no local, no Estádio Willie Davis, em Maringá.

Em 1982 o lateral-direito do Sport (Recife), Carlos Alberto Barbosa, de 26 anos, morreu vítima de um infarto que ocorreu durante uma partida contra o XV de Piracicaba, pelo Campeonato Brasileiro. O jogador sentiu-se mal e caiu no gramado. Sua morte, só foi anunciada após o jogo, vencido pelo time pernambucano por 4 X 1.

O zagueiro Beto, do Moto Clube, morreu também de infarto durante o jogo contra o Tocantins, no dia 14 de setembro de 1985, em São Luís (MA).

O jogador Zezinho Figueroa, da Internacional de Limeira (SP) morreu durante um treino recreativo de seu time, em 1986. Mais tarde foi descoberto que ele tinha um aneurisma cerebral.

No final da década de 80, o lateral-esquerdo João Pedro, do Sport (Recife) foi vítima do coração. Morreu em Timbaúba, no Estádio Ferreira Lima, numa partida contra o Estudantes, pelo Campeonato Pernambucano.

O jogador nigeriano Samuel Okwaraji morreu em agosto de 1989, em um jogo contra a seleção de Angola pela classificação ao Mundial. A autópsia revelou que ele tinha um coração muito grande e forte pressão sangüínea.

No confronto entre o York City e o Lincoln City, pelo campeonato inglês de 1990, o jogador Dave Longhurst caiu morto em campo, vítima de uma doença rara no coração.

O zagueiro carioca Vagner Bacharel, de 36 anos morreu de forma estúpida. Num jogo pelo campeonato paranaense, quando defendia o Paraná Clube, na disputa de uma bola pelo alto com o jogador Sérgio Ponvoni, do Campo Mourão, bateu com a coluna cervical no chão e, desacordado, foi levado a um hospital para atendimento.

Aparentemente não era nada de mais grave, tanto que recebeu alta hospitalar e voltou para casa, a fim de continuar o tratamento. Mas as dores de cabeça foram intensificando e, levado novamente ao hospital sete dias depois, não resistiu e morreu no dia 20 de abril de 1990.

Em fevereiro de 1995, o jogador brasileiro Augusto, que defendia um time da segunda divisão da Bélgica, rompeu a artéria aorta e morreu em campo. (Pesquisa: Nilo Dias)

A morte de Serginho teve repercussão nacional.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Hércules, o “Dinamitador”

Hércules de Miranda, considerado o melhor ponta-esquerda de toda a história do Fluminense Football Club, ganhou com justiça o apelido de “Dinamitador”, devido ao seu chute fortíssimo. O apelido pegou a partir de 1936, quando se consagrou definitivamente no Rio de Janeiro, graças a seus gols de falta. Segundo o cronista esportivo Geraldo Romualdo da Silva, Hércules tinha “um canhão no pé esquerdo e um míssil no direito”. Hércules nasceu em Guaxupé (MG), no dia 2 de julho de 1912 e morreu no Rio de Janeiro, em 3 de setembro de 1982.

Sua carreira começou na várzea paulista, e de 1930 a 1934 ele jogou no Juventus, de onde Paulo Machado de Carvalho o levou para o São Paulo da Floresta. Houve a dissolução do clube e Hércules passou a atuar no Independente, time de exibição em São Paulo, ao lado de Friedenreich, Araken e Orozimbo.

A torcida carioca o viu pela primeira vez no dia 7 de janeiro de 1934, em São Januário, onde cariocas e paulistas decidiam o título brasileiro e ele fez o gol da vitória paulista na prorrogação, depois do empate por 1 x 1 no tempo regulamentar. Como tinha passe livre, foi contratado pelo Fluminense.

A estréia de Hércules no clube carioca se deu no dia 12 de junho de 1935, na vitória sobre a Portuguesa de Desportos por 3 X 1. Para jogar no Fluminense, recebeu 10 contos de réis, uma fortuna na época, e passou a formar um grande elenco com Batatais - Ernesto Santos e Machado – Marcial - Brant e Orozimbo – Sobral - Russo - Gabardo e Vicentini.

Após a Copa do Mundo no Uruguai, os clubes brasileiros começaram a se profissionalizar, e no Fluminense o responsável por este trabalho foi o visionário presidente Oscar Alaor Prata, que trouxe para o time a base da fortíssima seleção paulista.

Em 1936, o elenco contava, entre outros, com o versátil e criativo centroavante Romeu e com o ponta-esquerda Hércules. Neste ano, Flamengo e Fluminense terminaram o Campeonato Carioca empatados em número de pontos e tiveram que decidir o título em uma melhor de três. Após um empate por 2 X 2 no primeiro jogo e uma vitória tricolor por 4 X 1 no segundo, o troféu foi para as Laranjeiras com o resultado de 1 X 1 no terceiro e decisivo confronto.

No ano seguinte, o meio-campista Elba de Pádua Lima, mais conhecido como Tim, chegou como um grande reforço para o grupo, formando um ataque avassalador ao lado de Romeu e Hércules. Inteligente, goleador e com um drible desconcertante, Tim se tornou o destaque do time e um dos maiores jogadores da história do Fluminense. No Estadual de 37, o Tricolor foi campeão com uma campanha irrepreensível: 17 vitórias, quatro empates e apenas uma derrota. Sob a bututa de Tim, a equipe não teve dificuldades para se sagrar tricampeã estadual em 1938.

A seqüência de títulos só foi interrompida em 1939, quando o Flamengo, comandado por Leônidas, venceu o Carioca. Nos dois anos seguintes o Tricolor venceu o torneio estadual. De todas as decisões, a mais famosa aconteceu em 1941, no jogo que ficou marcado como o Fla-Flu da Lagoa. Para à equipe das Laranjeiras bastava o empate para garantir o título. Por isso, os jogadores chutavam a bola para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Os remadores do Rubro-Negro tinham que buscá-la de barco, pois não havia bolas para reposição. A tática deu certo. No fim, o empate de 2 X 2 e o bicampeonato conquistado pelo Fluminense.

Hércules vestiu a camisa do tricolor carioca por 176 vezes entre 1935 e 1942, fazendo 164 gols em 176 jogos, uma média de quase um por partida, sendo até os dias de hoje, o quarto maior artilheiro da história do Fluminense. Pelo Fluminense, foi campeão carioca em 1936, 1937, 1938, 1940 e 1941.

O auge de sua carreira aconteceu no tricampeonato de 1936, 37 e 38, quando se tornou o artilheiro absoluto da campanha com 56 gols (23, em 1936; 23, em 1937; e 10, em 1938). Em 1940, foi de novo o artilheiro do time com 12 gols.

Em 1941, teve seu último ano de glória no Fluminense. Foi quando surgiu o jogador Carneiro, que passou a dividir com ele a ponta-esquerda. Em 1942, transferiu-se para o Corinthians paulista, onde jogou ao lado de seu amigo Domingos da Guia, um dos zagueiros que mais trabalho teve para marcá-lo, vindo a encerrar a carreira um ano depois, voltando para o Rio de Janeiro onde exerceu a profissão de corretor imobiliário. Com a camisa corinthiana, Hércules fez 73 partidas e marcou 53 gols.

A sua passagem pelo Fluminense também ficou marcada fora dos gramados. Ele se casou com uma associada branca do clube, o que fez com que a diretoria tricolor proibisse o ingresso de atletas nos quadros sociais da entidade. Os dirigentes diziam que “Hércules tinha de saber qual era o seu lugar - lugar de empregado, lugar de mulato, lugar de crioulo”. Felizmente, Hércules se deu bem na vida e ao pendurar as chuteiras, em 1946, já era dono de casas e terrenos em São Paulo.

Pela Seleção Brasileira, Hércules fez seis partidas e três gols, tendo jogado duas partidas na Copa do Mundo de 1938. Em 1938, Hércules foi à Copa do Mundo, na França. Em sua trajetória de 15 anos pelos gramados, Hércules jogou pelos seguintes clubes: Juventus-SP (1928-1934); São Paulo da Floresta (1935); Fluminense-RJ (1935-1941) e Corinthians Paulista (1942-1943). Foi campeão carioca nos anos de 1936, 1937, 1938, 1940 e 1941. Foi artilheiro do campeonato carioca em 1936. (Pesquisa: Nilo Dias)

(Foto: Acervo do Fluminense F.C.)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A história do goleiro malabarista (2)

Após concluir os amistosos, encantado com o profissionalismo dos clubes europeus, Jaguaré foi para o Barcelona, junto com Fausto, a “Maravilha Negra”, onde sentiu na pele o preconceito por parte da torcida e dos dirigentes. Mas, como o time catalão contava no gol com o mito Ricardo Zamora, em maio de 1932, após uma discussão, ele voltou ao Brasil e, em 1934, passou a defender o Corinthians.

A diretoria resolveu substituí-lo pelo goleiro José Hungarez, o primeiro estrangeiro a vestir a camisa corinthiana. Em 1937, Jaguaré embarcou para a França, contratado pelo Olympique de Marseille, onde fez grande sucesso, ganhando o apelido de “Le Jaguar”. Com ele o clube conquistou o campeonato nacional no mesmo ano e no ano seguinte pela primeira vez a Taça da França.

Diz a lenda que tomou apenas um gol na temporada do título nacional e, no último e decisivo jogo, contra o Metz, vencido por 2 X 1 bateu um pênalti e marcou o primeiro gol de sua equipe, tornando-se o primeiro goleiro a marcar um gol em todo o mundo. Cerca de 32 mil torcedores viram o histórico momento.

O lance foi assim descrito pela revista "Sport IIustrado", em sua edição de 22 de junho de 1938. "Aos 22 minutos, Laurent, back do Metz, fez um penalty. Com surpresa de todos os assistentes, Jaguaré abandonou o seu posto e encaminhou-se para o goal adversário. Jaguaré collocou-se diante da bola , e quando o árbitro apitou, bateu o penalty.

"Ouviu-se uma exclamação da assistência. Jaguaré enviou a bola a um canto e marcou o goal de empate. Foi um lance sensacional. Um arqueiro fazer um goal contra o adversário! Em nossa capital, jamais houve um caso, em partida official, de um arqueiro executar um penalty."

Mas Jaguaré não se tornou o heróí do jogo apenas pelo gol que marcou. Fez mais: aos 28 minutos do segundo tempo, garantiu a vitória do Olympique ao defender "com um salto formidável" a cobrança de pênalti feita pelo jogador Donzelle. Pela sua atuação na decisão Jaguaré recebeu as felicitações do presidente da França.

Na Europa, as "brincadeiras" que Jaguaré fazia no Brasil não eram aceitas. Num jogo pela Copa da França, contra o Racing, fez uma defesa de bicicleta. Não foi mandado embora porque o Olympique venceu. Na Inglaterra, depois de uma defesa, atirou a bola na cabeça do adversário. O juiz parou o jogo, chamou o capitão do Olympique para adverti-lo que não iria admitir outra jogada como aquela, e puniu o time francês com um tiro livre indireto.

De vez em quando, aparecia no Brasil e era um sucesso. Um dia, anunciou que iria treinar no Vasco. São Januário encheu. Jaguaré apareceu de terno branco e chapéu chile pendido de lado. Trocou de roupa e ficou igualzinho a um goleiro europeu, de boné e luvas. Foi o primeiro goleiro brasileiro a usar luvas, pretas por fora e vermelhas por dentro.

Com a proximidade da II Guerra, o medo falou mais alto e ele retornou ao Brasil, caindo em decadência e entregando-se ao vício da bebida. E novamente sem dinheiro, porque gastou tudo o que ganhou. Sem conseguir vaga nos times de ponta, jogou no São Cristóvão, voltou à estiva e ao anonimato.

Depois, desapareceu. Sabe-se que foi para a cidade de Santo Anastácio no Oeste paulista. Em 27 de outubro de 1946, Jaguaré voltou a ser noticia dos jornais. Em um canto de página policial, estava registrado que o antigo goleiro do Vasco, tinha se envolvido em uma briga com policiais, que o espancaram até a morte. Triste fim para quem levou tanta alegria aos gramados. Jaguaré foi enterrado como indigente.

Jaguaré jogou por estes clubes: Atlético Santista (amador, de 1926 a 1927); Vasco da Gama (1928 a 1931); Barcelona (1932 a 1933); Corínthians Paulista (1934 a 1935); Olympique de Marseille, França (1936 a 1939). Foi campeão carioca pelo Vasco (1929); campeão francês pelo Olympique (1937) e campeão da Copa da França pelo Olympique (1938). Jogou três partidas pela Seleção Brasileira, vencendo todas (1928/1929).

O Vasco da Gama teve um outro “Jaguaré” em sua história, mas este não era jogador e sim o locutor oficial do clube. Walter Micelli ganhou o apelido por causa do goleiro Jaguaré. Aos seis anos de idade, foi levado à São Januário e viu o goleiro em ação. Como também atuava na posição em peladas em São Cristóvão, acabou ganhando o nome pelo qual ficou conhecido durante toda a sua carreira.

Walter Micelli, o outro “Jaguaré” morreu no dia 17 de outubro de 2001, aos 79 anos, vitimado por um infarto. Reconhecido pelo “Guinness Book” como o mais antigo locutor de estádio do mundo, “Jaguaré” começou a trabalhar no Vasco em 1947. Ele esteve presente em mais de quatro mil jogos. Teve contato com os maiores ídolos da história do clube, entre eles Roberto Dinamite, Romário e Edmundo, além de acompanhar de perto o famoso “Expresso da Vitória” com Ademir, Barbosa, Chico e outros. (Pesquisa: Nilo Dias)

Jaguaré no início de carreira.

terça-feira, 14 de abril de 2009

A história do goleiro malabarista (1)

As origens do futebol no Brasil não são populares, pelo contrário. Era só a elite que o praticava nos primeiros tempos, não dando lugar a pobres e principalmente a negros. Era, portanto um esporte elitista e racista, que com o passar dos anos deixou os salões da alta sociedade e chegou às camadas mais populares da população, conquistando rapidamente uma legião de novos e entusiasmados adeptos, que passaram a disputar partidas em campos improvisados em praças, parques e terrenos baldios.

Esses tempos difíceis de transição, principalmente antes da profissionalização oficial, em 1933, foram marcados pelo surgimento de lendários personagens, dos quais se contam muitas histórias. Hoje, é quase impossível saber o que é verdade ou o que é lenda.

Nesse contexto se insere “Jaguaré”, registrado como Jaguaré Bezerra de Vasconcelos, nascido no Rio de Janeiro em 14 de maio de 1905. Mas existem divergências em relação à data real de seu nascimento: algumas fontes apontam para o dia 14 de julho, outras para o 14 de maio. E também o ano, que poderia ser 1900 ou 1905. O próprio jogador ignorava o dia em que nasceu. Filho de Antônio Bezerra Vasconcelos e Raimunda Tavares de Vasconcelos cresceu na pobreza e passou a maior parte da sua infância na zona portuária carioca.

Ainda na adolescência começou a trabalhar de estivador no cais do porto. Foi dessa época, antes mesmo de se tornar jogador de futebol, que surgiram os primeiros fatos ou lendas em torno de seu nome. Diziam que cada vez que estufava o peito para segurar com apenas uma mão, sacos de 50 kg de farinha de trigo, destinadas ao Moinho Inglês, de quem era empregado, havia sempre uma enorme assistência para bater palmas.

Nas horas de folga Jaguaré gostava de jogar peladas nos campos de várzea do bairro da Saúde, onde era conhecido pelo apelido de “Dengoso”. Também jogou no Atlético Santista, time amador, de 1926 a 1927, até que em 1928 foi descoberto pelo zagueiro Espanhol, que o levou para fazer testes no Vasco da Gama. Ao chegar no estádio deixou a pior das impressões, calçava tamancos e a camisa estava para fora da calça, um ultraje para a época.

Mesmo assim ele participou do treino e fechou o gol, não permitindo que o ataque titular o vencesse uma única vez. Aprovado pelo técnico Welfare, foi imediatamente inscrito na Liga. Mas antes o Vasco teve que contratar um professor particular para lhe ensinar a assinar o próprio nome nas súmulas, pois era analfabeto. Valente e abusado, Jaguaré em pouco tempo se tornou um dos primeiros ídolos da torcida vascaína. A partir daí teve uma carreira fulminante. No mesmo ano de 1928, em que estreou no Vasco, tornou-se titular da seleção brasileira. Em 1929 foi campeão carioca.

Jaguaré era um verdadeiro “crianção”, sempre disposto a fazer molecagens, mesmo durante os jogos. Os torcedores adversários detestavam vê-lo realizar jogadas inusitadas, como rodar a bola ao estilo de malabaristas de circos, na ponta do dedo indicador depois de cada defesa, que muitas vezes fazia com uma só mão, inclusive nos pênaltis, segundo a lenda.

Em um jogo contra o América, Jaguaré quase matou de raiva o jogador Alfredinho. Primeiro, defendeu um chute do atacante americano somente com uma das mãos. Depois atirou a bola na cabeça deste para fazer nova defesa. Com tantas "molecagens", nada mais natural que os estádios enchessem com torcedores atraídos pela fama do goleiro vascaíno.

O escritor Mário Filho, no seu livro “O negro no futebol brasileiro”, conta que certa vez Jaguaré prometeu driblar o atacante Ladislau, do Bangu. Dito e feito: na primeira oportunidade deu um “tapinha” e encobriu o adversário, e quando este tentou roubar a bola levou outro lençol. Jaguaré finalizou a jogada girando a bola no dedo, como era seu costume.

Jaguaré não queria saber de “sombra” no Vasco, onde era titular absoluto. Mesmo assim não admitia a presença de outro goleiro que pudesse tomar seu lugar. Quando alguém se apresentava para fazer testes, logo ele o chamava para treinar tiro livre. Assim que o pretendente a arqueiro ficava no centro da meta, Jaguaré desferia um tremendo chute botando-o a nocaute.

Um dia desafiou Grané, dono de um dos chutes mais potentes do futebol brasileiro. Para se ter uma idéia do chute de Grané, ele ia bater um “off-side” dentro da pequena área e os companheiros pediam-lhe que chutasse devagar. Porque se ele chutasse com força a bola atravessava o campo e ia perder-se atrás do outro gol. O artilheiro colocou a bola na marca do pênalti e os torcedores aos gritos pediam que Grané chutasse para fora, pois poderia matar o goleiro.

Jaguaré saiu do gol e cuspiu na bola, como sempre fazia, o que servia para descontrolar o cobrador. Quando o juiz apitou muitas pessoas viraram o rosto para não assistir a cena que poderia ser trágica. O chute partiu, Jaguaré pulou e segurou a bola, levantou-se e a rodou na ponta do dedo, assistindo a torcida em delírio gritar seu nome.

O Vasco, ainda na época do amadorismo, foi um dos primeiros clubes que reforçou seu time com jogadores negros. Em 1929, a equipe foi campeã carioca com um time inesquecível: Jaguaré – Brilhante – Itália – Tinoco – Fausto – Mola – Pascoal – Santana – Russinho - Mário Matos e 84.

Após uma década de tantas conquistas sociais e de diversos troféus, o Vasco tornou-se o segundo clube brasileiro a realizar uma excursão à Europa. Entre junho e agosto de 1931 disputou 12 jogos em gramados da Espanha e Portugal, que serviram como uma espécie de marco fundamental para o início da brilhante história internacional do clube. Antes, apenas o Paulistano (já extinto) havia jogado no “Velho Continente”, em 1925, quando realizou vários amistosos na França.

Quando foi convidado, o Vasco estava disputando o 1° turno do Campeonato Carioca daquele ano e havia aplicado, em abril, a maior goleada da história do confronto com o Flamengo, 7 X 0, em São Januário. Antigamente, as viagens eram feitas de navio e, por isso, acabavam sendo longas e cansativas. O Vasco viajou a Europa a bordo do navio “Arianza”.

Além dos notáveis Fausto, Pascoal e Russinho, um jogador que se destacou na excursão foi o goleiro Jaguaré. Folclórico como poucos, teve grandes atuações nos amistosos, sobretudo frente ao Benfica e ao Atlético de Madrid. Um detalhe interessante é que, para conquistar oito vitórias nos 12 jogos que disputou, o Vasco contou com os reforços de Nilo, Carvalho Leite e Benedito, atletas do Botafogo, e Fernando, do Fluminense.

Em Lisboa o clube brasileiro enfrentou o combinado Benfica-Vitória-Casa Pia. Lá pelas tantas, o juiz marcou um pênalti contra o time carioca. Ninguém gostou da marcação. Acalmados os ânimos, quando o centroavante Aníbal José se preparava para o chute, o jogador Fausto foi até a marca do pênalti e cuspiu na bola. Ninguém entendeu nada, muito menos o chutador, que bicou a bola por cima do travessão. O juiz mandou cobrar de novo. Fausto teria comentado para o goleiro Jaguaré que só estava “passando a saliva” na redonda.

O juiz mandou bater de novo. No momento em que o português Anibal José se preparava para o chute, Jaguaré jogou o boné sobre a bola. Perturbado, o cobrador errou novamente, mandando a bola por cima do travessão. O juiz mandou repetir a cena mais uma vez. Finalmente, já cansados do “lenga-lenga”, os brasileiros saíram de perto e Aníbal José fez o gol. Mesmo assim, o Vasco acabou vencendo por 4 X 2. (Pesquisa: Nilo Dias)