Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O primeiro técnico da Seleção

Silvio Lagreca, paulista de Piracicaba (SP), nascido no dia 14 de junho de 1895 é um personagem quase esquecido na história do futebol brasileiro, embora tenha sido o primeiro técnico da Seleção Brasileira. Foi um misto de jogador, treinador e árbitro de futebol. Começou a carreira em 1913, no Ypiranga, de São Paulo transferindo-se em 1914 para a A.A. São Bento, também da capital bandeirante, onde jogou até parar em 1921.

Na primeira partida da história da Seleção Brasileira, um amistoso disputado em 1914 contra o clube inglês Exeter City, da terceira divisão da Inglaterra, não existia um treinador oficializado. Foi indicada uma comissão técnica formada por Sylvio Lagreca e Rubens Salles, jogadores que exerciam liderança sobre o grupo. Coube a eles a tarefa de convocar, treinar e escalar o time. Sylvio Lagreca tinha apenas 19 anos, um mês e sete dias, quando se tornou o primeiro capitão e o primeiro técnico da história da seleção brasileira.

O jogo aconteceu no dia 20 de agosto de 1914, no Estádio de Álvaro Chaves, do Fluminense F.C., local onde tempos depois foi erguido o Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Os visitantes jogaram três partidas no Brasil: a primeira, contra um combinado de jogadores ingleses dos clubes cariocas, a quem venceram por 3 X 0. Depois derrotaram uma seleção carioca por 5 X 3.

O último jogo foi contra um combinado de jogadores do Rio e de São Paulo que pela primeira vez vestiu a camisa da então Federação Brasileira de Sports (8/6/1914), precursora da CBD (5/12/1916) e da CBF (24/9/1979). Os brasileiros venceram por 2 x 0.
O juiz do primeiro jogo da seleção foi o inglês H. Robinson. O onze brasileiro jogou com Marcos - Píndaro e Nery – Lagreca- Rubens Salles e Rolando – Abelardo - Oswaldo Gomes – Friedenreich - Osman e Formiga. Exeter City: Pym – Forte e Strettle – Rigby – Largan e Smith – Whitaker – Pratt – Hunter – Lovett e Goodwin. Técnico: Arthur Chadwick. Os gols foram marcados por Oswaldo Gomes e Osman.

No dia 27 de setembro de 1914, a seleção do Brasil pegou um navio rumo à Argentina, onde disputou o seu primeiro jogo contra uma Seleção de outro país, valendo pela Copa Rocca, competição precursora do Sul-Americano. O torneio foi uma iniciativa do ministro das Relações Exteriores da Argentina, general Julio Rocca, que pretendia ampliar os laços de amizade entre os dois países.

A equipe brasileira era formada basicamente por atletas do Flamengo, Fluminense e Paulistano. De fora desse trio, apenas Sylvio Lagreca, do São Bento, de São Paulo e Friedenreich, do Ypiranga, também da capital paulista e maior artilheiro da época. A Argentina era favorita por vários motivos: jogava em casa, no estádio do Gimnasia y Esgrima e tinha o apoio de 17.200 torcedores. Uma semana antes havia derrotado o Brasil por 3 x 0, em um jogo amistoso.

Mas os prognósticos falharam e a Seleção Brasileira venceu por 1 x 0, gol de Rubens Salles aos 13 minutos da fase inicial. O jogo foi histórico, pois marcou a primeira vitória do scratch nacional contra uma seleção de outro país, e ao mesmo tempo a primeira conquista de uma trajetória que se tornaria plenamente vitoriosa.

O jogo foi dificílimo. Os argentinos chegaram a marcar um gol de mão por Leonardi. O árbitro da partida, o brasileiro Alberto Borgerth, não viu bem o lance e validou o gol, achando que o jogador ajeitara a bola com o peito. Porém, o próprio atleta, numa atitude digna, praticamente impossível de acontecer nos dias de hoje, confessou ao árbitro que arrumara a bola com a mão. E com isso o gol foi anulado.

No dia 12 de julho de 1916, durante o Campeonato Sul-Americano disputado na Argentina, Sylvio Lagreca foi personagem de um fato que se tornou histórico, ao salvar a bandeira brasileira de ser queimada num incêndio ocorrido no Estádio do Gimnasya Y Esgrima, em Buenos Ayres, antes do clássico Brasil x Uruguai.

O estádio estava completamente lotado, e em razão disso os portões foram fechados, embora muita gente com ingresso tivesse ficado do lado de fora. Indignados, esses torcedores começaram a gritar “ladrones”! “ladrones”! Da indignação a ação foi rápido. Os mais exaltados jogaram gasolina por baixo das arquibancadas, que eram de madeira e atearam fogo. As labaredas não demoraram a surgir ameaçadoras. O terror e o pânico tomaram conta de todos que estavam dentro do estádio. As pessoas corriam apavoradas, criando-se um clima de verdadeiro terror.

O fogo avançou pelo pavilhão e atingiu os mastros onde estavam hasteadas as bandeiras dos países que disputavam o campeonato. Os organizadores da competição conseguiram retirá-las, mas por um descuido a bandeira brasileira permaneceu em seu lugar. Os jogadores brasileiros assistiam a tudo sem saber o que fazer. Ainda não tinham trocado de roupa para enfrentar os uruguaios.

Foi quando o técnico e jogador Sylvio Lagreca, vendo que o pavilhão nacional ia desaparecer nas chamas, tirou o paletó, subiu ao topo do mastro e mesmo sofrendo algumas queimaduras, salvou a bandeira do incêndio. Assim que desceu, um policial argentino quis lhe arrancar das mãos a nossa bandeira. Lagreca não deixou e acabou recebendo voz de prisão. Foi preciso que o presidente da Associação Argentina de Futebol, interviesse para que a prisão não acontecesse de fato.

Lagreca participou de várias competições nacionais e internacionais, tais como Campeonato Paulista, tendo sido campeão com o São Bento, em 1914; foi jogador e técnico da Seleção Paulista; disputou o Torneio Rio-São Paulo; foi campeão da Copa Rocca, em 1914 com a seleção Brasileira. Disputou os Campeonatos Sul-Americanos em 1916 e 1917, ambos vencidos pelo Uruguai. Pela Seleção Brasileira participou como jogador de 15 jogos, com 6 vitórias, 4 empates e 5 derrotas, tendo marcado 1 gol. Como técnico, dirigiu a Seleção Brasileira em 10 jogos, 4 em 1914, 4 entre 1916 e 1917 e 2 em 1940.

Quando deixou os gramados passou a atuar como árbitro. Sylvio Lagreca faleceu em São Paulo, no dia 30 de abril de 1966, aos 71 anos de idade. (Pesquisa: Nilo Dias)

Sylvio Lagreca merecia um melhor tratamento histórico. (Foto: Acervo da Confederação BRasileira de Futebol-CBF)

domingo, 25 de julho de 2010

“Chimbica”, uma legenda tricolor

Emílio Antônio Pierri Aguiar, o “Ximbica” foi um dos maiores torcedores que o Fluminense F.C., do Rio de janeiro conheceu em sua longa trajetória no futebol brasileiro, iniciada em 1902. “Ximbica” foi o roupeiro do tricolor carioca por 36 anos, e da Seleção Brasileira nas Copas do mundo de 1974, 1978 e 1986. Começou a carreira nas divisões de base. O talento e o profissionalismo fizeram com que em poucos meses fosse promovido para trabalhar no elenco principal.

“Ximbica” era sujeito simples, querido pela torcida e pelos jogadores, trabalhava no Fluminense mais por amor ao clube, do que por dinheiro, pois conviveu quase sempre com salários atrasados. A defesa era a venda dos uniformes que os jogadores utilizavam nas partidas, em benefício de uma caixinha dos serventes. Por outro lado esteve ao lado de várias gerações de campeões, nas décadas de ouro dos anos 60, 70 e 80. Mesmo durante a crise que levou o clube à terceira divisão ele permaneceu lá, firme e forte.

O ano de 1998 foi difícil em todos os sentidos. Indo parar na terceira divisão do futebol brasileiro, nada mais restava ao tricolor que promover uma verdadeira liquidação do elenco que disputou a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro e não conseguiu evitar o rebaixamento. Os atacantes Roni e Magno Alves, o goleiro Ronaldo e os zagueiros Adriano e Adílson foram os primeiros a sair. Depois Gil Baiano, que mostrava arrependimento por ter saído do Vitória, da Bahia.

Uma frase pronunciada pelo roupeiro, que falava pelos cotovelos, ficou famosa: "Vamos embora que a água está acabando". “Ximbica” disse isso a porta do vestiário das Laranjeiras, em meio a um treino inútil, em que os jogadores reclamavam dos salários atrasados e do silêncio da Diretoria.

O que pouca gente sabe é que a origem do canto “João de Deus”, uma das marcas registradas da torcida tricolor se deve a “Ximbica”: No final dos anos 80, um combinado brasileiro foi à Itália em solidariedade a uma tragédia que tinha matado mais de seis mil pessoas no país. Uma das vitimas era a mãe do Presidente da Federação Italiana de Futebol. Rapidamente foi organizado um combinado de bons jogadores para um jogo gratuito.

O presidente do Fluminense, na época era Francisco Horta, que chefiava a delegação brasileira, solicitou uma audiência com o Papa João Paulo II. Toda a delegação, a maioria formada por jogadores do Fluminense participou. Na hora em que o goleiro Félix e o craque Zico entregaram ao Sumo Pontífice a bola do jogo, “Ximbica”, que era o roupeiro do time, tirou da mala uma camisa do Fluminense e colocou para que o Papa a benzesse. Ali surgiu essa crença tricolor com João Paulo II.

O roupeiro “Ximbica” estava em Lisboa, Portugal com a Seleção Brasileira, antes de seguir para a Copa de 1966, na Inglaterra, e saiu para comprar cigarros. Pediu um maço e perguntou quanto custava. "Dê-me 12 escudos (moeda portuguesa da época)”, disse o dono da banca. “Desculpe moço”, respondeu “Ximbica”, “tenho chaveirinhos e flâmulas com as assinaturas dos jogadores, mas os escudos acabaram."

Em 1995 o Fluminense foi campeão carioca e isso garantiu ao clube uma visibilidade tão grande, que as homenagens se espalhavam por todos os cantos. Afinal de contas o Fluminense fazia anos que não sabia o que era conquistar um título estadual. E dentro desse clima de festa não podia faltar a homenagem dos turfistas.

Os turfistas tricolores da cidade de Campos resolveram homenagear o Campeão Estadual de 1995, dando a cada páreo de uma reunião noturna, o nome de um dos personagens vitoriosos do inesquecível time comandado por Renato Gaucho, que também teve um páreo com seu nome.

Foram homenageados, entre outros o saudoso presidente na época, doutor Arnaldo Santiago, o zagueiro Lima, o goleiro Wellerson, o vice de futebol Walquir Pimentel, o próprio Fluminense F.C e o inesquecível roupeiro "Ximbica", que era um apaixonado por corridas de cavalos.

O hipódromo estava todo decorado com as cores do tricolor. Pelos alto-falantes, reprise de gols e o hino do clube executado a todo o momento. Os homenageados faziam apenas apostas simbólicas, nada que tivesse fins lucrativos.

Passados alguns páreos, surge “Ximbica” que se dirige ao vice-presidente Walquir Pimentel: "Doutor, eu tenho uma barbada e pode apostar que é quente. É de cocheira". O dirigente, sempre brincalhão e com dinheiro no bolso, ficou meio na dúvida, mas acabou convencido e levou com ele o restante do grupo a apostar na "barbada do Ximbica”.

Apostas feitas, todos retornaram aos seus lugares. Tudo pronto, cavalos e jóqueis a postos, pista preparada, holofotes direcionados ao páreo mais importante da noite. Surpresa geral, todos os cavalos deram a largada, menos o que foi indicado por “Ximbica”. Os tricolores ficaram se olhando uns para os outros, sem saber o que havia acontecido. Nem mesmo “Ximbica” sabia o que informar sobre a ausência do animal escolhido.

Foi quando chegou às sociais do hipódromo o diretor da prova com a seguinte informação: “O animal que não partiu com os demais, teve um sério problema cardíaco seguido de um infarto fulminante, vindo a falecer no local da largada”. De imediato o dirigente Walquir Pimentel foi em direção a a “Ximbica”e disse "Você nos fez apostar em um cavalo com problemas de coração e que morreu na largada, rapaz".

“Ximbica”, sem saber o que falar, andava de um lado para outro, descia e subia as escadas, até que bastante sério e com jeito autoritário, disse: "Pô doutor, o cavalo é um ser humano como outro qualquer que já sofreu um infarto, e com problemas no coração”.

Ironia do destino, ou não, o roupeiro Ximbica veio a falecer anos mais tarde, em 2002, vítima de problemas cardíacos. Foi um momento de grande tristeza no ano do centenário do clube. No dia 24 de junho, três dias antes da decisão do campeonato carioca, Emilio Aguiar, o “Ximbica”, falecia aos 55 aos de idade, vítima de um infarto fulminante, enquanto dormia em sua casa no bairro de Bonsucesso, no Rio. Ao término do jogo em que o Fluminense ganhou o título estadual, o jogador Roni emocionado falou: “Esse título tem nome, sobrenome e apelido: Emílio Aguiar, o Ximbica".

“Uma parte da história do Fluminense foi embora. A Diretoria devia homenageá-lo com uma estátua”, disse o ex-jogador Renato Gaúcho, que chorou ao lado do caixão. O presidente David Fischel decretou luto oficial por três dias. No velório, no Cemitério do Caju, além do elenco tricolor, marcaram presença ex-jogadores, dirigentes, torcedores e profissionais de clubes rivais, como Roberto Dinamite e Pai Santana, massagista do Vasco.

Durante o velório o ex-jogador jogador Assis, com os olhos marejados disse: “O “Ximbica” era a pessoa mais querida naquele grupo. Não havia uma pessoa que não gostasse dele. Até quando ele xingava um ou outro, todos sabiam que ele fazia por amor ao clube”.

O roupeiro Aloísio dos Santos, que o sucedeu no clube guarda as maiores relíquias obtidas pelo saudoso “Ximbica”. O par de chuteiras de Assis do título carioca de 84 e o par de chuteiras de Renato Gaúcho do título estadual de 95. Ambas ele ganhou após profetizar que os jogadores fariam o gol do título, algo que acabou acontecendo.

Em 2003, durante as comemorações do seu centenário, o Fluminense F.C. prestou uma homenagem a Emilio Antônio Pierri Aguiar, o “Ximbica”, um dos torcedores mais ilustres de sua história. O presidente David Fischel descerrou uma placa na rouparia do vestiário tricolor no estádio das Laranjeiras, perpetuando o folclórico roupeiro na história do clube. (Pesquisa: Nilo Dias)

"Ximbica" era querido por todos os tricolores. (Foto: Acervo do Fluminense F.C.)
No ano do centenário, Fluminense prestou homenagem ao saudoso "Ximbica". (Foto: Acervo do Fluminense F.C.)

domingo, 11 de julho de 2010

O craque das luvas pretas (Final)

Na temporada seguinte treinou o Leixões, que subiu da 2ª para a 1ª Divisão. O ponto mais alto da sua carreira de treinador aconteceu na temporada 1989/1990 quando venceu a Taça de Portugal dirigindo o modesto clube Estrela da Amadora. Depois passou pelo Boavista, Guimarães, de novo o Amadora e o Belenenses.

O bom trabalho desenvolvido nesses clubes valeu um convite para, em 1996/1997, regressar ao Salamanca de Espanha, que estava na 2ª Divisão. Levou consigo alguns jogadores portugueses, como o atacante Pauleta, que viria a ser um dos maiores goleadores da Europa. No entanto, não ficou muito tempo no Salamanca. Voltou a Portugal e treinou o Boavista, depois o Campomaiorense, Farense e Académica, que subiu para a 1ª Divisão. Em 2002/2003 trabalhou no Estrela da Amadora, que se classificou para à Superliga, o primeiro escalão do futebol português.

Como treinador João Alves colocou em pratica todo o seu saber e experiência adquirida ao longo de muitos anos em que foi jogador. Foi considerado com o primeiro “Manager” do futebol português, tal a forma como organizava e preparava as suas equipes. Revelou-se também um verdadeiro caça talentos. Tinha um faro impressionante para descobrir novos valores nas divisões inferiores. Deve-se a ele a descoberta de jogadores como Paulo Bento, Pedro Barbosa, Abel Xavier, Pauleta, Michel Salgado, Pedro Barny, Tonel, Fábio Felício, Jaime Alves, Catanha, Lito, Alhandra, Rogério Matias, Caetano, entre muitos outros.

Jogou 36 partidas pela seleção de Portugal e marcou três gols. Sua despedida da seleção aconteceu em 27 de Abril de 1983, em Moscovo, quando a antiga URSS goleou os portugueses, treinados por Oto Glória, por 5 X 0.

Como jogador conquistou os títulos de campeão nacional nas temporadas 1980/1981 e 1982/1983; quatro Taças de Portugal, duas pelo Boavista, 1974/1975 e 1975/1976, e duas pelo Benfica, 1980/1981 e 1982/1983; uma Supertaça; finalista da Taça UEFA na temporada 1982/1983. Como treinador seu principal título foi de campeão da Taça de Portugal, em 1989/1990, no Estrela da Amadora. Atualmente, além de treinador, possui uma academia de futebol, a "Escola de Futebol Luvas Pretas".

E como surgiu a idéia de usar luvas prestas durante os jogos? O avô de João Alves, Carlos Alves, também foi um grande jogador de futebol na década de 20. Jogava como zagueiro pelo lado direito, tendo participado de uma Olimpíada por seu país. Ele é considerado até hoje o melhor jogador português de todos os tempos na posição. Defendeu o Carcavelinhos, Académico do Porto e F.C. do Porto. Foi a partir de determinada altura da sua carreira, que passou a ostentar as luvas pretas. E isso causava curiosidade entre os torcedores.

Algumas pessoas diziam que ele usava luvas pretas porque sofria de uma doença de pele. Afirmavam outros que lidava com produtos de especial delicadeza, que causavam lesões nas mãos. Apesar de não gostar de falar sobre os motivos que o haviam levado a adotar o uso das luvas pretas em campo, a história parece ser outra e veio explicada com detalhes no livro “A Paixão do Povo”.

Tudo começou a véspera de um jogo do Carcavelinhos, time de Carlos Alves, contra o Benfica. No hotel onde a equipe ficou hospedada trabalhava uma menina com mais ou menos 12 anos de idade, que pediu ao jogador que atuasse com as suas luvas pretas de pelica. Carlos Alves aceitou, mas foi logo avisando, que não as usaria em campo. A menina, chorando, disse-lhe que iria se arrepender. No intervalo do jogo o Carcavelinhos estava perdendo. E Carlos Alves decidiu então colocar as pequenas luvas pretas que quase não lhe serviam.

Fosse pelas luvas ou por qualquer coisa, a verdade é que o Carcavelinhos virou o placar e chegou a vitória, com uma espetacular atuação de Carlos Alves. Conta-se, que no dia seguinte ao jogo ele pediu à menina que comprasse um par de luvas pretas que lhe servisse. E a partir de então, nunca mais jogou sem elas.

E como surgiu essa idéia de João Alves também jogar com luvas pretas? A 14 de Novembro de 1970, ainda júnior do Benfica, João Alves começou a usar luvas pretas, dois dias depois da morte do avô Carlos Alves. A partir daí as luvas pretas passaram a ser sua marca registrada. Só as tirou quando encerrou a carreira de jogador e começou a de treinador. (Pesquisa: Nilo Dias)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O craque das luvas pretas (I)

A figura de João Alves, um dos grandes jogadores do futebol português em todos os tempos ficou marcada não só pela sua habilidade, mas também pela forma que encontrou para se notabilizar: usava sempre umas luvas pretas, com o objetivo de homenagear o seu avô, Carlos Alves, seu grande ídolo, que nos anos 20 jogou no Carcavelinhos e no F.C. do Porto. Por isso os torcedores e a imprensa logo o apelidaram de “Luvas Pretas”.

Nasceu no dia 5 de dezembro de 1952, em Albegaria-a-Velha, Portugal. Começou a carreira nos juniores do Sanjoanense, de São João da Madeira, para onde foi levado pelo avô, Carlos Alves. Em 1969 foi para as categorias de base do Benfica. Em fins de 1970, quando chegou a maior idade, João Alves foi emprestado ao Varzim, de Póvoa do Varzim, onde também se destacou. Ao começo de 1973, o então técnico do Benfica, o inglês Jimmy Hagan pediu seu imediato regresso ao clube, onde atuou ao lado de verdadeiros monstros sagrados como Simões e Eusébio.

E foi precisamente por um desentendimento com Simões, durante o jogo de despedida de Joaquim Santana, em Freamunde, que teve de sair do Benfica. Seu novo endereço foi o Clube Desportivo Montijo, que pagou 600 contos de réis. Ficou por lá apenas na temporada 1973/1974. O Montijo disputou a 1ª Divisão e João Alves teve a oportunidade de mostrar toda a categoria de um médio fantástico, de classe inimaginável, marcador de gols incríveis e líder da equipe.

Não demorou a chamar a atenção dos dirigentes do Boavista, da cidade do Porto, para onde se transferiu na temporada 1974/1975. José Maria Pedroto, treinador da equipe conhecia profundamente as potencialidades do jogador. Insistiu na sua contratação e por 1.500 contos pagos pela transferência ao C.D. Montijo, João Alves reforçou a equipe “axadrezada”.

Foi no Boavista F.C. que João Alves “explodiu” definitivamente para o futebol português. As suas exibições tornaram-no a maior figura da equipe e o maior ídolo da torcida. Rapidamente, também toda a imprensa esportiva o considerava como um dos melhores jogadores portugueses. Apesar dos muitos gols que fazia, sua principal função no time era municiar a terrível dupla de atacantes, Mané e Salvador.

Em 1974 participou de 30 jogos e foi o segundo maior artilheiro do Boavista, com 11 gols. A equipe ficou em 4º lugar no campeonato e venceu a Taça de Portugal. O jogo final foi na noite de 14 de Junho de 1975, no Estádio José de Alvalade em Lisboa, entre o Boavista F.C. e o S.L. Benfica. João Alves teve a oportunidade de vingar-se de seu ex-clube. Sua equipe venceu por 2 X 1, levantando o troféu em disputa. Segundo os comentários da imprensa na época, João Alves fez naquela noite uma das melhores exibições de toda a sua vitoriosa carreira, tendo marcando o gol da vitória. Nessa temporada foi distinguido pelo CNID como o futebolista português do ano.

Seu futebol de categoria fez com que fosse convocado para a Seleção de Portugal, para um jogo amistoso contra a Suíça, em Berna no dia 13 de novembro de 1974. Em 1975 o Boavista foi vice-campeão nacional e João Alves o goleador do time com 15 gols, em 29 jogos disputados. Em 1976 o Boavista F.C. repetiu a conquista da Taça de Portugal, dessa vez derrotando no jogo final ao Vitoria S.C., no Estádio das Antas, por 2 X 1. E mais uma vez o médio João Alves voltou a desempenhar um papel de destaque, realizando uma excelente exibição.

Ao final de 1976 a qualidade futebolística do jogador já tinha ultrapassado as fronteiras do território nacional. O Paris Saint Germain e o Olympique, de Marselha mostraram interesse na sua contratação. Mas quem ganhou a disputa foi o U.D. Salamanca, da Espanha, que havia subido para a 1ª Divisão Nacional, e pagou por seu passe cerca de12 mil contos de réis.

João Alves foi um dos primeiros jogadores portugueses a ter sucesso no exterior. Já no primeiro ano, suas grandes atuações fizeram com que fosse considerado por dois jornais de peso, “Marca”, de Madrid e “El Mundo Deportivo”, de Barcelona, o melhor estrangeiro jogando no país,superando uma concorrência do nível de Cruyff, do Barcelona, Kempes, do Valência e Breitner, Real Madrid. Até hoje é venerado pelos torcedores do clube, e considerado o melhor jogador do Salamanca em todos tempos. Em 1977 o Real Madrid tentou contratá-lo, mas sua vontade de retornar a Portugal falou mais alto.

Em 1978, depois de uma polêmica transferência, que envolveu até a Assembléia da República, em virtude das divisas que saiam do país, estava de volta ao Benfica, onde ficou apenas uma temporada e foi emprestado ao Paris Saint Germain. Mas não teve sorte. Logo no seu terceiro jogo teve uma das pernas quebradas, numa entrada duríssima do jogador Genghini, do F.C. Sochaux, da França. Teve de ficar cinco meses parado.

Ficou na França até meados de 1980, quando voltou ao Benfica. Dessa feita pode mostrar a sua categoria e classe, contribuindo decisivamente para a conquista do título de 1981, com um gol antológico. João Alves fez parte da chamada “equipe dos sonhos”, treinada pelo sueco Sven Goran Eriksson, que contava com craques como Bento, Pietra, Humberto, Carlos Manuel, Sheu, Stromberg, Chalana, Diamantino, Filipovic e Nenê. Esse timaço foi campeão nacional de 1983?1984e chegou a final da Taça UEFA.

Na temporada de 1984/1985, desentendeu-se com o técnico Sven Goran Eriksson, que não o chamou para os jogos finais da Taça UEFA, contra o Anderletch, por ter chegado a atrasado a um treino. Então rescindiu o contrato com o Benfica e retornou ao Boavista. Foi o regresso do ídolo da massa associativa dos “axadrezados”. O FC Porto chegou a se interessar na sua contratação. Contudo, desta feita, o celebre pacto de não agressão estabelecido entre Benfica e Porto, afastou o “Luvas Pretas” da rota do Estádio das Antas. Seu destino foi mesmo o Boavista, muito por influência do major Valentim Loureiro, seu amigo pessoal e sócio numa empresa de material esportivo.

Na temporada de 1984, treinado por Henrique Calisto, João Alves, com 31 anos de idade, cheio de experiência, foi um jogador preponderante do Boavista, que se classificou em 7º lugar no Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Participou de 29 jogos e fez 3 gols. O ano de 1985 foi o último de João Alves como jogador, e o primeiro como treinador.

No dia 9 de Março de 1985, quando da 21ª rodada do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, depois de uma derrota em casa para o Vitoria de Setúbal por 2 X 0, o presidente do Boavista F.C., major Valentim Loureiro, desanimado com o desempenho do time, demitiu o técnico Mário Wilson e convenceu João Alves a assumir o comando da equipe até o final da temporada.

Com apenas 32 anos de idade estava encerrada a carreira futebolística de um dos melhores jogadores que Portugal conheceu em toda a sua história. O Boavista melhorou significativamente de produção, conseguindo a proeza de ainda conquistar um 4º lugar, classificando-se para a Taça Uefa. (Pesquisa: Nilo Dias)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Adeus hexa

Mais uma vez o sonho do hexacampeonato mundial foi por água abaixo. A seleção brasileira depois de um primeiro tempo primoroso caiu de produção na fase final, e perdeu de virada para os holandeses. Eu não me incluo entre aquelas pessoas que agora estão criticando o técnico Dunga, e lhe jogando por cima toda a culpa por mais um fracasso. E nem sei se tem algum culpado. Os jogadores se esforçaram ao máximo, mas não estavam jogando sozinhos, havia um adversário qualificado pela frente, que teve méritos para vencer.

Não se pode creditar a Dunga a falha do goleiro e de dois outros jogadores, que culminou com o primeiro gol do adversário. Não se pode culpar Dunga pela jogada infantil de Juan, colocando para escanteio uma bola que facilmente poderia ser mandada para a lateral. E aí saiu o segundo gol. E muito menos crucificar Dunga pela imaturidade de Felipe Melo, que foi expulso.

O trabalho de preparação da seleção foi muito bem feito. Os jogadores convocados, talvez com a exceção de Ronaldinho Gaúcho que não foi chamado, era o que havia de melhor. O futebol espetáculo que muitos teimam em pedir, não existe mais e faz tempo. Os jogadores brasileiros que vão para a Europa perdem o estilo malabarista praticado no Brasil. Lá, eles tem que se adequar aos esquemas táticos de seus clubes, e acabam europeizados.

Não acho que Neymar e Ganso tivessem que ser chamados. A imprensa sensacionalista, é que insistiu com isso. Ganso estava “baleado”, como se diz na gíria futebolística e se recupera de uma cirurgia no joelho. E Neymar não tem físico para enfrentar jogadores fortes, como os que defendem a maioria das equipes que participam de um Mundial.

E não adianta mais chorar o leite derramado. O negócio é juntar os cacos e começar a preparação para 2014. Felipão está de volta, e só não será o técnico da seleção se não quiser. Não vejo nenhum outro que seja melhor que ele. E nem do que o próprio Dunga, que já anunciou a sua saída. A partir de agora ele é um técnico de ponta no futebol brasileiro, capacitado a dirigir qualquer clube, no Brasil ou no mundo. (Nilo Dias)

Daniel Alves, o retrato da derrota.

Adeus hexa

Mais uma vez o sonho do hexacampeonato mundial foi por água abaixo. A seleção brasileira depois de um primeiro tempo primoroso caiu de produção na fase final, e perdeu de virada para a Holanda. Eu não me incluo entre aquelas pessoas que agora estão criticando o técnico Dunga, e lhe jogando por cima toda a culpa por mais um fracasso. E nem sei se tem algum culpado. Os jogadores se esforçaram ao máximo, mas não estavam jogando sozinhos, havia um adversário qualificado pela frente, que teve méritos para vencer.

O técnico não pode ser culpado pela falha do goliro e dos zagueiros no primeiro gol. Nem pela jogada infantil de Juan que colocou desnecessariamente para escanteio, uma bola que poderia ser facilmente mandada para a lateral. E nem pelo desequilibrio emocional de Felipe Melo. E muito menos pelos enganos do árbitro japonês, que não quiz marcar um pênalti claro em cima de Kaká.

O trabalho de preparação da seleção foi muito bem feito. Os jogadores convocados, talvez com a exceção de Ronaldinho Gaúcho que não foi chamado, era o que havia de melhor. O futebol espetáculo que muitos teimam em pedir, não existe mais e faz tempo. Os jogadores brasileiros que vão para a Europa perdem o estilo malabarista praticado no Brasil. Lá, eles tem que se adequar aos esquemas táticos de seus clubes, e acabam europeizados.

Não acho que Neymar e Ganso tivessem que ser chamados. A imprensa sensacionalista, é que insistiu com isso. Ganso estava “baleado”, como se diz na gíria futebolística e se recupera de uma cirurgia no joelho. E Neymar não tem físico para enfrentar jogadores fortes, como os que defendem a maioria das equipes que participam de um Mundial.

E não adianta mais chorar o leite derramado. O negócio é juntar os cacos e começar a preparação para 2014. Felipão está de volta, e só não será o técnico da seleção se não quiser. Não vejo nenhum outro que seja melhor que ele. E nem do que o próprio Dunga, que já anunciou a sua saída. A partir de agora ele é um técnico de ponta no futebol brasileiro, capacitado a dirigir qualquer clube, no Brasil ou no mundo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O canhão de Nova Lima

José Perácio, mineiro de Nova Lima (MG), nasceu a 2 de novembro de 1917 e foi um dos grandes jogadores surgidos no futebol brasileiro nos românticos anos 30 e 40.Começou a carreira em 1933, jogando pelo Villa Nova A.C., de sua cidade natal, que naquela época era time grande, ganhador de títulos. Perácio já começou vencendo. O Villa Nova foi tri-campeão mineiro em 33, 34 e 35 e ele ganhou fama de artilheiro.

Jogava de meia-esquerda ou como atacante, não fazia diferença, aparecia sempre em alta velocidade na área para finalizar. Sua maior qualidade era o chute forte. Batia de esquerdo ou de direito, com a mesma facilidade. Um jogador com tais características não ficaria muito tempo escondido numa pequena cidade do interior. E não deu outra, em 1936 foi para o Palestra Itália, nome antigo do Cruzeiro, de Belo Horizonte.

Mas seu sonho era jogar no Botafogo, seu clube do coração. E finalmente, em 1937 foi para o time de General Severiano. No alvinegro carioca jogou ao lado de grandes jogadores como Martim Silveira, Patesko, Pascoal e Carvalho Leite. Suas boas atuações com a camisa botafoguense lhe valeram a convocação para a Seleção Brasileira que foi à Copa do Mundo de 1938, na França. Pela Seleção Brasileira disputou seis partidas e marcou quatro gols entre 1938 e 1940.

A fama de Perácio cresceu depois da Copa do Mundo. O Brasil jogava contra a Tchecoslováquia e ele deu um chute tão forte que o lendário goleiro Frantisek Planicka, ao tentar defender perdeu o equilíbrio, chocou-se com a trave e quebrou o braço e a clavícula. Então surgiu a lenda que o chute é que tinha quebrado o goleiro. Foi quando o cronista Luis Mendes passou a chamá-lo de “pé de chumbo” e “canhão de Nova Lima”.

Em 1941 foi para o Flamengo. No rubro-negro teve grande importância na conquista do primeiro tri-campeonato carioca do clube, em 42, 43 e 44. Formou uma equipe lendária com Valido, Zizinho, Pirilo e Vevé. Com a camisa do Flamengo fez 123 jogos, marcando 97 gols, sendo o 21º maior artilheiro da história do clube.

Em 1944 quando ainda jogava pelo Flamengo, Perácio se afastou dos gramados para defender o Brasil com arma em punho. O jogador se alistou no Exército e compôs o quadro de 25 mil pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial. Todavia, ao fim da Guerra, Perácio voltou ao Brasil são e salvo e ainda deu continuidade á brilhante carreira de jogador. Defendeu o Fluminense e encerrou a carreira no Canto do Rio, em 1951. Perácio faleceu no Rio de Janeiro, em 10 de março de 1977.

Quando jogava era tido como uma figura folclórica. Semianalfabeto, mal sabia assinar o próprio nome. No navio que levava a delegação brasileira para a Copa de 38, Perácio usava binóculo, pois queria "ver a linha do Equador de pertinho".

Outro episódio marcante do jogador foi quando abastecia seu veículo “Packard”. Ele parou num posto de gasolina com seu companheiro Martin Silveira. Enquanto o frentista enchia o tanque do carro, Perácio, calmamente, tirou um cigarro, acendeu-o e jogou o fósforo no chão, perto da bomba.

Do susto de ver o fósforo cair ainda aceso no chão, a poucos metros da bomba, Martin passou aos protestos, chamando Perácio de louco e irresponsável: “Por que esse ataque?”, perguntou Perácio. “Onde já se viu riscar fósforo num posto de gasolina?”, retrucou Martin. E Perácio respondeu: “Desculpe Martin, eu não sabia que você era tão supersticioso...”

Quando jogava futebol Perácio gostava de ouvir os locutores gritarem: “Goooool de Perácio!” Ele sempre gostou de carros, e se possível comprava o do ano. Como estava jogando e não podia ouvir o grito de gol, Perácio comprou o melhor rádio de automóvel que havia no Rio de Janeiro. Assim, no dia do jogo, ia para o campo, deixava o carro estacionado numa vaga, tendo o cuidado, antes de trancá-lo, de ligar o rádio e deixá-lo bem alto. Inutilmente, apesar das precauções, não conseguiu ouvir, uma só vez, o locutor gritar? “Gooooooool de Perácio.” E desabafou: “Não adianta. Comprei o rádio errado”.

O ano era de 1939. O jogo Brasil e Argentina pela Copa Roca. Quando o placar estava em 2 x 2, o juiz brasileiro, Carlos de Oliveira Monteiro, o “Tijolo”, marcou um pênalti contra os argentinos. Houve uma forte reclamação dos portenhos e quando eles partiram para cima do arbitro, a policia entrou em campo e baixou o sarrafo nos argentinos. Com um clima muito tenso, nossos adversários preferiram deixar o campo.

O pênalti estava mantido e Perácio indicado para cobrar com o gol vazio. O novo técnico do Brasil, Carlito Rocha, entrou em campo e disse para Perácio: “Chute bem no cantinho”. Perácio ficou sem entender e disse mas seu Carlito o gol está vazio! “Não interessa, chuta no cantinho”.

E com o gol escancarado a sua frente, ele se preparou para a cobrança. E se chutasse no cantinho e a bola fosse para fora? E se chutasse forte e a bola passasse por cima do travessão? Com essas duvidas, Perácio começou a ouvir a torcida gritar, “Devagar, Perácio, e no centro!” Ele ouviu. Partiu para a bola e chutou no centro tão devagar que a torcida ficou na expectativa se a bola ia mesmo entrar. E todos viram a bola ultrapassar na linha de gol pouco mais de um palmo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Perácio. (Foto: Museu dos Esportes)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

“Caju”, a majestade do arco

A Seleção Brasileira de Futebol que vai a Copa do Mundo da África do Sul, já começou a fase de preparação para tentar trazer o tão sonhado exa-campeonato. Os primeiros dias dessa fase inicial, em que os atletas passaram por uma bateria de exames médicos e agora fazem exercícios físicos, estão se passando no Centro de Treinamento Alfredo Gottardi, do Clube Atlético Paranaense, em Curitiba.

E quem foi Alfredo Gottardi, porque mereceu essa homenagem, do tradicional clube rubro-negro da capital paranaense? Foi um ex-jogador do clube, talvez o maior ídolo da sua história. Alfredo Gottardi era o nome de batismo, mas nos gramados ficou conhecido pelo apelido de “Caju”, considerado até hoje o melhor goleiro que pisou em gramados paranaenses.

O primeiro “Caju” foi Alberto Gottardi, goleiro do extinto Savóia F.C., antigo clube de Curitiba e do Atlético, onde jogou de 1927 até 1933. Foi bicampeão invicto do Estado em 1929 e 30. Ele deu início à saga da família Gottardi no Atlético. Simples, modesto e amigo de todos, era respeitado pelos jogadores. Ocupou o arco rubro-negro de maneira absoluta, até encerrar a carreira em agosto de 1933.

Mas não abandonou o Atlético, continuou no clube, cuidando do estádio, do gramado e dos uniformes dos jogadores. Na época não tinha camisa de sobra e nem o costume de dá-las de presente. Quando havia um rasgão, Alberto as costurava em casa. Sem dúvida foi um grande nome na história atleticana. Era pai de Rui, a chamada “Maquininha do Furacão”, em 1949, e de Aldir e Almir também jogadores do Atlético na década posterior.

O lugar na meta rubro-negra foi ocupado por Alfredo, irmão de Alberto, de apenas 18 anos - nasceu em Curitiba no dia 14/01/1915 - que também herdou o apelido de “Caju”. Também era chamado de “A majestade do arco”. Ele estreou na meta atleticana em 1933, já causando uma ótima impressão a quem o viu jogar. E no ano seguinte, com 18 para 19 anos, foi convocado para a Seleção Paranaense para disputar o Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Campeonato que tinha uma tremenda importância na época. Foi disputado entre 1922 e 1962.

O Atlético foi o único clube na carreira de “Caju”. Permaneceu por lá até 1950. Foram longos 17 anos, jogando 620 partidas. Porém, nesses anos todos, nunca teve contrato de profissional. Por escolha própria, ficou sempre como amador. E por essas coisas, tinha épocas que ele não jogava no time profissional. Tanto é que em 1944 foi campeão no time amador, jogando como centro-avante.

De 1937 a 1939 jogou poucas partidas, sendo o doutor Lauro Rego Barros o goleiro do time. De 1942 a 1949 jogou boa parte dos jogos. Mas, em dia de Atletiba, “Caju” chegava no vestiário, botava sua camisa e dizia que ia jogar. E entrava m campo e fechava o gol. E assim, o Atlético quase sempre vencia o clássico.

Caju não era um goleiro estiloso, de saltar e voar nas bolas. Estava sempre extremamente bem colocado, onde que o atacante chutasse a bola, lá estaria “Caju” para defendê-la. Contam que quando “Caju” saía nas bolas cruzadas na área, ele a encaixava perfeitamente. Existem várias fotos que mostram o goleiro no ar, com a bola encaixada, com os quadris na altura da cabeça do zagueiro.Mesmo os torcedores de outros times diziam que “Caju” foi o melhor goleiro que já apareceu no estado do Paraná, um mito, um exímio goleiro.

O goleiro se tornou um ídolo ainda maior que seu irmão Alberto. Conquistou seis títulos estaduais (1934, 1936, 1940 , 1943, 1945 e 1949) e foi o primeiro jogador paranaense que chegou à Seleção Brasileira. Foi no Sul-americano de 1942.

Devido a sua atuação no Campeonato Brasileiro de Seleções, em 1942, o técnico Ademar Pimenta convocou "Caju" para a Seleção Brasileira para disputar o Torneio Sul Americano no Uruguai. Tal fato irritou os torcedores paulistas que queriam Jurandir do São Paulo na Seleção. Mas, nesse Torneio, "Caju" impressionou os “gringos” que o elegeram como o melhor goleiro do Campeonato. E foi lá no Uruguai que ele ganhou o apelido de “A Majestade do Arco”.

A trajetória esportiva de Alfredo Gottardi, o “Caju" foi destacada no livro “Goleiros, Heróis e anti-heróis da camisa 1”, de autoria do jornalista Paulo Guilherme, lançado pela Alameda Casa Editorial. Entre várias histórias de personagens que fizeram a história da posição número um do futebol, a obra mostra a passagem de “Caju” pela Seleção Brasileira em 1942, quando o goleiro do “Furacão” foi titular do Brasil no Sul-Americano disputado no Uruguai, tendo jogado cinco partidas.

Como a rivalidade entre Atlético e Coritiba foi sempre muito grande, os “coxas” contam esta história.. Em 1942, “Caju”, que acabara de defender a seleção Brasileira durante o torneio Sul-Americano participaria dum clássico AtleTiba, justamente para comemorar sua volta aos campos paranaenses.

Naquela época, era famosa a disputa que existia entre o centroavante coritibano Neno, e o goleiro “Caju”, dois expoentes do futebol do Paraná. A partida começa e, em pouco tempo, o Coritiba chegou a 3 × 1. “Caju” sentiu que, se nada fizesse, a derrota seria certa. Resolveu, então, adotar um ardil: sair com a bola dominada e driblar Neno, visando, com isto, acender o ânimo de seus companheiros do time da Baixada. Não deu muito certo: na primeira tentativa de drible, Neno foi mais rápido, roubou a bola e fez o gol: Coritiba 4 × 1.

Um filho de “Caju”, também de nome Alfredo jogou no Atlético de 1966 a 1977, e em 1979. Não quis seguir a trajetória familiar de grandes goleiros. Preferiu ser zagueiro, o que se explica talvez por sua personalidade forte. Por parte de mãe tinha o sobrenome Cecatto, família que gerou dois bons jogadores para o rubro-negro. Dos Gottardi, foram seis a vestir a camisa atleticana. Alfredo foi campeão paranaense em 1970 e eleito para integrar a Seleção dos 80 Anos do Atlético.

Começou a carreira aos 16 anos jogando nas categorias de base do Atlético como centro-avante. Depois virou meia-direita e foi se encontrar como quarto-zagueiro. A história de como Alfredo se tornou zagueiro – e um excelente zagueiro - também é inusitada. Foi em 1967, por puro acaso. O Atlético estava jogando contra o Água Verde, quando o zagueiro Tião se machucou. O técnico Alfredo Ramos determinou ao volante Nair que ele fosse jogar mais atrás. Por deliberação própria, Gottardi falou para Nair continuar no meio e foi ele mesmo para a zaga, por considerar que sua altura faria a diferença em favor do Atlético.

Depois disso, e dos apelos do técnico para que jogasse como zagueiro, Alfredo mudou de função. Foram meses de treinamento específico para a posição. Aprendeu a marcar, a cobrir, a cabecear, a se antecipar. A dedicação valeu a pena. Alfredo se tornou um dos maiores nomes da posição. Jogou ao lado do bicampeão mundial Bellini e com ele aprendeu muito.

Por conta da sua personalidade, em 1964, ano em que subiria ao time principal, desentendeu-se com o técnico Geraldo Damasceno, o “Geraldino”. Sem chances de se firmar como titular no Atlético foi parar no Coritiba, para desespero de seu pai, “Caju” que não conseguiu demover o filho da inusitada idéia de defender os “coxas”. Por fim, a opinião da mãe foi a mais decisiva, pois ela temia que o período parado pudesse atrapalhar a carreira de Alfredo.

Alfredo ficou por lá durante dois anos, até voltar ao seu verdadeiro lar. Quando criança, ajudava o tio e o pai a cuidarem do gramado da “Baixada”, preparando o terreno para os jogos. Portanto, não fazia sentido em jogar com outra camisa que não a rubro-negra. Jogou ainda no São Paulo e no México, onde ficou por dois anos, tendo defendido o Atlas e o Vera Cruz. Voltou em 1979 para encerrar a carreira no clube do coração. Ao deixar de jogar, foi convidado para ser técnico do Atlético e livrou o time do “Torneio da Morte”, do Campeonato Paranaense.

Alfredo tinha um estilo de jogo particular, que chegava a assustar os torcedores mais afoitos. Tinha o costume de matar a bola no peito e sair jogando. E em algumas ocasiões, o adversário lhe roubava a bola, quase chegando a fazer o gol. Uma vez, num clássico “Atletiba”, ele fez uma dessas, e o jogador “coxa” roubou a bola dele na grande área, driblou o goleiro Altevir e foi até linha de fundo, tocando para dentro do gol. Nisso, Alfredo veio na corrida e ainda conseguiu tirar a bola, praticamente de dentro do gol.

O outro filho de “Caju”, Celso Gottardi, que ganhou o apelido de “Cajuzinho” jogou como goleiro do Atlético no anos 60. Não foi um mau goleiro, mas a sombra do pai acabou por fazer com que ele não desse continuidade à carreira.

O grande ídolo “Caju” fez parte em 1949 do folclórico time atleticano que ganhou o apelido de “Furacão”. Na noite de 20 de fevereiro de 2008 a torcida atleticana fez uma bonita homenagem aos jogadores do passado que fizeram parte do elenco de 1949. Os mais festejados foram o goleiro “Caju” e o ponta esquerda Cireno, que ganharam versões adaptadas de famosas músicas da torcida para homenagear seus ídolos. Sob o coro de “é o melhor goleiro do Brasil“, os atleticanos lembraram com emoção a figura de “Caju”, o maior ídolo da história do clube, falecido em 2001.

Já Cireno Brandalise, que estava presente na festa que reuniu duas gerações do “Furacão” pode ver a bonita homenagem feita pela torcida, que em coro gritou: “ê ô, ê ô, o Cireno é o terror!”. Além deles, todos os demais titulares do super-time do Atlético de 1949 foram lembrados pelos mais de 15 mil atleticanos presentes no jogo contra o Cianorte, pelo Estadual: Laio - Nilo (Délcio) e Waldomiro – Waldir - Wilson e Sanguinetti – Viana – Rui – Neno - Jackson e Cireno.

Alfredo Gottardi, o “Caju” morreu em Curitiba no dia 24 de abril de 2001, aos 85 anos de idade. Seu corpo foi velado no Salão de Honra da Arena da Baixada e sepultado no cemitério Água Verde, na capital paranaense. “Caju” ficará para sempre lembrado no clube rubro-negro. Com todo o merecimento, hoje dá nome ao Centro de Treinamento do Atlético, considerado um dos mais modernos da América do Sul, inaugurado em 1999 e que é popularmente conhecido como “CT do Caju”.

O Centro de Treinamento começou a ser construído em 1996. Nesse ano, o clube adquiriu o terreno, que até então, era utilizado por um hotel fazenda. Várias obras foram realizadas no local, sendo a última em 2006. A área total do terreno é de 220.000 m². (Pesquisa: Nilo Dias)

Caju em 1944. (Foto: Acervo do C.|A. Paranaense)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Um estádio no meio do mundo

O Estádio Milton de Souza Corrêa, o “Zerão”, localizado em Macapá é o único no mundo em que um jogo de futebol se realiza em dois hemisférios ao mesmo tempo. Um lado do gramado fica no Hemisfério Sul e o outro, no Norte, separados pela Linha do Equador. Por essa razão o estádio é um dos pontos turísticos mais importantes de Macapá.

O apelido “Zerão” se deve ao fato do estádio ter sido construído exatamente onde passa a linha imaginária do Equador, o chamado Marco Zero localizado no quilômetro 2 da Rodovia Juscelino Kubischeck. O estádio pertence ao Governo do Estado e tem capacidade para 10 mil expectadores. O projeto foi feito de maneira que a linha do Equador dividisse o campo, que tem dimensões de 110 m X 75 m.

O Estádio faz parte do Complexo Marco Zero, que inclui também o Monumento do Marco Zero, Escola Sambódromo de Artes Populares e a Panela do Amapá onde é valorizada a gastronomia regional, com seus temperos exóticos e restaurantes com comidas típicas da região. Neste local, a latitude é de zero grau. O relógio do sol marca o local onde a linha imaginária divide a Terra em dois hemisférios. A cidade têm o privilégio de assistir ao fenômeno chamado de Equinócio, uma manifestação em que os raios do sol, no seu movimento aparente, incidem diretamente sobre a linha do Equador.

Nesse período, os dias e as noites têm a mesma duração em todo o planeta. A ocorrência desse fenômeno se dá em dois momentos: em março, conhecido como equinócio da Primavera; e em setembro, chamado de equinócio de Outono. O Monumento Marco Zero também possui no seu terraço um espaço para shows, além de salão para exposições, bar e lanchonete e lojas para venda de produtos locais. É o mais conhecido ponto turístico de Macapá.

O “Zerão” foi inaugurado no dia 17 de outubro de 1990, com o jogo Independente 1 x 0 Trem de Macapá. O jogador Mirandinha anotou o gol único do jogo e o primeiro no estádio. Esse jogo também marcou o recorde de público até hoje, 10.000 torcedores. Na época da inauguração o estádio se chamava Ayrton Senna, porém, após a morte de Milton de Souza Corrêa, ex-presidente da Federação Amapaense de Futebol, passou a ter essa denominação.

O Governo do Estado já executa um projeto para reforma do “Zerão”, que deve ficar pronto para a Copa de 2014. Serão investidos R$ 35 milhôes e a capacidade vai subir para 20 mil expectadores sentados em cadeiras numeradas e cobertas. O estádio vai dispor de local para adaptação de clima, alimentação e treino para seleções, que por acaso venham participar da competição, em chave com sede em Belém. E o presidente Ricardo Teixeira, da CBF até já prometeu levar a Seleção Brasileira Sub-20, para um jogo contra a Seleção do Amapá, no dia da inauguração do novo “Zerão”.

As obras estão paralisadas no momento. Por enquanto foi concluído o plantio do novo gramado, aumentado o muro e construídas novas bilheterias. Pelo cronograma a próxima etapa será a construção da pista de atletismo. O piso já foi preparado para receber o material que reveste a pista. Falta ainda a recuperação das arquibancadas, como também dos sistemas elétrico e hidráulico que foram sucateados. Do projeto consta ainda a iluminação do campo de jogo e a ampliação das arquibancadas no setor que fica nas proximidades do estacionamento.

Desde fevereiro de 2007, quando da vitória do Paissandu do Pará, por 1 X 0 frente o São José que não se realizam jogos no “Zerão”. Os confrontos pelo campeonato amapaense estão sendo disputados no outro estádio de Macapá, o Glicério Marques.

O presidente Lula, conhecido por sua paixão pelo futebol, quando em visita a Macapá em 2006, não resistiu a tentação de experimentar a sensação de entrar no gramado de um estádio onde se joga em dois hemisférios ao mesmo tempo. E bateu uma bola com alguns de seus ministros.

Antes da construção do estádio era costume dos torcedores locais fazer sexo com uma garota deitada sobre a linha imaginária, com uma perna em cada Hemisfério. (Pesquisa: Nilo Dias)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Um “xavante” na Seleção

Ismael Alvariza, nascido em Pelotas no dia 16 de abril de 1897 foi o primeiro jogador de um clube gaúcho a ser convocado para a Seleção Brasileira. Ele disputou o Campeonato Sul-americano de 1920, no Chile, fez gol na estréia e se tornou goleador da competição.

Alvariza jogava na ponta esquerda e tinha na velocidade sua principal arma. Surgiu no G.E. Brasil de Pelotas, em 1914 e ajudou o clube a vencer o primeiro campeonato estadual, disputado em 1919, vencendo no jogo final ao Grêmio em Porto Alegre pelo escore de 5 X 1, gols de Proença (3), Alvariza e Ignácio para o Brasil, e Máximo, para o Grêmio. O Brasil foi campeão com Frank - Nunes e Ari Xavier - Floriano - Pedro e Babá - Farias - Ignácio - Proença - Alberto e Alvariza.

O título valeu um convite da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), para o rubro-negro pelotense participar no ano seguinte, no Rio de Janeiro, da “Copa dos Campeões” contra o Fluminense, campeão carioca e Paulistano, campeão paulista. O Paulistano foi o vencedor do primeiro torneio interestadual disputado no Brasil. Foi a primeira experiência realizada pela CBD de uma competição nacional de clubes. No entanto, a “Copa dos Campeões” não teve sequência nos anos seguintes.

O Brasil perdeu os dois jogos que disputou: 7 X 3 para o Paulistano e 6 X 2 para o Fluminense. Ainda assim um de seus jogadores teve destacadas atuações, Alvariza, que encantou a todos com sua habilidade, cruzamentos perfeitos e um incrível faro de gol. Isso lhe valeu a convocação para a Seleção Brasileira que disputou o Campeonato Sul-Americano do Chile, em 1920.

Após o torneio, o Brasil disputou mais três amistosos. No Rio de Janeiro, a equipe gaúcha venceu o São Cristóvão, por 5 a 1, no dia 8 de abril. Em São Paulo, o Brasil realizou dois amistosos. O primeiro foi contra o Palestra Itália, atual Palmeiras, no dia 13 de abril. O Brasil perdeu por 2 a 1. Os gols do Palestra foram marcados por Caetano e Heitor Domingues, titular da Seleção Brasileira no Sul-Americano do ano anterior. No último jogo, no dia 15 de abril, o Brasil empatou em 4 X 4 com o Corinthians Paulista.

Alvariza tornou-se o primeiro jogador de um time gaúcho a ser convocado para a Seleção Brasileira e a marcar gol, o da vitória de 1 X 0 sobre o Chile, em Viña del Mar, dia 11 de setembro de 1920. Também foram convocados o atacante Cipriano Nunes da Silveira, o "Castelhano", de Santana do Livramento, e dois ex-jogadores do Grêmio: Kuntz e Sisson, que atuavam no Flamengo. "Castelhano" jogou de 1907 a 1929 no E.C. 14 de Julho da sua cidade, mas em 1920, quando convocado, estava no Santos.

No Sul-Americano do ano seguinte, estava o atacante Aníbal Torres Candiota, gaúcho de Bagé, que havia sido campeão de Porto Alegre pelo Cruzeiro em 1918, mas atuava no Flamengo-RJ.

A Seleção Brasileira jogou contra o Chile com Kuntz - De Maria - Martins – Rodrigo – Sisson - Fortes - Zezé I – Constantino – Castelhano – Junqueira e Alvariza. O craque gaúcho ainda jogou mais duas vezes pela Seleção, contra Uruguai e Argentina, totalizando 3 jogos, duas derrotas, apenas uma vitória e um gol marcado.

O jogo Brasil X Argentina foi histórico, pois as duas seleções entraram em campo com apenas oito jogadores, devido a um protesto contra um jornal argentino que publicou charges da Seleção Brasileira como macacos. Em razão disso alguns jogadores se recusaram a jogar. No retorno a Pelotas, Alvariza foi recebido como verdadeiro herói.

Ainda em 1920, Alvariza se transferiu para o Guarany F.C. de Bagé, onde jogou até o final de 1921. Em 1922 foi contratado pelo Clube Sírio de São Paulo, onde jogou até 1929, encerrando a carreira. Alvariza ficou residindo em são Paulo, onde faleceu anos depois. (Pesquisa: Nilo Dias)

Ismael Alvariza. Foto: Site da CBF)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Uma visita ao Sul

Estou de volta a Brasília depois de 21 dias no Rio Grande do Sul, “gozando de merecidas férias”. Se é que aposentado tem direito a férias, pois teoricamente não faz nada. No meu caso trato de não ficar totalmente parado: dou atenção a três blogs, jogo sinuca e derrubo algumas cervejas geladíssimas durante a semana. E as vezes faço alguma caminhada, para desenferrujar as pernas.

O passeio foi realmente muito bom, pois “matei” a saudade dos pagos e vi muita gente que não via há muitos anos. Comecei a trajetória por Porto Alegre, no dia 31 de março. Era noite de jogo do Internacional pela Taça Libertadores da América, contra o Cerro do Uruguai. Não fui ao estádio, vi o jogo pela televisão. Valeu pela vitória. Antes do futebol, estive com o meu amigo gremista (ninguém é perfeito), José Lucca no bar do Paulo, na rua Vigário José Inácio, onde encontramos dois gabrielenses e um ex-jogador do antigo Cruzeiro de São Gabriel. Mas isso é assunto para a coluna que escrevo em um jornal gabrielense.

O José Lucca é um amigo de muitos anos. Ele me acompanhou como diretor de futebol nos oito anos em que presidi a S.E.R. São Gabriel, que não sei por que mudou o nome para São Gabriel F.C.. Talvez para que fossem esquecidos os verdadeiros heróis que fundaram o clube e levantaram em tempo recorde um novo estádio para a cidade.

Pena que o futebol profissional tenha acabado. Hoje, o São Gabriel ficou na saudade. No meu tempo, e dos outros que me antecederam, o clube tinha vida longa. Terminava o ano e era certo que voltava no outro, e sem dever nada para ninguém.

Em São Gabriel ocupei a maior parte do tempo para concluir a pesquisa que faço, de longa data, sobre o futebol da terra, folheando velhos jornais guardados com carinho pelo amigo Rui Barros, o guardião da memória da cidade. Acho que o esforço de tanto tempo vai valer a pena, pois penso em colocar todo o extenso material colhido, em um livro sobre o centenário futebol gabrielense.

Em São Gabriel não deu para fazer muitas visitas, apenas aquelas já tradicionais que não tem jeito de escapar. E é claro que nos momentos de folga espantei o calor com algumas gostosas loiras geladas em vários bares da cidade. E na casa do amigo Clóvis Moure, o popular “Sete Vacas” saboreei uma feijoada maravilhosa, como há muito não comia. Tivesse ficado mais alguns dias em São Gabriel, certamente teria voltado uns cinco quilos mais gordo.

Em Pelotas fui hóspede da minha querida irmã Helena Badia, importante figura da cultura pelotense. Ela é artista plástica e participa de vários movimentos culturais na cidade. O meu cunhado João Carlos é professor da antiga Escola Técnica Federal de Pelotas. Foi na casa deles que assisti a vitória de virada do Internacional sobre o Pelotas. Era eu o colorado único na casa. Minha irmã ficou neutra, meu cunhado, além de torcer pelo Pelotas é anti dupla Grenal. E meu sobrinho Flávio é Pelotas e gremista. Mas confesso que se o Pelotas tivesse vencido, eu também teria festejado, em homenagem aos amigos áureo-cerúleos que tenho.

Depois, estabeleci o Café Aquário como o meu Quartel-General na cidade. É lá que se encontra todos e se sabe de tudo. Acho que fazia mais de 30 anos que eu não entrava no Aquário. Confesso que no primeiro momento me senti um peixe fora d’água. Não conhecia mais ninguém. E se havia algum conhecido, os anos se encarregaram de fazer uma maquiagem que os tornava irreconhecíveis. Com certeza o mesmo valeu em relação a minha pessoa. Quando morei em Pelotas não pesava nem 60 quilos, hoje estou com 103.

Ainda assim, graças ao amigo Luiz Carlos Knopp, áureo-cerúleo dos bons, com quem fiz amizade pela Internet, foi possível reencontrar alguns velhos conhecidos. Entre eles, Amir Cury, excelente repórter dos tempos de ouro da Rádio Pelotense, que fazia parte da equipe do grande Paulo Corrêa, recentemente falecido. Juro que poderia passar mil vezes por ele nas ruas, que não o reconheceria, mesmo estando "inteiraço" em seus 77 anos de idade.

E o que dizer do Luiz Carlos Martinez, meu companheiro de equipe esportiva na Rádio Pelotense, depois que Paulo Corrêa foi para Rio Grande? Com seus 84 anos bem vividos, Martinez freqüenta o Aquário diariamente entre 15 e 16 horas. Tirei uma foto com ele para guardar de recordação. Além de um excelente narrador esportivo foi um goleiro que marcou época no futebol de salão, defendendo o E.C. Pelotas.

Também encontrei o Celso Guimarães, um dos melhores atacantes que o futebol pelotense já produziu. O narrador Gley Santana, que eu levei para Rio Grande no início dos anos 80. Emilinho Nunes, que foi um dos bons goleiros do futebol de salão de Pelotas. Francisco Brandi, que trabalhou nas categorias de base da dupla Brapel e no salonismo do Paulista F.C. e o doutor Cheda, xavante de quatro costados, entre muitos outros.

Almocei com o amigo Luiz Carlos Knopp na Churrascaria Lobão, do E.C. Pelotas, hoje muito diferente daquele ambiente que conheci nos tempos do saudoso Vilmar Schild. Atendimento de primeira. E como o mundo é realmente pequeno, um dos garçons é filho de um velho amigo, o Flávio Fonseca, o popular “Cenourinha”, que me acompanhou como treinador nos plantéis salonistas do G.E. Brasil e G.A. Farroupilha, que tive a honra de dirigir.

Com o Knopp mantive um papo agradável. Ele é uma pessoa sensacional, profundo conhecedor do futebol. Não só do seu E.C. Pelotas, mas do futebol como um todo. Não estava triste com a derrota do seu clube para o Internacional. Tem plena consciência do poderio do clube da capital. E aplaude a campanha áureo-cerúlea, digna e vitoriosa sob todos os aspectos. O desempenho do Pelotas este ano, fez com que os "xavantes passasem muitas noites mal dormidas. E isso é bom, faz renascer o futebol da cidade, e valoriza o interior. Hoje, o campeonato gaúcho só perde para o Paulista. Passou os cariocas para trás, há muito tempo.

Encerrando minhas andanças por Pelotas visitei meus quatro filhos que moram lá. E fui na redação do jornal “Diário Popular”, uma verdadeira escola de jornalismo, onde trabalhei muitos anos como editor de esportes e repórter especial. Do meu tempo, apenas o Chico da oficina e o repórter Airton ainda permanecem por lá. O restante é a jovem guarda do jornalismo, entre eles o editor de esportes Sérgio Cabral, que me brindou com uma nota acompanhada de foto na edição do dia 20. (Texto: Nilo Dias)



Foto Carlos Queiróz. Nota publicada no jornal "Diário Popular", de Pelotas-RS, edição de 20 de abril de 2010. "O " velho" amigo Nilo Dias, ex-editor de esportes do Diário Popular, nos anos 70, esteve em Pelotas ontem à tarde e veio à Redação, nos visitar. Falou um bom tempo com o nosso "guerrilheiro da notícia" Airton Santos. Nilo está em Brasília há 11 anos, aposentado, curtindo a vida. Este fez história no rádio, nos bastidores do futsal, no futebol e foi presidente do São Gabriel por oito anos. Na conversa de bastidores ontem, foi recebido pelo nosso coordenador e parceiro Pablo Rodrigues (Sérgio Cabral)"

terça-feira, 30 de março de 2010

O gol que Zico não quer lembrar

Em 1985, o craque Zico enfrentava problemas financeiros com o fisco italiano e no início do ano revelou sua vontade de voltar a jogar no Brasil. Ele havia sido vendido em 1983 à Udinese da Itália. Aproveitando a presença do jogador no país, quando de um jogo da Seleção Brasileira pelas eliminatórias da Copa do Mundo, o Flamengo cogitou trazê-lo de volta a Gávea.

E graças a uma parceria com a Petrobras e a Rede Globo, o que parecia impossível se concretizou. A noticia caiu como uma bomba no meio esportivo, e para comemorar tal proeza nada melhor do que preparar uma grande festa apara recepcionar o ídolo.

Ao mesmo tempo em Alagoas, o programa “Globo Esporte”, através do repórter Marcio Canuto trazia quase todos os dias imagens de um ponta esquerda baixinho (70 kg, altura 1,65 m), que jogava no Centro Sportivo Alagoano (CSA), chamado Jacozinho. O repórter Márcio Canuto, da TV-Gazeta-AL, hoje na Globo-SP, ficava forçando, em tom de gozação, sua entrada na Seleção Brasileira. Jacozinho engolia a corda, e com isso, ficou conhecido no Brasil, de ponta a ponta. Jacozinho era uma figura folclórica, embora habilidoso e autor de bonitos gols que eram vistos quase todos os domingos no “Fantástico”. Por ser muito pobre, várias vezes foi flagrado indo treinar montado em um jumento. E gostava de comer rapadura.

Quando os dirigentes rubros negros decidiram em fazer uma volta triunfal de Zico convidaram para jogar contra o Flamengo uma seleção de craques do mundo. Maradona, Edinho, Mário Kempes, Rumennigge, Falcão, Paolo Rossi, Altobelli, Resenbrink, Fernando Morena e o técnico Cesar Menotti foram alguns convidados para o evento e prontamente aceitaram o convite. Até que um dia alguém ligado a Globo sugeriu o nome de Jacozinho.

"Jacozinho, quem é ele no meio de tantos cobras?", foi a pergunta dos dirigentes do Flamengo. "Queremos Jacozinho porque ele nos traz um ibope tremendo", foi o que alegaram representantes da Globo. Como a emissora havia financiado a volta de Zico, todos tiveram que aceitar a idéia. E então, na noite de 12 de Julho em um Maracanã lotado lá estava o Flamengo contra a Seleção de Craques, com Jacozinho no banco de reservas.

Quando o jogo Flamengo x Amigos de Zico começou foi aquela festa: flores, placas de comemoração, coroas e muitos presentes. Foi a bola rolar e o que se viu foi uma verdadeira pelada, embora o Flamengo estivesse vencendo por 2 x 1. Nem Zico e nem Maradona estavam jogando bem. A torcida impaciente começou a gritar: "Jacozinho, Jacozinho", provando a audiência que a Globo possuia. Quando faltavam 20 minutos para acabar o jogo o técnico Menotti não teve outra alternativa e colocou Jacozinho para jogar.

Quando ele apareceu no gramado a torcida entrou em delirio e esqueceu de Zico, do Flamengo e de Maradona. E na primeira bola que pegou no meio-campo Don Diego viu Jacozinho livre na esquerda e fez o lançamento. O baixinho ganhou na corrida do lateral Leandro, ficou de cara com o goleiro Cantarelle, deu-lhe um drible e mandou a bola para as redes. A Globo ficou meses falando do lance. O único que não gostou do ocorrido foi Zico que ficou bastante contrariado com o gol de Jacozinho, a ponto de declarar no fim do jogo: "Infelizmente tem pessoas que querem aparecer mais que os homenageados".

O ex-atacante do CSA conta que foi um momento mágico da sua vida ter participado do amistoso, principalmente pelo gol que fez. “Eu recebi o passe do Maradona, driblei o Cantarelle, e marquei. Foi um dia de herói, apesar do Zico ter ficado um pouco chateado. Ele disse depois que eu não era amigo dele e havia outros jogadores que poderiam ter participado daquela partida”. Jacozinho disse que até hoje não sabe como foi parar lá no Maracanã. Conta que um empresário de nome Ronaldo ligou para fazer o convite. Ele teve de pagar a passagem do seu bolso e foi para o Rio. Nem sabia que ia jogar.

A fama meteórica de Jacozinho rendeu até uma homenagem feita por Fernando Collor de Mello, na época governador de Alagoas. “Nunca pensei que aquilo fosse acontecer. Até o Collor, que depois foi eleito presidente, me homenageou. O povo pedia para o Evaristo de Macedo (que era o técnico) me dar uma chance na seleção brasileira. Parecia até o Romário”, brinca o ex-atacante, que chegou a fazer testes no Santos Futebol Clube em 1983.

Givaldo Santos Vasconcelos, o “Jacozinho”, nasceu em 1956, na cidade de Gararu (SE). Hoje, aos 54 anos de idade reside em Vila Velha (ES). Ele tornou-se evangélico e comanda uma escolinha de futebol, núcleo do Vasco da Gama e como professor de Educação Física da Faculdade Batista. Mas ainda mantém o seu jeito folclórico e engraçado. No futebol viveu bons e maus momentos. Foi coroado rei em Alagoas e morou debaixo das arquibancadas no Maranhão.

Jacozinho Iniciou a carreira de jogador de futebol no Vasco Esporte Clube de Aracaju em 1975, nas categorias de base. Na época, o clube era dirigido por José Carivaldo de Souza que, atendendo solicitação do treinador Jaime de Souza Lima, assinou seu primeiro contrato em 21 de outubro, aos 20 anos de idade, percebendo o salário de Cr$ 800.00 cruzeiros.

Pelo bom desempenho apresentado no Campeonato Estadual daquele ano, Jacozinho foi contratado no ano seguinte, pelo Club Sportivo Sergipe, para as disputas dos campeonatos sergipano e brasileiro. Durante a temporada de 1977, atuou ao lado de jogadores como Raymundo Dória, Cabral, Orlando, Milano, Djalma Sales, Rubens e Peribaldo, entre outros. O primeiro jogo de Jacozinho no Maracanã foi contra o Fluminense que tinha um timaço, onde se destacava o craque Rivelino. O time sergipano perdeu por 2 X 1 e Jacozinho foi um dos grandes nomes da partida.

Ele ganhou fama e algum dinheiro, mas esbanjou tudo com farras e mulheres. Ele garante que, no apogeu da fama, chegou a possuir um sitio, uma mansão de cinco quartos em Jequié, na Bahia, uma casa em Aracajú, um apartamento em Maceió e três carros. Perdeu tudo. Hoje, vive em casa alugada.

Agora está longe da mulherada, mas tem um projeto na cabeça: se tornar pastor e levar a palavra do evangelho para a China. Faz parte de um grupo de pagode evangélico que já gravou um CD. Seu carro chefe é a musica que narra seu maior momento de glória. O refrão diz assim: “Maradona lançou, Jacozinho partiu, Figueiredo ficou, Cantarelle caiu... e a torcida gritou: é gol, é gol de Jacozinho”.

Um belo dia de 1988, Jacozinho apareceu no ABC de Natal e nas entrevistas garantia que vinha para ser campeão. Tarde de clássico-rei. Um domingo, estádio com mais de 15 mil pessoas. E entra no gramado Jacozinho, uniformizado e montado num jumento. Mas no final do jogo deu América 2 X 0. Depois disso Jacozinho teve seu nome lembrado para fazer parte da Seleção Brasileira e foi contratado para jogar no Santa Cruz do Recife. Não deu certo e acabou sumindo do mapa.

Quando jogava no Santa, Jacó, que também esteve no Ypiranga, andava num Fusca caindo aos pedaços, devagar, quase parando, como seu dono. "Esse coitado é a minha cara", brincava. O calhambeque tinha nome. Chamava-se Maestro. "É um conserto em cada esquina", dizia o jogador, fazendo trocadilho com concerto, que significa peça musical.

Na sua longa carreira passou por 22 clubes: Vasco (SE), Sergipe (SE), CSA (AL), Jequié (BA), Galícia (BA), Lêonico (BA), Corinthians de Presidente Prudente (SP), ABC (RN), Baraúnas (RN), Nacional (AM), Santa Cruz (PE), Ypiranga (PE) e outros tantos clubes pelo Brasil. (Pesquisa: Nilo Dias)

Jacozinho quase acabou com a festa de Zico.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Djalma Campos: missão cumprida

Djalma Campos foi um dos maiores jogadores surgidos no futebol maranhense, em todas as épocas. Nasceu na cidade de Viana e ainda pequeno mudou-se com a família para o bairro do Desterro, no centro histórico de São Luiz. Com apenas 12 anos de idade já mostrava muita intimidade com a bola. Deu seus primeiros chutes no campo frente à igreja do Desterro, junto de outros garotos que se destacaram no futebol do Maranhão, como Santana, João Bala, Jovenilo e Fifi. Jogou depois no São Cristóvão, no Santos e Botafogo do Anil, do “seu Chuva” e no segundo quadro do Esporte Clube Desterro, que era dirigido por seu pai, Djalma Gomes Campos

O bairro do Desterro foi uma verdadeira fábrica de bons valores, onde surgiram outras revelações do futebol maranhense, como Enemê, Japi, Carro-Velho, China e Pindura, entre tantos outros. E não eram muitos os locais para se jogar. Além do Largo do Desterro havia o campinho da “Ford”, o “Quartel de Polícia”, hoje Convento das Mercês, as ruas e o campo da Oleama, no Dique, onde um goleiro não enxergava a outra trave, porque no meio do caminho havia a esquina da fábrica Chagas & Penha.

A habilidade que mostrou nos campos de futebol foi adquirida nas quadras de futebol de salão. Desde garoto, com 16 anos já se sobressaia no Atenas, time do bairro do Desterro. Quando o Sampaio montou sua equipe juvenil, ele foi convidado a fazer parte dela. Era a época de times como Vitex, Elmo, Flamengo (Monte Castelo), Real Madri e ainda o Drible.

Em 1968, quando já era jogador profissional foi convidado a jogar a Copa do Brasil de Futsal pelo Drible, tendo sido inscrito com o nome do seu irmão Delmar. Como o time não se preparou adequadamente não venceu nenhum jogo, mas ainda assim Djalma foi considerado o melhor jogador da competição. Ele era incomparável com a bola nos pés, não dava chutes à toa e costumava desmoralizar os goleiros com colocadas geniais. Apesar de ter marcado inúmeros gols, sua maior preocupação era armar as jogadas para outros artilheiros.

A primeira oportunidade que Djalma teve para jogar em um dos “grandes” do futebol maranhense foi através do goleiro Campos, que o levou para o Maranhão Atlético Clube (MAC), junto com os amigos João Bala, Santana, Fifi e Jovenilo. Mas não deram sorte, o técnico Calazans nem se dignou a assisti-los jogando. E o quinteto foi parar no Graça Aranha F.C., e por lá permaneceu por um bom tempo.

Anos depois, Calazans teve a humildade de reconhecer que errou ao barrar Djalma no início de sua carreira como jogador. Mas depois conviveu com ele no Sampaio, por isso dizia que o jogador nasceu numa época e no lugar errado: “Se Djalma Campos tivesse jogado num grande centro, com certeza teria sido o dono da camisa 7 da seleção brasileira”.

Em 1968 Djalma já era já era o destaque do time do Graça Aranha, chamando a atenção do desportista Guido Bettega que comprou seu passe e o deu de presente ao Moto Clube. Por jogar no adversário do Sampaio Corrêa, a família inteira de Djalma virou-lhe as costas. Naquele mesmo ano o Moto foi campeão estadual e campeão do Norte. O time formava com Vila Nova – Paulo - Alzimar - Alvindaguia e Corrêa - Ronaldo - Santana - Djalma e Amauri - Pelezinho e Ribamar. Em 1969 o Moto perdeu o título para o Maranhão Atlético Clube.

O Sampaio, que não fazia boa campanha no “Nordestão”, resolveu lançar o “Sampaio Setentão”, um projeto para montar um grande time. O primeiro contratado foi Djalma que ganhara passe livre no Moto Clube. Finalmente, aos 23 anos de idade o jogador vestiu a camisa do time da sua família. E não deixou por menos, encantou a todos, dirigentes, torcedores e imprensa. Era a época dos dirigentes José Carlos Macieira, Humberto Trovão, Ari e Zé Barbosa. O presidente era Rupert Macieira, que substituiu Walter Zaidan. O técnico era o paraibano Edésio Leitão.

Uma curiosidade, é que Djalma, mesmo tendo jogado profissionalmente pelo Moto Clube, não se adaptava ao uso de chuteiras. Para resolver o problema, passou a andar em casa de chuteiras. No gramado, após os treinos ficava sozinho cobrando faltas e aperfeiçoando seus chutes. Mas o Maranhão conquistou o bicampeonato.

Em 1970, já consagrado como um verdadeiro craque foi convidado a concorrer a Câmara Municipal de João Pessoa. E foi eleito com mais de 2.500 votos. Passou então, a dividir suas atenções entre a política e o futebol. O Sampaio tinha um timaço, onde se destacavam Edimilson Leite, Gojoba e Pelezinho, mas ainda assim o campeão foi o Ferroviário.

Em 1972 o Sampaio Corrêa foi campeão do “Brasileirinho” (2ª Divisão), derrotando o Campinense da Paraíba, no jogo final. Naquela época, o Campeonato Brasileiro da Segunda Divisão não era oficial e não dava acesso à primeira divisão, já que os times disputavam o Brasileirão por convites da antiga CBD, hoje CBF.

Djalma teve oportunidade de se consolidar como o grande ídolo da torcida. Sob o comando do técnico Marçal Tolentino Serra, o time campeão formou com Jurandir - Célio Rodrigues - Neguinho - Nivaldo e Valdecir Lima - Gojoba e Edmilson Leite – Lima – Djalma Campo - Pelezinho e Jaldemir. Destes, Valdecir também já é falecido.

Aproveitando o sucesso, Djalma se candidatou a reeleição na Câmara Municipal. E ai aconteceu um verdadeiro clássico nas urnas. O jogador Faísca, do Moto também concorreu. Todos queriam saber quem venceria esse duelo político. Deu Djalma, que conquistou mais de 4.500 votos, contra 3.100 de Faísca, que também se elegeu.

Depois da conquista do “Brasileirinho” a meta do Sampaio Corrêa era o título estadual. No jogo decisivo contra o Moto aconteceu o inesperado: o goleiro Jurandir pediu dispensa e o reserva Campos estava doente. O atacante Zezé teve que ser improvisado no gol. O resto do time tinha Ferreira – Neguinho - Nivaldo e Eraldo (Valdecy - Gojoba e Edmilson Leite – Lima – Djalma - Pelezinho e Jaldeny (Vamberto). O empate em 1 x 1 deu o título de campeão maranhense de 1972 ao Sampaio Corrêa.

Em 1973 Djalma deu um passo maior na política, concorrendo a deputado estadual. E se elegeu com facilidade, foi o terceiro mais votado, com quase 14 mil votos. No futebol, o Sampaio montou um grande time para disputar o Campeonato Nacional: Orlando (Portuguesa) - Marinho (Paraná) - Moraes (bi-campeão pelo Cruzeiro) - Raimundo e Santos (Portuguesa) - Lourival (Sudeste) - Sérgio Lopes (Curitiba) - Buião (Atlético MG) - Dionísio (Flamengo) - Ailton (São Paulo) e Djalma. Técnico: Alfredo Gonzalez. Preparador Físico: Gualter Aguirre.

Os resultados positivos apareceram de imediato. Jogando em São Luiz o Sampaio Corrêa derrotou todos os times cariocas que enfrentou: Vasco da Gama, 2 X 0, Botafogo , também 2 X 0, Fluminense 3 X 1 e América, 1 x 0. Nesse jogo, já em fim de carreira, Djalma foi autor de uma jogada inesquecível: aplicou uma “barata” (enfiou a bola entre as pernas) do jogador Ivo, que recentemente havia sido convocado para a seleção brasileira. Ivo, até que tentou evitar o vexame, mas não conseguiu. O inesperado sempre fez parte dos desconcertantes dribles de Djalma. O Sampaio, não alcançou classificação porque fora de casa perdeu todos os jogos.

Djalma parou de jogar em 1974. No ano seguinte, quando já era presidente do Sampaio, foi obrigado a voltar aos gramados, porque às vésperas da decisão estadual o meia Joel adoeceu e não havia substituto para ele. Atendendo pedido do técnico Rinaldi Maya, Djalma passou a presidência do clube ao vice-presidente Chafi Braide e voltou a jogar, ajudando o time a vencer o campeonato estadual.

Na decisão contra o Moto o Sampaio venceu por 1 x 0, gol de Acy, quebrando um tabu de dois anos e 11 meses sem vitória sobre o time rubro-negro. Em 1976 Djalma deixou definitivamente os gramados e reassumiu a condição de presidente. O Sampaio sagrou-sei bi-campeão maranhense.

No Campeonato Brasileiro, o Sampaio contratou para técnico o famoso Djalma Santos. Quando de um jogo no Rio, o treinador deu entrevistas a imprensa falando mal do trabalho desenvolvido pelo clube. Foi demitido na hora. E nem assim os bons resultados apareceram. Pelo contrário, o vexame de duas goleadas seguidas: 5 x 0 para o Volta Redonda e 7 x 1 para o Flamengo. Sobrou para o presidente Djalma Campos que assumiu a culpa pelo fracasso e renunciou ao cargo.

Em 1978 concorreu a reeleição de deputado estadual, mas não venceu. Por volta de 1965, quando Antônio Bento Farias, já falecido vendeu quase todo o time profissional do Sampaio, Djalma foi convidado a ficar no banco de reservas. No segundo tempo entrou em campo e apesar da idade, mostrou toda a técnica que o consagrou como o melhor jogador do futebol maranhense em todos os tempos.

Levantou o público, dando um verdadeiro show com a incrível habilidade que Deus lhe deu, herança dos seus tempos de futsal. Naquela época a televisão não dava a cobertura esperada aos jogos de futebol. Por isso seu talento ficou reservado apenas aos que o viram jogar. Djalma foi um atleta completo. Além de se dedicar inteiramente à prática desportiva, não fumava e não ingeria nenhuma bebida alcoólica.

Em 1988 concorreu às eleições para prefeito de sua terra natal, Viana e venceu. Ao longo de sua vida pública foi ainda diretor executivo e vice-presidente do Instituto de Previdência do Estado do Maranhão (Ipem). Em 2005, como assessor da presidência da Assembléia Legislativa, por gratidão ao deputado Manoel Ribeiro, resolveu assumir ao lado de Humberto Trovão, o departamento de futebol do Sampaio Corrêa.

Por desentendimentos dentro do clube, Djalma se afastou do Sampaio e junto com Isaias Pereirinha e Humberto Trovão ajudou a fundar o Iape, o clube caçula do futebol maranhense, hoje na primeira divisão.

Djalma faleceu no dia 7 de agosto do ano passado. Eram 5 horas da manhã quando ele se sentiu mal e foi levado pela esposa para o hospital UDI. Lá ele teve um infarto e faleceu. Na noite anterior, o ex-jogador esteve no estádio municipal Nhozinho Santos, junto com o presidente do Iape, Isaías Pereirinha assistindo o jogo em que seu clube derrotou o Sampaio Corrêa por 2 X 1. Djalma, que era diretor de futebol teria dito ao final do jogo: “velho, missão cumprida". Como se soubesse o que iria ocorrer, ao sair do estádio passou pela casa onde seus pais haviam morado, na Rua das Palmas no bairro do Desterro, para visitar alguns parentes.

O ex-craque foi velado na rua da Palma, 652, no bairro do Desterro, próximo à igreja. O sepultamento aconteceu no cemitério Parque da Saudade, no Vinhais, onde seus pais estão enterrados. Djalma deixou três filhos adultos do primeiro casamento: Djalma Neto, Soraya e Solange. Do segundo casamento com a vereadora vianense Maria José, teve Fábio. (Pesquisa: Nilo Dias)

segunda-feira, 1 de março de 2010

A lenda paraguaia

Arsenio Pastor Erico Martínez, considerado pela Fédération Internationale de Football Association (Fifa) o melhor jogador paraguaio de todos os tempos, nasceu em Asunción, no dia 30 de março de 1915. Começou a jogar futebol no Colégio Salesiano de Vista Alegre, e aos 11 anos de idade foi levado para o Nacional, tradicional clube de seu país. Aos 15 anos já era titular absoluto.

Sua agilidade e fino trato com a bola logo chamaram a atenção. Durante a guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai, a Cruz Vermelha formou um time de futebol para jogar partidas beneficentes no Uruguai e Argentina, visando arrecadar fundos destinados a auxiliar os feridos de guerra. Arsenio Erico foi um dos convocados.

Quando de uma apresentação em gramados argentinos foi visto por dirigentes do River Plate e do Independiente, que ficaram encantados com seu vistoso futebol. O River tentou contratá-lo ainda no vestiário de “La Bombonera”, logo após o jogo beneficente contra o Boca Juniors.

Como Erico era menor de idade, um tenente-coronel paraguaio explicou aos dirigentes do River, que não estavam em condições de ceder o passe, porque o atleta poderia ser considerado desertor. Mas os do Independiente foram mais ágeis, prosseguiram nas negociações e acabaram por comprar seu passe ao Nacional do Paraguai, por 12 mil pesos.

Erico ingressou no clube vermelho da Argentina em 1934, com apenas 18 anos de idade, tomando conta da camisa número 9 por 12 temporadas, até 1946. Seu jogo de estréia aconteceu no dia 6 de maio de 1934, diante do Boca Juniors. Antes do jogo, Arsenio Erico disse a imprensa argentina: "Quiero darle al público el gol, que es lo que más se celebra". (quero oferecer ao público o gol, para que possa festejar). Uma semana depois, frente o Chacarita Juniors, cumpriu a promessa, marcando dois gols.

No Independiente tornou-se o maior artilheiro de todos os tempos no campeonato argentino, tendo marcado um total de 293 gols (um a mais que Angel Labruna) em 325 jogos, recorde que permanece até hoje. A média foi de 0,882 gol por partida.

Foi artilheiro do campeonato argentino nos campeonatos de 1937, 1938 e 1939. Em 1937, o Independiente, que foi campeão venceu os últimos 10 jogos do campeonato, superando o até então líder, River Plate. E num feito espetacular Erico marcou 45 gols. Ao final da competição foram 115.

Contam que no campeonato de 1938 a “Tabacalera Picardo”, que fabricava os cigarros 43, que depois mudaram o nome para 43/70, deu um prêmio a Arsenio Erico por ter somado 43 gols no campeonato. Quando faltavam duas rodadas para o término da competição, o paraguaio pedia aos companheiros Antonio Sastre e Vicente de la Mata, que não lhe passassem a bola, pois se marcasse mais um gol perderia o prêmio.

Em 1941, Erico pediu um aumento salarial. Como não foi atendido resolveu vestir a camisa da Seleção do Paraguai, em jogo contra a Argentina pela “Copa Chevallier Boutell”. Mas o Independiente apelou a Fifa e a partida foi suspensa. Ainda assim, os dirigentes tiveram que viajar até Asunción para convencê-lo a voltar. O que só aconteceu depois que lhe deram o aumento salarial solicitado.

Entre os seus 293 gols, um entrou definitivamente para a história: foi contra o Boca Juniors. Erico pulou para tentar cabecear um cruzamento, mas se passou da jogada. Antes de cair ao chão conseguiu bater com o calcanhar na bola e a mandou para a rede.

Erico não foi somente um goleador emérito. Era dono de uma técnica incomum, driblava com perfeição e adorava dar toques de calcanhar. Acrobático, Arsenio era um equilibrista que executava jogadas luxuosas e toques de calcanhar na confecção de seus gols. A sua impulsão era fatal para os goleiros, daí o apelido de “El Trampolin Invisible”.

Seu estilo era inigualável. Saltava mais que qualquer marcador e ganhava dos goleiros. Como bom paraguaio, o jogo aéreo era sua especialidade. Ninguém conseguia pará-lo quando se preparava para o cabeceio. Por sua elasticidade, o jogador recebeu elogios de antigos craques como Leônidas da Silva e Alfredo Di Stefano.

Outra virtude desse notável jogador foi o seu altruísmo e desapego ao dinheiro. “El Saltarín Rojo”, como também era chamado, não aceitava regalias e paparicos em hotéis e restaurantes. Na sua concepção, o jogador de futebol era uma pessoa comum, e não um astro.

Ídolo de Alfredo Di Stéfano, Arsenio Erico era o típico jogador de todas as torcidas, que com seu estilo espetacular fazia valer o ingresso do jogo. Segundo o jornalista Sindulfo Martínez, “ningún otro jugador hizo temblar tantas veces el duro cemento de los estadios ni la fibra apasionada de las muchedumbres”. (Nenhum outro jogador fez vibrar tantas vezes o duro cimento dos estádios, nem a fibra apaixonada das torcidas)

O célebre compositor argentino Ovidio Cátulo González Castillo, dedicou-lhe um tango que dizia: “Pasará un milénio sin que nadie repita tu proeza, del pase de taquito ou de cabeza”. (Passará mais de mil anos e ninguém repetirá tua proeza, do passe de calcanhar ou de cabeça)

Arsenio Erico saiu do Independiente em 1946, depois de sofrer sérios problemas nos meniscos. Como não conseguiu se recuperar bem, seu futebol caiu bastante. Antes de voltar ao Paraguai ainda jogou sete partidas pelo Huracán, porém não marcou nenhum gol. Encerrou a carreira no mesmo clube onde começou, o Nacional de Asunción.

Morreu em Buenos Aires, no dia 23 de julho de 1977, aos 62 anos, logo após ter amputado a perna esquerda. Um problema circulatório acabou em gangrena. Foi sepultado no Cemitério de Morón, na capital argentina. Porém, no dia 23 de fevereiro deste ano os seus restos mortais foram levados para o Paraguai e agora estão guardados no Mausoléu do “Estádio Defensores Del Chaco”, em Asunción.

Arsenio Erico, “El Malabarista", outro de seus apelidos, teve a imagem impressa em selos postais. O correio paraguaio, através de sua assessoria filatélica realizou recentemente no Salão Comendador, da Câmara dos Deputados, o lançamento de selos do afamado futebolista, como parte das homenagens alusivas a vinda de seus restos mortais para o país. (Pesquisa: Nilo Dias)

A vida de Arsenio Erico virou livro. (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O rádio gaúcho está de luto

Vítima de complicações após uma intervenção cirúrgica para colocação de duas pontes de safena e uma mamária, faleceu na última sexta-feira, 19, o advogado e radialista Paulo Gilberto Corrêa, o melhor narrador de futebol que o rádio da Zona Sul do estado do Rio Grande do Sul conheceu, em todos os tempos. Há nove dias o radialista estava internado em um hospital da cidade, em decorrência de um infarto sofrido ao constatar que sua esposa havia sido acometida de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Paulo Corrêa era natural de Pelotas onde começou a carreira de narrador de futebol na Rádio Pelotense, a mais antiga emissora gaúcha e terceira fundada no Brasil. A audiência da emissora nas transmissões esportivas era quase total. Sob o comando de Paulo Corrêa passaram pela antiga PRC-3 nomes importantes do rádio gaúcho como Jair Rodrigues, que depois brilhou na Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, Luiz Carlos Martinez, que além de excelente narrador também foi goleiro do time de Futebol de Salão do E.C. Pelotas, Wolney Castro, até hoje em atividade, o narrador Volni Dutra, o comentarista Benito Amato e o repórter Amir Cury.

Foi a chamada época de ouro do rádio esportivo pelotense. As outras duas emissoras da cidade também tinham suas equipes esportivas, igualmente compostas por nomes que até hoje são lembrados: na Rádio Cultura, sob o comando do narrador Petrucci Filho, Dagoberto Focaccia (ainda em atividade e residindo em São Gabriel), Armando Leite Goulart, Phidias Gallo, Edmar Allan e tantos outros que a memória desgastada pelos 68 anos de idade, não permite lembrar.

Na Tupancy, sob o meu comando, entre outros trabalharam Izabelino Tavares, meu saudoso irmão; o plantão esportivo Dinei Avelar, já falecido, que tive a felicidade de lançar no rádio; Antônio Carlos Alves, dono de uma voz belíssima, hoje aposentado, continua morando em Pelotas; Sérgio Oliveira, outro que foi lançado por mim e que brilhou no jornalismo do Rio de Janeiro. Atualmente mora em Maceió (AL), mas continua escrevendo para o jornal Diário Popular, de Pelotas.

Eu, que vivi parte daqueles memoráveis anos, posso afirmar que Paulo Corrêa era o melhor de todos. Crítico por natureza, não perdoava ninguém. Lembro de uma ocasião em que ele “baixou a ripa” no presidente do G.A. Farroupilha, o então coronel do Exército, Plácido de Castro Nogueira. Não deu outra. Paulo Corrêa foi proibido de entrar no Estádio General Nicolau Ficco, do “Tricolor do Fragata”. No domingo tinha o clássico Far-Pel (Farroupilha X Pelotas), pelo campeonato da cidade.

Assim mesmo, a Rádio Pelotense transmitiu o jogo. Paulo Corrêa mandou construir uma espécie de andaime no meio da avenida Duque de Caxias, frente o estádio e narrou o jogo inteirinho. Só não citava os nomes dos jogadores do Farroupilha. Dizia: “pegou a bola o número 5 do time da casa”. E assim por diante. Dias depois as relações foram reatadas e tudo voltou a normalidade.

Não era só no esporte que Paulo Corrêa se destacava. Apresentava um comentário ao meio-dia, em que abordava temas gerais. Uma ocasião, Pelotas sofria com uma enchente de grandes proporções e o governo estadual mandou uma boa ajuda em dinheiro. O secretário municipal encarregado da aplicação de recursos, não o fez de forma que agradasse o radialista. E este não teve dúvidas, o chamou de “rato de enchente”. Criou-se uma grande polêmica. O secretário também era radialista e respondia as críticas pela emissora concorrente.

Não foi só no rádio que Paulo Corrêa brilhou. Ele era um dos três comentaristas que assinavam a coluna “Espíritos de Porco”, no extinto jornal vespertino “Opinião Pública”, que pertencia a Gráfica Diário Popular. Os outros dois eram Aldyr Garcia Schlee, que ganhou o concurso nacional para escolha da camisa da Seleção Brasileira e Carlos Alberto Chiarelli, que como político galgou altos cargos no cenário nacional.

Em 1962 Paulo Corrêa foi para Rio Grande dirigir a Rádio Minuano, que fora comprada pelo Grupo Fonseca Júnior, de propriedade do seu amigo, o empresário Manuel Marques da Fonseca Júnior. Começou, então, uma verdadeira revolução no rádio riograndino. A exemplo do que já havia acontecido com a Rádio Pelotense, a Minuano tomou conta da audiência na “Cidade Marítima”. Os integrantes da equipe esportiva foram convencidos por Paulo da necessidade de estudarem. E alguns deles ingressaram em Faculdades e concluiram cursos superiores. Inclusive o próprio Paulo Corrêa, que se formou em Direito. O mesmo aconteceu com Gil Barlém Martins, Izolmiro Porto e Ney Amado Costa, entre outros.

Eu era fã de carteirinha do Paulo Corrêa, tanto que acompanhava as transmissões esportivas da Rádio Minuano, sempre que tinha oportunidade. Foi naquela época que passei a torcer pelo F.B.C. Rio-Grandense. Em 1965, o “colorado” riograndino fez uma campanha impecável e voltou a divisão principal do futebol gaúcho.

Lembro que o Paulo Corrêa chamava os jogadores do futebol riograndino pelo nome completo: Milton Ernesto Schultz, Jair Cutiara, Oscar Conceição, Luis Carlos Scala Loureiro, Adair Padilha, Marcos Boroni, Mário Landir Noguez, o "Leleco", Alcindo Martha de Freitas, o "Alcindo e Antônio Azambuja Nunes, o Nico. Foi Paulo Corrêa que deu a Nico o apelido de “Bombardeador”, por seu chute forte. E ao Rio-Grandense o de “Guri Teimoso”, por resistir heroicamente a todas as dificuldades.

Quando os três clubes de Rio Grande se classificaram para o principal campeonato do estado, e Pelotas ficou sem representante, Paulo Corrêa não teve dúvidas em chamar Rio Grande de “Capital nacional do futebol”. Como alguns pelotenses reclamaram, lembrando que ele era filho de lá, não teve dúvidas em responder: “A gente não escolhe onde nasce, mas pode escolher onde vai morrer”. O que realmente veio a se confirmar.

Em Rio Grande Paulo Corrêa continuou polêmico. Em um de seus comentários denunciou um esquema de empréstimo de dinheiro feito por um empresário local. O caso ganhou repercussão nacional e o responsável pelo ilícito acabou preso. Inovador, criou na Minuano o rádioteatro, com novelas e contos interpretados por artistas da terra. Polivalente, colaborou com os jornais “Rio Grande”, “Agora” e “Folha da Cidade” e ultimamente com a rádio Nativa, ex-Cultura Riograndina. Precavido, por mais que lhe perguntassem, jamais revelou por qual clube torcia em Rio Grande. Como advogado competente, prestou serviços a Refinaria de Petróleo Ipiranga e a Prefeitura Municipal de Rio Grande.

O sepultamento de Paulo Corrêa aconteceu no sábado, dia 20, no Cemitério Católico de Rio Grande. Deixou esposa, filhos e netos e uma enorme legião de amigos e admiradores. Entre os quais me incluo.(Texto: Nilo Dias).

Paulo Corrêa em foto recente. (Foto: Álbum da família)

Paulo Corrêa, nos tempos da Rádio Pelotense entrevistando o presidente Juscelino Kubitscheck, em visita a Pelotas. (Foto: Álbum da família)

(Foto : Álbum da Família)

COMENTÁRIOS DE LEITORES

claudio disse...
VALEU NILO DIAS O RIO GRANDE PERDEU UM GRANDE PROFISSIONAL DO RÁDIO. UM ABRAÇO DO AMIGO CARIMBÓ.
25 de fevereiro de 2010 23:01

Roni Paulista disse...
Apesar de admirador do saudoso radialista e advogado Paulo Correia por ouvir quando criança ao lado de meus pais seus comentários na Radio Minuano que eram de uma enorme repercurção na nossa região eu não conhecia a sua historia, devo admitir que seu blog passará de hora avanti fazer parte do meu cotidiano pois aborda temas super interessantes que nos fazem manter nossa informação em dia, abração.
26 de fevereiro de 2010 10:04

Nilo, cumprimentos pelo blog e comentário sobre a vida profissional do nosso amigo Paulo Correa. Parabéns! Um abraço prá ti e outro na Terezinha.
Renato Kegles – Pelotas Pelo Orkut)

Pedro Aguiar
Li e gostei. Um abraço grande. Outro dia add a Leandra, tua filha. (Pelo Orkut)

laila:
amigo nilo eu li a reportagem no seu blog e fiquei triste com a noticia do falecimento do grande radilista paulo corrêa . os meus mais sinceros pêsames para a familia . um grande abraço. (Pelo Orkut)

Guilherme:
Oi, tio, quanto tempo! Como estão as coisas por aí? Tudo bem com vocês? Que grande figura devia ser esse Paulo Corrêa, me diverti bastante aqui lendo a tua matéria... “Rato de enchente” e a coluna “Espíritos de Porco” mataram a pau! HAHAHAHA!!! (Pelo Orkut)

luiz Carlos knopp:
Também sou fã de carteirinha do Dr. Paulo Gilberto Corrêa, e lamentei muito seu falecimento. Quanto ao Blog, o Paulo é merecedor de cada palavra que a respeito dele escrevestes.
Abração. (Pelo Orkut)

Regina:
Agradeço a homenagem feita ao meu pai!Obrigada em nome da minha família!Abraços (Pelo Orkut)

Augusto:
Muito bom o texto. Relata exatamente como era o Paulo Corrêa. abração (Pelo Orkut)

willy:
Caro Nilo: representei os colegas jornalistas de Rio Grande, todos admiradores do Paulo Corrêa, na missa em açao de graças pelo sétimo dia de seu falecimento, ontem, 26/fev. Li teu texto no blog e nao preciso dizer que adorei, também sou teu fã no jornalismo,há muito tempo.
Eu me tornei jornalista observando os outros, como faziam, como escreviam. Depois fui fazer faculdade de jornalismo, onde aprendi algumas coisas tbem. Eu acompanhei o Paulo Corrêaa vida toda, desde os seis anos de idade, quando ele veio para Rio Grande, em fevereiro de 1963.
Sempre dizia isso a ele. De alguma forma ele ficava satisfeito com isso. Era um dos seus discipulos, e ele sempre me prestigiou. O que eu agradeço muito. Daqui a uns meses, lançarei a biografia de Chico Bastos e o Paulo me deu preciosas informações sobre o marechal da educaçao, titulo criado por Paulo Corrêa. Belissimo o teu blog, parabens, como tudo o que fazes. Abraçao do Willy Cesar (Pelo Orkut)

Anderson Trapa:
Olá Nilo! Li atentamente e parabéns pelo seu blog. Eu acompanho muito o futebol. É lamentável a perda do grande Paulo Corrêa. Grande abraço! (Pelo Orkut)

Rogerio disse...
Parabens pelo texto e p/ oportuna homenagem. Eu lembro bem do Paulo Corrêa nas rádios de Pelotas na decada de 60. Um grande abraço.
28 de fevereiro de 2010 21:

Julio Jardim disse...
Muito Bom o texto, relata bem o que foi esse icone do rádio tão admirado por colégas e ouvintes...Vai nos deixar saudade os seus oportunos comentarios com o complemento especial de sua voz aveludada...~
2 de março de 2010 22:02

Clara:
Olá sou irmã de Regina e a filha mais velha do Paulo Corrêa,quero agradecer tuas palavras sobre nosso pai.Grata pelo carinho,recebe um abraço emocionado,Clara. (Pelo Orkut)