Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Um milionário do futebol

Depois de Sir Alex Ferguson, outro grande personagem do futebol europeu anuncia que vai se aposentar a partir de 26 de maio próximo. Trata-se de David Robert Joseph Beckham, ou simplesmente David Beckham, nascido em Leytonstone, Inglaterra, no dia 2 de maio de 1975. Atualmente joga no Paris Saint Germain, da França.

De acordo com a “France Football”, Beckham, de 38 anos, é o jogador de futebol mais rico do mundo, ganhando cerca de €37 milhões por ano, somando salários e publicidade. Ele poderá curtir a vida como um príncipe pelo resto da vida: ninguém, na história do futebol, acumulou fortuna semelhante à de Beckham, avaliada em R$ 510 milhões.

Ao longo da última década, Beckham foi com sobras o atleta mais bem pago do futebol mundial, de acordo com o jornal “The Sunday Times” e a revista “Forbes”. Nesta semana, a revista “Sports Illustrated” publicou que o jogador faturou, apenas com patrocínios, R$ 95 milhões nos últimos 12 meses. O jogador doa o salário do PSG a instituições de caridade.

Beckham começou sua carreira em 1991 no Manchester United, clube no qual ficou até 2003. Em 1995, esteve por empréstimo, no Preston North End, que atualmente disputa a 3ª Divisão da Inglaterra. Mas foi no Manchester United, que teve destaque internacional e conheceu o auge da carreira, ajudando o clube a conquistar os títulos mais importantes de sua história, como a “UEFA Champions League” de 1998-1999.

Além da “Champions League”, foi campeão por seis vezes da “Premier League" (1995–1996, 1996–1997, 1998–1999, 1999–2000, 2000–2001 e 2002–2003), da “Copa Europeia/Sul-Americana 1999”, ganhando do Palmeiras, de São Paulo, no jogo final, bem como outros títulos importantes de âmbito nacional.

Nesse ano, ficou em segundo lugar no prêmio “Ballon d'Or”, oferecido pela revista francesa “France Football”, e também na eleição da FIFA em 2001. Porém, foi o primeiro jogador europeu a conquistar o prêmio de melhor do ano, concedido pela UEFA.

Em 2002, quase não participou da “Copa do Mundo”, em razão de ter fraturado o pé direito em uma dividida com o argentino Aldo Duscher, do Deportivo La Coruña, em um jogo pela “Liga dos Campeões da UEFA”. Foi preciso realizar um tratamento intensivo que durou dois meses para poder jogar o torneio. Deixou o clube no final da temporada, com 85 gols marcados e 145 assistências.

Em 2003, Beckham foi para o Real Madrid, da Espanha, onde fez parte do chamado time "Galáctico", junto de outros jogadores famosos como Ronaldo, Zinédine Zidane, Roberto Carlos, Luís Figo e Robinho. Mas não rendeu no clube madrilenho, tudo o que se esperava dele. Em 153 partidas pelo Real Madrid, Beckham fez somente 19 gols.

Em 11 de janeiro de 2007, Beckham transferiu-se para o Los Angeles Galaxy, da “Major League Soccer “, dos Estados Unidos. Sua chegada ao clube norte-americano deu-se em 13 de julho de 2007, quando foi recebido pelos torcedores com uma grande festa. Seu primeiro jogo pelo Galaxi aconteceu no dia 21 de julho, com derrota de 1 X 0, num amistoso frente a equipe inglesa do Chelsea.

O primeiro gol de Beckham com a camisa 23 do Galaxi, mesmo número usado no Real Madrid, foi numa vitória de 2 X 0 sobre o seu grande rival, o DC United, em jogo pela “Major League Soccer”. E ainda deu assistência para o outro gol. Com essa vitória, sua equipe disputou em 29 de agosto, a primeira final da Superliga.

Mas Beckham não deu sorte, uma lesão sofrida em uma dividida contra um adversário, o tirou do jogo antes do término da primeira etapa. O Galaxi perdeu o título numa decisão por pênaltis (3 X 4), após empate de 1 X 1 no tempo normal.

Em 30 de outubro de 2008, Beckham foi emprestado ao Milan, da Itália. A sua estreia pelo time “milanês” foi no dia 11 de janeiro de 2009, em um jogo do Campeonato Italiano, frente o Roma, que terminou empatado em 2 X 2. O seu primeiro gol pelo clube italiano foi em 25 de janeiro, o terceiro da vitória por 4 X 1 sobre o Bologna.

Beckham ficou no Milan até o encerramento da temporada, em junho. Na volta ao Galaxy, Beckham disputou sua primeira partida em 16 de julho, na vitória sobre o New York Red Bulls por 3 X 1. Depois de ser primeiro colocado na “Conferência Oeste”, o time do Galaxi acabou perdendo o título nos pênaltis.

Depois do término da temporada nos Estados Unidos, Beckham retornou ao Milan, por empréstimo, em janeiro de 2010. Fez a reestreia pelo time italiano em 6 de janeiro, na goleada sobre o Genoa por 5 X 2. Outra vez teve uma séria lesão as vésperas da Copa do Mundo de 2010, rompimento do “Tendão de Achiles”, que o deixou fora da competição. O jogador se lesionou sozinho no domingo 14 de março, no jogo em que o Milan venceu o Chievo Verona por 1 X 0, pelo Campeonato Italiano.

O Milan havia formado uma equipe cheia de estrelas. Além de Beckham, jogavam Ronaldinho Gaúcho, Shevchenko, Maldini, Pirlo, Kaká, Nesta, Gattuso, Filippo Inzaghi, além do jovem Alexandre Pato.

Participando sempre dos principais torneios de futebol, Beckham foi o primeiro jogador britânico a disputar mais de 100 partidas pela “UEFA Champions League”, a principal competição européia. Repetiu o feito com a camisa do “English Team”, sendo superado somente pelo ex-goleiro Peter Shilton. Mas atualmente é o jogador de linha com mais partidas disputadas pela Inglaterra.

Em 28 de março de 2009, no amistoso contra a Eslováquia, Beckham se tornou o jogador de linha que mais vezes atuou com a camisa da Inglaterra: 109 partidas. O antigo recorde pertencia a Bobby Moore. Até o presente momento, atuou por 115 vezes com a camisa do "English Team".

David Beckham é considerado um dos maiores jogadores do futebol mundial em todos os tempos, tendo como características marcantes a facilidade nos passes e chutes de longa distância, além da precisão em cobranças de faltas e pênaltis. Ele marcou boa parte de seus gols, 65 ao todo, em cobranças de faltas.

Outro recorde de Beckham é o de ser o único jogador inglês campeão nacional por quatro países diferentes. Foi campeão inglês pelo Manchester United, espanhol pelo Real Madrid, estadunidense pelo Los Angeles Galaxy e francês pelo Paris Saint-Germain.

Após o retorno de seu segundo empréstimo ao Milan, conquistou seu primeiro título no Los Angeles Galaxy, a “MLS Western Conference”, a disputa entre as equipes da “Conferência Oeste”. Depois, conquistou também a “MLS Supporters' Shield”, em 2010, sendo bicampeão em 2011. Nesse mesmo ano foi campeão da “MSL CUP”, a mais importante competição futebolística dos Estados Unidos.

Beckham tinha o sonho de participar das Olimpíadas de 2012, realizadas na Inglaterra. Chegou a ser pré-selecionado para a Seleção Britânica, mas acabou dispensado, pois o técnico Stuart Pearce preferiu ocupar as três vagas permitidas para veteranos com os jogadores Micah Richards, Craig Bellamy e Ryan Giggs.

Em 20 de novembro de 2012 Beckham anunciou a sua despedida do Los Angeles Galaxy. Sua última partida foi disputada dia 1 de dezembro contra o Houston Dynamo, valendo o título da MLS. Foi o sinal aberto para Beckham ir para o Paris Saint-Germain.

Em 31 de janeiro deste ano, ele finalmente assinou contrato com o clube francês. Beckham estava treinando no Arsenal, para manter a forma. Estreou no dia 24 de fevereiro de 2013, num jogo contra o Olympique, de Marseille. O Paris Saint-Germain venceu por 2 X 0, e Beckham começou a jogada do gol do Zlatan Ibrahimović.

Apesar de ter sido um jogador que sempre primou pela disciplina, Beckham foi marcado por um momento negativo: ter recebido um cartão vermelho na Copa do Mundo de 1998, no jogo contra a Argentina. Depois de uma falta cometida por Diego Simeone, Beckham agrediu o argentino com um chute na perna.

Beckham casou com a “ex-spice girl” Victoria Beckham, em 4 de julho de 1999, no “Luttrellstown Castle”, na República da Irlanda. O casamento atraiu uma enorme cobertura da mídia, e o custo da cerimônia foi estimado em £500 mil.

Desde que se casaram, os dois atraem uma imensa atenção da mídia, principalmente desde que o casal passou a residir nos Estados Unidos. Apesar disto, Beckham e Victoria não aparentam um grande incômodo por serem alvo frequente dos “paparazzi”.

Com Victoria, teve quatro filhos: Brooklyn, Romeo, Cruz e Harper, esta a mais nova integrante da família, nascida em julho de 2011. Em abril de 2007, a família Beckham mudou-se para Beverly Hills, na Califórnia. A mansão custou cerca de US$ 22 milhões. Entre os vizinhos, estava o casal de atores Tom Cruise e Katie Holmes.

Beckham tem muitas tatuagens no corpo, uma delas com o nome da esposa, Victoria, escrito em hindi. Também possui outras escritas em hebraico. A imprensa norte-americana chegou a ridicularizá-lo pelo excessivo número de tatuagens e os locais onde se encontram, o que o obriga a usar uma camisa de manga comprida, por baixo do uniforme, para escondê-las..

Beckham fez parte da lista do ex-craque Pelé, publicada em 2004, em que ele escolheu os seus 125 maiores jogadores vivos da história do futebol mundial. Também foi citado pela revista “Time Time 100”, publicada nos Estados Unidos, como uma das maiores personalidades do futebol. Para completar é considerado o jogador mais “Pop Star” da história do futebol mundial. Em 2008, foi escolhido pela revista “Forbes”, também dos Estados Unidos, como a quinta personalidade mais influente do mundo. (Pesquisa: Nilo Dias)

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Futebol de um craque só

O futebol do Taiti (Polinésia Francesa) não tem expressão nenhuma. Mas estará presente na Copa das Confederações, a ser disputada no Brasil, de 15 a 30 de junho próximo. O país ganhou a Copa das Nações da Oceania há um ano e se classificou para a competição. Ganhou no jogo final da Nova Caledônia, por 1 X 0, gol de Steevy Chong Hue, que virou herói nacional.

Desde que as seleções da Oceania participam do torneio, esta foi a primeira vez que uma seleção diferente de Austrália e Nova Zelândia vai disputar a Copa das Confederações. Não existe profissionalismo lá, todos os clubes são amadores.

Isso explica o fato do jogador Marama Vahirua ser um verdadeiro astro no seu país. Ele é o primeiro e único taitiano a ter se profissionalizado no futebol. Conhecido na França, mas ignorado no resto do mundo, o atacante que nasceu em Papeete, capital do país, no dia 12 de maio de 1980, tornou-se ídolo nacional desde que vestiu pela primeira vez a camisa do Nantes, da França, em 1998. E deverá ser a principal atração da equipe taitiana na Copa das Confederações.

Vahirua, que é sobrinho do ex-jogador da Seleção Francesa, Pascal Vahirua, ficou famoso na França depois de ser descoberto pelo Nantes, durante uma partida do Pirae, do Taiti. Não demorou para cair nas graças da torcida, graças ao seu faro de artilheiro.

Atualmente Marama Vahirua joga no Panthrakikos, da Grécia. E mantém uma característica, que tem marcado suas atuações em campo. Sempre que marca um gol, aproveita para fazer uma homenagem a sua terra natal. Coloca um joelho ao chão, e imita o gesto de duas vigorosas remadas.

Isso, com o tempo, se transformou em sua marca registrada. Em 14 temporadas no futebol francês, ele repetiu a comemoração 91 vezes. E isso tem uma explicação, pois Marama tinha ambições na infância, de se tornar surfista.

Com 32 anos de idade, o jogador passou pelo Pirae, do Taiti (1996 a 1997), Nantes (1998 a 2004), Seleção Sub 21 da França (2001 a 2002), Nice (2004 a 2007), Lorient (2007 a 2010), Nancy (2010), Mônaco, por empréstimo (2011 a 2012) e atualmente no Panthrakikos, da Grécia, por empréstimo.

Conquistou uma Copa da França em 2000 e a Liga Nacional em 2001. Depois deixou a França e foi o ano passado para a Grécia, onde se encontra até hoje. E garante que não está arrependido. Diz estar muito feliz, pois o clima da Grécia lembra o do Taiti.

No Panthrakikos, clube que foi promovido recentemente a Primeira Divisão, Marama Vahirua já anotou cinco gols na temporada e deu passes para outros companheiros marcarem. Seu time faz força para se manter na elite do futebol grego, que tem um nível técnico e tático mais baixo que na França.

O jogador do Taiti considera a presença de seu país na Copa das Confederações, como uma oportunidade enorme para melhorar o nível do futebol em sua terra. É a primeira vez que a representação nacional se classifica para uma competição internacional desse porte. Ele acha que a Seleção taitiana está progredindo e não está mais limitada ao arquipélago.

Todas as esperanças para uma boa presença na competição estão depositadas nele. Mas nem por isso Marama Vahiura se mostra pressionado. Muito pelo contrário, garante, dizendo ser uma pressão positiva. O Taiti vai disputar o Grupo B, ao lado de Espanha, Uruguai e Nigéria. E tem consciência de que não podem chegar longe no torneio. São realistas, e dizem que o que vai valer será o aprendizado, que deverá ser visto como um trampolim para o futebol taitiano crescer.

A distância técnica entre o Taiti e as outras seleções já garantidas na Copa das Confederações é tão grande quanto os cerca de 10.300km que separam a ilha do Sul do Oceano Pacífico do Brasil. Representante de um território ainda pertencente a França, com cerca de 178 mil habitantes (segundo censo de 2007), a seleção do Taiti ocupa o 139º lugar no ranking da Fifa.

O esporte principal da região é a Va'a, espécie de caonagem. Fundada em 1938, a federação do Taiti só se afiliou à entidade máxima do futebol em 1990. O campeonato local é de baixo nível e os estádios são pouco frequentados. Os desafios são muitos.

O esporte mais popular do globo chegou ao Taiti em 1906, por iniciativa de marinheiros britânicos. Os primeiros clubes surgiram em 1923 e o futebol se organizou em escala nacional a partir do dia 30 de março de 1932. O primeiro jogo oficial da seleção do país foi contra a Nova Zelândia, uma partida disputada em solo taitiano em 1952 que terminou em 2 X 2. Um ano mais tarde, o selecionado realizou a sua primeira turnê internacional no Pacífico.

O Campeonato Nacional, que é realizado desde 1948, é disputado por 10 clubes: AS Central Sport, AS Dragon, AS Excelsior, AS Manu-Ura, AS Vaiete, todos de Papeete; AS Pirae (Pirae); AS Tamari (Faa’a); AS Vairão (Vairão) e AS Vénus (Mahina). A Segunda Divisão também tem 10 equipes.

O futebol no Taiti é totalmente amador. Os jogadores não ganham nada para jogar no campeonato nacional ou na seleção do país. Os taitianos nunca disputaram uma Copa do Mundo , se filiaram à Fifa em 1990. E a primeira vez não vai ser em 2014, pois o Taiti ficou na terceira posição no quadrangular final das Eliminatórias, atrás da Nova Caledônia e da Nova Zelândia, que enfrentará o representante da Concacaf no playoff intercontinental. A Oceania não oferece vaga direta ao Mundial.

O Taiti vai sediar ainda em 2013, a Copa do Mundo de Beach Soccer da FIFA, entre os dias 18 e 28 de setembro. Vahirua jogou com a maioria dos atletas da Seleção de Areia do seu país, quando era mais novo. Ele conta que no Taiti, todo mundo começa na disciplina. E Naea Bennett, o capitão do time de Beach Soccer, é seu primo. E já pediu um lugar no time. (Pesquisa: Nilo Dias)

Marama Vahiura, o craque taitiano. (Foto: Divulgação)

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Um técnico vitorioso

Sir Alex Ferguson, o treinador mais bem sucedido na história do futebol inglês - ninguém ganhou mais títulos que ele - anunciou nesta quarta-feira, 8, que está se aposentado, depois de ter dirigido o Manchester United, por 26 anos ou 9.681 dias e ter conquistado 28 títulos pelo clube. Esteve a frente da tradicional agremiação inglesa em cerca de 1.500 partidas, tendo superado a marca de sir Matt Busby, que foi técnico do Manchester por 24 anos.

Ferguson encerrará a carreira de técnico em 19 de maio, ao final da temporada, após o jogo contra o West Bromwich. Pelo trabalho histórico que desenvolveu no Manchester United, Ferguson recebeu em 1999, das mãos da rainha Elizabeth II, o título de Sir, a mais alta honraria da coroa britânica. Como reconhecimento ao seu trabalho, em 2012 o Manchester United ergueu em seu estádio, o “Old Trafford”, chamado de “O Teatro dos Sonhos”, uma estátua em sua homenagem.

Nesse longo período colecionou troféus, tendo ganho a “Premier Ligue”, o campeonato mais importante da Inglaterra, em 12 oportunidades: 1992/93, 1993/94, 1995/96, 1996/97, 1998/99, 1999/2000, 2000/01, 2002/03, 2006/07, 2007/08, 2008/09, 2010/2011/e 2012/2013).

Sua carreira foi recheada de fatos inéditos. Em 1999, foi o primeiro treinador de uma equipe inglesa a ganhar a “Tríplice Coroa”, sendo campeão da “Premier League”, ‘‘FA Cup” e “UEFA Champions League”. Também foi o único  a ganhar a “FA Cup” cinco vezes e a vencer sucessivamente três “Premier League” a frente de um mesmo clube (1998/1999, 1999/2000 e 2000/2001).

Quando Ferguson chegou ao Manchester United, o clube tinha sete troféus de campeão inglês nas vitrinas do seu museu, bem distante dos 16 do glorioso rival Liverpool. Em 2011, 25 anos depois de se tornar o técnico, o United havia se tornado o clube inglês com mais campeonatos conquistados (19), ultrapassando a cifra do Liverpool.

No momento em que Ferguson anunciou o seu «adeus» ao futebol, o United já tinha assegurado o 20º título de campeão da Inglaterra, 13 conquistados em 26 anos. Uma média sem par no futebol inglês faz de Sir Alex, um caso à parte na história do país que deu ao mundo o futebol.

Alexander Chapman Ferguson, mais conhecido como Sir Alex Ferguson, nasceu em Glasgow, Escócia, no dia 31 de dezembro de 1941, num período difícil que o mundo atravessava. Glasgow era diariamente assolada por bombardeamentos alemães e o pequeno Alex teve uma infância dura, com os primeiros anos a ficarem marcados pelas sirenes de alarme que anunciavam mais uma noite de blitz.

Começou a carreira de jogador no clube amador Queen’s Park, aos 16 anos na posição de atacante. Lembra de seu primeiro jogo, uma vitória de 2 X 1 frente o Stranraer, tendo marcado um gol. Como o Queen’s Park era um time amador, também trabalhava nos estaleiros de River Clyde como aprendiz de ferramenteiro, para depois se tornar um comissário de bordo ativo da loja do sindicato.

Por ironia do destino, a partida em que mais se destacou vestindo a camisa do Queen’s Park , foi uma derrota de 7 X 1 para o Queen of the South, fora de casa, em 1959. Artilheiro do time em 31 jogos, tendo marcado 20 gols, chamou a atenção de outras equipes, tendo em 1960 se transferido para o St. Johnstone.

Embora tenha continuado a marcar gols, não conseguiu ser titular no novo clube, por isso pediu para sair. Ferguson pensou em ir para o Canadá. O técnico até consentiu que ele fosse embora, mas antes disso o selecionou para um jogo contra o Rangers, em que ele marcou um “hat-trick” (três gols), em uma surpreendente vitória. Em 1964, finalmente deixou o St. Johnstone, para assinar contrato de profissional com o “Dunfermline”, filiado a Scottish League (Liga Escocesa).

Na temporada 1964/1965, a equipe do “Dunfermline” tinha ambições de chegar a final da “Scottish Cup”, mas não conseguiu, tendo perdido a final para o Celtic por 3 X 2. Na temporada, Ferguson marcou 45 gols em 51 jogos e dividiu a artilharia do Campeonato Escocês com Joe McBride, do Celtic, com 31 gols.

Em 1967 foi contratado pelo Rangers por £65,000, o que na época foi considerada uma transferência recorde entre dois clubes da Escócia. Depois de ter se casado com a jovem Cathie, passou a sofrer discriminação de parte do clube, por questões religiosas. Ele deixou claro em sua autobiografia que o Rangers sabia da religião de sua mulher quando ele entrou no clube.

O Rangers não quis renovar o seu contrato, devido um suposto erro na final da “Scottish Cup”, quando foi responsabilizado pelo gol do Celtic, no jogo final. Naquela ocasião, Ferguson ficou tão frustrado com a derrota que jogou para longe a medalha de vice-campeão.

Em outubro de 1968, o Nottingham Forest mostrou interesse em contar com Ferguson, mas sua esposa não estava disposta a mudar-se para a Inglaterra. Por isso assinou contrato com o Falkirk, onde foi jogador e treinador por um período. Depois o clube contratou John Prentice para técnico. Ferguson não gostou e se transferiu para o Ayr United, onde encerrou a carreira de jogador em 1974.

Como treinador começou no East Stirlingshire, em Junho de 1974, quando tinha 32 anos de idade. Era um trabalho de meio período, seu salário era de £40 por semana, e nesse tempo o time não tinha um único goleiro. Imediatamente ele ganhou a reputação de disciplinador. Tanto é verdade, que um de seus jogadores chegou a dizer que nunca tinha tido medo de qualquer um antes da chegada de Alex Ferguson. Seus jogadores o admiravam pelas decisões táticas, e com isso o time ganhou melhoras consideráveis.

Em outubro seguinte, Ferguson foi convidado a treinar o St Mirren. Embora abaixo do East Stirlingshire na Liga, ele estava entre os maiores clubes. Mesmo tendo um sentimento de lealdade ao East Stirlingshire, decidiu-se por ir para o St Mirren, onde ficou até 1978.

Mesmo sendo um clube de poucos recursos, conseguiu classificá-lo para a Primeira Divisão Escocesa em 1977. Mas teve problemas com o presidente da entidade, pois queria fazer mudanças estruturais profundas. Por isso foi demitido em 1978. O St Mirren entrou para a história como o único clube a despedir Ferguson.

Em junho de 1978 foi para o Aberdeen, onde substituiu Billy McNeill que fora para o Celtic. Ali, Ferguson teve a oportunidade de mostrar toda a sua competência como treinador, ganhando quatro campeonatos nacionais em oito anos, um ótimo desempenho, visto que a Liga era dominada pelos rivais Celtic e Rangers.

O Aberdeen não ganhava o título nacional desde 1955. Mesmo sendo campeão, Ferguson não teve vida fácil no clube, pois sendo mais jovem que alguns atletas penou para ganhar o respeito de jogadores, tais como Joe Harper. Com a conquista do título escocês, temporada 1979/1980, após 15 anos de jejum, Ferguson finalmente conquistou o respeito de todo o grupo de jogadores.

Devido a sua rigidez com a disciplina, foi apelidado de “Furious Fergie” (Fergie Furioso). Uma ocasião Ferguson multou um de seus jogadores, John Hewitt, por ultrapassá-lo em uma estrada publica. De outra feita, deu um pontapé no galão de chá dos jogadores no intervalo de um jogo, depois de um primeiro tempo fraco. A equipe continuou seu sucesso, ganhando a “Scottish Cup” em 1982. Chegou a receber convite para treinar o Wolves, mas recusou.

O Aberdeen alçou voos mais altos, ao se classificar para a “European Cup Winners”, em 1982/83, por ter ganho a “Scottish Cup” na temporada anterior. E se deu bem, eliminando o FC Bayern Munique, que tinha batido o Tottenham Hotspur por 4 X 1 na rodada anterior. Em 11 de maio de 1983, o grande feito ocorreu, ao derrotar no jogo final ao Real Madrid, por 2 X 1. O Aberdeen foi a terceira equipe escocesa a ganhar um troféu europeu.

Seu sucesso no Aberdeen chamou a atenção de outros clubes, que desejavam contar com seu trabalho. Entre eles, o Tottenham e o Arsenal, ambos da Inglaterra. Mas Ferguson rejeitou as duas propostas.

O técnico do Aberdeen já era considerado o melhor da Escócia, por isso assumiu temporariamente a Seleção de seu país, após a morte do treinador Jock Stein, ocorrida em setembro de 1985. Ferguson comandou a Seleção Escocesa na Copa do Mundo de 1986, antes de se tornar em 7 de novembro daquele mesmo ano, o treinador do Manchester United, da Inglaterra.

Quando chegou no clube inglês, encontrou sérios problemas. Alguns jogadores como Norman Whiteside, Paul McGrath e Bryan Robson, estavam bebendo muito e se encontravam deprimidos. Mas Ferguson conseguiu elevar o ânimo do grupo, com disciplina e união. A equipe ainda terminou a temporada em 11° lugar.

Três semanas depois de ter chegado ao Manchester United, o treinador sofreu uma tragédia pessoal, com o falecimento de sua mãe Elizabeth, de 64 anos, vitimada por um câncer pulmonar.

Na temporada seguinte, Ferguson indicou grandes contratações, como Steve Bruce, Viv Anderson, Brian McClair e Jim Leighton. Com os reforços, o time chegou em segundo lugar no campeonato.  Na temporada 1988/1989, com o retorno de Mark Hughes, que estava no Barcelona, esperava-se uma grande performance, mas acabou em decepção, classificando-se em 11º lugar.

Na temporada 1989/90, chegaram mais reforços, os meio-campistas Neil Webb e Paul Ince, bem como o defensor Gary Pallister, que custou £ 2.3 milhões pagos ao Middlesbrough, um recorde nacional. Mas nova decepção no campeonato, incluindo uma goleada de 5 X 1, sofrida ante o seu feroz rival, o Manchester City. Muitos jornalistas e defensores pediam a demissão de Ferguson. O treinador descreve esse período, como o mais negro em toda sua permanência no clube.

Depois de sete jogos sem vitória no campeonato inglês, o Manchester United foi jogar em Nottinghan, pela terceira rodada da “FA Cup”, contra o Nottingham Forest. Esperava-se uma derrota do Manchester e a demissão de Ferguson. Mas o Manchester ganhou por 1 X 0, e chegou a final. Esta vitória é constantemente citada como a que salvou a carreira de Ferguson no “Old Trafford”.

Na final, jogando contra o Crystal Palace, houve empate em 3 X 3 no tempo normal. Na prorrogação o Manchester United venceu por 1 X 0, garantindo a Ferguson o primeiro grande troféu no comando do clube inglês.

O Manchester United também chegou à final da “European Cup Winners' Cup”, superando o campeão da liga espanhola, o Barcelona, por 2 X 1. Na temporada 1991/92, o United venceu a “League Cup” e a “Super Cup”, mas perdeu o título da liga para seu rival Leeds United.

Em 1992 o clube contratou o atacante Dion Dublin, de 23 anos, que veio do Cambridge United e custou £ 1 milhão. Foi a única grande contratação do verão.

Na temporada 1992/93, finalmente o Manchester United acabou com 26 anos de espera pelo maior título nacional e Alex Ferguson foi eleito o “Treinador do Ano“, pela “League Managers' Association”.

Na temporada 1993/94, na final da “FA Cup”, o Manchester United conseguiu uma impressionante goleada de 4 X 0 contra o Chelsea. Ferguson conquistou uma dobradinha, com seu segundo Campeonato Inglês e Copa da Inglaterra.

A temporada 1994/95 foi difícil para Ferguson. O jogador Cantona agrediu um torcedor do Crystal Palace, em um jogo no Selhurst Park, e parecia que ele iria deixar o futebol inglês. Um banimento de oito meses fez com que Cantona perdesse os quatro últimos meses da temporada. Ele também recebeu uma pena de prisão de 14 dias, mas a sentença foi anulada e substituída por 120 horas de serviço comunitário.

O time perdeu o campeonato num empate inesperado de 1 X 1, com o West Ham United, no último jogo da rodada, quando uma vitória lhe teria dado o título do campeonato pela terceira vez consecutiva. O United também perdeu a final da “FA Cup” em uma derrota por 1 X 0, para o Everton.

Na temporada 1995/96, com um grupo de jogadores todo renovado, com o aproveitamento de muitos jovens, o time se encontrava 10 pontos atrás do Newcastle United, no Natal de 1995. Uma vitória por 2 X 0 em casa sobre o Tynesiders em 27 de dezembro, reduziu a diferença para sete pontos. E uma outra vitória sobre o QPR, diminuiu para quatro pontos. Mas uma derrota por 4 X 1 para Tottenham, no dia do Ano Novo de 1996 e um empate em 0 X 0, em casa com o Aston Villa restabeleceu a ampla vantagem do Newcastle.

Apesar de seu êxito como treinador, Ferguson não era bem quisto por muitos jogadores que foram dirigidos por ele. É considerado um homem autoritário, capaz de intimidar a todos, desde companheiros de direção, até os melhores jogadores e os jornalistas. Dizem que exerce um controle absoluto no vestiário e se enfurece por qualquer motivo, por mais banal que seja. É autor da frase "Nenhum jogador é maior que o clube".

Uma ocasião ele jogou um par de chuteiras no rosto de Beckham. O jogador levou cinco pontos no supercílio, mas fez questão de não levar o incidente adiante. Assim que pôde, Beckham mudou de clube.
Mas não foi só David Beckham que teve problemas com Ferguson.

Também Gordon Strachan, Paul McGrath, Paul Ince, Andriy Kančelskis, Jaap Stam, Dwight Yorke, Diego Forlan e mais recentemente, Roy Keane e Ruud van Nistelrooy deixaram o clube após conflitos com o treinador. Essa linha disciplinar é creditada como uma das razões para o sucesso dele no Manchester United.

Em 2009, quando o Real Madrid buscava a contratação do ídolo do United, Cristiano Ronaldo, Ferguson afirmou que não venderia a eles um vírus sequer. Meses depois, Sir Ferguson faria referências à histórica ligação dos merengues com o ditador Francisco Franco, dizendo que o clube, como o de predileção do “Generalíssimo”, contratava quem queria. Mas citou que a democracia já chegara à Espanha.

Sobre o campeonato mundial conquistado em cima do Palmeiras, ele foi ainda mais firme em suas declarações: “Não jogamos com todo o nosso potencial e, mesmo assim, passeamos no jogo. O campeonato mundial é uma grande falácia, é um campeonato de segunda linha. Ganhamos, mas, com toda certeza, a “Champions League” foi o ápice da temporada”.

Ferguson era uma espécie de Deus vestido de vermelho. Ele podia tudo no clube, contratava e demitia, definia o orçamento, enfrentava árbitros e adversários. Os jogadores, todos, perto do poder de Ferguson eram como se fossem pigmeus, passavam, e o treinador ficava.

Em momentos difíceis, quando deixava o reservado especial dos técnicos e chegava na linha branca lateral, o estádio descia junto, os jogadores ganhavam uma dose extra de adrenalina, os adversários recuavam e a arbitragem corria com um olho na bola e outro na beira do gramado. As vitórias nos finais das partidas viraram marca registrada do United.
  
Títulos ganhos por Ferguson: St. Mirren: (1977, 2ª Divisão Escocesa); Aberdeen: (Campeonato Escocês de 1980, 1984 e 1985); Copa da Escócia (1982, 1983, 1984 e 1986; Copa da Liga (1986); Recopa Européia (1983); Supercopa da Europa (1983); Manchester United: campeonato Inglês (1992/93, 1993/94, 1995/96, 1996/97, 1998/99, 1999/00, 2000/01, 2002/03, 2006/07, 2007/08, 2008/09, 2010/11 e 2012/13); Copa da Inglaterra (1989/1990, 1993/1994, 1995/1996, 1998/1999, 2003/2004); Copa da Liga Inglesa (1992, 2006, 2009 e 2010); Supercopa da Inglaterra (1990, compartilhada com o Liverpool, 1994, 1997, 2003, 2008, 2010, 2011); Liga dos Campeões da UEFA (1998/1999, 2007/2008); Recopa Européia (1991); Supercopa da Europa (1991); Taça Intercontinental (1999); Copa do Mundo de Clubes da FIFA (2008) (Pesquisa: Nilo Dias)


sábado, 4 de maio de 2013

O craque "rastafári"

Alan Cole, considerado o melhor jogador do futebol da Jamaica em todos os tempos, nasceu em Kingston, no dia 14 de outubro de 1950. Apelidado de “Habilidade” ou “Skilly”, foi o primeiro jamaicano a jogar no futebol brasileiro, onde defendeu o Náutico, de Recife. E também o atleta mais jovem a vestir a camisa da Seleção do seu país.

Alan Cole foi criado no bairro operário de Woodford Park, em Kingston. Seu pai, Alan Cole Sr, o influenciou bastante para que se tornasse um futebolista. Ele era um apreciador dos esportes e foi quem o ensinou a chutar uma bola, tanto com o pé direito, quanto o esquerdo.

Desde adolescente, Alan Cole era grande amigo de Bob Marley, que tempos depois se tornaria o maior cantor jamaicano da história. Eles se conheceram em Nine Mile, uma vila situada na paróquia de Saint Ann, onde Marley nasceu.

Até os 13 anos, o sonho de Bob era ser jogador de futebol. E quem o viu jogar, dizia que era bom de bola. Mas, na realidade esse foi o caminho do seu amigo Alan Cole que, ainda novo, mostrava muita habilidade no futebol.

Em 1962, com 12 anos de idade, Cole foi para o Kingston College, então uma potência no futebol colegial, que participava com seu time da “Copa Manning”, a principal competição esportiva do país. Mesmo sendo visto como um talento raro, nunca jogou na competição. A escola ganhou a Copa em 1965. Mas em 1964 ele havia se transferido para o Campion College, onde ficou por um ano.

Enquanto Cole se desenvolvia no mundo do futebol e até foi comparado com Pelé na época, Bob Marley se desenvolvia no mundo do “reggae”. Mas o detalhe mais importante dessa amizade foi a música “War”, uma das grandes canções do rei do “reggae”, composta por Cole, ainda adolescente, e o baterista Carlton Barrett, dos Wailers. “War” foi uma citação feita na época, pelo imperador da Etiópia, Haile Selassie I.

O craque da seleção jamaicana ainda foi co-autor da música “Natty Dread”, com Rita Marley. As duas composições fazem parte do álbum “Rastaman Vibration”.

No começo da década de 70, Chris Blackwell, produtor musical dos “Wailers”, comprou uma mansão no “Hope Road”, zona nobre de Kingston. Quando os “Wailers” lançaram o álbum “Catch a Fire”, Chris deu posse da casa a Marley. E para lá foi Bob morar, levando consigo alguns amigos, entre eles “Skilly” Cole. Uma das atividades mais frequentes dos “dreads” era jogar bola, ou no quintal da mansão ou no campo da, primeiro time de “Skilly”.

Em 1965, quando tinha 15 anos foi jogar no Vere Técnico, time que disputava a “Copa Dacosta”, onde foi o artilheiro com 38 gols. Graças as suas boas atuações foi convocado para a Seleção da Jamaica, com apenas 16 anos, o que o consagrou como o jogador mais jovem a vestir a camisa da seleção nacional.

Ao final dos anos 60, Cole jogou duas temporadas no Atlanta Chiefs, que disputava a incipiente “North American Soccer League”, antes de voltar para jogar no Real Mona, em seguida, “Cidade dos Meninos”. Em 1970 defendeu a equipe da Ethiopian Airlines. Em novembro de 1971 foi contratado pelo Clube Náutico Capibaribe, do Recife.

O clube pernambucano fez uma excursão ao Caribe e seus dirigentes ficaram impressionados com o futebol do centro-avante jamaicano, quando de um jogo contra o “Red Brigade”. Logo trataram de contratá-lo, com seu indefectível cabelo “black Power”. No Náutico jogou ao lado de Marinho Chagas, que participou da Copa do Mundo de 1974, pela Seleção Brasileira.

Cole atuava como um centro-avante moderno, do tipo que arma as jogadas. Sua estréia no Náutico foi num amistoso contra o Sport, na “Ilha do Retiro”. O jogo terminou empatado em 1 X 1 e o gol do Náutico foi assinalado por Alan Cole, que passou a disputar com Marinho Chagas o status de maior ídolo do alvirrubro.

Mas a fama de goleador durou pouco. Cole só balançou as redes em apenas três oportunidades naquela temporada e acabando por não se firmar no time titular. No campeonato brasileiro de 1972, atuou em três partidas, nas quais o Náutico não perdeu. Mas também não ganhou: um empate sem gols com o CRB, em Maceió, e dois empates em 1 X 1 no estádio do Arruda, contra América-RJ e Santos. No Campeonato Nacional, Cole jogou contra grandes nomes do futebol brasileiro, como Pelé, Gerson, Tostão e Jairzinho.

A saída de Alan Cole do Náutico não demorou a acontecer: ainda em 1972, ele foi mandado embora dos Aflitos. O motivo, óbvio, foram as práticas religiosas do centroavante “rastafári" (um movimento religioso que proclama ´Hailê Selassiê I, imperador da Etiópia, como a representação terrena de Jah (Deus): fumar quantidades generosas daquela popular erva sagrada dos adeptos de Jah. Numa cidade provinciana e conservadora como o Recife no início da década de 1970, aquilo não era visto com bons olhos. Entrou em choque com a diretoria do Náutico por não abdicar de fumar “unzinho” aberta e freqüentemente. Terminou voltando para a Jamaica depois de um ano.

No seu país foi jogar no F.C. Santos, de Kingston, clube fundado em 1964, onde ganhou três títulos nacionais. O nome foi uma homenagem a Pelé. Lá, Cole encerrou em 1974 a carreira de jogador de futebol. A grande façanha de seu time foi derrotar em um amistoso ao “New York Cosmos”, de Pelé e companhia, em jogo disputado no “Estádio Nacional da Jamaica“.

Já mais velho Alan “Skill” Cole dominava o futebol jamaicano. Enquanto, os jamaicanos dançavam ao som de muito “reggae” de Bob Marley, o público também se emocionava com o futebol do velho amigo do rei do “reggae”. Alguns de seus compatriotas mais exaltados, chegaram a compará-lo a Pelé.

Muitos torcedores consideram este período o melhor da sua carreira, com um pico quando a seleção nacional, comandada por ele, derrotou o Santos, de Pelé e o “Cosmos”, dos Estados Unidos.

As arquibancadas do Estádio Nacional estavam lotadas. Numa noite de setembro de 1975 (Timothy White, autor da biografia de Bob, diz que foi no dia 30; já a revista “Placar”, de março de 1999, afirma que foi no dia 21), 45 mil torcedores, entre eles Bob Marley e seus irmãos “dreads”, se espremeram nas arquibancadas para assistir o Santos Jamaicano enfrentar o Cosmos, milionária equipe de Nova York que contava com o Rei Pelé no comando do ataque. Para “Skilly”, a partida era uma chance de mostrar suas qualidades e, talvez, ser contratado para jogar no Cosmos.

O time nova-iorquino não demonstrava garra dentro de campo, para irritação da torcida. Aos 25 minutos do primeiro tempo,”Skilly” deu o passe para o ponta direita Errol Reid balançar as redes. O único gol da partida, uma heróica vitória dos jamaicanos. Pelé teve uma noite apagada e sofreu algumas entradas violentas, como a do zagueiro Billy Perkins, que o tirou do jogo.

Mesmo assim não escapou das críticas da imprensa e dos populares, decepcionados com a atuação do Rei: uma "piada", de acordo com o jornal “Daily Gleaner” do dia seguinte. Na opinião do jornal, “Skilly” sozinho valeu o ingresso.

No entanto, o bom futebol apresentado por Alan Cole não foi o suficiente para a sua contratação pelo time de Nova York. Clive Toye, presidente do Cosmos naquela época, em entrevista ao “Daily Gleaner”, disse ter dúvidas acerca da dedicação do jogador, embora tenha ficado bastante impressionado com seu domínio de bola e achasse que ele teve ótima atuação, apesar de impetuosa.

Pela seleção Jamaicana, Alan “Skill” Cole enfrentou o Santos, numa partida amistosa durante excursão do time brasileiro a Jamaica, em que teria dado um “drible da vaca” em Pelé. Cole ainda participou da “Copa do Mundo” de 1974, em que seu antigo parceiro Marinho Chagas, foi um dos craques daquele torneio. Depois, Alan Cole foi morar na Etiópia, onde treinou as equipes do Porto Morant, Arnett Gardens e Rockfort, todas da “Major League”.

Em 1980, ele estava de volta no acampamento de Marley como gerente de estrada para o que seria a última turnê do cantor. Mas Cole nunca escondeu a sua ambição de ser treinador da Seleção Nacional, mas acredita que tenha sido desprezado pelas respectivas administrações da Federação de Futebol da Jamaica.

Fora das quatro linhas, Cole integrava uma tropa de choque que atuava pressionando os DJs dos “soundsystems”, de Kingston para tocarem músicas de seu amigo Bob Marley. Quando os dois já eram ídolos no que faziam, Bob Marley convidou o jogador para uma de suas turnês, onde Alan Cole girou o mundo como um executivo, em 1976.

A amizade entre Bob Marley e Alan Cole é citada no livro “Queimando Tudo”, biografia de Marley. Nela, o jornalista Timothy White envolve as histórias entre os dois em lendas e mistérios, como o do atentado que Bob sofreu em dezembro de 76, que obrigou o cantor a se mudar para a Inglaterra.

Alan Cole foi apontado como culpado pelo crime: endividado e pressionado por traficantes, teria mandado a conta para Bob Marley, que não arcou com as dívidas do parceiro e por isso teve a sua casa baleada.

Segundo o autor de “Queimando Tudo”, o ex-jogador alvirrubro não gozava da confiança de Bob. No entanto, Cole chegou a dirigir a “Bob Marley Foundation”, instituição que administra a comercialização da obra de Bob Marley.

Os jornais da época publicaram que os dois amigos estavam em conflito por direitos autorais. Até o sequestro de Bob Marley foi dado como de autoria de Alan Cole por se sentir prejudicado. Mas, não durou por muito tempo, pois a farsa desse conflito foi desvendada e a parceria deu continuidade.

Em 1980, Alan Cole foi gerente da turnê de Bob Marley. Ele esteve com o rei do “reggae” fazendo “cooper” no Central Park, no momento em que Bob sofreu um colapso. O ícone tentou tratamento em Munique.

Em 2007, Cole voltou aos noticiários. Não exatamente esportivos, muito menos musicais. ele foi condenado por tráfico de drogas a 18 meses de prisão e multa de 15 mil dólares jamaicanos. Cinco anos antes, em 2002, foram encontrados nada menos do que 149 quilos de maconha na casa do ex-jogador. A sentença foi anulada em 8 de outubro de 2010 e convertida em uma multa de 330 mil dólares jamaicanos. Cole estava em liberdade sob fiança aguardando o resultado de sua apelação.

Em 26 setembro de 2010, ele foi homenageado pela Federação de Futebol da Jamaica, ocasião em que recebeu do presidente da FIFA , Joseph Sepp Blatter , um prêmio por seu trabalho no futebol jamaicano . Edward Seaga e PJ Patterson, dois antigos primeiros-ministros, estavam entre os 10 destinatários, mas os maiores aplausos foram para o Cole enigmático. (Pesquisa: Nilo Dias)

No detalhe, Alan Cole quando jogava no Náutico.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A marca da violência

Muitos foram os zagueiros violentos que desfilaram em nossos gramados. Só para lembrar alguns: Tomires e Pavão, no Flamengo da década de 1950. O atacante precisava ser macho, para enfrentá-los. Daison Pontes, do Gaúcho, de Passo Fundo, recordista nacional em expulsões, foram mais de 20. Aterrorizou todo o Rio Grande. Foi o primeiro jogador de futebol a bater em um árbitro.

No Flamengo, onde permaneceu por apenas três meses, recebeu a ordem de deixar o treino do saudoso Flávio Costa após um lance violento contra Airton Beleza, que foi jogado na grade.

No São Borja e Bagé teve Aguiar, um negrão com quase dois metros de altura. Batia para valer. Agora o São Borja, que voltou ao futebol, tem outro zagueiro, de nome Bonaldi, que só o ano passado foi expulso três vezes. Em toda a carreira de 20 anos, perdeu a conta de quantas vezes foi tirado do gramado mais cedo. Num jogo em Bagé quis bater de relho no jogador Adão e apanhou da torcida.

Claro que por esse Brasil afora tiveram e tem muitos jogadores violentos, incapazes de ganhar o “Prêmio Belfort Duarte”, que era dado aos jogadores que passassem 10 anos sem serem expulsos de campo.

Mas poucos se igualam a Antenor José Cardoso, o Pinheirense, um zagueiro que jogou no Náutico, de Pernambuco e na Ferroviária, de Araraquara. Era respeitado pelos atacantes, que quando o viam em campo, tratavam logo de ficar o mais longe possível da área adversária meio de campo.

No Náutico, Pinheirense atuou entre 1979 e 1980. Gostava de relembrar uma cena ocorrida quando de uma excursão do Náutico ao Caribe. Foi num jogo contra os Cosmos, dos Estados Unidos. No primeiro lance contra o jogador Chinaglia, Pinheirense chegou junto e acertou o tornozelo do italiano, que chiou bastante. Como era um “touro” de forte, continuou no jogo.

Pelo time de Araraquara, jogou entre 1982 e 1983, inclusive na brilhante campanha da inesquecível Taça de Ouro de 1983. Segundo pesquisa de Marcelo Cirino, atuou com a camisa da Ferroviária em 85 jogos. Venceu 26, empatou 27 e perdeu 32. Marcou um gol.

A fama de homem mau se consolidou na Ferroviária, nos anos 80, quando impiedosamente “abria a caixa de ferramenta”, diziam antigos locutores esportivos. Na maioria das vezes acertava meio gomo da bola e metade do pé do adversário.

Pinheirense também vestiu as camisas do Botafogo, de Ribeirão Preto (SP), Ituano (SP), em 1988, Coritiba (PR), Paulista, de Jundiaí (SP), Londrina (PR), São Caetano (SP), Lençoense (SP), Lemense (SP) e Corinthians, de Presidente Prudente (SP), onde encerrou a carreira em 1993.

Só na Ferroviária ele foi expulso de campo em quatro oportunidades e muitas outras vezes nos outros clubes que defendeu. Duas delas entraram para a história como fato inédito e pela valentia. Dia 13 de outubro de 1982, em jogo que a Ferroviária perdeu de 4 x 1 para o São Paulo, no Morumbi, Pinheirense e Serginho Chulapa foram expulsos aos dois minutos de jogo.

Pinheirense disse na época que não tinha medo de nada, por isso enfiou a mão em Serginho, que era mais forte. Ele revidou e Pinheirense teve que correr para não apanhar.

Em 15 de maio de 1983, no jogo Ferroviária 0 x 1 Corinthians, na Fonte Nova, em Araraquara, a Ferroviária buscava o empate, quando Ataliba puxou o contra-ataque e Pinheirense o derrubou. O juiz Dulcídio Wanderley Boschillia de imediato expulsou o zagueiro, que inconformado e raivoso pisou na garganta de Ataliba, que estava caído.

Revoltados, os jogadores do Corinthians partiram para cima de Pinheirense, que só não levou uma surra porque foi salvo pelo médio alvinegro Paulinho, amigo dos tempos de Náutico. Na confusão, Mauro e Casagrande foram expulsos.

Depois do jogo, o atacante Casagrande disse que Pinheirense tinha que ser eliminado do futebol, e ameaçou fazer uma denúncia contra ele no Sindicato dos Atletas Profissionais, citando o “currículo” do zagueiro nos gramados. Foi expulso oito vezes por Boschillia, cinco por Godói e quatro vezes por Morgado, e mais uma série incontável por outros juízes.

Apesar de tudo, Pinheirense não conseguiu ser o jogador expulso de campo mais cedo. O lateral-direito Édson Abobrão, da Ponte Preta, de Campinas bateu todos os recordes, ao ser mandado para o chuveiro pelo árbitro Almir Ricci Peixoto Laguna, com apenas um minuto de jogo, num clássico de Campinas (SP), após entrada violenta sobre o meia Neto, hoje comentarista esportivo.

Em 1983, depois da Ferroviária ter derrotado o Grêmio pelo Campeonato Brasileiro, em pleno Estádio Olímpico, um torcedor do time gaúcho acertou um soco no rosto do jogador Bozé, do time araraquense. Pinheirense que também saia de campo naquele momento, viu a cena e saiu como um louco atrás do torcedor, que se jogou no fosso. Foi quando Renato Gaúchoe Bonamigo partiram contra o zagueiro, a fim de defender o torcedor. O Bozó já tinha sumido e ele precisou encarar os dois sozinhos. Ao chegar no vestiário grená, meio chorando, meio que sorrindo ele esbravejou. "Me deixaram sozinho, mas eu sou o cabra macho" .

Apesar da fama de violento, Pinheirense garantia que também sabia sair jogando com a bola dominada. Trabalhou com grandes técnicos, como Sérgio Clérice, Bazzani, Pepe, Zé Duarte e Roberto Brida, entre outros.

Desde 2000 que Pinheirense estava mal e vivendo em cadeira de rodas em razão de ter sido vítima de tentativa de homicídio, efetuada pelo marido de uma ex-namorada no bairro de Pirituba, na capital paulista. Ele vivia da aposentadoria de um salário mínimo que tinha, e fez muitos eventos com os amigos que muito o auxiliavam.

Pinheirense nasceu na cidade de Pinheiros, no interior do Maranhão, no dia 4 de novembro de 1956. Era filho de Pinheiro, um dos maiores “xerifes” da história do Sport e faleceu aos 53 anos de idade, em Recife, onde morava, no dia 22 de agosto de 2009, vítima de uma infecção generalizada, decorrente dos tiros recebidos anos atrás. O jogador foi sepultado no Cemitério Santo Amaro, na capital pernambucana e deixou um único filho. (Pesquisa: Nilo Dias)

Pinheirense disputou com Daison Pontes, a condição de zagueiro mais violento do futebol brasileiro.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O centenário do F.C. Santa Cruz

O F.C. Santa Cruz, da cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul, completou 100 anos de atividades no último dia 26 de março. O clube foi idealizado em 1913 por um grupo de jovens liderados por André Klarmann. A reunião que definiu a fundação do clube aconteceu no Hotel Schmidt, no centro da cidade.

O primeiro jogo do novo time ocorreu no dia 3 de abril, contra o Clube Concórdia, também da cidade de Santa Cruz do Sul. O resultado não consta nos registros do clube. O local do jogo foi o campo de várzea, que se localizava onde hoje se encontra o Estádio Municipal, junto ao Parque da Oktoberfest.

Em julho de 1913, o clube realizou sua primeira partida fora de Santa Cruz do Sul. O confronto foi em Candelária, contra uma equipe local. A delegação viajou em carroças, deslocando-se no sábado à tarde para a cidade vizinha, onde pernoitou num hotel e no outro dia aconteceu o jogo. À noite, os jogadores participaram de um baile e regressaram somente na segunda-feira.

Nos anos que se seguiram foram muitos jogos contra equipes amadoras. Entre as décadas de 20 e 30 o time já participava de campeonatos estaduais, nas fases regionais. Na década de 20, quando deixou de jogar na várzea para ocupar sua casa própria, venceu o maior rival da época, o Grêmio Esportivo Santa Cruz, por 2 X 0, quando ganhou o apelido de “Galo Carijó”, ou “Esporão de Ouro”, como canta seu hino. Com direito a passeata com carros enfeitados com ramos de bambu e chuchus pendurados.

Nos anos de1932 e 1933, fez boas campanhas, sagrando-se vice-campeão do interior, perdendo o título para o Pelotas que venceu por 5 X 2, em jogo realizado no antigo estágio do Grêmio, em Porto Alegre. Em 1930, aderiu ao profissionalismo e dois anos depois, chegou a ser vice-campeão do interior. Naquele tempo a torcida era um show à parte. Chegava ao estádio em passeata, com uma banda de música. Havia torcida organizada de senhoras, com fardamento e tudo, e um bloco dos homens.

Na década de 60 o Santa Cruz começou a disputar os certames organizados pela Federação Gaúcha de Futebol, que envolviam equipes regionais. Entre 1974 e 1978, os dois times da cidade – Santa Cruz e Avenida – fizeram uma fusão, quando foi criada a Associação Santa Cruz de Futebol.

A fusão até que deu bom resultado. Orientado pelo técnico Daltro Menezes, o time conseguiu classificar-se entre os quatro melhores do Estado. Mas a fusão acabou quando aconteceu a briga provocada por dirigentes do antigo Avenida, insatisfeitos pela divulgação do clube como Santa Cruz, em vez de Associação Santa Cruz. Por isso o Avenida deixou a fusão, voltando a ter vida própria.

As boas campanhas do Santa Cruz seguiram até a metade da década de 1990. Até que em 1995 conheceu o rebaixamento para a Segunda Divisão, após enfrentar grave crise financeira. Em 1997 o clube retornou a elite do futebol gaúcho.

Mas foi em 1999 que o Santa Cruz buscou a modernização. Contratou um grupo de bons jogadores e voltou a realizar boas campanhas, tendo nessa época deixado de ganhar o título do interior, que foi perdido dentro de casa. Para ajudar nas finanças, o clube inaugurou um Posto de Gasolina junto ao Estádio dos Plátanos, a casa própria do clube.

Em 1934 o Estádio dos Plátanos era muito diferente do que é hoje, quando tem capacidade para receber 6 mil torcedores. Foi a época em que o jogador encruzilhadense Dario dos Santos, o “Caco Véio”, recém-casado com Dona Alzira, foi contratado para cuidar do estádio e morar lá, em um chalezinho. A área se estendia até o Expresso Albatroz. Dario jogava no time desde os 16 anos e entre os treinos cuidava dos fardamentos listrados de preto e branco e da copa de salgados que mantinha. Mais tarde se tornou treinador da equipe, totalizando 23 anos no clube.

Os netos de Dario Santos também fizeram história dentro do Santa Cruz e fora dele: Paulo Spall, já falecido foi jogador do clube. O irmão Luiz Fernando Spall, foi presidente da Associação de Árbitros de Santa Cruz e o primo Carlos Spall, jogador de Futsal. E o bisneto Luiz Carlos Walter Jr, infanto-juvenil do Internacional.

O atual grande rival do Santa Cruz, o Avenida, surgiu em 1947. No primeiro clássico disputado, houve empate em 2 X 2. A rivalidade já se fez presente de cara, pois houve uma pancadaria generalizada, pois o campo não tinha alambrado, o que facilitava a invasão deste. A velha rivalidade com o Avenida continua até hoje. Mas no passado, chegava a fechar o Quiosque e o Bar Polo Sul, em dia de jogo, para evitar confrontos das torcidas.

No primeiro clássico Ave-Cruz defenderam o Santa Cruz os jogadores: Julio – Ormond - Lindolfo Gerhardt – Cafuringa – Felicíssimo – Joãozinho – Fogareiro – Hanny – Mico - Dario Santos e Helio Almeida, que retornara à cidade em 1942, para jogar nos juvenis do clube. Depois passou para o time de cima, onde jogou até ser eleito presidente, cargo que ocupou por seis gestões intercaladas, até 1995.

Almeida acompanhou as muitas fases do Santa Cruz, inclusive quando da fusão na década de 70. Em 1952, ano em que assumiu pela primeira vez a presidência , o time foi vice- campeão do Interior, perdendo o título para o Sá Vianna, de Uruguaiana que sagrou-se campeão. O time do Santa Cruz contava nessa época com bons valores, como Amaro, Joãozinho, Paraguai, Paulo Cesar Tatu, Cuca, Calixto, Maninho, Betinho e Moacir. A melhor colocação do clube no Campeonato Gaúcho foi um quarto lugar em 1988.

Já vestiram a camisa alvinegra nomes como Betinho, Eduardo Heuser, Palito, Moa, Gabriel Porto, Everaldo, os selecionáveis paraguaios Sanabria e Sotelo, a dupla de atacantes Rogerinho e Paulo Roberto, além de Cuca, atual técnico do Atlético-MG, que jogou no clube na década de 1980. O F.C. Santa Cruz é atualmente presido por Léo Schqingel.

Títulos conquistados: Vice-Campeonato Gaúcho da 2ª Divisão (1952, 1983 e 1997); Campeonato Citadino de Santa Cruz do Sul (1947, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952 e 1953); Campanhas de destaque no Campeonato Gaúcho ( 3º lugar em 1932 e 1959); Copa Centenário do Santa Cruz, disputada este ano, contra o maior rival, o Avenida. Depois de perder por 2 X 1 nos Eucaliptos, o Santa Cruz devolveu o placar nos Plátanos e venceu nos pênaltis. Artilheiros: Valduino, em 1983, com 10 gols no Campeonato Gaúcho da Série B.

O Santa Cruz, que desde 1997 se encontrava na elite do futebol gaúcho, não conseguiu escapar da “praga” que persegue os clubes de futebol nos anos de seus centenários e foi rebaixado no Campeonato Gaúcho, e terá que disputar a Divisão de Ascenso, o ano que vem. Torcedores, dirigentes e profissionais lamentaram a queda do clube justamente num ano que deveria ser só de comemorações. O Santa Cruz fez neste ano uma de suas piores campanhas, com cinco vitórias, um empate e 9 derrotas, em 15 partidas e o 14º lugar na classificação geral. (Pesquisa: Nilo Dias)

Na foto de 1914 um dos primeiros registros fotográficos do Futebol Clube Santa Cruz. (Foto: Acervo fotográfico do F.C. Santa Cruz)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O folclórico “Marcha-ré”

O ex-árbitro Antônio Gomes de Oliveira, o “Marcha-ré”, foi um personagem folclórico do futebol de Minas Gerais. Ele apitava desde a inauguração do “Mineirão”, em 1965. Depois de largar o apito trabalhou como delegado de pista. Com o fechamento do “Mineirão” para a Copa, ele passou a se dedicar aos projetos pessoais. Era torcedor do Villa Nova, de Nova Lima.

O ex-árbitro recebeu esse apelido porque gostava de correr de costas para acompanhar as jogadas de perto. O filho de Antônio Gomes conta que ele tinha facilidade de correr dessa maneira.

Personagem de muitos casos folclóricos no futebol, “Marcha-ré” gostava de contar para a família sobre uma briga em Uberlândia, envolvendo Edmundo, à época no Flamengo, e Zandoná, defensor do Vélez.

“Meu pai adorava contar o dia em que ele entrou no campo do “Parque do Sabiá” para separar a briga do Edmundo. O vídeo saiu na Internet e ele disse que a confusão poderia ter sido pior”, disse Danilo.

“Marcha-ré” faleceu no dia 27 de julho do ano passado, em consequência de problemas no coração e nos rins. Ele havia completado 80 anos em abril e dedicou 30 deles à arbitragem. (Pesquisa: Nilo Dias)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Bola tingida de sangue

Nestor Pedroso, o “Fruto”, nasceu em Dom Pedrito, no ano de 1903, mas só começou a se dedicar ao futebol em 1918. Naquela época existia em Dom Pedrito o E.C. 15 de Novembro, fundado pelo doutor Oscar Fontoura, então jogador do E.C. Cruzeiro, que mais tarde foi eleito deputado estadual e membro do secretariado do Governo do Estado. O craque Fontoura passava as suas férias na cidade natal e não querendo perder a forma e nem o contato com a bola fundou o clube.

“Fruto” fazia sucesso e ganhava fama nas “peladas”. Seria um grande elemento para o 15 de Novembro. Apareceram logo associados interessados em aproveitar o seu concurso. Mas não foi nada fácil ingressar no 15, que era um clube de brancos. Foi preciso uma reunião de Assembléia Geral para Fruto ser aceito no quadro.

No 15 ficou dois anos, era um futebol pobre, de amadores. Depois foi aconselhado a ir para Bagé, onde teria maiores possibilidades de desenvolvimento. Aceitando a sugestão partiu para a “Rainha da Fronteira”, onde estreou pelo Guarany, em 1921, sempre na posição de centromédio.

No fim do campeonato de 1921 aconteceu com “Fruto” uma coisa muito desagradável. Faltavam dois minutos para terminar uma partida e os dois adversários estavam em condições de igualdade no marcador. Nisso uma bola passou por ele. O goleiro pensando que Fruto interromperia a passagem da bola, parou. Foi gol. A torcida do Guarany pensou que ele havia se vendido por dinheiro. Foi um abalo muito grande que sofreu. Naquela época nem se ouvia falar em suborno.

Aborrecido, “Fruto” deixou Bagé e foi para Rio Grande, disposto a nunca mais ouvir falar em futebol. Passeou uns dois anos sem jogar. Mas como trabalhava na Padaria Bento, atendendo à insistência de amigos, resolveu atuar pelo E.C. Padeiral, que congregava a classe dos padeiros.

“Fruto”, pelas suas qualidades de jogador e pela ascendência que possuía sobre os seus companheiros, passou a ser a figura máxima do clube, dentro e fora dos gramados. No Padeiral era chamado de “governador”.

Um sério conflito no qual foi assassinado um torcedor do clube dos padeiros, fez com que se pensasse na mudança de denominação do Padeiral, nome este que fazia recordar aquele acontecimento sangrento. “Fruto” foi contra, mas a maioria decidiu trocar o nome do clube para Americano, isso em 1927. Ele aproveitou a oportunidade e junto de Carruíra e outros jogadores ingressou no S.C. Rio Grande, que sempre foi o seu clube de coração.

Em 1929 foi para o Brasil, de Pelotas, onde atuou até 1934, ano em que foi para o Flamengo, do Rio de Janeiro. A torcida do Brasil sentiu imensamente a saída de seu grande jogador e lhe ofertou um retrato com os dizeres: “Por baixo as vezes passa, por cima nunca”.

No Flamengo, “Fruto” teve a má sorte de encontrar Flávio Costa, que era o centromédio do clube rubro-negro carioca. Mas já estava passando da idade, quando Fruto chegou. O dirigente Bastos Padilha então disse-lhe: “Flávio, o gaúcho a partir de hoje vai ocupar o seu lugar. Você nos prestará mais serviços cuidando do time como técnico”.

Foi a desgraça de “Fruto”. Flávio passou a persegui-lo de todos os modos, bem como antigos companheiros de time, a quem ele não apreciava. O treinador fazia “Fruto” treinar de zagueiro para jogar de centromédio. Quando reclamava treinava de centromédio e jogava como zagueiro. Um inferno. Por fim não suportou mais. Resolveu voltar para o Sul. Os diretores do Flamengo, todavia, queriam impedir a sua saída. Argumentaram, discutiram, mas “Fruto” não cedeu.

Chegaram ao ponto de desconfiar que era a sua esposa que estivesse influindo na decisão. Uma comitiva de dirigentes flamenguistas foi até a casa do jogador, numa hora em que ele se encontrava ausente, para saber da mulher se estava faltando alguma coisa em casa. Ela de pronto respondeu que estava tudo bem.

Ao saber da visita, “Fruto” disse que nunca na vida havia passado tão bem. Recebera de luvas Cr$ 5.000.00 de luvas, uma verdadeira fortuna para a época e ganhava um salário de Cr$ 800.00 por mês, mais casa e luz. Mas o certo é que seu desejo era ir embora.

Em 1935 estava de volta ao Brasil, de Pelotas, onde ficou por apenas um ano. Em 1936 foi para o S.C. Rio Grande, onde se sagrou campeão municipal por antecipação, o que lhe garantiu o direito de disputar o estadual.

Em novembro e dezembro, o Rio Grande enfrentou o Grêmio Atlético 9º R.I., de Pelotas, em dois jogos, realizados em Rio Grande e Pelotas. Tendo vencido ambos os confrontos, o tricolor riograndino se classificou para enfrentar em Porto Alegre ao E.C. Novo Hamburgo, depois Floriano e hoje novamente E.C. Novo Hamburgo, a quem venceu por 5 X 2.

Estava o Rio Grande habilitado a decidir o título frente o Sport Club Internacional, de Porto Alegre. A final seria disputada em dois ou três jogos, todos marcados para o campo do Força e Luz, na capital gaúcha. O primeiro deles foi realizada no dia 17 de janeiro de 1937 e o S. C. Rio Grande venceu pelo placar de 3 X 2, com gols de Souza, Pecce e Ernestino. Os gols do Internacional foram marcados por Salvador e Sílvio.

O S. C. Rio Grande jogou com: Munheco – Fruto e Cazuza – Juvêncio – Chinês e Roberto - Ernestinho – Darinho – Souza (Carruíra) - Marzol e Pecce.

A segunda partida foi novamente vencida pelo Rio Grande, pelo placar de 2 X 0, sagrando-se Campeão Gaúcho. A escalação do Rio Grande foi a seguinte: Munheco - Cazuza e Juvêncio – Chinês – Sanguinha e Roberto – Ernestinho - Carruíra (Caringi) – Souza - Marzol e Pecce.

Na volta para Rio Grande, os jogadores foram recebidos com muita festa, tendo inclusive desfilado pelo centro da cidade em automóveis conversíveis.

Como lembrança dessa competição memorável, o S.C. Rio Grande guarda em sua sede a bola do jogo e a camiseta de “Fruto”, ambas manchadas de sangue. Tudo aconteceu quando “Fruto” pulou junto do jogador Salvador, do internacional, cabeceando a bola e o adversário. O choque foi tão violento que Salvador chegou a gritar: “Ô mãeeee” e foi de imediato levado de ambulância para um hospital. “Fruto”, mais resistente, continuou em campo, molhado de sangue.

Também a bola no final do jogo, se apresentava com os gomos pintados de vermelho. O pessoal do S.C. Rio Grande a guardam na sede, como exemplo de uma dedicação de atleta superior aos próprios sofrimentos físicos. Na época a bola era arrematada por fora, e recebia o nome de tento. Era uma costura de couro crú, e quem tinha a coragem de cabeceá-la, muitas vezes saia com um ferimento na cabeça.

Em 1936, o selecionado gaúcho eliminou o onze carioca, no Campeonato Brasileiro de Seleções, por isso teve tempo e aceitou jogar um amistoso em Rio Grande, frente o S.C. Rio Grande.

“Fruto” começou o jogo como zagueiro, mas minutos depois trocou de posição, com Chinês (pai de Chinesinho), passando para o centro da intermediária, pois na sua visão aquele setor da equipe não estava bem. Com isso, a linha atacante carioca, composta por Orlando, Leônidas, Carvalho Leite, Feitiço e Patesko, ficou paralisada.

Ao final do jogo, Feitiço, num lance desleal tirou “Fruto” do gramado. Terminada a partida com o placar igual em 2 x 2, “Fruto” lamentou que sua equipe não tivesse marcado o terceiro gol num pênalti. Devido o técnico carioca ter reclamado muito, “Fruto”, que era o capitão do time, ordenou que a falta fosse batida ostensivamente para fora. Pênalti, na época dele era considerado covardia, pois o goleiro não podia se mexer. Geralmente era batido para fora, só convertiam, se esse gol estivesse fazendo falta.

Na opinião de “Fruto”, esse foi o melhor time que o S.C. Rio Grande montou em toda a sua história de quase 113 anos. “Fruto” jogou no Rio Grande até 1943, atuando como zagueiro e centromédio.

A maior emoção de sua vida teve-a em 1936, quando na campanha vitoriosa do Estadual, o Rio Grande derrotou o então poderoso esquadrão do 9º RCB, atual Farroupilha, de Pelotas, que tinha em seu plantel jogadores altamente categorizados, como Cardeal, Cerrito, Selistre, Brandão e outros.

Os maiores jogadores que conheceu foram Luiz Carvalho, em Porto Alegre, Mário Reis, em Pelotas, o uruguaio Greco, em Bagé, Carruíra, em Rio Grande e Juvenal de Brito, em São Paulo.

“Fruto” foi sempre um jogador firme, mas leal, que geralmente levava vantagem pelo porte físico avantajado que possuía. Mal encostava e o adversário já caia. Ele e o atacante Luiz Carvalho, que também era muito forte, proporcionaram grandes duelos, mas nunca houve lesões nessas disputas entre eles.

Um filho de “Fruto”, que também levava o seu apelido, chegou a jogar nos aspirantes do S.C. Rio Grande. Outros clubes tentaram contratá-lo, mas o pai nunca deixou. E explicava porque: “Ou joga no Rio Grande ou não joga em ninguém mais”.

O grande jogador é até hoje lembrado em Rio Grande, onde virou nome de rua. Na Vila Maria José, existe a rua Nestor Pedroso. (Pesquisa: Nilo Dias)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O "Leão" pernambucano

Como e porque o “Leão” é o símbolo do Sport, tradicional clube do futebol pernambucano? Ginanildo Alves conta isso em detalhes nio seu livro “História do Futebol em Pernambuco”. Em 1919 o Sport promoveu uma excursão até Belém do Pará, para vários jogos contra equipes daquele Estado. Era a primeira vez que um clube de Pernambuco era protagonista de uma longa viagem fora do Estado.

Para isso o time foi reforçado com Bermudes, do América, e Lelis, do Flamengo, este incluído na delegação rubro-negra sem que seu clube tivesse autorizado. Por outro lado, o Sport conseguiu junto ao Santa Cruz permissão para levar Alcindo Wanderley, o célebre Pitota, considerado o primeiro grande ídolo do futebol pernambucano.

Só que ele viajaria como árbitro, não como jogador. Era comum naqueles tempos, jogadores apitarem. Fazia parte da rotina do futebol. Em três jogos dos rubro-negros em Belém, Pitota empunhou o apito, mas pelo menos em um, vestiu a camisa do Sport..


O time pernambucano saiu de Recife no dia 12 de março, a bordo do navio “Olinda”, tendo como chefe da delegação o desportista Hybernon Wanderley. Mais o secretário-geral, José Luiz da Silveira Barros, e os jogadores Mário Franco, Afonso Alarcon, Arlindo Lelis, José Bermudes, Antonio Mazullo, João Batista, Aníbal Madeira, Pedro Mazullo, Nestor Cruz, Luciano Pereira, Alcindo Wanderley, Mário Mattos, Henrique Adour, Ruy Gouveia, Carlos Wanderley e Rodrigo Carneiro.
O primeiro jogo do Sport em gramados paraenses foi no dia 23 de março, quando empatou em 3 X 3 com o Combinado Remo-Paysandu. No dia 27 enfrentou e venceu o Selecionado Paraense por 3 X 2, ganhando o "Troféu Lão do Norte". Nesse jogo o Sport mandou a campo: Mário Franco - Alarcon e Antônio Mazullo - Nestor Cruz - Bermudes e Lelys - Baptista - Pitota - Annibal - Ruy e Luciano Pereira.

No dia 30 perdeu de 4 X 0 para o Paysandu, mas se reabilitou no dia 3 de abril, derrotando mais uma vez o combinado Remo-Paysandu, desta vez por 2 X 1.

Na despedida, o onze pernambucano perdeu para o Remo por 1 X 0. A excursão foi considerada um sucesso, pois nos cinco jogos disputados venceu dois,empatou um e perdeu duas vezes.

A viagem de volta foi feita no navio “Rio Negro”, que atracou no cais do porto de Recife no dia 14 de abril. No portaló do vapor, vaidoso e sorridente, o chefe da delegação, Hybernon Wanderley, mostrava aos torcedores que recepcionaram o time, o enorme e rico troféu, denominado “Leão do Norte”, conquistado na partida contra a Seleção do Pará.

O bronze, até hoje guardado com carinho no Museu do Sport, é trabalho de um escultor francês, e representa um gladiador dominando um leão. O troféu está um tanto danificado, devido um incidente ocorrido momentos antes de o Sport regressar ao Recife.

A revista “Rubro-Negro”, edição de outubro de 1951, publicou matéria sobre o assunto que diz:

“O fato mais curioso da história do bronze ”Leão do Norte” está ligado à sua conquista. Os clubes do Pará tinham a certeza de que o bronze ficaria em Belém, por isso ostentava a legenda: “O caboclo paraense domina o Leão do Norte”.

Mas, tal não se deu e, como o Sport o conquistara, recusaram entregar-lhe o brinde, sendo necessário o presidente da embaixada rubro-negra ir à Polícia para reclamar direitos líquidos do clube pernambucano, para que o bronze fosse entregue a seus conquistadores. Foi o bronze levado para o vapor e lá deixado em exposição, quando apareceu um torcedor local que o mutilou, num protesto mudo porque o bronze não ficara no Pará”.

Cerca de 30 automóveis saíram do porto para o Cais José Mariano, sede do Sport, passando antes pelas principais ruas da cidade, onde o povo nas calçadas aplaudia os jogadores. O cortejo foi precedido pela banda de música da Escola Correcional do Recife, vindo logo em seguida um carro “Overland”, no qual iam, acenando para a multidão, Hybernon Wanderley, Carlos Médicis e Armando Loyo. À noite, no Restaurante Leite, a diretoria do Sport ofereceu um banquete aos jogadores e convidados especiais.

O memorável feito dos jogadores rubro-negros foi eternizado pouco tempo depois, com a adoção do "Leão" como símbolo do clube. (Pesquisa: Nilo Dias)

O troféu que originou a adoção do "Leão", como símbolo do clube.

terça-feira, 26 de março de 2013

O OPERADOR DO BLOG ESTARÁ VIAJANDO DE 27 DE MARÇO A 1 DE ABRIL. AS POSTAGENS VOLTARÃO A SER PUBLICADAS A PARTIR DE 2 DE ABRIL.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Tragédia nos Andes

Em 1970 o time do “Old Christian Club”, que era integrado na maioria por ex-alunos do Colégio Stella Maris conquistou pela segunda vez o título de campeão uruguaio de rugby, um esporte que começava a ganhar popularidade no país. Foi assim que em 1971 acertaram uma excursão até Santiago do Chile, para dois jogos contra uma equipe chilena.

Como um voo comercial sairia bastante caro, foi contratado um avião turbo-hélice da “Fuerza Aérea Uruguaya”. Havia, porém, alguns obstáculos, que quase cancelaram a viagem. Um deles era conseguir lotação para o voo, mas isso foi superado com a venda de lugares para familiares dos jogadores e torcedores do time.

As 8h05min da manhã de 12 de outubro de 1972 o “Fairchild F-227”, levantou voo do Aeroporto de Carrasco, em Montevidéu, em direção da capital chilena. No avião viajavam cinco tripulantes e 40 passageiros, na maioria jovens com a idade média de 20 anos.

Ao sobrevoarem os Andes, as condições climáticas não eras boas, por isso tiveram que fazer um pouso forçado em Mendoza, província da Argentina, onde passaram a noite. No dia seguinte retomaram a viagem rumo a Santiago.

Depois de retomar o voo na tarde de 13 de Outubro, o avião voava em breve através da passagem nas montanhas. O piloto notificou os controladores aéreos de Santiago de que estava sobre Curicó, Chile, e foi autorizado a descer. Isso viria a ser um erro fatal. Visto que a passagem estava encoberta pelas nuvens, os pilotos tiveram que se fiar segundo o tempo normalmente necessário para atravessar a passagem (Navegação estimada).

No entanto, eles erraram ao não levarem em consideração os fortes ventos de proa que em última análise, retardaram o avião aumentando o tempo necessário para completar a travessia. Eles não foram tão longe como pensavam que estavam. Como resultado, a curva e descida foram iniciados muito cedo, antes que o avião tivesse passado através das montanhas, levando a um voo controlado contra o solo.

Mergulhando na cobertura de nuvens enquanto ainda sobre as montanhas, o Fairchild logo caiu num pico sem nome (mais tarde chamado “Cerro Seler”), também conhecido como “Glaciar de las Lágrimas”, localizado entre “Cerro Sosneado” e “Tinguiririca Volcán”, abrangendo a remota fronteira montanhosa entre o Chile e a Argentina. Na realidade, o avião havia caído sobre a Argentina, a apenas 18 quilômetros a oeste de um hotel abandonado chamado de Hotel Termas Sosneado.

O avião acertou um pico a 4.200 metros (13.800 pés), simplesmente separando a asa direita, que foi jogada para trás com tanta força que cortou o estabilizador vertical, deixando um buraco na parte traseira da fuselagem. O avião então acertou um segundo pico, que separou a asa esquerda e deixou o avião com apenas a fuselagem voando pelo ar. Uma das hélices cortou a fuselagem conforme a asa a que estava fixada foi separada.

A fuselagem bateu no chão e deslizou por uma encosta íngreme da montanha antes de finalmente chegar a descansar num banco de neve. A localização do local do acidente é 34° 45′ S 70° 17′ W), no município argentino de Malargüe (Departamento de Malargüe, Província de Mendoza).

Das 45 pessoas a bordo, 12 morreram na queda ou pouco depois, incluindo o piloto. Outros cinco morreram na manhã seguinte, entre eles o cô-piloto, e mais uma sucumbiu aos ferimentos no oitavo dia. Os 27 restantes enfrentaram sérias dificuldades em sobreviver ao congelamento no alto das montanhas. Muitos tinham sofrido ferimentos do acidente, incluindo as pernas quebradas nos assentos da aeronave empilhados juntos.

Os sobreviventes não tinham equipamentos, tais como roupas para o frio e calçados de montanhismo, adequados para a área, óculos de proteção para prevenir cegueira da neve (embora um dos eventuais sobreviventes, de 24 anos de idade, Adolfo "Fito" Strauch, inventou um par de óculos de sol usando o ”pára-sóis” da cabine do piloto que ajudou a proteger seus olhos do sol). Mais gravemente, eles não tinham qualquer tipo de material médico, e a morte do Dr. Francisco Nicola piorou tudo.

Ao chegar a noite se acomodavam uns ao lado dos outros, para espantar o frio e dormirem. Nessa situação passariam dois longos meses no alto da montanha gelada, praticamente sem alimentos, usando um abrigo inadequado. Em que pese tudo isso, 16 homens conseguiram sobreviver.

Ao redor de onde o avião caiu tudo era neve. As temperaturas eram extremamente baixas. Tinham apenas um pouco de comida: um garrafão de vinho, marmelada, barras de chocolate e poucos agasalhos. Mesmo preocupados com a gravidade da situação, estavam animados pela possibilidade do resgate os encontrar em pouco tempo. Nos dias seguintes racionaram as poucas provisões que tinham.

Durante os primeiros dias era dado a cada um uma tampa de desodorante com vinho, uma colher de marmelada e um tablete de chocolate, conforme contou Carlos Páez, um dos sobreviventes. Os grupos de busca de três países procuraram o avião desaparecido. No entanto, uma vez que o avião era em branco, ele se misturou com a neve, tornando-se praticamente invisível do céu.

A busca inicial foi cancelada depois de oito dias. Os sobreviventes do acidente tinham encontrado um pequeno rádio transistor no avião, e Roy Harley primeiramente ouviu a notícia de que a busca foi cancelada em seu décimo primeiro dia na montanha. A partir daí só poderiam se salvar por seus próprios meios.

As pessoas que se agruparam em torno de Roy, ao ouvir a notícia, começaram a chorar e orar, todos, exceto Parrado, que olhou calmamente para as montanhas. Gustavo [Coco] Nicolich subiu pelo buraco na parede de malas e camisas de rugby, agachando na boca do túnel escuro, olhou para os rostos tristes que estavam voltados para ele. “Ei meninos”, ele gritou: “há boas notícias! Acabamos de ouvir no rádio. Eles cancelaram as buscas”. Dentro do avião lotado, houve um silêncio. Como a sua situação de desespero os envolveu, eles choraram.

"Por que diabos é uma boa notícia?" Paez gritou com raiva para Nicolich. E este disse: “Porque isso significa que vamos sair daqui por conta própria”. A coragem deste menino impediu uma inundação de total desespero.

Em tais condições trataram de aproveitar ao máximo cada um dos objetos e materiais que tinham ao alcance. Uma das primeiras necessidades era conseguir água. Com pedaços de metal dos assentos, arrancavam pedaços de gelo e esperavam que o sol os derretesse, com o uso de improvisadas lentes, feitas com vidro das janelas do avião. Assim, para cada dificuldade criavam uma solução.

Eles tentaram comer tiras de couro rasgado das peças de bagagem, embora soubessem que os produtos químicos com que tinham sido tratados, fariam mais mal do que bem. Rasgaram almofadas de assento na esperança de encontrar palha, mas encontraram apenas espuma do estofamento, não comestível. A menos que comessem as roupas, não havia mais nada além de alumínio, plástico, gelo e rocha.

Com o término dos alimentos, uma decisão difícil foi tomada, comer partes dos corpos dos companheiros mortos, que se encontravam intactos, sepultados na neve. Todos eram católicos. Como se pode imaginar, houve opiniões divergentes. Mas ao final todos se convenceram que não havia outra saída. Com um pedaço de vidro faziam pequenos cortes nos corpos congelados, retirando pedaços de carne para alimentar-se, começando pelo piloto

Estavam á 15 dias na montanha, quando receberam um novo golpe. No meio da noite uma avalanche de neve cobriu grande parte do interior da estrutura do avião, onde se protegiam, sepultando a todos, exceto um, que se levantou correndo. Com as mãos começou a buscar os companheiros entre a neve. Os que eram resgatados ajudavam na busca aos outros. Mas nem todos puderam ser salvos, outros oito perderam a vida.

O tempo passava, era preciso encontrar alternativas para poderem sair dali. Tentaram pedir ajuda pelo rádio do avião.Três homens saíram pelo gelo e acharam a cauda do aparelho, onde havia malas contendo cigarros, doces, roupas limpas e algumas revistas em quadrinhos, além das baterias de energia. Mas não foi possível acionar o rádio. Só restava, então, viajar pelo gelo em busca de ajuda, o que só seria possível com o fim do inverno.

Inicialmente pensaram em que três homens fizessem a viagem. Mas depois, prevendo que poderia faltar alimento, apenas dois se lançaram a aventura, Fernando Parrado e Roberto Canessa. Com um saco de dormir, um pouco de rum, alguns pedaços de carne humana deram início a viagem. Depois de nove dias e de caminharem mais de 70 quilômetros na neve e atravessado um pico de 5.100 metros de altitude, sentiram que começavam a viver de novo. Os dois chegaram ao leito do rio Azufre, o que dava certeza que encontrariam gente por perto.

E não deu outra coisa, quando Parrado estava recolhendo madeira para fazer uma fogueira, Canessa percebeu o que parecia ser um homem a cavalo do outro lado do rio. Como o ruído da água não permitia a comunicação, o homem jogou uma pedra com um papel atado, onde perguntava quem eram e o que queriam. Com a resposta de que eram sobreviventes de um avião que caiu na cordilheira dos Andes, o homem, um chileno Huaso chamado Sergio Catalan, foi em busca de ajuda, mas sem antes deixar-lhes uns panos que carregava e um pouco de comida.

Catalan andou a cavalo por muitas horas em sentido Oeste para trazer ajuda. Durante a viagem ele viu outro huaso no lado sul do rio Azufre e pediu-lhe para alcançar os meninos e para trazê-los para Los Maitenes. Em vez disso, ele seguiu o rio até o cruzamento com o rio Tinguiririca, onde, depois de passar uma ponte, ele foi capaz de chegar a um percurso estreito que ligava a vila de Puente Negro para a estância de férias de Termas del Flaco.

Ali ele foi capaz de parar um caminhão e chegar à estação de Polícia, em Puente Negro, onde a notícia foi finalmente enviada para o comando do Exército em San Fernando e depois para Santiago. Enquanto isso, Parrado e Canessa foram resgatados e chegaram a Los Maitenes, onde foram alimentados e deixados em repouso.

Na manhã seguinte, a expedição de resgate deixou Santiago, e após uma parada em San Fernando, mudou-se para leste. Dois helicópteros tiveram que voar no meio do nevoeiro, mas chegou a um lugar perto de Los Maitenes apenas quando Parrado e Canessa passavam a cavalo, indo para Puente Negro. Nando Parrado foi recrutado para voar de volta para a montanha a fim de orientar os helicópteros para o restante dos sobreviventes.

A notícia de que as pessoas tinham sobrevivido ao acidente de 13 de outubro de Voo da Força Aérea Uruguaia 571 também tinha vazado para a imprensa internacional e uma avalanche de repórteres começaram a aparecer ao longo da rota estreita de Puente Negro para Termas del Flaco. Os repórteres esperavam ser capaz de ver e entrevistar Parrado e Canessa sobre o acidente e nos dias seguintes.

Na manhã do dia em que o resgate começou, aqueles que permanecem no local do acidente ouviram em seu rádio que Parrado e Canessa tinham sido bem sucedidos em encontrar ajuda e naquela tarde de 22 de dezembro de 1972, dois helicópteros carregando escaladores de busca e resgate chegaram.

Dessa maneira os demais sobreviventes foram retirados da montanha de gelo. O último deles foi resgatado em 23 de Dezembro de 1972, mais de dois meses após o acidente. Poucas pessoas ainda acreditavam que alguém pudesse ter sobrevivido em situações tão adversas.No total foram 16 sobreviventes. Todos os sobreviventes foram levados para hospitais em Santiago e tratados para a doença de altura, desidratação, queimaduras, geladuras, ossos quebrados, escorbuto e desnutrição.

Em agosto do ano seguinte um grupo de mães, cujos filhos faleceram no acidente dos Andes, fundaram a biblioteca “Nuestros Hijos”, para manter viva a recordação dos que não voltaram da tragédia acontecida em 13 de outubro de 1972.

A história da fantástica tragédia dos Andes foi contada em três filmes, sendo “I viven” (Alive), de 1993, o mais conhecido. Também foram escritos vários livros e alguns documentos. Em todos são mostrados testemunhos que relatam o esforços daqueles que lutaram para sobreviver em meio de um lugar sem vida, mesmo com todos os fatores contrários a essas vontades.

Estavam no avião. Tripulação: Colonel Julio Ferradas, piloto; Lieutenant Colonel Dante Lagurara, co-piloto; Lieutenant Ramon Martínez; Corporal Carlos Roque; Corporal Ovidio Joaquin Ramírez. Passageiros: Francisco Abal, Jose Pedro Algorta, Roberto Canessa, Gaston Costemalle, Alfredo Delgado, Rafael Echavarren, Daniel Fernández, Roberto Francois, Roy Harley, Alexis Hounié, Jose Luis Inciarte, Guido Magri, Alvaro Mangino, Felipe Maquirriain, Graciela Augusto Gumila de Mariani, Julio Martínez-Lamas, Daniel Maspons, Juan Carlos Menéndez, Javier Methol, Liliana Navarro Petraglia de Methol, Dr. Francisco Nicola, Esther Horta Pérez de Nicola, Gustavo Nicolich, Arturo Nogueira, Carlos Páez Rodriguez, Eugenia Dolgay Diedug de Parrado, Fernando Parrado, Susana Parrado, Marcelo Perez, Enrique Platero, Ramón Sabella, Daniel Shaw, Adolfo Strauch, Eduardo Strauch, Diego Storm, Numa Turcatti, Carlos Valeta. Fernando Vázquez Antonio Vizintín e Gustavo Zerbino. (Pesquisa: Nilo Dias)

Os sobreviventes do desastre aéreo comemoram a chegada das equipes de socorro após 72 dias perdidos na Cordilheira do Andes. (Data da foto: 1972. Fotógrafo: desconhecido)