Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Morreu o "homem de aço"

Faleceu na última terça-feira, 23, no Hospital Hélio Angotti, em Uberaba (MG), onde residia, o jogador bi-campeão do mundo (1958 e 1962), Djalma Santos. Seu nome completo era Dejalma dos Santos. Nasceu no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, capital, no dia 27 de fevereiro de 1929. Ele tinha 84 anos e a morte foi decorrência de uma parada cardiorrespiratória, ocasionada por um quadro critico de comprometimento da função renal.

Era o único filho homem do casal Sebastião e Laura. Seu pai era soldado da Força Pública e foi lutar na Revolução Constitucionalista de 32 e não voltou mais. Djalma tinha apenas três anos de idade quando ficou órfão de pai. Enquanto o pai estava em batalha, a mãe, Dona Laura, lutava para que ela e os três filhos não morressem de fome.

Foram dias muito difíceis. Ainda criança escapou da morte por pneumonia. Sua mãe conheceu um carroceiro italiano, de nome Vitor e constituiu uma nova família, indo morar no bairro da “Parada Inglesa”. Mas as coisas mais uma vez correram mal para dona Laura e o padrasto de Djalma acabou morrendo num acidente. Com a morte de Vitor, a família se mudou mais uma vez, indo para uma vila próxima à “Parada Inglesa”.

As dificuldades para a sobrevivência eram enormes e o remédio era se virar como podiam. Durante algum tempo venderam quentão, pipoca e amendoim torrado na porta de um circo. Dona Laura também trabalhou como empregada doméstica, enquanto Djalma pajeava a filha da patroa em troca de gorjetas e comida.

Aos 12 anos Djalma, perdeu a mãe, vítima de câncer. Quem cuidou dele depois disso foi a sua irmã Anésia. Para ajudar nas despesas da casa, foi trabalhar numa fábrica de calçados.

Seu primeiro time foi o do Grupo Escolar da Parada Inglesa, onde estudava quando menino. Não pensava em se tornar jogador de futebol, queria mesmo era ser piloto de avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Mas seu sonho foi por água abaixo, quando quebrou os ossos da mão direita em um acidente na máquina de costura de sapatos. O país perdeu um aviador, mas o futebol ganhou um craque.

Depois jogou no América (ou “Ameriquinha”), time de crianças do bairro. Também atuou pelo Internacional, outro time das redondezas onde morava. Eram os primeiros passos de uma longa e vitoriosa carreira.

Djalma chegou a fazer testes no Ypiranga e no Corinthians. Mas os horários dos treinos eram incompatíveis com o do seu trabalho como sapateiro. Só ficou na Portuguesa porque o patrão concordou que ele trabalhasse à noite, para compensar as horas perdidas no clube. Sua estréia na Lusa foi no dia 16 de agosto de 1948, no jogo em que seu time perdeu para o Santos por 3 X 2.

Graças ao seu extraordinário vigor físico ganhou o apelido de “homem de aço”. Fez história nos três grandes clubes por onde passou: Portuguesa de Desportos, Palmeiras e Atlético Paranaense.

No início, Djalma era chamado apenas de Santos e jogava na Lusa de centro-médio (o volante dos dias atuais). Em agosto de 1949, porém, o clube contratou outro jogador para a posição, Brandãozinho, da Portuguesa Santista, na maior transação da época. E Djalma Santos passou para a posição em que se consagraria definitivamente, a lateral-direita.

Pela Portuguesa, Djalma ganhou os Torneios Rio-São Paulo de 1952 e 1955. Foram 453 jogos entre agosto de 1948 e maio de 1959, quando se transferiu para o Palmeiras, onde jogou por quase 10 anos, tendo vestido a camisa alviverde em 498 oportunidades, sendo o sétimo jogador que mais vezes vestiu a camisa da equipe. Foi o segundo jogador que mais atuou pela Portuguesa em todos os tempos, ficando atrás apenas de Capitão, com 496 partidas.

Pelo Atlético Paranaense, onde encerrou a carreira profissional o lateral jogou até os 42 anos de idade, outra marca pouco comum para jogadores de futebol. No clube paranaense atuou ao lado do zagueiro Bellini, outro bicampeão mundial e do ex-santista Dorval.

Despediu-se do futebol em 21 de janeiro de 1971, prestes a completar 42 anos, em um jogo contra o Grêmio. Teve uma atuação soberba, digna de toda a sua brilhante carreira. Djalma Santos foi eleito para integrar o “Time dos Sonhos” do Atlético Paranaense.

Jogou ainda a tempo de ganhar seu último título estadual (1970) pelo rubro-negro, se tornando posteriormente treinador do próprio Atlético. Depois, Djalma Santos se tornou funcionário da Secretaria de Esportes, Lazer e Turismo de Uberaba, em Minas Gerais, onde coordenou a escolinha de futebol da cidade.

Djalma Santos vestiu a camisa do São Paulo F.C., no dia 9 de novembro de 1960, como convidado nos festejos da inauguração do Estádio do Morumbi, uma semana após a inauguração, na vitória sobre o Nacional, do Uruguai, por 3 X 0, com gols de Canhoteiro e Gino.

O lateral-direito havia sido convidado com Almir Pernambuquinho e Julinho Botelho para fazer parte do time e essa foi a forma encontrada para apresentar o recém-construído Morumbi aos torcedores dos outros clubes da capital paulista. Pelé também havia sido convidado, mas não pode jogar.

Em 1952, ainda como jogador da Portuguesa, Djalma Santos foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira. Naquele ano, disputou o Campeonato Pan-Americano de Futebol, no Chile, no qual o Brasil sagrou-se campeão.

Uma jogada característica dele se tornou bastante popular: a cobrança com força de laterais diretamente para dentro da área. Também foi um dos primeiros laterais brasileiros a apoiar o ataque.

Djalma Santos vestiu a camisa canarinho por longos 16 anos. Disputou quatro “Copas do Mundo”, sendo campeão em duas, 1958 e 1962. Participou de equipes que contavam com monstros sagrados do futebol mundial como Garrincha, Pelé, Vavá, Bellini, Zito como Zito e Nilton Santos.

Em 1954, participou de sua primeira Copa, na Suíça. Foi titular em apenas uma partida na Copa de 1958 - a final, contra os donos da casa, vencida pelo Brasil por 5 X 2 - substituindo De Sordi, que passara mal. O suficiente para ser considerado o melhor jogador da posição.

Na Copa seguinte, Djalma Santos se sagrou bicampeão mundial. Jogou mais uma Copa, a da Inglaterra, em 1966. Pela seleção brasileira, foram 111 apresentações, com 79 vitórias, 16 empates e 16 derrotas, tendo marcado três gols. Foi o primeiro atleta a superar a marca de 100 partidas pelo Brasil.

Ele e Pelé foram os únicos jogadores a iniciarem pelo menos uma partida como titulares da Seleção Brasileira em quatro Copas do Mundo. Djalma Santos e Franz Beckenbauer foram os dois únicos jogadores no mundo a terem sido escolhidos por três vezes consecutivas os melhores jogadores em suas posições em Copas do Mundo.

Graças a exuberância de seu futebol foi escolhido como o melhor lateral do mundo de todos os tempos. Foi o primeiro jogador brasileiro a integrar a seleção da FIFA. Isso aconteceu em 1963, quando se comemorou o centenário da Football Association (FA), a primeira associação de futebol do mundo e cujas regras tornaram-se a base do esporte até os dias atuais. Por isso, a data é considerada como o dia da criação do futebol.

Naquele dia a seleção dos melhores jogadores do mundo, escolhida pela “FIFA World Stars”, enfrentou o “English Team”, no lendário Estádio de Wembley, em Londres. De brasileiros, apenas Pelé e Djalma Santos foram convocados. Pelé machucado, não jogou, apenas Djalma teve tal privilégio.

Ao lado dele “feras” como Ferenc Puskás (Hungria), Alfredo di Stefano (Argentina), Eusébio Ferreira (Portugal), Francesco Gento (Espanha), Josef Masopust (ex-Tchecoslováquia) e o goleiro Lev Yashin (ex-União Soviética).

Outra grata surpresa estava prevista, além de fazer parte da seleção dos melhores jogadores do mundo. Djalma Santos ainda recebeu da FIFA outra grande honraria: fazer parte do rol da “FIFA 100”, uma lista de 123 homens e duas mulheres, considerados os melhores jogadores de futebol vivos na época. Isso aconteceu em 4 de março de 2004, como parte das celebrações do centenário da criação da Federação.

Viúvo de seu primeiro casamento, casou novamente, anos depois. Um fato notável de sua carreira foi o de nunca ter sido expulso de campo, ao longo de 23 anos de carreira e quase 1.600 partidas.

Títulos: Taça Brasil (1960 e 1967); Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1967); Torneio Rio-São Paulo (1952, 1955 e 1965); Campeão Paulista (1959, 1963 e 1966); Campeonato Paranaense (1970); Campeão Pan-Americano pela Seleção Brasileira (1952); Campeão Mundial pela Seleção Brasileira (1958 e 1962). (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 22 de julho de 2013

O folclórico “Bataclan”

Cândido José dos Santos, o “Bataclan” foi uma figura como poucos. Eu cheguei a conhecê-lo nos anos 60, quando de suas visitas a Pelotas e Rio Grande. Lembro bem dele. Era um negro alto e forte, que as vezes andava de calção e camisa regata, correndo pelas ruas das cidades e outras elegantemente vestido de terno branco, camisa social, gravata, cartola e óculos de sombra.

Eu cheguei a entrevistá-lo, nos meus tempos de Rádio Tupancy, de Pelotas. Pena que não tenha guardado a gravação, senão saberia dizer com certeza detalhes da vida desse extraordinário e folclórico personagem. Pelo que sei o pesquisador Marcello Campos, autor de biografias de personagens como Norberto Baldauf e Alcides Gonçalves, estava preparando um livro sobre a história de “Bataclan”. Não sei se essa obra já foi lançada. O certo é que em Porto Alegre existe uma banda chamada “Bataclan F.C.”, que homenageia o atleta.

Talvez nesse livro o autor tire todas as dúvidas sobre a vida de “Bataclan”, um catarinense nascido em 1896, que como um verdadeiro cigano, percorreu o país quase de ponta a ponta. O certo é que ele andou por cidades como Rio de janeiro, Florianópolis e Curitiba antes de vir morar em Porto Alegre, na década de 1940.

Existem dúvidas se ele era realmente um dos membros do grupo teatral carioca “Companhia Negra de Revista”, que atuou apenas nos anos de 1926 e 1927. Ele garantia que isso era verdade. Não demorou para que “Bataclan” se tornasse famoso na cidade. Há quem diga que ele foi o mais querido personagem popular de todos os tempos em Porto Alegre.

De manhã, fizesse frio ou calor, era comum vê-lo correndo pelas ruas da capital, de calção e às vezes descalço. À tarde, exibia a herança dos tempos de teatro: vestindo terno, gravata e cartola. Percorria o centro da Capital propagandeando lojas, bares, bebidas, sabões e colchões, entre muitos outros produtos. Na época era chamado de “reclamista”.

“Bataclan” foi também um grande desportista, admirador do futebol e frequentador assíduo dos estádios. Em dias de jogos, muitas vezes distribuía alimentos para famílias pobres. Era um propagador das vantagens de uma alimentação natural.

Era vegetariano e não fumava, nem bebia. Tanto que viveu até os 94 anos. “Bataclan” faleceu em setembro de 1990, vitima de um derrame cerebral. Seu velório foi realizado no Salão Nobre da Prefeitura de Porto Alegre.

Aos fins de tarde “Bataclan” costumava sentar em um banco da Praça da Alfândega com a Rua da Praia, para descansar depois de um dia cheio de trabalho. Para todos que passavam sempre tinha um sorriso nos lábios. Chamava a atenção dos transeuntes com um aceno, tendo nas mãos um ramalhete de flores.

Ele era uma verdadeira estrela dos reclames de rua. Quase sempre levava consigo um artigo de jornal datado de 1941, em que era citado como “o popularíssimo propagandista verbal, conhecido em várias capitais do país por seus originalíssimos anúncios”.

Nos momentos de descanso e de lazer, “Bataclan” vestia seu tradicional e elegante terno branco enfeitado por um cravo vermelho preso à lapela. Contador de histórias, gostava de conversar e relatar coisas ligadas ao fisiculturismo.

Ele como bom vegetariano dizia que o marinheiro “Popye” adquiria sua força em virtude de uma dieta baseada em espinafres. E afirmava que ele também mantinha um físico atlético impecável, graças a seus hábitos saudáveis. E era verdade. “Bataclan” exibia os privilégios de uma constituição física olímpica praticando o seu coopermatinal pela cidade. E se não foi o primeiro corredor de Porto Alegre, certamente foi o mais ilustre.

“Bataclan” gostava de contar que certa vez correu sem parar para dormir ou descansar, durante quatro dias e três noites seguidos, margeando o Guaíba durante o crepúsculo. Não se sabe ao certo se isso realmente aconteceu, ou era apenas uma das muitas histórias que criava. Dizia ter dado uma centena de voltas no Gigante da Beira-Rio e depois, para não ser injusto, repetira o mesmo feito no Olímpico Monumental da Azenha.

De como ziguezagueara entre os túmulos dos cemitérios da Oscar Pereira orando a Deus pela alma de todos que ali jaziam e acenara de longe para os internos ao passar em frente do São Pedro; falou da cobertura da imprensa local e de como prestara esclarecimentos de seu desaparecimento a policiais que o acompanhavam numa viatura em movimento para que ele não perdesse o ritmo.

Lembrou a multidão que o ovacionara ao cruzar o Parque da Redenção e a bronca que levara da mulher ao chegar em casa. E concluiu dizendo que não se sentira exausto e nem angustiado. (Pesquisa: Nilo Dias)
A elegância de Bataclan contador de histórias. (Foto: Luiz, BD, 22/9/1976)

sábado, 20 de julho de 2013

“Charuto”, o torcedor símbolo

O torcedor símbolo do S.C. Internacional, de Porto Alegre nas décadas de 1930 e 1940, era um negro forte e folclórico que fazia biscates nas docas do caís do porto, na capital gaúcha, onde carregava caixas de frutas, verduras e legumes e guardava chuchus estragados para no domingo lançá-los na torcida gremista.

Todos os torcedores que frequentavam o velho Estádio dos Eucaliptos o conheciam. Andava sempre com roupas puídas e seu estado normal era alcoolizado. Como nunca tinha dinheiro para comprar ingressos em dias de jogos, contava com a ajuda dos porteiros que o mandavam entrar, ou com algum torcedor que lhe pagava o ingresso e de lambuja algumas cervejinhas.

Como estava quase sempre bêbado, em algumas ocasiões era proibido de entrar no estádio. Mas como era malandro, entrava nas arquibancadas de costas, para fingir que estava saindo, ao invés de estar entrando no estádio. Costumava sentar sempre na primeira fila. Nos anos 1940 o Internacional tinha um elenco poderoso, que formou o inesquecível "Rolo Compressor”.

Não raras vezes “Charuto”, já devidamente “calibrado” dormia deitado nas arquibancadas, depois de ter andado de um lado e outro do estádio gritando “Co-ro-ra-do! Co-ro-ra-do!" O curioso é que ele não assistia os jogos, costumava ficar de costas para o gramado.

O hoje escritor e comentarista, Luis Fernando Verissimo, colorado desde criança, lembra muito bem de “Charuto”, um personagem que o fascinou em seus tempos de infância. Ele chegou a lembrar em uma de suas crônicas daquele torcedor único, que foi para ele um exemplo de amor perene e incondicional pelo Internacional.

No dia 7 de dezembro de 1952, houve um Gre-Nal e o Inter venceu por 5 X 1. Entre os milhares de torcedores que lotavam os Eucaliptos, faltava um. Três dias antes da partida, “Charuto” envolveu-se numa briga e foi morto com uma facada nas cercanias do Mercado Público. Morreu assim.

Viveu como pôde, mas foi enterrado como príncipe, quando seu ataúde foi carregado pelos jogadores colorados devidamente fardados. Para aqueles que o conheceram, ainda faz falta. Hoje em dia, quando a “Popular” canta a estrofe "com a cachaça na mão", lembra que lá nos primórdios deste Internacional, tinha um colorado que iniciou tudo isso. (Pesquisa: Nilo Dias)

"Charuto'" dormindo sentado em um banquinho, no velho estádio dos Eucaliptos. (Foto reprodução: Revista do Globo)

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O centenário estrelado

O Esporte Clube Cruzeiro, de Porto Alegre, completou no último domingo, 14, a marca histórica de 100 anos, sendo o quarto clube da capital gaúcha a alcançar esse status. Antes, Grêmio, Internacional e São José já haviam comemorados seus centenários.

O Cruzeiro por pouco não se chamou 14 de Julho, data de sua fundação. O nome foi proposto por um dos fundadores, mas rejeitado pelos demais. O primeiro estádio do clube foi na Vila Cruzeiro, que estava localizada na Estrada do Mato Grosso, atual Avenida Bento Gonçalves, no Bairro Partenon. Em 1920 mudou-se para o Caminho do Meio, onde ficou durante 18 anos.

O E.C. Cruzeiro desde os primórdios sempre se caracterizou como um pioneiro. Assim foi em 1914, quando criou as categorias inferiores (infanto-juvenil e juvenil), os chamados “filhotes”. E não demorou muito tempo para sugerir à presidência da Liga de Futebol Porto-alegrense que fosse criada a Liga Infantil de Futebol e organizado um campeonato só para meninos.

Foi o Cruzeiro que em 1917 propôs que fosse regulamentada a entrada de estrangeiros nos clubes gaúchos, a exemplo do que já ocorria em São Paulo e Buenos Aires.

No ano de 1929, depois de ter vencido o Citadino pela segunda vez, antes já fora campeão em 1918, também se sagrou campeão estadual em sua primeira participação na fase final da competição. O time era formado na quase totalidade por alunos universitários e estudantes da Escola Militar de Porto Alegre.

Em 1918, quando de seu primeiro título municipal de Porto Alegre, não havia ainda o campeonato do Estado. O representante da Capital no torneio foi o Grêmio, campeão da Associação Portoalegrense de Futebol (APAF), liga dissidente existente nos anos 1920.

A história do Cruzeiro é cheia de altos e baixos. Nos seus primeiros 50 anos de vida destacou-se pelas dificuldades que impunha dentro de campo aos clubes grandes, por isso era chamado de a terceira força da Capital, atrás apenas de Grêmio e Internacional.

Em 1935 sagrou-se campeão da “Taça Farroupilha”, certame realizado para assinalar o centenário da Revolução Farroupilha.

Em 7 de março de 1941 o clube inaugurou o seu novo “Estádio da Montanha”, no bairro Medianeira. O jogo inaugural foi um amistoso contra o São Paulo F.C., da capital paulista, vencido pelo Cruzeiro por 1 X 0, gol de Gervásio. Mais de 20 mil pessoas assistiram o confronto.

Quando da inauguração era o maior estádio de Porto Alegre, com capacidade para 20 mil expectadores, e o primeiro do Rio Grande do Sul a ter túnel de acesso para os jogadores saírem do vestiário para o gramado. O estádio também era chamado de “Colina Melancólica”, por estar localizado na região dos cemitérios porto-alegrenses.

No Estádio da Montanha na década de 40, funcionou a Faculdade de Educação Física (FEF), hoje Escola Superior de Educação Física (ESEF), da Universidade do Rio Grande do Sul (URGS).

Um dos apelidos do Cruzeiro é ”Leão da Montanha”, referência a um dos muitos estádios que o clube já possuiu.

Em 1944 o alviazul se tornou o primeiro clube gaúcho a contratar um técnico estrangeiro, o húngaro Emerich Hirschl, que trouxe consigo a famosa dupla de atacantes italianos Enrique Flamini e Alejandro José Lombardini, jogadores que já haviam defendido a Seleção Nacional, clubes argentinos e a Lázio, da Itália.

Na década de 40, o Cruzeiro formou grandes equipes e conquistou títulos importantes, como a “Taça Cidade de Porto Alegre”, em triangular com a dupla Gre-Nal, o Campeonato Extra da Cidade de 1943, o Torneio Início no mesmo ano e os vice-campeonatos da cidade em 1942, 1945 e 1947.

Apesar de todo o esforço, o Cruzeiro encontrou na época um Internacional forte demais, o que talvez tenha evitado um crescimento maior do time azul e branco.

Na virada dos anos 1953/1954, o Cruzeiro tornou-se o primeiro clube gaúcho a excursionar pela Europa, Ásia e Oriente Médio. A delegação estrelada enfrentou 11 dias de viagem a bordo de um navio.

Jogou contra times poderosos como Real Madrid (0 X 0), Lazio, Fenerbahçe, Beşiktaş e Galatasaray, além da Seleção de Israel (foi o primeiro time brasileiro a jogar em Israel) e da Seleção da Turquia.

O saldo da excursão foi altamente positivo: jogou 15 partidas, venceu sete, empatou quatro e perdeu quatro, marcando 28 gols e sofrendo 20, com um aproveitamento percentual de 55,55%.

Em 1960 o Cruzeiro realizou nova excursão, quando enfrentou equipes do nível de um Sevilla, SpVgg Bayern Hof (da 1ª divisão alemã, antes da criação da Bundesliga), Dínamo de Zagreb e outros, além de seleções como da Tchecoslováquia, Olímpica da Dinamarca e Bulgária.

O aproveitamento foi parecido com o da excursão anterior, 54,16%. Foram 24 jogos, com 11 vitórias, seis empates e sete derrotas, 39 gols pró e 35 contra. Essa excursão rendeu ao clube um título internacional, o de campeão do “Torneio de Páscoa de Berlim”, uma competição importante para a época. Foi o primeiro título intercontinental de futebol de um clube gaúcho.

No torneio, o Cruzeiro bateu o Bayern de Munique no jogo final. Uma prova do êxito dessa excursão, é uma carta que o clube guarda até hoje como verdadeira relíquia, enviada por dirigentes da agremiação dinamarquesa Randers FC, um dos adversários, que afirmavam que nunca iam esquecer do time que os tinha derrotado.

Além desses títulos, o Cruzeiro conta na sua galeria com o primeiro “Torneio Internacional de Páscoa de Mar del Plata”, na Argentina, em 1961. Também sagrou-se o primeiro Campeão da Copa Governador do Estado do Rio Grande do Sul, em 1970, tendo como treinador Sérgio Moacir Torres Nunes, que foi goleiro da dupla Gre-Nal nos anos 50.

Em 1968, o Cruzeiro chegou em terceiro lugar no Campeonato Gaúcho e disputou a sua primeira competição nacional, o “Torneio Centro-Oeste”.

O Cruzeiro começou a viver um período de decadência no final da década de 1960, quando o presidente Rafael Peres Borges vendeu o “Estádio da Montanha” para a construção do Cemitério Ecumênico João XXIII. O último jogo do time na “Montanha” aconteceu no dia 8 de novembro de 1970, com uma vitória por 3 X 2 sobre o Liverpool, do Uruguai. Muitos torcedores deixaram o local chorando.

Ainda hoje o Cemitério João XXIII tem uma parte da arquibancada. Isso foi lembrado por um dos mais célebres cruzeiristas, o escritor Moacyr Scliar (1937-2011), no livro ”A Colina dos Suspiros”, uma ficção inspirada no Cruzeiro e seu campo mais famoso.

“A “Colina dos Suspiros” (Editora Moderna) é uma leitura leve e divertida. Conta a história do “Pau Seco”, seu estádio, numa colina, vendido a um cemitério, pagamento em jazigos, jogadores negociados em troca de túmulos, a rivalidade com o União e Vitória, coronéis, empresários, exportação de jogadores… Ironia e tragédia se misturam. Final surpreendente.

Depois da morte de Moacyr Scliar, o Cruzeiro entrou em campo com uma tarja preta de luto, na partida contra o Grêmio, pela semifinal da Taça Piratini (1º turno do campeonato gaúcho), em 2011. O escritor herdou a paixão do pai, José Scliar. Em 2010, Moacyr escreveu uma coluna no jornal Zero Hora, festejando a volta do “Leão” à elite do futebol gaúcho. Na crônica, Moacyr Scliar citou o livro “A Colina dos Suspiros”.

Na década de 1970, o clube construiu o “Estádio Estrelão”, no final da Avenida Protásio Alves, atualmente Jardim Carvalho. Inaugurado em abril de 1977, o “Estrelão” foi a casa do Cruzeiro até 2012. Em 1979, o futebol profissional do clube entrou em recesso, só voltando em 1991, quando disputou a Segunda Divisão Gaúcha.

Em 16 de junho de 2010, depois de derrotar o Brasil de Farroupilha por 3 X 2 no “Estrelão”, o Cruzeiro voltou a elite do futebol gaúcho. Foram 32 anos de espera. E não ficou só nisso, de lambuja conquistou o título da Série B, ao derrotar o Lajeadense por 3 X 0, em 27 de junho.

Em 30 de julho de 2010, o Cruzeiro vendeu a área onde se encontrava o estádio "Estrelão" e adquiriu outra com sete hectares no Pólo Industrial de Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre, onde está sendo erguido o novo estádio. Ele terá o formato de arena, com 16 mil lugares, nos padrões exigidos pela FIFA, credenciando o município a ser a sede de treinamento para as seleções que vão disputar a Copa do Mundo FIFA de 2014 no Brasil.

E não é só o estádio que o Cruzeiro está construindo. Paralelamente o clube ergue um Centro de Treinamento em Cachoeirinha e a nova sede social e administrativa em Porto Alegre. O novo estádio tem previsão de ser inaugurado ainda em 2013. O clube disputou o campeonato gaúcho do ano passado no “Estrelão”.

Em 2011 o Cruzeiro alcançou classificação para disputar a Série D do Campeonato Brasileiro, retornando a uma competição nacional após 43 anos. Até então a única disputa oficial interestadual do clube estrelado havia sido o Torneio Gaúcho Qualificatório ao Torneio Centro-Sul de 1968.

A participação na Série D foi curta, pois o clube foi eliminado antes do fim da primeira fase. Na competição, o Cruzeiro mandou seus jogos no Estádio Passo D'Areia, do seu co-irmão, E.C. São José.

Uma curiosidade na vida do Cruzeiro, foi o fato de ter sido o segundo clube do mundo a ter sua camiseta usada em uma Copa do Mundo de Futebol. Isto ocorreu em 1950, na partida entre México X Suíça, disputada em Porto Alegre. As duas seleções tinham fardamentos vermelhos e era preciso distingui-los. Os mexicanos jogaram listrados de azul e branco e a Suíça venceu por 2 X 1. O primeiro foi o Napoli, em 1934, cedendo seu uniforme para a Áustria num jogo contra a Alemanha.

O Cruzeiro é o único clube gaúcho a ter se sagrado campeão em todas as seguintes modalidades esportivas: futebol, basquete, futebol de salão e vôlei. O cantor Diogo Nogueira foi jogador do clube na sua tentativa de se tornar jogador profissional.

O Cruzeiro foi o primeiro time gaúcho a vencer o Internacional no seu novo Estádio Beira Rio, no dia 1º de maio de 1970, pelo placar de 1 X 0. E também, o primeiro time brasileiro a derrotar o Grêmio, na sua nova Arena, no dia 28 de março de 2013, pelo escore de 2 X 1.

O deputado Edson Brum (PMDB) ocupou a Tribuna da Assembleia Legislativa do Estado, no último dia 10, para prestar significativa homenagem ao E.C. Cruzeiro, por seu centenário. Com a presença nas galerias de muitas pessoas ligadas ao clube, o parlamentar fez um relato da história cruzeirista, uma das mais antigas e queridas agremiações esportivas do Rio Grande do Sul.

O Jockey Club do Rio Grande do Sul também prestou homenagem ao centenário estrelado, com um "Páreo Festivo" e depois com uma Missa em Ação de Graças, realizada na Catedral Metropolitana de Porto Alegre.

Títulos: Campeão Gaúcho (1929); Campeão Gaúcho da Série B (2010); Campeão Citadino de Porto Alegre (1918, 1921 e 1929); Campeão do Bronze Farroupilha de Atletismo (1935); Campeão da Taça Cidade de Porto Alegre (1943 e 1947); Campeão do Campeonato Extra de Porto Alegre (1943); Campeão do Torneio Início de Porto Alegre (1943, 1951 e 1962); Campeão da Copa Governador do Estado (1970); Campeão do Torneio da Páscoa de Berlim, na Alemanha (1960); Campeão do Torneio Internacional de Mar del Plata, na Argentina (1961); Bicampeão Gaúcho de Futsal (1958 e 1959); Campeão Gaúcho da Série Prata de Futsal (2011); Campeão Gaúcho de Basquete adulto masculino (1945, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952, 1953, 1956, 1968, 1970, 1972 e 1973); Campeão Gaúcho de Vôlei adulto masculino (1972) e Campeão da Taça Cidade de Pelotas 200 Anos, em Futebol Feminino (2012).

No sábado, 13 de julho, aconteceu o “Jantar do Centenário do Esporte Clube Cruzeiro”, realizado no Clube Campestre, em Ipanema, com a presença de aproximadamente 300 convidados. No domingo, 14, data do centenário, o clube organizou uma carreata e o Almoço do Centenário, no CTG Rancho da Saudade, em Cachoeirinha.

O Cruzeiro desde a sua origem revelou grandes craques e muitos atletas que chegaram à Seleção Brasileira, como Aníbal Candiota, Moderato Wisintainer (primeiro gaúcho a jogar uma Copa do Mundo em 1930), Juvenal Amarijo, Luizinho, Irno, Claudio Danni, Alfredo Mostarda, Picasso, Valdir de Morais, Airton Ferreira da Silva, Ortunho e Batista.

E tantos outros grandes jogadores que já vestiram a camisa estrelada como Espir Rivaldo, Marne Demeneghi, Mario Andrade, Jorge Andrade, Hermes, Henrique, Arlem, Pio, Vieira, Cacildo, Marino, Arceu, Miguel, Bido, Canavieira, Bezerra, Antunes (irmão do Zico), Jarbas, Daizon e João Pontes, Laoni Luz, Julio César, Heraldo, Paraguaio, Serginho, Nicola, Chico Spina, Lettieri, Itamar, Doraci, Claudio Leite, Marcelo Rosa, Djair, Vergara, Paulo Santos, Pinga, Manú, Jair Gomes, Elton Correia, Zé Luís, Michel Bastos, Diguinho e Rafael Sobis. (Pesquisa: Nilo Dias)

Viagem de návio em 1973, na primeira excursão de um clube gaúcho à Europa.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O dia que os gaúchos vaiaram a Seleção Brasileira

Em 1972, dois anos após a conquista do tri-campeonato mundial, mais de 106 mil torcedores vaiaram a Seleção Brasileira. Isso aconteceu no Estádio Beira Rio quando de um jogo amistoso entre os selecionados do Brasil e do Rio Grande do Sul. Tudo aconteceu porque os gaúchos resolveram declarar guerra a Seleção, pelo fato de jogadores do Estado não terem sido convocados pelo técnico Mário Lobo Zagalo.

O país vivia no duro regime militar. O então presidente Médici via no hino “Prá frente Brasil”, de Miguel Gustavo, combustível para seus planos de governo, especialmente na frase “Noventa milhões em ação”, cantado e decantado na Copa de 70. Num jogo da Seleção no Maracanã, o próprio Presidente criara mais um lema ufanista, “Ninguém segura este país!”.

O regime usava o futebol para uma propaganda otimista. Por quase todo o país se vivia um clima de euforia pela conquista do tri. Menos no Rio Grande do Sul. O copo d’água transbordou quando foram convocados os jogadores para a "Taça Independência", também chamada de “Mini-Copa”, em comemoração aos 150 anos da emancipação do país, que seria realizada de junho a julho de 1972.

Naquele tempo quem mandava no futebol nacional era a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que tempos depois mudou o nome para Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que persiste até hoje. O técnico Zagalo não convocou nenhum jogador do Rio Grande do Sul, esquecendo até de Everaldo Marques da Silva, lateral-esquerdo do Grêmio que havia sido titular na Copa de 70, tendo participado dos sete jogos da Seleção.

Depois da Copa ele ainda foi chamado em 1971, por isso a surpresa pela sua não convocação. Também esperava-se que o centro avante Claudiomiro, do Internacional, fosse lembrado, já que havia jogado duas partidas pela Seleção. Foi igualmente ignorado. A discussão nem era com relação a jogadores cariocas e paulistas, mas sim pela convocação de quatro mineiros, pois o futebol de Minas e Rio Grande do Sul se equivaliam.

A desconformidade serviu para uma coisa quase impensável, unir colorados e gremistas, numa mostra de fortalecimento da identidade gaúcha. Tudo isso exatamente no momento em que a ditadura buscava maquiar um país de fantasia, dando ideia de que vivíamos num lugar próspero e feliz, muito bem representado pela seleção.

Na tentativa de contornar a situação, o presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), Rubens Hoffmeister, desafiou a seleção brasileira para uma partida contra um combinado estadual. Depois de muitas negociações, o jogo foi marcado para o dia 17 de junho de 1972.

A escolha do técnico gaúcho recaiu sobre o jornalista Aparício Vianna e Silva, o "Apa", o que mereceu críticas do treinador Zagalo, da Seleção Brasileira. Mas o endereço correto era João Saldanha, que o antecedera na seleção e que tivera em "Apa" o seu olheiro.

Mesmo sem ter nada a ver com isso, Zagalo questionou a convocação de somente jogadores de Grêmio e Internacional, perguntando se o futebol gaúcho se resumia só aos dois. Isso só serviu para por mais lenha na fogueira, visto que Aparício era uma unanimidade e não havia qualquer dúvida sobre a legitimidade da convocação só de atletas da dupla Grenal.

A "batalha" começou ainda antes do jogo: o ponteiro-direito Jairzinho teria dito que "só havia faltado pedirem o passaporte" na chegada da Seleção ao Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre.

Depois vieram os boatos de que os jogadores gaúchos poderiam machucar propositalmente os da Seleção Brasileira. O time gaúcho era tratado pejorativamente de “Combinado Grenal” ou “Combinado Sul-americano, tendo em vista as presenças do uruguaio Ancheta , do chileno Figueroa e do argentino Oberti . Os gaúchos responderam agressivamente, apelando para os símbolos mais caros ao Estado.

Chegou o dia do jogo. As manchetes dos jornais estampavam o clima de guerra que havia sido criado. O Rio Grande do Sul inteiro estava unido em torno de sua equipe. Naquele sábado, o Beira-Rio recebeu o maior público de toda a sua história: 106.554 pagantes.

A equipe do Brasil usava seu tradicional uniforme amarelo canário, já o uniforme da Seleção Gaúcha levava as cores da bandeira do Estado e o brasão da Federação Gaúcha de Futebol no peito. Naquela tarde todos os gaúchos esqueceram para que clube torciam, todos cantavam e alentavam junto pelo Rio Grande do Sul.

Os ânimos estavam tão acirrados que até bandeiras do Brasil foram queimadas pelos torcedores gaúchos, o que não chegou a ser noticiado pela imprensa. Os dois times entraram em campo carregando uma grande bandeira brasileira. Foi o momento em que uma vaia ensurdecedora tomou conta de todo o estádio, não permitindo que o Hino Nacional fosse ouvido.

As vaias continuaram mesmo depois do árbitro ter iniciado o jogo. Cada vez que os jogadores da Seleção Brasileira tocavam na bola, "dá-lhe vaia". Isso não parou durante os 90 minutos, o que deixou tensos os membros da comissão técnica e os jogadores verde-amarelos. Parecia que estavam jogando em outro país.

De um lado Leivinha, Jairzinho e Rivellino. De outro o uruguaio Ancheta, o chileno Figueroa e o gigante Valdomiro. O Brasil tinha um time de muita técnica, com um toque de bola rápido e o ataque matador. O selecionado gaúcho era pura marcação e força.

Quando a seleção brasileira conseguiu o empate, em 3 X 3, ao final do jogo,o técnico Zagallo abraçou-se eufórico ao preparador físico, pulando feito criança, pois, ali, o onze verde e amarelo livrara-se da derrota.

Muitas pessoas contam um fato bastante pitoresco, que eu duvido que realmente tenha ocorrido. O estádio lotado, e lá pelo meio da partida, o Brasil marca um gol, e um torcedor solitariamente comemora. Quase ao mesmo tempo, um torcedor do combinado gaúcho grita: "mata que é 'brasileiro." Eu acho que isso está mais para folclore, do que para verdade.

O jogo terminou empatado em 3 X 3. Os gaúchos sempre estiveram na frente do marcador, e não faltou quem afirmasse que o resultado foi “arranjado”.

O Brasil jogou com Leão (Sérgio) - Zé Maria – Brito - Vantuir e Marco Antônio – Clodoaldo - Piazza e Rivelino – Jairzinho - Leivinha e Paulo César Caju. Os gaúchos atuaram com Schneider – Espinosa – Figueroa – Ancheta - Everaldo e Carbone – Tovar - Torino e Valdomiro - Claudiomiro e Oberti (Mazinho).

Os gols do Brasil foram marcados por: Jairzinho, Paulo César Caju e Rivellino. Anotaram pela Seleção Gaúcha: Tovar, Carbone e Claudiomiro.

Os comentaristas esportivos do restante do país não perdoaram os gaúchos e criticaram o resultado do jogo e as vaias. O protesto não surtiu efeito. O desprezo ao futebol gaúcho continuou nas convocações seguintes. Ainda hoje, são atribuídas ao futebol no Rio Grande do Sul características diferentes do resto do país: mais virilidade que habilidade e mais força que malícia.

Essa não foi a última vez que o Selecionado Gaúcho enfrentou a Seleção Brasileira. Em 1978, o último jogo preparatório da equipe antes da Copa na Argentina foi justamente contra o time gaúcho, novamente no Beira-Rio, jogo que terminou empatado em 2 X 2.

Outra vez o clima foi hostil à Seleção Brasileira, mas um pouco menos que no jogo anterior, devido à não-convocação do meia colorado, catarinense, de nascimento, Paulo Roberto Falcão, alegadamente, por estar, então, em fase final de recuperação de uma lesão de alguma gravidade.

Até hoje existe uma desconfiança dos homens que mandam no futebol brasileiro, em relação ao futebol gaúcho, embora o clube de futebol mais antigo do Brasil, em atividade, esteja em território sul-riograndense, o Sport Club Rio Grande, da cidade portuária de Rio Grande.

O Rio Grande do Sul é o primeiro Estado brasileiro com mais clubes centenários, 16 ao todo (junto com São Paulo) : Internacional, Grêmio, São José e Cruzeiro (Porto Alegre), Rio Grande, São Paulo e Rio-Grandense (Rio Grande), Brasil e Pelotas (Pelotas), 14 de Julho e Grêmio Santanense (Santana do Livramento), Novo Hamburgo (Novo Hamburgo), Lajeadense (Lajeado), Santa Cruz (Santa Cruz do Sul), Riograndense (Santa Maria) e Guarany (Bagé),

O futebol gaúcho tem quatro conquistas da Taça Libertadores da América (duas do Grêmio e duas do Internacional, dois títulos mundiais interclubes (um do Grêmio e um do Internacional), cinco campeonatos brasileiros (três do Internacional e dois do Grêmio), seis Copas do Brasil (quatro do Grêmio, uma do Internacional e uma do Juventude, de Caxias do Sul). (Pesquisa: Nilo Dias).

sábado, 29 de junho de 2013

Os 100 anos do Juventude

O Esporte Clube Juventude, de Caxias do Sul, é o oitavo clube do futebol brasileiro a entrar na crescente lista de centenários este ano. O tradicional clube da “terra da uva e do vinho” foi fundado no distante dia 29 de junho de 1913, por um grupo de 35 desportistas.

É a agremiação futebolística mais antiga da cidade e também uma das mais velhas do Estado, sendo ainda o primeiro clube brasileiro criado com nítidas raízes italianas, mas também recebendo desde o inicio outros elementos, o que o tornou sempre uma entidade multirracial.

O segundo clube a ser fundado em Caxias do Sul foi o Juvenil, que por mais de 10 anos foi o principal adversário do Juventude. Em 1929 ambos foram protagonistas de uma decisão histórica e empolgante, quando do primeiro campeonato oficial de Caxias do Sul, promovido pela Federação Gaúcha. Foi preciso um jogo extra fora da cidade, em Porto Alegre, para definir o campeão, pois o clima em Caxias do Sul estava “quente” demais.

Depois surgiram outras agremiações, já pelo final da década de 1920, como o Rio Branco, o Maguary, o Fluminense, o 9º Batalhão de Caçadores, pertencente ao Exército e, em 1935 o Grêmio Esportivo Flamengo, que anos mais tarde se transformaria na atual Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias, que mantém a data de aniversário, tradições e laços com antigos aficionados.

Ainda em 1935 surgiu o Grêmio Esportivo Eberle, pertencente a então poderosa Metalúrgica Abramo Eberle, considerada a maior da América do Sul. O clube participou de campeonato municipais de Caxias do Sul por muitos anos, tendo sido campeão em quatro oportunidades.

O Grêmio Esportivo Gianella, ligado a empresa de laticínios de igual nome, disputou competições profissionais por três anos, coincidindo com a época em que os certames citadinos foram substituídos pelos regionais. Isso aconteceu em 1954, quando Juventude e Flamengo ingressaram na chamada “Divisão de Honra”, principal campeonato do Estado, que em 1961 mudou a denominação para “Divisão Principal”, o que perdura até hoje.

Em 1971, aconteceu uma fusão entre Juventude e Flamengo, sendo criada a Associação Caxias, que durou apenas dois anos, acabando em 1973, quando o Juventude retornou às atividades normais. A Associação Caxias, em 1975, mudou o nome para Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias, preservando o mesmo estádio e as mesmas cores.

Foi em 23 de março de 1975, durante as comemorações do centenário da Colonização Italiana no Rio Grande do Sul, que o Juventude inaugurou o Estádio Alfredo Jaconi, um dos mais modernos do Estado, garantindo um impressionante impulso ao futebol da cidade.

O Alfredo Jaconi, que tem capacidade para 23.726 expectadores, é considerado um dos estádios mais funcionais do país e foi reconhecido em 2008 pelo Sindicato da Arquitetura e da Engenharia-Sinanenco, como um dos melhores estádios do interior do Brasil.

A construção aconteceu entre 1972 e 1975, sob o comando do então presidente do clube, Willy Sanvitto. O nome do estádio é uma homenagem a um dos maiores ídolos da história do clube, Alfredo Jaconi, que foi jogador, treinador e dirigente nas décadas de 1930 e 1940.

Em 2008 o estádio passou por reformas, quando foram investidos mais de R$ 500 mil. A grama foi trocada, ganhando moderno sistema de drenagem e irrigação subterrânea. O clube ainda pretende investir mais recursos para a modernização do estádio, dotando-o de todas as condições exigidas pela FIFA.

Em 1976 foi a vez da S.E.R. Caxias investir em uma nova casa, surgindo o “Estádio Centenário”, em substituição a velha “Baixada Rubra”.

O fato do E.C. Juventude ser o clube interiorano que mais vezes chegou ao vice-campeonato gaúcho, ficando atrás apenas da dupla Grenal, mostra toda a sua força. Em 1988, foi campeão gaúcho, quebrando um tabu que já durava 49 anos, de só clubes da capital conquistarem títulos. O último clube do interior a ser campeão tinha sido o F.B.C. Rio-Grandense, de Rio Grande, em 1939. Dois anos depois do Juventude, a S.E.R. Caxias também sagrou-se campeão.

Em 1994, o Juventude chegou ao primeiro escalão do futebol brasileiro, ao se sagrar campeão da Série B. Já havia a parceria com a Parmalat e o técnico era Heron Ferreira, que em 1999 teve uma nova passagem pelo clube, porém sem repetir o sucesso de antes.

A parceria com a Parmalat possibilitou ao Juventude formar um time forte e competitivo, para subir rapidamente a elite do futebol brasileiro. Para tal vieram do Palmeiras jogadores como Odair, Paulo Sérgio, Dorival Júnior, Galeano, Julinho, Mauricinho, entre outros. E o técnico pediu a vinda de Paulo Roberto e Mário Maguila.

Foi uma época mágica. Os investimentos deram resultado rapidamente. Foi possível enfrentar equipes de outros países, chegar à Primeira Divisão brasileira e ser quase campeão contra o histórico Grêmio de Luiz Felipe Scolari.

Num torneio promovido pela Parmalat, o Juventude aplicou 4 X 0 no Benfica, de Portugal, em jogo realizado em São Paulo. Depois, num amistoso comemorativo, na estreia de Edmundo no Alfredo Jaconi, uma vitória sobre o Parma, da Itália, por 3 X 1. A campanha do time em 1994 era tão boa que não havia dúvidas que o título viria.

O clube gaúcho ficou 13 anos ininterruptos na Série A, até ser rebaixado em 2007. Hoje está na Série D do certame nacional, depois de seguidas campanhas ruins.

Em 1999 ganhou o maior título de sua história, quando sagrou-se campeão da “Copa do Brasil”, derrotando adversários fortes como o Corinthians Paulista, de quem ganhou duas vezes, 1 X 0 e 2 X 0, Fluminense, do Rio de Janeiro, a quem aplicou uma goleada de 6 X 0, Internacional, batido por 4 X 0, em pleno Beira-Rio, mais o Bahia e finalmente, o Botafogo, comemorando o título, em pleno Maracanã, perante mais de 100 mil torcedores.

Vestiram a camisa alviverde caxiense dois jogadores que foram campeões mundiais, pela Seleção Brasileira: Everaldo, em 1970 e Cafu, em 1994 e 2002. Outros ex-atletas do clube também jogaram na Seleção, casos de Babá, Jurandir, Paulinho, Cuca e Enéas.

O Juventude quase sempre contratou bons treinadores, alguns de renome nacional e até internacional, como Geninho, Leão, Walmir Louruz, Luís Felipe Scolari, que também foi jogador do clube e do Caxias, Levir Culpi, Cuca, Celso Roth, Benazzi, Edson Gaúcho, Túlio Maravilha, Cafu e Tite, que também jogou e treinou o Caxias. Um dos mais destacados treinadores gaúchos de antigamente, Carlos Froner, treinou ambos os clubes em mais de uma ocasião.

No último dia 19 o governador Tarso Genro recebeu no Palácio Piratini a direção do Juventude, e fez entrega de uma placa em comemoração aos 100 anos do clube. Na ocasião o governador foi convidado a participar do jogo festivo entre Juventude X Nacional, de Montevidéu, realizado na noite de ontem, no Alfredo Jaconi, que teve a presença do ex-jogador Cafu.

Recuperado de uma forte depressão, também esteve presente o ex-jogador e técnico Valmir Louruz, que está afastado dos gramados há quatro anos. Ele vestiu a camisa alviverde por quatro temporadas na década de 70. Depois de pendurar as chuteiras, começou a carreira de treinador no próprio clube, em 1980.

Ele foi o comandante campeão da “Copa do Brasil” e também o responsável pela presença no clube do treinador Luiz Felipe Scolari, o “Felipão”, em 1980.

O último clube que Louruz treinou foi o CRB (AL), em 2009. Para o jogo comemorativo dos 100 anos, sexta-feira, o ainda ídolo na memória da “Papada” foi convidado pela direção para entrar no vestiário e dirigir uma conversa com o grupo antes de encarar o Nacional uruguaio.

No jogo do "Centenário", realizado ontem  a noite, o Juventude venceu o time sub-20 do Nacional, do Uruguai, por 2 X 0, vestindo a camisa comemorativa aos 100 anos, que foi escolhida por votação no Facebook. A opção escolhida com mais de 800 votos, foi a que relembra a primeira camisa do clube, ainda na década de 1910. A camisa é em verde-escuro e com uma elegante gola polo, com uma faixa branca horizontal um pouco abaixo do peito e nas mangas da camisa.

Antes, dia 13, a Orquestra Sinfônica da Universidade de Caxias do Sul prestou homenagem ao centenário do E.C. Juventude, quando lhe ofereceu a 4ª edição do programa “Quinta Sinfônica”. O concerto teve a regência do maestro Manfredo Schmiedt e teve como solita a mezzo-soprano Rose carvalho. Em seus 12 anos de atividades, a Orquestra tem realizado edições comemorativas aos diversos segmentos da comunidade caxiense.

Hoje, data de fundação do clube, será servido um jantar festivo no Salão da Paróquia Nossa Senhora da Saúde, em Caxias do Sul, com a presença de convidados especiais. Toda a população da cidade foi convidada e ingressos foram vendidos antecipadamente. Antes, dia 8, já havia acontecido outro jantar festivo, no “Recreio da Juventude”, seguido de baile animado pelo “Grupo Abertura”.

A Federação Gaúcha de Futebol, de 9 a 12 de janeiro deste ano, organizou o torneio amistoso “Copa Centenário”, para homenagear os quatro clubes do Rio Grande do Sul, que em 2013 completam 100 anos. São eles: F.C. Santa Cruz, de Santa Cruz do Sul, E.C. São José, de Porto Alegre, E.C. Juventude, de Caxias do Sul e E.C. Cruzeiro, de Porto Alegre

O campeão foi o São José e o Juventude, vice. A competição foi dividida em duas fases: na primeira, chamada de semifinal, os quatro times decidiram em jogos únicos de mata-mata duas vagas para a fase decisiva. A segunda, final, definiu o campeão do torneio entre as duas equipes que classificaram-se anteriormente, também em partida única.

Os jogos, todos realizados no Estádio Passo da Areia, em Porto Alegre, tiveram estes resultados: Semifinal, 9 de janeiro Juventude 2 X 0 Santa Cruz; 9 de janeiro São José 1 X 1 Cruzeiro. Penalidades: São José 4 X 3; Final: 12 de janeiro, Juventude 0 X 1 São José. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time do Juventude, na décasda de 1930.

terça-feira, 25 de junho de 2013

O centenário do Rio Branco A.C.

O Rio Branco Atlético Clube, de Vitória (ES) completou neste dia 21 de junho, 100 anos de atividades. O clube foi fundado no dia 21 de junho de 1913. Mas a história do clube teve inicio em maio daquele ano, depois que alunos do Colégio Estadual e da Escola Normal, instituições de ensino tradicionais, criaram seus clubes de futebol, Sul América e XV de Novembro, respectivamente.

Naquela época já haviam outros dois clubes na cidade, o Rui Barbosa, que teve vida efêmera e o Victoria Foot-Ball Club, fundado por meninos brancos e ricos. Essas equipes já pensavam em promover competições entre elas.

Foi quando os meninos pobres das vilas, que também gostavam de futebol, resolveram fundar um time. A ideia partiu de José Batista Pavão e Antônio Miguez, balconistas em uma casa de ferragens. A eles se juntou o também balconista, Edmundo Martins.

Uma primeira reunião foi marcada para o segundo domingo de junho, com a presença de Nestor Ferreira Lima, que mesmo sendo estudante do Colégio Estadual, não jogava no Sul América. Os meninos presentes, todos entre 14 e 16 anos, trocaram ideias e discutiram sobre tudo, da bola inglesa aos gorros.

Uma segunda reunião aconteceu no dia 21 de Junho de 1913, já para a fundação do clube. Ela aconteceu na casa de Nestor Ferreira Filho, na rua 7 de Setembro, num cômodo cedido pelo seu pai, junto ao Escritório de Contabilidade de propriedade deste.

Os meninos compareceram vestindo suas melhores roupas. A reunião teria sido rápida, se não fosse a dificuldade em encontrar um nome para a nova agremiação, que agradasse a todos. Entre as sugestões apresentadas estavam nomes de personalidades da história do Brasil e datas comemorativas, como também de heróis portugueses, como Saldanha da Gama e Álvares Cabral. Mas estes nem foram levados em consideração, por já existirem na cidade entidades com essas denominações.

Quando as alternativas estavam se esgotando, sem que nenhum nome fosse aprovado, um dos jovens, cujo nome não é citado no histórico do clube, sugeriu que se homenageasse os próprios jovens que idealizaram a entidade, “todos jovens e vigorosos”. Assim surgiu o "Juventude e Vigor", com as cores verde e amarela. Nestor Ferreira Lima Filho foi escolhido o primeiro presidente do clube.

Os fundadores do clube foram Antonio Miguez, José Batista Pavão, Edmundo Martins, Nestor Ferreira Lima Filho, Gervásio Pimentel, José Fiel, Cláudio Daumas, Otávio Alves de Araújo, Hermenegildo Conde, Adriano Macedo, Antônio Gonçalves de Souza e Cleto Santos.

Somente em 10 de fevereiro de 1914 passou a chamar-se Rio Branco A.C., em homenagem ao então chanceler José Maria da Silva Paranhos Junior, o Barão de Rio Branco. A mudança ocorreu porque alguns outros convidados, entre os quais ex-jogadores do Rui Barbosa, que chegaram depois, não se sentiram bem com o nome.

A mudança das cores de clube para preto e branco, aconteceu em 20 de maio de 1917, porque o verde e amarelo desbotavam muito. O problema com cores não foi exclusividade do Rio Branco. No Rio de Janeiro o Flamengo, que outrora tinha as cores azul e amarela, mudou para vermelho e preto. Em outros clubes do país também ocorreu o mesmo.

A sugestão de preto e branco foi dada por Gilberto Paixão, que aderira ao clube em companhia da maioria dos ex-jogadores do Sul América. Ele era muito querido e respeitado pelos companheiros, pois se tratava de um moço bastante educado e considerado o melhor jogador do time e da cidade de Vitória.

O clube adotava, assim, as cores que foram do extinto Sul América e também do Botafogo, do Rio de Janeiro, clube pelo qual outros meninos torciam. O clube carioca, por sua vez, adotara o preto e branco, em sua fundação, numa imitação ao Juventus da Itália.

As primeiras partidas do Rio Branco foram disputadas em campos existentes em áreas descobertas, usando bolas de meia ou enchendo bexigas de boi. Em Jucutuquara, havia uma salina abandonada, que transformara-se em um terreno reto, sem grama mas muito bom para a prática do futebol. Foi ali que os meninos do “Juventude e Vigor” tiveram os primeiros contatos com a bola.

Depois eles foram parar no Bairro de Lourdes, em área utilizada pelo “Tiro de Guerra", do Exército Brasileiro. Ficaram pouco tempo por lá, pois o time do Victória conseguiu a área para si, com o beneplácito do Barão de Monjardim.

Nova mudança, dessa vez para o campo do Bom retiro em Vila Velha, área que pertencia a família Araújo, localizada próximo a Maternidade. Em 1916 o retorno ao Jucutuquara. Foi preciso aterrar o local, o que não foi tarefa difícil tendo em vista a localização do terreno ao pé do morro. Tocos foram arrancados e a “salina” fiou maior e melhor.

O trabalho foi complementado com o campo de jogo separado dos torcedores por uma cerca de arame liso. Mas os fundadores da entidade ainda não se mostravam satisfeitos. Queriam mais, pois não desejavam ficar abaixo do Victória que já tinha um campo, cercado com folhas de zinco e local para torcedores com degraus de madeira cobertos, batizados de “arquibancadas”.

Em sua edição de 28 de setembro de 1915, o jornal "Diário da Manhã", anunciava que o então presidente, Otávio Araújo já recebera a planta do futuro “campo de sports”, que depois de pronto seria um dos melhores do Brasil. Idêntica matéria também foi publicada no jornal "O Curioso", datado de 12 de Setembro daquele ano.

Depois de muito trabalho, o Rio Branco conseguiu inaugurar em 1919 o "Estádio de Zinco", chamado pela imprensa local de "O Majestoso Ground de Jucutuquara". O jogo inaugural foi frente o Fluminense F.C., de Niterói, na época um time forte. E ainda veio reforçado por alguns jogadores do Fluminense e de outros times cariocas. Ainda assim o jogo terminou empatado em 2 X 2.

O “Estádio de Zinco” foi um marco no futebol capixaba. Todos os times do Rio de Janeiro queriam jogar lá. Foi o caso do Flamengo, já um time grande e popular, que jogou e perdeu para o Rio Branco por 2 X 1.

Mas nem tudo era tranquilidade. O fato de ocupar a área do estádio desde 1916, não garantia ao clube a sua posse. Quem administrava aquele local era a Liga de Esportes. Só depois de uma dura batalha judicial contra o Victória, que também reivindicava o local para si, o Rio Branco teve a posse definitiva do estádio.

O então presidente do clube, Carlos Marciano de Medeiros, o “capitão Carlito Medeiros”, conseguiu junto ao interventor federal do Estado, capitão João Punaro Bley, a doação da área, através o Decreto 4.969, publicado no Diário Oficial em 24 de Junho de 1934.

A partir daí o Rio Branco cresceu, tornando-se um verdadeiro patrimônio do Espírito Santo. O “Estádio de Zinco” se tornara pequeno e obsoleto, para abrigar o grande número de torcedores que o clube já possuía. Em 1934 começaram as obras do “Estádio Governador Bley”, em Jucutuquara. Seria o terceiro maior estádio do país, ficando atrás apenas do São Januário e das Laranjeiras, pertencentes ao Vasco da Gama e Fluminense, respectivamente.

A inauguração do novo estádio aconteceu no dia 30 de maio de 1936. No dia seguinte o primeiro jogo, um amistoso entre Rio Branco X Fluminense, do Rio de Janeiro, vencido pelo time carioca por 2 X 0.

O “Governador Bley” foi palco de grandes conquistas do Rio Branco, entre elas o hexacampeonato capixaba, de 1934 a 1939, além da boa campanha na Copa dos Campeões Estaduais de 1937, a primeira competição nacional de futebol realizada no Brasil, quando ficou em terceiro lugar.

Destaque naquele ano para a vitória em cima do Fluminense, do Rio de Janeiro, por 4 X 3. Em razão de más administrações, o estádio foi perdido para o pagamento de dívidas e hoje pertence ao Instituto Federal do Espírito Santo (IFES).

Alguns anos depois, o Rio Branco procurou um novo local para erguer outro estádio. Encontrou o que procurava no município de Cariacica, na "Grande Vitória", onde construiu o “Estádio Kleber Andrade”. O nome foi uma homenagem a um ex-presidente do clube. O projeto inicial previa um estádio para 80 mil pessoas, que seria o maior e mais moderno do Estado.

Apesar da grandeza planejada, as obras nunca foram concluídas. Assim mesmo o estádio foi inaugurado em 1983, num jogo amistoso em que o Rio Branco derrotou o Guarapari por 3 X 2, com três gols de Arildo Ratão. O “Kleber Andrade” foi a casa do clube alvi-negro por muitos anos e também o principal estádio do Espírito Santo.

Em 2008, o Rio Branco vendeu o estádio para o Governo do Estado do Espírito Santo. O clube precisava de dinheiro para pagar algumas dívidas e começar a construção do seu Centro de Treinamento. Foi nesse ano que o Rio Branco voltou a ter sua sede administrativa em Vitória, localizada na Avenida Nossa Senhora da Penha, no bairro Santa Lúcia.

O Rio Branco ainda é dono de uma área com cerca de 60 mil m², que fica em Portal de Jacaraípe, na Região Metropolitana de Vitória. É nesse local que o clube pretende construir o “CT Capa Preta”. O Rio Branco também tem cerca de R$ 4 milhões depositados em juízo. Mas para por a mão nesse dinheiro, primeiro terá de eliminar oito pendências judiciais. Só assim terá condições de erguer o sonhado CT.

O Rio Branco é o clube com maior torcida no Estado e também o ganhador de mais títulos estaduais, 36 ao todo. Seus torcedores o chamam de “Capa Preta” e “Brancão”. Já disputou as séries A, B, C e D do Campeonato Brasileiro. É o 3º time de futebol profissional fundado no Estado.

Neste ano, em que completa o seu centenário, o Rio Branco foi eliminado do Campeonato Capixaba com uma rodada de antecedência, depois de uma péssima campanha. Durante o primeiro semestre o clube mandou embora três técnicos e conviveu com vários empates e derrotas inesperadas.

A década de 1990 o clube quer esquecer, pois algumas gestões fracassaram em tudo o que fizeram. Foi quando as dívidas aumentaram consideravelmente e o Rio Branco amargou 24 anos sem ganhar nada. A situação era desesperadora e o fechamento parecia ser questão de tempo.

Mas veio a tábua de salvação. Em outubro de 2003, alguns torcedores do Rio Branco deram inicio a um movimento para superar as dificuldades vividas. Em um escritório improvisado em um café do Praia Shopping, os abnegados doutor Paulo Marangoni, Rommel Rubim e Notier Menezes, começaram a planejar os caminhos a serem seguidos.

Nada foi fácil. O clube estava totalmente endividado, não tinha crédito em lugar nenhum e as cobranças vinham de todos os lados. A coisa estava tão feia, que os jogadores iam para os jogos de transporte público. Notier Menezes foi verificar de perto o que se passava. Para isso foi até Cachoeiro assistir um jogo do Rio Branco contra o Estrela, pela "Copa Espírito Santo".

Quando viu o ônibus que conduzia a delegação, ficou apavorado. O veículo tinha emendas por toda a lataria, os pneus estavam totalmente "carecas" e não tinha banheiro. Aí começou realmente o grande desafio de reerguer o clube.

Foi preciso muita persistência e trabalho, para que isso acontecesse. Primeiro, foi feita uma reestruturação administrativa em 2006, para que o clube voltasse a ter credibilidade. A venda do estádio ao governo, em 2008, abriu os caminhos. As dívidas foram pagas. Dentro de campo as coisas também melhoraram. Em três anos o time chegou à quatro finais, Copa Espírito Santo em 2008/2009 e “Capixabão”, em 2009/2010. Na última, o Rio Branco, depois de 24 anos, quebrou o jejum e conquistou o título estadual.

Títulos conquistados. Estaduais: (1918, 1919, 1921, 1924, 1929, 1930, 1934, 1935, 1936, 1937, 1938, 1939, 1941, 1942, 1945, 1946, 1947, 1949, 1951, 1957, 1958, 1959, 1962, 1963, 1966, 1968, 1969, 1970, 1971, 1973, 1975, 1978, 1982, 1983, 1985 e 2010).

Campeonato Capixaba - 2ª Divisão: (2005); Torneio Início: (1918, 1920, 1921, 1924, 1925, 1928, 1929, 1930, 1931, 1932, 1934, 1935, 1936, 1940, 1942, 1947, 1956, 1957, 1959, 1962, 1964, 1968, 1969, 1970); Taça Cidade de Vitória: (1918, 1919, 1921, 1924, 1929, 1930, 1934, 1935, 1936, 1937, 1938, 1939, 1941, 1942, 1945, 1946, 1947, 1949, 1951, 1957, 1958, 1959, 1964, 1965, 1967, 1969, 1971).

Outras Conquistas. Torneio Centenário de Vitória (1951); Vice Campeão Taça Brasil Sudeste: (1959, 1963 e 1964); Troféu da Revolução 31 de Março: (1965); Taça Cidade de Vitória: (1969 e 1972); Taça Independência: (1972); Troféu Governador do Estado: (1975); Torneio dos Campeões Capixabas: (2001); Torneio Metropolitano Master de Futebol: (2002), além de dezenas de outros torneios e taças.

O título de 1985 foi ganho perante um público de 27 mil torcedores, quando o Rio Branco garantiu vaga no Campeonato Brasileiro da Série A de 1986. O Rio Branco disputou também o Campeonato Brasileiro da Série A em 1987, integrando o módulo amarelo.

O “Capa-Preta” até que teve bons resultados naquele campeonato, que foi o último em que participou na Série A. Venceu o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro por duas vezes, 2 X 1 em São Januário e 1 X 0 no Kleber Andrade. Ganhou do Ceará por 2 X 0 e do Internacional, por 2 X 1. Fez 4 X 0 no Piauí, 2 X 1 no Atlético Goianiense, 1 X 0 no Náutico, no Arruda em Recife, além de vitórias sobre times como Operário e Nacional.

Naquela época os adversários temiam jogar em Vitória, onde a pressão da torcida era enorme. Nos 12 jogos como mandante, o Rio Branco levou mais de 157 mil torcedores aos estádios Kleber Andrade e Engenheiro Araripe. No jogo contra o Vasco, por exemplo, o público foi de 50 mil expectadores.

A logomarca do ano do centenário mostra um número "100" estilizado nas cores preto, branco e dourado. Dentro de cada um dos “zeros”, encontram-se elementos de escudos já usados pelo clube em sua história. O primeiro faz alusão ao “Juventude e Vigor”, nome original do Rio Branco em 1913, seu ano de fundação. O segundo contem as iniciais RBAC com tipografia do escudo atual do clube. Também foi lançado o slogan do centenário: “100 anos guardados em meu coração”, frase que faz alusão a um trecho do hino do clube. (Pesquisa: Nilo Dias)


quarta-feira, 12 de junho de 2013

O "Zequinha" agora é centenário

O Esporte Clube São José é uma espécie de segundo time de todos os porto-alegrenses e é considerado o "mais simpático de todo o Rio Grande do Sul". O "Zequinha", como é carinhosamente chamado foi fundado no dia 24 de maio de 1913, por um grupo de alunos católicos do Colégio São José, da capital do Estado, na rua São Raphael, atual avenida Alberto Bins.

Foi o irmão Constantino Emanuel, um ardoroso admirador do “cálcio” italiano que incentivou o grupo que jogava futebol no colégio, a criar um clube verdadeiro para o esporte. Por isso o nome do clube.

Entre os jovens fundadores estavam José Edgar Vielitz, Osvaldo Endler, Florêncio Wurding, Léo De La Rue, Antônio Pedro Netto (Netinho) e Arnaldo Peterlongo Ely. Todos eles faziam parte da Sociedade Juventude dos Moços Católicos, cuja sede era nos altos da ex-capela São José, localizada na rua São Raphael.

A sociedade surgira para que os alunos pudessem praticar o futebol dentro das dependências do colégio. Embora a sociedade crescesse, o grupo não podia enfrentar equipes fortes e por isso surgiu a idéia de fundar um clube de futebol.

Após celebrar a fundação, o aluno Léo De La Rue foi escolhido para ser o primeiro Presidente do clube, ficando estabelecido que cada jogador compraria seu uniforme e contribuiria com 500 réis de cota mensal, pois a participação dos sócios ainda era reduzida. O Irmão Ulrich, foi o primeiro chefe de torcida do novo clube.

O clube surgiu num momento em que o mundo vivia a terrível expectativa da primeira guerra mundial, com a Europa em polvorosa. O primeiro campo foi num local chamado "Montanha", onde hoje está localizado o Hospital Militar, na avenida Cristóvão Colombo, no bairro Floresta. O primeiro presidente foi Leo De La Rue, que dirigiu a agremiação nos anos de 1913 e 1914.

Nas décadas de 1930 e 1940, a agremiação teve dois bons times, o de 1937 e o de 1948. Estas equipes por pouco não conseguiram o título de Campeão da Cidade de Porto Alegre. Em 1937 tinha um elenco de alta qualidade técnica, porém sucumbiu diante do Grêmio na melhor de três jogos. No primeiro, o tricolor venceu por 2 X 1. No segundo, triunfo do São José por 3 X 2, mas, no terceiro, o Grêmio demonstrou seu maior poder e conseguiu a vitória por 2 Xa 0, conquistando o título.

Em 1948, o time alcançou novamente o vice-campeonato de Porto Alegre. O campeão desta vez foi o Internacional, que conseguiu maior número de pontos que o Zequinha e o Grêmio. Muitos antigos torcedores do São José consideram o elenco vice-campeão de 1948 o melhor já visto na história do clube.

Atualmente o São José tem a sua sede na Zona Norte de Porto Alegre, onde se localiza o Estádio do Passo da Areia, que foi modernizado e recebeu gramado sintético, que foi vistoriado e aprovado pela FIFA. O futebol é a principal atividade esportiva do clube desde a sua fundação, mas também disputa competições de Basquete e Bocha. O São José está há 10 anos seguidos participando do Campeonato Principal de Futebol do Rio Grande do Sul.

Antes de ocupar a sede atual, o “Zequinha” andou por vários locais, até que em 1939 conseguiu adquirir o terreno no Passo da Areia. O estádio foi inaugurado em 24 de maio de 1940, com o jogo Grêmio Portoalegrense 3 X 2 São José. As arquibancadas de madeira da época não existem mais.

Hoje o estádio possui três arquibancadas nas duas laterais e uma atrás do gol da avenida Assis Brasil, todas cobertas, que abrigam cerca de 10.000 torcedores. Essa nova estrutura foi inaugurada em março de 2006 e conta com seis camarotes, oito cabines duplas fixas, uma sala de imprensa e outra para entrevistas, quatro vestiários para jogadores e um para arbitragem.

A sede possui ainda salão de festas para 300 pessoas, churrascaria com capacidade para receber 120 pessoas, ginásio, piscina e quadras sintéticas de futebol para aluguel, estrutura que a maioria dos clubes do interior não possuem. Para prática esportiva, oferece escolinhas de hockey, futsal, vôlei, basquete e patinação. Na alta temporada disponibiliza a hidroginástica. Como atividade cultural conta com o DTG Gaúchos do São José, invernada adulta do clube.

Em 1960 aconteceu a fusão entre o São José e o Clube de Regatas Almirante Barroso. O novo clube ganhou o apelido de "Zé Barroso". O uniforme tinha camiseta com listras largas azuis e brancas. Foi nessa época que o clube conquistou um dos maiores títulos da sua história, a Copa Governador do Estado, em 1971.

Em 1981, treinado por Vasques, o São José foi campeão da “Segundona Gaúcha”, o que garantiu o direito de participar do Campeonato Gaúcho da Divisão Especial de 1982. Enfrentando dificuldades de toda ordem, o time não conseguiu se manter na elite e foi rebaixado.

Em 1996, voltou a Primeira Divisão depois de uma parceria com o Renner. Durante esta parceria, o São José usou um uniforme em vermelho e branco como o velho clube do Estádio Tiradentes. Em 1998, num lance de marketing ousado, o São José contratou o centroavante Careca, ex-São Paulo e Napoli para atuar em alguns jogos do Gauchão.

As principais conquistas do São José: Vice-Campeão do Citadino de Porto Alegre (1937 e 1948); Campeão da Copa Governador do Estado, com o nome de Associação Atlética Almirante Barroso-São José (1971); Campeão do Torneio de Acesso (1963); Campeão da Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho (1963 e 1981); Vice-Campeão da Segunda Divisão Gaúcha (1996). Está na elite do futebol gaúcho desde 1999. Sua melhor colocação na primeira divisão foi um 4º lugar em 2010.

A nível nacional o São José participou do Campeonato Brasileiro da Série C nos anos de 1997, 1998, 2001 e 2003 e da Série D em 2009. Em 2007 e 2008 jogou a Copa São Paulo de Futebol Junior.

Em 2007 o clube ousou novamente e contratou o goleiro Danrlei, ex-Grêmio. Em 2008 trouxe o atacante Fabiano, ex-jogador do Internacional. Em 2010 o clube conseguiu realizar a melhor campanha de sua história no Campeonato Gaúcho da Divisão Principal, se classificando em quarto lugar e garantindo vaga para o Campeonato Brasileiro da Série D e para a Copa do Brasil. E ainda teve o goleador do “Gauchão”, Jefferson, com 13 gols.

Nesses 100 anos de história, o São José teve em suas fileiras importantes jogadores, tais como: Luiz Luz (Grêmio e Seleção Brasileira - Década de 20), Ruaro (foi para o Inter - década de 20),

Bodinho (ex-Internacional), Carlos Luis Medeiros Vasques ( ex-Internacional), Cassiá ( ex-Grêmio e Coritiba), Carlos Miguel, ex-Grêmio e Inter), Claudio Mineiro (ex-Internacional), Dorinho ( ex-Internacional), Luiz Carlos Winck ( ex-Internacional), entre outros. Também teve como treinadores Ênio Andrade e Foguinho e o preparador físico Gilberto Tim (ex-Internacional e Seleção Brasileira)

Um feito do São José entrou para a história, foi o time sul-americano de futebol a viajar de avião. A FIFA registrou a excursão inédita do “Zequinha” a Pelotas em 1927, num hidroavião da Varig, modelo “Dornier Wal”, de nome “Atlântico”.

A Varig não era ainda a empresa respeitada que foi depois e tinha apenas esse aparelho, que fazia a linha regular Porto Alegre/Pelotas/Rio Grande, que havia entrado em operação em fevereiro daquele ano. A viagem aconteceu no domingo, 5 de junho, e o vôo teve como comandante Rodolfo Cramer.

A ideia de viajar de avião, conforme relatório de João Leal da Silva, tesoureiro do São José, na época, partiu do diretor de futebol Edgar Vielitz e do secretário Moisés Antunes da Cunha, quando o time voltava de bonde do bairro Menino Deus, onde havia vencido o Futebol Club Porto Alegrense, por 3 X 1, pelo campeonato da cidade, no dia 3 de maio.

Tudo estava acertado para a viagem, o E.C. Pelotas aceitou pagar a hospedagem e as despesas com o avião. O São José ainda disputou duas partidas pelo campeonato, perdendo para o Grêmio e Internacional. Dois dias antes da viagem, o secretário Moisés Antunes seguiu de vapor para acertar alguns detalhes.

Como o avião não podia levar todos os atletas, Odorico, Monteiro, Berlina e Benedito foram com o secretário e ficou combinado que haveria troca na volta, para que todos tivessem a oportunidade de sentir a sensação de voar. Aconteceram dois problemas na semana que antecedeu a viagem: o tempo estava chuvoso e o controle do peso.

A Varig, que tinha sua sede na Casa Bromberg, solicitou o peso exato de todos os jogadores, para obter o melhor desempenho do hidroavião – na sexta-feira o “Atlântico” viajou para o Rio de Janeiro, retornando no sábado. No domingo, pela manhã o avião levaria o E.C. São José a cidade de Pelotas, retornando na segunda-feira.

Tudo pronto, o comandante Rodolfo Cramer verificou que havia peso em excesso, porque os sobretudos não estavam incluídos. Ficou a pergunta, como resolver este impasse? Houve alguns protestos, pois ninguém queria ficar fora da viagem. O presidente Waldemar Zapp pediu para tirarem uma foto de todo o grupo, pois queria uma lembrança, em caso de acidente.

O comandante Cramer então combinou que se o avião decolasse sem problemas, a viagem seguiria com todos os passageiros. Pontualmente às 10h15min, decolou após duas tentativas, do aeroporto fluvial da Ilha Grande dos Marinheiros. O motor roncou, deu solavancos, pulava como um sapo, fazia um barulho infernal, mas decolou e deixou as águas do Guaíba para trás. O “Atlântico”, enfim, estava no ar e chegou no horário pré-visto, depois de duas horas e meia de viagem.

Depois desta epopeia, O E.C. São José voltou a viajar de avião em 1959, para jogar contra o 14 de julho, na cidade de Passo Fundo, onde venceu por 2 X 1, conforme relato do conselheiro Manoel Rubi da Silva, que era supervisor de futebol, na época.

Em 1998, já com um avião moderno, com toda a segurança e conforto viajou para o Estado do Paraná, para disputar uma partida de futebol pelo campeonato brasileiro da Série “C”.

Os nomes que ficaram na história do E.C. São José foram os passageiros Carlos Albino (chefe da delegação), João Leal da Silva (tesoureiro) e os jogadores: Álvaro Kessler, Antônio Netto, Dirceu, Alfredo Cezaro, César Cezaro (Pinho); Nicanor Leite (Nona), Clóvis Carneiro Cunha, Walter Raabe e o goleiro Bagre (Alberto Moreira Haanzel).

A viagem transcorreu sem problemas, exceto por dois jogadores, Antônio Netto e Bagre, que viajaram no porão do avião, porque só havia nove poltronas. Porém, garantiram lugar na volta porque os irmãos Cezaro enjoaram muito e prometeram jamais viajar de avião. A promessa, no entanto, só durou durante o vôo.

Pela viagem à Pelotas a Varig recebeu 2 contos e 500 mil réis, sendo que o preço individual, de ida e volta de uma viagem, daquele tipo custava 350 mil réis. Mesmo assim o preço, para a época, não foi considerado barato, porque o dólar estava valendo 8 contos e 500 réis.

O São José rivaliza com o Cruzeiro a condição de terceira força do futebol de Porto Alegre, por isso pode ser considerado o seu maior rival. O jogo entre ambos fói apelidado de “Zé-Cruz”.

A mascote do São José é a figura de um simpático e velho santo em homenagem ao padroeiro da escola, que dá nome ao clube. Os arquivos da agremiação não registram o autor do antigo desenho, mas a mascote se encaixou bem no espírito do clube de origens católicas.

Um dos grandes orgulhos do Esporte Clube São José é o seu Departamento de Veteranos, que é o mais antigo do gênero em atividade no país, sendo que nunca sofreu interrupções. Fator importante do Departamento de Veteranos é que dele saem a maioria dos presidentes do clube.

Mesmo sendo considerado um clube pequeno, o São José tem suas torcidas organizadas, que acompanham o clube em suas viagens pelo estado e fora dele: “Os Guaipecas”, que tem como mascote o “Muttley”, popular cão dos desenhos animados. Nos jogos em casa, localizam-se perto da cerca. E “Os Farrapos”, composta por um grupo de jovens que aderiram a ideologia barra brava de torcer. É a maior torcida do São José em atividade. (Pesquisa: Nilo Dias)

Delegação "Zequinha", minutos antes do embarque no hidro-avião "Atlântico", a primeira aeronave da Varig.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Os 100 anos do Grêmio Santanense

O Grêmio Foot-Ball Santanense, um dos mais tradicionais clubes esportivos do Rio Grande do Sul, completa hoje 100 anos de fundação. Infelizmente a agremiação se encontra afastada das lides esportivas desde 2003, quando desistiu de competir profissionalmente. Em 2009 voltou a participar de competições municipais de futebol amador, sete e futsal.

Se sabe que o clube foi fundado no dia 11 de junho de 1913 por iniciativa de um grupo de jovens que costumavam se reunir na Barbearia do Ladário. Mas nada mais do que isso, pois um incêndio ocorrido em 1919 na casa do então secretário do Grêmio Santanense, Joaquin Sanz, destruiu toda a documentação relacionada a fundação e os primeiros anos do clube.

Uma coisa porém é certa, é o clube mais vitorioso do futebol de Santana do Livramento, sendo o único a se sagrar campeão gaúcho, isso em 1937, quando teve também os dois artilheiros maiores da competição, Hortêncio Souza e Tom Mix.

Para chegar ao título o Santanense venceu na fase preliminar ao Riograndense, de Santa Maria, por 4 X 1 e ao Novo Hamburgo, por 3 X 2. Nos jogos finais perdeu para o Rio-Grandense, de Rio Grande por 2 X 0, depois venceu por 3 X 2, empatou o terceiro confronto em 3 X 3 e levantou a taça na quarta e decisiva partida, quando goleou por 4 X 0.

Na decisão de 1937, entre Grêmio F.B. Santanense X F.B.C. Rio-Grandense, de Rio Grande, a divisão da renda mostrava claramente os exageros da Federação Rio Grandense de Desportos (FRGD), naqueles tempos.

A decisão foi em campo neutro, no estádio Estrela D’Alva, em Bagé, perante 3 mil expectadores. A renda somou 8 contos de réis (na época uma boa casa custava 20 contos de réis). Do total, 30% foi para o campeão, 20% para o vice e 50% para a FRGD.

O time campeão tinha como formação base: Brandão – Alfeu e Pedro Seringa – Garnizé – Mascarenhas e Pepe Garcia (Pasqualito) – Zorro – Beca – Bido – Hortêncio Souza e Tom Mix. O treinador era o uruguaio Ricardo Diéz, que repetiu este feito em 1942 com o S.C. Internacional, de Porto Alegre, onde foi o primeiro técnico estrangeiro e revelou o zagueiro Nena.

Antes, em 1941 passou pelo futebol pernambucano onde treinou o Sport e descobriu o atacante Ademir Menezes, que foi um dos maiores artilheiros do país, jogando no Vasco, Fluminense e Seleção Brasileira.

Como cigano do futebol, andou por Minas Gerais onde treinou vários clubes: Atlético Mineiro (1950, 1951, 1955, 1956, 1958 e 1959); América (1946); Siderúrgica, de Sabará (1947), Cruzeiro (1953); Valeriodoce, de Ibara (1962 e 1963); Democrata, de Sete Lagoas (1965) e Paraense, de Pará de Minas.

Em 1957 voltou ao futebol pernambucano para dirigir o Náutico. E em 1960 completou sua andança pelos três principais clubes do Estado, ao comandar o Santa Cruz.

Em 1939 o Grêmio Santanense quase ganhou de novo o Campeonato Gaúcho, perdendo a final para o Rio-Grandense, de Rio Grande e ficando com o vice-campeonato. Em 1948 bateu na trave outra vez, ao chegar como segundo colocado no Estadual, perdendo os jogos finais para o Internacional, de Porto Alegre, por 2 X 1 e 5 X 0.

O Grêmio Santanense mandava seus jogos no “Estádio Honório Nunes”, que tem esse nome em homenagem ao presidente da gestão de 1915. Honório Nunes quando esteve a frente do clube superou inúmeras dificuldades para manter a agremiação em seus primeiros anos de existência. Deste então a presença do patrono é constante na vida do clube.O Estádio, que se encontra em total abandono, tinha capacidade para oito mil expectadores.

Entre os valores revelados pelo clube, destacam-se o centroavante Mauro, que foi artilheiro do “Gauchão” de 1993, quando marcou 19 gols; Claudinho, artilheiro da “Segundona Gaúcha”, de 1990, também com 19 gols; o argentino Fábio de Los Santos, que depois jogou no Grêmio Portoalegrense; Cacaio, atacante que brilhou no Internacional, de Porto Alegre; Zambiasi, zagueiro artilheiro que foi figura destacada do Coritiba, onde marcou 18 gols; Pino, volante que atuou pelo Grêmio Portoalegrense e Claudiomiro, que começou como meia-armador e depois virou zagueiro, que defendeu o Coritiba, Santos, Vitória, da Bahia e Grêmio Portoalegrense, entre muitos outros.

O maior rival do Grêmio Santanense sempre foi o E.C. 14 de Julho, com o qual realizava o clássico Gre-Qua. Na cidade também havia o Fluminense (licenciado) e o Armour (licenciado). Entre os títulos conquistados estão 19 campeonatos municipais (1922, 1923, 1925, 1932, 1933, 1934, 1935, 1936, 1937, 1938, 1939, 1946, 1948, 1953, 1957, 1961, 1962, 1963 e 1977).

O clube só fica atrás do rival, 14 de Julho que tem 40 títulos municipais e foi tetra campeão Regional. Depois aparece o Armour com sete campeonatos e campeão da 2ª divisão da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), Fluminense com quatro e o Independente com apenas um.

Na galeria de troféus há uma conquista Internacional. Foi em 1975, quando o time se sagrou campeão da “Copa Internacional Rubens Hoffmeister”, realizada na Holanda. Ainda foi campeão do Interior Gaúcho (1937 e 1948); Campeão Gaúcho da 3ª Divisão (1967); Campeão da Região Fronteira (1925, 1935, 1937, 1939, 1946 e 1948); Vice-campeão do “Gauchão” da Série B (1991) e Vice-campeão da “Terceirona” (2000). E é claro, campeão estadual(1937) e vice-campeão estadual (1939 e 1948).

Em julho do ano passado, quando do encerramento das comemorações dos 189 anos de fundação de Sant’Ana do Livramento, o então prefeito Wainer Machado fez a entrega de diversas homenagens a entidades e empresas locais, e uma em especial dedicada ao esporte. O empresário Luis Paulo Dutra recebeu um diploma de Reconhecimento Público ao Grêmio Foot-Ball Santanense, que hoje está completando o seu centenário.

Para o ex-prefeito, o Grêmio Santanense é um dos clubes mais populares da Fronteira e continua fazendo história de garra e determinação, tendo sido inclusive campeão gaúcho, feito este obtido por poucos clubes do interior do Estado, fora do eixo da dupla Gre-Nal. (Pesquisa: Nilo Dias)

sábado, 1 de junho de 2013

A Majestade dos Gramados

Carlos Antônio Kluwe foi o primeiro grande jogador da história do S.C. Internacional, de Porto Alegre, único clube onde jogou. Nasceu no Passo do Valente, interior do município de Bagé, no dia 3 de janeiro de 1890. Era membro de uma família de origem alemã, que se dedicava a pecuária.

Na primeira década do século XX, após concluir os estudos preliminares, mudou-se para Porto Alegre para cursar Medicina. Logo que chegou na capital gaúcha, interessou-se pelo novo esporte que surgia, o foot-ball.

Mesmo sendo de origem germânica, Carlos Kluwe aproximou-se do Internacional, clube que fazia oposição ao germanismo no futebol. A família Kluwe gostava de futebol. Pouco depois da fundação do Internacional, Lothario, João e Guilherme Kluwe fundaram o 7 de Setembro, de Porto Alegre, no dia 15 de agosto de 1909.

Não há registro de que Carlos tivesse jogado pelo clube de seus parentes, mas sabe-se que logo após o Gre-Nal de 18 de julho de 1909 o atleta já era sócio do Internacional. Na segunda partida do Internacional, o empate em 0 X 0 com o Militar Foot Ball Club, no dia 7 de setembro de 1909, Kluwe estava em campo, atuando como atacante. Mas sua posição clássica seria de "center-half", um avô dos volantes.

Kluwe era um jogador muito alto, com 1m90 de altura. Chutava com os dois pés com a mesma facilidade e de qualquer distância. Dono de uma personalidade muito forte, logo se tornou o líder do time, dentro e fora dos gramados.

Foi com ele que o Internacional alcançou suas primeiras conquistas, tricampeão portoalegrense em 1913, 1914 e 1915. Kluwe estava em campo no dia 28 de setembro de 1913, quando o Internacional bateu o Frisch Auf por 5 X 1, no “Turner Bund”, e conquistou seu primeiro título municipal, de forma invicta. O time campeão municipal invicto de 1913 tinha esta formação: Russomano – Ari e Simão – Barbiéri – Carlos Kluwe e Tom – Túlio – Flores – Bendionda – Átila e Barão.

Comandou o Colorado no bicampeonato, em 1914, atuando ao lado de seu irmão, o lateral Ricardo Kluwe, mais conhecido por Bitu. Em 1915, seis anos após a fundação, o Internacional goleou o seu principal adversário, o Grêmio, por 4 X 1, em jogo amistoso. Foi a primeira vitória colorada em Grenais.

O time que ganhou o primeiro clássico para os colorados tinha a seguinte formação: Baes - Simão e Dorneles – Bitu – Carlos Kluwe e Lucidio – Túlio - Osvaldo, Bendionda - Muller e Vares. Em jogo oficial, Kluiwe não teve o gosto de ter vencido um Grenal, pois o Grêmio abandonou o campeonato de 1913, e nos dois anos seguintes atuou por uma liga paralela. Essa foi uma grande frustração de Kluwe.

Muitos creditam a ele a tradição de clube guerreiro e vencedor, que o time vermelho e branco ostenta até hoje. Teve papel decisivo para que o clube ultrapassasse os primeiros anos de vida.

Os cronistas esportivos da época o chamavam de “Majestade dos Gramados”. Em 1915, depois de se formar médico pela Faculdade de Medicina, pendurou as chuteiras, quando tinha apenas 26 anos de idade. Em 15 de abril de 1915, em Assembleia Geral realizada no “Palacete Rocco”, o Internacional lhe entregou uma medalha de ouro por sua formatura em Medicina.

Mas Kluwe não abandonou o clube. Se não estava mais dentro de campo, passou a participar das Diretorias, tornando-se diretor de futebol. Em julho de 1919, quando médico e como fizesse grande sucesso entre as mulheres por sua beleza física, um grupo de senhoritas, torcedoras do Internacional, organizou um abaixo-assinado em que pedia ao ex-jogador que atuasse em um clássico Grenal que seria disputado no Estádio dos Eucaliptos.

O pedido se justificava, porque o Internacional estava sem ataque. Na véspera do clássico os jogadores Bento, Guimarães e Assunção ficaram sem condições de atuar.

Mesmo estando sem jogar por quatro anos, ele aceitou o desafio e entrou em campo para marcar o primeiro gol da vitória colorada por 2 X 0. Como teve uma atuação destacada nessa partida, e conseguiu ganhar um Grenal oficial, Kluwe resolveu continuar jogando o resto da temporada e também no ano seguinte, 1920, quando participou de um jogo e novamente foi campeão.

Da Região da Campanha, onde nasceu Carlos Kluwe, surgiram outros grandes jogadores que integraram as primeiras equipes do Internacional, como Simão Alves da Silva Filho, o Simão Alves, Belarmino Carlos Leal D’Ávila, o “Bendionda” e Chico Vares, o notável ponteiro-esquerdo, todos oriundos de Santana do Livramento.

Uma das proezas de Chico Vares foi ter marcado todos os gols do Internacional, na primeira goleada aplicada ao Grêmio, em julho de 1916: 6 X 1. Dois outros jogadores nascidos em Livramento participaram da fundação do Internacional, Vicente Pires e Rivarol Padilha.

Em 1921 Kluwe foi clinicar em Caxias do Sul. Em 1923, retornou a Bagé, sua cidade natal, onde exerceu a Medicina por vários anos e foi também inspetor federal de Ensino e exator estadual da Fazenda. Como médico examinava os alunos das escolas da cidade, dava conselhos de Saúde a todos e recomendava sempre a prática de esportes. Ao ingressar na política, foi eleito prefeito municipal no período de 1948 a 1951.

Em 1949 criou uma lei na qual a prefeitura concederia bolsas de estudo a alunos dos Cursos de Admissão ao Ginásio, dos Cursos Ginasiais e dos Cursos Científico, Clássico, Normal e de Técnicos em Contabilidade, além de todos os cursos existentes no Instituto Municipal de Belas Artes, para alunos carentes.

Foi em sua gestão que a Prefeitura adquiriu o “Palacete Osório” e o emprestou para ser instalado o Colégio Estadual. Depois, costumava visitar o educandário quase todas as noites. Circulando pelos corredores e conversando com os professores.

Anos depois, no governo de Alceu Collares, o Estado reformou e construiu novos pavilhões para a Escola Carlos Kluwe, entregando o “Palacete Osório” ao município, que hoje o utiliza para sede da Secretaria de Cultura.

Outro costume de Kluwe era o de reunir-se depois do almoço com os amigos Floriano Rosa, Zezo Antunes e outros, no Clube Comercial, para disputadíssimos jogos de Xadrez.

Carlos Kluwe faleceu aos 76 anos, no dia 16 de setembro de 1966, em sua terra natal. Hoje, empresta seu nome a Escola Estadual de Ensino Médio Doutor Carlos Antonio Kluwe. Na praça central da cidade foi erguido um busto em sua homenagem. Uma rua da Vila Kennedy, na periferia de Bagé, também leva seu nome.

Sua atuação como médico também não passou despercebida, e no Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul, o “Fundo 33” leva seu nome, constando do diploma, fotos, biografia e matérias de jornais. E ainda hoje existem criadores de gado da família Kluwe, no Passo do Valente.

O professor e desembargador bageense, José Carlos Teixeira Giorgis, escreveu em 21 de janeiro do ano passado, no jornal “Minuano”, de Bagé, um artigo intitulado: “A majestade colorada”, em que homenageia Carlos Kluwe.

“Quando se entra no memorial recém inaugurado pelo Esporte Clube Internacional caminha-se por um espaço de memória e virtualidade, lembranças e glórias de passado e conquistas recentes. E se um bageense ali passeia encantado com as luzes e os sons, no meio de imagens e troféus encara fato que o abate de orgulho:

Entre as reduzidas vitrinas dedicadas a poucos atletas desponta homenagem a Carlos Kluwe, em ambiente enfeitado com o certificado da eleição como prefeito, o diploma de médico, fotos com familiares, e outros objetos doados por parentes.

Tudo organizado com devoção pela jovem pesquisadora bageense Júlia Preto de Vasconcelos. Ali se ostenta, ainda, uma placa de reverência (1968): “Médico dos pobres, educador da juventude, amigo de todos“, frase que resume existência invulgar. (Pesquisa: Nilo Dias)

Carlos Kluwe com a camisa do S.C. Internacional. (Foto: Acervo histórico do S.C. Internacional, de Porto Alegre)

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Os 100 anos do Parnahyba S.C.

No último dia 1 de maio o Parnahyba S.C. completou 100 anos de atividades. O clube foi fundado em 1 de maio de 1913, para fazer frente as equipes organizadas por imigrantes no litoral do Piauí, que chegaram ao Estado atraídos pelo ciclo da carnaúba, produto tipicamente piauiense, que vivia um período de alta valorização no mercado internacional. Esses estrangeiros vieram na maioria da Inglaterra e trouxeram junto o até então desconhecido futebol.

De imediato o pessoal da terra conheceu o novo esporte e o interesse por ele foi enorme, embora o futebol já tivesse chegado ao Brasil, mas não se expandido para aquela região. Tanto, que decidiram montar um time para competir em campo com os ingleses, fortalecendo uma rivalidade já existente na sociedade. Assim nasceu o Parnahyba S.C., a mais antiga equipe de futebol do Piauí, ainda em atividade.

O principal responsável pelo nascimento do novo clube foi José de Moraes Corrêa, conhecido como Zeca Corrêa. Filho de empresários parnaibanos, o jovem Zeca foi estudar na Inglaterra e lá conheceu o esporte que se tornava cada vez mais popular no mundo. De volta à sua terra natal, trouxe consigo algumas bolas e uniformes e juntou-se a alguns amigos para, no dia 1º de maio de 1913, fundar o Parnahyba Sport Club.

Mas o Parnahyba S.C. não foi o primeiro clube de futebol em Parnaíba. A história teve inicio quando um inglês conhecido como Mr. Anderson chegou na cidade, vindo da Inglaterra para visitar o amigo James Friederick Clark, proprietário da “Casa Inglesa”, exportadora de diversos produtos, em especial relacionados à carnaúba. Ele trouxe na bagagem uma bola de futebol para presentear Antônio Clark, filho de James.

A bola foi o que faltava para ser formado o time de futebol da “Casa Inglesa”, que recebeu o nome de Internacional. Esse time, formado por funcionários da firma e amigos marcou a história do futebol na cidade. Tanto é verdade, que o campo onde realizava seus jogos, foi o primeiro e o principal de Parnaíba por muito tempo. Nos anos 70 o Governo do Estado adquiriu a área e construiu o “CT Petrônio Portela”, que hoje é utilizado pelos demais clubes da cidade.

Com a fundação do Parnahyba, foi criada uma grande rivalidade contra o já existente Internacional. Os dois times tiveram origens em companhias inglesas instaladas na cidade. Como as duas empresas eram de Liverpool, aproveitou-se a rivalidade de lá para criar o “Camisa Azul”, inspirado no Everton e que deu origem ao Parnahyba SC. E o “Camisa Vermelha”, inspirado no Liverpool e que se tornou Internacional A.C. este já extinto.

Mas o futebol da cidade não se resumiu só a esses dois clubes. Com o passar do tempo surgiram várias outras agremiações, como o Tuna-Luso, Ferroviário, Paysandu e Fluminense, entre outras. Mas os anos se encarregaram de enfraquecê-las, ficando somente o Parnahyba que se mantém até hoje, quando chega aos 100 anos.

Nos seus primeiros tempos o Parnahyba colecionou títulos. Até a primeira metade do século passado o futebol do Piauí não tinha uma federação unificada. Os times de Teresinha jogavam um campeonato da cidade. Em Parnaíba havia uma Liga, que organizava os campeonatos locais, onde o Parnahyba S.C. se destacava papando títulos.

Na década de 1960, quando o profissionalismo chegou ao futebol piauiense, teve inicio um período de muitas dificuldades para o Parnahyba, que sem dinheiro para se manter vivo contou com a ajuda de amigos e parentes dos dirigentes. Por isso o clube ficou muito tempo sem ganhar nada. Teve de se contentar com apenas um vice-campeonato na década de 1970 e outro em 2003. Até que as coisas começaram a melhorar e conquistou um tricampeonato estadual em 2004/2005/2006.

A história do Parnahyba S.C. se identifica com a história da cidade. Suas origens são um orgulho para Parnaíba, pois o clube foi criado no início do século para manter uma identidade local dentro de um esporte "estrangeiro".

Uma família esteve agrupada ao clube em todos esses anos. Foram os Alelaf, que influenciados principalmente pelo patriarca Pedro, transferiu para filhos, netos, noras e toda uma gama de parentes e amigos, uma indescritível paixão pelo clube.

A história dessa família no Piauí teve início nas primeiras décadas do século passado, quando o imigrante sírio Calixto Alelaf chegou ao Estado com a mulher Ália para se instalar em Floriano, no Sul do Estado, fugindo da guerra que assolava seu país. Em solo piauiense nasceu em 18 de fevereiro de 1918, o filho mais novo, Pedro, único brasileiro entre todos os irmãos.

Na década de 1930, Salomão, um dos irmãos mais velhos, decidiu tentar a sorte em Parnaíba, seguido por Pedro alguns meses depois. No principio ganharam a vida trabalhando em uma loja de tecidos, para tempos depois, abrirem o próprio negócio, a “Casa das Sedas”.

Já adaptados a cidade e com o comércio indo a todo o vapor, Pedro e Salomão Alelaf envolveram-se no futebol local. A família sempre gostou do esporte, tanto que chegaram a montar um time em Floriano, chamado de “Sírio-Libanês”, composto por irmãos, primos e primas, que disputava jogos amistosos com outras equipes locais. A história de Pedro Alelaf, que até hoje é chamado de "Eterno Presidente do Parnahyba", foi bem mais longe que sua carreira de jogador do clube.

Como atleta atuou entre os anos 40 e 50. Os negócios andavam as mil maravilhas. Além da “Casa das Sedas”, passou a investir também em cinemas e outros pequenos negócios na cidade, construindo a base financeira que viria a sustentar o Parnahyba S.C. durante um bom tempo.

No final da década de 1950 ele já se apresentava como um dirigente esforçado do clube, até que 1969 assumiu a presidência pela primeira vez. Como o estatuto do clube não permitia que Pedro Alelaf fosse presidente vitalício, quando não podia ser reeleito indicava alguém para o cargo. E foi assim durante 40 anos. A sua vida esteve sempre intimamente ligada ao clube.

O envolvimento da família Alelaf com o Parnahyba não foi restrita a Pedro e Salomão. Todas as gerações posteriores sempre estiveram juntas do clube de alguma forma, como jogadores, dirigentes ou apenas como torcedores.

Alguns filhos de Pedro jogaram pelo Parnahyba, casos de Hélio, Petrarca e Calixto. Pedrinho Alelaf, meio-campista que atuou na década de 1950, é considerado um dos grandes jogadores da história do Parnahyba. Atualmente, um neto de Pedro joga nas categorias de base do clube.

A casa dos Alelaf foi também uma espécie de sede da agremiação. Os jogadores passavam boa parte do tempo por lá, costumavam tomar café e almoçar. Os uniformes do time eram lavados na casa. Alguém pode pensar que com toda essa ligação familiar com o clube, as conquistas de títulos foram muitas. Mas não foi assim. O Parnahyba nunca conquistou um título estadual quando presidido por Pedro Alelaf. O seu maior feito nesse período foi o vice-campeonato em 1976.

O motivo foi a falta de recursos para montar uma equipe forte e competitiva. O dinheiro vinha quase que exclusivamente das empresas de Pedro Alelaf. O poder público não apoiava em nada. No início da década de 2000 finalmente o clube passou a ter o apoio financeiro da prefeitura.

Pedro Alelaf não era mais o presidente, mas ainda viu o time do coração ser campeão do primeiro turno do Campeonato Piauiense em 2004. Não conseguiu ver o Parnahyba levantar a taça de Campeão Estadual, pois faleceu no dia 13 de abril daquele ano.

Os torcedores não o esquecem. É comum repetirem um gesto que se tornou característica de Pedro Alelaf, jogar o chapéu para cima, toda a vez que o time marcava um gol. Fundado em 1913, o clube é o mais antigo do estado, sendo recordista de público e renda nos Campeonatos Piauienses de 2004, 2005 e 2006.

Considerado o berço do futebol parnaibano, a história do estádio Petrônio Portela se confunde com a história do Parnahyba. Construído na década de 1920, pela “Casa Inglesa”, foi batizado originalmente por “Estádio Internacional”. Seu estilo arquitetônico semelhante aos estádios ingleses da época, único no Brasil, era símbolo do glamour das disputas do campeonato parnaibano no século passado.

Com o fechamento da “Casa Inglesa”, o estádio foi colocado à venda, sendo comprado pelo Governo do Estado do Piauí, na pessoa do então-governador parnaibano Alberto Silva, sendo, em 1973, doado ao Parnahyba Sport Club.

Após a construção do estádio “Mão Santa”, inaugurado em 1961 e com capacidade para 5 mil torcedores, o Parnahyba deixou definitivamente de mandar seus jogos no “Petrônio Portela”, que, "esquecido" já começa a sofrer os danos provocados pelo tempo e a falta de manutenção.

Restando apenas as ruínas da estrutura original, a diretoria do Parnahyba resolveu, em 2008, iniciar uma grande reforma de restauração e ampliação no estádio, transformando-o no Centro de Treinamentos da equipe profissional e das categorias de base. As primeiras etapas, que consistiam na recuperação da estrutura administrativa já foram contempladas.

O escudo atual é utilizado desde o inicio da década de 90. As duas estrelas representam o Bi-Campeonato Piauiense conquistado em 19/07/2005 no estádio “Albertão”, em Teresina, contra o time do Piauí Esporte Clube com vitória de 1 X 0.

Títulos conquistados. Campeão Piauiense: (1916/1924/1925/1927/1929/1930/1940/2004/ 2005/2006/2012/2013); Taça Estado do Piauí: (2004/2012); Taça Governador Alberto Silva (1988); Outras Conquistas. Campeonato Parnahybano: (1941- 1942 – 1944 – 1945 – 1946 – 1954 – 1961 – 1965 e 1967).

O hino do clube, composto originalmente por R. Petit, transformou-se anos mais tarde no hino oficial da Cidade de Parnaíba, fazendo parte de todas as cerimônias oficiais, tanto do clube quanto da cidade. (Pesquisa: Nilo Dias)

Jogadores do Parnahyba S.C., antes do clássico contra o Internacional. ( Foto-Reprodução: Instituto Histórico de Parnaíba)