Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Um botafoguense revolucionário

Os torcedores do Botafogo, do Rio de Janeiro costumam dizer que algumas coisas só acontecem com o clube. A superstição andou sempre lado a lado com o alvinegro.  Talvez muitas pessoas nunca tenham ouvido falar em Djalma Dutra. Ele jogou no Botafogo desde o glorioso ano de 1910, em que o clube conquistou seu primeiro título de campeão carioca.

A bem da verdade, Djalma, nascido em 1895, recém estava chegando ao clube, para jogar na Escolinha de Futebol. O Botafogo foi pioneiro na organização de categorias de base, no Rio de janeiro. Sua primeira escolinha se chamava Carioca F.C., criada em 1905. Depois foi extinta e o clube fundou em 1908 o Botafogo Infantil.

Djalma Dutra foi um dos astros dessa equipe. Em 1910, enquanto o time principal se sagrava campeão, os infantis venciam o maior rival da época, o Fluminense e levantavam o caneco do “Torneio Infantil”.

Foram dois jogos para decidir quem seria o campeão. No primeiro, realizado dia 30 de Junho de 1910, o Botafogo ganhou por 4 X 2. Os gols foram anotados por Paulo Azeredo e Mário Pinto, dois cada um. O time formou com Waldemar - Adolfo Couto e Carlos Amorim -  Ewaldo - Rui Bandeira e Paulo - Jorge Martins - Djalma Dutra - Mário Pinto - Paulo Azeredo e Tavares.

A segunda partida aconteceu em 3 de julho de 1910, om nova vitória botafoguense, dessa feita por 2 X 1. Mário Pinto e Djalma Dutra fizweram os gols. O campeão mandou a campo Mário - Augusto Tavares e Carlos Amorim - Adolfo Couto - Ewaldo e Kiki - Luiz Menezes - Djalma Dutra - Mário Pinto - Paulo Azeredo e Burlamaqui.

Djalma Dutra tinha tudo para seguir uma carreira exitosa no futebol. Quando chegou na idade de servir ao Exército, sua vida mudou por completo. Com espirito idealista, lutou com ardor por causas em que acreditava.

Cursou a Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, e em 1922 já estava envolvido em movimentos revolucionários. Foi considerado desertor quando servia no regimento de Dom Pedrito (RS), terra do operador deste blog e juntou-se a “Coluna Prestes”.

Depois que as tropas comandadas por Luiz Carlos Prestes, já desgastadas pela longa marcha, terem abandonado o território brasileiro, encerrando aquela fase da luta, exilou-se na Argentina junto com a maioria dos demais líderes revolucionários.

Em 1929, Djalma veio clandestinamente ao Brasil, junto de Siqueira Campos, que fora um dos líderes da “Coluna Prestes”, para preparar uma insurreição em São Paulo. A policia paulista os localizou em uma casa da rua Andrade e esperou que saíssem, recebendo-os à bala. Siqueira Campos regaiu também atirando, conseguindo escapar.

Djalma Dutra foi preso e levado para o Rio de Janeiro, tendo conseguido fugir pouco tempos depois, para  juntar-se novamente ao movimento revolucionário.

Com a derrota da candidatura de oposição a Getúlio Vargas nas eleições presidenciais, Djalma regressou para São Paulo em março, para preparar a deflagração do movimento armado que visava depor o presidente Washington Luís. Em Outubro, quando teve início a “Revolução de 1930”, encontrava-se em Minas Gerais, onde tomou parte em combates.

O movimento revolucionário do qual fazia parte ganhou força a partir do rompimento entre as oligarquias paulista e mineira, ambas ligadas a interesses de produção e exportação de café. Djama Dutra morreu em outubro de 1930 quando tomava parte na tomada do 4º Regimento de Cavalaria, sediado em Três Corações (MG).

Teve participação destacada na “Coluna Prestes”, tendo sido comandante de um dos quatro destacamentos em que se dividia o exército rebelde, que percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil entre 1925 e 1927.

Sua história não foi esquecida. Tanto é verdade que hoje é nome de rua em São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Recife, Manaus, Salvador, Belém, Presidente Prudente (SP), São Bernardo do Campo (SP),Araraquara (SP),  Olinda (PE), Niterói (RJ), Santos (SP), Senhor do Bonfim (BA), Pilares (SP), São José dos Pinhais (PR), Bacabal (MA), Escada (PE), Camamau (BA), Brejo Alegre (SP), São Sebastião do Paraíso (MG), Cruzeiro do Sul (AC), Nova Cruz (RN), Caruaru (PE), Iararé (SP), Glória do Goitá (PE), Altamira (PA), São João do Rio Peixe (PB), São Vicente (SP), Poções (BA) e Carpina (PE).

Além de identificar ruas em todas essas cidades, Djalma Dutra é nome de uma estação ferroviária e de um time de futebol amador em Divinópolis (MG). Djalma Dutra também foi nome da cidade baiana de Poções, durante algum tempo, mas em 1943 voltou a denominação anterior.

Para completar, Djalma Dutra também empresta seu nome a um vapor que transporta passageiros no rio São Fracisco, denomina um hospital municipal em São Luiz (MA) e a uma estação de metrô em São Paulo. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Santa Cruz centenário

O Santa Cruz, de Recife (PE), completa hoje 100 anos de atividades no futebol brasileiro. A história desse grande clube eu já publiquei no blog. Para conhecê-la é só acessar os endereços eletrônicos abaixo

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

O centenário do "Papão da Curuzu"

O Paysandu Sport Clube, um dos mais tradicionais clubes de futebol do Norte brasileiro foi fundado no dia 2 de fevereiro de 1914, uma segunda-feira, quando de uma reunião realizada na residência de Abelardo Conduru, na rua Pariquis, 22, que ficava entre as travessas Apinagés e São Matheus - hoje Padre Eutíquio. Portanto, hoje o Payssandu ingressa na seleta galeria de clubes centenários do futebol brasileiro.

Tudo começou a partir de um jogo do “Norte Club” contra o Guarany, realizado em 15 de novembro de 1913, e que terminou empatado em 1 X 1, tirando as chances de conquista ao titulo daquele ano, pois a equipe precisava vencer para disputar com seu rival, o Remo, um jogo extra para a decisão.

Os fundadores do “Norte Club” entraram com um recurso na Liga Paraense de Foot-Ball, pedindo a anulação da partida por irregularidades e a realização de um novo jogo. Porém a Liga julgou improcedente o recurso.

Com isso, o Grupo do Remo, atual Clube do Remo se beneficiou e ficou com o titulo. Revoltados, o pessoal do “Norte Club”resolveu fundar um novo clube - que viria a se tornar o maior da Região Norte do Brasil, o Paysandu.

Hugo Manoel de Abreu Leão, que jogava no “Norte Club”, foi o líder do movimento destinado a fundar a nova agremiação. Os integrantes do Grupo do Remo chegaram até a convidá-lo para ingressar no clube, idéia que foi repelida, de imediato, com a seguinte frase: "Vou fundar um clube para superar o Grupo do Remo".

Reuniões se sucederam e os componentes do “Norte Club” acabaram por se decidir pela extinção da agremiação, e pela fundação de outra, mais forte e com nova denominação. Da intenção a realização, foi rápido e uma reunião foi marcada para fundar o novo clube.

Ela aconteceu no dia 2 de fevereiro de 1914 e foi bastante concorrida, já que estiveram presentes nada menos do que 42 desportistas, a maioria deles integrantes do antigo “Norte Club”, também chamado de “Time Negra", por causa do uniforme preto e os restantes representantes do Internacional Sport Club, Recreativa e outros.

A reunião para fundação do novo clube foi dirigida por Hugo Manoel de Abreu Leão. Como secretário foi escolhido Humberto Burlamaqui Simões. Já na abertura dos trabalhos, Hugo propôs que a nova agremiação tivesse o nome de Paysandu Foot-Ball Club, como homenagem ao feito glorioso e heróico da Marinha de Guerra Brasileira, ao transpor o Passo do Paysandu, na guerra contra o Paraguai.

A sugestão de Hugo Leão foi motivo de acirrados debates na assembléia, que logo se dividiu em duas alas, uma a favor, e outra contrária, propondo o nome de “Team Negra Foot-Ball”. Feita a votação, registrou-se a vitória da denominação de Paysandu Foot-Ball Club.

A primeira Diretoria foi eleita após exaustivos debates e ficou assim constituída: Presidente, Deodoro de Mendonça; Vice-Presidente, doutor Eurico Amanajás; 1º Secretário, Arnaldo Moraes; 2º Secretário, Humberto Simões; Tesoureiro, Gastão Valente; Comissão de Sindicância, Pedro Paulo Pena e Costa, Manuel Marcus e Edgar Proença e Delegado perante a Liga, Hugo Manoel de Abreu Leão.

Para redigir o Estatuto do clube foram escolhidos os seguintes desportistas: Deodoro de Mendonça, Eurico Amanajás e Arnaldo Moraes. Como ainda não estavam organizados os primeiro e segundo times de futebol, a escolha dos “capitães” foi adiada. Ainda ficou definido que o número de associados não poderia exceder 50, sendo os 42 participantes da reunião considerados fundadores.

No dia 10 de fevereiro de 1914, uma nova reunião aconteceu e ainda na residência de Abelardo Conduru, quando a Diretoria foi tomou posse e aumentado para 100 o número de sócios. Na ocasião foi determinado que o uniforme do clube teria às cores azul e branca, em listras verticais e calções brancos. O escudo do clube, na altura do peito, teria as iniciais “PEC”.

O associado Bayma de Moraes foi contrário, ressaltando que preferia um uniforme totalmente branco. Devido o adiantado da hora, o assunto ficou para ser decidido em outra reunião, que aconteceu no dia 19 de fevereiro, na residência do presidente, doutor Deodoro de Mendonça, na Vila Amazônia, Estrada de São Braz 30-E , hoje avenida Braz de Aguiar.

Com a presença de número recorde de associados, de imediato o assunto “uniforme do clube” foi posto em discussão. Surpreendentemente, Mário Bayma de Moraes retirou sua proposta, o que determinou a aprovação unânime da sugestão de Hugo de Leão.

No dia 19 de fevereiro aconteceu nova reunião, quando foi trocado o nome do clube, passando de Paysandu Foot-Ball Club para Paysandu Sport Club. Na ocasião foi lido um oficio que seria remetido à Liga Paraense de Futebol, solicitando filiação do clube.

O primeiro jogo da história do Paysandu ocorreu no dia14 de junho de 1914, um domingo, quando da inauguração do campo da firma Ferreira & Comandita, atual “Curuzu”, que hoje pertence ao Paysandu Sport Club. O campo estava superlotado. A solenidade de batismo ficou a cargo da madrinha Mille Isolina Coutinho.

Ás 16 horas começou o primeiro clássico do futebol paraense, entre Paysandu e Grupo do Remo (depois mudou o nome para clube do Remo). O doutor Deodoro de Mendonça, representando o Independente, de Belém, deu o ponta-pé inicial.

Graças a um pênalti marcado no finalzinho do jogo, dizem que duvidoso, o Remo venceu por 2 X 1. O juiz foi o doutor Guilherme Paiva. Nos primeiros anos de vida, o Paysandu viu o Grupo do Remo reinar no futebol paraense, foi heptacampeão estadual entre 1913 e 1919.

A primeira formação do Paysandu Sport Club foi esta: Eurico Romariz - Genaro Bayma de Moraes e Sylvio Serra de Moraes Rego - Jaime Bastos Cunha - Moura Palha (Gigi) e George Mitchell – Matheus - Maurilio de Souza Guimarães - José Pinheiro Garcia - Hugo de Leão e Arthur Pereira Moraes.

A primeira vitória do Paysandu contra o Remo ocorreu no dia 31 de janeiro de 1915. Foi na estréia do jogador “Suiço”, primeiro ídolo do clube. O Paysandu ganhou por 2 X 0. Esse jogador foi fundamental na campanha do primeiro título paraense da história bicolor, em 1920, quebrando a série de sete taças seguidas do Remo. Nos três anos seguintes, o craque do “Papão conduziu” o clube ao tetracampeonato.

O Paysandu já foi chamado de “Clube do Suiço”. Isso se deve ao fato de Antônio Barros Filho, o “Suíço”, ter sido um dos grandes futebolistas que o Pará conheceu em toda a história. Embora tenha nascido no Pará, em 1899, ganhou o apelido depois de ter morado na Suíça por algum tempo.

Morreu ainda moço, com apenas 23 anos, no dia 2 de julho de 1922. Dizem que “Suiço” era um excelente jogador, que atuava com eficiência em qualquer posição. Mas se dava melhor como lateral esquerdo ou centro-médio. Foi sempre o “capitão do time” no Paysandu, função que, na época, incluía a de treinador.

O primeiro time de “Suiço” foi o Guarany Football Club, da avenida José Bonifácio. No campeonato de 1914, o time de “Suiço” perdeu para o Paysandu por 4 X 1. Foi a primeira competição disputada pela nova agremiação. No ano seguinte “Suiço” foi jogar no Paysandu, fazendo seu jogo de estréia em 31 de Janeiro de 1915. Atuando na meia-direita, ajudou o seu novo time a derrotar o Clube do Remo, por 2 X 0.

A importância de “Suiço” no Paysandu foi tão grande, que o clube guarda até hoje em um armário envidraçado na sede social, o último uniforme que o ídolo usou: camisa, calção, meias e chuteiras. E, na parede, pendurado por cima desse armário, o retrato emoldurado do ex-jogador.

Contam que num clássico frente o Remo, no dia 15 de julho de 1923, válido pelo Campeonato Paraense, quando o escore estava em 0 X 0, o juíz marcou pênalti contra o Paysandu nos minutos finais. “Suiço” teria dito ao goleiro João Moraes, de seu time, que se jogasse para o lado direito.

E o goleiro não teve dúvida, fechou os olhos, ouviu o apito, e jogou-se para o lado direito. Defendeu e rápido, chutou a bola para frente, o atacante Vadico, livre, pegou a bola e fez 1 X 0, dando a vitória ao Paysandu.

O segundo jogo da história do Paysandu aconteceu no dia 14 de julho de 1914, quando enfrentou o Ipiranga, pelo campeonato estadual. Nesse jogo houve um pênalti a favor do Paysandu, que Hugo, encarregado da cobrança ficou de costas para o goleiro e de calcanhar mandou a bola para a rede, fazendo o 6º gol do seu time.

Isso provocou a maior "bronca". Hugo foi tachado de "mesquinho" e outros "carinhosos elogios", inclusive pela imprensa, mas deu a todos a devida resposta. Resultado desse jogo 14 X 3 para o Paysandu.

São consideradas como primeiras sedes do Paysandu às residências de Abelardo Conduru e de Deodoro de Mendonça, esta uma bonita casa, cuja frente foi demolida e hoje transformada em um bar. No final de 1914 e até fevereiro 1915, a sede foi fixada na residência de Edgar Proença, na Vila Amazônia, Passagem Mac Dowell, de onde foi para a sede da associação Dramática, Recreativa e Beneficente, pois era estudada a fusão das duas entidades, o que acabou não acontecendo.

Posteriormente o Paysandu ocupou as seguintes sedes: 1915, antiga “Estação dos Bondinhos”, na São Matheus 170, entre Pariquis e Caripunas. No local construiu, nos fundos, um campo de futebol que, depois, foi do Ibérico e do Liberto. Hoje o terreno está todo edificado.

Em 1918, ocupou o alto do prédio de número 4, da rua Lauro Sodré, hoje “Ó de Almeida”, esquina com a São Matheus, frente a Praça Saldanha Marinho. Em 1919 foi para a Serzedelo Correa 25-A, frente a Praça Batista Campos, num prédio que já foi demolido. No ano de 1920, mudou-se para a Travessa do Carmo nº 1, altos da garage Náutica.

E, finalmente, em maio de 1926 mudou-se para a Avenida Nazaré 66 (hoje 404), cujo prédio foi adquirido em 1927, por 50 contos de réis, remodelado e mais tarde demolido para dar lugar à sede atual.  No local funciona a Presidência, Diretoria do Clube, Secretaria e Departamento Administrativo/Financeiro.

O primeiro campo do Paysandu foi no Bairro do Souza,  ao lado do Instituto Lauro Sodré,  e serviu para treinamentos, embora se saiba que no local também foram realizados alguns jogos amistosos.

Posteriormente teve um outro campo que se localizava atrás da sede da travessa São Matheus 170, com a rua Caripunas. A arquibancada foi inaugurada dia 16 de abril de 1916, um domingo, com caprichada programação esportiva.

O atual Estádio do Paysandu é o Leônidas Castro, também chamado de “Curuzu”, localizado na rua Almirante Barroso, antiga Tito Franco. A área pertenceu a Firma Ferreira & Comandita, que construiu e inaugurou a praça de esportes em 14 de junho de 1914.

O Campo também é chamado "Vovô da Cidade". Hoje pertence ao Paysandu graças a Leônidas Sodré de Castro, cujo nome foi dado ao campo. Ele teve grande influência na compra da atual sede, ocorrida em 1918 por 12 contos de réis. Presidiu o Paysandu de 2 de fevereiro de 1930 à 2 de fevereiro de 1931 e participou de outras diretorias.

No final da década de 30 o Paysandu passou a ser conhecido como “Esquadrão de Aço". Em 1947 sagrou-se pentacampeão estadual. Dois anos antes, no dia 22 de julho, o “Papão” goleou o eterno rival, Clube do Remo, por 7 X 0, maior goleada da história do clássico.

Vinte anos depois, em 1965, outro feito célebre para a história do clube foi a vitória por 3 X 0 sobre o Peñarol, do Uruguai, que era base da seleção nacional, no Estádio da “Curuzu”, durante excursão da equipe pelo Brasil.

Em 1990, depois de décadas obscuras, fazendo campanhas discretas na Série A do Brasileirão e disputando algumas temporadas na Série B, o time disputou, pela primeira vez, a Série C, alcançando a quinta colocação e o consequente acesso à Segundona. Em 1991, então, conquistou a Série B pela primeira vez, feito que se repetiu em 2001.

O início do milênio foi marcante para o clube, campeão da “Copa Norte”, em 2002, e da “Copa dos Campeões”, no mesmo ano. Ganhou com isso o direito de disputar a “Copa Libertadores da América” no ano seguinte.

O time surpreendeu positivamente na competição sul-americana, chegando às oitavas de final, e proporcionando um feito histórico, ao bater o Boca Juniors, da Argentina, por 1 X 0, em plena “Bombonera”. Na volta, porém, em Belém, o time bicolor perdeu por 4 X 2 e foi eliminado.

Após quatro temporadas na série A, o time despencou, e em dois anos foi parar na Série C, onde permaneceu por seis anos. Em 2012, no entanto, voltou à série B, caindo novamente em 2013 para a Série C.

Vale a pena contar que a família Couceiro tem forte ligação com o Paysandu, iniciada em meados de 1940, quando o português Armando Diogo Couceiros se estabeleceu em Belém. Comprou uma mercearia que na época era chamada de “Casa Paisandú”.

Alí começou uma história que mistura paixão clubística, tradição familiar, folclore e muito trabalho em prol do “Papão”. Já são quatro gerações de bicolores a participarem da vida do clube que hoje se torna centenário.

Acreditando que o nome da mercearia tinha a ver com o clube de futebol, Armando Couceiro logo se associou ao Paysandu. A cada jogo do time levava seus 11 filhos ao “Estádio da Curuzu”, para assistir os jogos. Um deles, Abílio Couceiro, foi assessor de imprensa no clube. Depois, foi diretor de futebol.

Em 1964, Abílio foi um dos responsáveis pela contratação do goleiro Castilho, do Fluminense, do Rio de Janeiro, que havia ganho passe livre pelos 20 anos de serviços prestados pelo clube. Foi uma grande contratação. Depois dele ainda foram contratados Rubilota e Bené.

Abílio Couceiro ainda era diretor de futebol, quando de um dos momentos mais marcantes na história centenária do Paysandu: a vitória diante do Peñarol por 3 X 0, em 18 de julho de 1965. O time uruguaio era campeão da Libertadores e do Mundo e servia de base para a Seleção do Uruguai.  Os gols foram marcados por “Pau Preto”, Milton Dias e Ércio.

Já seu irmão, Antônio Couceiro foi mais longe. Foi presidente do Conselho Deliberativo, da Junta Governativa, fez parte da comissão que construiu parte do Estádio da “Curuzu” e chegou ao cargo de presidente do Paysandu em 1983/1984.

Entre os fatos marcantes que viveu no “Papão”, Antônio destaca o clássico “Re-Pa”, realizado no Estádio “Baenão”, que decidiu o Terceiro Turno do Campeonato Paraense de 1972. Os bicolores venceram por 1 X 0, gol de Alfredinho, com o maior rival acertando a trave por sete vezes. Antônio Couceiro guarda um pedaço dessa trave como o seu maior troféu enquanto esteve no Paysandu.

Além de Abílio e Antônio, o outro irmão, Celso Couceiro, viveu intensamente o Paysandu. Apesar de ter sido diretor de futebol em 1983, foi no boliche que ele teve as maiores conquistas. Atleta durante 11 anos, Celso foi campeão paraense por nove vezes. A tradição dos Couceiro ultrapassou a segunda e chegou até a terceira geração com Tony e Leopoldo, filhos de Antônio, e Abílio, filho de Abílio Couceiro.

Leopoldo é considerado até hoje o presidente mais novo de um Conselho Deliberativo do futebol brasileiro, cargo que ocupou em 1994, aos 18 anos. Tony é diretor de projetos especiais do clube e responsável pela obra que vai construir um hotel para concentração dos jogadores na “Curuzu”, enquanto que Abílio fez parte das categorias de base do clube e atualmente é membro do Departamento de Marketing.

Os primos já preparam a quarta geração dos Couceiro, com Felipe, filho de Leopoldo, e Arthur, filho de Tony, ambos com 16 anos. No momento, eles são apenas torcedores, mas garantem que pensam em seguir os passos do avô, tios e pais e perpetuarem a história vitoriosa e cheia de significados de uma das famílias mais tradicionais e que comemoram com muito orgulho o centenário bicolor.

O Paysandu é o clube com maior número de títulos da Região Norte. Já conquistou o Campeonato Paraense em 45 oportunidades, três vezes a mais que o Remo, o que lhe dá a condição de segundo maior campeão de Estaduais do país. Por duas vezes ganhou o Campeonato Brasileiro da Série B. Tem um título de campeão da Copa Norte e outro de vencedor da Copa dos Campeões de 2002. É o único clube da Região Norte que participou de uma “Copa Libertadores da América”.

Atualmente é o clube nortista mais bem posicionado no ranking da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o único a figurar no ranking mundial de Clubes da Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS), fato que se deve as grandes campanhas, tanto no Campeonato Brasileiro como na Taça Libertadores da América de 2003. Nesse ano foi considerado o clube que mais evoluiu no planeta no início do século XXI.

Possui a maior torcida da Região Norte e a 19ª do Brasil, segundo o levantamento feito pelo Instituto de pesquisa “Pluri Stochos”, realizado entre novembro de 2012 e fevereiro de 2013.

A mascote do Paysandu Sport Club foi criada em 1948 pelo jornalista Everardo Guilhon, com o codinome de "Bicho-Papão". A inspiração do jornalista baseou-se no temor que o “Esquadrão de Aço”, como era conhecido o time naquela época, passava aos seus adversários no campo de jogo. No decorrer do tempo, ficou conhecido como o famoso "Papão da Curuzu", o maior papão de títulos de futebol do Norte do País. (Pesquisa: Nilo Dias)

O primeiro time do ainda Paysandu Foot-Ball Club. Em pé: Bayma - Romariz e Sylvio. Ajoelhados, no meio: Jaime, Moura palha e o inglês Mittchel. Sentados: Mattheus, autor do primeiro gol da história do clube, Guimarães, Garcia, Hugo Leão e Arthur Moraes. (Foto: Arquivo fotográfico do clube)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Orlando "Gato Preto"

Orlando Alves Ferreira, o “Gato Preto”, nasceu no dia 25 de julho de 1940, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Começou a carreira de futebolista em 1958, aos 18 anos, no São Cristóvão, que na época  era uma referência entre as equipes suburbanas cariocas. Ficou em “Figueira de Melo” até 1962. O apelido de “Gato Preto” se devia a sua grande elasticidade e agilidade, além de ser negro.

Em 1963 o goleiro foi contratado pela Portuguesa de Desportos, de São Paulo, onde foi companheiro inseparável do grande goleiro Félix, com quem revezou por muito tempo no arco da lusa. Também foi companheiro dos goleiros Aguilera, Carioca, Aguinaldo, Edson Mug e Zecão durante sua trajetória pelo Canindé.

Em 1964, numa excursão da Portuguesa de Desportos pelos Estados Unidos, após o nono gol, contra o Massachusetts, o goleiro Félix foi jogar de centroavante para permitir a entrada de Orlando. E curiosamente, Félix marcou o décimo gol da “Lusa”, numa partida que terminou 10 X 1.

Em 1973, com 33 anos de idade, Orlando foi suplente na campanha vitoriósa do título paulista naquela jornada contra o Santos. O goleiro titular era Zecão, que hoje mora na cidade de Sorocaba, no interior paulista.

No curriculo de Orlando consta um feito histórico, o de ter sido o último ganhador do “Prêmio Belfort Duarte”, em 6 de setembro de 1973. Era um prêmio concedido aos jogadores profissionais que completassem mais de 200 partidas oficiais de futebol ou ficassem durante 10 anos sem sofrer uma única punição.

Orlando ainda vestiu as camisas do Sampaio Correia (MA), Operário de Campo Grande (MS) e Operário de Várzea Grande (MT), time onde encerrou a carreira em 1976. Chegou a ser treinador de goleiros da própria Portuguesa e do Juventus. Depois, para passar o tempo, jogou no time amador do Milionários, que era formado por ex-jogadores de futebol.

A militância de Orlando no futebol aconteceu num tempo em que eram raros os goleiros negros. Até então os exemplos marcantes se resumiram a Barbosa, Veludo, Barbosinha, Ubirajara, Alcântara, Mão de Onça, Dimas Monteiro, Tobias e Jairo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Orlando "Gato Preto", quando defendia o São Cristóvão, do Rio de Janeiro. (Foto: Museus dos Esportes)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A praga de "Arubinha”

O programa “Globo Esporte”, da Rede Globo, apresentou uma série de reportagens contando histórias vividas no futebol carioca. Em uma delas contou parte da famosa praga rogada pelo ponta-esquerda "Arubinha", do Andarahy, clube extinto do Rio de Janeiro. O fato teria ocorrido no dia 30 de dezembro de 1937, uma quarta-feira, depois que o Vasco da Gama aplicou uma goleada de 12 X 0 no adversário.

O time da "Cruz de Malta" lutava pelas primeiras posições no campeonato. A chuva começou cedo e continuou por toda a tarde e chegou até a noite. Normalmente, nessas condições, o jogo seria transferido. Mas ninguém lembrou disso, pois era uma partida sem muita importância, pois todos sabiam que o Vasco ia vencer. E jogo assim não se transfere.

O Andarahy alugou alguns carros, saiu com o time da praça Sete e foi sem problemas até as Laranjeiras. Às 21 horas em ponto, o juíz Haroldo Dias da Motta entrou em campo, com as calças arregaçadas. E dê-lhe apito chamando as duas equipes, pois com um tempo daqueles, quando mais cedo o jogo começasse, melhor.

O Andarahy entrou em campo, mas nada do Vasco. Fizeram a volta do gramado, levantaram urras para as arquibancadas vazias. E toca a esperar pelo Vasco. Haroldo Dias da Motta apitou com mais força, talvez os jogadores vascaínos não tivessem escutado.

Mas o imprevisto havia ocorrido, um acidente de trânsito fez com que a delegação vascaína se atrasasse em mais de uma hora. Na esquina de Figueira de Melo com Francisco Eugênio, apareceu um caminhão da limpeza pública e pegou um dos carros cheio de jogadores do Vasco, e havia feridos graves.

Oscarino fora para o raio X, estava com uma costela partida. Também Rey não poderia jogar, nem Mamede e Cuco. Os outros jogadores saíram do Pronto Socorro em direção ao estádio. Isso foi determinante para que o Andarahy esperasse pelo adversário. A voz geral era de que o Andarahy queria mais a amizade do Vasco, que os improváveis dois pontos.

O Andarahy, se quisesse teria ganho os pontos daquele jogo, mas preferiu esperar que o adversário chegasse. Isso custou caro, o Vasco não quis saber de agradecimentos e aplicou uma estrondosa goleada de 12 X 0. Dizem que antes do jogo começar, "Arubinha" teria feito uma advertência: “Eu só peço uma coisa: que o Vasco não abuse do escore".

E por aí começa a história do “Sapo de Arubinha”. Quando o jogo acabou, ele teria se ajoelhado ainda dentro do campo, juntado as mãos, olhado para cima e dito em alto e bom som: "Se há um Deus no céu, o Vasco tem de passar 12 anos sem ser campeão".  Ou seja, um ano por gol sofrido na goleada de 12 X 0. Se o clube da "Cruz de Malta" tivesse feito só 1 X 0, ou no máximo 3 X 0, nada disso teria ocorrido

Uns dizem que "Arubinha" não se contentou com isso e que no dia seguinte foi até São Januário para reforçar a praga. Entrou escondido no gramado e enterrou um sapo com a boca costurada, ao mesmo tempo em que repetia a praga dita logo após o jogo. Mas o fato é que o Vasco passou a perder jogos inesperados e acabou a temporada em terceiro lugar, oito pontos atrás do campeão, o Fluminense.

Os anos se passaram e nada do Vasco ser campeão. Os dirigentes, que a principio não acreditavam na história do sapo, mandaram revolver o campo, mas não acharam nada. O negócio foi chamar o "Arubinha" e lhe oferecer dinheiro para que contasse onde havia enterrado o sapo. Mas ele negou que tivesse feito isso. Disse que era tudo história de torcedor.

E a praga continuou a fazer estragos. O Vasco gastava rios de dinheiro contratando os melhores jogadores, mas não ganhava nada. Tudo indicava que tinha mesmo um sapo enterrado em São Januário. E ainda uma dúvida pairava sobre os vascaínos: a praga dos 12 anos começava em 1937, ou a contar de 1934, quando o Vasco fora campeão pela última vez?

O Vasco nem contou o campeonato de 1936, que ganhou fora da Liga Carioca, onde estavam Fluminense, Flamengo e América. A Federação Metropolitana, que tinha Vasco, Botafogo, Bangu e São Cristóvão, era a entidade oficial.

A conclusão era de que se fosse contar com o campeonato de 1936, o da Federação Metropolitana, o clube teria de esperar mais tempo para que a praga se cumprisse. Talvez só fosse campeão em 1948. Por isso, todo vascaíno torceu para que a praga vigorasse a partir de 1934. O Vasco só voltou a ser campeão em 1945, onze anos depois.

Tem gente que lembra a goleada de 24 X 0 que o Botafogo impôs ao Mangueira. Mesmo sem que se tenha conhecimento de alguma praga, a verdade é que depois disso o Botafogo teve de esperar 20 anos para ser campeão de novo. Em resumo, se tivesse vencido de 4 X 0, certamente não precisaria esperar tanto tempo para levantar a taça outra vez.

Pode até ser verdade que "Arubinha" nunca tenha enterrado sapo algum no gramado de São Januário, mas a verdade é que o Vasco penou 11 anos sem ganhar nada. Teria sido efeito da praga ou apenas uma coincidência? Ninguém pode explicar. E assim vai ficar para toda a eternidade, pois "Arubinha" morreu por volta dos anos 80. (Pesquisa: Nilo Dias)

O jornalista Mário Filho escreveu um livro em que conta a história de "Arubinha". (Foto: Divulgação)

domingo, 26 de janeiro de 2014

O “Jogo da Paz”

Em 18 de agosto de 2004 a Seleção Brasileira de Futebol esteve em Porto Príncipe, no Haiti, para o chamado “jogo da Paz”, um amistoso frente a Seleção Nacional daquele país tão devastado por problemas de toda a ordem, o que chamou a atenção da sociedade internacional. Tanto é verdade que o jogo foi transmitido pela TV para mais de 100 países.

O acontecimento se deu por iniciativa do ex-presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva, que gostou da sugestão dada pelo primeiro ministro do Haiti, na época, Gérard Latortue, que disse preferir a presença da Seleção de Futebol do Brasil, em seu país, que o envio de soldados.

O Brasil liderou a ocupação militar proposta pela ONU, iniciada em 2004. Naquele período, o Haiti, país mais pobre das Américas, passava por uma grave crise política, com 80% da população vivendo abaixo da linha da pobreza e 50% eram analfabetos.

O amistoso proporcionou uma grande festa. Até o ex-jogador haitiano Emmanuel Sanon, o “Manno”, considerado um herói nacional, voltou ao país depois de 30 anos fora, para assistir o jogo.

Em 15 de junho de 1974, na Copa do Mundo disputada na Alemanha, “Manno”, marcou o gol da Seleção do Haiti cotra a Itália, quebrando um recorde do goleiro italiano Dino Zoff, que não levava um gol havia 1.143 minutos, ou 12 jogos.

O gol foi uma pintura. “Manno” driblou Zoff e colocou a bola na rede. Embora o jogo tenha terminado com uma vitória da Itália por 3 X 1, aquele gol fez o povo haitiano, que vivia sob a ditadura de Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier, vibrar de alegria. Depois da Copa, “Manno” foi jogar na Europa e nunca mais havia voltado ao Haiti.

O ex-presidente “Lula”, um notório fã do futebol, encaminhou a ideia a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que de imediato aceitou. A entidade dirigente do futebol brasileiro precisava estreitar seus laços com o poder público e com a FIFA, para sediar a Copa do Mundo de 2014.

Com o aval da FIFA, o “Jogo da Paz” foi oficializado. “Lula” esteve presente e fez questão de apertar as mãos de todos os jogadores brasileiros, antes da bola rolar.

Por questões de segurança, a delegação brasileira desembarcou no Haiti apenas duas horas antes da partida. O Haiti estava totalmente destruído por causa da guerra civil e não tinha condições de hospedar os jogadores brasileiros.

Por isso, a seleção ficou em Santo Domingo, na República Dominicana, e viajou por cerca de uma hora e meia de avião até Porto Príncipe, local do amistoso. Do alto, ainda no avião fretado, era possível ver a difícil situação do país.

O mar no litoral era negro, totalmente poluído pelo esgoto que era despejado sem qualquer tratamento. Não havia reservatórios de água doce, a cidade era seca. Sem prédios e com 90% das ruas sem asfalto.

Os jogadores brasileiros foram recepcionados pelo Exército Brasileiro. No comando estava o general Augusto Heleno. A seleção foi dividida em três tanques de guerra e seguiu para o estádio, que ficava a cinco quilômetros de distância. A imprensa foi em outros dois blindados e saiu atrás.

Foi um “city tour” pela miséria do país. Milhares de pessoas foram às ruas para recepcionar os jogadores. De bicicleta ou correndo, os haitianos tentavam acompanhar os ídolos brasileiros.

A pobreza impressionava. Em alguns trechos era possível observar mães dando banho em crianças com a água que saía do esgoto. Paralela ao “Jogo da Paz” foi promovida uma campanha de desarmamento junto à população.

O primeiro-ministro Gérard Latortue, chegou a oferecer US$ 1.000 para quem marcasse um gol na Seleção Brasileira. O valor era uma verdadeira fortuna no país. E também garantiu dar de seu próprio bolso, US$ 100 para cada jogador em caso de vitória. Mas o político haitiano acabou fazendo economia, pois o escore foi de 6 X 0 para o Brasil.

O jogo foi realizado no "Estádio Sílvio Cator", em Porto Príncipe. Os gols foram marcados por Ronaldinho Gaúcho (3), Roger (2) e Nilmar. O juiz foi o brasileiro Paulo César de Oliveira. Estima-se que 15 mil pessoas assistiram o jogo, entre elas 300 crianças órfãs da Aids (existem 300 mil ao todo no país), que foram convidadas pela Unicef.

O Brasil mandou a campo Julio Cesar (Fernando Henrique) – Belletti - Juan (Cris) - Roque Júnior e Roberto Carlos (Adriano) - Gilberto Silva (Renato) - Edu (Magrão) - Juninho Pernambucano e Roger (Pedrinho) - Ronaldo (Nilmar) e Ronaldinho Gaúcho. Técnico: Carlos Alberto Parreira

O Haiti jogou com Gabard (Luiogi) – Descouines - Bruny (Desir) - Jacques (Peter Germain) e Stephane – Mones – Guillaune - Bourdot (Barthelmy) e Dersi - Telamour (Gilles) e Mac Herold Max. Técnico: Carlo Marcelin.

Essa foi a segunda vitória da Seleção Brasileira sobre a haitiana, em dois jogos disputados. O primeiro foi em 21 de abril de 1974, em Brasília, goleada de 4 X 0.

Em 2005, foi exibido na “Mostra Internacional do Cinema de São Paulo” o documentário de Caíto Ortiz e João Domelas, “O dia em que o Brasil esteve aqui”, que conta a história dessa partida. (Pesquisa: Nilo Dias)

O povo haitiano saiu as ruas para aplaudir a Seleção Brasileira. (Foto: Promocional)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O "Tigre de Atenas"

O Jaboticabal Atlético, da cidade de Jaboticabal (SP), começou a ser fundado quando os desportistas Alcides Cunha, Emydio Lino Moreira Junior e José Alampary Palhares tiveram a  idéia de preparar o Estatuto de um clube de futebol, que pretendiam organizar no futuro. Depois de concluída essa primeira tarefa, o segundo passo era visitar pessoas que pudessem fazer parte da Diretoria.

Foi assim que no dia 28 de abril de 1911 chegaram à casa de Antonio Martins Bastos, que se juntou a eles. E de imediato sugeriu o nome do engenheiro canadense, Robert Todd Locke, que morava na cidade, para liderar o movimento. Outras pessoas, porém, indicavam o desportista Alcebíades Fontes Leite para presidir o clube. Porém, este também deu apoio ao doutor Locke, que acabou eleito por consenso.

No dia 29 de abril por volta das 19h30min, uma comissão composta por Carlos Buck, Antônio Martins Bastos, Alcebíades Fontes Leite, Cosme Mendes e Antonio Severo, foi até a chácara do engenheiro para lhe fazer o convite.

No dia 30 de abril por volta das 10h30m, o doutor Locke foi até a redação do “O Combate”, quando teve uma longa conversa com o jornalista Carlos Buck, fundador e dono do jornal e ficou a par de que o novo clube tinha por alvo futebol e tênis. Na oportunidade também indicou para ser seu vice-presidente o desportista Antonio Severo, seu amigo pessoal.

E com tudo resolvido antecipadamente, no dia 30 de abril de 1911 foi oficialmente fundado o Jaboticabal Atlético com às cores branca e preta. A reunião começou por volta das 20 horas, nos escritórios de “O Combate”. A primeira Diretoria ficou assim constituída: Presidente, doutor Robert Todd Locke; Vice Presidente, Antonio Severo; 1º Secretário, doutor Alcebíades Fontes Leite; 2º Secretário, professor Emydio Lino Moreira Junior; Tesoureiro, Gomes Mendes; Diretor Esportivo, José de Alandary Pallares e membros da Comissão de Sindicância, Antonio Martins Basso, Carlos Buck e Alcides Cunha.

A origem da mascote do Jaboticabal Atlético é muito antiga e remonta ao início da década de 1930. Naquela época, a cidade de Jaboticabal era um importante centro econômico e cultural, chamada de “Atenas Paulista”. Em campo, o time passeava na disputa dos torneios do Interior pela APEA, liga de futebol da época. Seus resultados levavam temor aos adversários e a torcida passou a chamar a equipe de “Tigre da Atenas”.

Foi assim que surgiu o clube que fez história no futebol do interior paulista, sendo uma das equipes que possui o maior número de títulos das séries de acesso do Campeonato Paulista de Futebol. Em 1938 o Jaboticabal ganhou de todas as equipes da região, inclusive de Comercial e Botafogo, de Ribeirão Preto.

Depois de uma série de 34 jogos, com 24 vitórias, quatro empates e quatro derrotas, seus feitos correram as cidades, e aonde chegava, o time era chamado de “Esquadrão de Aço”.

O Jaboticabal foi campeão da 4ª Divisão, atual Série B, em 1989 e 1996, e da 3ª Divisão, atual A3, em 1990. Atualmente disputa a Série B, 4ª Divisão do Campeonato Paulista.

O clube é proprietário do Estádio Doutor Robert Todd Locke, que tem capacidade para 10.159 expectadores. Palco de grandes conquistas do clube alvi-negro, o estádio corria o risco de ser demolido depois de ter sido vendido em leilão acontecido no dia 3 de dezembro de 2009, pelo valor de R$ 1,38 milhão, para pagamento de dívidas trabalhistas.

Para garantir a preservação desta importante página da história jaboticabalense, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural de Jaboticabal decidiu pelo tombamento total do prédio, em reunião realizada dia 10 de outubro de 2011, na Prefeitura Municipal da cidade.

O estádio é um dos mais imponentes do interior paulista e é cheio de história. O nome é uma homenagem ao primeiro presidente e um dos fundadores do clube, no ano de 1911. O canadense Robert Locke presidiu a equipe até o ano de 1922, quando deixou o cargo por problemas particulares.

A inauguração do estádio aconteceu em 14 de abril de 1912, quase um ano depois da fundação do clube, quando este ganhou do Esporte Clube Pitangueiras por 4 X 2. O primeiro gol do estádio foi de autoria do jogador Linardi.

Títulos conquistados. Campeão do Oeste Paulista (1915); Campeão da 11ª Região (1944); Campeão da 6ª Região do Interior (1947); Campeão Interestadual de Basquete (1948); Vice-Campeão Paulista A2 (1956); Campeão Individual da 9ª São Silvestre (1957); Campeão do Jubileu de Ouro (1961); Campeão Regional Dente de Leite (1970); Vice-Campeão Paulista 2ª Divisão (1979); Campeão Regional Juvenil (1979); Campeão Paulista - 2ª Divisão (1989 e 1996); Campeão Paulista - Série A3 (1990); Campeão em Equipe da 42ª São Silvestre (1990); Vice-Campeão do Torneio Mateus Marinelli (1992); Campeão Regional de Basquete Masculino (1993); Campeão do Torneio Jardim das Rosas (2000) e Vice-campeão da Copa Futebol do Interior – Região Oeste (2002). (Pesquisa: Nilo Dias)

Fachada do Estádio Doutor Robert Todd Locke, tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural de Jaboticabal. (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um inglês histórico treinou o S.C. Rio Grande

Pouca gente sabe e com certeza alguns estudiosos do futebol vão se surpreender com a revelação de que Charles Albert Williams, o primeiro goleiro da história a marcar um gol, tenha sido treinador do S.C. Rio Grande, da cidade gaúcha de Rio Grande, em 1912. Ele foi contratado pelo clube mais velho do futebol brasileiro, por sete contos de réis, soma considerável na época.

Num tempo em que os times de futebol existentes eram orientados tecnicamente pelos seus capitães, o S.C. Rio Grande, o clube mais velho do futebol brasileiro em atividade, também foi pioneiro no Rio Grande do Sul na contratação de um profissional específico para a função de treinador.

Williams nasceu no dia 19 de novembro de 1873 em Welling, cidade situada no condado de Kent, na região Sudeste da Inglaterra. As informações sobre a sua carreira não são muitas, mas sabe-se que ele começou a jogar futebol em 1891, no time do Arsenal, onde ficou até 1894, quando ganhou a titularidade. Mas foi também o seu último ano no clube, após a contratação de Harry Storer.

Em 1894 Charlie Williams foi para o Manchester City, onde chegou como titular absoluto e ganhou de cara o carinho da torcida, tornando-se um verdadeiro ídolo. E deu sorte também, pois com ele como goleiro, o Manchester City conquistou seu primeiro título, o de campeão inglês da Segunda Divisão, em 1898/99.

E foi lá que ele entrou para a história do futebol mundial, quando marcou um dos gols de seu time diante do Sunderland, no distante dia 14 de abril de 1900. Dizem que foi até meio sem querer. Williams deu um chutão para frente a fim de afastar a bola do ataque do adversário. O chute foi tão forte que pegou o arqueiro desprevenido e a bola acabou no fundo da rede. Oficialmente, este gol é tido como o primeiro marcado por um goleiro em todos os tempos.

Williams ficou oito temporadas no Manchester City (1894 a 1902), onde ganhou dois títulos e jogou mais de 200 partidas. Mudou-se depois para o Tottenham Hotspur, onde atuou por mais três temporadas (1902 a 1905) e levantou dois troféus, o de campeão da Segunda Divisão (1902/1903) e da “Western League” na edição 1903/04, torneio que envolvia equipes do Oeste inglês. 

Jogou também no Norwich City (1905 a 1907) e no Brentford (1907 a 1908), onde encerrou a carreira. Mesmo tendo sido um goleiro brilhante nas equipes que atuou, Williams nunca foi convocado para a Seleção de seu país. 

Depois que deixou os gramados, Williams dedicou-se a carreira de treinador. Sua primeira experiência foi dirigir a Seleção da Dinamarca, ainda em 1908. E começou com brilhantismo, tendo levado sua equipe a conquistar a medalha de prata nas Olimpíadas de Londres, onde foi vice-campeã de futebol, perdendo a final para a Inglaterra por 2 X 0.  

Em 1911 Williams foi contratado pelo Fluminense, do Rio de Janeiro para ser o técnico, recebendo por isso um salário mensal de 12 Libras Esterlinas, mais alimentação e moradia além de duas passagens para transporte Londres-Rio.

Esse foi mais um pioneirismo dele, pois tornou-se o primeiro profissional a assumir o comando técnico de uma equipe no futebol carioca, e ainda por ter participado do primeiro clássico “Fla-Flu” da história, em 7 de julho de 1912 no estádio das Laranjeiras (vitória do Fluminense por 3 X 2). No seu primeiro ano no futebol brasileiro sagrou-se campeão carioca.

Depois do tricolor carioca é que Wlliams foi ser o técnico do Sport Club Rio Grande. Além de uma pequena referência no livro “O Futebol em Pelotas”, de Eliseu de Melo Alves, nada mais se sabe da sua passagem pelo time gaúcho.

Depois de treinar o S.C. Rio Grande Williams foi para a Dinamarca onde treinou o B93. Ainda dirigiu o Olympique Lillois (atual Lille) da França, até retornar ao Brasil e ao Fluminense em 1924, quando conquistou mais um título de campeão carioca.

Contratado como treinador do Flamengo em 1930, não conseguiu fazer sucesso, levando a equipe somente ao oitavo lugar do Campeonato Carioca daquele ano e ao sexto de 1931, quando encerrou a carreira de técnico.

Seu primeiro jogo a frete do time rubro-negro foi em 6 de abril de 1930, Flamengo 3 X 1 Bonsucesso. E o último em 27 de setembro de 1931, Flamengo 1 X 2 Fluminense. No seu período a frente do Flamengo conheceu 38 derrotas, 14 vitórias e 22 empates. Como técnico o ex-goleiro foi vice-campeão olímpico em 1908 e campeão carioca em 1911 e 1924.

Depois disso ele fixou residência no Brasil e na Inglaterra, para onde viajava seguidamente. Williams faleceu em 1952 aos 79 anos. Seu bisneto Seth Burkett, nascido em Peterborough em 1991, tornou-se o primeiro jogador britânico a jogar profissionalmente no Brasil, tendo defendido o Sorriso, do Mato Grosso em 2009. Ele jogava como lateral-esquerdo.

Como no futebol sempre existem controvérsias, no livro “Guia dos Curiosos”, do jornalista Marcelo Duarte, consta que o primeiro registro de um gol de goleiro aconteceu em 25 de março de 1882. O autor teria sido James McAulay, da seleção da Escócia, em um jogo contra País de Gales.
    
No Brasil, o primeiro gol de goleiro foi obra de Anderson Williams Waterman, que jogou no Fluminense entre 1906 e 1910. O gol aconteceu no dia 5 de julho de 1908, durante uma partida contra o Riachuelo, vencida pelo tricolor pelo acachapante escore de 11 X 0. 

O Fluminense ainda teve um pênalti a seu favor, o que causou revolta aos jogadores do Riachuelo, que saíram de campo. Mesmo assim o goleiro Waterman bateu a penalidade com o arco escancarado, fechando o placar em 11 X 0.
    
O primeiro gol de um goleiro batendo tiro de meta no Brasil, aconteceu em 2 de novembro de 1962, obra do goleiro Navarro, do Noroeste, de Bauru (SP), em um jogo contra o Taubaté, válido pelo Campeonato Paulista. O lance foi validado pelo árbitro Carmelito Vói e o jogo terminou 6 X 0 para o Noroeste. Antes dele, somente em cobranças de pênaltis goleiros haviam marcado gols.
    
Outro gol famoso de goleiro ocorreu no dia 19 de setembro de 1970, num jogo realizado no Rio de Janeiro, entre Flamengo e Madureira. O goleiro rubro-negro Ubirajara cobrou um tiro de meta que fez a bola quicar duas vezes e dar um chapéu no goleiro do Madureira, antes de entrar. Apesar do lance histórico, o Madureira venceu o jogo por 2 X 1.
    
Já Hiran Spagnol, ex-jogador do Internacional, de Porto Alegre e da Ponte Preta, de Campinas, com 2,01 metro de altura foi o único goleiro em todo o mundo, que marcou dois gols de cabeça na carreira. O primeiro, em 1997 quando jogava pelo Guarani, de Campinas. Ele fez num cabeceio o gol de empate em 3 X 3 contra o Palmeiras, no “Brinco de Ouro da Princesa”, aos 48 minutos do segundo tempo.

E o segundo gol em 6 de junho de 1999, pelo Santo André, num jogo contra o Juventus, pelo Campeonato Paulista da Série A-2 daquele ano. Um historiador está procurando dados que comprovem os dois feitos de Hiran, para que ele possa ter seu recorde reconhecido pelo “Guinness Book”.
    
O primeiro gol do recordista Rogério Ceni foi marcado numa cobrança de falta em 15 de fevereiro de 1997, contra o União São João, no Campeonato Paulista. A revista “Four-Four-Two”, em sua primeira versão nacional - outubro de 2008, traz logo de cara um artigo que destaca Rogério Ceni, como um dos 12 goleiros que revolucionaram o futebol mundial.

O atleta são-paulino aparece junto de James McAulay, "o Príncipe dos Goleiros"; Leigh Richmond Roose, "o Soldado"; Ricardo Zamora, "o Divino"; Amadeo Carrizo, "o Maluco"; Apostol Sokolov, "o Diabo Loiro"; Lev Yashin, "o Aranha Negra"; Robert Mensah, "o Yashin Africano"; Ubaldo "Pato" Fillol; Hugo "El Loco" Gatti; Bruce Grobbelaar, o "Pernas de Espaguete" e Peter Schmeichel "o Viking Dinamarquês". (Pesquisa: Nilo Dias)

 
Charlie Willians (marcado pela seta), quando defendia o Manchester City, em 1899. (Foto: Autor desconhecido) 



quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Quando o futebol vira guerra


Em 1969 aconteceu uma das mais fantásticas histórias envolvendo o futebol mundial em todos os tempos, quando Honduras e El Salvador disputavam classificação para a Copa do Mundo de 1970, no México e entraram num conflito armado e verdadeiro fora dos gramados. O futebol foi apenas um pretexto para que os dois países pegassem em armas.   

Honduras e El Salvador mantinham já há alguns anos um quadro de hostilidades crescentes. Além dos interesses das elites nacionais envolvendo oportunidades abertas – e fechadas – pelo Mercado Comum Centro Americano (MCCA), a imigração de salvadorenhos para Honduras, disputando empregos e oportunidades, incitava a xenofobia e alimentava tensões.

Para piorar, leis hondurenhas impediam que empresas tivessem mais de 10% de salvadorenhos em seus quadros. E esses também não podiam escriturar terras em Honduras. Neste quadro, o futebol seria o elemento catalisador de conflitos que iam muito além do campo de jogo.

Em apenas três jogos ocorreram fatos tristes e incríveis. O primeiro deles foi num domingo, 8 de março de 1969, em Tegucigalpa, capital de Honduras. É verdade que os jogadores salvadorenhos não tiveram a recepção que pediram a Deus. Pelo contrário. Ninguém dormiu na noite que antecedeu o jogo.

Os torcedores hondurenhos foram para a frente do hotel, jogaram pedras nas janelas dos quartos, bateram em tambores e latas, explodiram foguetes e buzinaram seus carros sem parar. Ao mesmo tempo assobiavam, berravam e gritavam palavras de ordem, para que os adversários entrassem em campo cansados e nervosos.

Tais fatos são comuns na América Latina, não espantam a ninguém.
Mesmo sem dormir um minuto sequer, o onze de El Salvador portou-se valentemente em campo, só cedendo a vitória para os locais no último minuto do segundo tempo, quando o atacante Roberto Cardona fez o gol único da partida.

Mesmo assim a seleção visitante foi vaiada, debochada e ofendida até no aeroporto de Tegucigalpa, quando retornava ao seu país num avião especial, naquela madrugada. Os sete mil torcedores salvadorenhos presentes em Tegucigalpa foram hostilizados de todas as maneiras, nos hotéis, restaurantes, nas ruas e no estádio.

Como se isso não bastasse, na zona rural de Tegucigalpa algumas casas de salvadorenhos foram atacadas, mulheres violentadas e uma bandeira de El Salvador profanada.

Logo após o apito final do árbitro aconteceu o impensável, o imprevisto, a tragédia, bem longe do local do jogo. Uma jovem torcedora salvadorenha, Amélia Bolanios, de apenas 18 anos, que via à partida pela televisão em San Salvador, levantou-se da cadeira, foi até uma escrivaninha, pegou o revólver de seu pai e deu um tiro no próprio coração.

No dia seguinte o jornal “El Nacional”, de San Salvador estampou em manchete: “Jovem não suportou ver seu país de joelhos”. O sepultamento de Amélia Bolanios foi acompanhado por todo o país, já que a televisão transmitiu tudo. Parecia que uma grande autoridade do país tivesse morrido, pois o cortejo fúnebre foi acompanhado de um destacamento militar, com estandarte e tudo.

O caixão estava coberto pela bandeira nacional. O presidente da República e todos os seus ministros estavam presentes, seguidos pelos jogadores da seleção salvadorenha. O que deveria ter sido tratado como um ato tresloucado, acabou por virar comoção nacional.

Os salvadorenhos estavam dispostos a dar o troco no jogo seguinte, que ocorreu uma semana depois, no “Estádio Flor Branca”, em San Salvador. O time de Honduras provou do mesmo veneno destilado na véspera do jogo anterior. Dessa feita foram eles que não dormiram nas duas noites que passaram em San Salvador.

Os enfurecidos torcedores salvadorenhos quebraram as vidraças de todas as janelas do hotel, ao mesmo tempo em que jogavam toneladas de ovos podres, ratos mortos e panos fedorentos.

O time de Honduras teve de ser levado até o estádio escoltado por carros de combate da Divisão Motorizada de San Salvador, o que impediu que fossem linchados pela multidão, que acompanhou o trajeto carregando fotografias da agora heroína nacional Amélia Bolanios.

Em volta do estádio soldados da tropa de elite da "Guardia Nacional", munidos de metralhadoras. Quando da execução do hino hondurenho, nada se ouvia além de vaias e assobios. A bandeira de Honduras foi queimada e em seu lugar colocaram no mastro oficial um pano esfarrapado, para delírio da multidão.

Os jogadores de Honduras se sentiram prisioneiros a beira de uma execução. Ninguém estava interessado no jogo, sim em sair dali com vida. E respiraram aliviados com a derrota de 3 X 0. Foram até o aeroporto levados pelos mesmos carros de combate.

Mas os torcedores não tiveram a mesma sorte, foram agredidos a pauladas e pontapés na fuga em direção à fronteira. Pelo caminho, dois foram mortos e dezenas de outros acabaram hospitalizados. E ainda 150 automóveis dos visitantes foram incendiados. Horas depois, a fronteira entre os dois países foi fechada.

No dia seguinte em Honduras grupos paramilitares atacaram os salvadorenhos. Na zona rural, hondurenhos atacaram os salvadorenhos residentes, roubando seus pertences e forçando suas fugas. Em 25 de junho, o governo de El Salvador acusou Honduras de genocídio e logo os países romperam relações diplomáticas e comerciais.

Dois dias depois, em 27 de junho, em razão de cada país ter vencido um jogo, as duas seleções decidiram a vaga num confronto extra, realizado no “Estádio Azteca”, na Cidade do México. No tempo normal houve empate de 2 X 2.

E na prorrogação El Salvador, com um gol de Rodrigues se garantiu na Copa do Mundo de 1970, lá mesmo, no México. Nesse dia do desempate, os dois países fecharam suas fronteiras e mobilizaram suas tropas. O jogo estava terminado, agora era a vez da guerra de verdade entrar em campo.

Em 14 de julho, as tensões eram enormes, e a guerra começou com um ataque aéreo de El Salvador. No total, às 100 horas de conflito deixaram quatro mil mortos e milhares de camponeses desabrigados.

O saudoso jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, único correspondente estrangeiro a fazer a cobertura desses jogos escreveu o livro "A Guerra do Futebol" (Companhia das Letras, 2008), em que relata o episódio que se concretizou em conflito armado por causa de uma partida de futebol. Em ano de Copa do Mundo, vale a pena ler. (Pesquisa: Nilo Dias)

 Monumento a "Guerra do Futebol", em Honduras.