Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Bodinho, um grande cabeceador

Nilton Coelho da Ciosta, o “Bodinho” foi um dos melhores jogadores que defenderam a gloriosa camisa do S.C. Internacional, de Porto Alegre. Pernambucano da “gema”, nasceu em Recife no dia 19 de julho de 1929.

Começou a carreira no time juvenil do Ibis em 1939, quando tinha apenas 10 anos de idade. Em 1945 transferiu-se para o Sampaio Correia, de São Luiz, Maranhão. Foi nesse clube que começou a se projetar para o futebol. Sua fama chegou ao Rio de Janeiro e o Flamengo tentou contratá-lo. Mas “Bodinho” estava bem no time maranhense e resolveu ficar.

Em, 1947, aos 18 anos de idade e três temporadas no Sampaio Correia, “Bodinho” acabou indo para o Flamengo depois que o time carioca enfrentou os maranhenses num jogo amistoso em São Luiz.

Nessa ocasião “Bodinho” confirmou integralmente a sua fama de bom jogador. E quando o Flamengo, que realizava uma excursão pelo Norte e Nordeste do país, voltava para casa, “Bodinho” estava na delegação rubro-negra.

O jogador ficou quatro anos no Flamengo. Em 1951 transferiu-se para o Nacional, de Porto Alegre. No mesmo ano, o técnico Francisco Duarte Júnior, o “Teté”, conseguiu leva-lo para o Internacional. Encerrou a carreira no São José, de Porto Alegre, em 1958, depois de tornar-se um dos maiores ídolos da história do clube colorado gaúcho.

“Teté” veio do Regimento de Pelotas, era capitão, acabou major, mas foi eleito, para a história, o “Marechal das Vitórias Coloradas”.

O apelido “Bodinho” o acompanhou desde a infância, pois era um menino muito traquinas. Gostava de pular uma cerca que limitava o terreno de sua casa com o de um vizinho. O vizinho, que não gostava nada disso, chegou a comentar:  “Esse garoto vive saltando cerca, até parece um bodinho”. O apelido pegou fácil e o acompanhou por toda a vida.

Mas há quem diga que a versão verdadeira é outra. Ganhou o apelido em razão da sua forte cabeceada, na maioria das vezes indefensável para os goleiros adversários. Apesar da baixa estatura (1m74), era ótimo cabeceador.

Foi meia-direita e centroavante, mas antes do clube colorado, defendeu o Íbis de Pernambuco, o Sampaio Correa do Maranhão e o Flamengo do Rio, sempre como ponteiro-direito. Formou, ao lado do carioca Larry, uma das maiores duplas de ataque da história do futebol gaúcho. Ambos consagraram a "tabelinha". Larry morreu em maio de 2016, aos 83 anos de idade.

“Bodinho” gostava muito do jogador Djalma, que jogou no Vasco da Gama e se tornou seu grande amigo. Era considerado o homem dos sete instrumentos do clube carioca. Ele morreu tragicamente no Recife, durante o Carnaval de 1954, quando defendia o Bangu.

Djalma participava do baile dos casados na Associação dos Empregados do Comércio. Estava ao lado de sua irmã Dulce e da amiga Ivone Santos. Durante o baile, alguém pisou no pé de Dulce.

Interpretando o gesto como proposital, Djalma protestou e o acontecimento virou um grande conflito. Na luta, Djalma sofreu um ferimento na cabeça e recebeu atendimento no Hospital.

Recuperado, voltou para continuar participando da festa. Estava muito animado e inteiramente entregue na folia. Por volta das 22 horas, Dulce sugeriu terminar os festejos em sua própria residência. No entanto, quando lá chegaram, as chaves não funcionaram na fechadura.

Por sugestão de uma vizinha, Djalma tentou entrar no apartamento da amiga, no segundo andar, descendo por uma corda de persiana de outro apartamento do terceiro andar. Entretanto, o cordel não suportou o peso do corpo do jogador e arrebentou.

Djalma caiu na rua, batendo com a cabeça no meio-fio. Levado para o hospital não resistiu e faleceu no dia 2 de março de 1954.

Muito embora tenha participado de muitos jogos internacionais, inclusive sendo campeão Pan-Americano de 1956 pela Seleção Gaúcha que representou o Brasil, no México, “Bodinho” considerou o clássico Gre-Nal, que decidiu o certame gaúcho de 1955, como seu jogo inesquecível.

O Internacional estava um ponto atrás do Grêmio, e venceu por 3 X 1 conquistado o título. Nesse jogo, realizado em 6 de novembro, nos Eucaliptos, “Bodinho” marcou duas vezes.

“Bodinho” fez parte da delegação Brasileira, formada por um combinado de jogadores gaúchos, que conquistou o título do campeonato Pan-Americano de 1956, disputado no México.

Aquele time revelou craques para o futebol brasileiro, como o goleiro Valdir Joaquim de Moraes, o zagueiro Oreco (campeão do Mundo em 1958), o meio-campista Ênio Andrade e o atacante Chinesinho, entre outros.

A equipe verde-e-amarela teve como principal adversário na competição, a Argentina do técnico Guilhermo Stábile, que como jogador fez muito sucesso, sendo vice-campeão do mundo na Copa do Mundo de 1930, além de ter sido o artilheiro da competição.

Como técnico, fez valer sua competência, pois dirigiu o selecionado portenho em oito campeonatos sul-americanos, tendo conquistado seis títulos. O grande destaque dos "Hermanos” na competição foi o atacante Sivori, revelado pelo River Plate, que posteriormente foi para a Juventus de Turim e quase virou um "mito".

A Taça da conquista do campeonato Panamericano de 1956 não faz mais parte do acervo da Confederação Brasileira de Futebol. O troféu foi roubado junto com a taça Jules Rimet, segundo inquérito aberto pela polícia carioca, as "relíquias" foram derretidas.

Campanha Gaúcha no Pan-Americano.

24/1/1956 - Brasil 1 x 4 Chile; 29/1/1956 - Brasil 0 x 0 Paraguai; 1/2/1956 - Brasil 2 x 1 Peru; 5/2/1956 - Brasil 1 X 0 Argentina; 10/2/1956 - Brasil 0 X 0 Uruguai; 1/3/1956 - Brasil 2 X 1 Chile; 6/3/1956 - Brasil 1 X 0 Peru; 8/3/1956 - Brasil 2 X 1 México; 13/3/1956 - Brasil 7 X 1 Costa Rica e em 18/3/1956 - Brasil 2 X 2 Argentina.

O time base da Seleção gaúcha era: Sérgio (Valdir) - Florindo e Duarte. Odorico - Oreco e Figueiró (Ênio Rodrigues). Luizinho – Bodinho - Larry (Juarez) - Ênio Andrade e Raul (Chinesinho).

Títulos conquistados: Campeão juvenil pernambucano pelo Ibis; Campeão maranhense pelo Sampaio Correia; Títulos pelo Flamengo: Taça Fernando Loretti. (1945, 1946 e 1948); Torneio Inicio Carioca. (1946); Troféu Cezar Aboud. (1948); Guatemala Troféu Embaixador Brasileira da Guatemala. (1949); Troféu Comitê Olímpico Nacional da Guatemala. (1949); Campeão do Torneio Início do Campeonato de Porto Alegre, pelo Nacional. (1950); Campeão de Porto Alegre e do Estado pelo Internacional. (1951, 1952, 1953 e 1955); Campeão do Torneio “Dia do “Cronista”, pelo Internacional. (1952); Torneio Régis Pacheco (Quadrangular de Salvador”), pelo Internacional. (1953); Torneio de Inauguração do Estádio Olímpico (1954) (O Inter goleou o Grêmio por 6 X 2); Campeão Pan-Americano pelo Brasil (1956), tendo marcado três gols em cinco jogos.

No Estadual de 1955, “Bodinho” marcou 25 gols em 18 jogos, com a média de 1,4 por partida.

“Bodinho” faleceu em 22 de setembro de 2007, aos 79 anos, vítima de hepatite. Está sepultado no cemitério da Santa Casa, na capital gaúcha. (Pesquisa: Nilo Dias)


domingo, 5 de março de 2017

O primeiro estádio do Brasil

O “Velódromo Paulista” foi o primeiro estádio de futebol construído em São Paulo. Na verdade ele foi construído para ser o palco de competições de ciclismo. Tinha capacidade para até 8 mil pessoas e ficava no bairro da Consolação, ao lado de onde hoje é a Praça Roosevelt. O projeto foi do arquiteto Tommaso Bezzi.

Sua inauguração aconteceu em 1895. Foi construído a mando de Antônio da Silva Prado, primeiro prefeito de São Paulo, de 1899 a 1911 e apaixonado pela prática do ciclismo. O terreno onde o “Velódromo” foi erguido pertencia a sua mãe, dona Veridiana da Silva Prado, uma nobre intelectual.

Os filhos de Antônio Prado, adeptos do ciclismo, segundo se sabe, pediram ao pai que autorizasse a construção do “Velódromo” dentro dos limites da antiga chácara de dona Veridiana Valéria da Silva Prado.

Sem o ar cosmopolita de grande metrópole que ostenta hoje, a São Paulo daquela época era ainda bastante provinciana e suas áreas de lazer eram vinculadas à aristocracia.

O “Veloce Clube Olimpic Paulista”, ou “Velódromo”, passou a ser o local onde a elite se encontrava para acompanhar as corridas de bicicletas, que eram moda na época.

A elite paulistana provavelmente tomou contato com bicicletas, que na época eram bastante caras e adquiridas em Paris, quando foi inaugurado o “Velódromo Paulista” com uma pista original de saibro.

Mas foi o futebol que cresceu no local. Isso, depois de um jogo ali ocorrido em 19 de agosto de 1900, entre os sócios do Sport Club Internacional, time de futebol paulista fundado em 1899. O campo de jogo foi marcado em um local destinado a um rinque de patinação no centro da pista.

O “Velódromo Paulista” foi o primeiro estádio de futebol do Brasil, mas não o primeiro campo. Antes, Charles Miller tinha apresentado o esporte aos brasileiros na “Várzea do Carmo”, São Paulo, em 1894.

Cinco anos depois, equipes formadas por ingleses, alemães e alguns brasileiros começaram a jogar na “Chácara Dulley”, também na cidade de São Paulo. Porém, nenhum destes lugares tinha arquibancadas.

O “Velódromo”, com melhores instalações, reinou como o principal palco dos Campeonatos Paulistas entre 1902 e 1912. A Liga Paulista de Futebol (LPF) pagava aluguel ao Paulistano pelo estádio e assim foi por uma década. Porém, uma ruptura entre o Paulistano e a LPF mudou tudo.

Paulistano e LPF estavam com relações estremecidas por conta de ideologias. O Paulistano, fiel ao amadorismo, característica ligada ao futebol mais elitizado, estava insatisfeito com a profissionalização crescente no futebol de São Paulo.

Para o “Campeonato Paulista” de 1913, o Paulistano pediu um alto valor a LPF pelo aluguel do “Velódromo” e a Liga preferiu pagar quatro vezes menos para usar o “Parque Antarctica”, que em 1920 foi comprado pelo Palestra Itália, hoje Palmeiras.

No dia do primeiro jogo no Paulista de 1913, contra o Americano, o Paulistano apareceu - em represália - no “Velódromo” e o rival entrou em campo no “Parque Antarctica”.

O Paulistano alegou que a mudança de estádio tinha sido mal comunicada e decidida às vésperas da partida, mas a LPF julgou o caso a favor do Americano. Foi o estopim para o Paulistano, que saiu da Liga e fundou uma organização paralela, a Associação Paulista de Sports Athleticos.

Dessa forma, de 1913 a 1916 foram disputados dois campeonatos paralelos em São Paulo, o da Liga e o da APSA, com clubes de origem aristocrata. Só em 1917, após várias tentativas de pacificação, a divisão terminou. Era o fim da primeira grande crise dentro do futebol paulista.

O “Velódromo” foi a primeira sede do aristocrático Club Athletico Paulistano, que passou a usar o espaço como sede esportiva. Pouco tempo depois, no centro da pista de ciclismo, foi construído um campo de futebol e também uma arquibancada capaz de abrigar duas mil pessoas (ampliada depois para cinco mil).

Em 1902, o estádio abrigou a maior parte do primeiro Campeonato Paulista, disputado por cinco clubes e vencido pelo São Paulo Athletic, de Charles Miller, pai do futebol no Brasil.

O Paulistano, que foi vice, existe até hoje (porém sem atividades no futebol desde 1929). O Paulistano guarda em seus arquivos sete fotos do “Velódromo”. Em uma delas, é possível ler a inscrição em uma placa na arquibancada: "É expressamente proibido vaiar". E qual era o motivo?

De acordo com o livro "A bola rolou", de Wilson Gambeta, as vaias não eram aceitas por conta do Velódromo "ser um espaço para a transmissão de valores morais".

Com origem nobre, o Paulistano zelava pelos bons costumes no ambiente. Também segundo o livro, "o juiz não podia ser alvo de vaias, pois mesmo se ele cometesse erros, era o único investido de poder interpretar as jogadas".

O mesmo valia para os jogadores, que não podiam ser vaiados por "serem homens dignos que pertenciam às principais famílias". Naquele tempo, os times eram formados por homens da aristocracia. Quem vaiasse, poderia até ser retirado pela polícia.

O jornalista Orlando Duarte, enciclopédia sobre o futebol brasileiro e mundial, contou como era o comportamento da torcida quando alguém mais crítico decidia vaiar.

“A vaia era indelicada”. Se uma pessoa vaiava, logo um torcedor do próprio time desaprovava e um torcedor do outro time também olhava estranho, com espanto.

Os torcedores usavam as melhores roupas para ir ao estádio, o futebol era um entretenimento para o público, não local de aborrecimento. Por isso as vaias eram condenadas, disse Orlando Duarte.

Foi desta maneira que o “Velódromo” se tornou o primeiro estádio de futebol e palco das principais partidas realizadas na cidade de São Paulo.

O “Velódromo” foi oficialmente inaugurado no dia 19 de outubro de 1901, com o jogo entre combinados Paulista X Cariocas que terminou empatado em 0 X 0.

Também foi ali que se enfrentaram no dia 8 de maio de 1902, as equipes do São Paulo Athletic Club X Club Athlético Paulistano, abrindo o certame paulista daquele ano. O São Paulo Athletic Club venceu por 4 X 0.

Ficha técnica do jogo:

São Paulo Athletic Club: Andrews - A.Kenworthy e G.Kenworthy. Heyecock - Wucherer e Biddell. H.S.Boyes – Brough - Charles Miller - Montandon e W.Jeffery.

Club Athletico Paulistano: Jorge de Miranda Filho - Thiers e Rubião. E.Barros - Olavo e Renato Miranda. B.Cerqueira - J.Marques - Álvaro Rocha - Ibanez Salles e O.Marques.

Árbitro: Antônio Casimiro da Costa. Os gols: Boyes (2) Jeffery e Charles Miller.

Foi ali que o futebol paulista conheceu os seus primeiros grandes momentos e viu o esporte crescer. E paralelamente assistiu o esmagamento da popularidade do esporte das bicicletas, que chegou a ser significativo no final do século XIX e início do XX.

Quando o futebol ainda começava, o “Velódromo” teve muita importância para conquistar o público por estar bem localizado, atraindo torcedores por seu fácil acesso. Depois a cidade cresceu, outros estádios surgiram e os transportes melhoraram, mas o “Velódromo” teve a importância dele, foi útil e cumpriu bem o seu papel enquanto existiu.

O “Velódromo” também foi responsável pelo nascimento da geral, característica importada da Europa e que vingou no Brasil justamente pelas características do lugar.

Explica-se: nos hipódromos da França, na segunda metade do século XIX, como as arquibancadas eram pequenas, milhares de fãs do turfe ocupavam aglomerados nos limites da raia e em colinas para ver as provas. Era a "pelouse".

No “Velódromo Paulista”, com o crescente interesse pelo futebol, as arquibancadas para 4 mil pessoas logo deixaram de ser suficientes e o comportamento visto nos hipódromos franceses foi "imitado".

Como o futebol ocupou a parte interna da pista, que era de saibro e tinha uma leve inclinação, acabou colaborando para a melhor visualização do gramado e os torcedores ganharam para si um espaço enorme que era destinado às corridas de bicicleta. Eram quatro mil lugares a mais, em setor que logo ganhou o nome de geral.

Desde os hipódromos franceses, "gerais" era o termo que designava os torcedores não associados aos clubes. Segundo o livro "A bola rolou", o nome "gerais" foi usado no “Velódromo Paulista” para identificar o conjunto de homens em pé, geralmente um público com menor escolaridade e poder aquisitivo.

Rapidamente, "o lugar dos gerais" virou "geral". E, evidentemente, os torcedores mais nobres tinham seus lugares garantidos na arquibancada.

Também de acordo com o livro "A bola rolou", o preço dos ingressos na geral era acessível ao povo. Primeiramente, foi concedida meia-entrada aos estudantes. Depois, o desconto foi estendido para todos os ingressos do setor e virou padrão.

Em alguns jogos, o preço para geral era de mil réis, um terço do valor pago nas arquibancadas. Para comparação: na época, o preço de um jornal era 100 réis e um par de sapatos comum valia 15 mil réis.

Posteriormente, as gerais apareceram em outros estádios brasileiros, também como um espaço mais popular. A geral mais famosa, do Maracanã, durou 55 anos (de 1950 a 2005) e chegou a acomodar cerca de 30 mil torcedores em jogos de maior público.

Em 1910, com a morte de Veridiana Prado, seus herdeiros, sob forte pressão da especulação imobiliária anunciaram a venda do “Velódromo” ao “Banco Italiano”, que manifestou a intenção de abrir uma rua no local e loteá-la.

O estádio, porém, seguiu em uso até 1915. Naquele ano, o Paulistano recebeu uma ação de despejo para a abertura da Rua Nestor Pestana, que cortou o terreno do estádio. O último jogo ocorreu em dezembro de 1915 e a demolição foi feita na primeira metade de 1916.

As arquibancadas de madeira do “Velódromo”, com capacidade para quatro mil espectadores, ainda foram enviadas para outro estádio, a “Chácara da Floresta”. E assim sumiu o lendário campo da Consolação.

Um fato ocorrido em 17 de agosto de 2008, um incêndio de grandes proporções, destruiu boa parte do “Teatro Cultura Artística”, situado na rua Nestor Pestana, no centro de São Paulo. Com toda a certeza são poucas as pessoas que tem conhecimento de que naquele local existiu o “Velódromo Paulista”, o primeiro estádio de futebol da cidade, inaugurado em 1895.

Ele se situava na Rua da Consolação, entre as Ruas Martinho Prado e Olinda, na altura de onde hoje é a Rua Nestor Pestana, o “Teatro Cultura Artística” e a “Praça Roosevelt”.

O conselheiro Antônio da Silva Prado e seu cunhado Elias Pacheco Chaves, foram quem lotearam as chácaras que deram origem aos bairros de Campos Elíseos e Barra Funda. (Pesquisa: Nilo Dias)


domingo, 26 de fevereiro de 2017

O futebol na Era Vargas

No final da década de 1930, houve a implantação no Brasil de um regime autoritário denominado “Estado Novo”, inspirado na ditadura de António de Oliveira Salazar em Portugal. Foi implantado por Getúlio Vargas sob a justificativa de conter uma nova ameaça de golpe comunista no Brasil.

Caracterizava-se por ser um regime nacionalista, antidemocrático, corporativo, autoritário e antiliberal, que tinha algumas semelhanças com o fascismo.

O Governo pregava a construção de uma nova nacionalidade, em que às atividades físicas fossem compreendidas como fundamentais na perspectiva de criação de um “homem novo” preparado para a construção de um “Brasil novo”, forte e saudável.

Desse modo, as práticas esportivas, sobretudo aquelas de maior alcance popular deveriam estar a “serviço da pátria”. A partir desse cenário, os jogos da seleção brasileira de futebol configuraram-se como instrumentos de possibilidades de divulgação do projeto do Estado Novo. Torcer pela equipe nacional, simbolizaria torcer pela nação.

O êxito no futebol ou em outras modalidades esportivas foi amplamente explorado também, por outros países da Europa, simpáticos aos regimes de inspiração totalitária, e não apenas pela
Itália e Alemanha.

Os jogos olímpicos realizados em Berlim em 1936 revelaram essa
perspectiva. Aliás, foi exatamente na Copa do Mundo de futebol de 1934, e nos jogos olímpicos de 1936 que Itália e Alemanha, se proclamaram como “países fortes”.

Sabe-se que Benito Mussolini, presente no estádio de Roma por ocasião da final da Copa de 1934 entre Itália e Tchecoslováquia, prometeu “uma grande recompensa aos jogadores italianos se vencessem, e um terrível castigo se perdessem”.

Na Copa do Mundo de 1934, Adolf Hitler “convocou” os
atletas da Alemanha para que se dedicassem ao máximo, a fim de que eles demonstrassem, através dos esportes, a “superioridade racial” dos alemães.

Na disputa do campeonato mundial de 1938, novamente Hitler se utilizou do futebol como um instrumento de propaganda política do regime nazista. Tal como em outras circunstâncias, a prática do futebol foi objeto dos interesses políticos da Alemanha nazista.
Em 1999, Ulrich Lindner e Gerhard Fischer publicaram um livro chamado “Os atacantes de Hitler”, no qual são narradas as várias situações da relação entre futebol e nazismo na Alemanha.

Embora explorado por Hitler, como elemento de legitimidade do seu governo, o futebol alemão não conquistou a medalha de ouro, nem na olimpíada de Berlim, tampouco o campeonato de futebol
de 1938. Coube à Itália, a conquista dos dois torneios.

O Governo Vargas pregava a política de unidade nacional. E para tal usou até de cerimônias públicas para propagara essa ideia. Em uma dessas cerimônias, Vargas e alguns chefes estaduais colocaram-se em frente de uma urna prata, proferiram discursos em prol da unidade nacional, enquanto representantes de todos os Estados nela depositaram, um após o outro, punhados de terra.

Outra cerimônia, essa bem mais conhecida, foi a “das Bandeiras”, realizada na Esplanada do Russell, no Rio de Janeiro, menos de um mês depois do golpe de 10 de novembro de 1937.

Seu objetivo era propagar o artigo 2º da Constituição, que proibia o uso de quaisquer símbolos, hinos e bandeiras que não fossem os nacionais. Na ocasião as 21 bandeiras estaduais foram queimadas em uma grande pira colocada no centro da praça. 

Em seguida outras 21 bandeiras nacionais foram hasteadas em substituição àquelas, enquanto o maestro Heitor Villa Lobos regia um conjunto de várias bandas e um coro de colegiais na execução do Hino Nacional.

O futebol brasileiro, de estilo individualista e exibicionista, não se curvou à tentativa do governo de Getúlio Vargas em usá-lo como instrumento político.

A historiadora Melina Pardini lembra que, apesar de o Estado Novo – período de 1937 a 1945, em que Vargas impôs um governo autoritário – tentar concretizar o seu projeto de construir uma nação ordenada e disciplinada com o futebol, havia muitos aspectos do esporte que afrontavam esse plano.

Melina Pardini apresentou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP), o estudo de mestrado “A Narrativa da Ordem e a Voz da Multidão: Futebol na Imprensa durante o Estado Novo.”

Segundo ela, o Governo de Getúlio Vargas utilizava alguns métodos considerados eficazes, para propagar a sua ideologia através do futebol. Um deles era o controle da mídia, que só publicava o que lhe interessava.

O futebol era visto como o esporte nacional e servia de instrumento político, pois poderia ajudar na ideia de um projeto de construção de uma nação ordenada e disciplinada, embora o estilo individualista do brasileiro jogar, a chamada “malandragem”.

E isso ficou evidenciado por Leônidas da Silva, que era conhecido por “Diamante Negro”. Tratava-se de um negro, que tinha na malandragem sua maior virtude. E isso desagradava a política do “Estado Novo” que pregava a superioridade do homem branco, a disciplina e a coletividade.

Leônidas, além de um extraordinário jogador era idolatrado pela população, especialmente os mais pobres. O governo buscou formas de diminuir a popularidade do jogador, com a imprensa dizendo que ele era um “mestiço a serviço da nação”.

A pesquisadora também lembrou outros artifícios de controle do Estado Novo, como a inauguração do estádio do Pacaembu, em 1940, onde era exaltada a participação de Vargas na construção da obra.

A presença brasileira na Copa do Mundo de 1938, com uma Seleção verdadeiramente nacional, já que em 1930 e 1934 as brigas entre as Federações do Rio e São Paulo não permitiram isso, foi tratada como uma prova de unidade nacional.

E o Governo tirava proveito disso, espalhando que foi ele que propiciou a criação de uma seleção com os melhores jogadores para promover o futebol brasileiro no exterior.

Melina destacou a importância da rivalidade regional existente na época entre Rio de Janeiro e São Paulo. E isso era tão grande que até os jornais trocavam ofensas quando times dos dois locais se enfrentavam. O que acabou prejudicando a ideia governamental de união nacional através do esporte.

A pesquisadora usou como instrumentos para viabilizar seu trabalho, três jornais de grande circulação na época, “Correio Paulistano”, de São Paulo e “Gazeta de Notícias” e “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro.

E ainda dois jornais esportivos, a “Gazeta Esportiva”, de São Paulo e “Jornal do Esporte” e “Gazeta Esportiva”, do Rio de Janeiro. Ela analisou todas as publicações desses jornais na época. (Pesquisa: Nilo Dias)


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Estádio Serra do Lago


Logo que cheguei em Sobradinho (DF), onde estou até hoje, morei em uma casa nas proximidades do Estádio Augustinho Lima. E criei o hábito de assistir todos os jogos do Sobradinho Esporte Clube. E fiz amizade com o presidente do clube na época, Manoel Espiridião, o “Manoelzinho”, um ex-jogador de futebol, que entre outros cubes, andou pelo América, do Rio de Janeiro.

E fui convidado a fazer parte da Diretoria, embora nunca tenha sido feita uma reunião. O Manoelzinho reinava absoluto, não ouvia opinião de ninguém. O que fazia com que cargo de Diretoria e nada fosse a mesma coisa.

Mas aproveitei o meu cargo decorativo para acompanhar o clube em seus jogos pelas cidades satélites do Distrito Federal. Viajava sempre no ônibus da delegação. E conheci muitas dessas cidades e até algumas de outros Estados, visto que o “Candangão” conta com agremiações de Goiás e até de Minas Gerais.

E em duas dessas andanças estive em Luziânia, Goiás, terra do ex-governador Joaquim Roriz. E parece que quase tudo por lá gira em torno dessa família de políticos. Joaquim foi eleito vereador e prefeito na cidade. Zequinha Roriz, seu parente, também foi prefeito por duas vezes.

E foi ele que construiu e inaugurou o “Estádio Serra do Lago”, cujo nome oficial é “Zequinha Roriz”. Tem capacidade para receber até 21.564 torcedores, 13.212, nas arquibancadas e 8.352, na geral. A “Tribuna de Honra” tem capacidade para 377 cadeiras e é totalmente coberta. É o maior estádio do Entorno do Distrito Federal e um dos melhores do Estado de Goiás.

O que impressiona é o formato das arquibancadas, que possuem 50 degraus de 80 centímetros cada. Subir aquilo, que parece um tobogã, não é tarefa fácil, ainda mais para idosos que nem eu. Mas a verdade é que lá de cima se tem uma visão magnífica do gramado.

Essas arquibancadas foram construídas através do nivelamento feitos na própria "serrinha", o que proporcionou um desnível das cabines de transmissão de rádio e televisão até o gramado.

O apelido “Serra do Lago” foi escolhido em concurso público promovido pela Secretaria de Desporto e Turismo. Cerca de 700 pessoas votaram, sendo que 170 optaram por “Serra do Lago”. Ainda teve gente que sugeriu “Gigante da Serrinha”, “Serra do Ouro” e “Rorizão”. A moradora Cilene Augusta de Souza ganhou o prêmio de CR$ 500.000,00.

O estádio conta com oito vestiários, dois para clubes visitantes e dois para agremiações locais, um para árbitros, um para gandulas, um para o Departamento Médico e um para almoxarifado e rouparia, todos com estacionamento privativo.

Foi a Polígono Engenharia e Construções Ltda a empresa que construiu o estádio. Cerca de 200 homens trabalharam durante oito meses na obra, que consumiu 33 mil sacos de cimento e 200 toneladas de ferro.

O estádio tem amplo espaço para os blocos das bilheterias, sanitários, lanchonetes, cabines de rádio e televisão e estacionamento para 1.300 veículos.

A primeira vez que estive no “Serra do Lago” estava acompanhado do saudoso amigo “Marrom”, uma espécie de torcedor símbolo do Sobradinho, que era “pandeirista” de primeira.

Chegamos bem antes do jogo e aproveitamos para dar uma volta nas proximidades do estádio. E encontramos um bar onde aproveitamos para derrubar umas loiras geladas, pois estava calor e ninguém é de ferro.

O jogo de inauguração do estádio foi entre Luziânia X Botafogo, do Rio de Janeiro, disputado dia 13 de dezembro de 1992, assistido por um grande público, calculado em 10 mil pessoas, inclusive com torcedores vindos de cidades vizinhas.

Foi uma grande festa, que teve até desfile das equipes mirins (escolinhas), descidas de paraquedistas de Brasília, discursos, chuva forte e muitas homenagens.

O Luziânia surpreendeu e venceu o jogo por 1 X 0, com gol marcado por Rogerinho, aos 36 minutos da primeira etapa, o primeiro na história do “Serra do Lago”.

O árbitro do jogo foi Dario Souza Campos, auxiliado por Antônio Vidal e Filomeno Dourado. A renda somou Cr$ 135.113.000,00 e o público pagante foi de 6.755 pessoas.

Foram expulsos de campo os jogadores Nélson, Vivinho e Marcão, todos do Botafogo.

Luziânia: William Stain - Marcelo Roriz – Gilmar - Eduardo Gaúcho e Marquinhos. Luciano - Carlos Alberto e Zé Carlos. Zé Vieira (Ed Carlos) - Marcelo Cruz e Rogerinho (João Cortes). Técnico: Sidney Nascimento.

Botafogo: Zé Carlos – Marcão – André - Rogério Pinheiro e André Duarte. Pingo - Djair e Macalé. Vivinho - Bob (Marcelo Carioca) e Nélson. Técnico: Joel Martins.

A inauguração dos refletores aconteceu em 15 de junho de 1993, no jogo Luziânia X Goiás, válido pelo Campeonato Goiano, que terminou empatado em 0 X 0.

A Associação Atlética Luziânia foi fundada no dia 20 de janeiro de 1995, com a finalidade de participar do Campeonato Brasiliense de Futebol Profissional, sendo campeã em 1914 e bi em 2016. O símbolo do clube é a igreja do Rosário. (Pesquisa: Nilo Dias)

O "Serra do Lago" é um bonito estádio. (Foto: Divulgação)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O lado sujo do futebol

Hoje em dia, quando suborno, propina, compra de resultados e uma infinidade de situações escabrosas envolvendo o futebol brasileiro, nos dá uma idéia de que é resultado dos tempos modernos, em que a corrupção se mostra presente em praticamente toda a sociedade brasileira.

Mas não é bem assim. Já ao final da década de 1920 nos deparamos com a primeira suspeita de suborno em nosso futebol. Aconteceu no Rio de Janeiro, em 1929 quando o proprietário do Café Estrela d’Alva foi preso em flagrante, ao tentar subornar três jogadores do América, Sobral, Joel e Pennaforte, à véspera de um jogo final contra o Vasco da Gama.

O jornal “O Globo”, edição de 29 de novembro de 1929 noticiou que foram os próprios atletas que tomaram a iniciativa de comunicar o fato a Polícia. O comerciante foi preso ao entregar 20 contos de réis.

Mas nem precisava ter ocorrido a tentativa de suborno, visto que o Vasco ganhou de goleada, 5 X 0. Ao final do jogo muitas suspeitas recaíram sobre os jogadores americanos, Floriano e Osvaldinho, mas não foram levadas adiante por falta de provas.
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Bem antes disso teve outro caso, quando da tentativa de se estabelecer uma competição envolvendo os campeões carioca e paulista. A primeira edição foi em1914, entre Paulistano X América, campeões de 1913.

O América tinha em seu grupo os jogadores uruguaios, A. e J. Bertoni, que eram irmãos e haviam sido protagonistas do primeiro caso de “falso amadorismo”, segundo disseram os jornalistas Tomás Mazzoni e Rubens Ribeiro.

A primeira partida foi realizada no dia 24 de maio de 1914, no Velódromo, e o Paulistano venceu por 3 X 2. O jornal carioca “O Imparcial”, no dia seguinte ao jogo levantou a suspeita de que os dois uruguaios tinham sido subornados pelo Paulistano.

O clube paulista reagiu, acusando o América de ser responsável pelos boatos. Este, por sua vez, não aceitou a acusação. Como consequência os dois romperam relações, e a segunda partida não foi realizada, e o título não foi ganho por ninguém.

Por via das dúvidas, o América afastou os uruguaios sob a justificativa de “disciplina de ordem interna”.

Os dois jogadores foram trazidos para o Brasil em 1912, por iniciativa do S.C. Americano, de São Paulo. Com eles o time ganhou no mesmo ano o título paulista de forma invicta.

Outras denúncias mais recentes de subornos no futebol. O jornal “O Liberal”, de Belém do Pará, em sua edição de 12 de novembro de 2003 publicou matéria em que o ex-presidente do Paysandu, Miguel Alexandre Pinho, contou que o clube bicolor subornou árbitros para conquistar o Campeonato Paraense de 2000 e os brasileiros da Segunda Divisão de 1991 e 2001.

Miguel Pinho disse que o árbitro Wagner Tardelli esteve envolvido no esquema do “Parazão” de 2000, tendo dirigido o primeiro jogo da final frente o Castanhal. O “Papão” venceu por 1 x 0 com um gol de pênalti, nos acréscimos. No lance seguinte Edil quase empatou, carimbando a trave. Tardelli teria dito a Miguel que se fosse gol ele teria anulado.

Também contou ter havido esquema para beneficiar o Paysandu no clássico contra o Remo, em que este precisava vencer por dois gols e ganhou por 1 X 0, mas teve um gol legítimo de Robinho anulado pelo bandeirinha.

O ex-presidente do Paysandu se incluiu entre os cartolas que praticavam suborno. Ele revelou que tentou subornar Mário Fernando, ex-goleiro de Paysandu, Remo e Tuna, quando o jogador atuava por um time pequeno (Sport Belém ou Pinheirense), mas não teve êxito. Segundo Pinho, Mário Fernando não quis conversa.

Sobre os dois títulos da Série B conquistados pelo Paysandu em 1991 e 2001, Miguel Pinho afirmou com todas as letras que o clube bicolor se beneficiou de fortes esquemas. Citou o árbitro baiano Manoel Serapião Filho, referindo-se a ele como “Serapapão”.

No jogo contra o ABC, Serapião realmente “fez chover”. Anulou um gol legal do ABC, marcado por Rildon, e, de quebra, permitiu que o jogo chegasse ao final sem o mínimo de segurança. “Existem dois tipos de torcida, a pacífica e a aguerrida. A do Paysandu é pacífica”, justificou Serapião, para dar continuidade à partida, vencida pelo Paysandu por 3 X 1.

Na década de 40, o São Cristóvão tinha um goleiro que, quando queria, pegava até pensamento. Mas do ponto de vista da honestidade não era lá muito confiável. Na véspera de um jogo contra o Botafogo, que precisava vencer para continuar na disputa do título com o Flamengo, ele teria se oferecido ao presidente botafoguense, João Lyra Filho (que na época também era ministro), para amolecer o jogo. Indignado, o dirigente recusou a oferta, considerando-a um insulto.

No dia seguinte, o goleiro fechou o gol e o jogo terminou empatado. Ao cruzar com João Lyra, teria comentado, ironicamente: “Tá vendo, doutor? É o que dá bancar o honesto. Se o senhor tivesse me ouvido, agora não estaria aí desse jeito, com cara de perdedor arrependido.”

Em São Paulo, ficou famoso o caso do zagueiro corintiano Jaú, que em 1932 teria sido "cantado", como se dizia à época, para facilitar uma vitória do então Palestra Itália, atual Palmeiras. Além de não aceitar o suborno, Jaú armou um encontro para que a pessoa que tentou suborná-lo fosse apanhada em flagrante.

Daquele episódio, restou uma triste e preconceituosa brincadeira entre os torcedores dos dois times, registrada por João Máximo na primeira edição de seu livro “Gigantes do Futebol Brasileiro”, no perfil do ex-craque palestrino Romeu Pellicciari: "Quem é rico compra, quem é pobre se vende".

Também nos anos 40, havia um árbitro argentino que andou apitando jogos do Campeonato Carioca e não pensava duas vezes antes de se vender. Tanto que na semana de um clássico contra o Fluminense o pessoal do Botafogo soube que ele havia "fechado negócio" com o Tricolor. Chamado, o juiz confirmou, mas de dispôs a mudar de lado caso cobrissem a proposta que lhe havia sido feita, o que foi acertado na hora.

No dia do jogo, o Fluminense fez o primeiro gol. O juiz argentino arranjou um pênalti para o Botafogo, que empatou. O Flu passou de novo à frente, e de novo o juiz deu um pênalti, que o Botafogo voltou a converter. Mas não teve jeito, porque no último minuto o Fluminense acabou fazendo o gol da vitória.

"Maldita hora em que troquei o certo pelo duvidoso", teria confessado o juiz a seus amigos de bar. "Esse time do Botafogo é tão incompetente que não consegue ganhar nem jogo comprado..." (Historinhas de suborno – de Celso Unzelte)

Nem o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, escapou das nuvens negras que pairam sobre o futebol. Ele, junto de mais seis cartolas ligados a Fifa, foram presos em 2015 pela Polícia da Suíça a pedido da justiça dos Estados Unidos sob a acusação de corrupção e diversos outros crimes.

Os suspeitos foram detidos num hotel em Zurique, sob suspeita deterem recebido propina sobre  a votação para escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022.

Os outros dirigentes detidos na Suíça, além de Marin, foram Jeffrey Webb (Ilhas Cayman), presidente da Concacaf; Eugenio Figueredo (Uruguai),ex-presidente da Conmebol;  Julio Rocha (Nicarágua), presidente da Federação Nicaraguense; Costas Takkas, braço-direito do presidente da Concacaf; Rafael Esquivel, presidente da federação da Venezuela e membro do Comitê Executivo da Conmebol; e Eduardo Li, presidente da Federação da Costa Rica.

Contar histórias de clubes, juízes, dirigentes e jogadores envolvidos em situações de suborno, certamente daria um grosso livre. Ficam as situações contadas acima, apenas como registro de que nem só de santos vive o futebol, de ontem e de hoje. (Pesquisa: Nilo Dias)

Nem o ex-presidente da CBF, José Maria Marin escapu da sujeira no futebol. (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Tragédias do futebol

Foram muitas as tragédias verificadas em estádios de futebol no decorrer dos anos. A maior delas até hoje envolveu um jogo entre Peru X Argentina, pelas eliminatórias da Copa do Mundo , no Estádio Nacional de Lima.

O jogo se transformou no motim oficial de futebol mais mortal da história. Depois de um gol do Peru ser anulado pelos árbitros, os torcedores ficaram violentos, o que levou a polícia a intervir com gás lacrimogêneo para tentar dominar a revolta. No final, 318 pessoas morreram, ao tentarem escapar da cena pelas saídas do estádio que estavam fechadas.

Num jogo entre as equipes do Accra Hearts of Oak, de Acra, contra o Assante Kotoko, de Kumasi, clubes de Gana, disputado no  Estádio Accra, em maio de 2001, ocasionou a morte de mais de 120 pessoas.

No final do jogo a torcida do Assante Kotoko, que perdia por 2 X 1,  começou a atirar garrafas e outros objetos no campo. A polícia respondeu jogando bombas de gás lacrimogêneo. O pânico tomou conta e aconteceu um tumulto que ocasionou as mortes. Essa foi a quarta tragédia fatal relacionada a futebol em solo africano em um mês.

Nem todas as catástrofes esportivas são causadas por torcedores. Em 1988, quando começou a cair granizo durante uma partida no estádio nacional de futebol em Katamandu, Nepal, os torcedores correram em busca das saídas para evitar serem apedrejados.

Das oito saídas disponíveis, a multidão de 30 mil pessoas só pode acessar uma para escapar, resultando na morte de 93 torcedores por sufocamento ou esmagamento.

Em 1996, a partida de qualificação para a Copa do Mundo entre Guatemala e Costa Rica se tornou mortal depois que milhares de torcedores que haviam comprado ingressos falsos tentaram forçar a entrada ao estádio na Cidade da Guatemala.

Sem nenhum lugar para ir, e cercadas por torcedores raivosos que se tornaram violentos, cerca de 80 pessoas foram sufocadas ou esmagadas até a morte no tumulto.

Em fevereiro de 2012 o que deveria ter sido um jogo de futebol normal em Port Said, no Egito, entre o time local Al-Masry e o Al Ahli, do Cairo, acabou em desastre, depois de uma briga que tirou a vida de mais de 70 pessoas e feriu pelo menos mais 1.000.

A tragédia abalou a nação politicamente frágil, que culpou pelo tumulto o governo, as forças de segurança, o conselho da federação de futebol e os próprios torcedores. Revoltas no futebol do Egito estão entre as mais violentas da história.

Nos momentos finais de um jogo entre o FC Spartek e o HFC Haarlem, no Estádio Luzhniki, na Rússia, em 1982, os torcedores que estavam amontoados em uma seção do estádio com saída única devido a uma frequência menor do que a esperada, começaram a deixar o local com a vitória de 1 X 0 de seu time.

Quando a equipe do Spartek marcou o segundo gol, alguns torcedores tentaram voltar para o jogo, sem espaço para tanto. A emoção do gol, a estreiteza da saída e a falta de visibilidade da via do estádio para o exterior criaram uma situação de pânico em que até 340 pessoas teriam morrido (embora o número oficial de mortes permaneça em 60 e poucas), de acordo com o The Guardian.

Em 1985, no Estádio Heysel, na  Bélgica, o jogo final da Taça dos Campeões Europeus entre Juventus e Liverpool causou tantos danos que, na sequência, os clubes ingleses de futebol foram proibidos de competir na Europa continental por pelo menos cinco anos.

A tragédia começou quando fanáticos torcedores de futebol britânicos tentaram forçar seu caminho para a área do estádio onde se situava a torcida italiana, antes do apito inicial. Ambos os lados já haviam assediado um ao outro atirando projéteis no campo.

Quando os torcedores britânicos atacaram, os do Juventus foram encurralados contra um muro de concreto. Alguns tentaram escalar o muro para fugir, enquanto outros foram esmagados. O muro finalmente desmoronou sob a força dos torcedores.

No final, 39 pessoas morreram, além de ocorrerem cerca de 600 lesões corporais. As equipes ainda entraram em campo, apesar da tragédia, com o Juventus saindo à frente do Liverpool com um resultado de 1 X 0.

Também vale a pena lembrar de mortes trágicas ocorridas em campos de futebol, envolvendo jogadores e outras pessoas com algum relacionamento nos jogos.

As mortes de Marc Vivien Foe, Miklos Feher, Antônio Puerta, Serginho e Piermario Morosini provocaram discussões em torno do tema e trouxeram imagens terríveis para todos os torcedores.

Em 1985, o coração de Jock Stein, treinador irlandês, não aguentou a emoção da partida de sua seleção contra o País de Gales, na rodada final das Eliminatórias da Copa, e parou de bater ainda no estádio Ninian Park, em Cardiff.

A primeira morte que se tem notícia acontecida devido a acidentes no gramado foi a de William Cropper, em 1889. Ele, que atuava pelo Staveley e também jogava cricket, colidiu com o joelho de Dan Doyle, jogador do Grimsby Town. A colisão resultou em uma ruptura intestinal e o jogador morreu ainda nos vestiários, nos braços de um companheiro de equipe.

Ainda nos primórdios do futebol, alguns jogadores morreram de uma forma inusitada: contraindo tétano. Foi o caso de James “Daddy” Dunlop, que em 1892 pisou em um pedaço de vidro.

Outros jogadores lesionaram-se durante partidas e devido às lesões contraíram tétano que os vitimou. Foi o que aconteceu com Joe Powell (1896), James Collins (1900) e Tom Butler (1923).

Essa morte não foi durante a partida, mas foi no centro do gramado do Estádio Parque Central, em Montevidéu, local onde foi disputada uma das duas partidas inaugurais da Copa do Mundo de 1930, entre EUA e Bélgica.

Abdón Porte era um meio-campista talentoso, que venceu a Copa América de 1917, com o Uruguai. No ano seguinte, ele seria reserva do Nacional, clube em que jogava, mas não aceitou a notícia de forma feliz.

Após uma vitória sobre o Charley, em 4 de março de 1918, jogadores e dirigente se reuniram na sede do clube para comemorar a vitória. Porte foi até o Parque Central, chegou ao círculo central do gramado e atirou contra seu coração, tirando a própria vida.

Diversos atletas foram vitimados por raios durante partidas. O primeiro caso que se tem notícia foi o de Tony Allden, do Highgate United, durante um jogo das quartas de final da FA Cup de amadores, contra o Enfield Town.

Em 1984, Erik Jongbloed, filho de Jan Jongbloed, goleiro vice-campeão mundial em 1974 e 1978, teve o mesmo fim, assim como os colombianos Hernán Gaviria (que disputou a Copa de 1994) e Giovanni Córdoba, ambos do Deportivo Cali, em treinamento da equipe no ano de 2002.

Em 1998, uma curiosa notícia surgiu em um jornal da República do Congo, o L’Avenir, e repercutiu no mundo todo, inclusive em sites como a BBC e a CNN. Então, acredita-se que tenha realmente acontecido. Como havia uma guerra civil no leste do país, onde aconteceu a partida, não há confirmação oficial do fato.

Em uma partida entre as equipes do Bena Tshadi e Basanga, um raio teria matado todos os 11 jogadores do Tshadi. Porém, a nota original do jornal fala em “pelo menos 11 mortos, entre 20 e 35 anos, durante o jogo” e ainda que “os atletas do Basanga sobreviveram à catástrofe intactos”.

Portanto, diferente do que sempre foi publicado na mídia, pode sim ter havido mortos do Bena Tshadi, mas aparentemente nos 11 mortos havia também expectadores. Cerca de 30 outros expectadores foram atendidos também.

Sempre se diz que o pênalti é a pena máxima do futebol. No caso de um goleiro argentino, essa também foi sua pena fatal.

Em 24 de abril de 1992, Vicente Vásquez, goleiro do Chacarita Garuhapé, tinha contra ele um pênalti em uma liga local argentina. Vásquez acertou o canto e defendeu a penalidade, com a bola batendo em seu peito.

Porém, o arqueiro nunca conseguiu comemorar. Seu coração não deixou, e Vásquez faleceu em campo, vitimado por uma parada cardiorrespiratória.

Se já falamos em defesa de pênalti, temos que falar também da emoção do gol. Ao marcar contra o Mohun Bagan, o brasileiro Cristiano Júnior, do indiano Dempo Sports, levou uma forte pancada do goleiro adversário Subrata Paul.

Seu time venceu o jogo e conquistou a Copa da Federação de 2004 (2×0), mas Cristiano perdeu a vida ainda em campo. A autópsia apontou um ataque cardíaco. O goleiro adversário, responsável pelo choque, foi suspenso por apenas dois meses.

O croata Goran Tunjíc, do Mladost Buzin, sofreu um infarto e caiu morto no gramado na partida contra o Hrvatski Sokola, em 2010, em campeonato de quinto nível do futebol local.

Trata-se de mais um caso trágico, mas que não se destacaria das outras, não fosse por um pequeno detalhe: o árbitro da partida teria dado cartão amarelo ao jogador, quando este já estava praticamente morto, por simulação.

Essa é a história oficial. Alguns repórteres foram tentar confirmar a informação no clube alguns dias depois do ocorrido e os dirigentes informaram que o lance se deu longe do árbitro e que o cartão não teria sido mostrado. De qualquer forma, a história entra na lista das mais curiosas. (Pesquisa: Nilo Dias)

Na tragédia do Egito, familiares buscavam notícias. (Foto: Revista "Veja")

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O craque que se tornou escritor e poeta

Gilson Lustosa de Lira foi um dos mais destacados jogadores que atuaram no futebol mato-grossense, embora tenha nascido em Natal (RN), no dia 7 de março de 1948. Criado no Rio de Janeiro é filho de João Bezerra de Lira e Maria José Lustosa de Lira.

Começou a carreira no amador em Cachoeira de Macacu (RJ), cidade para onde seus pais vieram quando Gilson tinha dois anos de idade saídos de Natal (RN), e lá, foi onde comecei a jogar.

Defendeu o Cachoeirense, 11 Unidos, Ipê e Independente. Depois foi para Bom Jardim e Nova Friburgo. Na época foi observado pelo goleiro Castilho e pelo zagueiro Pinheiro, que eram ídolos do Fluminense, e o levaram aos 13 anos de idade para as divisões de base do clube.

Naquela época não havia juniores, era só o juvenil, depois aspirantes e finalmente o profissional. Gilson, depois do Fluminense, passou pelo Friburgo (hoje Friburguense) e Bangu.

Num jogo do Friburguense em que estava presente o jornalista Mário Filho, que dá nome ao estádio do Maracanã e Euzébio Gonçalves de Andrade e Silva, que foi presidente do Bangu de 1963 a 1968, Gilson marcou três gols.

Depois do jogo ele foi para o Bangu, onde jogou no juvenil, aspirantes e nos profissionais, em dois jogos do campeonato de 1966, quando o Bangu foi campeão.

Gilson considerou um prêmio ter jogado, nem que fosse poucos minutos, num timaço como era aquele do Bangu. Sua primeira partida como profissional aconteceu no ano de 1967, jogando pelo Bangu, num amistoso na cidade de Petrópolis, com vitória por 2 X 0.

Como um cigano do futebol andou pelo Grêmio de Maringá (PR), Náutico (PE), onde foi campeão pernambucano em 1969. Em 1970, fui para o ABC (RN), onde se sagrou campeão estadual e da “Taça Cidade de Natal”.

Em 1971 jogou no Galícia (BA), que era o time dos espanhóis; depois em 1972 voltou ao Rio de Janeiro.

Chegou ao Mato Grosso em 1973, onde disputou seu primeiro campeonato profissional estadual de futebol. Foi pelo Operário, de Várzea Grande. Havia recebido dois convites, um do Itabuna, da Bahia e outro do Operário, optando pelo clube mato-grossense.

Na época, o treinador Nivaldo Santana, que foi seu técnico no Friburguense, teria convencido a diretoria do Operário que se contratasse Gilson Lira, seria campeão, o que realmente aconteceu.

No Operário Gilson teve um desentendimento com Rubens do Santos, que era diretor do clube, por isso acabou indo emprestado para o União, de Rondonópolis, onde marcou 23 gols em 1975, marca essa que ainda não foi quebrada.

E esses gols garantiram o título ao União. Mas acabou ficando com o vice, graças a uma decisão no “Tapetão” que beneficiou o Comercial, de Campo Grande.

Teve ainda passagens pelo Grêmio de Maringá (PR), Náutico (PE), Galícia (BA), ABC (RN), Grêmio Anapolina (GO), Operário (MT), Comercial (MS) e União (MT).

Gilson foi artilheiro por todos os clubes que jogou. E colecionou títulos, em torno de 15 ao todo. Depois que deixou os gramados, teve uma experiência como treinador no União Esporte Clube e Vila Aurora.

Encerrou a carreira em 1980 no União E. C. de Rondonópolis. O último jogo da carreira foi pela Taça de Prata, contra o Villa Nova de Nova Lima (MG), em que seu clube ganhou por 1 X 0 com um gol seu, de cabeça, aos 44’30 do segundo tempo.

Foi o gol de número 684 de sua carreira. Neste torneio, o União fez sete partidas, com uma vitória, três empates e três derrotas.
No Mato Grosso conquistou 13 títulos, sendo sete pelo Operário, Campeão Estadual de 1973, Bi-campeão da Copa Cuiabá em 1973 e 1974, Campeão do Centro-Oeste de 1974, Campeão dos Torneios Ranulpho Paes de Barros, Semana da Pátria e Agripino Bonilha nos anos 1973 e 1974.

E três títulos no Comercial, Campeão do Torneio Incentivo de 1977, Torneio Marcelo Miranda também em 1977 e Taça Campo Grande de 1978; e três títulos no União, Campeão Invicto do Torneio Incentivo de 1975, 1976 e 1979. Marcou em Mato Grosso 285 gols, sendo 199 pelo União (é o maior artilheiro de sua história), 41 pelo Operário e 45 pelo Comercial.

Foi artilheiro do Campeonato Matogrossense em 1973, 1975 e 1976. Recordista de gols com 23 marcados numa única temporada e até hoje não ultrapassado. Bi-artilheiro no Torneio Incentivo em 1976 e 1979. Pelo ABC de Natal foi campeão estadual em 1970 e 1971.

Fora dos gramados construiu uma carreira bem diferente, tendo trabalhado como porteiro de uma escola. Depois conseguiu uma vaga de professor e chegou ao cargo de diretor. Trabalhou por 27 anos em escolas públicas. Foram 11 anos como diretor e 16 anos como professor.

Por influência de amigos, em 1992 teve uma incursão no mundo da política, tendo sido candidato a vereador, mas não conseguiu se eleger. Hoje longe de todas essas atividades se dedica apenas a escrever livros. Mora em Rondonópolis há mais de 30 anos.

Gilson Lira também trabalhou na Radio Juventude, de Rondonópolis, primeiro como comentarista esportivo e depois como narrador. Era chamado de “Comentarista Artilheiro”. Atuou também na Rádio Clube, Tropical FM e foi apresentador de um programa esportivo na TV Gazeta. E foi redator esportivo do jornal “A Tribuna”.

Atualmente é professor aposentado no Estado e escritor com 23 livros lançados nas escolas e 130 em seu site pessoal, o www.gilsonlirapoesias.com.br, que incentiva a leitura doando livros (E-books) para os estudantes.

A queda para a poesia veio desde os tempos escolares. Quando cursava o antigo segundo ano ginasial, no Rio de Janeiro, toda vez que a professora pedia uma redação, Gilson a fazia em versos.

Em 1979 ele lançou seu primeiro livro, que foi uma participação literária.

Gilson Lira tem formação acadêmica em Licenciatura de curta duração Estudos Sociais e Licenciatura plena em História e Filosofia, além de uma pós graduação em História pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

Gilson é casado com Martha Eliane do Nascimento Lira, com quem tem três filhos: Bárbara, Diego e Ígor. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Lampedusa, o time dos refugiados

Uma equipe de atletas refugiados participou da Olímpiada do Rio de Janeiro o ano passado, sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional (COI). A equipe era composta por 10 pessoas, seis homens e quatro mulheres: dois nadadores sírios, duas judocas congolesas e seis corredores da Etiópia e do Sudão do Sul. Todos foram vítimas de perseguições e tiveram que deixar seus países.

O Papa Francisco chegou a enviar uma carta aos atletas, em que disse esperar que a "fraternidade" do time de refugiados "faça bem a todos". Desde 2013, quando assumiu a liderança católica, que Francisco se preocupa com a crise de refugiados.

Em sua primeira viagem como papa, Francisco visitou a Ilha de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo, no Sul da Itália, lugar que se tornou o ponto de chegada de imigrantes e refugiados em travessias ilegais. 

Lampedusa é famosa pelas lindas praias frequentadas pelos italianos em férias. Hoje, também é lembrada como primeiro ponto de chegada de refugiados, especialmente do Norte da África, com destaque para a Líbia, por sua posição geográfica.

Pois bem, o nome Lampedusa chegou a Alemanha, mais precisamente no bairro de Sankt Pauli, em Hamburgo, onde foi criado um programa de apoio aos refugiados, em que se destaca um time amador de futebol com tendências libertárias, que congrega atletas vindos de várias partes do mundo. Todos refugiados.

Desde antes da atual onda migratória, já no começo dos anos 2000, os refugiados chegavam a Lampedusa e de lá eram liberados para tentar a vida em algum país europeu. Por isso o nome do time é uma homenagem a localidade.

Tudo começou em 2013, dois anos antes de ser deflagrada a Guerra da Líbia. Cerca de 80 dos milhares de refugiados líbios, conseguiram chegar na ilha e posteriormente a Hamburgo, onde foram abrigados em uma igreja no bairro de Sankt Pauli.

Torcedores do clube local, o Sankt Pauli se uniram para proteger os recém-chegados contra o desejo das autoridades locais que queriam expulsá-los. E assim nasceu o Lampedusa, time de futebol dos refugiados líbios. Com o tempo, pessoas vindas de diversos lugares do mundo, também passaram a fazer parte do time.

É o caso de um jogador afegão que não podia jogar em seu país porque não tinha documentos. E outros que nunca pensaram em jogar futebol, mas com a acolhida em Hamburgo, preferiram praticar o esporte, em vez de enfrentarem a fúria de bairros, cidades e países que fazem campanha pela volta dos refugiados a seus países de origem.

Nenhum desses atletas refugiados pode jogar em times profissionais da Alemanha, por que não possuem um endereço registrado, o que no Lampedusa não é empecilho. Hoje, o clube conta com mais de 30 jogadores.

Rexhep, um refugiado vindo do Kosovo, chegou a ser deportado para o Leste Europeu, visto que algumas regras estabelecem que o refugiado deve ficar no país onde pisa primeiro na Europa. Mas com o tempo, ele conseguiu voltar para o campo de refugiados em Hamburgo e para o time, onde foi meio campista.

Mas sua alegria durou pouco. O ano passado, por estar “ilegalmente” no país, foi preso pela polícia alemã no aeroporto de Hamburgo e agora se encontra em processo de deportação para o Kosovo, seu país de origem.

O time, que usa as cores amarela e vermelha, tem quatro treinadoras, todas ex-jogadoras de futebol. Uma delas, de nome Hagar, pouco mais de 40 anos é dona de uma loja de material esportivo, que vende camisetas, adesivos e bolsas do time. Seu marido, de nome Fernando, é o mais velho entre os jogadores do time e o único refugiado sul-americano da equipe, vindo da Colômbia há alguns anos.

O escudo do Lampedusa é redondo, com o nome do time em cima e do bairro de Sankt Pauli embaixo. Dentro, uma âncora representa justamente a cidade e o bairro, que fica numa região portuária.

A âncora é formada por um braço com os punhos cerrados em sinal de resistência, e se o lado esquerdo mostra uma seta, com a tendência esquerdista do time, no outro está a figura da bola. O lema do clube, “Here to play” (aqui para jogar), vai ao encontro do lema de muitas lutas pelos refugiados: “here to stay” (aqui para ficar).

A maioria dos refugiados não fala inglês e muito menos alemão. Dai a dificuldade que o time encontra para marcar treinos e viagens, visto que muitos jogadores não conseguem ler placas ou se orientar via transporte público. Qualquer viagem para uma cidade fora do perímetro urbano de Hamburgo pode ser a última aventura de algum jogador na Alemanha, sob risco de deportação.

Todos os jogadores do Lampedusa não são chamados por sobrenome. Usam somente os primeiros nomes, para que não sejam identificados e nem criem panelinhas étnicas.

Os jogadores se chamam apenas  pelo nome, e tratar alguém pela nacionalidade, “o afegão”, “o árabe”, “o libanês”, “o cara da Somália”, pode gerar repreensão das treinadoras. As histórias deles como refugiados não importam. Eles estão ali “para jogar e para ficar”.

"O importante é que eles estão com outras pessoas que estão na mesma situação que eles, sem importar se eles vieram do Iêmen, da Albânia ou da Sérvia. Eles não sabem falar a língua, não têm casa, não tem equipamento. Eles viram irmãos jogando futebol juntos”, justifica a treinadora.

Mesmo enfrentando todo o tipo de dificuldades o projeto do Lampedusa foi agraciado com um “City to City Barcelona FAD Award”, ambicionado prêmio catalão que escolhe as melhores iniciativas urbanas fora da Espanha que melhoram a vida dos cidadãos. Um dos patrocinadores do prêmio é a “Fundação Barcelona”, ligada ao time de Messi, Neymar e Suárez. Por isso o prêmio foi entregue de maneira especial.

O FC Lampedusa foi até Barcelona, onde realizou treinamentos na mesma “Ciudad Deportiva” em que o Barcelona e seu plantel de craques treina diariamente. Teve também uma visita ao museu do Barcelona. E para alegria das treinadoras, puderam assistir um treino da equipe feminina principal e conhecer o estádio “Camp Nou”.

Por iniciativa do Barcelona, o Lampedusa fez um jogo amistoso na “Ciudad Deportiva”, contra a Penya Blaugrana Vallirana, time de um projeto social apoiado pelo clube.

O time joga apenas partidas e torneios amistosos. Não é também filiado a qualquer associação. Mas ainda assim é um time de futebol de verdade, com treinos regulares e alguns jogos. Para ser atleta do Lampedusa tem que ser refugiado e ter no mínimo 16 anos.

O Lampedusa tem o apoio do Sankt Pauli, a equipe profissional do bairro, que ajuda com equipamentos, divulgação e organização de eventos. Em 2015 o time perdeu o campo onde realizava os treinamentos, e o Sant Pauli liberou toda a estrutura para uso do time de refugiados.

No meio do ano, virou parceria registrada: o Lampedusa virou o time oficial de refugiados do clube da segunda divisão alemã, trocando seu nome de “FC Lampedusa Hamburgo” para “FC Lampedusa Sankt Pauli”.

O Sankt Pauli já teve um presidente gay. O time entra em campo ao som de rock and roll e só tem torcedores de esquerda. O clube alemão da caveira, das bandeiras de Che Guevara, luta contra o racismo, o fascismo e o machismo. O clube, enfim, que deixa louco qualquer combatente contra o futebol moderno.

As faixas contra o fascismo, o neonazismo, a favor da causa palestina e da liberdade de expressão são presentes, bem como alguns gorros com as cores do arco-íris LGBT se destacam no meio da maioria de uniforme e cachecóis negros e marrom escuro.

Adesivos de boas vindas aos refugiados estão por toda parte no bairro e no estádio. Na loja oficial do Sankt Pauli pode ser vista uma bonita camiseta com um símbolo de resistência dentro do escudo do clube e a frase, que é o slogan de uma campanha oficial: “nenhum ser humano é ilegal”. (Pesquisa: Nilo Dias)

O Lampedusa quanto esteve na Espanha, a convite do Barcelona. (Foto: Divulgação)