Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 13 de março de 2018

A morte de Bebeto de Freitas

Paulo Roberto de Freitas, mais conhecido como Bebeto de Freitas, morreu hoje, aos 68 anos de idade, depois de sofrer um infarto fulminante, durante a apresentação do time de futebol americano do Atlético Mineiro, onde trabalhava como diretor de Administração e Controle. O evento acontecia na "Cidadedo Galo", em Vespasiano (MG)u

Um helicóptero e duas ambulâncias foram acionadas pelo Atlético para fazer atendimento ao dirigente, mas não chegou a levá-lo para o hospital. Tratava-se de uma das figuras-chave na transformação e identidade tática e técnica que o voleibol brasileiro adquiriu a partir do início dos anos 80, quando passou a dirigir a seleção masculina.

Também foi jogador e treinador de voleibol e presidiu o Botafogo de Futebol e Regatas, do Rio de Janeiro entre 2003 e 2008, além de ter sido diretor-executivo do Clube Atlético Mineiro.

Bebeto de Freitas era carioca, tendo nascido na cidade do Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1950. Era sobrinho do saudoso jornalista e treinador de futebol João Saldanha e primo por parte de mãe do jogador de futebol Heleno de Freitas.

Bebeto foi um importante jogador de vôlei do Botafogo, tendo sido campeão carioca por 11 vezes consecutivas, de 1965 até 1975. Vestiu a camisa da Seleção Brasileira durante os Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal.

Depois de sair das quadras como atleta, tornou-se um dos mais respeitados treinadores de voleibol do mundo. Começou a nova carreira dirigindo a equipe de voleibol da Escola Naval, no período de 1981 a 1984.

Ele foi o responsável pela formação e orientação da consagrada “Geração de Prata” do voleibol masculino brasileiro nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles e também nos Jogos Olímpicos de 1988 em Seul.

De 1990 a 1995 teve uma passagem de enorme sucesso no voleibol italiano, dirigindo o time do “Maxicono Parma”, atual “Pallavolo Parma”, quando conquistou nada menos do que cinco títulos de Campeão Italiano, nas temporadas de 1991-1992 e 1992-1993, Copa Itália 1991-1992 e Copa CEV 1991-1992 e 1994-1995.

Em razão desse sucesso acabou como treinador da Seleção Italiana em 1997 e 1998, conquistando os títulos de campeão da “Liga Mundial de Voleibol”, de 1997, em Moscou e do “Mundial de Voleibol Masculino”, de 1998, enfrentando no jogo final a Iugoslávia, em Tóquio, com vitória de 3 sets a 0.

Ao deixar o voleibol, Bebeto de Freitas tornou-se manager do Clube Atlético Mineiro, entre 1999 e 2001, quando da gestão do então presidente Nélio Brant.  Durante estas duas passagens, o clube obteve resultados expressivos. Foi Campeão Mineiro e Vice-Campeão brasileiro em 1999 e chegou ao quarto lugar no Campeonato Brasileiro de 2001.

Em 2002 deixou o clube mineiro para trabalhar no Botafogo carioca, de quem era torcedor. Primeiro, como diretor. Em poucos meses pediu afastamento, pois na condição de funcionário não poderia se candidatar ao cargo de presidente. E ainda por discordar da gestão do então presidente Mauro Ney Palmeiro.

Ele foi eleito para um mandato não remunerado inicial de três anos, entre 2003 e 2005, ocasião em que começou um processo de reestruturação do clube. Sua direção teve como marco importante, a volta do time de futebol à primeira divisão do Campeonato Brasileiro.

Pelo Botafogo foi campeão da “Taça Guanabara”, do “Campeonato Carioca”, de 2006, e da “Taça Rio”, de 2007 e 2008. Além disso, venceu também títulos em diversas categorias amadoras, tais como polo aquático, basquetebol, voleibol e natação.

Bebeto teve participação decisiva na luta pela aprovação da “Timemania”, que se esperava poder solucionar parte das dívidas do clube. Foi em sua gestão que o alvinegro - a partir da empresa criada por ele, a Cia. Botafogo - conquistou a concessão do “Estádio Olímpico João Havelange”, em 2007.

Ao término da “Taça Guanabara”, de 2008, revoltado com a arbitragem, chegou a pedir licenciamento do cargo de presidente, dizendo que "não aguentava mais as coisas que aconteciam no futebol".

No entanto, como sua renúncia foi somente verbal, dias depois voltou atrás e permaneceu à frente do clube até dezembro daquele ano, quando seu mandato se encerrava, sem possibilidades de reeleição.

Em 2009, a convite de Alexandre Kalil, que desta vez fora eleito presidente do “Galo”, Bebeto de Freitas assumiu o cargo de diretor-executivo remunerado do clube.

Em 2016, Alexandre Kalil foi eleito prefeito de Belo Horizonte, e Bebeto convidado a ser o “Secretário Municipal de Esportes e Lazer”. No comando da pasta, criou o programa "A Savassi é da gente", com eventos que fechavam a Praça Diogo de Vasconcelos aos carros, e abria para atividades esportivas de lazer e convivência aos domingos.

Comandou a pasta de 1 de janeiro de 2017 a 6 de janeiro de 2018, quando voltou ao Atlético Mineiro, a convite do presidente Sérgio Sette Câmara, para assumir o recém criado cargo de Diretor de Administração e Controle.

Atual treinador da seleção masculina de voleibol, Renan Dal Zotto demonstrou toda a sua tristeza com o falecimento do amigo, com quem jogou, foi treinador e trabalhou lado a lado. Disse que é um momento bastante triste para todos nós do voleibol. 

Renan teve a oportunidade de jogar na década de 70 com ele, de ser treinado por ele na geração de prata e trabalharam juntos anos depois. "Bebeto teve uma história muito grande no esporte, foi um grande amigo. É uma notícia difícil de acreditar. Ele está dentro dos nossos corações", disse o técnico em entrevista ao programa “Seleção Sportv”.

Bernardinho, ex-técnico vitorioso da Seleção Brasileira disse que o voleibol é o que é hoje porque teve precursores como Bebeto. Lembrou que aos 15 anos de idade começou a conviver com ele. Na primeira seleção carioca que Bebeto dirigiu, Bernardinho era o capitão do time.

Já o ex-atleta Zé Roberto disse: “Vai ficar uma grande saudade, uma saudade de alguém que marcou a vida de vários jogadores, treinadores. O mundo inteiro vai sentir falta”.

Os jornais italianos repercutiram a morte de Bebeto: “O mundo do vôlei chora a morte de Bebeto”, destacou o “Corriere dello sport”.

Outros jogadores também lamentaram a morte de Bebeto nas redes sociais, como Giba e Nalbert. A Confederação Brasileira de Vôlei, em nota, lamentou a morte do desportista. O Comitê Olímpico do Brasil falou do profundo pesar pelo falecimento dele. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 12 de março de 2018

Evaristo, craque dentro e fora dos gramados

Eu era um menino, ainda lá em Dom Pedrito (RS), minha terra natal, quando o Flamengo, do Rio de Janeiro, tinha um grande time. Entre os titulares estava Evaristo de Macedo Filho, ou somente Evaristo, como era conhecido pelos torcedores. 

É carioca de nascimento, tendo vindo ao mundo no dia 22 de junho de 1933. Evaristo foi um dos jogadores mais talentosos do futebol brasileiro e mundial, na década de 1950 e começo dos anos 1960.

Começou a carreira no Madureira, time do subúrbio do Rio de Janeiro, onde jogou de 1950 a 1952. Depois foi jogar no Flamengo, onde foi convocado pelo técnico Newton Cardoso para os jogos Olímpicos de Helsinque, em 1952.

Disputando uma vaga no ataque rubro-negro com Índio e Adãozinho, conquistou o primeiro título no Campeonato Carioca de 1953. O feito se repetiu, já como titular, nos dois anos seguintes.

Evaristo de Macedo fez muito sucesso naqueles tempos, formando uma inesquecível linha de ataque na Gávea com Joel, Rubens (Duca), Dida e Zagallo. Uma geração que marcou época. 

Permaneceu no Flamengo por cinco anos, sagrando-se tricampeão carioca nos anos de 1953, 1954 e 1955. Vestindo a camisa do Flamengo, foram 182 jogos (101 vitórias, 35 empates, 46 derrotas) e 102 gols marcados.

Ao deixar o rubro-negro em 1957 foi jogar na Espanha, onde conseguiu um feito quase impossível, defender as camisas dos grandes rivais Barcelona (1957 a 1962) e Real Madrid (1963 e 1964), coisa que poucos jogadores alcançaram.

Evaristo de Macedo também conseguiu feitos históricos com a camisa do FC Barcelona. Um deles foi o de ser o jogador que marcou o primeiro hat-trick (três gols na mesma partida) da história do “Camp Nou”. Ocorreu no dia 8 de março de 1958, em uma vitória do Barça por 7 X 1 sobre o Valladolid.

Também foi o jogador que marcou o primeiro hat-trick contra o Real Madrid no então novo estádio do Barça. O clube catalão goleou o eterno rival por 4 X 0 e Evaristo marcou três. Vale lembrar que o brasileiro fazia a sua estreia no clássico. Uma façanha que só seria repetida por ninguém menos que Romário e Leo Messi.

Evaristo também foi responsável pela primeira eliminação do Real Madrid na Copa da Europa - atual Liga dos Campeões -, em 1960, com um gol de ‘peixinho’ no “Camp Nou”, que entrou para a história.

Nos dois grandes do futebol espanhol, Evaristo conquistou vários títulos. É até hoje o maior artilheiro brasileiro da história do Barcelona, com 178 gols marcados em 226 jogos.

A última visita de Evaristo de Macedo ao FC Barcelona foi em 2015. Na época, o lendário atacante comprovou que o seu carisma segue intacto na Catalunha após mais de 50 anos da sua saída do clube. Fez fotos com torcedores, com os jogadores brasileiros que estavam na equipe, com Leo Messi e até com o presidente do clube, Josep Maria Bartomeu.

Evaristo também assistiu os duelos contra o Manchester City, na Liga dos Campeões e o clássico contra o Real Madrid, pela Liga Espanhola. O Barça venceu os dois jogos e finalizou a temporada 2014/15 com uma nova tríplice coroa do futebol europeu. Com a benção do Evaristo.

Já com a camisa “canarinho” da Seleção Brasileira, teve poucas oportunidades. Mesmo considerado um dos melhores atacantes de sua época, Evaristo não disputou o mundial de 1958. A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) não apoiava a convocação de jogadores brasileiros que jogavam no exterior.

Na vaga de Evaristo foi convocado o jovem atacante Mazzola do Palmeiras, que depois da conquista de 1958 foi negociado com o futebol italiano.

Atuou em apenas 14 partidas pela Seleção e marcou oito gols, sendo cinco na vitória de 9 X 0 frente a Seleção da Colômbia. É até hoje o único jogador a conseguir a chamada “manita”, fazer cinco gols pela Seleção em um único jogo.

Uma curiosidade. Também pelo Flamengo Evaristo marcou cinco gols num só jogo. Foi contra o São Cristóvão, pelo Campeonato Carioca, em 27 de outubro de 1956, quando o Flamengo fez 12 X 2, a maior goleada da história do Maracanã até hoje.

Evaristo ficou marcado pela classe e elegância ao dominar a bola. Era um finalizador técnico, mas também objetivo. Tinha chutes fortes e certeiros, sem perder muitas oportunidades de gol.

Depois que deixou os gramados tornou-se treinador. Seu melhor momento na nova carreira foi no Bahia, onde conquistou vários certames estaduais e sagrou-se campeão brasileiro em 1988, dirigindo uma equipe que contava com Bobô e companhia.

Evaristo também chegou a dirigir a Seleção Brasileira de Futebol nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1986, mas logo foi substituído por Telê Santana no cargo.

Times que dirigiu como técnico: América, do Rio de Janeiro (1967; Fluminense (1968); Bahia (1970 e 1971), Bangu, do Rio de Janeiro (1971); Santa Cruz, de Recife (1972); Bahia (1973); Santa Cruz, de Recife (1975); Santa Cruz, de Recife (1977 e 1980); América, do Rio de Janeiro (1985); Seleção Brasileira (1985); Seleção do Iraque (1986); Bahia (1988 e 1989); Fluminense, do Rio de Janeiro (1990); Grêmio, de Porto Alegre (1990); Cruzeiro, de Belo Horizonte (1991 e 1992); Seleção do Qatar (1992); Flamengo, do Rio de Janeiro (1993 e 1995); Bahia (1995); Atlético Paranaense (1996); Grêmio, de Porto Alegre (1997); Vitória, da Bahia (1997); Bahia (1998); Flamengo (1998); Corinthians (1999); Bahia (2000 e 2001); Vasco da Gama, do Rio de Janeiro (2002); Flamengo, do Rio de Janeiro (2002 e 2003); Bahia (2003); Vitória (2003 e 2004); Atlético Paranaense (2005 e 2006) e Santa Cruz, do Recife (2007).

Títulos conquistados. Pelo América carioca. Campeão do Torneio Internacional Negrão de Lima (1967); Pelo Bahia. Campeonato Baiano (1970, 1971, 1973, 1988, 1998, 2001); Campeão Brasileiro (1988); Copa do Nordeste (2001); Pelo Santa Cruz. Campeonato Pernambucano (1972 e 1978) e pelo Grêmio. Campeão Gaúcho (1990) e Campeão da Copa do Brasil (1997).

O time do Bahia, campeão brasileiro em 1988 tinha esta escalação básica: Ronaldo – Tarantini - João Marcelo - Claudir e Paulo Róbson. Paulo Rodrigues – Gil - Bobô e Zé Carlos. Charles e Marquinhos. (Pesquisa: Nilo Dias)



sexta-feira, 9 de março de 2018

Um gênio do futebol mundial (I)

Alfredo Di Stéfano Laulhé, ou simplesmente Di Stéfano foi um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Era argentino, de Buenos Aires, nascido em 4 de julho de 1926, no bairro portenho de Barracas, e falecido em Madrid, Espanha, em 7 de julho de 2014.

Cresceu jogando futebol com os meninos do bairro em terrenos baldios, a chamada "academia da rua", com bolas de borracha que custavam poucos centavos. Sua primeira equipe organizada se chamava “Unidos y Venceremos”.

Em 1940, sua família se mudou para Los Cardales. Seu pai era agricultor e trabalhava na zona rural. Alfredo deixou os estudos e começou a trabalhar para ajudar a economia familiar.

Aos domingos pela manhã jogava futebol com seu irmão Tulio, no “Club Unión Progresista”, o mais antigo de Los Cardales. E a tarde acompanhava seu pai nos jogos do River Plate, clube do qual era sócio desde os sete anos de idade.

O primeiro campeonato ganho pela “La "Saeta Rubia" foi defendendo o "CSD Unión Progresista", em meados de 1940.

Di Stéfano e José Manuel Moreno, estrela do River Plate, são considerados os maiores jogadores argentinos do século XX, ao lado de Diego Maradona.

Além de brilhante jogador foi também excelente técnico. Jogou por três seleções, da Argentina, Colômbia e Espanha. Recebeu da imprensa espanhola o apelido de “La Saeta Rubia” (A Flexa Loira”), devido a sua velocidade e a cor dos cabelos.

Além de extremamente veloz, combatia, desarmava, tinha grande inteligência para criar jogadas, habilidade para receber, tratar, conduzir, cabecear e passar a bola, além de precisão nos arremates.

Quando criança, não pensava em ser jogador de futebol. Sua vontade era seguir a carreira de aviador. Seu pai o incentivava a ser futebolista. Mas Di Stéfano só se decidiu pelos caminhos da bola, depois de marcar três gols quando, aos 17 anos, foi chamado às pressas para completar o time do bairro.

Aos 12 anos integrou os juvenis do Los Cardales, aos 15 transferiu-se para o River Plate e aos 16 estreou na equipe principal.

Seu pai havia sido jogador do River Plate, o que facilitou sua ida para o clube. Foi levado à equipe por um ex-jogador que, em visita casual a sua casa, ouviu da mãe de Di Stéfano que o garoto tinha talento.

Passou no teste e foi convidado pelo ex-jogador Carlos Peucelle a entrar na quarta categoria do clube, não demorando para subir até a terceira, depois de ter sido visto por outro antigo atleta do River, Renato Cesarini. Depois que o observou, indagou a Peucelle: "diga-me, é um center-forward"? No que foi respondido: "Não, senhor, não é. É um fenômeno".

De 2000 a 2014 foi o presidente honorário do Real Madrid, clube cuja história de sucesso confunde-se com a dele. Com Di Stéfano em campo o clube madrilheno tornou-se o maior vencedor da cidade de Madrid, da Espanha e da Europa. Também era presidente honorário da UEFA, desde 2008.

Suas grandes atuações serviram para a alimentar a rivalidade com o Barcelona, que na época não tinha a mesma expressão do adversário.

Muitos jogadores que foram seus adversários, como por exemplo,  Joaquín Peiró, que jogava pelo Atlético de Madrid, destacou Di Stéfano como o número 1, dizendo que “aqueles que o viram jogar, viram um grande craque. E aqueles que não o viram, perderam".

Já Helenio Herrera, técnico do Barcelona, disse que "se Pelé foi o violinista principal, Di Stéfano foi a orquestra inteira". Gianni Rivera e Bobby Charlton, que no início de suas carreiras enfrentaram (e perderam) por seus respectivos clubes (Milan e Manchester United) para “La Saeta Rubia” e o Real Madrid na "Taça dos Campeões Europeus", nos anos 1950, disseram que "ele os enlouquecia" e "foi o jogador mais inteligente que viram jogar, transpirando esforço e coragem. Foi um líder inspirador e um exemplo perfeito para os outros jogadores".

Os torcedores mais entusiasmados do Real Madrid diziam que Di Stéfano fez a Espanha torcer para o clube "merengue". E graças as suas exuberantes atuações o Real Madrid se tornou conhecido além das fronteiras espanholas, disse o presidente Ramón Calderón, que hoje dá nome ao estádio do clube.

Para Emilio Butragueño, ex-jogador e depois membro da diretoria, "a história do Real Madrid começou de fato a ser contada com a vinda de Di Stéfano". O jogador, contudo, não gostava de entrar em polêmica e apontava Adolfo Pedernera, astro do River Plate nos anos 1940, como o melhor jogador que conheceu.

Di Stéfano guardou uma grande mágoa, não ter jogado uma Copa do Mundo, embora tenha atuado por três países - chegou a ir para a de 1962 pela Espanha, mas uma lesão o impediu de atuar.

Como treinador, obteve mais sucesso no Valência e também possui uma marca histórica na função: foi o único a ser campeão argentino treinando os arquirrivais Boca Juniors e River Plate.

No começo de carreira, ainda no futebol argentino, Di Stéfano mostrava uma grande fome de gol. Portava-se dentro de campo como um verdadeiro centroavante. Entre fazer um gol ou dar um passe para outro companheiro, não vacilava, ele fazia o gol. E dizia que não se arrependia disso, acrescentado que  “o goleador tem mesmo que ser um tanto egoísta.”

O seu grande ídolo na infância foi o paraguaio Arsênio Érico, jogador que até hoje se mantém como o maior artilheiro da história do futebol argentino, que defendeu o Independiente nos anos 30 e 40.

O seu aperfeiçoamento como jogador, porém, não se deu na Argentina. Fora de seu país aprendeu também a voltar da área adversária para buscar o jogo, atuando como ponta-de-lança. Para poder fazer isso, era dotado de excepcional preparo físico, o que lhe dava condições de correr todo o campo durante uma partida inteira mesmo depois dos 30 anos.

Di Stéfano conseguiu jogar em alto nível até os 40 anos, decidindo por encerrar a carreira apenas para atender a um pedido do filho, quando soube por este que seria avô.

Chegou ao River Plate em 1945, quando o clube era chamado de “La Máquina”, um time que contava com Pedernera, Juan Carlos Muñoz, José Manuel Moreno, Ángel Labruna e Félix Loustau, entre outros, que ganhou o campeonato argentino daquele.  

O craque jogou ainda com o goleiro Amadeo Carrizo, que estreou naquele ano de 1945. Na vitoriosa campanha, porém, ele participou de apenas uma partida, substituindo Muñoz.

Não era fácil ser titular naquele time, por isso acabou emprestado por um ano ao Huracán, curiosamente a mesma equipe contra a qual havia feito seu primeiro jogo. Ali, teve como treinador o ex-artilheiro Guillermo Stábile, que também era o técnico da Seleção Argentina.

Os primeiros dois gols que marcou na carreira, foram justamente no clássico frente o San Lorenzo, em uma vitória por 3 X 2, em pleno estádio do arquirrival, que se sagrou campeão argentino daquele ano de 1946.

Nem a sua ex-equipe, River Plate, escapu. Contra ela marcou o que é até hoje o gol mais rápido do futebol argentino, aos 11 segundos de jogo.

Mesmo com o Huracán terminando o campeonato em nono lugar, Di Stéfano fixou-se como centroavante e marcou 10 gols em 25 partidas, sendo um dos destaques do time e do campeonato. E foi no Huracán que ganhou o apelido de “Saeta” (flecha).

Para diferenciar de Llamil Simes, seu companheiro de equipe, que tinha o mesmo apelido, o de Di Stéfano recebeu o acréscimo “Rubia” (loira). O Huracán quis ficar com ele em definitivo, mas não teve condições de pagar os 80 mil pesos pedidos pelo River. Após um ano, voltou ao “Monumental de Núñez”, em 1947.

Dessa vez teve melhores condições de ser titular, pois Pedernera saíra para o Atlanta, Labruna estava com hepatite e Muñoz, lesionado. O jogo de sua reestreia foi apontado por ele mesmo como o melhor de sua carreira. A partir dai sempre carregava no bolso um pequeno distintivo gravado com a inscrição "River Plate-San Lorenzo de Almagro, 1947".

Em 1947 teve de prestar serviço militar, mas mesmo assim fez 27 gols pelo River, ajudando o clube a ganhar o campeonato argentino, o seu primeiro título como membro efetivo no grupo, e tendo terminado como artilheiro do certame.

A torcida reconheceu nele um novo ídolo, e o recepcionava em campo com gritos de “socorro, socorro, ahí viene la Saeta con su propulsión a chorro" ("Socorro, socorro, aí vem a Flecha com sua propulsão a jato").

Suas grandes atuações em 1947 o levaram a ser convocado para à Seleção Argentina. E o título de 1947 valeu ao River Plate um convite para disputar o Campeonato Sul-Americano de Campeões, torneio realizado em 1948 e reconhecido como o precursor da “Taça Libertadores da América”.

O River fez alguns jogos em São Paulo, em 1948, como preparativos para o torneio. O eterno rival Boca Juniors, mesmo não sendo participante da competição, foi também para São Paulo na mesma época.

Curiosamente foi marcado um jogo amistoso entre um combinado dos paulistas e outro dos rivais argentinos, que vestiram o uniforme do Palmeiras, visto que River e Boca não quiseram usar nenhum de seus uniformes. O torneio foi decidido entre River e Vasco da Gama, que, tendo a vantagem do empate, sagrou-se campeão ao segurar um 0 X 0.

Em 1949 os jogadores argentinos haviam realizado uma greve exigindo assistência médica para os familiares, um salário mínimo para a categoria e a extinção do passe, para serem livres para escolher onde gostariam de jogar.

Porém, não foram atendidos, o campeonato parou e muitos atletas foram jogar em outros países. Di Stéfano foi para o Millonários, da Colômbia  que lhe ofereceu proposta irrecusável. Deixou o River Plate com 49 gols em apenas 66 jogos.

Chegou ao clube de Bogotá em 1949. A liga colombiana havia se transformado em um verdadeiro Eldorado, tendo contratado além de Di Stéfano, outros craques sulamericanos, como os também argentinos Pedernera, e Nestor Rossi.

O dono do Millonarios, Alfredo Senior, havia resolvido lucrar com o esporte, aliciando os melhores atletas sul-americanos para jogar em sua equipe a fim de atrair grandes públicos, o que naturalmente repercutiu negativamente no exterior. Além disso, o clube era intimamente ligado ao poder local, sendo atraente para quem tivesse pretensões políticas.

Os outros clubes colombianos, para não ficarem por trás, tomaram medidas similares. Os jogadores peruanos, em geral, foram para as equipes de Cali e Medellín. Os paraguaios foram levados para Cúcuta, e alguns brasileiros como Heleno de Freitas e Tim, foram parar em Barranquilla.

Até mesmo jogadores britânicos, como Charlie Mitten, do Manchester United, que foi jogar no Independiente, de Santa Fé, foram atraídos para o mercado colombiano. O mesmo aconteceu com atletas iugoslavos, italianos e húngaros.

Os dirigentes locais queriam implantar o profissionalismo no futebol do país, enquanto a federação insistia com o amadorismo. Além disso, o futebol colombiano ainda vivia apenas de competições regionais. Muitos clubes se desfiliaram então de federação para organizar um campeonato nacional, que acabou banido pela FIFA.

Se isso foi ruim para um lado, foi bom para outro. Os clubes colombianos não precisaram mais pagar multas rescisórias às equipes estrangeiras onde buscavam jogadores, pois a liga pirata encontrava-se fora da jurisdição da FIFA. Bastava oferecer um salário melhor e uma passagem apenas de ida para a Colômbia. Isso irritou as outras federações sul-americanas.

Na liga pirata, Di Stéfano foi campeão em 1951 e 1953, integrando o chamado “Ballet Azul”. Na Colômbia, onde a liga vinha sendo um grande sucesso de público, ele aprimorava-se como jogador, passando também a defender e passar a bola com maestria.

Além de Pedernera e Rossi, Di Stéfano jogou ainda ao lado de Julio Cozzi, Antônio Báez, Reinaldo Mourín e Hugo Reyes, também argentinos expatriados, assim como o técnico Carlos Aldabe.

O time contava ainda com dois uruguaios de destaque: Schubert Gambetta, campeão da Copa do Mundo de 1950, e Héctor Scarone, também campeão mundial, mas da Copa de 1930, que foi outro treinador do elenco.

Aborrecidas com a contínua investida da liga colombiana sobre os jogadores do continente e sem nada receber pelas saídas deles, as federações vizinhas fizeram um acordo em 1951: permitiriam que tal situação perdurasse por mais dois anos, quando então os jogadores estrangeiros deveriam ser todos devolvidos a seus clubes de origem.

O Millonários decidiu aproveitar o tempo que tinha e lucrar o máximo com amistosos ao redor do mundo. Em um deles, em 1952, a equipe foi chamada para jogar uma partida contra o Real Madrid, que celebrava o aniversário de 50 anos deste clube.

Em pleno “Chamartín”, Di Stéfano marcou duas vezes na vitória por 4 X 2 dos sul-americanos. Foi imediatamente contratado pelo Barcelona, outra equipe espanhola.

O argentino deixou o Millonários como o maior artilheiro da história do time, totalizando 267 gols em 292 partidas. Além de títulos e artilharias na Colômbia, venceu com o clube também a “Pequena Taça do Mundo”, de 1953, chegando a marcar dois gols em um 5 X 1 sobre sua ex-equipe do River na competição.

Com Di Stéfano, o clube também abriu larga vantagem em títulos colombianos cujos efeitos ainda perduram, sendo a equipe mais vencedora do campeonato nacional mesmo não o conquistando desde 1988. Apenas em 2008 foi igualado pelo América de Cali.

O Barcelona negociou Di Stéfano com o clube que oficialmente detinha seu passe, o River Plate. O jogador já havia participado de três amistosos pelo Barcelona quando o Real Madrid entrou na disputa por ele. O clube da capital espanhola conversou diretamente com o Millonários e passou a considerar-se também dono da joia rara.

O ministro dos esportes, general Moscardo, apresentou uma solução: o argentino faria temporadas alternadas por cada equipe por quatro anos - começando pelo Real. O acordo foi rejeitado pelo Barcelona e Di Stéfano acabou ficando no Real.

A polêmica acirrou os ânimos entre os dois clubes, que até então não tinha tanta força. Outros ex-jogadores do clube, como Ricard Zamora e Josep Samitier, já haviam jogado sem maiores problemas na equipe madrilenha nos anos 1930.

Com o passar dos anos a rivalidade foi aumentando até tornar-se uma das principais do mundo, graças às conquistas em série que o Real conseguiu com Di Stéfano. Antes dele, o clube madrilhenho não era o maior vencedor do país, nem mesmo da cidade: tinha dois títulos no campeonato espanhol, conquistados a mais de 20 anos.

Com a chegada do argentino, o Real conquistou de cara seu terceiro título, muito por conta dos 29 gols que ele marcou e que lhe garantiram a artilharia do torneio. Um bicampeonato seguido veio na segunda temporada.

Em 1955, ele e o Real ganharam também a “Copa Latina”, o mais prestigiado torneio europeu de clubes na época, que reunia os campeões de Espanha, França, Itália e Portugal. Os espanhóis venceram os portugueses do Belenenses e, na final, os franceses do Stade de Reims. (Continua)


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O primeiro goleiro profissional do Flamengo

Fernando Botelho, o “Fernandinho”, também conhecido por "dodô", foi o primeiro goleiro a vestir a camisa do Flamengo, do Rio de Janeiro como jogador profissional e também o último como amador. Ainda é vivo e reside no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro.

Nascido em 2 de março de 1913, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, está hoje com 105 anos de idade e em plena forma física. Começou nas categorias de base. Hoje é conselheiro vitalício do rubro-negro carioca.

Desde menino, “Fernandinho” vivia dentro do Flamengo, se tornando sócio do Clube em 1922 com 9 anos de idade. Começou sua carreira futebolística jogando como centromédio, mas logo se transferiu para o gol, de onde não saiu mais.

Garante que era um bom centro-médio da época do Júlio Silva como técnico, mas batia muita bola no gol. Um dia o goleiro, Elidio Sauer, um garoto lá da época se chocou contra a trave e faturou uma costela. Ai o treinador mandou "Fernandinho" para o gol. E a partir dai nunca mais saiu da posição.

”Fernandinho” conta que a sua infância foi muito boa. Ele morava na Rua Paissandu no Flamengo e lá passou sete anos maravilhosos de 1925 a 1932. Lembra que sua mãe era flamenguista. E foi para o time do Flamengo através do intermédio de um jogador antigo, amigo dela, chamado Ademar Martins, o “Japonês”. Como o Flamengo ficava também na Rua Paissandu, era como se fosse seu quintal.

Ele defendia a meta flamenguista quando da transição do amadorismo para o profissionalismo do futebol brasileiro no ano de 1933. Fernando também foi o 1º goleiro a disputar uma partida profissional pelo Flamengo no exterior, em uma excursão com quatro jogos pela América do Sul, enfrentando duas vezes o Peñarol (URU) (3 X 2) (1 X 1), Nacional (URU) (1 X 2) e a Seleção Argentina (1 X 2).


"Fernandinho", em outro momento histórico do Flamengo, atuou no último jogo no velho Estádio da Rua Paysandu, onde o clube mandava seus jogos, terreno cedido pela família Guinle, que tomou posse novamente após este jogo. Foi contra o Sport Clube Brasil, vitória de 5 X 0 , e o goleiro do Brasil era Aymoré Moreira, que se tornaria anos depois o técnico da Seleção Brasileira.


A partir daí o Flamengo começou a mandar seus jogos no Estádio das Laranjeiras (campo do Fluminense), ou no Estádio da Rua General Severiano (campo do Botafogo), e alguns jogos em São Januário (campo do Vasco).

Em 1935, devido uma contusão no joelho, teve de interromper a brilhante carreira aos 21 anos de idade, tendo passado a trabalhar no ramo do café até se aposentar. E também se tornou um entusiasta do turfe, hobby que conserva até os dias de hoje. E faz questão de assistir a performance de seus cavalos “in loco”.


Ao parar de jogar o Flamengo lhe deu 50 contos, muito dinheiro na época. Serviu de entrada para "Fernandinho" comprar seu apartamento que custou 80 contos. Foi o primeiro prédio de oito andares em Ipanema, o "Marajoara", que tinha vista até da Avenida Niemeyer. É onde ele mora até hoje.

Depois fundou um time chamado Olímpico Clube. Reunia jogadores que tinham parado de jogar, entre eles, Preguinho e Jarbas. Fazíam excursões, inclusive no exterior. Chegaram a jogar em Santos de avião fretado da "Condor", coisa raríssima naquela época.

Fã do Arpoador, praia onde costumava pescar camarão de anzol e eleito por ele como melhor lugar do mundo, “Fernandinho” não esconde seu amor pelos cavalos e segue sem freio mesmo depois dos 100 anos. E diz gostar muito disso e até já teve o seu cavalinho da sorte.

Quando completou 100 anos foi homenageado pel Jockey Club Brasileiro, com a realização de um páreo que levou seu nome. Ele é proprietário desde 12 de fevereiro de 1981, da farda cereja e mangas pérola.

Segundo o “Almanaque do Flamengo”, de Roberto Assaf e Clóvis Martins, “Fernandinho” fez 55 jogos pelo Flamengo, entre 1930 e 1934, com 29 vitórias, 11 empates e 15 derrotas. Só tornou-se profissional em 1933. Antes disso, jogava de graça.

Além de jogar no Flamengo, “Fernandinho” também defendia o time da “Medicina e Cirúrgia”, que nos tempos do amadorismo disputava o Campeonato Acadêmico de Esportes, que era patrocinado pelo “Jornal dos Sports”.

As escolas que tinham vários jogadores dos clubes do Rio, contavam com a cooperação dos times para que seus jogadores disputassem o Campeonato Acadêmico. "Fernandinho" era estudante de Medicina.

Isso foi um marco histórico, já que se constituiu na primeira vez que oito Escolas Superiores se empenhavam na conquista de títulos em várias modalidades esportivas, e em especial o campeonato de futebol.

Chegou a sagrar-se campeão invicto por esse clube, tendo na partida final derrotado a Faculdade de Direito, do Rio de Janeiro, por 3  X  1, gols de Moacir, Almir (que defendeu o Botafogo) e Eloy (que jogou também pelo Flamengo).

Goleiro titular da equipe esteve presente na Seleção Acadêmica, que disputou um campeonato internacional. Na fase de preparação, a equipe estudantil fez alguns jogos amistosos contra o Combinado Fla-Flu, Flamengo, Vasco, São Cristóvão, Fluminense, em Minas Gerais, América, Palestra Itália (Cruzeiro), Vila Nova, em São Paulo, São Paulo (de Friedenreich), e Corínthians.

Depois foi para a Argentina e Uruguai, onde foram realizados vários jogos amistosos com times profissionais, ainda sob o patrocínio do “Jornal dos Sports”.

A estreia de “Fernandinho” na meta rubro-negra aconteceu em 20 de abril de 1930, oportunidade em que o Flamengo foi goleado pelo Syrio Libanês por 6 X 1.

No seu último jogo pelo clube da “Gávea”, também não deu sorte, tendo sofrido derrota para o rival Vasco da Gama, por 5 X 2, dia 1º de abril de 1934.

“Fernandinho” não chegou a ganhar nenhum título importante como profissional, sendo campeão apenas nas categorias de base, mas ostenta até hoje a melhor média de gols sofridos em Fla-Flus, na história do clássico, confronto em que se manteve invicto por toda sua carreira.

Seu retrospecto contra o time das Laranjeiras é irretocável. “Fernandinho” estreou no time principal na última rodada do Campeonato Carioca de 1931, quando seu time venceu o clássico por 1 X 0, dando final a uma série de resultados ruins que vinha desde setembro de 1928.

Garante que nunca perdeu para o Fluminense, que considerava o seu freguês favorito. Acha que, no mínimo, foram umas seis partidas disputadas.

O Fla-Flu era o grande jogo da época, mexia com a cidade. O Vasco entrou atrasado, mas era uma potência também, representando a colônia portuguesa. Jura que o América era quem dava mais trabalho, era chato, tinha bons times.

E faz questão de dizer que o ilustre tricolor João Coelho Netto, o “Preguinho”, autor do primeiro gol da seleção brasileira em Copa do Mundo (1930), era um de seus melhores amigos.

A rivalidade naqueles tempos era diferente. Ele chamava o “Preguinho” de Joãozinho e ele não gostava (risos). Mas garante que era uma pessoa maravilhosa. E juntos fundaram o Clube Olympico.

“Preguinho” não era só jogador de futebol, também praticava outras sete modalidades esportivas. Porém, não era o único atleta admirado e citado algumas vezes pelo ex-camisa 1 do Flamengo.

Pirilo, um dos 10 maiores artilheiros do rubro-negro, Evaristo de Macedo, ex-meio-campista que “Fernandinho” garante ter ajudado a levar para a Gávea, o goleiro Júlio César, titular da seleção nas Copas de 2010 e 2014, e os técnicos Kanela, deca-campeão carioca com o basquete rubro-negro, e Flávio Costa, comandante do primeiro tricampeonato do clube (1942/1943 e 1944), são figuras marcantes na sua memória.

Considera Amado Benigno como o melhor goleiro que viu jogar. Garante que se tratava de um grande goleiro. Lembra que as goleiras eram feitas de pedaços de madeira, e se constituiam em verdadeiro perigo. Lembra de uma vez em que fez uma defesa e bateu as costelas naquele bico. Ficou dois, três dias sem andar. 

“Fernandinho garante que a melhor atuação que teve na carreira foi justamente contra o Fluminense, ocasião em que fechou o gol. Lembra que em 1919, quando tinha apenas seis anos de idade, assistiu a uma derrota histórica do Flamengo parta o Fluminense, por 4 X 0, o que garantiu ao time das “Laranjeiras” o tricampeonato estadual (1917-1918-1919).

Tempos depois, quando já era o goleiro titular do rubro-negro, teve a oportunidade de devolver a goleada ao tradicional adversário.
“Fernandinho” lamenta nunca ter jogado uma partida no Maracanã, estádio que não existia no seu tempo de atleta.

O estádio só foi construído 20 anos depois, para a Copa do Mundo de 1950. Mas isso não evitou que no dia 1 de março de 2014, antes de um jogo frente o Nova Iguaçu, pelo Campeonato Carioca, ele, com 101 anos, subisse as escadas até o gramado com uma vitalidade que impressionou a todos.


Fernandinho teve o privilégio de nunca ter levado gol de Leônidas, grande craque do Bonsucesso que é conhecido como o inventor do gol de bicicleta. Mas ele mesmo em uma entrevista disse somente ter aperfeiçoado o que viu o Petronilho de Brito fazer.

Mas Fernandinho lembra de um jogo contra o Bonsucesso de Leônidas, no campo do adversário em um dia chuvoso, em que só levou gol em um pênalty cobrado por Prego, e Darci também de pênalty empatou para o Flamengo. O jogo foui no dia 10 de julho de 1932.


Também não levou gol de Friedenreich, o maior artilheiro do futebol, que na época jogava no São Paulo. E quando veio jogar contra o Flamengo, "Fernandinho" não disputou este jogo, pois havia saído machucado no confronto com o Bonsucesso. Quem atuou foi Amado, que levou o gol de Friedenreich, porém Tales empatou o jogo para o Flamengo.

O centenário ex-goleiro conta que um dos dias mais emocionantes de sua vida viveu ao lado de Zico, quando comemoraram juntos os aniversários. O “Galinho” nasceu em 3 de março e “Fernandinho” em 2 de março. A festa foi na sede da “Gávea”.

Nesse dia “Fernandinho” chegou bem cedo ao clube para se encontrar pela primeira vez com o eterno camisa 10 do Flamengo, que em sua opinião é o maior jogador de todos os tempos. Disse na ocasião, que era uma felicidade imensa estar com o Zico, que não poupou elogios ao centenário. E disse que desejava chegar na mesma idade que ele.

Hoje a história de Fernando Ferreira Botelho, o “Fernandinho” faz parte do acervo do “Museu da Pelada”, por sugestão do jornalista Caio Barbosa, que havia questionado as razões pelas quais alguém com a história dele, ainda não havia sido lembrado.

O centenário ex-goleiro tem muita história para contar. Mesmo estando com 105 anos, a sua lucidez impressiona. É capaz de falar sobre qualquer assunto, não importando se delicados ou polêmicos para a época em que jogou.

Lembra que a bola era pesada e ainda não existiam luvas na época, o que lhe deixou dedos tortos. Ele conta que tudo era importado da Inglaterra. Vinha tudo num baú, bolas, camisas, meias e chuteiras. E as longas viagens de navios para jogar fora do país, que chegavam a durar cerca de 10 dias. E tudo isso ele garante que tirava de letra.

Perguntado se no seu tempo havia homossexualismo no futebol, ele mão fugiu de responder. Disse que sim e não era camuflado. Complementou afirmando que homossexualismo tem no mundo inteiro e desde aquela época já tinha.

E completou: “O Rio de Janeiro era muito bom, o Carnaval era um sonho, não tinha freio. Davam 15 dias de férias e era difícil nos segurar. Nós bebíamos cerveja, mas pior é quando entrava na cachaça, todo mundo duro, era mais baratinho”.

Convidado a falar sobre o futebol de hoje, “Fernandinho” não aliviou nem o craque do PSG, e da seleção brasileira, Neymar. “É muito fresco. E jogador fresco eu não gosto. Ele é bom, mas tem muita mulher no meio”.

Sobre a Copa do Mundo da Rússia, no ano que vem, “Fernandinho” não leva muita fé, pois o futebol brasileiro não produz mais craques como antigamente. E reverencia o craque português Cristiano Ronaldo. “Esse é jogador de futebol. Sabe jogar, vai e resolve”, garante. Sobre Messi disse que é bom, mas por ser pequenininho, dão muita porrada nele.

Títulos conquistados: Flamengo: Campeão Carioca Juvenil, invicto (1927); Campeão Carioca do Terceiro Quadro. (1930); Campeão Carioca do Segundo Quadro. (1931); Vice-Campeão Carioca do Primeiro Time (1931); Campeão da Taça “Fidalga” (1932); Campeão da Taça Companhia Aliança da Bahia (1932); Campeão do Troféu Interventor Federal da Bahia (1932). Pelo Medicina e Cirurgia: Campeão Acadêmico Invicto do Rio de Janeiro. (1932); Campeão Acadêmico Invicto do Rio de Janeiro. (1934). Honrarias: Cidadão Benemérito da cidade do Rio de Janeiro. (2015). (Pesquisa: Nilo Dias)

Foto de hoje.

No tempo em que jogava.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Carlos "Kaiser", o jogador que não jogava

É difícil de acreditar, mas é a mais pura das verdades. Carlos Henrique Raposo, mais conhecido como Carlos "Kaiser", um gaúcho de Rio Pardo, nascido a 2 de julho de 1963, conseguiu a proeza de passar mais de 20 anos fingindo ser jogador de futebol e assinando contratos com grandes clubes brasileiros e da Europa.

Tinha o apelido de "Kaiser" em razão de sua semelhança com o craque alemão Franz Beckenbauer. E era também conhecido como “Forrest Gump” (pessoa que conta muita estória, muito papo ou mentiras) do futebol brasileiro. Sua história vai merecer um documentário que será apresentado ainda neste ano de 2018.

O filme, dirigido por Louis Myles, produtor da BBC britânica em eventos esportivos, como a Olimpíada de Londres e a Copa do Mundo de 2014, terá o nome de “The Greatest Footballer Never to Have Played Football” (Kaiser: o Grande Jogador de Futebol que Nunca Jogou Futebol).

De acordo com o jornal inglês “ The Guardian”, o longa conta com entrevistas de Zico, Carlos Alberto Torres (falecido), Júnior, Bebeto, Renato Gaúcho, e o próprio "Kaiser", que afirma ter sido um jogador de talento, mas que decidiu não fazer uso disso. Junto dos depoimentos, algumas partes serão encenadas, e o personagem principal será interpretado pelo ator Eduardo Lara.

Em 2011, o programa “Esporte Espetacular”, da Rede Globo, exibiu uma matéria que contava, com detalhes, como "Kaiser" conseguiu, por mais de 20 anos, ludibriar diversos clubes brasileiros, entre eles, Botafogo, Flamengo, Bangu, Fluminense, Vasco da Gama, América.

E do exterior, Puebla, do México, Independiente, da Argentina, El Paso Patriots, dos EUA, Louletano, de Portugal e Gazélec Ajaccio, da França, fazendo parte de seus elencos, mesmo sem praticamente ter disputado partidas oficiais.

O Ajaccio, humilde clube da Europa lhe preparou uma apresentação da qual ele para sempre se lembrará. O estádio era pequeno, mas estava cheio de fãs. Viu que havia muitas bolas no gramado. Ficou nervoso porque iriam descobrir que ele não sabia jogar.

Entre seus supostos feitos notáveis, "Kaiser" alega ter sido campeão Mundial Interclubes pelo Independiente em 1984, fato não confirmado pela diretoria do clube argentino.

Se era um jogador que nunca jogou futebol, e em razão disso não tinha amizade com a bola, ninguém duvida que foi um craque em se relacionar com algumas estrelas do futebol brasileiro.

Aos 55 anos, Carlos "Kaiser" atualmente mora no Flamengo, no Rio de Janeiro. E depois de muito tempo resolveu revelar as suas histórias. Pinóquio” era café pequeno para ele. “Pior do que cara de pau, esse rapaz é o maior 171 do futebol brasileiro”, brinca Ricardo Rocha, um dos amigos de “Kaiser”.

A vida de Carlos Henrique Raposo, mais conhecido o “Kaiser”, merecia bem mais que um simples documentário, e sim um filme longa metragem. Apesar da sua história estar mais para outro sucesso do cinema americano, "Prenda-me se for capaz".

Mas o que ele fez foi fantástico. Por mais de 20 anos conseguiu enganar grandes clubes brasileiros. Foi para a França, passou pelos Estados Unidos, fez uma escala no México, sem praticamente ter entrado em campo para uma partida oficial.

Ele dava desculpas das mais estapafúrdias para não jogar. Em cerca de 20 anos de carreira, "Kaiser" entrou em campo poucos vezes para disputar uma partida oficial. Não completou nenhuma. Muito menos no Brasil, onde ninguém o viu jogar. Em todo jogo ele dava “migué”. Quase sempre saía machucado. Até em treino, se pudesse, saía machucado, admitiu.

Raposo era a esperança da família de render algum dinheiro no futebol. Mas havia um problema neste plano. Ele nunca quis jogar bola, de fato. A lenda de Carlos “Kaiser” começou em meados dos anos 1970, quando ele atuava por equipes juvenis do Botafogo.

O ex-jogador Maurício, ídolo do Botafogo, na época, foi quem o levou ao clube alvi-negro. O vínculo entre eles tinha nascido na infância e ganhou importância nos anos seguintes.

Em 1986, Raposo conseguiu, no futebol, o seu primeiro contrato ou, o que muitos consideravam, seu primeiro golpe, já que foi convocado pelo simples fato de estar ligado à uma figura do meio.

Quando esteve no Flamengo, Raposo chegava aos treinos com um celular, o que, nesse momento, demonstrava um status econômico superior. Então, simulava uma conversa em inglês ao telefone fazendo com que acreditassem que equipes europeias estavam interessadas em contratá-lo.

Apesar de toda a equipe, dos jogadores e da parte técnica acreditarem nas suas conversas em inglês, acabou desmascarado pelo médico do clube, que havia morado na Inglaterra, explicando que os diálogos de Raposo pelo celular não faziam sentido.

Carlos Kaiser sempre foi bem relacionado e fazia amizades com facilidade. Era amigo de jogadores importantes do futebol brasileiro, como Carlos Alberto Torres, Ricardo Rocha, Moisés, Tato, Renato Gaúcho, Romário, Edmundo, Gaúcho, Branco, Maurício, entre muitos outros.

No tempo em que ele enganava dirigentes e treinadores, os meios de comunicação ainda não eram tão desenvolvidos. Não existia Internet, TV por assinatura transmitindo ao vivo jogos de todo o mundo ou empresários circulando pelos corredores dos clubes com DVDs editados de dezenas de jogadores.

E “Kaiser” se aproveitava dessa falta de informação. Sempre que algum de seus amigos famosos era contratado por um clube, ele era levado como contrapeso para fazer parte do elenco. E assinava contrato de risco, mais curto, de normalmente três meses. Mas recebia as luvas do contrato e ficava lá por esse período.

Ricardo Rocha, seu grande amigo, contava aos risos: “É um amigo nosso, uma ótima pessoa, um ser humano extraordinário. Mas não jogava nem baralho. O problema dele era a bola (risos). Nunca vi ele jogar em lugar nenhum. É um “Forrest Gump” do futebol brasileiro. Conta história, mas às 16 horas, num domingo, no Maracanã, nunca jogou. Tenho certeza”.

Diz saber que ele ia para o clube jogar e, na hora de entrar em campo para mostrar alguma coisa, simulava contusão. Aí não participava, falava que era estiramento e ficava de dois a três meses sem treinar. “É 171 nato”. (trambiqueiro, no código penal 171 é estelionato)



O goleador da Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, Bebeto, declarou: “Ter uma conversa com ele era tão bom que, se você o deixasse abrir a boca, iria pegar você e seduzi-lo. Você não conseguia evitar, era o fim”.

"Kaiser" tinha uma vantagem: alto, sempre teve um porte físico avantajado. Tinha pinta de jogador. E puxava a fila nos treinos físicos.

Como alegava que chegava fora de forma, conseguia ficar duas semanas só correndo em volta do campo. O problema era quando a bola rolava. Aí entrava em cena a segunda parte do plano.

Ele mandava alguém levantar a bola e errava a jogada. Aí sentia o posterior da coxa, ficava 20 dias no Departamento Médico. Não tinha ressonância (magnética) na época. E quando a coisa ficava pesada para o seu lado, tinha um dentista amigo seu que dava um atestado de que era foco dentário. E assim ia levando.

Renato Gaúcho, também grande amigo de “Kaiser”, conta que ele era um “inimigo” da bola. A parte física era com ele. No coletivo combinava com um colega: “na primeira jogada me acerta porque eu tenho que ir para o Departamento Médico”.

A semelhança com Renato Gaúcho também era bem-vinda. Os dois se divertiam bastante na noite. “Kaiser” confessa que se foi clone de alguém na vida, era do Renato Gaúcho.

Os dois se conheceram em 1983, ele jogava no Grêmio e ia muito ao Rio. E garante que a fama que Renato tem com as mulheres, perto dele não era nada. 
Renato Gaúcho, que era um dos jogadores de futebol brasileiro mais destacados da época, o chamou de “o maior jogador de futebol de todos os tempos”.

A tática era conhecida por vários companheiros, que encobriam a história. Afinal, “Kaiser” era bem relacionado em outras áreas também. Na época os times concentravam em hotel. Ele chegava três dias antes, levava 10 mulheres e alugava apartamentos dois andares abaixo de onde o time ia ficar.

De noite ninguém fugia de concentração, a única coisa que faziam era descer escada. Tanto que tem treinador hoje que bota segurança no andar. Kaiser frequentava as casas noturnas mais badaladas do Rio de Janeiro e aproveitava o fato de ser jogador de futebol para se aproximar das mulheres.

Ele mesmo conta que mulher era a coisa mais fácil, podia ser em espanhol, inglês, francês. Porque jogador já tem esse assédio, e ele não se considerava um cara feio.

Para alguns dirigentes e treinadores, "Kaiser" não passava de um jogador azarado. E assim ele conseguia ganhar tempo. Colocava no bolso um ou dois meses de salário. Quando a situação começava a ficar difícil de ser sustentada, aproveitava outro amigo e trocava de clube. Assinava um novo contrato de risco, recebia as luvas. E começava tudo outra vez.

“Kaiser” garante que não se arrepende de nada que fez. E complementa: “Os clubes já enganaram tantos jogadores, alguém tinha que ser o vingador dos caras”.

Para não ser desmascarado, “Kaiser” precisava ter boas relações também com a imprensa. Por isso, distribuía camisas do clube onde estava e passava algumas informações.

Elogiado pelos amigos famosos, ele aparecia em matérias acompanhado de adjetivos como "artilheiro" e “goleador”. Apesar disso, outras fontes revelaram que Raposo, além de ser amigável, também comprava presentes para o pessoal da imprensa.

Assim, os meios de comunicação davam respaldo à imagem de bom jogador que era vendida aos clubes. Quando foi jogar no Bangu, um jornal da época deu à matéria sobre sua contratação o título: “O Bangu já tem seu rei: Carlos Kaiser”.

O jogador que não jogava, complementou: “Eu tenho facilidade em angariar amizades, tanto que muitos da imprensa da minha época gostavam de mim, porque nunca tratei ninguém mal”.

"Kaiser" encerrou sua carreira aos 39 anos, jogando pelo Ajaccio, clube da segunda divisão da França, no qual ficou por longo tempo. O atacante garantiu que dessa vez ele jogou de verdade, porém, não mais do que 20 minutos por partida, poucas vezes por temporada.

Mas reconhece que pelas oportunidades, pelos times que passou, se tivesse se dedicado mais, teria ido mais longe na carreira. De certa forma, se arrepende de não ter levado as coisas a sério. E garante, que se teve alguém que ele prejudicou a vida toda, foi a ele mesmo.

Mais experiente, Carlos Henrique não se arrepende do que fez, mas confessa que se tivesse uma chance de voltar no tempo, a história seria diferente.

Atualmente, e depois de ter desfrutado anos e anos de um salário de jogador de futebol que não merecia, ele passa seus dias na academia como “personal trainer” para mulheres. Com 55 anos de idade, ele já não consegue mais se passar como jogador, porém continua sendo um atleta.

Em uma das muitas histórias fantasiosas que rondam sua vida, Raposo disse que uma vez esteve muito perto de fazer parte de um filme pornográfico. Ele acompanhou seu primo para uma audição, e segundo disse, deixou uma boa impressão, tudo por causa de seu bom papo e carisma.

Quase teve uma participação no filme. “Toda a minha vida girou em torno do sexo”, declarou, excluindo qualquer outro hobby que possuísse.

“Se eu fosse a uma boate, e passava 10 minutos com uma menina, eu tinha que a levar em algum lugar, fosse um banheiro, ou o primeiro cubículo que encontrava”, disse ele. E explicou que agia assim por conta da forma que havia sido criado, numa sociedade machista.

Um dos maiores capitães de futebol que o Brasil já teve em sua história foi um grande amigo de Raposo. E era ele quem permitia que “Kaiser” levasse uma vida de luxo, apesar de ser um falso jogador.

Carlos Alberto ofereceu a "Kaiser" um quarto em um hotel de Búzios, o “Saint Tropez”, para passar as festas de final de ano, como Natal e Ano Novo. A arte de enganar pessoas não era apenas focada no ambiente do futebol, mas sim um modo de vida para Raposo.

Ele conseguiu perpetuar pequenos golpes no dia-a-dia, como fingir perder sua carteira, dizer que o caixa eletrônico tinha prendido o seu cartão, entre outros, para não pagar suas refeições.

Algumas pessoas até dizem que ele realmente adotou o lema de “coma à vontade” nos rodízios muito seriamente, comendo 70 fatias de pizza em um restaurante.

Um dos maiores problemas de “Kaiser” apareceu quando se alistou no Bangu, cujo proprietário era o Castor de Andrade, chefe de uma milícia. Este apresentou-o ao clube e fãs como “A chegada do Rei”.

Nesse encontro o treinador o obrigou a entrar num jogo, em que o Bangu perdia para o Coritiba. Desesperado, “Kaiser”,  ainda estava no aquecimento, prestes a entrar em campo, quando inventou uma briga fictícia com um torcedor por causa de uma suposta ofensa gritada ao treinador.

Tudo isso para que conseguisse ser expulso antes mesmo de começar a jogar. Como era um gênio das mentiras, este falso jogador de futebol não deixava espaço para erros.

Seus companheiros de equipe gostavam dele, tinha amigos no camarim e também conseguiu conquistar o público. Algumas dessas pessoas que gostavam dele foram pagas para gritar seu nome quando o presidente do clube estava perto, bem como os repórteres para falarem bem dele na mídia.

“Kaiser” tinha várias maneiras de evitar encostar em uma bola de futebol, ato que desmascararia toda a sua farsa. O principal método era fingir se lesionar nos treinos, por isso ele pagava os mais jovens para dar alguma entrada difícil nele.

Ou então, inventava uma suposta morte de sua avó, que devia ter pelo menos sete vidas, afinal ele a matou diversas vezes para não entrar no campo. A arma de sedução de Raposo era sua maneira de falar e o que ele expressava. Ele tinha uma maneira de se comunicar que era única.

Como muitas lendas que foram se estabelecendo ao longo do tempo, as circunstâncias de vida que Raposo viveu naqueles 20 anos de sua vida já parecem surreais. Os anos já se passaram, mas em sua memória permanecem histórias com detalhes fantásticos.

Embora tudo até pareça mentira, uma coisa que se tem certeza é que essa loucura toda realmente ocorreu devido aos variados testemunhos que a sustentam. Sua história de vida começou a se espalhar e se tornou famosa.

Carlos "Kaiser" também se comparou a Jesus Cristo, justificando suas ações quando disse: “Eu só queria ser um esportista e não queria jogar futebol”.

E acrescentou: “Se todas as outras pessoas queriam que eu fosse um jogador de verdade, esse era um problema delas”. E continuou: “mesmo Jesus não conseguiu agradar a todos, por que eu faria isso?”. (Pesquisa: Nilo Dias)


Carlos "Kaiser", junto dos ex-jogadores "Gaúcho" e Renato Gaúcho. (Foto: Divulgação)