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terça-feira, 18 de março de 2008

Friedenreich, o artilheiro que encantou o mundo

A "The Encyclopedia of World Soccer", editada nos Estados Unidos por Richard Henshaw, que teve o aval da FIFA e da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), assegura que o maior artilheiro do futebol em todos os tempos foi Arthur Friedenreich. Ainda que não haja documentação oficial, a respeitada publicação credita a “El Tigre”, a marcação de 1.329 gols, em 1.239 jogos.

Esses números foram publicados até no “Guiness Boock”, o livro dos recordes. Mas existe quem discorde, caso do historiador Alexandre da Costa, que escreveu o livro “O tigre do futebol”, com pequenas histórias sobre a vida do jogador. Não sendo um livro de pesquisas, o autor se limitou a um levantamento nos jornais “Correio Paulistano” e “O Estado de São Paulo”, encontrando 554 gols marcados por Friedenreich, em 561 partidas.

Esse levantamento é colocado em dúvida, pois os jornais da época pouco se importavam com o futebol, não divulgando todos os jogos realizados. O próprio autor confessa que não se aprofundou na busca, esquecendo outros jornais, revistas e almanaques. E admite não ter publicado os dados de cerca de 30 jogos.

O jornalista Severino Filho, co-autor do livro “Fried versus Pelé”, credita 558 gols para o craque do passado, em 26 anos de carreira, média de 21 gols por ano. Sendo verdadeiro, significa quase 1 gol por jogo, média superior a de Pelé, que foi de 0,93 gol por partida. Também esses números não são confiáveis.

Já Pelé, tem seus 1.284 gols em 1.375 jogos, todos devidamente registrados, com datas e adversários. Não há como contestar. Ainda assim, essa terrível dúvida, que desafia pesquisadores de todo o planeta, vai continuar. Quem se habilita a garantir ou duvidar que foi Friedenreich, e não Pelé, o maior artilheiro do futebol mundial em todos os tempos?

O que se sabe de concreto é que o pai de Friedenreich anotava em um caderno todos os gols do filho. A partir de 1918, Fried passou a tarefa para o amigo e colega de time (Paulistano), o centro-avante Mário de Andrade (nada a ver com o escritor), que registrou todos os gols do artilheiro, até o final de sua carreira, em 1935.

O jornalista Adriano Neiva da Motta, o De Vaney (falecido), ficou sabendo, em 1962, da existência dessas anotações. As fichas em poder de Mário poderiam provar que Friedenreich fez mais gols que Pelé. Mas o destino não permitiu que isso acontecesse. Andrade faleceu em 1962, antes de entregar as fichas a De Vaney. Uma semana depois de sua morte, a viúva, achando que aquela papelada não tinha valor, jogou no lixo da cidade de Santos, todo o registro dos até hoje incontáveis gols de “El Tigre”. Perdia-se ali, valiosa parte da memória futebolística do país.

Baseado nas pesquisas de De Vaney, o jornalista carioca João Máximo, escreveu no livro “Gigantes do Futebol Brasileiro”, publicado no Rio de Janeiro, em 1965, que Friedenreich teria marcado os 1.329 gols, devidamente registrados na ex-CBD e reconhecidos pela FIFA. Mesmo sem poder provar, De Vaney havia tornado público os números. E há quem garanta que cometeu um erro, trocando a soma de gols, pela de jogos, o que não passa de especulação. A verdade é que a partir desse episódio livros, revistas, jornais, a FIFA, CBD e o “Guinnes Bock” entenderam a revelação como verdadeira.

Friedenreich, o primeiro grande craque do futebol brasileiro, nasceu em São Paulo, no dia 18 de julho de 1892. Era filho do comerciante alemão Oscar Friedenreich, que havia se mudado de Blumenau (SC) para São Paulo, e de Matilde, uma negra de rara beleza que nascera escrava. Estudou no Colégio Mackenzie, mas seu interesse maior era outro. Por isso, bem cedo trocou as salas de aulas pelos campos de futebol.

Naqueles tempos o racismo imperava nos clubes de futebol. Friedenreich teve de se valer da origem alemã para poder ingressar no elitizado mundo do futebol. Não foi difícil, porque tinha olhos verdes, a pele não era escura e o cabelo, com ajuda de brilhantina, ficava liso. Depois, no Germânia, seu primeiro clube, a impressionante habilidade com a bola se encarregou do resto.

Pena que Friedenreich não tenha jogado em nossos tempos de tevê e marketing. O que se sabe dele é o que foi publicado nos jornais da época. Jogou pelo Germânia, Mackenzie, onde foi pela primeira vez artilheiro do campeonato paulista, em 1912, Ypiranga, Paulistano e São Paulo da Floresta, todos de São Paulo, além do Flamengo, do Rio de Janeiro. Por nove vezes foi artilheiro do Campeonato Paulista. E colecionou os títulos de campeão paulista em 1918, 1919, 1921, 1926, 1927 e 1931, a maioria defendendo o Paulistano.

Pela Seleção Brasileira foi bi-campeão do Sul-Americano, em 1919 e 1920, jogou 22 partidas e fez 10 gols. No certame continental de 1919, no Rio de Janeiro, fez o gol da vitória de 1 a 0, na partida final contra o Uruguai, que teve três prorrogações. Esse foi o primeiro título internacional do Brasil. Ao término do jogo os uruguaios deram a Friedenreich um pergaminho lhe conferindo o título de “El Tigre”, por ter sido o melhor jogador do campeonato. Os argentinos também o chamavam de “El namorado de la América”.

Logo depois do jogo, em edição extra, o jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, que antes nunca publicara uma foto em sua capa, mostrava o pé esquerdo de Friedenreich, em tamanho natural, acompanhado da manchete: “Eis o pé da vitória”.

Friedenreich era relativamente magro, pesando 52 kg, mas alto, medindo 1,75 m. Depois de consagrado nos gramados sul-americanos, conquistou a Europa. O Paulistano, em 1925, foi protagonista da primeira excursão de um time de futebol brasileiro ao Velho Continente. Foram 10 jogos em gramados franceses, suíços e portugueses e uma só derrota. Na estréia massacrou a Seleção Francesa por 7 X 2, o que valeu manchete no “Le Journal”, que denominou os brasileiros como “os reis do futebol”.

A grande amargura de Friedenreich foi não ter jogado nenhuma Copa do Mundo. Poderia ter ido em 1930 e 1938, mas as confusões e brigas entre os “cartolas” do futebol brasileiro, não deixaram. Um fato ocorrido fora do futebol, também marcou intensamente a vida do homem Friedenreich. No ano de 1932, após alistar-se nas forças constitucionalistas paulistas, para lutar contra a ditadura de Getúlio Vargas, doou todos os seus valiosos troféus e medalhas de ouro. No campo de batalha comandou um batalhão de 800 jovens. Ao término do confronto, Fried voltou como tenente e condecorado por heroísmo.

Antes de encerrar a carreira, ainda fez um gol histórico: no dia 12 de março de 1933, na Vila Belmiro, ele marcou o primeiro gol da era profissional, pelo São Paulo F.C., na goleada de 5 X 1 sobre o Santos F.C. Encerrou a carreira em 1935, aos 43 anos, quando fazia jogos de exibição pelo Flamengo.

Friedenreich, que foi pai de apenas um filho, Oscar, com a esposa Joana, morava no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde morreu no dia 6 de setembro de 1969, incapaz de esclarecer o mistério dos seus gols. Sofria de uma doença degenerativa e não dizia mais do que algumas palavras vagas. Não lembrava nem o próprio nome. Seu final foi triste e melancólico, lembrando outro grande craque do nosso futebol, Heleno de Freitas, que morreu louco num sanatório de Barbacena (MG). Texto e pesquisa: Nilo Dias)

2 comentários:

Maryeelle disse...

olá amigo/parabéns pelo blog, afinal, futebol, é paixão nacional do Oiapoc ao Chuí!
beijo
Cida Torneros (RJ)

Anônimo disse...

Por que nao:)