Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

O Blumenau agora é centenário

O Blumenau Esporte Clube, da cidade de Blumenau (SC), está completando hoje 100 anos de existência. O clube foi fundado no dia 19 de julho de 1919 com o nome de Brasil Football Club, o primeiro clube de futebol da cidade.

Pouco depois, com a criação da “Liga Santa Catharina de Desportos Terrestres”, começou a ser realizado um campeonato estadual, no qual os clubes de Blumenau passaram a competir. O Brasil conquistou dois vice-campeonatos seguidos em 1927 e 1928, ambos com o Avaí campeão.

Em 1936, mudou a razão social do clube para Recreativo Brasil Esporte Clube, devido a sérios problemas financeiros, que com essa mudança, desapareceram.

Mesmo com a modificação, o Brasil continuou forte, com uma grande torcida e venceu os campeonatos de 1941 e 1942, da “Liga Blumenauense de Futebol”, criada em 1941 e que realizava um torneio com todos os times da cidade, Amazonas, Brasil, América, Vasto Verde e Blumenauense.

Quando da “2ª Guerra Mundial”, o então presidente da República, Getúlio Vargas, assinou um decreto de lei determinando que clubes esportivos estavam proibidos de ter nomes de nações, estados, territórios e municípios, nem mesmo podendo a associação incorporar ao seu nome próprio a palavra Brasil.

A diretoria do Brasil encaminhou requerimento ao Ministério da Educação e Saúde, por intermédio do CRD, a fim de obter permissão para continuar como Brasil, o que foi negado.

Assim, no dia 12 de março de 1944, houve uma reunião no Clube Náutico América em que por decisão unânime o nome do Brasil foi oficialmente mudado para Palmeiras Esporte Clube, motivado pelo time mandar seus jogos na Rua das Palmeiras, atual Alameda Duque de Caxias.

Os outros times de Blumenau mudaram seus nomes: o Amazonas, para Aimoré; o América para Guarani Esporte Clube e o Blumenauense para Grêmio Esportivo Olímpico.

A fase com o nome de Palmeiras foi a mais frutífera da história do clube em relação a títulos. O time, junto ao seu rival Olímpico, foi ganhando mais notoriedade no cenário estadual, devido a quatro vice-campeonatos estaduais e um tetracampeonato local (de 1944 a 1947), com a conquista do super campeonato no ano seguinte.

O clube também conquistou alguns torneios menores pela região. Durante este período fez-se necessária a construção de um novo estádio, pois uma enchente que havia assolado a cidade em outubro de 1954 destruiu completamente o campo do Palmeiras.

O Estádio Aderbal Ramos da Silva foi inaugurado na década de 1960 e passou a ser um símbolo do clube.

Em 1980, um grupo de empresários começou a investir alto no futebol blumenauense com o intuito de elevar o nome da cidade, polo industrial do Vale do Itajaí, porém, exigiam a mudança de nome do único clube restante da cidade, o Palmeiras.

Os outros quatro clubes haviam desativado o futebol profissional em meados da década de 1970.

A ideia já havia sido proposta cinco anos atrás pelo então presidente Melchior Barbieri, mas não foi levada adiante para não mexer com as raízes já firmadas da denominação Palmeiras.

Em 19 de julho de 1980, um grupo de 30 empresários esteve reunido no Restaurante Chinês, com o novo presidente do Palmeiras, Ivan Carlos Rizzeto, que substituiu o demissionário Altair Carlos Pimpão. Na ocasião, este expôs o seu projeto, que foi logo aprovado, garantindo um suporte financeiro para o clube investir em grandes contratações e criar um elenco competitivo.

E também se decidiu pela mudança de nome de Palmeiras para Blumenau Esporte Clube. Com a nova denominação criada, adiantou-se as eleições para compor a primeira diretoria do Blumenau, disputada em chapa única resultando na condução de Ivan Carlos Rizzeto para presidente.

Logo, grandes contratações foram realizadas a fim de justificar os altos investimentos feitos, e também foram adotadas novas cores para o clube, simbolizando a união dos antigos rivais Palmeiras (verde), Olímpico (grená) e Guarani (branco). O mascote, que historicamente era o urso, a partir de 2013 passou a ser uma capivara.

O primeiro jogo do Blumenau Esporte Clube aconteceu em 2 de setembro de 1980, entre Blumenau e Joaçaba pela Taça Santa Catarina. Antes da bola rolar foram realizadas solenidades de inauguração da nova denominação, com as autoridades hasteando a bandeira nacional, sob forte  tensão emocional da torcida.

Depois, os jogadores entraram em campo vestindo a camisa do Palmeiras por cima da camisa do Blumenau e após o cumprimento, tiraram as camisas verdes e brancas e jogaram-nas à torcida, sob aplausos.

O Blumenau derrotou o Joaçaba por 1 X 0, gol de Cabinho, o primeiro da nova denominação oficial. O mais importante é que parecia que a torcida havia aceitado o nono time, gritando "Blumenau, Blumenau" durante todo o jogo.

Mas não foi bem assim. Ao invés de se unirem, as duas facções rivais dos dois antigos clubes da cidade começaram a boicotar pessoas que fossem ligadas a outra.

Mesmo com este obstáculo, o time conseguiu chegar às semifinais do primeiro Campeonato Catarinense com a nova denominação e em 1982 conquistou o título estadual de juniores.

Porém, em 1985, foi rebaixado pela primeira vez em sua história, retornando a elite catarinense dois anos depois após conquistar o título da “Segunda Divisão” em cima do Figueirense.

Em 1988, conseguiu um feito espetacular, o vice-campeonato estadual decidido em uma final histórica contra o Avaí, na “Ressacada”.

Tal feito possibilitou o BEC a participar de sua primeira e única “Copa do Brasil”, em 1989, sendo eliminado pelo Flamengo nas oitavas-de-finais, jogando em pleno Maracanã.

Após essa experiência, o BEC começou a se aventurar a nível nacional, disputando o “Campeonato Brasileiro da 2ª Divisão” de 1989 a 1991, e a “3ª Divisão” em 1988, 1992, 1994, 1997 e 1998, sem muito êxito.

Ainda em 1998, com o novo rebaixamento no campeonato estadual e acometido por uma grave crise financeira, o futebol profissional do BEC foi desativado.

As conseqüências foram danosas: através de ação jurídica, o INSS conseguiu a penhora do patrimônio do clube por conta de dívidas, prometendo retornar em 2000.

Mas ao invés o clube optou por decretar falência. Nos anos seguintes, houve tentativas de fazer renascer o futebol da cidade com a criação de clubes como Santa Catarina, Real e Metropolitano.

Em 2003, a Justiça autorizou à “Associação Beneficente União do Vale”, administradora no processo de insolvência do clube, a gestão e consequente retorno do clube ao futebol profissional, administrando a receita e dívidas.

O acordo previa que toda receita gerada pelo BEC teria 5% do valor destinado ao pagamento de dívidas anteriores do clube. Com o espírito renovado e reformas no “Estádio Aderbal Ramos da Silva”, o Blumenau Esporte Clube partiu para a disputa da série B1 do “Campeonato Catarinense” de 2004.

Após a frustração no campeonato, a Justiça destituiu a “Associação Beneficente União do Vale” como gestora da insolvência do BEC, nomeando um novo gestor: o advogado André Jenichen, que conseguiu quitar algumas dívidas do clube. Mesmo assim, o futebol profissional fechou as portas novamente.

Após o novo fechamento do Blumenau, surgiram pretendentes herança deixada pelo clube. O primeiro foi em 2006, o Sport Club Madureira, campeão de 2004 do futebol em Blumenau, que passou a chamar-se Blumenau Sport Club Madureira, já que a marca BEC não poderia ser utilizada.

Com a nova denominação, passou a utilizar as cores grená, verde e branco, e um escudo quase idêntico ao do BEC de 1980. O time entrou para a disputa da “Divisão de Acesso” do “Campeonato Catarinense” de 2006, mandando seus jogos no “Complexo Esportivo Bernardo Werner”, uma vez que os bens do BEC incluíam o “Estádio Aderbal Ramos da Silva”.

O time ganhou o returno da competição e disputou o quadrangular final com Videira, Camboriuense e Maravilha em turno e returno, mas acabou sendo eliminado.

No ano seguinte, não participou de nenhuma competição e perdeu apoio com incentivo de setores jornalísticos de Blumenau para que investimentos fossem feitos no “Metropolitano”, e a perda de seu principal patrocinador, a “Unimed”, que decidiu formar uma cúpula de dirigentes para deter o comando do CAM.

Em 23 de setembro, após ter sido leiloado em 15 de março de 2006 pelo processo de insolvência do clube, o “Estádio Aderbal Ramos da Silva” foi demolido.

De acordo com rumores, a decisão teria sido tomada pelo novo dono Ailton Borba, devido a mobilização de torcedores para tentar transformar o local em patrimônio histórico da cidade.

Em 2008, participou da ‘Divisão de Acesso’ do ‘Campeonato Catarinense’, outro clube com o nome de Blumenau Entretenimentos Comunitários, mantendo as cores e símbolos semelhantes aos do BEC e tendo José Alencar Farias, presidente do BEC em 1993, como presidente e Chicão, antigo ídolo do clube, como técnico.

No dia 14 de março de 2013 foi anunciado a volta do Blumenau Esporte Clube, tendo como presidente Eduardo Corsini e vice o tetra campeão com a seleção brasileira, o ex jogador Márcio Santos.

Ficou decidido que a equipe iria disputar a “Divisão de Acesso” de 2013, o que em Santa Catarina equivale a “Terceira Divisão”. Sem o seu estádio, o “Aderbal Ramos da Silva”, o BEC mandou seus jogos no “Estádio do SESI”.

Em 2014 com a desistência do Imbituba de participar da “Série B”, do Catarinense o Blumenau herdou a vaga e disputou o campeonato. Fez uma campanha regular, alternando bons e maus momentos.

Com problemas extracampo, o Blumenau acabou se perdendo e fechando as portas temporariamente. Além disso, na disputa do Catarinense da “Segunda Divisão”, de 2015 acabou sendo rebaixado com uma pontuação de menos nove pontos por uma decisão do TJD-SC pela escalação irregular de nove atletas.

O ano de 2017 foi especial para o Blumenau. Além de retornar ao futebol, conseguiu de forma invicta vencer o “Campeonato Catarinense da Série C”, jogando a final diante do CEC/Orleans em pleno “Complexo Esportivo Bernardo Werner”.

Com isso, o Blumenau garantiu vaga para disputar em 2018 a “Segunda Divisão” do “Campeonato Catarinense”, fazendo o clássico blumenauense, contra o Metropolitano.

2018 foi um ano marcado pela volta do Blumenau a “Série B” do “Catarinense” e a “Copa Santa Catarina”. A campanha na “Série B” foi regular atingindo a sétima colocação.

Já na “Copa Santa Catarina”, o BEC acabou ficando em último lugar no grupo A, sendo eliminado na primeira-fase. O ano de 2018 também ficou marcado pelo retorno do “Clássico de Blumenau”, entre o Blumenau e o Metropolitano.

Títulos. Estaduais: Campeonato Catarinense - Série B (1987) e Campeonato Catarinense - Série C      (2017). (Pesquisa: Nilo Dias)

Em 2017 o time sagrou-se campeão catarinense da Série C.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

A mulher que presidiu o Veranópolis

Em 15 de janeiro de 1992 foi fundado o Veranópolis Esporte Clube Recreativo e Cultural, resultado de uma fusão entre os dois clubes da cidade, Dalban e Veranense, que eram semiprofissionais. Quando da fusão o clube se chamava Associação Veranópolis de Futebol.

O futebol da cidade serrana de 25 mil habitantes, distante 189 quilômetros de Porto Alegre não atravessava um bom momento e a fusão foi o caminho encontrado para tentar mudar a situação.

E deu certo. Disputou a segunda divisão em 92 e 93, ano em que se sagrou campeão sob o comando do técnico Tite, que hoje treina a Seleção Brasileira. Subiu para a primeira divisão do campeonato gaúcho e nunca mais foi rebaixado.

Foi eleito para presidir o clube o médico Giocondo Toschi, que não aguentou o tranco e renunciou dois meses após ter assumido, alegando falta de tempo. Ninguém se apresentou para ocupar o cargo, até que aconteceu o inesperado.

A professora Zenaide Maria Boff, que lecionava Moral e Civismo no Colégio Estadual e no Colégio Agrícola e Legislação na Escola Técnica de Comércio, além de ser diretora do Colégio Divino Mestre, vereadora, presidente da Câmara Municipal e diretora do Colégio Divino Mestre, encontrou tempo para aceitar presidir o clube.

Sem antes perguntar: “Não tem homem nesta terra?!” E disse em alto e bom som: “Então aceitava”. Ninguém se zangou, já conheciam o seu jeito.

Alta, cabelos curtos, 47 anos na época, voz grave, solteira (ela dizia que “graças a Deus”), era conhecida na cidade como uma mulher ativa. E comprovou isso ao dizer que aceitava o cargo com a maior naturalidade, pois na sociedade moderna não havia mais lugar para discriminação.

E entrou firme no desafio. Corria a cidade arrecadando dinheiro, acompanhava o time nos dias de jogos, em Veranópolis ou fora, dava muitas ordens aos assessores, xingava os jogadores que caiam na farra e ainda brigava com a imprensa, pois não aceitava críticas ao clube.

Seu problema maior era unir as torcidas de Dalban e Veranense. Uma ocasião ela ficou na porta do clube e foi intimando quem entrava: “Quanto vai dar?”. E não admitia que tirassem o corpo fora. E dizia: “É preciso muito peto para me dizer não”.

Arrecadou Cr$ 1.800.00 e a promessa de que continuariam cooperando. E avisava: “Se alguém pensa que vai se livrar de mim, está enganado”. E ela uniu as torcidas“ no peito”. No fim de cada mês pegava o recibo de sócios e ia em cima dos torcedores buscar os recursos que o clube precisava.

O técnico Paulo Velduga, na época com 27 anos, apoiava a presidente. Foi ele que indicou seu  nome para dirigir a agremiação. O time contava com 18 jogadores que ganhavam salário mínimo e estavam com os pagamentos em dia.

Guilherme Giugno, diretor da Rádio Veranópolis dizia que os homens da cidade gostavam do jeito aberto dela de administrar o clube. Contam que ela costumava ir aos bares ou clubes da cidade e, quando via amigos reunidos, ia logo pedindo um uísque e soltando palavrões.

Dizem que ela era uma tremenda “boca suja”, mas não chocava ninguém, porque era espontânea.

E no time mostrou ser durona. Dizia que o jogador que  caísse na farra ia ouvir o diabo. Até concordava que não entendia muito de futebol, mas falava que sua experiência como torcedora bastava para saber que uma farra na véspera de jogo, liquidava com qualquer atleta.

Na verdade ela já havia começado uma guerra. Na véspera de um jogo contra o Pratense, de Nova Prata, ela estava reunida com amigos no clube, quando um dedo-duro foi lhe contar que o ponteiro esquerdo Marquinhos  estava bebendo no boliche.

Zenaide deu um pulo da cadeira e foi lá.. Na frente de todos deu a maior bronca no jogador. “Éramos seis”, contou Marquinhos, “bebendo três cervejas. Mesmo que eu estivesse bêbado, um homem me chamaria do lado de fora e depois me multaria.

Mas foram inventar uma mulher cartola, agora é fogo. Ela quase me matou de vergonha , com aquela bronca. Por isso me invoquei e fui a um bale em Monte Berico, e fiquei até o sol raiar. No outro dia, ela não me deixou nem trocar de roupa. Vamos ver como é que fica”.

Mas Zenaide não puniu e em dispensou Marquinhos. Primeiro, porque o técnico precisava de seu futebol ofensivo. Segundo, porque ela acreditava que o jogador não ia se meter a tomar cerveja nos sábados à noite, outra vez.

No entender dela, os jogadores eram como os alunos, só precisavam de algumas lições para encontrarem o caminho do dever, segundo seus métodos pedagógicos.

Se não se abriam em elogios a presidente, os jogadores em geral sentiam-se satisfeitos. “Eu acho meio estranho uma mulher de cartola, mas não sou eu que vai chiar. Além disso, nos tempos de Veranense e Dalban era pior, os mais malandros tinham de ficar concentrados no hotel.

Ela acabou com a concentração e diz que vai usar o dinheiro economizado para melhorar os bichos. Até agora não melhorou, mas ela diz que tem palavra e nós estamos confiando nela.

Com toda essa decisão, os jogadores até achavam que Zenaide jogava suas peladas quando menina. Ela nega, dizia que ia aos jogos, mas só para ver. Dizia que gostava mesmo era de tomar conta de seus três irmãos mais moços.

Depois, em 1958, foi para Porto Alegre estudar. Mais tarde, enquanto cursava a Faculdade de Direito, em Caxias, foi delegada de Ensino em Bento Gonçalves. Quando voltou, em 1967, começou a exercer várias atividades ao mesmo tempo.

Em sua luta para unir a cidade em torno do clube, Zenaide dava uma de cartola típico, ao não admitir críticas da imprensa, especialmente da Rádio Veranópolis. Depois de uma derrota o comentarista Milton Alves fez duras críticas ao time. Foi o que bastou para Zenaide romper reações com ele. (Pesquisa: Nilo Dias)



quarta-feira, 17 de julho de 2019

Clube centenário guarda histórias do futebol e do carnaval

O Vila Santista Futebol Clube, da cidade paulista de Mogi das Cruzes, fundado em 14 de julho de 1919 é mais um clube centenário no futebol brasileiro.

A equipe participou nesses 100 anos de existência de cinco edições do “Campeonato Paulista” nas segunda (atual A2), terceira (atual A3) e quarta divisões (atual B).

O clube que foi fundado por Ângelo Pereira Passos, começou na Rua Francisco Franco, na região chamada de “Jardim Santista”, por isso o nome Vila Santista, inicialmente apenas com o futebol.

Ali só havia o campo, a arquibancada e uma pequena área coberta, mas o local era bastante movimentado e frequentado, principalmente aos finais de semana.
O time fez história na cidade, participando de várias disputas e venceu diversos campeonatos.

Em 1947, a “Seleção de Ouro” do Vila era formada por Gordo – Chispa – Moacir – Lindo - Peru e Porcelli. Mas também houve grandes jogadores como Ubiratan, chamado de Bira, Barbosinha, Nonô, Baleiro, Zezinho, Elpídio, entre outros.

Era o auge do futebol também na cidade, que tinha outros times fortes, como o União, o grande rival do Vila. Em dias de jogos, os torcedores dos dois times não podiam se encontrar na rua porque saía briga antes mesmo das partidas.

Inicialmente, o clube ganhou fama na região pelo trabalho realizado pelas equipes altamente competitivas que através dos tempos defenderam as cores vilistas nas disputas de diversos campeonatos.

Depois de ter sido campeão regional várias vezes na década de 1940, a equipe optou pelo profissionalismo, em 1957, estreando na “Terceira Divisão do Campeonato Paulista” daquele ano.

Já no ano seguinte, estreou na “Segunda Divisão”, onde fez uma batalha particular contra o rival de casa, o União Mogi, que ainda permanece nos quadros da FPF.
Atualmente o Departamento de Futebol do clube se dedica apenas a competições amadoras. Amizades e recordações emocionam quem costuma frequentar o local.

Nesta época, antes da construção na Ponte Grande, o Vila fazia os carnavais e bailes em um salão no centro, localizado na Rua Barão de Jaceguai.

Em foto do ano de 1938 feita pelo fotógrafo Fitipaldi, os sócios aparecem fantasiados durante o Carnaval, em um salão todo enfeitado de confete e serpentina.

Homens, mulheres e crianças brincavam juntos. Na Ponte Grande, esta tradição foi mantida, com bailes que chegavam a reunir cerca de oito mil pessoas por noite circulando em quatro ambientes, com samba, marchinhas carnavalescas, pop rock e música dos anos 60, 70 e 90. Eram quatro noites e duas matinês, além de concurso de fantasias.

Com o tempo foi ficando difícil manter o futebol, então, chegou um momento em que o Vila decidia se fechava ou crescia e, em 1971, foi feita a permuta daquela área no centro com a da Ponte Grande, onde foram construídos o campo, a piscina e o salão de festas para que o clube se tornasse social.

Foi um projeto audacioso e de coragem, porque a área é enorme, com 74 mil metros quadrados. Após três anos de construção, o Vila se mudou. A bocha, sinuca e sauna também se tornaram tradicionais na cidade.

Dizem que a sauna ainda é uma das melhores por ser a vapor e não elétrica. Pessoas de outras cidades vêm para o clube por causa disso.

Contém diversas opções para esporte e lazer: Academia - Conjunto de Piscinas - Sauna - Salão Social - Playground - Ginásio Poliesportivo - Quadra Poliesportiva - Quadra de Tênis - Campo de Futebol - Campo Society  - Salão de Bilhar - Canchas de Bocha - Espaço para SlackLine e Estacionamento.

Com a chegada dos prédios residenciais com equipamentos de lazer, o número de sócios caiu e o clube luta para se manter. 

“Infelizmente, esse modelo de clube, já está um pouco ultrapassado e temos que buscar outras alternativas. Estamos com vários projetos para a gente trazer mais sócios, sócios familiares, já que aqui é um clube familiar”, explica o presidente Paulo Ferreira Santiago.
       
O salão de eventos do Vila sempre foi o palco principal da folia e centenas de pessoas se reúnem para o Carnaval. “Vai ser o Carnaval dos 100 anos”, finaliza Paulo.

Um dos sócios mais antigos, Odair Cardoso, participou do título de 1963 e diz lembrar do campo que era profissional e tinha uma arquibancada de madeira. Uma época em que as mulheres não tinham o hábito de frequentar muito o campo de futebol, por isso a presença masculina era maior.

O clube chegou a se profissionalizar, disputou a “Segunda Divisão”, do Paulista, o que não durou muito. Odair ainda lembra que a eterna rivalidade com o União movimentava a cidade.

 “Os dois campos sempre estavam cheios, porque a torcida de cada um acompanhava o seu time. O pessoal já se conhecia, mas sempre  saia alguma discussão”, completou.

Para Cida Rodrigues, as melhores lembranças incluem o Carnaval. “Era maravilhoso. Quatro noites, quatro ambientes e todo mundo fantasiado e brincando muito. Tinha concurso também e eu ganhei a de mais foliã.”

O futebol de campo é tradição, com o pessoal do veterano, sport e máster que jogam todos os finais de semana e disputam campeonatos amadores.

A escolinha, que participa da Federação Paulista nas categorias de base sub-9, sub-10, sub-11 e sub-12, foi campeã várias vezes. Neste ano, fez uma parceria com o time Benfica, que treina no ginásio do clube, para estas categorias.

Agora, ele também é parceiro do Basquete-Mogi na categoria de base. Tem ainda a parceria com um time de rugby e com a Next Academy, multinacional norte-americana, que montou uma franquia no clube. 

Por conta disso, não houve mais espaço para o pessoal do futebol americano, que também treinava no local. Este incentivo às categorias de base é uma forma de alavancar receita porque além do aluguel para utilizar o espaço, todos os jogadores se tornam associados, como o pessoal do futebol.

É uma questão de sobrevivência para o clube e estas parcerias visam unicamente a receita.

A Petrobrás utilizou parte da área do clube para passagem de oleoduto. Há um processo que se arrasta há oito anos na Justiça porque a Petrobrás passou o oleoduto e iria indenizar o clube, mas quando o perito da empresa fez a avaliação do terreno, o valor ficou muito baixo.

Então, o clube nomeou outro perito para determinar o valor real. Agora, o juiz nomeou mais um perito e o clube aguarda o resultado. Com este dinheiro que tem para receber, haverá possibilidade de dar um “up” no clube e a prioridade será investir nas dependências, na parte de edificação, que é antiga, da década de 70.

Em dezembro de 2017, o então presidente Quinto Muffo, que estava no cargo há 18 anos, se reuniu com o conselho e disse que pretendia vender o clube e que já tinha até comprador.

Mas um grupo de associados envolvidos com a história do Vila não concordou, montou uma chapa e elegeram o presidente, com a missão de entender como estava a situação e tentar alavancar o clube, que na época só tinha uma vassoura e um rodo.

O novo presidente assumiu em janeiro de 2018, quando havia R$ 300,00 no caixa para pagar todas as contas, incluindo o salário dos funcionários.

O salão social precisava de reforma, as bombas da piscina estavam queimadas e o clube tinha cerca de 400 sócios. Foi complicado e alguns diziam que o novo presidente não ficaria três meses no cargo.

Um ano depois, com várias parcerias, quase dobrou o número de sócios, foram trocadas as bombas da piscina, reformado o salão social, asfaltado quase todo o estacionamento, que agora é pago, e adquiridas máquinas de cortar grama, enceradeira e roçadeira.

Além destas benfeitorias, com o material de uma das quadras de tênis que estava abandonada, foi fechado todo o clube com gradil.

Para tudo isso, contou com associados empenhados em manter o clube, como a dona Cida Rodrigues, que é sócia desde 1972. O presidente garante que tirou dinheiro do bolso e as contas estão todas pagas e os funcionários recebem em dia. (Pesquisa: Nilo Dias)

Vista de parte das modernas instalações do clube.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A morte de um ídolo do Botafogo

Os torcedores do Botafogo, do Rio de Janeiro e de todo o Brasil receberam com tristeza a notícia da morte do ex-jogador de futebol Milton da Cunha Mendonça, conhecido apenas por “Mendonça”, aos 63 anos de idade. O óbito aconteceu na manhã de hoje e foi confirmado pela família do ex-jogador.

Ele esteve internado por dois meses em estado grave na CTI do "Hospital Albert Schweitzer”, em "Realengo" na Zona Oeste do Rio de Janeiro, depois que caiu da escada na “Estação de Trem Guilherme da Silveira”, em Bangu.

Na noite de ontem houve uma piora por conta de uma grave infecção que comprometeu o funcionamento do fígado e dos rins, ocasionando um  choque séptico, quadro que acabou não sendo revertido mesmo com o uso de antibióticos.

Mendonça, que nasceu em 23 de maio de 1956, defendeu o Botafogo entre 1975 e 1982 e, mesmo sem ganhar títulos, tornou-se ídolo da torcida alvinegra. E dizia: “Eu não sou jogador do Botafogo, eu sou torcedor do Botafogo. ”Ele também teve passagens por clubes como Grêmio, Palmeiras e Santos.

O gol mais lembrado de Mendonça ocorreu nas quartas de final do "Brasileiro" de 1981. O Botafogo encarava o Flamengo quando Mirandinha lançou o meia. Mendonça entortou Júnior e tocou na saída de Raul, decretando a vitória por 3 X 1 do Botafogo sobre o campeão brasileiro do ano anterior.

A jogada ficou conhecida como "Gol Baila Comigo" (canção interpretada por Rita Lee que, à época, também dava nome a uma novela da Rede Globo). Sobre o gol Mendonça afirmou na época: “Acho que o Júnior também nunca vai esquecer aquele dia. Tenho certeza que toda vez que deita para dormir ele pensa em mim.”

No fim daquele ano, escalado para escolher o gol mais bonito do ano, Zico, que participara da partida, pediu perdão ao compadre Júnior e escolheu o de Mendonça. Foi realmente uma pintura.

Naquela competição, o alvinegro esteve bem perto de chegar à decisão. Após vencer o São Paulo por 1 X 0, o Botafogo viu Mendonça e Gérson estenderem a vantagem do Botafogo. Contudo, após 28 minutos de intervalo, os são-paulinos viram o sonho do título acabar com a derrota para 3 X 2. Saiu de General Severiano em 1982 sem títulos de ponta, mas com um histórico de 118 gols em 342 jogos.

Mendonça era o típico meia clássico, o camisa 10 apesar de usar o número 8, e excelente cobrador de faltas. Ele chegou ao time principal do Botafogo através de Telê Santana. O mestre viu o garoto atuando nos juvenis e não teve dúvidas: o levou para atuar com os profissionais. Em entrevista ao site "Museu da Pelada", Mendonça chegou a dizer: “Não sei porque a torcida do Botafogo gosta tanto de mim. Nunca dei um título a eles.”

Assim que foi anunciada sua morte, o Botafogo prestou homenagem ao seu eterno camisa 8 nas redes sociais.

“O dia amanheceu triste. Mendonça nos deixou aos 63 anos. Ídolo, obrigado pela entrega e dedicação, respeito com a camisa, pelos gols e dribles inesquecíveis, por torcer em campo, e por enriquecer a nossa história. Você será lembrado com carinho e reconhecimento. Descanse em paz!”

A ligação de Milton da Cunha Mendonça com o futebol veio de família: seu pai, que também adotara o nome Mendonça, foi zagueiro do Bangu na década de 1950, que teve a perna quebrada por Didi, em 1951, e abandonou a carreira.

Mendonça subiu para os profissionais do Glorioso em 1975 e não demorou a se tornar ídolo e titular absoluto da equipe. Embora não tenha encerrado a seca de títulos importantes do Botafogo que já durava desde 1968, o meia logo caiu nas graças da torcida alvinegra e entrou no panteão de ídolos do clube.

Não por caso, seu retrato está ao lado de monstros sagrados do “Glorioso”, como Garrincha, Nilton Santos, Didi, Jairzinho, Heleno de Freitas e muitos outros, no lindo painel pintado bem em frente à sede de General Severiano.

Além de ter o “Torneio Início de 1977” como seu único título oficial, o armador deixou lembranças de gols e de boas atuações para os botafoguenses. Ao lado de nomes como Paulo César Caju, Rodrigues Neto e Dé, Mendonça fez parte da equipe que obteve uma invencibilidade de 52 jogos entre 21 de setembro de 1977 e 16 de julho de 1978.

Após deixar o Botafogo, Mendonça atuou por duas temporadas na Portuguesa. Além de jogar com atletas como Roberto César e Edu Marangon, o meia teve no “Canindé” outro colega que ganhou renome: o então meio-campista "Tite", que se destacou marcando gols e, décadas depois, se tornou o treinador da “Seleção Brasileira”.

Em seguida, foi negociado para o Palmeiras, onde novamente conviveu com o desafio de quebrar uma seca de títulos. A equipe não era campeã desde 1977. Mendonça participou do elenco que levou o “Verdão” à final do “Paulistão" de 1986. 

Mas a equipe, que tinha nomes como Mirandinha e Éder Aleixo, viu seu sonho frustrado com a derrota por 2 X 1 para a Inter de Limeira, no Morumbi.

No ano seguinte, desembarcou na “Vila Belmiro”, com a responsabilidade de ser o camisa 10 do Santos. Atuando ao lado de nomes como Rodolfo Rodríguez e César Sampaio, conquistou o “Torneio de Marselha” em uma excursão com a equipe na Europa.

Saiu ao fim de 1988, também sem títulos de ponta, mas deixando seu futebol elegante e uma tarde emblemática para os corações santistas lembrarem: em um clássico diante do Palmeiras, Mendonça marcou dois gols de voleio.

Em seu currículo, o meia ainda teve clubes como a Inter de Limeira (no qual atuou no ano em que a equipe voltou à elite do "Brasileirão"), Al-Sadd (Qatar) e um breve e afetivo retorno ao Bangu, equipe no qual iniciara sua trajetória.

Em 1991, Mendonça acertou sua transferência para o Grêmio, mas guardou uma lembrança cruel: além de perder espaço, o "Tricolor" gaúcho não engrenou no “Brasileirão” e amargou a queda para a “Série B”.

Depois, o meia colecionou passagens pelo Internacional, de Santa Maria (RS), Fortaleza, América (RN), até pendurar suas chuteiras no Barra Mansa (RJ).

Após deixar os gramados, o ex-jogador teve de conviver com a luta contra o alcoolismo. Sem a rotina dos treinos, o hábito de Mendonça beber foi se acentuando, a ponto de ele deixar de fazer suas refeições para consumir bebida alcoólica.

O vício já culminara em um quadro gravíssimo: com sérias lesões hepáticas, Mendonça foi internado na UTI, com risco de morte. O ex-jogador contou com a amizade de Adílio, ex-meia do Flamengo, na luta contra o álcool: graças ao rubro-negro, o meia botafoguense foi internado em uma clínica de reabilitação no Rio de Janeiro em 2017.

À época, Mendonça recebeu visitas e ajuda do ex-jogador Wilson Gottardo. Além disto, o ex-dirigente do Botafogo, Carlos Augusto Montenegro, e o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, foram visitá-lo na clínica de reabilitação durante os 40 dias em que ficou internado. No entanto, o ex-meia teve constantes recaídas de sua dependência de bebida alcoólica. 

Em maio de 2019, Mendonça passou por um novo drama: ao cair de uma escada na estação de trem na "Estação Guilherme da Silveira", teve um ferimento profundo causado por um vergalhão e sofreu outras duas fraturas.

Assim que o acidente ocorreu, foi removido para o "Hospital Albert Schweitzer" e submetido a uma cirurgia de emergência, pois perdera muito sangue. (Pesquisa” Nilo Dias)


quarta-feira, 26 de junho de 2019

O "Arranca Taças" de Entre-Ijuís

O Esporte Clube Sepé Tiaraju, da cidade gaúcha de Entre-Ijuís foi fundado em 25 de junho de 1961. O clube é amador e tem as cores vermelha e branca. É filiado a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) e participou do “Campeonato Estadual de Amadores Divisão Especial”, nos anos de 1995 e 1997.

O primeiro campeonato municipal foi vencido pelo Sepé Tiaraju de forma invicta. Mas a fama de vencedor do clube não surgiu com a  transformação geográfica local. Vem de muito tempo, desde 1961, data da sua fundação.

Na época, a fim de evitar a vida cotidiana da região, vários jovens, sob a liderança do desportista Artur Thiel resolveram fundar um clube de futebol na cidade, que é hoje uma das grandes agremiações amadoras do Rio Grande do Sul.

O passatempo logo virou uma agradável realidade esportiva. O Sepé Tiaraju passou a ser o vencedor de todas as competições esportivas regionais e ganhou o apelido de ”Arranca Taças”.

Com o conceito firmado os dirigentes passaram a buscar um sonho quase impossível: ter o seu estádio próprio de futebol. O campo foi inicialmente chamado de “Beira Rio”, em razão das festas que seguidamente eram realizadas a beira do rio Ijuí.

Enquanto o time obtinha vitórias e mais conquistas nos torneios de que participava, os torcedores e dirigentes construíam o sonho de possuir um estádio particular.

Em 1984, através da Prefeitura Municipal e com o auxilio de Artur Thiel, o clube ganhou uma área de terra onde foi possível erguer a sua praça de esportes própria.

O “Estádio Artur Rodolfo Thiel”, embora simples, tem uma estrutura muito boa, tanto em qualidade como em localização.

Entre os títulos conquistados pelo clube destacam-se o “Campeonato Estadual de Amadores 1ª Categoria”, de 1994, a “Copa da Amizade”, em 2011 e o “Campeonato Municipal de Santo Ângelo”, em 1987.

O E.C. Sepé Tiaraju chegou a revelar vários jogadores para o futebol gaúcho, com destaque para Valin Camilo de Souza, ou simplesmente “Valin”, que mesmo tendo nascido em Vacaria, iniciou sua carreira como atleta na equipe do Esporte Clube Sepé Tiarajú.

A partir daí jogou em diversas equipes do interior do Estado. Os clubes pelos quais passou: Tamoio e AESA, de Santo Ângelo, Santa Cruz, de Santa Cruz do Sul, Juventude, de Caxias do Sul, Guarani, de Venâncio Aires, Lajeadense, de Lajeado e Internacional, de Santa Maria com o qual foi campeão da “Copa Governador do Estado”.

Em 2013 foi homenageado pela Prefeitura Municipal de Entre-Ijuís que denominou o Campeonato Municipal de Futebol de Sete, de “Taça Valin Camilo de Souza”.

Outra figura ilustre que morou na cidade, popularíssimo pela sua atividade artística ligada ao tradicionalismo, foi Antônio Soares de Oliveira, mais conhecido por “Tio Bilia”.

Na verdade ele nasceu em Santo Ângelo, que foi o município mãe de onde Entre-Ijuís se emancipou. “Tio Bilia” nasceu em 5 de agosto de 1906 e faleceu em 19 de agosto de 1991, aos 85 anos de idade.

Entre-Ijuís passou a ser município em 13 de abril de 1988, através da Lei Estadual nº 8.558. A população da cidade é formada basicamente por descendentes de alemães, italianos, espanhóis, portugueses e indígenas, cujos hábitos foram unificados ao longo dos tempos.

Entre-Ijuís recebeu esse nome pois está localizado entre Ijuí, ou seja, o Ijuí Grande ao Norte, o Ijuizinho ao Oeste, o rio Chui ao Sul e novamente o rio Ijuí Grande a Leste. (Pesquisa: Nilo Dias) 

  Time campeão Estadual de Amadores, 1ª Categoria”, em 1994.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Maradona, "el Pibe de Oro" (Final)

Maradona fez seu primeiro jogo pela “Seleção Argentina” em 1977, em amistoso contra a Hungria. Integrou o grupo dos pré-convocados para a “Copa do Mundo de 1978”, mas foi deixado de fora pelo técnico César Luis Menotti, em decisão polêmica.

No ano seguinte, Maradona liderou a "Seleção" na conquista do “Campeonato Mundial de Futebol Sub-20 de 1979”. Marcou seis vezes e foi eleito o melhor jogador da competição.  Foi também o ano em que ele marcou o primeiro gol pela seleção principal, em sua nona partida por ela. Foi em vitória por 3 X 1 sobre a Escócia, em Glasgow.

Maradona foi convocado para o segundo mundial do México com algumas críticas. No jogo contra a Inglaterra, o primeiro após a "Guerra das Malvinas", num clima bastante tenso, Maradona fez o gol que ficou conhecido como “La Mano de Dios”.

Em espaço de alguns minutos, o argentino marcou outro gol igualmente célebre, e que ficou conhecido como “O Gol do Século”. Após a partida, Maradona declarou que "se houve mão na bola, foi a mão de Deus", para o delírio da torcida argentina.

A Argentina reencontrou a Bélgica, vencendo com dois gols de “El Pibe”. A Argentina voltava a uma final.  O jogo foi contra a Alemanha Ocidental. Maradona, desta vez, não marcou. 

Após estarem perdendo por 2 X 0, os germânicos haviam acabado de empatar heroicamente. Foi quando Maradona recebeu a bola e, entre dois adversários, deu belo passe para Burruchaga fazer 3 X 2. Ao final, como capitão, ergueu a “Copa” que, na opinião geral, ganhara praticamente sozinho.

O título lhe fez ser coroado o melhor jogador do mundo pela revista “Onze d'Or”, premiação que recebeu novamente no ano seguinte, após o primeiro título italiano com o Napoli.

No Mundial de 1990 a Argentina foi eliminada pela Alemanha Ocidental, que se vingou da derrota na "Copa" anterior.

Maradona, após a suspensão de 15 meses dada pela FIFA, ficou três anos sem jogar partidas oficiais pela Argentina. Em fevereiro de 1993, voltou a vestir a camisa de seu país. Após recuperar milagrosamente a velha forma, Maradona começou a "Copa do Mundo de 1994" dando espetáculo.

Marcou de fora da área contra a Grécia e, em famosa comemoração, rugiu com os olhos esbugalhados para uma câmera. Contra a Nigéria, demonstrou fôlego incansável e inspirou os argentinos a vencerem de virada.

O milagre por trás da perda de 13 quilos – de 89 para 76 – em um tempo assustadoramente curto antes do torneio foi revelado em novo antidoping, que detectou efedrina. 

A droga, além de ser usada para emagrecer, era também um poderoso estimulante. Para a "Seleção Argentina" não ser desclassificada, Maradona teve de jurar inocência e a Associação do país teve de retirar seu nome do elenco.

A Argentina em 1994, ao contrário das Copas anteriores, onde o talento se limitava a Maradona, reunia jogadores de renome: Claudio Caniggia se consagrara em 1990 e a seleção tinha também Gabriel Batistuta, Fernando Redondo e Ramón Medina Bello em grande forma. 

Eles, sem a companhia de Maradona, haviam conquistado as copas "América de 1991 e 1993", torneio que Dieguito não conseguira ganhar nas três ocasiões em que participou (1979, 1987 e 1989).

Maradona não jogaria mais pela Argentina até 10 de novembro de 2001, quando foi realizada uma partida comemorativa em “La Bombonera”. O jogo foi contra um combinado de estrelas, dentre elas Enzo Francescoli, Éric Cantona, Davor Šuker, Hristo Stoichkov, René Higuita, Nolberto Solano e até o compatriota Juan Román Riquelme.

Um ano após aposentar-se no Boca, foi à "Copa do Mundo de 1998" como comentarista. Após a eliminação da Argentina, comandada por Daniel Passarella, manifestou pela primeira vez sua intenção em tornar-se técnico.

Maradona envolveu-se em nova polêmica com filhos fora do casamento: desta vez, a Justiça argentina determinou que ele era o pai de uma menina de três anos, após sete negativas do ex-jogador em fazer o exame de DNA.

No entanto, Maradona fez o exame mais tarde e ficou provado que ele não era o pai da jovem. Já no caso de Diego Sinagra, filho que Maradona teve enquanto viveu na itália, o reconhecimento, ainda que tardio, aconteceu.

Em 2000, iniciou um tratamento contra as drogas em Cuba, após ser internado depois de tomar um coquetel de remédios em Punta del Este, no Uruguai, e quase morrer. Na ilha, se enfureceu com fotógrafos locais, agredindo-os e quebrando o vidro de um carro com um soco, rendendo-lhe novo processo.

Esteve próximo da morte novamente em setembro de 2000, quando destruiu sua caminhonete ao chocar-se com um ônibus em Havana, escapando ileso por milagre. Em outubro, foi contratado para ser manager do Almagro, mas jamais assumiu o cargo.

Em 2002, a namorada de infância que tornou-se sua esposa, Claudia Vilafañe, pediu a separação. Ele também foi condenado a dois anos e meio de prisão pela agressão aos jornalistas com espingarda em 1994, mas não precisou cumprir a pena.

Em abril de 2004, ficou novamente a ponto de morrer. Passou mal após assistir uma partida entre Boca Juniors e Nueva Chicago na "Bombonera”" e foi internado com problemas cardíacos e infecção pulmonar na “Clínica Suíço-Argentina”, em Buenos Aires, constatando-se overdose de cocaína.

Ele ficou em coma e chegou a respirar com ajuda de aparelhos, reagindo apenas no oitavo dia. Saiu dois dias depois sem ter alta dos médicos. Em maio, foi novamente internado, chegando a ser recusado por várias instituições médicas da Argentina e do exterior.

Chegou a ser sedado e amarrado após uma crise de abstinência da cocaína. Seu médico particular declarou em ultimato que ele tinha a última chance de salvar sua vida. Maradona posteriormente afirmou que retirou forças para se desintoxicar definitivamente após apelos de sua filha Giannina: "pai, você tem que viver por mim".

Após cinco meses de internação, obteve autorização judicial para ir à Cuba retomar seu tratamento. Em 2016, o ex-jogador se envolveu em uma nova polemica com membros da “Associação de Futebol da Argentina” (AFA) e especialmente com o também ex-jogador Juan Sebastián Verón a quem chamou de "traidor”.

Depois de perder 50 quilos em uma cirurgia de redução de estômago em Cartagena, na Colômbia, e chegar aos 75 quilos, tornou-se apresentador de um “talk show”, "La noche del Diez" ("A noite do Dez"), onde recebeu figuras de todo o mundo, como o próprio desafeto Pelé, Xuxa, Mike Tyson e Fidel Castro.

"A Noite com Pelé" foi marcada por um inesperado bom humor e amistosidade entre ambos, que cantaram juntos e terminaram trocando passes de cabeça, emocionando a plateia. Por sinal, foi nos bastidores do programa que sua filha Giannina conheceu pessoalmente Sergio Agüero, com quem iniciou um celebrado relacionamento amoroso.

Em 28 de março de 2007, Maradona sofreu uma recaída e foi internado com uma crise hepática causada por abuso de álcool. Ele afirmou que não foi por causa de cocaína, reiterando que não a usava mais desde a crise de 2004.

Por outro lado, foi tornando-se alcoólatra justamente para substituir a droga em pó. Ainda assim, a internação gerou boatos de um suposto ataque cardíaco que teria causado sua morte, causando alvoroço até no governo argentino.

Em fevereiro de 2014, Maradona com 53 anos assumiu o namoro e anunciou o noivado com Rocío Oliva de 22 anos. Estiveram de casamento marcado até abril, altura em que Maradona descobriu que tinha sido roubado. Em junho, O ex jogador argentino pediu um mandado de captura internacional contra Rocío Oliva, que desapareceu com muitos dos seus bens.

Rocío Oliva acusou Maradona de violência doméstica e contou ainda que Maradona "bebia sem parar". E revelou o motivo do final da relação: "Ele mantinha uma relação com um homem, Alejo Clérici”. Maradona desmentiu todas as acusações.

Maradona assumiu o comando da “Seleção Argentina” em outubro de 2008, após a saída de Alfio Basile. O presidente da AFA enfim acatou o desejo de Diego. O anúncio causou furor. Cerca de 500 jornalistas se credenciaram para cobrir a sua estreia, contra a Escócia.

Maradona chegou a ameaçar demitir-se em menos de duas semanas, pois Grondona não aceitava o ex-jogador Oscar Ruggeri na comissão técnica. Mesmo endeusado, porém, Maradona continuou a colecionar polêmicas, como discussões indiretas com Juan Román Riquelme, que pediu dispensa da "Seleção".

Riquelme já se sentia deslocado por não receber a mesma atenção que Maradona dedicava aos jogadores "europeus". O novo técnico ainda tirou-lhe a faixa de capitão, entregue a Javier Mascherano. A gota d'água para Riquelme foi ter sido criticado por Maradona na televisão.

Em 2009, sofreu bastantes críticas. A Argentina obteve resultados vergonhosos, incluindo uma goleada de 6 X 1 para a Bolívia, em La Paz, o pior resultado da história da seleção – sendo que, ironicamente, Maradona manifestara-se a favor do direito boliviano de usar a cidade, em jogos na altitude.

E uma derrota de 3 X 1 para o Brasil em plena Rosário. Os argentinos ficaram ameaçados de não se classificarem, conseguindo no sufoco a última vaga direta no confronto contra o Uruguai, em Montevidéu.

Em menos de 20 jogos, Maradona usou 80 jogadores diferentes. Apesar de criticado por muitos, completou um ano no comando da seleção com bons números: em 13 jogos, venceu 9 e perdeu 4.

Durante a "Copa", Maradona ostentou barba e bigode. O visual foi usado para disfarçar cicatrizes sofridas após ser mordido nos lábios por uma cadela de estimação. 

Na convocação para a "Copa, chamou apenas dois de quatro experientes argentinos que haviam contribuído decisivamente para a brilhante temporada 2009–10 da Internazionale, triplamente campeã ("Campeonato italiano", "Copa da Itália" e Liga dos Campeões da UEFA", feito inédito na Itália), Walter Samuel e Diego Milito.

Deixou de fora Javier Zanetti e Esteban Cambiasso até da lista dos 30 pré-convocados, bem como o irmão de Diego, Gabriel Milito (do Barcelona) e Fernando Gago (do Real Madrid).

Na disputa da "Copa do Mundo de 2010", teve um bom começo, obtendo na fase de grupos três convincentes vitórias em três jogos, contra Nigéria, Coreia do Sul e Grécia. As fases finais também remetiam ao passado, mas mais recente para os argentinos, onde enfrentaram os mesmos adversários da “Copa do Mundo de 2006”.

Nas oitavas-de-final, a Argentina obteve grande vitória sobre o México, ganhando a oportunidade da revanche contra a Alemanha, novamente nas quartas. 

Porém, a competição voltou a se encerrar para os argentinos nesta fase, em derrota pelo inesperado placar de 4 X 0. No dia 28 de julho, Maradona foi confirmado que não mais continuaria no comando da equipe.

Títulos. Boca Juniors: Campeão Argentino – Metropolitano (1981); Barcelona: Copa do Rei (1983); Copa da Liga Espanhola (1983); Supercopa da Espanha (1983). Napoli: Copa da UEFA (1989); Campeonato Italiano (1987 e 1990); Copa da Itália (1987); Supercopa da Itália (1990). Seleção Argentina: Copa do Mundo FIFA (1986); Troféu Artêmio Franchi (1993) e Campeonato Mundial de Futebol Sub-20  (1979).

Artilharias. Campeonato Argentino: Metropolitano (1978), Metropolitano (1979), Nacional (1979), Metropolitano (1980), Nacional (1980); Campeonato Italiano (1988) e Copa da Itália: (1988).

Prêmios individuais. FIFA 100 (2004); Bola de Ouro da Copa do Mundo da FIFA (1986); All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA (1986 e 1990); Melhor Jogador do Mundo eleito pela World Soccer (1986); Onze d'Or (1986 e 1987); Guerin d'Oro (1985); Melhor Jogador Sulamericano do ano eleito pelo jornal “El Mundo” (1979 e 1980); Melhor Jogador do Mundial Sub-20 (1979); Melhor Jogador Argentino do Ano pela Associação de Jornalistas da Argentina (1979, 1980, 1981 e 1986); Bola de Bronze da Copa do Mundo FIFA (1990); Melhor Jogador do Século XX da FIFA - votos de internautas (2000); 3º Maior Jogador do Século XX pelo Grande Júri FIFA (2000); 2º Maior jogador Sulamericano do século XX pela IFFHS (1999); 5º Maior jogador do Mundo do Século XX pela IFFHS (1999); 2º Maior jogador do século XX pela revista - France football (1999); Time dos Sonhos da FIFA (2002); Prêmio Olimpia de Oro (Melhor atleta argentino do ano) (1986); The Times - maior jogador da história das Copas do Mundo (2010); La Gazzetta dello Sport - Melhor Jogador de Todos os Tempos (2012); Corriere dello Sport - Melhor Desportista da Historia (2012); Melhor Jogador da Historia pela revista "Four Four Two" (2017); Melhor jogador das Copas do Mundo pela revista "Four Four Two" (2018).

Prêmios e Honrarias. 2016 - Um dos 11 eleitos pela AFA para a Seleção Argentina de Todos os Tempos. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 24 de junho de 2019

Maradona, "el Pibe de Oro" (1)

Diego Armando Maradona Franco nasceu em Lanús, Argentina, no dia 30 de outubro de 1960. É considerado o maior jogador do futebol argentino de todos os tempos e um doa melhores do mundo, ficando atrás só do brasileiro Édson Arantes do Nascimento, o “Pelé”, embora seus conterrâneos não concordem com isso.

Aos nove anos, seu talento com a bola já o fazia ser a criança mais popular da favela em que morava, no subúrbio de Buenos Aires. Um colega havia sido aprovado em um teste para as categorias de base do Argentinos Juniors, e respondeu aos elogios do treinador dizendo que conhecia um garoto ainda melhor.

O treinador, Francis Cornejo, deu-lhe então 10 pesos para que pedisse a esse outro jovem para ir vê-lo. Cornejo e outros observadores do clube, incrédulos com o que viram no outro menino, foram acompanhá-lo na volta até a casa deste e, pedindo à mãe dele, conferiram sua documentação para desfazer qualquer engano plausível. Viram que Maradona realmente tinha apenas nove anos de idade.

Os pais foram então convencidos a colocar Maradona no Argentinos, clube pequeno da capital, mas famoso pelo bom trabalho que desenvolvia com as categorias de base. Com 15 anos, disputava partidas preliminares, já atraindo multidões.

Quando finalmente foi lançado entre os profissionais, não saiu mais. Demonstrava um repertório completo certeiro com a sua mágica perna esquerda: lançamentos, passes, dribles curtos, chutes certeiros de curta e longa distância, cobranças de falta e escanteios.

Aos 17 anos, recebeu a primeira convocação para a “Seleção Argentina”, da qual foi polemicamente cortado na “Copa do Mundo de 1978”.

1978 também significou o ano em que foi pela primeira vez artilheiro do “Campeonato argentino”. Em 1979, foi artilheiro tanto do “Campeonato Argentino” quanto do “Campeonato Metropolitano”, torneio que reunia os clubes da "Grande Buenos Aires" e que era na época considerado mais importante até do que o “Campeonato Nacional”. Naquele ano, foi eleito pela primeira vez o melhor jogador sul-americano.

A dose repetiu-se em 1980: Maradona foi artilheiro dos dois campeonatos e eleito outra vez o melhor jogador da América do Sul, com o adicional de ter levado o Argentinos Juniors ao vice-campeonato nacional, melhor resultado do clube até então.

O Boca Juniors, que não conseguia títulos argentinos desde 1976, resolveu ir atrás dele, no que era a realização de um sonho para o jogador: Maradona sempre fora um torcedor “Xeneize” fanático. Jamais seria esquecido, todavia, na equipe que o revelou: o Argentinos renomeou seu campo para “Estádio Diego Armando Maradona”.

E foi em um amistoso contra o Argentinos que Maradona fez sua estreia pelo Boca, marcando de pênalti, atuando pelos dois times. Parte da concordância do Argentinos em emprestá-lo estava em uma cláusula do contrato de venda em que proibia que Diego enfrentasse a antiga equipe em jogos oficiais.

Naquele ano de 1981, com o Boca, Maradona fez grande dupla com Miguel Ángel Brindisi, com os dois marcando juntos 33 dos 60 gols que reconduziram o time ao título metropolitano - a primeira conquista do clube auriazul em cinco anos. Maradona também marcou em seu primeiro Boca X River, em um 3 X 0.

Maradona chegou à Catalunha como um messias. O Barcelona vivia carência de títulos desde o final da década de 1950. Desde 1960, só conseguira vencer o “Campeonato Espanhol” em 1974. Via o rival Real Madrid se distanciar cada vez mais no ranking de vencedores e ainda sentia o Atlético de Madrid aproximando-se, com um título a menos.

Na primeira temporada, Maradona enfrentou o primeiro problema: em dezembro de 1982, sofreu de hepatite e ficou de fora dos campos por três meses. O time terminou apenas em quarto; o título de 1982–83 ficou com o Athletic Bilbao.

Na “Copa do Rei”, porém, decidiu a final contra o Real Madrid, marcando nos dois jogos da decisão e foi aplaudido de pé pela torcida do arquirrival após a vitória por 2 X 1 em pleno “Santiago Bernabéu”. Na partida de ida, no "Camp Nou", o Barcelona havia deixado o rival empatar após estar vencendo por 2 X 0.

Mal começou a segunda temporada e, num jogo contra o Athletic, sofreu uma entrada desleal do adversário Andoni Goikoetxea e fraturou o tornozelo esquerdo. O astro levou 106 dias para retomar o futebol.

Quando voltou, conduziu a equipe ao caminho do título. No entanto, por um ponto, a taça ficou com o Athletic. Ambos os times decidiram também a “Copa do Rei”, e um novo dia ruim contra a equipe basca (que vencia por 1 X 0) fez Maradona surtar. Ele protagonizou uma briga generalizada entre os jogadores.

Maradona, que já não tinha um relacionamento bom com a diretoria do Barcelona, foi praticamente descartado por ela após receber uma suspensão de três meses em razão da confusão.

E então foi aceita a oferta do pequeno Napoli, da Itália. Desgostoso com o que julgou como falta de esforço do clube em defendê-lo nos tribunais, Maradona acatou a transferência, encerrando um ciclo de dois anos de altos e baixos no “Camp Nou”.

O atleta declarou em sua autobiografia, “Yo Soy Diego”, que o presidente Josep Lluís Núñez tinha inveja de sua popularidade e foi o principal responsável direto por sua saída do Barcelona.

No livro, Maradona também apontou a coleção de fatores que o impediram de triunfar no clube espanhol: desde a hepatite e lesões e até gostar mais de Madrid.

Ele também revelou que foi na “Catalunha” que começou seu relacionamento com as drogas. Aceitou a proposta do Napoli pois também estava arruinado financeiramente. Chegou a doar a casa que tinha em Barcelona para pagar suas dívidas.

Embora tradicional, a equipe napolitana era minúscula. Seus troféus resumiam-se a títulos nas divisões inferiores e a duas conquistas na "Copa da Itália".

Maradona foi logo amado e venerado como um rei, chegando de helicóptero a um “Estádio San Paolo” tomado por torcedores que ainda custavam a acreditar.

Ele, curiosamente, poderia ter chegado antes ao time: o clube o havia sondado em 1979, quando ainda estava no Argentinos Juniors, mas recusara a proposta na época. "Para mim, Napoli era apenas uma coisa italiana, como pizza", comentou.

Na primeira temporada, o clube ficou apenas em oitavo, mas somente 10 pontos atrás do campeão Verona. Na segunda, a de 1985–86, conseguiu um terceiro lugar. Sua terceira temporada começou com ele já consagrado em todo o planeta, com a conquista da “Copa do Mundo de 1986”.

Em setembro, porém, surgiu a primeira grande polêmica extracampo: sua ex-empregada doméstica, Cristina Sinagra, denunciou que Maradona era o pai do filho que ela teve. 

A paternidade foi confirmada posteriormente na justiça. O filho, Diego Sinagra (também conhecido como Diego Armando Maradona Jr.), jamais foi assumido e os dois só teriam seu primeiro encontro em 2003.

Ainda assim, na temporada 1986–87 Maradona deu ao Napoli seu primeiro título na "Serie A", sobre a poderosa Juventus. A festa terminou completa no clube e na vida pessoal: paralelamente, o Napoli foi também campeão da “Copa da Itália”, e nasceu sua filha Dalma (batizada com o mesmo nome da mãe de Diego).

Na temporada seguinte, Maradona, com 15 gols, alcançou a artilharia do campeonato. O vice-artilheiro foi "Careca", com 13. O bi, porém escapou por três pontos: o título ficou com o Milan.

Na temporada 1988–89, o campeonato italiano foi surpreendentemente para a Inter de Milão, com a perseguição única do Napoli (único time na reta final com chances de tirar o título da Inter) terminando em vão.

O consolo ficou por conta da “Copa da UEFA”: Maradona liderou o Napoli na campanha rumo ao primeiro título continental do clube. Nos mata-matas finais, o clube passou pela rival Juventus e pelo Bayern Munique até chegar na decisão, contra o Stuttgart.

Os alemães foram vencidos no embalo da dupla de Maradona com "Careca": ambos marcaram na vitória de virada no jogo de ida, em Nápoles, e seguraram o empate na Alemanha Ocidental. Paralelamente, naquele ano ele casou-se em um estádio fechado com a namorada de infância, Claudia Vilafañe, e nasceu Gianinna, sua segunda filha.

1989–90 chegou e o argentino novamente conduziu o Napoli ao "scudetto", com dois pontos de vantagem sobre o Milan

Na "Copa", Maradona liderou uma Argentina esfrangalhada ao vice-campeonato, mas eliminando a Itália nas semifinais, aumentando o rancor do resto do país. Ele, ligado por provas robustas com a “Camorra”, a máfia napolitana, foi suspenso do futebol por 15 meses. Entrou em depressão e, no mês seguinte, em abril, sob efeito de drogas,foi  preso em Buenos Aires pela polícia no bairro de "Caballito".

Maradona, decidido a deixar o Napoli, protagonizou uma batalha judicial que durou 86 dias. A liberação foi brecada pelo presidente do clube, que estava brigado com o argentino. 

Após intervenção da FIFA, Maradona conseguiu se desligar do Napoli e acertou um retorno à Espanha, agora como jogador do Sevilla, na época comandado por Carlos Bilardo, seu ex-técnico na Seleção.

Sua estadia no clube andaluz não durou mais que a temporada 1992–93, onde foi apenas razoável. Acertou outro regresso, desta vez ao país natal, contratado pelo Newell's Old Boys.

Mesmo recuperando a forma, durou menos ainda na equipe de Rosário: uma sucessão de lesões musculares provocou o término de seu contrato, após apenas cinco jogos oficiais e alguns amistosos, um deles, curiosamente, contra o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro.

Deprimido, Maradona afundou  cada vez mais nas drogas. Em fevereiro de 1994, irritado com o assédio da mídia, atirou com uma espingarda de ar comprimido em jornalistas que faziam plantão em frente à sua casa.

Acima do peso e desmotivado, a impressão geral era a de que ele abandonaria a carreira antes da "Copa do Mundo de 1994". Conheceu então um fisiculturista em Buenos Aires que prometeu deixá-lo em forma novamente.

A promessa foi cumprida, mas um novo antidoping durante a "Copa" desmascarou que, por trás do milagre, estava a proibida substância "Efedrina", uma droga usada para emagrecer. A FIFA terminou por puni-lo com outros 15 meses de banimento.

Sem poder jogar, Maradona passou rápido como diretor-técnico do pequeno Textil Mandiyú. Em poucas semanas, porém, abandonou o cargo do time de Corrientes. Assumiu como treinador do Racing, mas em março do ano seguinte saiu.

Com o fim da punição, ele voltou ao seu amado Boca Juniors, comprado por 10 milhões de dólares pelo "Grupo Eurnekian", que em troca teve os direitos televisivos sobre 11 partidas. 

O retorno, iniciado em jogo contra o Colón, foi estampado até em seus cabelos: Maradona descoloriu uma faixa do lado superior direito, simbolizando a faixa dourada do uniforme boquense.

O Boca não ganhava títulos argentinos havia cinco campeonatos – o último fora o “Apertura de 1992”. Com Maradona e Caniggia em grande parceria, o clube conseguiu confortável liderança no “Apertura 1995”.

O clube deixou o título escapar para o Vélez Sarsfield e terminou apenas em quarto. A edição do torneio foi mais lembrada por uma goleada de 4 X 1 sobre o River Plate em que a afinada dupla Caniggia e Maradona se beijaram na boca, em comemoração após o terceiro gol do atacante loiro.

Maradona faz sua última partida profissional, justamente em um Super clássico no “Monumental de Núñez”, em 25 de outubro. Jogou o primeiro tempo da partida e foi substituído pelo jovem Juan Román Riquelme. O Boca venceu por 2 X 1.

Enquanto jogador, Maradona foi reverenciado como uma divindade em seu país natal, sendo criada inclusive uma igreja dedicada a ele. Reunia inteligência, vontade e talento, com dribles, habilidade para mudar drasticamente sua velocidade e dar giros surpreendentes.

Seu grande momento no futebol foi na “Copa do Mundo de 1986”, que de acordo com uma opinião popular difundida em seu país, foi ganha inteiramente por ele, chamado de “El Pibe de Oro”.

Maradona foi casado durante vários anos com Cláudia Villafañe, de quem se divorciou de forma litigiosa. As duas filhas do casal, Dalma e Gianinna, ficaram do lado da mãe e não aceitaram o novo relacionamento do pai.

Maradona tem mais três filhos, Diego Sinagra fruto de um caso extra-conjugal quando jogava na Itália; Jana, de um outro relacionamento fora do casamento na década de 1990; e Dieguito Fernando nascido em 2013 filho de Verónica Ojeda. (Pesquisa: Nilo Dias)

Maradona no Napoli, da Itália.