Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A morte de uma lenda do futebol

Morreu ontem (11/02) em sua residência, enquanto dormia, o ex-goleiro inglês Gordon Banks, lenda do futebol e campeão do mundo com a Inglaterra em 1966. Nascido em Sheffield, no dia 30 de dezembro de 1937, Banks estava com 81 anos de idade.

O Stoke City, clube pelo qual o ex-goleiro jogou, confirmou o óbito e emitiu um comunicado. "É com grande tristeza que anunciamos que Gordon faleceu pacificamente da noite para o dia. Estamos devastados por perdê-lo, mas temos tantas lembranças felizes e não poderíamos ter mais orgulho dele. Pedimos que a privacidade da família seja respeitada neste momento", diz o clube.

Banks nasceu em Sheffield, mas ainda na infância se mudou com a família para Catcliffe, local que marcou uma tragédia para a sua família, pois seu pai abriu uma casa de apostas que custou a vida de seu irmão, morto em um assalto.

Revoltado, Banks deixou a escola em 1952 e passou a trabalhar em diversas atividades. Paralelo a isso, jogava peladas com os colegas na equipe amadora de Millspaugh.

Tempos depois ele tentou a sorte no Rawmarsh Welfare, mas sem sucesso. Só em 1956, já com quase 19 anos, que Banks conseguiu a grande chance de sua carreira ao ganhar a confiança de Teddy Davison, que o levou ao pequenino Chesterfield, onde pouco jogou, mas despertou o interesse do técnico do Leicester City que o levou para "East Midlands".

Em sua carreira por clubes ingleses jogou no Chesterfield, Leicester e Stoke City, tendo sido campeão por duas vezes da "Copa da Inglaterra".

Defendeu o “English Team” por 73 vezes entre 1963 e 1972, sendo uma das peças fundamentais na conquista da "Copa do Mundo" de 1966 pelo seu país.

O mais célebre momento de sua carreira foi na Copa de 1970, defendendo uma cabeçada de Pelé (o lance ficou eternizado como “A Defesa do Século”).

Em 1963, depois do então goleiro titular Springett ter levado cinco gols da França, Alf Ramsey colocou Banks em seu lugar. O goleiro estreou na derrota de 2 X 1 para a Escócia em abril de 1963.

Em maio teve boa atuação contra o Brasil, no empate por 1 X 1 num amistoso, rendendo-lhe a efetivação na posição. Na Copa de 1966, Banks deu ainda mais segurança a uma defesa que já era sólida, sofrendo o primeiro gol apenas na semifinal, num pênalti cobrado por Eusébio, da Seleção Portuguesa, em partida terminada em 2 X 1.

Na final, não teve responsabilidade nos dois gols da Alemanha e sagrou-se campeão com a vitória por 4 X 2. Na Copa de 1970 ele estava em melhor fase, mas na partida contra a Alemanha não pôde jogar, após sofrer um desarranjo intestinal ao beber uma cerveja mexicana que é apelidada de "Vingança de Montezuma", no México.

Em 1972, um acidente automobilístico o fez perder parte da visão de um olho, obrigando-o a encerrar prematuramente sua participação na “Three Lions”. Ainda assim jogou pelo Fort Lauderdale Strikers, dos Estados Unidos.

Em 2000, pouco antes do início da demolição do "Estádio de Wembley" original, Banks e Pelé foram ao gramado para uma simbólica cobrança de pênaltis. (Pelé nunca havia marcado naquele estádio). Trajados formalmente, Pelé chutou, e elegantemente Banks deixou a bola passar.

Em 2005 ele retirou um dos rins devido a um tumor. Em 2015 anunciou que o outro rim foi diagnosticado com um novo tumor.

Em 7 de junho de 1970, Brasil e Inglaterra se enfrentaram pelo Grupo 3, na Copa do Mundo do México, em partida realizada no “Estádio Jalisco”, de Guadalajara. 

Na jogada mais importante da partida, Jairzinho entrou pela direita, driblou o zagueiro inglês e, na linha de fundo da grande área, cruzou a bola para Pelé, que saltou por trás do defensor, quase parando no ar por instantes, e cabeceou forte, no canto.

Pelé chegou a levantar os braços para comemorar o gol, assim como Tostão, mas o mundo assistiu à espetacular defesa do goleiro Gordon Banks. 

Apesar da plasticidade da defesa e seu reconhecimento mundial, Banks diz que não foi sua melhor defesa, lembrando de um pênalti de Geoff Hurst, do West Ham, contra seu clube, o Stoke City, em uma semifinal da "Copa da Inglaterra" de 1972, defendido por ele. A partida foi em 15 de dezembro de 1971, e terminou empatada em 1 X 1.

Títulos conquistados. Stoke City: Copa da Liga Inglesa (1972); Seleção: Copa do Mundo FIFA com a Seleção da Inglaterra (1966). Leicester City: Copa da Liga Inglesa (1964).

Prêmios Individuais: “Goleiro do Ano” pela FIFA em 1966, 1967, 1968, 1969, 1970 e 1971; eleito para o “All-Star Team” da Copa do Mundo FIFA de 1966; esportista do Ano pelo “Daily Express” em 1971 e 1972; eleito um dos 1000 Maiores Esportistas do Século XX pelo jornal “The Sunday Times”; eleito o 21º Maior Jogador do Século XX pela revista “Placar” em 1999; eleito o 2º Maior Goleiro do Século XX pela IFFHS; eleito o 14º Maior Jogador da História das Copas pela revista “Placar” em 2006.

Em 2004 a FIFA divulgou uma lista elaborada com a supervisão de Pelé, onde figuram os 125 maiores jogadores dos primeiros 100 anos da entidade, e Gordon Banks está presente na lista. Em maio de 2015 Banks recebeu como homenagem do “Stoke City”, uma estátua de bronze em frente ao “Estádio Britannia”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Á espetacular defesa de Banks, na cabeçada de Pelé, na Copa do Mundo de 1970. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Dois clubes que valorizam mulheres

Atlético Mineiro e Danúbio, do Uruguai, decidem amanhã a noite (12), 19h30min, no Estádio Independência, em Belo Horizonte, quem avança para a etapa seguinte classificatória para a fase de grupos da Copa Libertadores da América.

O Atlético leva a vantagem de poder empatar em 0 X 0 e 1 X 1 para seguir adiante, pois no jogo de ida, em Montevidéu, empatou em 2 X 2.

Antes do confronto, um fato interessante chama a atenção e até serviu de matéria especial do jornalista Thiago Madureira, para o site Super Esportes: Os dois clubes valorizam mulheres como símbolos. As histórias de Alice Neves e María Lazaroff.

Tanto Atlético quanto Danúbio tiveram em seus primórdios a presença feminina, o que sem dúvida significa um importante elo entre eles.

Ninguém desconhece que o ambiente futebolístico é machista, por isso chama atenção o fato de duas mulheres terem contribuído para o crescimento des dois clubes do Brasil e Uruguai.

No Atlético, a senhora Alice Neves, mãe de Mário Neves, um dos fundadores do clube, foi a primeira grande atleticana da história. E María Mincheff de Lazaroff foi quem deu o nome de Danubio ao clube, além de ser mãe de alguns dos precursores da equipe.

Mesmo em um esporte dominado pelos homens, as mulheres foram atraídas e demonstraram paixão pelo futebol ainda no início do século XX.

É claro que elas não entravam em campo e nem jogavam, ficavam distantes da bola, pois o futebol naqueles distantes tempos era praticado somente pelos homens. Mas els assistiam os jogos, gostavam do esporte e ajudavam como podiam nos bastidores.

O trabalho de mestrado do historiador Raphael Rajão Ribeiro, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) conta como foram os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte, que fora recém-fundada (1897).

Esses foram os anos vividos por Alice e outras mulheres que ajudaram a escrever a história do Atlético, clube que foi fundado em 1908.

Como se percebe, o futebol no Atlético, desde seus primeiros tempos, teve a capacidade de atrair a presença feminina, mesmo que a sociedade ainda fosse marcada pelo machismo.

Apesar do ambiente não muito propicio às mulheres, o afeto familiar possibilitava a frequência das meninas e das mulheres, assim como suas participações na vida dos clubes.

Dona Alice, aproveitando o fato de ser mãe de um dos fundadores do clube, Mário Neves, teve nas mãos a tarefa de organizar a primeira torcida feminina do Atlético.

Essa história pode ser encontrada com detalhes no site do clube. Senão, vejamos: "A primeira torcida organizada que se conhece foi fundada em Belo Horizonte, ainda em meados da década de 1920.

Dona Alice Neves, mãe de Mário Neves, um dos fundadores do clube, uniformizava e costurava bandeirinhas para que a equipe de futebol contasse com o apoio da sua torcida feminina”.

Na inauguração do “Estádio Antônio Carlos”, em 1929, o hino original do Atlético foi cantado pela primeira vez. 

A participação destacada de dona Alice Neves na fundação do clube, é contada pelo escritor Ricardo Galuppo, no livro "Raça e amor: a saga do Clube Atlético Mineiro vista da arquibancada".

Mário Neves não foi apenas um dos fundadores do Atlético. Desde o inicio mostrou interesse para que a ideia vingasse. Tanto é verdade, que depois da reunião inaugural, os encontros de atleticanos passaram a ocorrer na casa dele, na rua dos Guajajaras, 317, no quarteirão entre a avenida João Pinheiro e a rua da Bahia.

Graças a essas reuniões na sua casa é que Alice Neves teve a chance de entrar definitivamente na vida do clube. Sem ela, o sonho da rapaziada dificilmente teria ido adiante, ressalta Galuppo, no livro.

Ela era conhecida como Dona Alice, e desde cedo foi tratada como a madrinha, visto que “fabricou” o primeiro uniforme e a primeira bandeira do Atlético.

O livro de Galuppo conta que o Atlético foi o primeiro clube brasileiro a ter uma torcida organizada e quem a criou foi Dona Alice, ainda no início do século XX.

Alice costumava ir de casa em casa pedir autorização aos pais para que permitissem as suas filhas, algumas delas, irmãs dos próprios fundadores, integrarem o grupo. E nesse trabalho conseguiu reunir 50 moças.

Já a importância de María Mincheff de Lazaroff ao Danubio foi tão grande, que o estádio do clube leva o seu nome. Essa história teve inicio quando ela deixou a Bulgária e chegou ao Uruguai na tentativa de uma vida melhor, nas primeiras décadas do século XX.

Era mãe de três filhos, Miguel, Juan e Apostol, que não demoraram a fazer amizades e jogarem em um time de futebol chamado “Tigre”, na região de Curva de Maroñas, em Montevidéu, onde moravam.

Mas nenhum deles simpatizou com o nome do time. Em vista disso resolveram marcar uma reunião que aconteceu na casa da mãe deles, Maria, para a esolha de um outro nome.

Bulgara que era, dona Maria quis homenagear sua terra com o nome de Maritza, um rio que corta Grécia, Bulgária e Turquia. Era onde ela lavava roupas na infância.

Por sorte, o nome não foi aceito, até porque parecia muito feminino para um time de homens. Maria, que era fascinada por rios insistiu, mas agora com outra ideia: Danubio.

Danubio é o segundo maior rio da Europa em extensão, atrás apenas do Volga. A nascente se localiza na Floresta Negra, na Alemanha.

O encontro com o mar ocorre na Romênia. Ao todo, o rio corta dez países. O nome foi aprovado sem nenhuma objeção.

Passaram-se muitos anos. Em maio de 2017, veio a homenagem. Em uma assembleia extraordinária, os sócios decidiram rebatizar o nome do estádio para “Jardines del Hipódromo - María Mincheff de Lazaroff”. Este é o primeiro estádio com nome de mulher no futebol uruguaio e um dos raros no mundo.

No Brasil apenas seis estádios tem nomes de mulheres:

Estádio Municipal Maria de Lourdes Abadia (Abadião), em Ceilândia (DF), homenagem a ex-administradora da cidade.

Estádio Maria Lamas Farache (Frasqueirão), em Natal (RN), pertencente ao ABC. A homenageada, junto de seu marido Vicente Farache, são considerados dois esteios da história abecedista.

Vicente foi ponta direito na primeira conquista estadual, mas anos depois se aposentou e assumiu um posto de dirigente e sua mulher incorporou o ABC a sua vida, também.

Estádio Municipal Maria Tereza Breda, em Olímpia (SP). O benfeitor das obras do estádio foi Natal Breda, que em troca do custeio solicitou que o estádio deveria ter o nome de sua esposa, Maria Tereza.

Estádio Otacília Patrício Arroyo, em Monte Azul Paulista (SP), pertencente ao Atlético Monte Azul. O estádio já foi chamado de “Ninho do Azulão”, mas em 2010, o presidente do clube, Ricardo Céster Arroyo, propôs a mudança para homenagear sua avó que havia morrido com 100 anos de idade em 2005.

A família Arroyo foi responsável pela doação das terras onde o estádio está localizado.

Estádio Municipal Flávia Blante de Oliveira (Bacurauzão), em Manicoré (AM). Dos estádios listados é o único que não consta no CNEF. Não foram encontradas informações sobre quem é a homenageada.

Estádio Emília Mendes Rodrigues (Ninho da Águia), em Imbituba (SC), pertencente ao Imbituba Futebol Clube. Emília é mãe de Roberto Rodrigues, empresário que fundou a equipe em 2009. 

O clube, aliás, em seu primeiro ano de atividade fez uma parceria com o CFZ, nome no qual foi incorporado. O estádio também não está listado no CNEF, mas deve voltar a receber partidas nesse ano com a volta do clube para a disputa da terceira divisão. (Pesquisa: Nilo Dias)


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A morte do "Pantera Negra"

Morreu hoje (6/1) o ex-goleiro Jairo Nascimento, conhecido como “Pantera Negra” ou “Muralha de Ébano”, que alcançou fama defendendo as metas de Corinthians e Coritiba e teve uma passagem pela Seleção Brasileira. Ele lutava contra um tipo raro de câncer no rim.

Seu corpo está sendo velado na 3ª Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), no bairro Água Verde, em Curitiba, e seu enterro será nesta quinta-feira, às 15 horas, no Cemitério Vertical, na capital paranaense.

Devido os altos custos dos medicamentos que o ex-jogador vinha tomando, R$ 300.00 por dia, a família chegou a lançar a campanha "Defenda o Jairo", que sensibilizou atletas e os próprios Corinthians e Coritiba, que passaram a enviar os medicamentos para o tratamento.   

Jairo estava internado desde o dia 23 de janeiro no “Hospital Erasto Gaertner”, em Curitiba, onde residia com a família.

Natural de Joinville (SC), Jairo foi revelado pelo time de sua cidade, o Caxias. O goleiro se destacou nacionalmente pelo Fluminense, onde faturou dois Estaduais e o “Robertão” - Campeonato Brasileiro de 1970.

Transferido para o Coritiba, ele venceu cinco Estaduais e o Brasileiro de 1985. Além dos títulos, ficou marcado por ter alcançado o recorde, então nacional e do clube até hoje, de 933 minutos sem sofrer gols.

A marca foi superada pelo próprio Jairo quando ele defendia o Corinthians, com 1.132 minutos sem levar gols no ano de 1978. No time paulista, ele foi o titular na segunda partida da final do Paulistão de 1977, quando o clube encerrou uma “fila” de 22 anos sem troféus.

O Corinthians havia sido campeão pela última vez em 1954. Ele também foi campeão paulista em 1979 pelo “Timão”, clube que defendeu em 189 partidas entre 1977 e 1980, tendo sofrido 146 gols.

Quando ainda atuava pelo Coritiba, Jairo chegou a ser convocado para a seleção, mas não teve atuação de destaque. Ele deixou os gramados em 1989.

Em situações como a de Jairo, em que a vida estava em jogo, às rivalidades no futebol desaparecem. No final do ano passado o goleiro Fernando Prass, do Palmeiras, maior rival do Corinthians, se uniu a batalha travada por Jairo, doando uma camisa autografada para ser leiloada.

O dinheiro arrecadado com o leilão foi utilizado pela família para ajudar a bancar o custo alto do tratamento do câncer do goleiro com mais minutos sem sofrer gols na história do Campeonato Brasileiro.

O Corinthians se manifestou pelas redes sociais, lamentando a morte de seu ex-atleta: “Obrigado por ter honrado o manto alvinegro, Jairo! Muita força à família e aos amigos. Descanse em paz”.

Embora tenha tido sucesso no Corinthians, foi no Coritiba que Jairo alcançou os melhores momentos de sua carreira. Ele esteve por duas vezes no clube, entre 1972 e 1976 e entre 1982 e 1987, tornando-se o jogador que mais vestiu a camisa alviverde na história, com 410 jogos. No “Coxa” foi campeão paranaense e brasileiro.

O Coritiba postou uma publicação nas redes sociais lamentando a morte de Jairo, ao mesmo tempo que exaltou o seu legado no clube. “Faleceu hoje Jairo. Foi quem mais vestiu a nossa camisa, com 410 jogos. Campeão estadual, campeão do "Torneio do Povo" e "Campeão Brasileiro". Todos nossos sentimentos para família, amigos e torcedores. Jairo marcou e sempre será lembrado na nossa história. Descanse em paz, Jairo”.

Jairo jogou ainda pelo América Mineiro, em 1988, O clube publicou nota nas redes sociais lamentando o seu falecimento:  “Que notícia triste. Além de ídolo no Coritiba, Jairo também defendeu brilhantemente o "Coelhão" no fim da década de 80. Nossos sentimentos à família e aos amigos. Descanse em paz, Jairo!”.

O goleiro também defendeu o Náutico, de Recife.  Atualmente ele era treinador na escolinha de futebol do Centro Educacional Araucária (CEAR), mantido pela Igreja Quadrangular. (Pesquisa: Nilo Dias)


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O time solidário de Brumadinho


A cidade mineira de Brumadinho até uma semana atrás vivia praticamente no anonimato. Pouca gente ouvira falar dela e nem sabia onde ficava. No entanto, a tragédia ocasionada pela Mineradora Vale do Rio Doce transformou Brumadinho em triste notícia, tornando-a conhecida em todo o mundo.

Lamentavelmente a ganância pelo lucro ceifou a vida de muitas pessoas, enlutando uma grande quantidade de famílias. A perspectiva é de que as mortes cheguem a números estratosféricos, porque passados seis dias é pouco provável que ainda se encontre alguém com vida.

Mas como este blog é dedicado ao futebol e suas histórias, vamos aproveitar o momento, mesmo que doloroso, para contar algo a respeito do time de futebol da cidade, o Brumadinho Futebol Clube.

A fundação do clube ocorreu em 1929. Tem sua sede na Rua Quintino Bocaiuva, s/n e as cores oficiais são o azul e o branco.

Disputou a 3ª Divisão Mineira em 1987, classificando na penúltima colocação do grupo D. Os resultados dos jogos foram estes, na única incursão no profissionalismo:

Brumadinho 1 X 1 Carandaí(Carandaí); Barroso (Barroso) 0 X 1 Brumadinho; Brumadinho 1 X 1 Flamengo (Conselheiro Lafaiete); Olympic (São João del Rey) 3 x 0 Brumadinho; Carandai 2 X 2 Brumadinho; Brumadinho 0 x 2 Barroso; Flamengo 2 x 2 Brumadinho; Brumadinho 0 X 1 Olympic.

O campo do Brumadinho fica na Rua Itaguá, na altura do número 1.000. O local se transformou em uma base de apoio para as operações anerentes a tragédia do dia 25 e sua quadra poliesportiva concentra doações às famílias vitimas da catástrofe.

Ao invés da bola, o campo do time amador virou pista de pouso. O espaço cedido pelo Brumadinho F.C. se tornou um dos pontos para facilitar o transporte de equipamentos e profissionais que atuam na busca das vítimas.

O trabalho de quem cuida do Brumadinho FC agora se concentra em dar solidariedade às famílias das vítimas, bombeiros e voluntários envolvidos na tragédia.

O presidente do clube há cinco anos, Roberto Márcio, de 46 anos, enfatiza que o clube tem este grande espaço, onde agora recebe muita gente nestas idas e vindas. Dá graças a Deus porque o campo não foi atingido e permite esta ajuda.

Disse que tudo isso é muito triste, mas o clube está pronto para auxiliar cada vez mais.

E o Brumadinho, embora suas instalações nada tivessem sofrido, chora a possível morte de um atleta na tragédia. Robert Ruan Oliveira Teodoro, 19 anos, que jogava pelo juvenil da equipe, que disputa competições de base em Minas Gerais, trabalhava na Vale por intermédio de uma empresa terceirizada.

O presidente conta que um atleta da base do clube perdeu um primo e outros dois perderam um tio. Enquanto o Brumadinho se movimenta para ajudar na cidade, os meninos permaneceram ao lado dos amigos, rezando pelas vítimas em uma igreja de São Gotardo e se orgulham do legado deixado por um time que tem se mostrado mais do que apenas um clube de futebol.

O último jogo da equipe adulta de Brumadinho ocorreu no início do mês, válido pela Copa Itatiaia de futebol amador.

Entre os jovens, as categorias sub-12, sub-14 e sub-16 disputam a 5ª Copa de Futebol do Alto Paranaíba, torneio que reúne os meninos na cidade de São Gotardo, localizada a quatro horas de distância do município vitimado pelo rompimento da barragem. (Pesquisa: Nilo Dias)

Uma das equipes de categoria de base do Brumadinho F.C.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Um ídolo do Flamengo

Luís Carlos Tóffoli, o “Gaúcho”, ex-atacante de Flamengo e Palmeiras nasceu em Canoas (RS), no dia 7 de março de 1964 e faleceu em São Paulo, na data de 17 de março de 2016, vitimado por um câncer de próstata. Como desejava, foi enterrado no Cemitério Jardins das Palmeiras, em Goiânia.

Aos 10 anos de idade a família de “Gaúcho” se mudou para Goiânia, onde ele foi criado até se tornar jogador.

“Gaúcho” descobriu que estava com a doença em meados de 2009, quando estava com 45 anos e só a revelou para pessoas bem próximas, como familiares e amigos íntimos. Dentre eles, Renato Gaúcho e Uidemar, velhos parceiros de Flamengo.

Amigo de Renato Portaluppi, “Gaúcho” provocou, sem querer, a demissão do ex-atacante do Botafogo, em 1992. Ao pagar uma aposta por ter perdido o primeiro jogo da final do Brasileirão daquele ano, Portaluppi colocou carne de churrasco na boca de “Gaúcho”. Revoltada com a imagem, a diretoria botafoguense o mandou embora.

Logo que descobriu a doença foi um baque muito grande, mas “Gaúcho” sempre fez os tratamentos específicos, como a radioterapia. E eles até que davam resultado. Às vezes ele se sentia mal, ligava para o médico em São Paulo ou ia até lá, mas tudo ficava sob controle.

A luta contra o câncer de próstata durou sete anos, segundo disse sua esposa, a atriz Inês Galvão, casada com o ídolo rubro-negro desde 1991, com quem teve três filhos – Leonardo, e as gêmeas Maria Luísa e Maria Vitória, além de um enteado.

A doença veio a se agravar a partir de janeiro de 2016, quando, “Gaúcho” fez quimioterapia pela primeira vez. As primeiras sessões do tratamento não deram o resultado esperado, e o câncer se alastrou para outros órgãos. Ele se sentiu mal e a família decidiu ir para São Paulo. “Gaúcho” saiu de casa andando normalmente, mas quando desceu do avião no aeroporto ele já não conseguia mais.

Precisou ser levado de cadeira de rodas. O ex-atacante ficou internado no Hospital Beneficência Portuguesa, na capital paulista, por cerca de duas semanas antes de falecer. Apesar do estado de saúde ter piorado, “Gaúcho” sempre manteve o jeito de ser e foi feliz até os últimos instantes.

Segundo sua esposa, ele jamais teve medo de morrer, soube aproveitar a vida. No hospital, não chegou a sentir dor ou sofrer. Estava sedado quando o estado clínico piorou. Ela salientou ter ficado triste, mas confortada por saber que ele foi muito feliz em vida e viveu tudo que quis.

“Ele quis ser jogador e foi. Quis ser ídolo de um grande clube e foi. Quis casar e ter três filhos e teve. Além disso, foi sempre irreverente. Deixa um legado bacana e várias histórias bonitas”, afirmou.

“Gaúcho” começou a carreira nas divisões de base do Flamengo, mas depois foi jogar no XV de Piracicaba, Grêmio e Verdy Kawasaki. Em 1988, após passar pelo Santo André, chegou desacreditado ao Palmeiras.

No entanto, ele começou a marcar gols e, com isso, foi consolidando seu lugar no time. É bem verdade que não conquistou nenhum título pelo Palmeiras, A fama, porém, sobreveio de maneira inusitada, em um episódio memorável na história do futebol brasileiro.

Em uma partida válida pelo Campeonato Brasileiro de 1988, substituiu Zetti, que saíra de campo lesionado, e atuou como goleiro. Não fosse isso o bastante, por ironia do destino, o adversário do Palmeiras, naquele jogo, era o Flamengo.

Mas o melhor de tudo é que a partida, por conta do regulamento da competição, terminou na disputa de pênaltis, quando “Gaúcho” defendeu as cobranças de Aldair e Zinho, garantindo a vitória ao Palmeiras.

Dois anos mais tarde, “Gaúcho” retornou ao Flamengo, para desta vez, tornar-se ídolo da torcida rubro-negra. Através de seus gols de cabeça, ajudou o time a conquistar a “Copa do Brasil” de 1990, o Campeonato Carioca de 1991 e o Campeonato Brasileiro de 1992.

Disputou 198 partidas e marcou 98 gols, tendo sido o artilheiro dos Campeonatos Cariocas de 1990 e 1991, da Libertadores da América de 1991 e da Supercopa Libertadores de 1991.

Do Flamengo, “Gaúcho” saiu para ir defender o Lecce, clube italiano da primeira divisão. Infelizmente, sua carreira não embalou na Itália, tendo disputado somente cinco partidas. Em seguida, passou pelo Boca Juniors, da Argenrtina, até chegar ao Atlético Mineiro.

Em 1995, jogou na Ponte Preta e no Fluminense e em 1996, no Anápolis, aonde encerrou a carreira de jogador.

Em 2001, “Gaúcho” fundou o Cuiabá Esporte Clube, sendo que o seu clube foi o representante do Estado do Mato Grosso, na Copa São Paulo de Futebol Júnior. Nesse ano, o clube passou a participar do Campeonato Matogrossense e, logo em sua estréia, já conquistou o primeiro título regional.

Em seguida começou a carreira de treinador, nesse mesmo clube, como auxiliar.  Em 2010, treinou o time principal do Mixto. O último clube que treinou foi o Luverdense, de Lucas do Rio Verde.

Títulos conquistados. Flamengo: Copa do Brasil (1990); Taça Rio: 1991; Copa Rio:1991; Campeão Carioca (1991); Campeão Brasileiro (1992); Taça Guanabara (1984 e 1988); Taça Euzebio de Andrade (1987); Torneio Internacional de Angola (1987); Torneio El Cabon (1987); Copa Kirin (1988); Troféu Colombino (1988); Campeonato da Capital (1991 e 1993); Troféu Libertad (1993). Grêmio: Campeonato Gaucho (1985); Torneio Ciudad Palma de Mallorca (1985) e Torneio de Rotterdam (1985). Atlético Mineiro: Campeão Mineiro (1995).

Artilharia. Campeonato Carioca (1990 - 14 gols e 1991 - 17); Taça Libertadores da América (1991 - 8 gols) e Supercopa Libertadores (1991 – 3 gols) (Pesquisa: Nilo Dias)


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O atleta que virou limpador de bueiros

Jorge Arnaldo Pereira, mais conhecido por “Jorge Preá”, nasceu em São Paulo, no dia 10 de janeiro de 1984.  Começou a carreira no futebol muito tarde, tendo se profissionalizado em 2007, quando tinha 23 anos e passou numa peneira do E.C. Pelotas, time do interior gaúcho.

“Preá” teve um bom desempenho no clube pelotense, tendo sido artilheiro do Campeonato Gaúcho da Segunda Divisão gaúcha, tendo chamado a atenção do futebol coreano. Mas não deu sorte, sofreu uma contusão no joelho direito e teve de voltar ao país, fazendo tratamento no Palmeiras.

O alviverde paulista era na ocasião dirigido tecnicamente por Vanderlei Luxemburgo, que no ano anterior havia indicado o jogador ao Santos. E não teve dúvidas em pedir que o Palmeiras o contratasse.

Nesta época, o ex-atacante morava em Perdizes, bairro de classe média alta de São Paulo. Agora, vive no popular bairro da Casa Verde. A diferença é a casa própria. Com o primeiro contrato que fechou, comprou uma casa para sua mãe.


Um vizinho, fanático torcedor do Palmeiras, viu o menino correndo pela rua e o apelidou de "Preá", uma espécie de mamífero roedor, que tem na velocidade a sua principal característica.

No Palmeiras foi campeão paulista de 2008, ao lado de jogadores como Marcos, Valdívia, Diego Souza, Kléber “Gladiador” e Denílson, mas não conseguiu se firmar. “Jorge Preá” disputou apenas oito jogos pelo Palmeiras, mas é lembrado por um gol importante rumo ao título do Campeonato Paulista 2008.

Responsável por garantir o triunfo por 1 X 0 sobre a Portuguesa nos acréscimos no antigo Palestra Itália, ele recentemente conheceu o Allianz Parque.

“Foi o gol mais importante da minha vida. Até hoje, os torcedores palmeirenses lembram e me reconhecem por isso. Tenho o vídeo do lance no meu telefone celular e gosto de revê-lo. Sempre me emociono com a narração do Zé Silvério”, contou.

Ao sair do Palmeiras virou cigano do futebol, vestindo várias camisas, jogando por Atlético Paranaense, Bragantino (SP), Mogi-Mirim (SP), ABC de Natal (onde participou da campanha do título brasileiro da Série C em 2010), Grêmio Barueri (SP), Atlético Sorocaba (SP), Operário Ferroviário (PR), Cascavel (PR), Barretos (SP), Sinop (MT), Real Ariquemes (MT), em 2018, e Arapongas (PR), em 2019.

O ex-palmeirense disputou sua última partida como profissional no final de fevereiro pelo Real Ariquemes, de Rondônia, na Copa Verde. Para receber o que o clube lhe devia, teve de entrar na Justiça do Trabalho.

O jogador estava praticamente esquecido, quando no dia 20 de janeiro de 2019 o repórter Felipe Pereira, do UOL, fez interessante matéria com ele. “Preá” foi descoberto trabalhando para uma empresa que presta serviços à Prefeitura de São Paulo, na limpeza de bueiros nas marginais Pinheiros e Tietê, principais vias da capital paulista.

O jornalista não teve dúvidas em fazer a matéria, que relata a história de um jogador de futebol, que se apresenta no trabalho às 7 horas da manhã de botas, capacete, luvas, óculos e outros itens obrigatórios do equipamento de proteção.

Ele, que durante cerca de 10 anos vestiu outro uniforme, o de atleta de futebol, constando de chuteiras, meias, calções e camisas de clubes de futebol, entre os quais o Palmeiras e uma passagem pela Coreia do Sul.

E Jorge Preá não se sente humilhado por ter trocado de profissão. Garante que em momento algum se viu menosprezado. Conta que tomou a decisão de abandonar os gramados e trabalhar neste serviço, pela necessidade de buscar o pão de cada dia.

Jorge Preá é casado em Ingrid, tem cinco filhos e mora em São Paulo, no bairro Casa Verde. Ele valoriza muito a companhia da mulher porque o casal cumpre a risca a promessa feita na igreja: “juntos na alegria e na tristeza”.

Ele conta que começaram a namorar antes dele se tornar jogador profissional. Sem ser perguntando, cita o dia em que ficou com Ingrid pela primeira vez, foi em 13 de fevereiro de 2005, no desfile das campeãs do carnaval de São Paulo.

Conta que se conheceram porque moravam na mesma rua. Ela é irmã de um amigo de “Preá”. Os dois demoraram a se relacionar porque Ingrid teve um casamento anterior. “Preá” casou e assumiu o filho que ela tinha, Kaique.

O ex-jogador se derrete ao falar dela porque estavam juntos na época anterior à carreira, na fase boa, quando andavam de SUV, e continuam firme na volta ao bairro Casa Verde. O ex-jogador sintetiza: “Ela é uma mulher guerreira. Está comigo antes da carreira no futebol. Nos momentos bons e ruins. Estamos juntos para qualquer hora”.

O último clube que defendeu, não pagou os salários, mas as contas não pararam de chegar. Com a mulher grávida e mais os filhos para criar, pegou o primeiro emprego que apareceu. Conta que o seu filho mais velho, Kaique, de 15 anos, queria que ele voltasse a jogar futebol.

É lógico que o seu padrão de vida caiu bastante desde que abandonou os gramados. O salário mais alto que teve foi durante o último dos quatro anos de Palmeiras, R$ 35 mil por mês. Hoje, a renda gira entre R$ 4 e R$ 5 mil. A variação existe porque ele recebe para jogar por times da várzea da Grande São Paulo aos finais de semana.

Mas não tem vergonha de limpar bueiros. Bem humorado até se diz orgulhoso do que faz, pois está ajudando a cidade a evitar enchentes e alagamentos. Ressalta que vergonha deve sentir quem joga o lixo na rua que depois vai entupir os bueiros. Ele opera um sugador que recolhe a sujeira para um compartimento do caminhão usado pela equipe.

A vaga surgiu por indicação de um parente há seis meses. O ex-atacante gostou porque houve pouca burocracia e o primeiro salário pingou rápido. A mulher estava grávida. Hoje, o quinto filho do casal tem um mês de vida.

A única coisa quer Jorge Preá não gosta no novo emprego, é quando tem de tirar a tampa de um bueiro, e aparecem com frequência ratos e escorpiões.

Para melhorar os ganhos, “Preá” dá aulas em uma escolinha de futebol e joga por times varzeanos de São Paulo. Com a carreira profissional interrompida há quase 10 meses, “Preá” procura disputar, pelo menos, três partidas de várzea a cada sete dias por times como Vida Loka, Blindados e Dragões da Casa Verde, além do Dínamo. Em uma semana boa, ele estima ganhar aproximadamente R$ 600,00. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Asssassinado diretor do Guarani de Venâncio Aires

O brutal assassinato do diretor de futebol do Guarani, de Venâncio Aires, Éder Silva, chocou o esporte do Rio Grande do Sul. O crime aconteceu por volta das 19 horas de quinta-feira, na localidade de Santo Antônio, na zona rural de Mato Leitão, distante 15 quilômetros de Venâncio Aires, quando ele e o filho, de 17 anos, voltavam de um treinamento do Guarani.  

Segundo apurou a Polícia, Éder chegava ao seu sítio quando foi abordado por dois homens que haviam invadido a casa dele numa tentativa de assalto, sendo atingido por dois disparos e morreu no local.Tinha 36 anos.

Assustado, ele teria corrido em direção aos fundos da casa para escapar, mas foi baleado nas costas e na cabeça. O filho adolescente teria ficado na porta da frente aguardando o pai e, por isso, não teria testemunhado o crime.

De acordo com o departamento de comunicação do clube, Silva iniciou sua trajetória nas categorias de Base do E.C. Guarani, em 1996.

Durante três anos (entre 2000 e 2003) ele também foi atleta profissional do clube. A função de dirigente, Silva desempenhava desde setembro do ano passado, com a posse da nova diretoria. O sonho dele era ser presidente do clube.

Em comunicado publicado em sua conta do Facebook, o Guarani lamentou o falecimento de Éder:

"É com uma tristeza infinita no coração que comunicamos o falecimento de nosso ex-atleta e atual Diretor de Futebol Éder Silva. Éder iniciou sua trajetória no E.C. Guarani nas categorias de Base em 96 e teve passagem no futebol profissional. Atualmente, Éder atuava como Diretor de Futebol no Novo Projeto do EC Guarani.

Um torcedor apaixonado pelo clube, que voluntariamente dedicava parte dos seus dias ao clube. Ficaram as recordações de um homem dedicado que deu e ensinou muito a todos nós.

Não temos palavras para expressar os nossos sentimentos. Pedimos a Deus que conforte o coração dos familiares e amigos neste momento de dor". O corpo de Éder Silva foi sepultado no Cemitério Municipal de Venâncio Aires. (Pesquisa: Nilo Dias)



quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O futebol feminino já fez sucesso na Inglaterra

A I Grande Guerra criou o fenômeno da popularidade do futebol feminino na Inglaterra. Jogos chegavam a ter mais de 50 mil espetadores. No dia 26 de dezembro de 1920, cerca de 53 mil pessoas lotaram as dependências do estádio do Everton, em Liverpool, Inglaterra, para assistirem a um jogo de futebol. E do lado de fora outras 14 mil almas quase brigavam em busca de lugarzinho.

Não seria nada de anormal, se o jogo fosse entre dois times masculinos de futebol. Mas não era. De um lado estava o "Dick, Kerr’s Ladies F.C". e do outro o "St. Helens Ladies", duas equipes femininas.

O sucesso desse jogo acendeu a luz vermelha nos dirigentes da Football Association (FA), temerosos que o futebol feminino quebrasse as receitas do futebol masculino, tão devastado que se encontrava pelo advento da I Grande Guerra, que jogou uma geração de jovens para a batalha das frentes e das trincheiras, tirando-os gramados.

Em 5 de dezembro de 1921, a FA proibiu as mulheres de jogarem futebol em qualquer campo de clube pertencente à clubes filiados a vaidosa Federação Inglesa, sob a discutível desculpa de que “têm surgido diversas queixas sobre os jogos de futebol praticados por mulheres, que nos forçam a expressar a opinião de que este desporto é muito pouco indicado para o sexo feminino e não deve, de forma alguma, ser encorajado”.

E mais: “Surgiram, igualmente, queixas sobre as condições em que estes jogos têm decorrido e da forma como as receitas desses jogos têm sido utilizadas para fins não caritativos. Somos de opinião que uma excessiva percentagem dessas receitas tem sido desviada para despesas inadequadas. Desta forma vimos requerer aos clubes nossos filiados que recusem ceder as suas instalações para estes jogos”.

A verdade é que esta decisão absolutamente sexista só foi revogada em 1971. Na livre Inglaterra, as mulheres passaram a jogar na clandestinidade.

Ninguém imaginava ainda que o futebol feminino iria sofrer tão forte machadada na sua progressão que o deixaria marcado por cinco décadas. Uma vaga absurda de inveja levantava-se em Londres.

A discutível decisão da FA não dobrou o espírito das raparigas de Preston. O treinador Alfred Frankland, conhecido por “Pop Frankland”, desafiou a cartolagem ao dizer: “Continuaremos a jogar, e se os organizadores de jogos de exibição não nos cederem campos, jogaremos em terra lavrada".

Em 1922, a equipe estava na América do Norte. Proibida de jogar no Canadá, seguiu para os Estados Unidos. Lutava contra a discriminação com todas as suas forças. Enfrentou nove times compostos por homens, obtendo três vitórias, três empates e três derrotas. Na Inglaterra, ninguém as esquece até hoje.

Um dos clubes envolvidos no jogo de 1920, que lotou o estádio do Everton, foi o “A Dick, Kerr & Company”, que era de uma empresa de construção de locomotivas e carruagens fundada em Kilmarnock, na Escócia, e com sede na cidade inglesa de Preston.

Em 1914, com o recrutamento militar de uma enorme fatia da população masculina, as mulheres entraram com força como operárias para as fábricas da Grã Bretanha. 

As que trabalhavam na “Dick, Kerr” não demoraram muito a dedicarem-se a disputa de jogos de futebol nas instalações da empresa durante os momentos de descanso e, até, nos dias livres. Seguiram-se desafios contra outros grupos de trabalhadoras.

Um fenômeno de surpreendente popularidade emergia por entre os subúrbios industriais das cidades da velha Inglaterra. Com o epicentro em Preston, bem entendido. No dia de Natal de 1917, o “Dick, Kerr Ladies F.C.” arrastou até ao Deepdale, o maior estádio da região, 10 mil pessoas que assistiram a uma vitória sobre a “Arundel Coultartd Factory”, por 4 X 0.

A renda desse jogo destinou-se ao auxílio de operários feridos na guerra ou em serviço.

As moças de Preston ganharam um prestígio tal que se dedicaram a encontros de exibição por todo o país. A “Dick, Kerr & Co.” pagava a cada uma 10 shillings por jogo, como forma de cobrir as despesas de deslocação, o que as tornou praticamente profissionais.

Na França, Alice Milliat, a grande responsável pela presença das mulheres nos Jogos Olímpicos (estrearam-se em 1900, mas apenas no golfe e no tênis), estava atenta ao que se passava em Preston. Era uma personagem inabalável.

No ano de 1920, reuniu uma equipe de futebol feminino que se deslocou a Inglaterra para o primeiro torneio internacional entre mulheres. Ou melhor, entre duas equipes de mulheres. A já famosa “Dick, Kerr Ladies F.C.” e uma Seleção da França. Quatro jogos, em Preston, Stockport, Manchester e Londres, Stanford Bridge, com três vitórias britânicas e um empate.

De tal forma que as mulheres da “Dick, Kerr & Co.” não tardaram a ganhar prestigio também na França, onde jogaram em Paris, Rouen, Havre e Roubaix. (Pesquisa: Nilo Dias)


Dick Kerr International Ladies A.F.C., em 1921.

sábado, 12 de janeiro de 2019

A nova Rainha da África

Chrestinah Thembi Kgatlana, 22 anos, 1,54m de altura, nascida em Mohlakeng, uma pequena cidade no Oeste de Johanesburgo, África do Sul, é a nova “Rainha da África”.

Ela foi escolhida como melhor jogadora do continente, desbancando as nigerianas Francisca Ordega e Asisat Oshoala, que já havia vencido o prêmio três vezes. Ela se tornou a segunda sul-africana a vencer o título concedido pela Federação Africana de Futebol.

Mais que isso, ela venceu a disputa de melhor gol africano de 2018, entre homens e mulheres. O gol da atacante contra a Nigéria, durante a fase de grupos da “Copa Africana das Nações”, foi escolhido o mais bonito da temporada por voto popular.

E não para por aí. No ano passado, ela foi a melhor jogadora da “Cyprus Cup”. Na “Copa Africana das Nações”, embora a África do Sul tenha ficado com o vice-campeonato, ao ser derrotada nos pênaltis pela Nigéria, ela anotou gol em todos os jogos e foi não apenas a artilheira do torneio, como a melhor jogadora.

O resultado garantiu pela primeira vez a participação da África do Sul na Copa do Mundo, que divide o grupo com China, Espanha e Alemanha.

A premiação anual da Confederação Africana de Futebol chegou em sua 27ª edição. O “Rei” e a “Rainha” do futebol africano foram premiados em uma cerimônia que pela primeira vez em aconteceu em Dakar, capital do Senegal.

Embora o prêmio para “Melhor Jogador Africano” exista desde 1992, para as mulheres ele passou a existir apenas em 2001, sendo que as edições de 2009 e 2013 não houveram premiadas.

A primeira vencedora da história foi Mercy Akide, da Nigéria, que esteve na seleção nigeriana nas Olimpíadas de 2000 e 2004. A meio-campista foi nomeada pela FIFA em 2005 como uma das 15 embaixadoras do futebol feminino no mundo.

Os pais de Chrestinah Thembi Kgatlana e dois irmãos continuam morando na África do Sul, enquanto ela seguiu seus sonhos e trocou o diploma de Turismo para jogar na maior liga de futebol feminino do mundo.

Aos 8 anos de idade, a sul-africana se interessou pelo futebol em uma conversa na escola. Nada diferente de outras garotas, ela foi “permitida” a jogar com os meninos. De uma forma difícil, ela jogava em um campo na beira da estrada.

Vinda de família e lugar humilde, Thembi Kgatlana conta que atualmente, consegue ajudar os pais e irmãos com o dinheiro do futebol, mas também acredita que uma das grandes dificuldades da modalidade é conseguir patrocínios.

Em 2016, ela esteve no Brasil para a disputa da “Rio-2016”, quando a África do Sul conseguiu um empate com a seleção brasileira na Arena da Amazônia, sem Marta.

Atacante do Liverpool terminou 2018 com 40 gols e 15 assistências. Hoje, a estrela da seleção da África do Sul defende o “Houston Dash” na liga norte-americana de futebol.

O fato da jogadora atuar na maior liga de futebol do mundo não a faz esquecer suas origens. Toda vez que vai visitar os pais em sua terra natal, faz questão de jogar futebol no campo onde começou, mesmo que não seja o lugar ideal. E toda vez que chega, ela leva uma bola extra para deixar com seus colegas de infância.

Sua maior inspiração no futebol é Mpumi Nyandeni, meio-campista da seleção de 31 anos. Alguém que ela sempre via jogar, hoje é, além de companheira de equipe, uma grande amiga.

Dividindo-se entre a seleção sul-africana e o time americano, ela realmente acredita poder contribuir com as “Banyanas” com experiências trazidas dos Estados Unidos.

Jovem e cheia de ambições, a melhor jogadora do continente africano afirma que um dos seus maiores desejos é jogar a “UEFA Women’s Champions League” e balançar as redes na “Copa do Mundo”.  (Pesquisa: Nilo Dias)


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Patrocínios nada convencionais

Em 2012 uma violenta crise financeira assolou os clubes de futebol mais modestos da Grécia, que se viram obrigados a aceitar qualquer tipo de patrocinador em suas camisas, desde que injetassem algum dinheiro nos combalidos cofres dos clubes.

Foi o que aconteceu com o “Voukefalas”, da cidade de Larissa, que tem 200 mil habitantes, e fica distante cerca de 300 quilômetros de Atenas, que fechou patrocínio com duas casas noturnas. Mostra no seu uniforme rosa os anúncios dos bordéis “Villa Erotica”  e “Soulas House of History”.

Até o uniforme mudou, com os jogadores passando a vestir camisa e short no mesmo tom de rosa. Os bordéis exibem suas logomarcas na blusa, uma na parte da frente e outra na de trás.

O elenco do clube amador é formado por estudantes, garçons e até entregadores de pizza, entre outras profissões. No jogo de estreia do novo fardamento, torcedores compareceram em peso às arquibancadas durante uma partida e pareceram não se incomodar com a novidade. Nem mesmo as mulheres ou os mais idosos, diga-se de passagem.

Várias organizações esportivas da Grécia estão sendo muito atingidas pelos cortes orçamentários do Governo e, por isso, este não é o único patrocínio inusitado nos campeonatos amadores do país.

Há um clube apoiado por uma funerária, o “Paleopyrgo”, enquanto outros negociam com estabelecimentos como uma loja de kebab, uma fábrica de geleia e produtores de queijo.

O “Paleopyrgo estampou em sua camisa negra a publicidade da funerária “Karaiskaki”, adornada por uma cruz branca.
          
O presidente e também atleta do clube, Lefteris Vasiliou explicou que era uma questão de sobrevivência. O dono da funerária é seu amigo e por isso resolveram fazer o acordo, uma vez que a temporada passada havia sido muito ruim por causa da crise.

E não é que a ideia agradou os torcedores, que acabaram se identificando com a ideia, tanto que muitos já pensam em adotar a figura da "morte" com a sua foice como mascote.

Já o caso do “Voukefala” é um pouco mais complexo. O clube precisava de licença da Federação Grega de Futebol para saber se poderia utilizar a publicidade em partidas oficiais. No inicio foi estampada apenas em jogos amistosos.

A propaganda foi vetada pela organização da Liga durante os jogos porque viola "os ideais esportivos" e é imprópria para os torcedores menores de idade.

O time apelou da proibição, mas isso não preocupa Alevridou, 67 anos. A empresária afirmou que ajuda o “Voukefalas” porque ama futebol.

"Não é o tipo de negócio que precisa de promoção", diz, vestida em roupa branca e chapéu da mesma cor em meio a duas mulheres mais novas. "O negócio funciona mais no boca a boca", explica.

Alevridou conseguiu evitar os efeitos da crise financeira e emprega 14 mulheres em seus bordéis.

O presidente e goleiro do time, Giannis Batziolas, explicou que o patrocínio foi aceito por razões econômicas. O clube atravessava uma crise sem precedentes e não podia dar-se ao luxo de recusar qualquer ajuda.

Os prostíbulos são um negócio legalizado na Grécia, e o dirigente não entende por que precisa de autorização para divulgar a publicidade. "O bordel é um empreendimento legal, que gera dois milhões de euros por ano (R$ 5,2 milhões). Quando anunciamos o acordo, alguns jogadores perguntaram se poderiam ganhar uma 'cortesia'", lembrou Batziolas.

A dona do bordel, Soula Alevridou, de 67 anos, paga mil euros (R$ 2.600) por mês pela publicidade e afirmou que o faz apenas por gostar de futebol. O seu ramo, segundo a própria, não precisa de publicidade para fazer sucesso.(Pesquisa: Nilo Dias)



segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A história do massagista zagueiro

Essa história louca aconteceu no “Campeonato Brasileiro da Série D” de 2013, num jogo entre as equipes do Aparecidense, de Aparecida, de Goiás frente o Tupi, de Juiz de Fora (MG), para definir quem avançaria nas oitavas de final.

O primeiro jogo disputado em Aparecida de Goiânia, terminou empatado em 1 X 1. Dessa feita o segundo jogo se desenvolvia em Juiz de Fora, no dia 7 de setembro de 2013. Decorriam 44 minutos do segundo tempo e a partida estava empatada em 2 X 2, resultado que classificaria o time goiano, graças aos gols marcados fora de casa.

O jogo, que era para ser apenas mais um válido pela IV Divisão Nacional, acabou se tornando um dos mais acidentados  incidentes e curiosos da história do futebol, que rodou o mundo e foi notícia por toda a parte.

Tudo, porque Romildo Fonseca da Silva, o “Esquerdinha”, impediu por duas vezes que a equipe mineira marcasse o seu terceiro gol e vencesse o jogo, classificando para a fase seguinte da competição.

Passados cinco anos do episódio, até hoje não foi esquecido por quem estava naquela noite histórica de feriado no “Estádio Municipal Radialista Mário Helênio”, em Juiz de Fora. Não resta dúvida que, para jogadores, dirigentes e árbitros envolvidos, aquela partida foi marcante.  

Tudo começou quando o atacante Ademilson, que defendeu Botafogo e Fluminense no início dos anos 2000, recebeu um passe dentro da área e finalizou para o gol. A bola passou pelo goleiro Pedro Henrique, mas não pelo massagista “Esquerdinha”, que evitou o gol parcialmente.

No rebote, o lateral-direito Henrique chutou de novo, mas o massagista conseguiu novamente evitar o terceiro gol do alvinegro.

Depois do lance inusitado, “Esquerdinha” correu em disparada para o vestiário, começando uma grande confusão. Os jogadores do Tupi partiram para cima do árbitro, querendo a validação do gol, que daria a vaga aos juiz-foranos.

O "massagista-goleiro" teve medo de morrer. Ele estava perto da trave porque havia sido chamado para atender o zagueiro Elder, de sua equipe. Em vez de sair depois do atendimento, “Esquerdinha” aproveitou o posicionamento e interceptou o chute de Ademilson. O massagista deixou o campo correndo muito.

"Já imaginou se ele escorrega? O pessoal mataria ele. Ainda bem que o homem é bom de corrida. Ele foi maratonista e correu a São Silvestre em 1994 e 1995", contou o irmão mais velho.

No entanto, o árbitro Arilson Bispo da Anunciação informou que tinha que fazer valer a regra, reiniciando a partida com bola ao chão. Mais de 20 minutos depois, o jogo recomeçou, mas o resultado de campo não foi alterado, com a Aparecidense se classificando após o apito final.

Como já era esperado, o Tupi acionou o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) em busca da anulação da partida ou da exclusão da Aparecidense da competição. No dia 16 de setembro de 2013, a Aparecidense foi excluída da Série D.

Porém, a Procuradoria apresentou recurso para mudar o artigo em que o clube goiano foi enquadrado. Paulo Schmitt pedia uma revisão do julgamento anterior, que enquadrou o clube no artigo 205 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, o CBJD (que diz o seguinte:

"Impedir o prosseguimento de partida, prova ou equivalente que estiver disputando, por insuficiência numérica intencional de seus atletas ou por qualquer outra forma", e não no 243-A, que, segundo as normas da Fifa, se encaixaria no precedente.

Por maioria de votos, o STJD manteve a decisão de excluir o time goiano. Assim o Tupi se classificou ás quartas de final para enfrentar o Mixto (MT), contra quem se classificou e conseguiu o acesso para a Série C do “Brasileirão”.

O massagista disse que a repercussão do lance na Série D de 2013 acabou atrapalhando sua carreira no futebol. Suspenso pelo STJD por 24 jogos, “Esquerdinha” ficou um longo tempo sem poder trabalhar. Segundo ele, a “falsa impressão de moralismo” acabou colocando-o em um papel de bode expiatório.

O lance rendeu bons dividendos para “Esquerdinha”, que chegou a ganhar matéria especial na abertura do “Programa do Jô”, na TV.

Mesmo com o Aparecidense eliminado, os políticos de Aparecida de Goiânia só pensaram em filiá-lo. “Saímos na frente. Vamos lançá-lo com o slogan: esse defende a cidade”, disse o deputado Sandro Mabel (PMDB).

“Esquerdinha” concorreu a deputado federal pelo Partido Republicano da Ordem Social (Pros), mas não conseguiu se eleger. (Pesquisa: Nilo Dias)