Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A morte de Carlos Alberto Silva

Morreu hoje aos 77 anos de idade Carlos Alberto Silva, ex-técnico campeão brasileiro pelo Guarani, de Campinas em 1978, quando venceu o Palmeiras no jogo final, com um elenco que contava com craques como Zenon, Careca, Capitão, Mauro e Miranda.

E foi vice-campeão Olímpico pela Seleção Brasileira, em Seul, e campeão nos Jogos Pan-americanos de 1987 em Indianapolis, Estados Unidos. O Guarani publicou mensagem em sua rede social oficial agradecendo o treinador. “Obrigado por tudo, mestre”, escreveu.

Há cerca de um mês, o ex-treinador da seleção brasileira foi submetido a uma cirurgia no coração e vinha se recuperando bem. Ele morreu enquanto dormia em casa. Carlos Alberto Silva já tinha abandonado o futebol há alguns anos e mantinha em Minas Gerais, sua terra natal, alguns negócios pessoais, sendo dono da Ibiza Turismo.

O velório está previsto para ter início às 19 horas de hoje, e o sepultamento acontecerá amanhã, sábado, às 11 horas, no Cemitério Parque da Colina, em Belo Horizonte.

Carlos Alberto era natural de Bom Jardim de Minas (MG), onde nasceu em 14 de agosto de 1939. Formado em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais, além do Guarani dirigiu o São Paulo, Atlético Mineiro, Palmeiras, Santa Cruz (PE), Sport  (PE), Cruzeiro (MG), Corinthians, Goiás e Santos, ao longo de em carreira de mais de 20 anos.

Treinou também clubes do exterior como o La Coruña, da Espanha, Porto, de Portugal, onde ganhou dois Campeonatos Nacionais e uma Supercopa , no Japão, onde comandou o campeão japonês Yomiuri Kawasaki, em 1991 e no Santa Clara, de Portugal entre 2202 e 2004.

Já na Seleção Brasileira, Carlos Alberto Silva conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, perdendo a final para a União Soviética, na prorrogação, por 2 x 1. Além do ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianópolis, nos Estados Unidos.

No Brasil foi também bicampeão paulista pelo São Paulo, em 1980 e 1989. Conquistou ainda o Mineiro, com o Atlético Mineiro e o Pernambucano, com o Santa Cruz. Ocupou o cargo de diretor de futebol do Atlético Mineiro e se aposentou do futebol como técnico em 2005. Morava em Belo Horizonte. Seu último trabalho no futebol foi como vice-presidente no Villa Nova. 

Foi Carlos Alberto Silva quem lançou Ronaldo Fenômeno no time profissional do Cruzeiro. Em 1993, o treinador relacionou o atacante, então com 16 anos, para uma excursão do time mineiro à Portugal. Ronaldo marcou gols contra Belenenses-POR e Peñarol-URU, e assim assumiu a titularidade do time cruzeirense.

Títulos conquistados. Campeão Paulista da Série a-2, pela Catanduvense (1974). Campeão Brasileiro pelo Guarani, de Campinas (1978); Campeão Paulista pelo São Paulo (1980); Campeão Mineiro pelo Alético (1981); Campeão do Torneio de Paris pelo Atlético Mineiro (1982); Campeão Pernambucano pelo Santa Cruz (1983); Campeão da Taça Stanley Rous pela Seleção Brasileira (1987); Medalha de Ouro nos jogos Pan-Americanos pela Seleção Brasileira, nos Estados Unidos (1987); Medalha de Prata nos Jogos Olímpicos de Seul, pela Seleção Brasileira (1988); Campeão do Torneio Bicentenário de Independência da Austrália pela Seleção Brasileira (1988); Campeão Paulista pelo São Paulo (1989); Campeão Japonês Pelo Yomiuri Kawasaki (1991); Campeão Português pelo Porto (1992/1993); Campeão da Súper Taça de Portugal pelo Porto (1992) e Campeão da Copa Master da Súper Copa pelo Cruzeiro (1995).

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) lamentou a morte:

Com profundo pesar, a Confederação Brasileira de Futebol lamenta o falecimento do ex-treinador da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Silva, aos 77 anos. Profissional inspirador de gerações, Carlos Alberto fez história em seus trabalhos por dezenas de clubes brasileiros e pelo selecionado nacional, que dirigiu em 46 partidas.

Pela Seleção Brasileira, foi campeão do Pan-Americano (1987), da Taça Stanley Rous (1987), do Torneio Bicentenário de Independência da Austrália (1988) e do Torneio Pré-Olímpico de 1987, que classificou o Brasil para as Olimpíadas de Seul de 1988, onde ficou com a medalha de prata. Lançou na Seleção jogadores como Taffarel, Jorginho, Raí, entre outros, que depois formariam a base tetracampeã do Mundo.

Ganhou fama nacional ao conquistar o título brasileiro de 1978, com o Guarani de Campinas. Também foi campeão paulista, pelo São Paulo, mineiro, pelo Atlético Mineiro, e pernambucano, pelo Santa Cruz. No exterior, ganhou campeonatos nacionais em Portugal, com o Porto, e no Japão, com o Yomiuri Kawasaki.

A Diretoria da CBF e seus funcionários desejam força aos familiares, com a certeza de que Carlos Alberto Silva deixa um grande legado ao futebol brasileiro.

Marco Polo Del Nero - Presidente (Pesquisa: Nilo Dias)


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um marroquino na França

Just Fontaine foi um dos melhores jogadores franceses de todos os tempos, embora não tivesse nascido na França, sim em Marraquech, no Marrocos, que na época era colônia francesa. Fontaine veio ao mundo em 18 de agosto de 1933.

De origem humilde, seu pai dava um duro danado em uma indústria de tabacos para sustentar os sete filhos. O sonho do patriarca dos Fontaine era oferecer uma formação universitária para os filhos, apesar do talento evidente do pequeno Just para o futebol, além da prática do basquete.

Quando deixou o Liceu Lyautey, Fontaine começou sua carreira profissional jogando pelo USM Casablanca em 1950, graças ao comprometimento dos dirigentes em custear o prosseguimento de seus estudos.

O USM Casablanca, em 1952, foi campeão da Liga Marroquina e da Copa dos Campeões do Norte da África, torneio que não é mais disputado e que reunia os times campeões das colônias francesas do Marrocos, Argélia e Tunísia.

Com 1;74 de altura, “Justo”, como era chamado por seus companheiros, também anotava seus tentos de cabeça. Em razão de suas boas atuações chamou a atenção dos principais clubes da França, sendo contratado pelo Nice em 1953. Em sua primeira temporada sagrou-se campeão da Copa da França de 1954.

Acabou índio para o Stade Reims, para jogar no lugar do ídolo Raymond Kopa, que se transferiu para o Real Madrid. Em seis temporadas que vestiu a camisa do Reims, Fontaine marcou 121 gols, sendo o artilheiro da Primeira Divisão em 1958, ano em que também ajudou seu clube a ganhar a Copa da França.

Essa conquista garantiu ao Reims a chance de disputar novamente a Taça dos Campeões Europeus, atual “UEFA Champions League”, torneio do qual o clube fora vice-campeão dois anos antes, perdendo a final para o Real Madrid.

Rems e Real Madrid disputaram outra vez a grande final de 1959. Fontaine, embora tivesse sido o artilheiro da competição, com 10 gols, foi bem marcado naquele jogo e não teve boa atuação e nem fez gol, enquanto o novo time de Kopa, contando com Alfredo di Stéfano e Ferenc Puskas venceu por 2 X 0.

Na temporada 1959-60 Fontaine e Kopa voltaram a jogar juntos no Rems, repetindo o trio que fez sucesso na Copa do Mundo de 1958, com Roger Piantoni.

E o Rems foi novamente campeão francês e Fontaine artilheiro, embora estivesse afastado dos gramados desde março de 1960, quando fraturou a tíbia e o perônio da perna direita em jogo contra o Sochaux. Não conseguiria recuperar-se totalmente da lesão.

O último jogo de Fontaine como profissional ocorreu em julho de 1962, poucas semanas depois de ter-se sagrado outra vez campeão francês. Como havia se precavido e feito um polpudo seguro para suas pernas, se aposentou em ótimas condições. Além do dinheiro ganho como garoto-propaganda da Adidas. No total, ele marcou 165 gols em 200 partidas no campeonato principal da França.

Jogando pela Seleção Francesa teve números estatísticos impressionantes. Na primeira vez que vestiu a camisa francesa, em 17 de dezembro de 1953, marcou um gol de chapéu numa vitória de goleada por 8 X 0 sobre a Seleção de Luxemburgo. O jogo era válido pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1954, para a qual ele não foi convocado.

Já para as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958, tudo aconteceu ao contrário: Fontaine não foi utilizado, mas convocado para o Mundial. O atacante titular e artilheiro francês, Thadée Cisowski lesionou-se e não pode ir a Copa.

A estreia no mundial da Suécia não poderia ser melhor: uma goleada de 7 X 3 contra o Paraguai, com três gols de Piantoni. A primeira fase encerrou-se com outros três gols de Fontaine: os dois na derrota de 3 X 2 para a Iugoslávia e um na vitória por 2 X 1 sobre a Escócia, resultado que garantiu a classificação gaulesa.

Veio o mata-mata e Fontaine marcou mais dois gols na vitória por 4 X 0 sobre a Irlanda do Norte, pelas quartas-de-final. Nas semifinais, marcou uma vez, frente o Brasil. Depois, na decisão do terceiro lugar, contra a Alemanha Ocidental, Fontaine fez quatro gols, somando um total de 13, superando o artilheiro do mundial anterior, o húngaro Sándor Kocsis, que fez 11.

Fontaine foi o jogador que mais gols marcou em uma única Copa até hoje. Somadas mais de uma Copa, o alemão Miroslav Klose é o maior artilheiro, com 16 gols: cinco em 2002, cinco em 2006, quatro em 2010 e dois em 2014.

As lesões tiraram Fontaine da Seleção. O seu último jogo pela França foi em 1960, nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1962, contra a Bulgária. As lesões lhe impediram de jogar as demais partidas e a França acabou perdendo a vaga justamente para os búlgaros.

Ao todo, marcou pela Seleção 30 gols em 21 partidas. Fontaine superou notáveis jogadores como Michel Platini e Zinédine Zidane em 2004, quando foi eleito o melhor jogador francês dos 50 anos da UEFA, nos prêmios do jubileu da entidade.

Curiosamente, assim como eles e como seus contemporâneos Roger Piantoni e Raymond Kopa, Fontaine tem sangue estrangeiro: é filho de mãe espanhola com um francês.

Depois de deixar os gramados Fontaine foi presidente do sindicato dos jogadores da França, lutando para garantir contratos maiores para a classe.

Pelé e Fontaine tiveram um desentendimento em 1960, quando de uma excursão do Santos pela Europa, já após Fontaine ter sofrido a fratura que interrompeu sua carreira.

Ele entregou um lápis a Pelé, pedindo que assinasse na perna engessada. Pelé não entendeu o pedido em francês. Fontaine irritou-se e perguntou se o idioma de Pelé era "africano" ou "macaquês". Indignado, Pelé atirou o lápis no francês, seguido de um palavrão - em bom português.

Fontaine chegou a ser técnico da Seleção da França em 1967, mas durou pouco tempo, apenas dois jogos amistosos que terminaram em derrota. Entre 1979 e 1981, treinou o selecionado do Marrocos, tendo chegado perto de classifica-lo para a Copa do Mundo de 1982. O time  chegou à última etapa, quando disputou vaga em duas partidas contra Camarões, que venceu ambas.

Em sua carreira ganhou prestigio como artilheiro. Na Copa do Mundo FIFA, em 1958, fez 13 gols. Na Primeira Divisão Francesa, na temporada 1957-58 marcou 34 vezes. E na temporada 1959-60, balançou as redes em 28 oportunidades. Na Taça dos Campeões Europeus, em 1958-59, estufou as redes em 10 vezes. Foi homenageado pela FFF em 2005, como o maior futebolista francês dos últimos 50 anos.

A enorme capacidade goleadora de Fontaine completava-se com sua velocidade para se infiltrar na área, seu chute forte e o bom cabeceio, qualidades que ajudou o jogador a marcar 27 gols em suas escassas 20 aparições em partidas internacionais. (Pesquisa: Nilo Dias)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Um grande nome do futebol caxiense

Em Caxias do Sul o nome de Osvaldo Valentim Palmiro Artico,é até hoje lembrado com respeito e até veneração. Ele esteve presente em momentos importantes da cidade, especialmente no futebol. Foi um dos fundadores do Sport Club Ideal, o primeiro time de futebol que se tem notícia em Caxias do Sul.

O Sport Clube Ideal foi fundado em 3 de outubro de 1910, por jovens amadores que praticavam o futebol de forma precária, sem um campo fixo e sem equipamentos, jogando com bolas de pano, laranjas ou bexigas de animais. Até mesmo seu uniforme era improvisado.

A situação era tão difícil que até mesmo os calções eram feitos de sacos de linhagem, que eram furados no fundo para os jogadores passarem as pernas. E depois eram amarrados com um pedaço de corda na barriga, como se usa nos pijamas.

O surgimento do Ideal deu-se em uma cidade conservadora onde até então os principais esportes eram o jogo de cartas, o jogo da mora e o jogo da bocha.

Osvaldo tinha o apelido de “Mirim”, para diferenciá-lo de seu avô, que tinha o mesmo nome. O apelido ele carregou por toda a vida. No Ideal destacou-se como um líder, tendo se envolvido em incontáveis brigas durante os jogos, coisa comum entre a meninada da época.

Nessas ocasiões costumava usar um cinturão de onde pendia pesada fivela de metal. Fora isso, era bem quisto por companheiros e adversários.

Com o tempo o Ideal foi crescendo, desenvolvendo outras atividades além do futebol, como "matinés dançantes" que atraíam os jovens de todos os cantos da cidade;

Nessas ocasiões a disciplina era bastante rígida, quase uma postura militar. Era proibido que os moços tocassem nas moças. A religião e a moral católica eram princípios fundamentais.

Mas nem por isso os escândalos não eram totalmente evitados. Uma coisa que nos dias de hoje nem chamaria atenção, era tratada como um desrespeito naqueles distantes anos. A presença de jogadores do Ideal com as pernas descobertas.

Também esteve presente na fundação do Esporte Clube Juventude, em 29 de junho de 1913, onde se destacou como atleta, capitão, diretor de departamentos e presidente. Ainda ajudou a fundar o Recreio da Juventude, um dos mais tradicionais clubes sociais de Caxias. Em 1938 foi secretário do Recreio Guarany.
Osvaldo foi jogador titular do Juventude desde a primeira partida, atuando como centromédio. O clube era formado basicamente por adultos, e para criar um quadro de juniores Osvaldo propôs ao Ideal se fundir ao Juventude.

Mas a ideia não foi bem aceita, ao contrário, provocando uma cisão. Metade gostou, mas a outra metade, não, preferindo aderir ao Clube Juvenil, fundando o seu Departamento de Futebol.

Com a fusão, Osvaldo foi designado capitão-instrutor dos Juniores. Em 1915, atuou como diretor de Campo do Juventude. Em 1917 foi presidente, e jogador ao mesmo tempo, sendo o capitão em 1917 e 1918.

O historiador do Juventude, Michielin, descreveu Osvaldo como um dos "imortais" do clube. E lembrou de um jogo contra o Cruzeiro, disputado em 1918, em, que classificou a atuação de Osvaldo como "fantástica".

Ainda recordou de uma partida frente o 14 de Julho, de Santana do Livramento, em 1919: "Osvaldo Artico, depois de sete temporadas seguidas, está no auge de sua classe, jogando com uma gana incrível. Sua raça é indomável, não há “leão” que o assuste.

Toma conta do campo e marca o terceiro e quarto tentos. No placar, Juventude 4 X 1. É uma loucura". A referência ao “leão” é uma alusão ao 14 de Julho, chamado “Leão da Fronteira”, que se encontrava invicto até enfrentar o time caxiense. A partir dessa vitória histórica, o Juventude passou a ser chamado pela imprensa da capital de “Tigre da Serra".

Osvaldo Artico ainda ocupou várias outras funções no Juventude, deixando uma importante marca na história do clube. Em 1924 esteve no Conselho Fiscal; em 1931 ocupou a Presidência pela segunda vez; em 1933 e 1934 integrou o Conselho Técnico; em 1935 e 1936 foi capitão-geral; e em 1938 foi diretor técnico.

Sua atuação no futebol não se limitou ao Ideal e ao Juventude. Em 1934 foi um dos fundadores e primeiro presidente da Liga Interna Caxiense de Foot-Ball, depois renomeada Liga Esportiva Caxiense.

Fora do futebol foi comerciante e político. Teve elogiada atuação como sub-prefeito do distrito de São Marcos, em 1939 e 1940, onde também foi um dos fundadores da Associação Rural, um dos fundadores e dirigente do Tiro de Guerra 248, com a patente de capitão, um dos fundadores e primeiro vice-presidente da seção local da Liga de Defesa Nacional, um dos fundadores do Diretório Municipal de Geografia de Caxias e do Grêmio Americano, de quem foi o primeiro presidente honorário.

Foi reconduzido ao cargo em 1941 e 1942. Depois transferiu-se para o distrito de Ana Rech, onde foi sub-prefeito em 1948. Em 1976 a Prefeitura de Caxias honrou sua memória batizando uma rua com seu nome.

Osvaldo Artico descendia de uma antiga família da nobreza italiana, que habitava a região compreendida entre o Friuli e o Vêneto. Depois, um ramo familiar mudou-se para Ceneda. E foi lá, em 1845, que nasceu o avô de Osvaldo, também de nome Osvaldo.

Ele casou com Magdalena de Nadai, foi militar e oficial de Giuseppe Garibaldi, lutando no “Risorgimento” italiano. Em 1879 decidiu emigrar para o Brasil, indo para Caxias do Sul, não se sabe por quais razões.

Em terras gaúchas, participou dos trabalhos de fundação de Caxias do Sul. Trabalhou como professor, ferreiro e foi dono de uma bodega, além de membro da Comissão de Obras da primeira Igreja Matriz e um dos fundadores da Sociedade Príncipe de Nápoles.

Foi por iniciativa dele que a cidade ganhou a primeira fábrica de fogões a lenha. Depois tornou-se industrial do vinho. Faleceuo em 1909 em confortável situação financeira e prestigiado socialmente. Seu sepultamento foi um dos mais concorridos da época. Deixou seis filhos: Antônio, Augusto, José, João, Celestina e Maria.

Os negócios do avô Osvaldo tiveram continuidade, com Augusto tomando conta da ferraria. Antônio, casado com Teresa Segalla, e pai de Osvaldo (“Mirim”) assumiu a direção da cantina e a ampliou significativamente, exportando 10 mil barris de vinho por ano e tendo seu produto premiado.

Antônio esteve ainda ligado a política, sendo dirigente do Partido Republicano Rio-Grandense, e membro da Diretoria da Associação dos Comerciantes. Em 1921 o negócio da cantina faliu, e Antônio abriu um pequeno hotel com restaurante, onde organizava banquetes de encomenda.

Morreu no dia 6 de março de 1936. Com Teresa teve o filho Osvaldo e as filhas Ilda, falecida na infância, Irma, Norma, Graciema e Rina.

Osvaldo foi casado com Erci Sturtz. Seus filhos Ervaldo e Juarez também permaneceram ligados ao Juventude. Ervaldo foi jogador, conhecido pelo apelido de “Nenê”. Juarez também jogou e depois passou por funções administrativas, chegando a ser diretor administrativo, diretor dos juniores, vice-presidente de futebol e presidente do Conselho Deliberativo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Osvaldo Artico. (Foto: "Wikipedia)

Osvaldo fez parte da primeira equipe da história do Juventude. (Foto: "Wikipedia)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O mais famoso time de negros

A exemplo do Rio Grande do Sul que teve algumas equipes de futebol formadas só por jogadores negro e três ligas, a.... de Porto Alegre, a Rio Branco, de Pelotas e a...de Rio Grande, em São Paulo tivemos a Associação Athletica São Geraldo, chamada popularmente de o “clube dos homens de cor”.

A entidade foi fundada no dia 1º de novembro de 1917, por Silvério Pereira, Rufino dos Santos, Felisbino Barbosa, Horácio da Cunha, Benedito Costa e Benedito Prestes. A finalidade era promover a prática tanto do futebol quanto do atletismo. Não obstante, ao longo do tempo, seus investimentos maiores concentraram-se no esporte bretão.

As cores do clube eram o preto e o branco. Teve sua sede social primeiro na Barra Funda e posteriormente nos Perdizes. Sua criação deveu-se as dificuldades que os atletas negros e mulatos tinham para serem aceitos em uma das grandes agremiações do futebol paulista, como Athlético Paulistano, Associação Athlética das Palmeiras e Sport Club Corinthians Paulista.

Nos primórdios do futebol brasileiro era crença de que os jogadores negros eram inferiores tecnicamente aos brancos. Os raros que eram aceitos nos times, não tinham direito a participação nas atividades sociais, como festas e bailes.

A ideia de criação do São Geraldo não era apenas de um caráter recreativo. Muito mais que isso. Buscava, também, inserir a população negra paulistana na rede de associativismo que, a partir do início do século XX, floresceu por lá. As associações se multiplicavam na tentativa de proporcionar atividades recreativas, culturais, políticas e sociais dos negros.

Mesmo com todas voltadas para o enquadramento dos negros num ambiente social, os tipos de eventos e as atividades proporcionadas eram diferentes em vários aspectos, o que se poderia constatar nos próprios nomes dessas entidades. Algumas eram dançantes, outras recreativas. Havia às dramático recreativas ou dramático recreativas e literárias, dramáticos recreativas literárias e beneficentes, as beneficentes e humanitárias, recreativas e esportivas ou apenas esportivas.

Mesmo com atividades diferentes, elas contribuíam a sua maneira para o desenvolvimento de uma identidade específica de negros, já que não eram aceitos nas organizações de brancos.

O São Geraldo foi fundado na Barra Funda, bairro que acolhia uma grande população negra, formada, na maioria, por pessoas vindas de pequenas cidades do interior do Estado, em busca de melhores condições de vida.

O bairro da Barra Funda era o local preferido dessas pessoas, pois lá se encontrava a estação ferroviária e grandes  armazéns para estocar especialmente o café. A mão de obra era constituída, na maioria por negros, responsáveis pelos serviços mais pesados. Alguns se deslocavam até o porto de Santos, sempre que escasseava o trabalho em São Paulo. Já as mulheres prestavam serviços como domésticas nas casas das famílias ricas da cidade.

Nas horas de folga a população negra promovia batuques, rodas de samba, pernadas, umbigada e tiririca (espécie de capoeira), em volta dos botequins que existiam na Alameda Glette e no Largo da Banana. Nos períodos carnavalescos participavam dos grupos “Barra Funda”, “Campos Elísios” e “Flor da Mocidade”, que se constituíram nos primeiros cordões carnavalescos de São Paulo.

A Barra Funda propiciava condições para a prática de esportes, principalmente o futebol, visto que nas primeiras décadas do século XX, existiam vários terrenos baldios na parte alta do bairro, próximo ao Bom Retiro.

E foi num desses terrenos vazios que o São Geraldo teve seu primeiro campo, que ficava ao final Rua Tupi. O clube foi criado pelos negros da Alameda Glette, próximo à linha férrea. O grupo não tinha profissionais especializados, eram todos trabalhadores como carregadores e ensacadores. Eram conhecidos e respeitados como “valentes da Barra Funda”, devido a força física.  informações fragmentadas disponíveis não permitem tecer detalhes acerca da origem do São Geraldo.

Mesmo sem intelectuais no grupo, o São Geraldo conseguiu se organizar e oficializou em cartório o seu Estatuto, estabelecendo uma estrutura de funcionamento alicerçada em várias instâncias, tais como diretoria, corpo de associados e programa de atividades. Sua sede foi instalada na Rua Barra Funda, mais tarde transferida para a Rua Florêncio de Abreu.

Não demorou para o time se filiar à Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), entidade que era a responsável de organizar o futebol no Estado, para disputar o campeonato da chamada “Divisão Municipal”, que reunia as equipes varzeanas da cidade.

Dono de uma equipe homogênea, constituída de bons jogadores, o São Geraldo logo ganhou destaque no futebol de várzea. Entre os destaques que vestiram a camisa preta e branca naqueles anos, estavam Zelão, Tita, Africano, Filipão, Olavo, Caçaróia, Pé, Buiú, Alfredo, Goiabada, Bizerrão, Caetano, Vaca Braba e Bode e Hilário que protagonizaram grandes espetáculos na chamada “Zona Pacaembu”.

Também tiveram passagem pelo “alvinegro” da Barra Funda,  Carlos Campos, o “famoso beque” Sarará, o atacante Ditinho – considerado um dos craques do time – e o “meia esquerda” Paulo, que foi uma figura brilhante, conforme escritos em jornais da época.

Quem pensa que praticar futebol naqueles distantes anos era tarefa fácil e barata, está enganado. Boa parte do material utilizado para o futebol era importado, tais como bola, meias, calções, luvas, joelheiras e tornozeleiras. Não se sabe exatamente a maneira pela qual o São Geraldo conseguia arcar com as despesas da equipe. Provavelmente a receita vinha das mensalidades dos sócios.

Também existiam outras fontes de renda: donativos e realizações de festas e bailes. A”Revista da Mocidade Negra”, noticiou em sua edição de 22 de julho de 1928, que  “Revestiu-se de grande brilhantismo o festival dançante que A.A. São Geraldo fez realizar no último sábado no salão Modelo à Rua da Consolação, 27, dedicado aos seus associados e suas famílias”.

Dionísio Barbosa, fundador e principal dirigente do “Cordão Carnavalesco Camisa Verde”, disse anos depois que emprestava o salão da agremiação ao São Geraldo, para a realização de suas festas, que eram realizadas para o clube angariar recursos para a compra de equipamentos esportivos. Não cobrava nada, ap0enas contava com os jogadores do São Geraldo fazendo a seguranças nas festas do “Camisa Verde”.

O São Geraldo tem uma bonita história. Sua principal conquista foi a “Copa do Centenário da Independência do Brasil”, nome dado ao campeonato paulista de 1922, que fez parte das comemorações dos 100 anos da emancipação política do país. A competição foi disputadíssima. O São Geraldo, com um time formado só por negros decidiu o título frente o Flor do Belém, uma equipe de brancos

A grande final foi realizada no Estádio da Floresta, num domingo de Páscoa. No primeiro tempo o São Gerado não esteve bem e saiu perdendo por 2 X 0. A torcida do Flor do Belém já gritava “é campeão”, “é campeão”.  Veio o segundo tempo e com ele a reação incrível do São Geraldo, que virou o jogo para 3 X 2 a seu favor. Os jogadores campeões deixaram o gramado, carregados por seus torcedores.

Depois dessa conquista o alvinegro da Barra Funda tornou-se o principal time de negros de São Paulo, embora de longa data já fizesse por merecer isso. Os jornais diziam que a “Associação Atlética São Geraldo era uma agremiação de homens pretos que, no esporte, tem sabido não só na capital, como em todo o Estado, honrar sobremaneira o nome do negro brasileiro”.

Cerca de um ano depois, os jornais, especialmente da imprensa negra, voltavam a se reportar ao São Geraldo, dizendo que se tratava de um clube que merecia um capítulo à parte. “Deus, parece, que escolheu a camisa alvinegra, para dar-lhes essa honrosa designação, evidenciando, deste modo, o quanto a nós, pretos, o Brasil deve a sua Independência”, publicou o “Progresso”, em 28 de julho de 1929.

O São Geraldo, além de participar das competições organizadas pela APEA, não dispensava jogos amistosos contra os clubes de negros. Bastava a existência no bairro de um time de futebol, para que a interação entre eles se desenvolvesse naturalmente.

O maior rival do São Geraldo era o Grêmio Barra Funda, do mesmo bairro. Eles realizaram jogos memoráveis. Em abril de 1926, o “Grêmio Recreativo Nem que Chova” promoveu um “festival esportivo”, com a presença de 10 times de futebol do meio negro, no campo do Paulista de Aniagens, situado na Rua Glicério. Como premiação, previa-se distribuir “duas ricas taças”.

O “festival” aconteceu no dia 9 de maio de 1926, e contou com a participação do São Geraldo. Já em 1932, a agremiação alvinegra disputou e ganhou a “Taça Clarim d’Alvorada”, enfrentando equipes esportivas da raça negra, que militavam na capital. Os amistosos do São Geraldo também aconteciam frente clubes do interior paulista. Em 11 de agosto de 1929, sua equipe viajou até a cidade de Campinas, onde enfrentou a Ponte Preta.

Mesmo amistoso, o jogo chamou muito a atenção. Um grande público compareceu ao estádio. A partida foi movimentada e terminou com a vitória da Ponte Preta, por 4 X 2. O São Geraldo teve um gol legítimo anulado, e um pênalti que foi desperdiçado.

O São Geraldo também jogou contra equipes de outros estados, principalmente do Rio de Janeiro, em torneios e jogos amistosos.  Em 1925, ocorreu uma crise na organização do futebol paulista, levou o Clube Atlético Paulistano a abandonar a APEA e criar a Liga de Amadores de Futebol (LAF), no que foi de imediato acompanhado pela Associação Atlética das Palmeiras e pelo Sport Club Germânia.

Com isso foi criado um impasse. As duas entidades diziam ser a representaste oficial do futebol do Estado de São Paulo. O São Geraldo aderiu à nova associação, disputando o campeonato da divisão “intermediária”. Nessa época, não havia lei de acesso. Os nove times considerados grandes, Club Atlético Paulistano, Sport Club Germânia, Sport Club Corinthians, Associação Atlética das Palmeiras, Britânia Atlético Clube, Clube Atlético Santista, Antártica Futebol Clube, Clube Atlético Independência e Paulista Futebol Clube, que compunham a divisão mais importante da LAF, jogavam entre si e não corriam o risco de rebaixamento.

O São Geraldo participava de uma divisão composta por clubes menores, muitos vindos do futebol de várzea. Mesmo se destacando mais que os rivais, não havia a perspectiva de ascender à divisão principal.

Em 1928 o time não foi bem no campeonato. Mas em 1929 foi campeão invicto. E nenhum de seus jogadores, no tocante a disciplina, foi sequer advertido. E para completar, o time só levou um gol em toda a competição. Aquela foi a última vez que o “alvinegro” da Barra Funda disputou o campeonato da LAF, a entidade que, desde a sua criação, mostrava-se favorável à permanência do amadorismo.

Tudo levava a crer que a LAF iria substituir a APEA como legítima representante do futebol de São Paulo, mas não foi isso que aconteceu. A entidade dissidente não conseguiu se consolidar no meio futebolístico. E os times foram um a um regressando à APEA, caso do Sport Club Corinthians, que ajudou a erguê-la em 1925 e tomou parte num único campeonato por ela patrocinado. Em 1927 voltou a APEA.

A LAF organizou somente três campeonatos paulistas. Dizem que seu insucesso se deveu em grande parte a insistência em manter o futebol amador. Era uma época em que os clubes cada vez mais se profissionalizavam e os atletas exigiam pagamento, pois não podiam viver só do futebol. Precisavam ter também outra ocupação para garantir o sustento da família.

A APEA, da boca para fora defendia o amadorismo, mas na prática fazia vistas grossas para a realidade que mostrava clubes e jogadores experimentando o profissionalismo. Os jogadores não queriam defender times da LAF, uma vez que só ganhavam o material de jogo (calção, camisa, meias, toucas e chuteira) para entrar em campo, ao passo que os times da APEA pagavam um salário paralelo ao trabalho de cada um fora do futebol.

O São Geraldo acabou por entrar na realidade e voltou a se filiar à APEA, participando de suas competições.  Mas pouco a pouco entrou em crise, enfrentou tensões internas e se desarticulou coletivamente. Sem resultados expressivos dentro de campo, restava viver de um discurso saudosista. Não se sabe ao certo quando o clube enrolou a bandeira, mas tudo indica que foi na primeira metade da década de 1940.

E ninguém sabe ao certo porque razões levaram ao fechamento. Desconfia-se que o desmonte do clube também teve relações ao novo contexto social e cultural. Como o futebol se tornou um esporte de massa, e a sua definitiva profissionalização implicou em um aumento na competitividade entre os grandes clubes, as associações de linhas de cor e de classe social perderam terreno.

Aliado a isso, os principais clubes de futebol aos poucos reformaram seus estatutos, retirado cláusulas que proibiam a entrada de homens de cor. O órgão oficial de comunicação da “Frente Negra Brasileira”, publicou que o jogador símbolo do ingresso do negro nos altos cenários do futebol foi Mateus Marcondes, atleta do Clube Espéria.

Teria sido ele a última “figura a aparecer vitoriosamente em nossos esportes, vencendo e convencendo os paredros do futebol bandeirante.”

Na década de 1930 praticamente todos os grandes clubes paulistas passaram a contratar jogadores negros. Mas não era permitido que tomassem parte em setores do clube destinados somente aos associados brancos.

Foi na época que grandes jogadores negros migraram para os grandes clubes. Bianco, o famoso “gorrinho encarnado” do Sul-América, transferiu-se para a Associação Atlética das Palmeiras. Talvez o caso mais emblemático tenha sido Petronilho de Brito, um típico jogador da várzea paulistana que, na concepção de Thomaz Mazzoni, trouxe pioneiramente para o “futebol dos grandes clubes o verdadeiro futebol da raça negra”.

Time de negro não passava para a primeira divisão do campeonato. Mas ao enfrentarem amistosamente tudo quanto era time de São Paulo, os de cor ganhavam sempre. Por isso ninguém queria jogar contra o São Geraldo.

Quem primeiro descobriu ali uma fonte de ótimos jogadores foi o Corínthians, que devagar foi passando a mão nos negros. Tirava um, depois outro até que destruiu o São Geraldo, contam os saudosistas. Pena que não tenham deixado o São Geraldo jogar a Primeira Divisão. Era um time de primeira categoria.

Em 1948, ao recordar os “maiores feitos do futebol brasileiro”, a folha “Mundo Esportivo“ mencionou o título do São Geraldo de campeão do Centenário da “Divisão Municipal”. A esse respeito, O “Clarim d’Alvorada” já tinha sido bem incisivo em sua edição de 26 de julho de 1931: “o São Geraldo é um clube que honra a coletividade negra no futebol paulista”. (Pesquisa: Nilo Dias)


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O eterno "luto" do Colo-Colo do Chile

O Club Social y Deportivo Colo-Colo, da cidade de Santiago, é o time de futebol mais popular do Chile. Foi fundado em 19 de Abril de 1925, por um grupo de ex-jogadores do Club Social y Deportivo Magallanes, liderados por David Arellano. Desde 2005, é administrado pela sociedade anônima Blanco y Negro S.A. sob um sistema de concessão.

Em 1925, Arellano e um grupo de jogadores tiveram um desentendimento com a diretoria do Magallanes. Esse grupo deixou a equipe albiceleste, e decidiu criar um novo clube. Essa decisão mudou a história do futebol chileno, afinal, nascia ali o Colo-Colo, hoje a equipe mais popular do país.

Na recém formada agremiação, Arellano seguiu marcando gols e ajudou na conquista de dois títulos: a “Segunda Divisão da Liga Metropolitana de Deportes” e a “Copa dos Campeões de Santiago.”

O Colo-Colo tem como cores o preto e o branco as quais utiliza em seu uniforme desde a fundação. O nome é uma homenagem ao cacique “Colo-Colo”, herói indígena da tribo “Mapuche” na luta contra os espanhóis durante o século XVI e que era conhecido por sua grande inteligência. Por isso, alguns chamam o time de “El Cacique”.

Uma curiosidade acompanha o Colo-Colo, está em luto eterno pela morte trágica de seu fundador, David Alfonso Arellano Moraga que foi também o seu primeiro capitão. E tem seu nome cantado na letra do hino do clube.

“Es Colo Colo como el gran araucano
que va a la lucha jamás sin descansar
porque el recuerdo de David Arellano
siempre lo guía por la senda triunfa”

A cada vez que o Colo-Colo entra em campo, está acompanhado de David Arellano, que aparece na forma de uma enlutada faixa retangular pouco acima do escudo que leva o cacique “mapuche”.

Fora do Chile, Arellano é lembrado apenas por ser um dos precursores da "bicicleta", ou da "chilena", como é conhecida a jogada acrobática na maior parte dos países de língua espanhola. Foi ele quem levou a jogada ao futebol chileno, depois de vê-la na Europa

Em 1927, o Colo-Colo decidiu dar um passo importante em sua história, fazendo sua primeira grande excursão internacional, partindo inicialmente pelas Américas e posteriormente pela Europa, entre janeiro e julho daquele ano, sendo o primeiro clube chileno a jogar em solo europeu.

Na primeira escala no Equador, foram duas partidas, duas goleadas por 7 X 0, e cinco gols de Arellano. Em Cuba, uma vitória e uma derrota. No México, onde a equipe ficou por dois meses, foram disputados 12 jogos, com 10 vitórias chilenas, um empate e uma derrota.

No início de abril, realizaram três jogos em La Coruña, na Espanha. Depois, uma rápida passagem por Portugal, com duas derrotas e uma vitória sobre um combinado de jogadores de Sporting e Benfica. Na volta à Espanha, em 24 de abril, o Colo-Colo perdeu para o Atlético de Madrid por 3 X 1. No dia 1º de maio, Arellano abriu a goleada de 6 X 2 em cima do Real Unión Deportiva (futuro Real Valadollid). O que ninguém poderia imaginar, é que nesse marcaria seu último gol.

No dia seguinte, Colo-Colo e Real Unión se enfrentariam novamente e empataram por 3 X 3. Em um lance banal, durante uma disputa de bola aérea, Arellano, então com 24 anos, acabou vendo o zagueiro David Hornia, cair com o joelho sobre seu estômago. Mais tarde, foi constatada uma inflamação traumática no peritônio, uma membrana que reveste parte do abdômen, e que acabou causando sua morte na tarde do dia 3 de maio.

Algo que, provavelmente, pudesse ser facilmente revertido nos dias de hoje. Inicialmente, o corpo de Arellano foi velado e enterrado em solo espanhol. No Chile, chorava também uma jovem garota, de nome Berta, que havia tido um filho com Arellano, chamado Omar Alfonso. Em 1929, seus restos mortais foram trazidos ao Chile e deixados no “Mausoléu dos Velhos Craques do Colo-Colo”, no “Cemitério Geral de Santiago”.

Com jogos já marcados, o Colo-Colo ficou na Espanha até o dia 14 de junho. Em julho, ainda fez outras três partidas no Uruguai e uma na Argentina antes de regressar ao Chile. Dali em diante, o clube decidiu carregar eternamente no peito a lembrança de Arellano, que viveu e, literalmente, morreu pelo clube que ajudou a criar.

David Alfonso Arellano Moraga nasceu em 29 de julho de 1902, em Santiago. Desde os tempos escolares foi destaque nos jogos de futebol. Aos 17 anos já estava na equipe do Magallanes. Em 1919, estreou na “Primera División”, competição organizada pela “Asociación de Fútbol de Santiago”.

Um ano depois já era o principal artilheiro do time, que ganhou os títulos da “Copa Félix Alegría”, da “Copa Alberto Downe”, da “Copa 12 de Octubre” e da “Copa República de la Asociación de Santiago.”

Em 1921, já atuando como ponta-esquerda, voltou a ser campeão da “Copa República”. Em 1924, foi convocado para defender a “Seleção Chilena” no “Campeonato Sul-Americano” disputado no Uruguai em que o Chile perdeu as três partidas que realizou, contra o time anfitrião, Argentina e Paraguai.

Ganhou prestígio como capitão, e diretor-técnico, tendo disputado élo “scratch” nacional o Sul-Americano de 1926, sediado no Chile. Esse foi o grande momento do atacante, que se sagrou artilheiro do certame, marcando sete gols.

Corria o ano de 1991, e o Chile havia acabado de sair de um governo ditatorial que durou 17 anos. Os resquícios de violência do período talvez tenham sido refletidos na semifinal da “Copa Libertadores”, no duelo entre Colo-Colo e Boca Juniors, onde foi deflagrada uma batalha campal, em que a equipe “mapuche” saiu vitoriosa.

A conquista do mais importante título da história do Colo-Colo teve contornos folclóricos. Na semifinal da edição de 1991 do torneio continental, depois de perder para o Boca Juniors por 1 X 0 na Argentina, o time chileno ganhou por 3 X 1 o jogo de volta, que foi marcado por uma verdadeira batalha campal no “Estádio David Arellano.”

O jogo aconteceu no dia 22 de maio de 1991. O árbitro foi o brasileiro Renato Marsiglia. O Colo-Colo precisava fazer uma diferença de dois gols para ir à final.

O jogo foi difícil. O Colo-Colo só abriu o placar aos 20 minutos do segundo tempo, através de Rubèn Martinez. Dois minutos depois Barticciotto fez 2 X 0. Os argentinos reagiram e LaTorre diminuiu,

O placar agregado de 2 X 2 indicava uma decisão por pênaltis. Mas aos 37 minutos, Patrício ''Pato'' Yañez surgiu na frente do goleiro Navarro Montoya e, com um toque de esquerda, fez o terceiro do Colo-Colo. Foi aí que começou a confusão.

Os argentinos reclamaram impedimento. Houve empurrões e pontapés. Até os repórteres de campo foram envolvidos na briga. Os soldados do “Corpo de Carabineros” entraram no gramado para colocar ordem na bagunça.

O cabo Veloso soltou o comando da correia que segurava o pastor alemão “Ron”. E o cão fez aquilo para o qual foi treinado. Avançou e mordeu a nádega esquerda de Montoya. A confusão parou. E a torcida do Colo-Colo aplaudiu a ação do cachorro.

O comandante da “Escola de Adestramento Canino de Santiago”, Guillermo Benitez deu entrevistas dizendo que “Ron” era um animal amistoso e brincalhão e que não havia motivo de orgulho na mordida no goleiro do Boca.

O cão ganhou tratamento de herói nos jornais do dia seguinte e mesmo nas edições noturnas. “Ron”, permaneceu a serviço da polícia. Ele morreu seis anos depois e está enterrado no cemitério canino da entidade, ao pé do monte San Cristóbal, com direito a lápide e tudo mais. O lugar foi convertido em ponto de peregrinação pelos torcedores do Colo-Colo.

Apesar da confusão da semifinal diante do Boca Juniors, o jogo decisivo contra o Olímpia foi mantido no estádio David Arellano. O policiamento redobrado, no entanto, não impediu que um garoto invadisse o gramado para entrar na história do Colo-Colo de maneira inusitada.

Com uma espécie de carrinho preciso, o menino deslizou pelo gramado e, instantes antes da foto oficial, se posicionou diante dos 11 jogadores que 90 minutos depois conquistariam pela única vez a “Copa Libertadores da América”, para o futebol chileno.

No dia seguinte os jornais publicavam a foto do time campeão, onde aparecia um garoto de tênis brancos, calça azul e blusa amarela, com uma bandeira amarrada ao pescoço.

Antes de se posicionar, o menino tocou o ombro de Luis Perez, que marcou dois gols na vitória por 3 X 0 contra os paraguaios. Intrigados, os torcedores passaram a considerar a misteriosa aparição do garoto, chamado de “hincha fantasma”, como motivo de sorte.

A imprensa local fez uma verdadeira caçada ao menino nos meses que se seguiram a conquista do time chileno, sem nada encontrar. Logo, a imagem passou a ser tratada como um amuleto, um fantasma que apareceu no Estádio Monumental para a eternidade.

Mas que diabos seria o garotinho? Todos queriam sabem quem ele era, mas ninguém o conhecia. Funcionários, torcedores organizados, jornalistas, e nada, a identidade do fantasma era um mistério. Anos depois um boato surgiu de que o intruso seria o atacante José Luis Villanueva, que inclusive teve discreta passagem pelo Vasco da Gama.

Villanueva, na época com cerca de 10 anos, acompanhou quase todas as partidas como "mascote" da equipe. Mas com a batalha campal da semifinal, a Conmebol exigiu que ninguém alheio ao jogo estivesse em campo. Além disso, Villanueva sequer foi ao estádio e assistiu a decisão pela TV, pois seu pai havia viajado.

Alguns anos depois, alguém na busca de notoriedade se apresentou como o “torcedor fantasma”. Um jornal de Santiago, de grande circulação, até publicou a história. Mas dias depois acabou desmentindo.

Demorou quase 20 anos, mas enfim se descobriu com certeza o paradeiro do garoto. Se descobriu que o verdadeiro “incha fantasma”, também chamado de “jogador número 12”, era Luis Mauricio Lopez Recabarren, conhecido por "Monito", por ser filho de um homem apelidado de "Mono". Luis Mauricio tinha problemas com a lei e por isso preferiu fugir do assédio da imprensa.

Ele morava nas imediações do Estádio Nacional. O pai do menino gostava de tirar fotos com jogadores famosos, entre eles “Pelé”, e o filho herdou o costume. Meses depois voltou a aparecer em um jogo da “Copa América”, entre Chile e Argentina. Se aposentou após levar uma "lição" da Polícia.

Polícia, que faria parte de sua vida como adulto. Desde pequeno, a rua era sua casa. Seu primeiro delito aconteceu com apenas seis anos, quando foi flagrado pelo pai pegando moedas de um ônibus. Mais velho, passou por vários reformatórios.

Vítima de leucemia sucumbiu à doença aos 23 anos de idade, em 30 de julho de 1999, quando se encontrava encarcerado no “Centro de Detenção Preventiva Santiago Sur.”

Em 2009, Luis Lopez, o pai de “Monito” concedeu entrevista ao jornal “El Mercurio”, sobre a meteórica vida de seu filho, e sua "partida de despedida". Disse que os jogadores possuem sua partida de despedida e seu filho a jogou no Estádio Nacional, como grande que foi.

Confirmou que a imprensa chilena entrou em contato para que ele desse entrevistas, tirasse fotos e saísse na TV, mas preferiu se esconder por medo de ser reconhecido, pois já tinha seus problemas com a lei.

Disse que na região onde moravam todos sabiam que era seu filho, porque era conhecido por se meter no campo desde pequeno. Luis Lopez fez primeiro e ele depois o imitou.

O mais curioso disso tudo é que ele não ia ao “Estádio Monumental”, sempre frequentava o “Nacional”, porque era mais perto e fácil de ir. Mas a única vez que foi ao “Monumental” entrou para a história.

O filho de Luis Lopes vivia na rua e não era muito controlado. Nunca se sabia o que ia fazer. Seus pais só se davam conta de que algo estava errado, quando chegava com uma foto ou era visto na televisão. Mas sabiam que ele queria estar entre os jogadores chilenos. Vários deles estavam também na foto com o Colo-Colo.

Foi o dia que o Chile enfrentou a Argentina, a primeira partida. Depois os policiais o pegaram e falaram a ele que o soltariam com uma condição, que nunca mais voltasse a pisar em um gramado de estádio. O filho aceitou e apesar de estar tão próximo, nunca mais quis voltar a um campo.

Depois se fez homem, teve mais problemas com a lei e morreu no cárcere. O que sobrou foram as lembranças. E Luis Lopes acredita que o mais importante é que o “Monito”, seu filho, segue vivo nessas fotos, ainda que seja como um “fantasma” para todos os outros. (Pesquisa: Nilo Dias)


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Casari: o bom gigante

Giuseppe Casari foi um famoso goleiro italiano que chegou a defender a Seleção Nacional. Era conhecido pelo seu físico imponente, o que lhe valeu o apelido de “O bom gigante”. E também pela liderança e comportamento correto ao longo da carreira, o que lhe rendeu o apelido de "Il Gigante buono" (o bom gigante).

Nasceu no dia 22 de abril de 1922 Martinengo , pequeno município de Bergamo. Deu início a sua carreira em 1938 após uma apresentação em Lecco.

Atuou profissionalmente pela primeira vez em 1944, Casari estreou pelo seu clube local Atalanta em 1945, no “Torneio de Guerra” promovido pela Federação Italiana, para manter os jogadores em forma, enquanto os conflitos mundiais continuassem. O jogo de estréia de Casari no gol da Atalante foi um empate sem gols diante do Bréscia.

Com o fim da guerra Casari pode disputar o campeonato italiano da Série A, onde teve boa participação. Ao todo disputou 251 partidas coma camisa do Atalante, no principal campeonato da Itália.

Casari é lembrado até hoje pelo pioneirismo nas saídas de gol, sempre gritando o hoje tradicional “é minha”. Suas críticas a árbitros e treinadores após os jogos, também não são esquecidas.

Três anos depois de sua estreia pela Aralante, foi chamado pelo lendário técnico Vittorio Pozzo  para as Olimpíadas de Londres de 1948. Mas o indiscutível era Valério Bacigalupo, que morreu no ano seguinte na terrível “Tragédia de Superga!.

No verão de 1950, saiu da Atalanta para assumir a camisa 1 do Napoli, que havia acabado de conquistar a Serie B. E foi convocado para a Copa do Mundo no Brasil pelo técnico Ferrucio Novo. Em terras brasileiras, viu do banco de reservas a eliminação de sua seleção ainda na fase de grupos.

A “Squadra Azzurra” vinha desfalcada pela já citada “Tragédia de Superga”, na qual foram vítimas boa parte do elenco do Torino, base da Seleção Italiana. A vitória por 2 X 0 diante do Paraguai na segunda rodada não foi o suficiente para a classificação a fase final, já que a Itália havia perdido na estréia por 3 X 2 para a Suécia.

Após o Mundial, passou três temporadas na mais tradicional equipe napolitana. Em 1953 perdeu espaço para o recém contratado Ottavio Bugatti, se transferindo na temporada
seguinte para o Calcio Padova, contribuindo com o acesso a elite italiana na temporada
1954-1955.

“Bepi”, como era chamado pelos torcedores, ainda disputou a Serie A do Campeonato Italiano em 1955-1956, quando se retirou dos gramados, com a idade de 34 anos, jogando pelo Padova. Jogou um total de 331 partidas por clubes e seis pela Seleção da Itália.

Casado com Giusy Cassera, teve três filhos e quatro netos. Além da qualidade em campo, “Bepi” também fez parte do folclore do futebol italiano. Durante uma audiência da Seleção Italiana com o então Papa Pio XII, todos os jogadores ajoelhavam-se e beijavam respeitosamente a mão do pontífice.

Ao chegar a vez de Casari, o vinicultor bergamasco de jeito simples, apertou a mão de Pio de maneira bruta para a ocasião, e exclamou em alto e bom som: “Prazer, Casari!”, garantindo as gargalhadas de seus companheiros de equipe.

Reverenciado pela torcida da Atalanta mesmo após o final de sua carreira, acompanhava como possível o time “nerazzurri”. Em 12 de novembro de 2013, aos 91 anos, em Seriate, Itália, Giuseppe Casari deixou de ser ídolo, para se tornar mais uma lenda nos livros de história do futebol mundial. (Pesquisa: Nilo Dias)

Giuseppe Casari. (Foto: Divulgação)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Querer é poder: cegos treinam futebol

Diz o ditado que em terra de cego quem tem um olho é rei. E com quem não tem nenhum, como é que fica? Duas histórias de cegos que se tornaram treinadores de clubes de futebol dão margem a que se pense nisso.

A revista “Kickoff”, da África do Sul contou a história de Dumisani Ntombela, de 28 anos, técnico do “Silver Spears”, um time amador da cidade de Vosloorus, próximo a Joanesburgo. O blog “Verminosos por futebol” nos conta a trajetória de Flávio Aurélio Silva, treinador de uma equipe amadora em Fortaleza, Ceará.

E Paul Matheson, cego há 10 anos, é treinador na “Henshaws Society for Blind People”, entidade voltada a deficientes visuais na Inglaterra.

O sul-africano teve os olhos extraídos aos dois anos, após um câncer. Diante da difícil condição de vida, o futebol se tornou uma importante válvula de escape. Principalmente a partir dos oito anos, quando Ntombela lançou sua própria equipe, em 1998.

No ano seguinte, ele virou treinador do Silver Spears. Hoje, comanda um time de adultos, o sub-19 e a equipe feminina. Acima de tudo, o técnico se tornou um líder de sua comunidade.

“Deus opera em nossos caminhos coisas que são inexplicáveis. Eu escuto o que está acontecendo em campo, e isso me ajuda a sentir o jogo”, contou o sul-africano à revista. Para quem enxerga só com os olhos, é difícil compreender.

O inglês perdeu a visão há dez anos por causa de um dano no nervo óptico. Consequência do glaucoma. É o único técnico de futebol deficiente visual certificado pela Federação Inglesa.

O futebol deprimiu Matheson. Obcecado pelo esporte e jogador amador, demorou a assimilar que não poderia mais entrar em campo e nem assistir aos jogos do seu amado Newcastle United no estádio Saint James Park, que frequenta desde que tinha cinco anos.

O próprio futebol viria a salvar Matheson. Convidado pela “Henshaws Society for Blind People”, entidade voltada a deficientes visuais na Inglaterra, começou a praticar a modalidade paraolímpica, em que a bola tem um dispositivo que emite sons para que os jogadores saibam onde ela está.

No início, ele não queria. Achava que aquilo não era futebol. Quando tentou a primeira vez, foi pior ainda. Ele ficava parado em campo, esperando a bola chegar, em vez de seguir o som.

Mas aos poucos, foi se acostumando e se reencontrando com a paixão de infância. Com a ajuda da “Newcastle United Foundation”, começou a treinar futsal para crianças em uma quadra aos pés do estádio que ainda frequenta religiosamente todas as temporadas do time profissional.

Com o tempo, passou da molecada aos adultos. E garante que o futebol lhe deu a vida de volta e agora quer retribuir. Confessa que tudo é muito mais do que apenas um jogo.

Matheson quer se especializar no esporte voltado para deficientes visuais. Também como técnico. Garante ter muitas ideias para contribuir com o desenvolvimento da modalidade.

Não possui qualquer pretensão profissional no futebol "normal" de 11 contra 11. Acho que pode retribuir para o futebol tudo o que ele lhe deu. Quer estar dentro do esporte de alguma forma, enxergando além da visão.

Já o brasileiro Flávio teve um baque que mudou sua vida aos 20 anos. Membro fundador do Juventude Esporte Clube, time amador do bairro Bom Jardim, de Fortaleza, o volante perdeu a visão no olho direito após sofrer falta violenta num jogo em 1989, em Caucaia, na Região Metropolitana.

Um ano depois da pancada no rosto, a cegueira afetou o outro olho. Seu mundo caiu, mas o futebol tratou de reerguê-lo. O Juventude, com mais de 390 anos de vida, é o time amador mais tradicional de Fortaleza, que conta com 56 ligas de bairros, dois mil times amadores, 50 mil jogadores e 200 campos.

O Juventude é filiado á 20 anos na Liga da Granja Lisboa, que reúne participantes do Grande Bom Jardim, e é o maior campeão, com cinco títulos. Flávio, hoje com 46 anos, conta que foi  fundador, jogador e agora do time do seu coração

A cegueira não foi motivo para deixar o clube. Passou a ajudar a Diretoria, tornando-se uma espécie de “faz-tudo”. Ficou encarregado de marcar jogos, preparava os uniformes e até motivava o time.
Em 2005, o até então treinador da equipe resolveu se aposentar. Foi a oportunidade que Flávio esperava para ser o técnico, mesmo com o problema da cegueira. Foi assim que começou uma história única no Brasil: um cego treinar uma equipe de futebol.

Em razão da cegueira o treinador tem na audição a principal forma de orientar a equipe. Costuma se posicionar na lateral de campo, do lado da defesa.

Ouve o movimento da bola e dos jogadores, para tomar suas decisões. E garante que não se envergonha em ouvir dicas de jogadores e torcedores. “Não tenho assistente, mas todos me ajudam”.

Não falta quem diga que ele enxerga melhor do que muito treinador que consegue ver. Casio do eletricista Deone Lopes, de 33 anos, centro-avante do time. Ele garante que a perseverança de Flávio empurra os jogadores.

Flávio, mais do que treinador, serve de inspiração para o elenco. Todos os jogadores trabalham durante a semana, e só comparecem aos jogos nos domingos, por causa do Flávio, garante o meia André Barbosa “Piaba”, 35 anos, servente de pedreiro.

O treinador nasceu no Bom Jardim, mas hoje mora no Conjunto Curió, distante 20 km. Para chegar ao campo, pega três ônibus e passa por dois terminais, em 1h30min de viagem. O presidente do Juventude, José Lisboa, cita o fato de Flávio reclamar de lances mesmo sem estar vendo nada.

Mesmo aposentado por invalidez, Flávio faz bico como vendedor de cintos de couro. Quinzena sim, quinzena não, pede licença ao Juventude para viajar o Brasil com seus produtos na mochila, em ônibus interestaduais.

Em Belo Horizonte, casualmente ele conheceu sua esposa, com quem tem duas filhas. “Foi um choque de bengalas. Ela também é cega”, conta.

O Juventude do Bom Jardim veste uniforme com escudo do Esporte Clube Juventude, time de Caxias do Sul (RS). Até mesmo o ano de fundação do clube gaúcho (1913) foi mantido, apesar de o Juventude fortalezense ter sido fundado sete décadas depois, em 1985.

A reportagem do site “Verminosos por Futebol”, sobre o treinador cego, foi responsável pela empresa “Fackel Sports”, fabricante cearense de material esportivo, doar um fardamento completo ao Juventude.

“Galeguim”, diretor do clube, garante que o Juventude nunca teve um fardamento tão bonito em toda a sua história. Foram entregues 18 camisas e calções, com design no nível de clube profissional.
A “Fackel Sports” foi fundada em 2000, em Fortaleza.

A origem do nome “Fackel” surgiu durante as olimpíadas de Sidney. A inspiração veio da tocha olímpica. A primeiro marca pensada foi “Torch” que significa tocha de fogo.

Assim nasceu a “Fackel Sports”. Na época o dono da empresa, Potyguara Junyor, era jogador profissional. A empresa” já produziu  uniformes para o Messejana, Tiradentes, São Benedito e Crateús, além do material de treino do Ferroviário.

O presidente da Federação Cearense de Futebol (FCF), Mauro Carmélio, que também é um dos coordenadores da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no Nordeste, fez uma homenagem a Flávio Aurélio Silva.

O dirigente o recebeu na sede da Federação e presenteou o clube com uniformes titular e reserva, roupas de treinador e 10 bolas oficiais. E Flávio ainda ganhou uma bola da Copa do Mundo de 2014. 


Dumisani Ntombela, é técnico do “Silver Spears”, time amador da África do Sul. (Foto: Divulgação)

Flávio Aurélio Silva, treinador do Juventude, time amador de Fortaleza (CE). (Fotos: Site "Verminosos por Futebol")

Paul Mathesoné treinador em uma entidade voltada para futebol de deficientes visuais na Inglaterra. (Foto: Divulgação)