Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O primeiro goleiro profissional do Flamengo

Fernando Botelho, o “Fernandinho”, também conhecido por "dodô", foi o primeiro goleiro a vestir a camisa do Flamengo, do Rio de Janeiro como jogador profissional e também o último como amador. Ainda é vivo e reside no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro.

Nascido em 2 de março de 1913, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, está hoje com 105 anos de idade e em plena forma física. Começou nas categorias de base. Hoje é conselheiro vitalício do rubro-negro carioca.

Desde menino, “Fernandinho” vivia dentro do Flamengo, se tornando sócio do Clube em 1922 com 9 anos de idade. Começou sua carreira futebolística jogando como centromédio, mas logo se transferiu para o gol, de onde não saiu mais.

Garante que era um bom centro-médio da época do Júlio Silva como técnico, mas batia muita bola no gol. Um dia o goleiro, Elidio Sauer, um garoto lá da época se chocou contra a trave e faturou uma costela. Ai o treinador mandou "Fernandinho" para o gol. E a partir dai nunca mais saiu da posição.

”Fernandinho” conta que a sua infância foi muito boa. Ele morava na Rua Paissandu no Flamengo e lá passou sete anos maravilhosos de 1925 a 1932. Lembra que sua mãe era flamenguista. E foi para o time do Flamengo através do intermédio de um jogador antigo, amigo dela, chamado Ademar Martins, o “Japonês”. Como o Flamengo ficava também na Rua Paissandu, era como se fosse seu quintal.

Ele defendia a meta flamenguista quando da transição do amadorismo para o profissionalismo do futebol brasileiro no ano de 1933. Fernando também foi o 1º goleiro a disputar uma partida profissional pelo Flamengo no exterior, em uma excursão com quatro jogos pela América do Sul, enfrentando duas vezes o Peñarol (URU) (3 X 2) (1 X 1), Nacional (URU) (1 X 2) e a Seleção Argentina (1 X 2).


"Fernandinho", em outro momento histórico do Flamengo, atuou no último jogo no velho Estádio da Rua Paysandu, onde o clube mandava seus jogos, terreno cedido pela família Guinle, que tomou posse novamente após este jogo. Foi contra o Sport Clube Brasil, vitória de 5 X 0 , e o goleiro do Brasil era Aymoré Moreira, que se tornaria anos depois o técnico da Seleção Brasileira.


A partir daí o Flamengo começou a mandar seus jogos no Estádio das Laranjeiras (campo do Fluminense), ou no Estádio da Rua General Severiano (campo do Botafogo), e alguns jogos em São Januário (campo do Vasco).

Em 1935, devido uma contusão no joelho, teve de interromper a brilhante carreira aos 21 anos de idade, tendo passado a trabalhar no ramo do café até se aposentar. E também se tornou um entusiasta do turfe, hobby que conserva até os dias de hoje. E faz questão de assistir a performance de seus cavalos “in loco”.


Ao parar de jogar o Flamengo lhe deu 50 contos, muito dinheiro na época. Serviu de entrada para "Fernandinho" comprar seu apartamento que custou 80 contos. Foi o primeiro prédio de oito andares em Ipanema, o "Marajoara", que tinha vista até da Avenida Niemeyer. É onde ele mora até hoje.

Depois fundou um time chamado Olímpico Clube. Reunia jogadores que tinham parado de jogar, entre eles, Preguinho e Jarbas. Fazíam excursões, inclusive no exterior. Chegaram a jogar em Santos de avião fretado da "Condor", coisa raríssima naquela época.

Fã do Arpoador, praia onde costumava pescar camarão de anzol e eleito por ele como melhor lugar do mundo, “Fernandinho” não esconde seu amor pelos cavalos e segue sem freio mesmo depois dos 100 anos. E diz gostar muito disso e até já teve o seu cavalinho da sorte.

Quando completou 100 anos foi homenageado pel Jockey Club Brasileiro, com a realização de um páreo que levou seu nome. Ele é proprietário desde 12 de fevereiro de 1981, da farda cereja e mangas pérola.

Segundo o “Almanaque do Flamengo”, de Roberto Assaf e Clóvis Martins, “Fernandinho” fez 55 jogos pelo Flamengo, entre 1930 e 1934, com 29 vitórias, 11 empates e 15 derrotas. Só tornou-se profissional em 1933. Antes disso, jogava de graça.

Além de jogar no Flamengo, “Fernandinho” também defendia o time da “Medicina e Cirúrgia”, que nos tempos do amadorismo disputava o Campeonato Acadêmico de Esportes, que era patrocinado pelo “Jornal dos Sports”.

As escolas que tinham vários jogadores dos clubes do Rio, contavam com a cooperação dos times para que seus jogadores disputassem o Campeonato Acadêmico. "Fernandinho" era estudante de Medicina.

Isso foi um marco histórico, já que se constituiu na primeira vez que oito Escolas Superiores se empenhavam na conquista de títulos em várias modalidades esportivas, e em especial o campeonato de futebol.

Chegou a sagrar-se campeão invicto por esse clube, tendo na partida final derrotado a Faculdade de Direito, do Rio de Janeiro, por 3  X  1, gols de Moacir, Almir (que defendeu o Botafogo) e Eloy (que jogou também pelo Flamengo).

Goleiro titular da equipe esteve presente na Seleção Acadêmica, que disputou um campeonato internacional. Na fase de preparação, a equipe estudantil fez alguns jogos amistosos contra o Combinado Fla-Flu, Flamengo, Vasco, São Cristóvão, Fluminense, em Minas Gerais, América, Palestra Itália (Cruzeiro), Vila Nova, em São Paulo, São Paulo (de Friedenreich), e Corínthians.

Depois foi para a Argentina e Uruguai, onde foram realizados vários jogos amistosos com times profissionais, ainda sob o patrocínio do “Jornal dos Sports”.

A estreia de “Fernandinho” na meta rubro-negra aconteceu em 20 de abril de 1930, oportunidade em que o Flamengo foi goleado pelo Syrio Libanês por 6 X 1.

No seu último jogo pelo clube da “Gávea”, também não deu sorte, tendo sofrido derrota para o rival Vasco da Gama, por 5 X 2, dia 1º de abril de 1934.

“Fernandinho” não chegou a ganhar nenhum título importante como profissional, sendo campeão apenas nas categorias de base, mas ostenta até hoje a melhor média de gols sofridos em Fla-Flus, na história do clássico, confronto em que se manteve invicto por toda sua carreira.

Seu retrospecto contra o time das Laranjeiras é irretocável. “Fernandinho” estreou no time principal na última rodada do Campeonato Carioca de 1931, quando seu time venceu o clássico por 1 X 0, dando final a uma série de resultados ruins que vinha desde setembro de 1928.

Garante que nunca perdeu para o Fluminense, que considerava o seu freguês favorito. Acha que, no mínimo, foram umas seis partidas disputadas.

O Fla-Flu era o grande jogo da época, mexia com a cidade. O Vasco entrou atrasado, mas era uma potência também, representando a colônia portuguesa. Jura que o América era quem dava mais trabalho, era chato, tinha bons times.

E faz questão de dizer que o ilustre tricolor João Coelho Netto, o “Preguinho”, autor do primeiro gol da seleção brasileira em Copa do Mundo (1930), era um de seus melhores amigos.

A rivalidade naqueles tempos era diferente. Ele chamava o “Preguinho” de Joãozinho e ele não gostava (risos). Mas garante que era uma pessoa maravilhosa. E juntos fundaram o Clube Olympico.

“Preguinho” não era só jogador de futebol, também praticava outras sete modalidades esportivas. Porém, não era o único atleta admirado e citado algumas vezes pelo ex-camisa 1 do Flamengo.

Pirilo, um dos 10 maiores artilheiros do rubro-negro, Evaristo de Macedo, ex-meio-campista que “Fernandinho” garante ter ajudado a levar para a Gávea, o goleiro Júlio César, titular da seleção nas Copas de 2010 e 2014, e os técnicos Kanela, deca-campeão carioca com o basquete rubro-negro, e Flávio Costa, comandante do primeiro tricampeonato do clube (1942/1943 e 1944), são figuras marcantes na sua memória.

Considera Amado Benigno como o melhor goleiro que viu jogar. Garante que se tratava de um grande goleiro. Lembra que as goleiras eram feitas de pedaços de madeira, e se constituiam em verdadeiro perigo. Lembra de uma vez em que fez uma defesa e bateu as costelas naquele bico. Ficou dois, três dias sem andar. 

“Fernandinho garante que a melhor atuação que teve na carreira foi justamente contra o Fluminense, ocasião em que fechou o gol. Lembra que em 1919, quando tinha apenas seis anos de idade, assistiu a uma derrota histórica do Flamengo parta o Fluminense, por 4 X 0, o que garantiu ao time das “Laranjeiras” o tricampeonato estadual (1917-1918-1919).

Tempos depois, quando já era o goleiro titular do rubro-negro, teve a oportunidade de devolver a goleada ao tradicional adversário.
“Fernandinho” lamenta nunca ter jogado uma partida no Maracanã, estádio que não existia no seu tempo de atleta.

O estádio só foi construído 20 anos depois, para a Copa do Mundo de 1950. Mas isso não evitou que no dia 1 de março de 2014, antes de um jogo frente o Nova Iguaçu, pelo Campeonato Carioca, ele, com 101 anos, subisse as escadas até o gramado com uma vitalidade que impressionou a todos.


Fernandinho teve o privilégio de nunca ter levado gol de Leônidas, grande craque do Bonsucesso que é conhecido como o inventor do gol de bicicleta. Mas ele mesmo em uma entrevista disse somente ter aperfeiçoado o que viu o Petronilho de Brito fazer.

Mas Fernandinho lembra de um jogo contra o Bonsucesso de Leônidas, no campo do adversário em um dia chuvoso, em que só levou gol em um pênalty cobrado por Prego, e Darci também de pênalty empatou para o Flamengo. O jogo foui no dia 10 de julho de 1932.


Também não levou gol de Friedenreich, o maior artilheiro do futebol, que na época jogava no São Paulo. E quando veio jogar contra o Flamengo, "Fernandinho" não disputou este jogo, pois havia saído machucado no confronto com o Bonsucesso. Quem atuou foi Amado, que levou o gol de Friedenreich, porém Tales empatou o jogo para o Flamengo.

O centenário ex-goleiro conta que um dos dias mais emocionantes de sua vida viveu ao lado de Zico, quando comemoraram juntos os aniversários. O “Galinho” nasceu em 3 de março e “Fernandinho” em 2 de março. A festa foi na sede da “Gávea”.

Nesse dia “Fernandinho” chegou bem cedo ao clube para se encontrar pela primeira vez com o eterno camisa 10 do Flamengo, que em sua opinião é o maior jogador de todos os tempos. Disse na ocasião, que era uma felicidade imensa estar com o Zico, que não poupou elogios ao centenário. E disse que desejava chegar na mesma idade que ele.

Hoje a história de Fernando Ferreira Botelho, o “Fernandinho” faz parte do acervo do “Museu da Pelada”, por sugestão do jornalista Caio Barbosa, que havia questionado as razões pelas quais alguém com a história dele, ainda não havia sido lembrado.

O centenário ex-goleiro tem muita história para contar. Mesmo estando com 105 anos, a sua lucidez impressiona. É capaz de falar sobre qualquer assunto, não importando se delicados ou polêmicos para a época em que jogou.

Lembra que a bola era pesada e ainda não existiam luvas na época, o que lhe deixou dedos tortos. Ele conta que tudo era importado da Inglaterra. Vinha tudo num baú, bolas, camisas, meias e chuteiras. E as longas viagens de navios para jogar fora do país, que chegavam a durar cerca de 10 dias. E tudo isso ele garante que tirava de letra.

Perguntado se no seu tempo havia homossexualismo no futebol, ele mão fugiu de responder. Disse que sim e não era camuflado. Complementou afirmando que homossexualismo tem no mundo inteiro e desde aquela época já tinha.

E completou: “O Rio de Janeiro era muito bom, o Carnaval era um sonho, não tinha freio. Davam 15 dias de férias e era difícil nos segurar. Nós bebíamos cerveja, mas pior é quando entrava na cachaça, todo mundo duro, era mais baratinho”.

Convidado a falar sobre o futebol de hoje, “Fernandinho” não aliviou nem o craque do PSG, e da seleção brasileira, Neymar. “É muito fresco. E jogador fresco eu não gosto. Ele é bom, mas tem muita mulher no meio”.

Sobre a Copa do Mundo da Rússia, no ano que vem, “Fernandinho” não leva muita fé, pois o futebol brasileiro não produz mais craques como antigamente. E reverencia o craque português Cristiano Ronaldo. “Esse é jogador de futebol. Sabe jogar, vai e resolve”, garante. Sobre Messi disse que é bom, mas por ser pequenininho, dão muita porrada nele.

Títulos conquistados: Flamengo: Campeão Carioca Juvenil, invicto (1927); Campeão Carioca do Terceiro Quadro. (1930); Campeão Carioca do Segundo Quadro. (1931); Vice-Campeão Carioca do Primeiro Time (1931); Campeão da Taça “Fidalga” (1932); Campeão da Taça Companhia Aliança da Bahia (1932); Campeão do Troféu Interventor Federal da Bahia (1932). Pelo Medicina e Cirurgia: Campeão Acadêmico Invicto do Rio de Janeiro. (1932); Campeão Acadêmico Invicto do Rio de Janeiro. (1934). Honrarias: Cidadão Benemérito da cidade do Rio de Janeiro. (2015). (Pesquisa: Nilo Dias)

Foto de hoje.

No tempo em que jogava.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Carlos "Kaiser", o jogador que não jogava

É difícil de acreditar, mas é a mais pura das verdades. Carlos Henrique Raposo, mais conhecido como Carlos "Kaiser", um gaúcho de Rio Pardo, nascido a 2 de julho de 1963, conseguiu a proeza de passar mais de 20 anos fingindo ser jogador de futebol e assinando contratos com grandes clubes brasileiros e da Europa.

Tinha o apelido de "Kaiser" em razão de sua semelhança com o craque alemão Franz Beckenbauer. E era também conhecido como “Forrest Gump” (pessoa que conta muita estória, muito papo ou mentiras) do futebol brasileiro. Sua história vai merecer um documentário que será apresentado ainda neste ano de 2018.

O filme, dirigido por Louis Myles, produtor da BBC britânica em eventos esportivos, como a Olimpíada de Londres e a Copa do Mundo de 2014, terá o nome de “The Greatest Footballer Never to Have Played Football” (Kaiser: o Grande Jogador de Futebol que Nunca Jogou Futebol).

De acordo com o jornal inglês “ The Guardian”, o longa conta com entrevistas de Zico, Carlos Alberto Torres (falecido), Júnior, Bebeto, Renato Gaúcho, e o próprio "Kaiser", que afirma ter sido um jogador de talento, mas que decidiu não fazer uso disso. Junto dos depoimentos, algumas partes serão encenadas, e o personagem principal será interpretado pelo ator Eduardo Lara.

Em 2011, o programa “Esporte Espetacular”, da Rede Globo, exibiu uma matéria que contava, com detalhes, como "Kaiser" conseguiu, por mais de 20 anos, ludibriar diversos clubes brasileiros, entre eles, Botafogo, Flamengo, Bangu, Fluminense, Vasco da Gama, América.

E do exterior, Puebla, do México, Independiente, da Argentina, El Paso Patriots, dos EUA, Louletano, de Portugal e Gazélec Ajaccio, da França, fazendo parte de seus elencos, mesmo sem praticamente ter disputado partidas oficiais.

O Ajaccio, humilde clube da Europa lhe preparou uma apresentação da qual ele para sempre se lembrará. O estádio era pequeno, mas estava cheio de fãs. Viu que havia muitas bolas no gramado. Ficou nervoso porque iriam descobrir que ele não sabia jogar.

Entre seus supostos feitos notáveis, "Kaiser" alega ter sido campeão Mundial Interclubes pelo Independiente em 1984, fato não confirmado pela diretoria do clube argentino.

Se era um jogador que nunca jogou futebol, e em razão disso não tinha amizade com a bola, ninguém duvida que foi um craque em se relacionar com algumas estrelas do futebol brasileiro.

Aos 55 anos, Carlos "Kaiser" atualmente mora no Flamengo, no Rio de Janeiro. E depois de muito tempo resolveu revelar as suas histórias. Pinóquio” era café pequeno para ele. “Pior do que cara de pau, esse rapaz é o maior 171 do futebol brasileiro”, brinca Ricardo Rocha, um dos amigos de “Kaiser”.

A vida de Carlos Henrique Raposo, mais conhecido o “Kaiser”, merecia bem mais que um simples documentário, e sim um filme longa metragem. Apesar da sua história estar mais para outro sucesso do cinema americano, "Prenda-me se for capaz".

Mas o que ele fez foi fantástico. Por mais de 20 anos conseguiu enganar grandes clubes brasileiros. Foi para a França, passou pelos Estados Unidos, fez uma escala no México, sem praticamente ter entrado em campo para uma partida oficial.

Ele dava desculpas das mais estapafúrdias para não jogar. Em cerca de 20 anos de carreira, "Kaiser" entrou em campo poucos vezes para disputar uma partida oficial. Não completou nenhuma. Muito menos no Brasil, onde ninguém o viu jogar. Em todo jogo ele dava “migué”. Quase sempre saía machucado. Até em treino, se pudesse, saía machucado, admitiu.

Raposo era a esperança da família de render algum dinheiro no futebol. Mas havia um problema neste plano. Ele nunca quis jogar bola, de fato. A lenda de Carlos “Kaiser” começou em meados dos anos 1970, quando ele atuava por equipes juvenis do Botafogo.

O ex-jogador Maurício, ídolo do Botafogo, na época, foi quem o levou ao clube alvi-negro. O vínculo entre eles tinha nascido na infância e ganhou importância nos anos seguintes.

Em 1986, Raposo conseguiu, no futebol, o seu primeiro contrato ou, o que muitos consideravam, seu primeiro golpe, já que foi convocado pelo simples fato de estar ligado à uma figura do meio.

Quando esteve no Flamengo, Raposo chegava aos treinos com um celular, o que, nesse momento, demonstrava um status econômico superior. Então, simulava uma conversa em inglês ao telefone fazendo com que acreditassem que equipes europeias estavam interessadas em contratá-lo.

Apesar de toda a equipe, dos jogadores e da parte técnica acreditarem nas suas conversas em inglês, acabou desmascarado pelo médico do clube, que havia morado na Inglaterra, explicando que os diálogos de Raposo pelo celular não faziam sentido.

Carlos Kaiser sempre foi bem relacionado e fazia amizades com facilidade. Era amigo de jogadores importantes do futebol brasileiro, como Carlos Alberto Torres, Ricardo Rocha, Moisés, Tato, Renato Gaúcho, Romário, Edmundo, Gaúcho, Branco, Maurício, entre muitos outros.

No tempo em que ele enganava dirigentes e treinadores, os meios de comunicação ainda não eram tão desenvolvidos. Não existia Internet, TV por assinatura transmitindo ao vivo jogos de todo o mundo ou empresários circulando pelos corredores dos clubes com DVDs editados de dezenas de jogadores.

E “Kaiser” se aproveitava dessa falta de informação. Sempre que algum de seus amigos famosos era contratado por um clube, ele era levado como contrapeso para fazer parte do elenco. E assinava contrato de risco, mais curto, de normalmente três meses. Mas recebia as luvas do contrato e ficava lá por esse período.

Ricardo Rocha, seu grande amigo, contava aos risos: “É um amigo nosso, uma ótima pessoa, um ser humano extraordinário. Mas não jogava nem baralho. O problema dele era a bola (risos). Nunca vi ele jogar em lugar nenhum. É um “Forrest Gump” do futebol brasileiro. Conta história, mas às 16 horas, num domingo, no Maracanã, nunca jogou. Tenho certeza”.

Diz saber que ele ia para o clube jogar e, na hora de entrar em campo para mostrar alguma coisa, simulava contusão. Aí não participava, falava que era estiramento e ficava de dois a três meses sem treinar. “É 171 nato”. (trambiqueiro, no código penal 171 é estelionato)



O goleador da Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, Bebeto, declarou: “Ter uma conversa com ele era tão bom que, se você o deixasse abrir a boca, iria pegar você e seduzi-lo. Você não conseguia evitar, era o fim”.

"Kaiser" tinha uma vantagem: alto, sempre teve um porte físico avantajado. Tinha pinta de jogador. E puxava a fila nos treinos físicos.

Como alegava que chegava fora de forma, conseguia ficar duas semanas só correndo em volta do campo. O problema era quando a bola rolava. Aí entrava em cena a segunda parte do plano.

Ele mandava alguém levantar a bola e errava a jogada. Aí sentia o posterior da coxa, ficava 20 dias no Departamento Médico. Não tinha ressonância (magnética) na época. E quando a coisa ficava pesada para o seu lado, tinha um dentista amigo seu que dava um atestado de que era foco dentário. E assim ia levando.

Renato Gaúcho, também grande amigo de “Kaiser”, conta que ele era um “inimigo” da bola. A parte física era com ele. No coletivo combinava com um colega: “na primeira jogada me acerta porque eu tenho que ir para o Departamento Médico”.

A semelhança com Renato Gaúcho também era bem-vinda. Os dois se divertiam bastante na noite. “Kaiser” confessa que se foi clone de alguém na vida, era do Renato Gaúcho.

Os dois se conheceram em 1983, ele jogava no Grêmio e ia muito ao Rio. E garante que a fama que Renato tem com as mulheres, perto dele não era nada. 
Renato Gaúcho, que era um dos jogadores de futebol brasileiro mais destacados da época, o chamou de “o maior jogador de futebol de todos os tempos”.

A tática era conhecida por vários companheiros, que encobriam a história. Afinal, “Kaiser” era bem relacionado em outras áreas também. Na época os times concentravam em hotel. Ele chegava três dias antes, levava 10 mulheres e alugava apartamentos dois andares abaixo de onde o time ia ficar.

De noite ninguém fugia de concentração, a única coisa que faziam era descer escada. Tanto que tem treinador hoje que bota segurança no andar. Kaiser frequentava as casas noturnas mais badaladas do Rio de Janeiro e aproveitava o fato de ser jogador de futebol para se aproximar das mulheres.

Ele mesmo conta que mulher era a coisa mais fácil, podia ser em espanhol, inglês, francês. Porque jogador já tem esse assédio, e ele não se considerava um cara feio.

Para alguns dirigentes e treinadores, "Kaiser" não passava de um jogador azarado. E assim ele conseguia ganhar tempo. Colocava no bolso um ou dois meses de salário. Quando a situação começava a ficar difícil de ser sustentada, aproveitava outro amigo e trocava de clube. Assinava um novo contrato de risco, recebia as luvas. E começava tudo outra vez.

“Kaiser” garante que não se arrepende de nada que fez. E complementa: “Os clubes já enganaram tantos jogadores, alguém tinha que ser o vingador dos caras”.

Para não ser desmascarado, “Kaiser” precisava ter boas relações também com a imprensa. Por isso, distribuía camisas do clube onde estava e passava algumas informações.

Elogiado pelos amigos famosos, ele aparecia em matérias acompanhado de adjetivos como "artilheiro" e “goleador”. Apesar disso, outras fontes revelaram que Raposo, além de ser amigável, também comprava presentes para o pessoal da imprensa.

Assim, os meios de comunicação davam respaldo à imagem de bom jogador que era vendida aos clubes. Quando foi jogar no Bangu, um jornal da época deu à matéria sobre sua contratação o título: “O Bangu já tem seu rei: Carlos Kaiser”.

O jogador que não jogava, complementou: “Eu tenho facilidade em angariar amizades, tanto que muitos da imprensa da minha época gostavam de mim, porque nunca tratei ninguém mal”.

"Kaiser" encerrou sua carreira aos 39 anos, jogando pelo Ajaccio, clube da segunda divisão da França, no qual ficou por longo tempo. O atacante garantiu que dessa vez ele jogou de verdade, porém, não mais do que 20 minutos por partida, poucas vezes por temporada.

Mas reconhece que pelas oportunidades, pelos times que passou, se tivesse se dedicado mais, teria ido mais longe na carreira. De certa forma, se arrepende de não ter levado as coisas a sério. E garante, que se teve alguém que ele prejudicou a vida toda, foi a ele mesmo.

Mais experiente, Carlos Henrique não se arrepende do que fez, mas confessa que se tivesse uma chance de voltar no tempo, a história seria diferente.

Atualmente, e depois de ter desfrutado anos e anos de um salário de jogador de futebol que não merecia, ele passa seus dias na academia como “personal trainer” para mulheres. Com 55 anos de idade, ele já não consegue mais se passar como jogador, porém continua sendo um atleta.

Em uma das muitas histórias fantasiosas que rondam sua vida, Raposo disse que uma vez esteve muito perto de fazer parte de um filme pornográfico. Ele acompanhou seu primo para uma audição, e segundo disse, deixou uma boa impressão, tudo por causa de seu bom papo e carisma.

Quase teve uma participação no filme. “Toda a minha vida girou em torno do sexo”, declarou, excluindo qualquer outro hobby que possuísse.

“Se eu fosse a uma boate, e passava 10 minutos com uma menina, eu tinha que a levar em algum lugar, fosse um banheiro, ou o primeiro cubículo que encontrava”, disse ele. E explicou que agia assim por conta da forma que havia sido criado, numa sociedade machista.

Um dos maiores capitães de futebol que o Brasil já teve em sua história foi um grande amigo de Raposo. E era ele quem permitia que “Kaiser” levasse uma vida de luxo, apesar de ser um falso jogador.

Carlos Alberto ofereceu a "Kaiser" um quarto em um hotel de Búzios, o “Saint Tropez”, para passar as festas de final de ano, como Natal e Ano Novo. A arte de enganar pessoas não era apenas focada no ambiente do futebol, mas sim um modo de vida para Raposo.

Ele conseguiu perpetuar pequenos golpes no dia-a-dia, como fingir perder sua carteira, dizer que o caixa eletrônico tinha prendido o seu cartão, entre outros, para não pagar suas refeições.

Algumas pessoas até dizem que ele realmente adotou o lema de “coma à vontade” nos rodízios muito seriamente, comendo 70 fatias de pizza em um restaurante.

Um dos maiores problemas de “Kaiser” apareceu quando se alistou no Bangu, cujo proprietário era o Castor de Andrade, chefe de uma milícia. Este apresentou-o ao clube e fãs como “A chegada do Rei”.

Nesse encontro o treinador o obrigou a entrar num jogo, em que o Bangu perdia para o Coritiba. Desesperado, “Kaiser”,  ainda estava no aquecimento, prestes a entrar em campo, quando inventou uma briga fictícia com um torcedor por causa de uma suposta ofensa gritada ao treinador.

Tudo isso para que conseguisse ser expulso antes mesmo de começar a jogar. Como era um gênio das mentiras, este falso jogador de futebol não deixava espaço para erros.

Seus companheiros de equipe gostavam dele, tinha amigos no camarim e também conseguiu conquistar o público. Algumas dessas pessoas que gostavam dele foram pagas para gritar seu nome quando o presidente do clube estava perto, bem como os repórteres para falarem bem dele na mídia.

“Kaiser” tinha várias maneiras de evitar encostar em uma bola de futebol, ato que desmascararia toda a sua farsa. O principal método era fingir se lesionar nos treinos, por isso ele pagava os mais jovens para dar alguma entrada difícil nele.

Ou então, inventava uma suposta morte de sua avó, que devia ter pelo menos sete vidas, afinal ele a matou diversas vezes para não entrar no campo. A arma de sedução de Raposo era sua maneira de falar e o que ele expressava. Ele tinha uma maneira de se comunicar que era única.

Como muitas lendas que foram se estabelecendo ao longo do tempo, as circunstâncias de vida que Raposo viveu naqueles 20 anos de sua vida já parecem surreais. Os anos já se passaram, mas em sua memória permanecem histórias com detalhes fantásticos.

Embora tudo até pareça mentira, uma coisa que se tem certeza é que essa loucura toda realmente ocorreu devido aos variados testemunhos que a sustentam. Sua história de vida começou a se espalhar e se tornou famosa.

Carlos "Kaiser" também se comparou a Jesus Cristo, justificando suas ações quando disse: “Eu só queria ser um esportista e não queria jogar futebol”.

E acrescentou: “Se todas as outras pessoas queriam que eu fosse um jogador de verdade, esse era um problema delas”. E continuou: “mesmo Jesus não conseguiu agradar a todos, por que eu faria isso?”. (Pesquisa: Nilo Dias)


Carlos "Kaiser", junto dos ex-jogadores "Gaúcho" e Renato Gaúcho. (Foto: Divulgação)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

"Anjo Negro", o grande goleiro do Acre

Valtemir Pereira, o "Anjo Negro", goleiro que defendeu equipes do Acre nos anos 1990 e 2000, morreu no dia 16 de agosto de 2007, vítima de meningite, com a idade de 39 anos. Ele estava internado na UTI da Fundacre, na capital acreana. O seu estado clínico já era preocupante há algumas semanas. 

O goleiro, que ficou mais conhecido por "Anjo Negro", foi um dos melhores jogadores na posição revelados no futebol do Acre, em todos os tempos. 

Ele ganhou notoriedade depois de ter agredido o árbitro de futebol Cléver Assunção Gonçalves, durante um jogo contra o Flamengo, realizado em 1997, no Maracanã, no Rio de Janeiro, válido pela terceira fase da Copa do Brasil e vencido pelo rubro-negro carioca por 5 X 1. 

O Flamengo jogou aquele dia com Zé Carlos - Fábio Baiano - Júnior Baiano - Fabiano e Athirson. Jamir (Maurinho) - Bruno Quadros - Lúcio (Marco Aurélio) e Evandro (Iranildo). Romário e Sávio. 

Os gols foram de Romário (2), Evandro, Bruno Quadros e Sávio, para o Flamengo, e Papelim, para o Rio Branco (AC). No primeiro jogo, no estádio José de Mello, em Rio Branco (AC), o time local venceu por 2 X 1, gols de Biro-Biro e Bala, e Flávio Galvão, para o Flamengo.

O Flamengo levou um time reserva e tomou um couro de 2 X 1. Foi um jogão. Até a enorme torcida do Flamengo, em Rio Branco, ficou orgulhosa com o "Estrelão", apelido dado ao Rio Branco.

No segundo jogo, o "Mengão" não quis arriscar e, em pleno Maracanã, lotado até a tampa, com Romário e Companhia sapecou 5 X 1 no time do Acre.

Nesse jogo, o árbitro mostrou cartão amarelo para o goleiro do Rio Branco aos 28 minutos do primeiro tempo, considerando que estava demorando a bater um tiro de meta. Irritado por isso, Valtenir empurrou o rosto de Gonçalves com a bola.

E foi expulso. Fora de sí, "Anjo Negro" deu três socos e um pontapé na bunda do árbitro. Só parou com a chegada da Polícia. E disse que "o juiz foi comprado pelo Flamengo". E ainda: "Por que ele tinha que dar cartão vermelho pra mim?". Saiu de campo escoltado por policiais militares.

Levado em um camburão para o 20º Distrito de Polícia, Valtenir foi indiciado no Código Penal por lesão corporal. Em seu depoimento, reconheceu ter agredido o juiz em "um ato impensado".

Segundo Valtemir disse na Polícia, a sua atitude estabanada foi originada pelas expressões nada lisonjeiras e até preconceituosas por parte do juiz e do jogador Romário tais como: “Passa a bola, nego filho da puta!”.

O árbitro mineiro, afirmou na delegacia ter sido atingido por um soco em seu ouvido esquerdo. No início da madrugada ele foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para exame de corpo de delito.

O Flamengo, conseguiu avançar com a goleada imposta ao time acreano e chegou à final da competição naquele ano, mas perdeu a decisão para o Grêmio, após dois empates, um sem gols em Porto Alegre e outro por 2 X 2, no Rio de Janeiro.

Após a agressão, o goleiro acabou nos noticiários de todo o país. Sua loucura ficou atestada no ano seguinte, quando quase pôs fim a vida, depois de disparar um tiro contra o próprio peito. A revista "Placar", a época, dedicou duas paginas ao episódio e apelidou o arqueiro de "pugilato". O título da matéria foi o seguinte: "Passou raspando".

Recuperado, o goleiro deu a volta por cima e chegou a figurar na lista dos melhores da posição no futebol local. Em 2007, após um convite da professora Cláudia Malheiro, "Anjo Negro" aceitou voltar a jogar, vestindo dessa feita a camisa número 1 do Andirá, time do Acre.

As boas defesas acabaram rendendo elogios e o título de melhor jogador durante alguns jogos do clube "morcegueiro". Além da profissão de goleiro, "Anjo Negro" complementava a renda familiar prestando serviço para uma empresa de segurança.

Ao longo de sua carreira, o atleta passou pelo Andirá (AC), Independência (AC), Juventus (AC), Rio Branco (AC) e Vasco (AC). (Pesquisa: Nilo Dias)

Gol de honra do Rio Branco, na goleada de 5 X 1, Papelim, de pênalti.

Estádio José Melo, em Rio Branco, onde o time local ganhou do Flamengo, do Rio de Janeiro por 2 X 1. ( Foto: Jornal "Tribuna do Norte")

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O forte futebol colonial de Pelotas

Eu conheci muito bem o futebol colonial de Pelotas, porque fui treinador campeão pela Associação Esportiva Aliados, de Monte Bonito, time dos irmãos Wilson Carvalho, Gilmar Carvalho e Sulmar Carvalho, todos filhos do presidente do clube, na época, o senhor Mário Carvalho.

E também por ter participado do time denominado “Cracões da Bola”, que foi organizado pelo hoje repórter esportivo, em Porto Alegre, João Antônio Garcia.

Naquele tempo ele era apresentador de um programa dedicado ao futebol colonial na Rádio Cultura, de Pelotas, que começou com o saudoso Paulo Silva. Havia também o Arnaldo Rahal, que nos dias de jogos vendia cartelas para sorteios de prêmios entre os torcedores presentes.

Como costumava gritar a plenos pulmões, “quem se habilita”, não demorou para ganhar o apelido de “Seu Habilita”, que o acompanhou até o fim de sua vida.

Nos dias de jogos do “Cracões da Bola”, sempre havia festa, geralmente com bem servidos churrascos e muita cerveja gelada. Lembro que até meus pais participavam desses agradáveis momentos, claro, com a intenção maior de me ver jogar.

E modéstia a parte, não os decepcionava, pois nos meus áureos 30 anos de idade ainda batia uma bola bem bonitinha. Até fiz testes no Brasil, de Pelotas, ocasião em que coloquei uma bola pelo meio das pernas do saudoso “Tibirica”, um lateral histórico do time “xavante”.

E para que? O cara a partir dai encostou em mim, fazendo om que eu fosse para o outro lado do campo e não mais me aventurasse a querer dribrá-lo. O técnico do Brasil era Teotônio Soares, que foi um grande jogador e artilheiro do clube em tempos mais remotos.

Também dei meus chutes no Progresso Futebol Clube, time amador que revelou grandes jogadores para o futebol gaúcho e brasileiro, como Daniel Carvalho e Fernando Cardoso, que jogaram no Internacional e Emerson, no Grêmio. Ainda joguei no São Clemente, da várzea pelotense.

Mas a intenção desta matéria não é contar a minha andança pelo futebol de Pelotas, sim contar aspectos do chamado futebol colonial, até hoje disputado com raro brilhantismo na zona rural daquela próspera cidade gaúcha.

Conforme matéria publicada no jornal “Diário Popular”, de Pelotas, onde trabalhei por algum tempo como repórter especial e depois editor de Esportes, os primeiros jogos de futebol realizados na zona colonial do município, foram a partir de 1912, na localidade de Monte Bonito, reunindo a equipe local contra outros clubes de menor expressão.

Talvez até outras partidas na colônia pelotense já tivessem acontecido antes, porém o primeiro registro encontrado foi esse de Monte Bonito, entre a equipe local e o Arranca Toco, que infelizmente não tenho como informar de onde era.

Formaram-se diversas equipes na zona rural de Pelotas, algumas delas ainda em atividade até hoje, como o Vila Nova, localizado na Colônia Francesa, Boa Esperança, do Grupelli, Indio, do Morro Redondo e Esporte Clube Guarani, do Cerrito.

O Grêmio Esportivo Índio foi formado por um grupo de jovens que praticavam o esporte perto do armazém Reichow, na atual cidade de Morro Redondo. O estabelecimento era atendido pelo vendedor do “Café Índio”, tradicional marca da indústria pelotense.

Ele chamou os jovens e ofereceu uma bola de couro, com a condição de colocarem o nome da equipe de Índio, nascendo assim em 6 de fevereiro de 1944, nas cores amarelo e preto o Grêmio Esportivo Índio, de Morro Redondo.

Dos demais clubes infelizmente não tem como saber nem mesmo as datas de suas fundações. Caso do Boa Esperança, do Grupelli, que perdeu em uma enchente toda a sua documentação.

E como o futebol nos primeiros tempos era tratado como algo relacionado ao lazer dos colonos, não existia nenhuma preocupação com registros, o que dificulta qualquer tentativa de resgate histórico.

Outros clubes não resistiram às dificuldades do futebol amador e acabaram sendo extintos, como o Guarani que ficava do outro lado da ponte, na localidade de Santa Helena.

Sabe-se que o treinador era um tenente. Na época da construção da estrada, era formado pelo pessoal que trabalhava lá. Depois que a obra chegou ao fim, acabou o time também.

Nos primeiros tempos todos os jogos entre equipes coloniais tinham caráter amistoso, o que se estendia até mesmo aos raros campeonatos realizados. O que importava mesmo era a socialização entre os moradores da zona rural.

Mesmo com disputas somente amadoras, ainda assim nasceram rivalidades, sendo uma delas entre o Vila Nova, da Colônia Francesa e o Boa Esperança, do Grupelli. Eram rivalidades frequentes devido às disputas entre os distritos, tendo como balizador o futebol.

Essas rivalidades podem ser presenciadas ainda nos dias atuais. A maioria dos clubes coloniais tem uma ampla divulgação de suas atividades e jogos nas redes sociais, e frequentemente quando vão enfrentar um rival, a chamada para a partida é feita de maneira que o maior número de torcedores compareça ao local e apoie a equipe.

Como o futebol cresceu muito na zona rural, foi preciso que se organizasse um órgão regulador que se responsabilizasse pelos campeonatos e buscasse angariar recursos para a manutenção do futebol colonial.

Diferente das demais localidades, o futebol chegou antes na colônia de Pelotas do que a democratização do esporte em 1930. Porém por se tratar de uma zona rural, sempre apresentou distinções dos demais caminhos tomados pelo futebol.

É o caso de nenhuma equipe ter buscado a profissionalização, mesmo sendo pertencentes à cidade de Pelotas. Mas são de localidades que não teriam condições econômicas de profissionalizar suas equipes.

A atual Associação Colonial Pelotense foi criada com esse intuito de conseguir perpetuar o futebol colonial, além de integrar seus moradores, trocando informações sobre suas lavouras e seus produtos.

No ano de 1965 foi fundada a Liga Colonial de Futebol (LCF), com a finalidade de reunir as associações esportivas, sociais e beneficentes da Colônia Pelotense.

É considerada uma das entidades mais antigas, na organização do futebol amador. Teve como um dos líderes o advogado e radialista Elias João Bainy, juntamente com os clubes fundadores.

A título de informação: Elias Bainy era um dos sócios proprietários da Rádio Cultura, de Pelotas e foi meu colega de redação do jornal “Diário Popular”.

A liga teve como fundadores as seguintes associações: Grêmio Esportivo Índio, Barbuda Futebol Clube, Grêmio Esportivo Gaúcho, E.C.R. Vila Nova, Botafogo Futebol Clube, Esporte Clube Taquarense, E.C.R. Centenário, Grêmio Esportivo Montebonitense, Fortaleza Futebol Clube, Continental Futebol Clube, Esporte Clube Arroio do Padre, Esporte Clube 23 de Maio, Esporte Clube Guarany, Grêmio Esportivo Independente, Esporte Clube São Pedro, Esporte Clube Cruzeiro do Sul, Cascata Futebol Clube e Umbu Futebol Clube.

A Liga também contemplava as equipes da Colônia Z3, de pescadores, localizada na planície costeira da Laguna dos Patos.

Em 1970, devido ao confronto com a Liga Pelotense de Futebol (LPF), por não poder ter duas ligas na mesma cidade, foi extinta a LCP, permanecendo a LPF, por ser mais antiga. Nasceu dessa forma a Associação Colonial Pelotense (ACP).

O Estatuto da Associação, prevê, entre outras coisas, que cabe a ela representar e dirigir o futebol na colônia e outras atividades no município de Pelotas e fomentar o futebol e outros esportes.

Durante todo o período em que a ACP existe, o seu Estatuto sofreu poucas alterações. Embora o Capítulo VI, destinado aos atletas, diga que estes não pode receber qualquer gratificação, não é isso que ocorre na prática.

Hoje em dia é comum as equipes contarem com ex-atletas profissionais que são remunerados, além de massagista e até médico.

Apesar disso, se o futebol colonial ainda existe, deve-se a criação da ACP. Sem ela, provavelmente o futebol colonial não teria a força que tem hoje na cidade de Pelotas, movimentando toda uma comunidade e fortalecendo os laços entre os moradores rurais.

A “profissionalização” do futebol colonial conseguiu a manutenção e surgimento de novas equipes. Hoje temos uma “semiprofissionalização”, com a criação da Liga, que regulamentou os jogos.

O futebol é apontado como uma das principais formas de lazer da zona rural, juntamente com as festas religiosas. Porém existem outras formas de lazer dos colonos, visitar os vizinhos e parentes, os jogos de bochas, as pescarias, as carreiras (corridas de cavalo), que também são conhecidas como pencas. Porém o desporto bretão teve importância ímpar nesse contexto de lazer.

O futebol sempre foi um espaço além de lazer de sociabilidade, que consegue aglutinar comunidades para as disputas de futebol. Além das interações no campo, os clubes realizam bailes com intuito de escolha de suas rainhas, posse de novas diretorias, bailes de chopp, entrega de faixas aos campeões dos torneios, aparecendo como grandes eventos sociais da colônia. (Pesquisa: Nilo Dias)



domingo, 28 de janeiro de 2018

Jovem goleiro morre em acidente de carro

Morreu na tarde de ontem, sábado (27), o goleiro Wallace, do Guarani, de Campinas (SP) depois que o carro em que viajava captou no quilômetro 140, da Rodovia dos Bandeirantes (SP-348). O acidente aconteceu por volta de 14 horas próximo ao trevo com a Luiz de Queiroz (SP-304).

De acordo com a concessionária AutoBAn, que administra a rodovia, o veículo seguia no sentido interior quando capotou, atravessou o canteiro central e foi parar no sentido oposto (capital). Nenhum outro veículo se envolveu no acidente e não chovia no trecho, segundo a concessionária. Um resgate da AutoBAn foi ao local, e o trecho teve lentidão no trânsito.

Junto de Wallace viajava o passageiro Guilherme Bruno de Freitas, de 23 anos, que sofreu escoriações, mas sem ferimentos profundos e foi encaminhado à Santa Casa de Limeira. Ele segue internado na unidade, e o estado de saúde é estável.

De acordo com a Polícia Rodoviária, o jovem relatou que Wallace perdeu o controle do veículo e atravessou o canteiro. Ele não soube dizer o motivo. Os dois estavam com cinto de segurança.
Wallace tinha 22 anos e estava a caminho de Ribeirão Preto, sua cidade de origem e onde passaria o fim de semana com familiares.

Ele estava de folga após ter ficado no banco de reservas na vitória do Guarani por 3 X 0 sobre o Água Santa, na noite da última sexta-feira, em Campinas.

Wallace Ribeiro Barato chegou ao Guarani no início deste ano (2018) e tinha contrato até 30 de novembro. Ele foi emprestado ao “bugre” pelo Vitória (BA), clube onde começou a carreira nas categorias de base. Era visto como um goleiro promissor.

Com duas partidas pelos profissionais do Vitória, em 2016, ele participou das campanhas dos títulos baianos de 2016 e também de 2017. O atleta de 22 anos nasceu em 1 de outubro de 1995 em Salvador (BA). Tinha 1m86 de altura e pesava 78 quilos.

Era reserva de Bruno Brígido e sequer chegou a jogar pelo Guarani.  Sua documentação não foi regularizada a tempo para a primeira rodada. Quando foi liberado para atuar, ficou no banco.

Wallace está sendo velado, no Velório Samaritano – sala 2, que fica na Rua Flávio Uchôa, 988, Campos Elíseos, Ribeirão Preto. O sepultamento acontecerá, às 16 horas, no Cemitério Bom Pastor, localizado à Avenida das Lágrimas, 517, Jardim Zara, em Ribeirão Preto.

Em homenagem a Wallace, foi respeitado um minuto de silêncio antes do início do segundo tempo do clássico entre Corinthians e São Paulo, no Pacaembu, pelo Paulistão.

O presidente do Vitória, Ricardo David, disse que toda a comunidade rubro-negra está de luto. “A história de um jovem foi interrompida de forma inesperada e deixará eternas lembranças. À sua família, os nossos mais sinceros sentimentos de pesar, colocando nesse momento toda nossa estrutura para o que se fizer necessário para o alívio dessa grande dor”, lamentou.

O Guarani Futebol Clube também publicou uma nota oficial, informando e lamentando o falecimento do goleiro.

“O Guarani Futebol Clube lamenta profundamente o ocorrido e coloca-se inteiramente à disposição dos familiares e amigos. Não existem palavras para expressar o que estamos sentindo. Deus haverá de trazer o conforto”, afirmou o presidente Palmeron Mendes Filho.

O Conselho de Administração do Guarani Futebol Clube decretou luto oficial de sete dias. A delegação do alviverde, com atletas e dirigentes, estará presente no sepultamento de Wallace na tarde deste domingo.

Em homenagem póstuma o Guarani recebeu autorização especial da Federação Paulista de Futebol e não mais utilizará a camisa número 12 até o final do Campeonato Paulista. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Ex-futebolista assume o poder na Libéria

O ex-jogador de futebol George Tawlon Manneh Oppong Ousman Weah , ou simplesmente George Weah, de 51 anos de idade, tomou posse ontem (22) como o novo presidente da República da Libéria, um país republicano presidencialista localizado na África Ocidental. George se elegeu com 61,5% dos votos contra 38,5% de seu adversário, o ex-vice-presidente Joseph Boakai, no segundo turno do pleito.

O resultado mostrou que o povo liberiano busca uma mudança radical no país. O candidato derrotado é um homem de longa carreira política que representou a continuidade do Partido da Unidade. A vitória de Weat foi fortemente comemorada nas ruas de Monrovia, capital do país, quando o nome do vencedor foi confirmado.

George Weah vai suceder a Ellen Johnson Sirleaf, a primeira mulher que conseguiu chegar à presidência na África. Ela, a apesar de ter conseguido manter a paz durante os 12 anos de seu governo, deixou um rastro de nepotismo, corrupção e uma insuperável fratura social que desgastou seu partido.

Aquele que foi considerado um dos melhores atacantes do mundo nos anos 90 tem agora o enorme desafio de dirigir a frágil nação da Libéria, com as feridas ainda não cicatrizadas da feroz guerra civil que terminou em 2003.

Weah herda um país sem infraestrutura, com a maioria da população na pobreza e afetado pelo período pós-guerra e pelo forte golpe da epidemia de ebola.

Mas, como homem de origem humilde e não pertencente à elite governante, ele aspira a sanar algumas das chagas sociais históricas que alimentaram conflitos no passado. Muito popular e visto como alguém muito próximo, seu trunfo é a coesão social.

Como grande jogador que foi Weah fascinou o mundo com suas jogadas enquanto o seu país se esfacelava em um conflito sangrento. Ele consolidou sua vitoriosa carreira defendendo o Milan, da Itália, entre 1995 e 2000, e o Paris Saint Germain, da França entre outros clubes europeus.

Em 2004, foi lembrado por Pelé na lista dos 125 maiores jogadores de futebol, como parte da comemoração de centenário da FIFA. Ao ganhar este prêmio, dedicou-o a seu empresário Arsène Wenger, então treinador do Arsenal, que o incentivou a seguir carreira no futebol.

Ele é até hoje o único jogador africano a ganhar a “Bola de Ouro” e o prêmio de jogador do ano da FIFA. Encerrou a carreira um ano antes da guerra em seu país chegar ao fim. Quando se aposentou voltou a Libéria para se tornar político.

Em 2005, concorreu à presidência de seu país, sendo derrotado pela candidata Ellen Johnson-Sirleaf. Em 2014 foi eleito senador de Montserrado com 78% dos votos. Mas não escapou de criticas por se ausentar com frequência de seus deveres na Câmara Alta. Agora foi a terceira vez que disputou a presidência, saindo vencedor desta feita.

A vitória de Weah significa o retorno ao poder do temido sobrenome Taylor. O ex-senhor da guerra e ex-presidente Charles Taylor está preso, cumprindo uma pena de 50 anos por crimes de guerra.

Ao que se sabe sua ex-mulher, Jewel Howard Taylor, eleita vice-presidente será o braço direito de Weah e a segunda figura política mais importante da Libéria.

A volta do sobrenome Taylor ao centro da arena política assusta, assim como a aliança de Weah com Prince Johnson, o célebre líder da guerrilha que torturou e matou o ex-presidente Samuel Doe diante das câmeras enquanto bebia cerveja.

A pequena nação da África Ocidental, com 4,6 milhões de habitantes, foi fundada pelos Estados Unidos enviando escravos libertos. Desde então, quando 5% da população de ex-cativos se instalou no poder, o fosso entre os “américos-liberianos”– também chamados de Congos – e os autóctones marcou a história convulsionada e traumática do país.

Depois de um século e meio de opressão brutal, as guerras continuaram. Desde que, na década de oitenta, os “autóctones” ousaram se levantar pela primeira vez contra os Congos, houve dois presidentes assassinados e o terceiro, Charles Taylor, está preso por crimes de guerra.

George Weah, nasceu na Monróvia, em 1 de outubro de 1966. Como futebolista, passou pelo auge de sua carreira atuando pelo AC Milan, entre. Em 1995, foi eleito o Melhor jogador do mundo pela FIFA, e recebeu a Bola de Ouro sendo o único africano a receber ambos os prêmios.

Começou a carreira jogando no “Young Survivors Clareton”, e depois de passar por outros clubes africanos, foi para o “Tonnerre Yaoundé”, de Camarões, onde recebeu o apelido de “Oppong” (Super).

Depois de conquistar dois títulos nacionais com o “Tonnerre Yaoundé”, foi negociado com o “Monaco”, da França, seu primeiro clube europeu, pelo qual conquistou a “Coupe de France”, na temporada 1990/91.

Em 1992, transferiu-se para o “Paris Saint-Germain”, onde ganhou o título da Ligue 1 e mais duas “Coupe de France”, até que, em 1995, foi para o AC Milan.

Quando o holandês Marco Van Basten abandonou os gramados, o AC Milan perdeu um atacante extraordinário. Alguns anos passaram-se até que outro atacante fosse capaz de entusiasmar os torcedores milanistas.

No entanto, quando George Weah chegou ao time italiano, em 1995, a saudade que os fãs tinham por Van Basten foi diminuindo. E não era para menos.

Na Itália, viveu a sua melhor fase. No mesmo ano foi eleito o “Melhor Jogador da África” no ano, ganhou a “Ballon d'Or” da Europa e foi eleito, pela FIFA, o “Melhor Jogador do Mundo”, na edição de 1995 do prêmio.

Weah foi o grande maestro do Milan na conquista do “Scudetto”da temporada 1995/96. Seus gols inesquecíveis tinham sempre uma marca: o domínio de bola perfeito, a arrancada em velocidade e o arremate fatal. Ainda conquistou a Série A em 1998/99.

Após se tornar um herói milanista, mudou-se para Inglaterra. Foi emprestado ao “Chelsea” e, depois, vendido em definitivo ao “Manchester City”. Também teve uma rápida passagem de uma temporada pelo “Olympique Marseille”, em 2000/01.

Em 2002, atuando pelo “Al-Jazira”, dos Emirados Árabes Unidos, anunciou oficialmente a sua aposentadoria após disputar a “Copa das Nações Africanas”.

Apesar de ter conquistado até um prêmio de Melhor jogador do mundo pela FIFA, Weah encerrou sua carreira sem nunca ter disputado uma Copa do Mundo por sua seleção.

Weah é considerado pelos torcedores o melhor jogador da história da seleção da Libéria. Em 1996, ele pagou todas as despesas para que a seleção nacional, junto a ele, disputasse a Copa das Nações Africanas daquele ano. Disputou várias edições deste torneio continental.

No início da temporada de 2001, assumiu a condição de treinador da seleção liberiana, ao mesmo tempo em que continuou como atacante do Olympique Marseille.

Na sua estreia como treinador, a Libéria derrotou a seleção de Gana por 3 X 1, fora de casa, pelas eliminatórias africanas da Copa do Mundo 2002. Porém, sua seleção não conseguiu se classificar para a Copa. Ele também ajudou as vítimas da Primeira e Segunda Guerra Civil da Libéria. (Pesquisa: Nilo Dias)


George Weah, quando jogava pelo Monaco, da França.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O triste fim do Jornal dos Sports

O primeiro jornal dedicado a esportes no Brasil foi o “Jornal dos Sports”, que era editado no Rio de Janeiro. Seus fundadores foram os jornalistas Argemiro Bulcão e Ozéas Mota.

Sua primeira edição circulou no dia 13 de março de 1931. Em 10 de abril de 2010, o “Jornal dos Sports” chegou às bancas pela última vez.

Apesar da semelhança com o jornal esportivo italiano “La Gazzetta dello Sport”, a verdadeira inspiração foi o francês “L'Auto”, que era impresso em rosa.

Em 1931, Argemiro Bulcão dirigia o jornal “Rio Sportivo”, que circulava duas vezes por semana no Rio de Janeiro. Interessado em fortalecer o jornalismo esportivo, propôs uma sociedade a Ozéas Mota, proprietário da gráfica onde o jornal era impresso. Com um capital de seis contos de réis, os dois fundaram o “Jornal dos Sports”.

A ideia presente no nome do jornal, de valorizar todas as modalidades esportivas, era reforçada pelo seu logotipo: nele apareciam praticantes de lançamento de disco, levantamento de peso, tênis, futebol, golfe, natação, remo, corrida, boxe e hipismo.

Inicialmente, cada edição tinha apenas quatro páginas, todas em preto e branco, e era vendida ao preço de 100 réis. Nos primeiros anos o jornal mostrava um conteúdo disposto em seis páginas impressas, primeiro em preto e branco e depois em papel cor-de-rosa, a partir de 23 de março de 1936.

Essa cor se manteve depois, porém mais vibrante, diagramação da manchete em cima do logotipo, publicação de algumas fotografias, sendo que o texto sobressaia em relação à imagem e também da utilização de ilustrações.

Podia se observar nos editoriais dos primeiros anos, que a intenção de Bulcão era fazer do “Jornal dos Sports” um veículo com influência política.

Outra característica marcante desta primeira fase do jornal eram as colunas locais e dos clubes. Como locais, podemos chamar de uma proposta de cobrir as práticas esportivas pelos cantos da cidade e adjacências, como as cidades de Niterói, São Gonçalo e a Ilha de Paquetá, por exemplo.

Desta forma, o jornal procurava aumentar a amplitude de sua cobertura jornalística, assim como conseguia agradar aos
leitores destas localidades, que não eram contemplados pelos demais jornais da grande imprensa da cidade.

Em relação às colunas dos clubes, não se tratava apenas de cobrir a
vida social e esportiva das principais agremiações da cidade, mas sim dos considerados pequenos também como o Olaria e o São Cristóvão (os chamados clubes de bairros).

Quando da Copa do Mundo de 1934, o jornal consagrou-se como seu principal divulgador, ao reforçar a ideia de que aquela não era uma mera disputa esportiva, mas sim uma afirmação da força do Brasil, do seu povo, a partir do futebol.

Basta folhear alguma edição antiga do jornal, para observar que ele usava um grande número de palavras de origem inglesa, como “football”, ”match” e “record”. Até o seu nome era escrito em inglês, jornal dos “Sports”.

O jornal costumava criticar a divisão no futebol carioca entre a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA) e a Liga Carioca de Futebol (LCF). Bulcão defendia a unificação e a adoção do profissionalismo, tese que acabou prevalecendo em 1937, com a fundação da Liga de Football do Rio de Janeiro (LFRJ).

Em outubro daquele mesmo ano o jornal foi vendido para o jornalista Mário Filho, que já era seu colaborador. Ele recebeu ajuda dos amigos Roberto Marinho, José Bastos Padilha e Arnaldo Guinle para poder comprá-lo de Argemiro Bulcão.

A partir dai Mário promoveu uma série de inovações. Além de crônicas de Vargas Neto, introduziu tiras e quadrinhos como forma de ilustrar a participação dos clubes no Campeonato Carioca de futebol.

Com a implantação definitiva do profissionalismo, passou a noticiar temas relacionados à direção dos clubes, contratação de jogadores, salários e valores dos passes.

A isso se somou o nacionalismo exacerbado pela participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, com artigos em que os jogadores eram comparados aos soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Logo após a guerra, em 1946, o Brasil foi escolhido pela FIFA como sede da Copa do Mundo de 1950. O compositor Ary Barroso, então vereador no Rio de Janeiro, apresentou um projeto para que fosse construído um estádio no bairro do Maracanã.

Mas a proposta não teve aceitação unânime. O então deputado federal, Carlos Lacerda, se posicionou contra, dizendo que o custo seria muito alto no local apregoado, defendendo que a construção se desse em Jacarepaguá.

Mário Filho não se deu por vencido e publicou uma série de artigos defendendo a construção do Estádio Municipal. E acabou vitorioso, com a pedra fundamental sendo lançada em 2 de agosto de 1948 e o Maracanã inaugurado em 16 de junho de 1950.

O jornalista ainda utilizou o “Jornal dos Sports” para criar competições esportivas, com destaque para os “Jogos da Primavera”, em 1947, e o “Torneio de Pelada do Aterro do Flamengo”, em 1951. E por sugestão dele nasceu o “Torneio Rio-São Paulo de Futebol”.

Foi um período áureo do jornal, que viu passarem por suas páginas nomes consagrados como José Lins do Rego e Nelson Rodrigues, irmão de Mário Filho, entre outros.

Em 1950, a derrota para o Uruguai por 2 X 1, pela Copa do Mundo, num estádio do Maracanã lotado, transformou o país em um grande velório, já que a Seleção, tida como favorita, gozava de uma admiração ufanista por parte da população brasileira.

A derrota, inclusive, refletiu na mudança de linha editorial do jornal, que passou a enfatizar menos o nacionalismo e fortalecer a visão de Mário Filho ao criar mitos para o futebol brasileiro.

No início dos anos 60, surgiu a seção “Segundo Tempo”, voltada às artes e à cultura. Assim, os cronistas esportivos ganharam a companhia de críticos do porte de José Ramos Tinhorão e Alex Viany

Depois disso, só em 22 de fevereiro de 2008, houve nova mudança no controle do "Jornal dos Sports", quando o publicitário Arnaldo Cardoso Pires assumiu a sua direção.

Em 1966, quando Mário Filho morreu de um ataque cardíaco, aos 58 anos, o jornal passou, então, para a sua viúva, Célia Rodrigues, que um ano depois, em 1967, cometeu suicídio.

E o jornal passou para as mãos do filho do casal, o jornalista Mário Júlio Rodrigues. O herdeiro já tinha alguma experiência no diário, visto que havia sido responsável pela seção “Segundo Tempo”.

Como novo dono, quis, quis fazer inovações, tendo como inspiração o “Jornal do Brasil”, que também se modificava na época, olhando para o “New Journalism” americano.

Júlio investiu na contratação de nomes consagrados como Zuenir Ventura, Reinaldo Jardim e Ana Arruda Callado. E na lista de colaboradores surgiram os cartunistas Ziraldo, Fortuna e Jaguar, além do compositor Torquato Neto.

Como a “cereja do bolo” lançou o caderno cultural “Sol”, destinado a publicar experiências de jovens jornalistas, vindos das primeiras faculdades de Comunicação Social do país, tendo se transformado meses depois, em outro jornal.

O suplemento serviu de inspiração para Caetano Veloso, no seu sucesso “Alegria, alegria”. Vejam o verso: “O sol nas bancas de revista/Me enche de alegria e preguiça/Quem lê tanta notícia/Eu vou...”

E foi no “Jornal dos Sports” que Henfil criou personagens que se tornaram mascotes das torcidas dos times cariocas, como o “Urubu”, que substituiu o marinheiro Popeye como símbolo do Flamengo, e o “Bacalhau”, novo representante do Vasco da Gama, no lugar do almirante português.

Mário Júlio Rodrigues era um boêmio inveterado e frequentador assíduo das noites cariocas. Essa vida desregrada e o alcoolismo o levaram a morte em 1972.

Todos esperavam que o jornal fosse herdado por seu filho Mário Rodrigues Neto e de sua primeira mulher, Dalila. Mas aconteceu o inesperado, o testamento deixou o jornal para a sua segunda mulher, Cacilda Fernandes de Souza.

Isso fez com que boa parte dos antigos colaboradores, deixasse o jornal. Cacilda entregou a chefia da redação para o coronel Geraldo Magalhães. E como consequência a linha editorial abandonava o apoio aos jovens. E muitos jornalistas passaram para outras publicações, como a revista “Placar”.

Como religiosa, a nova proprietária lançou um suplemento dedicado a assuntos espíritas, o “Mundo Azul”.

Cacilda não conseguiu manter o jornal e com a morte de Nelson Rodrigues, em 1980, passou a enfrentar sérias dificuldades financeiras. E acabou vendendo o “Jornal dos Sports” para à família Velloso, tradicional no ramo de redes de supermercados e drogarias, entre outros negócios, no Rio de Janeiro.

O comando do jornal foi entregue a Climério Pereira Velloso, auxiliado pelos parentes Waldemar Pereira Velloso e Venâncio Pereira Velloso. E passou a ter conteúdo político, dando grande destaque ao deputado estadual Napoleão Velloso (PMDB), também membro da família.

Entre os novos colaboradores deste período, destacou-se o Washington Rodrigues, o “Apolinho”, criador da coluna “Geraldinos e Arquibaldos”, apelidos que ele mesmo havia criado para os torcedores que frequentavam os setores da Geral e da Arquibancada do Maracanã.

Os donos do jornal gostavam de “Surf” e criaram o suplemento "Domingo é dia de Surf", o primeiro do Brasil dirigido a esse esporte. O suplemento teve a coordenação de Mauricio de Souza Coelho Neto, na época diretor geral da Associação de Surf de Peito do Rio de Janeiro (ASPERJ).

Acostumado a correr solto nas bancas de revistas do Rio de Janeiro, no fim dos anos 90, o “Jornal dos Sports” teve que enfrentar pela primeira vez na sua história, uma concorrência.

Nas bancas apareceu outro jornal esportivo, o “Lance!”, em 1997, com um conteúdo moderno, com a adoção de cores na primeira página. A queda nas vendas e as dificuldades financeiras levaram os Velloso a vender o “Jornal dos Sports”, em 2000.

Quem comprou foi o armador Omar Resende Peres Filho. Para diretor de redação levou o jornalista Milton Coelho da Graça. Mas não durou muito. Em pouco tempo passou a marca e o arquivo para os empresários Lourenço Rommel Peixoto, que também era vice-presidente do “Jornal de Brasília”, e Armando Garcia Coelho.

Os novos proprietários investiram em equipamentos e mudaram a redação da antiga sede na rua Tenente Possolo, no Centro do Rio, para a Praça da Bandeira. E outros colunistas foram contratados, com destaque para José Inácio Werneck e Marcos de Castro.

Em 2004, Peixoto e Coelho se viram envolvidos na “Operação Sanguessuga”, da Polícia Federal, que investigava denúncias de corrupção na compra de medicamentos pelo Ministério da Saúde do Brasil. Os dois chegaram a ser presos.

Enfrentando outra das tantas crises, o diário foi vendido ao empresário Wellington Rocha. Quatro anos depois, em 2008, um novo grupo de empresários, liderado por Arnaldo Cardoso Pires, assumiu o comando e transferiu mais uma vez a redação, desta vez para a Rua do Ouvidor, no Centro do Rio.

O Jornal dos Sports ainda conseguiu circular por mais dois anos sob a nova direção, até fechar definitivamente as portas em 10 de abril de 2010. (Pesquisa: Nilo Dias)