Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

O “santo” massagista do América de São José do Rio Preto

Homem de um milhão de amigos dentro e fora do futebol, de caráter ilibado e sempre solícito, Antônio Sutto, o “Tio Nico”, foi o maior massagista da história do América Futebol Clube, de São José do Rio Preto. Foram 33 anos dedicados ao “rubro”, uma de suas grandes paixões.

Nascido em Neves Paulista, no dia 10 de agosto de 1933, em sua longa carreira curou contusões de jogadores e de todos que o procuravam no alto da Vila Santa Cruz, na antiga sede do América, no estádio Mário Alves Mendonça.

Entre as muitas histórias que se contam sobre ele, o debutante América fazia boa campanha na elite paulista, com vitórias sobre o Taubaté, Ferroviária, 15 de Jaú e Guarani, de Campinas, empates com Portuguesa Santista e Nacional e somente uma derrota, para o Botafogo, de Ribeirão Preto.

"Nico", apelido que carregou desde a infância, ainda não era massagista do seu clube de coração. Trabalhava como enfermeiro no Pronto Socorro Municipal, no cruzamento das ruas Voluntários de São Paulo e Saldanha Marinho, frente o antigo “Tiro de Guerra”, no Centro de Rio Preto.

Seu irmão Arlindo Sutto e o amigo João Manoel Pereira Filho, também prestavam serviços no local. Os massagistas Osmar e Francis tinham deixado o América logo após a vitória de 3 X 0 sobre o Guarani, em Rio Preto, dia 18 de junho, pela sétima rodada do Paulistão.

Profissional qualificado, apaixonado pela profissão, nunca passou pela cabeça de "Nico" qualquer envolvimento com o futebol, a não ser o de torcedor.  

Foi quando o médico Carlos Cabbaz e o diretor Osvaldo Meucci, o “Dico”, foram até a sua casa pedir para que ele colaborasse com o América, que no domingo seguinte jogaria com o Jabaquara, em Santos.

Prestativo como ele só, "Nico" conseguiu uma folga no Pronto Socorro e foi com a delegação vermelha para o Litoral santista. Deu sorte e o América conseguiu empatar em 0 X 0. E dessa maneira teve início a sua carreira de massagista.

O técnico americano era o argentino Filpo Nuñez. O time era bom e a torcida sabia a escalação de cor e salteado: Vilera - Xatara e Fogosa. Adésio - Bertolino e Ambrózio. Cuca – Leal – Dozinho - Vidal e Orias.

Era um mundo completamente diferente daquele que estava habituado. Além das injeções e medicamentos diversos, vestiário, jogadores, óleo elétrico e muita massagem também fizeram parte do seu cotidiano.

Passou a viver ativamente a vida do clube. Os jogadores aprenderam a gostar dele e confiarem no seu profissionalismo. Na hora da dor, era só consultar o "Nico" para ter alívio imediato.

Mas ele era exigente e gostava que os jogadores seguissem à risca as suas determinações. Costumava dizer que era mais fácil trabalhar quando todos são disciplinados e obedientes.

A atenção que "Nico" dedicava a todos, fez com que também se tornasse um verdadeiro conselheiro dos atletas. Muitos contavam a ele até intimidades. Foi assim com o jovem atacante Cardoso, artilheiro da equipe americana na conquista do título da Segunda Divisão de 1963.

Amante de pescaria, o “santo massagista do América” curtia os raros momentos de folga na beira do rio Turvo. Alguns atletas viraram companheiros de pesca, como o zagueiro "Nelson Coruja", que depois foi para o Palmeiras, e o goleiro Reis.

O jogador “Nélson Coruja”, que havia jogado no América e foi para o Palmeiras, chegou a indicar ao alviverde a contratação de "Nico" . Mas este agradeceu o convite e preferiu ficar no América, clube que aprendeu a amar. Além de manter suas raízes de riopretano.

"Nico" dizia que a parte financeira não era o que mais importava. Ganhando bem ou mal, o importante era executar o trabalho com dedicação, disse, em entrevista publicada em 1969 pelo jornal “Diário da Região”.

Trabalhou no América até 1991. Neste período, foi campeão da “Segunda Divisão”, de 1963 (atual A-2), com acesso ao Paulistão, e do “Torneio José Maria Marin”, de 1987 (equivalente a Copa Paulista de hoje).

Ainda participou da conquista da “Taça dos Invictos”, de 1973, quando o América ficou 17 jogos sem perder no “Paulistinha”. Também viu a equipe disputar os campeonatos brasileiros de 1978 e de 1980.

"Tio Nico" trabalhou com os treinadores Filpo Nuñez, Américo Brumell, Conrado Ross, João Avelino, Antonio Julião, Gilson Silva, Rubens Minelli, João Leal Neto, Wilson Francisco Alves, o “Capão”, Vail Mota, Urubatão Calvo Nunes, Barbatana, Candinho e outros conceituados mestres.

Em junho de 1992, Antônio Sutto sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o que complicou bastante a sua saúde. Os últimos 18 meses de vida foram passados em uma cadeira de rodas. Apesar da lucidez, conversava pouco.

Era um quadro bem diferente, que em nada lembrava daquela pessoa falante e divertida, dos tempos de massagista, que animava o vestiário ao contar causos saborosos.

“Nico” foi casado com Célia Rodrigues e teve os filhos Marcos Antônio, Márcio e Márcia Bruna, mas separou-se da mulher na década de 1980.

Com a saúde debilitada, foi morar em uma casa em Santa Fé do Sul, alugada por seu irmão Arlindo. Tinha acompanhamento diário de médico e de enfermeira.

Morreu de insuficiência respiratória aos 60 anos, no dia 9 de dezembro de 1993, numa manhã cinzenta de nuvens carregadas, como se o céu também chorasse a sua partida deste plano espiritual. (Pesquisa: Nilo Dias, baseada em artigo de Edwellington Villa, do jornal "Diário da Região", de São José do Rio Preto)


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O jogador que nunca fez gol

Izídio Osorio, o “Cascudo”, foi um bom lateral direito que jogou no futebol de Pelotas (RS) nos anos 1950, 1960 e 1970. Teve uma particularidade, nunca fez um gol sequer na carreira em que defendeu os três clubes da cidade, Brasil, Farroupilha e Pelotas.

“Cascudo” nasceu em Pelotas no dia 13 de janeiro de 1935 e faleceu em sua terra natal no dia 15 de junho de 2015, aos 80 anos de idade. O ex-lateral foi sepultado na manhã no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula.

Ele esteve internado por um longo período em uma casa de geriatria, localizada na rua General Osório entre Dom Pedro II e Telles e sofria do “Mal de Alzheimer”.

Começou a carreira no G.E. Brasil onde participou de 80 jogos, ao longo das temporadas de 1954, 1955, 1956 e 1957. Esteve em campo no amistoso realizado em março de 1957, entre Brasil X Santos, com “Pelé” no time paulista.

Em 1960, aos 25 anos de idade, transferiu-se para o rival, Esporte Clube Pelotas, e depois para o Grêmio Atlético Farroupilha, onde participou do time que ficou conhecido como “Academia Tricolor”, que marcou época nas décadas de 1960 e 1970.

O time base do Farroupilha era: Caramuru – Cascudo – Osmarino - Zéquinha ( Noel) e Betinho. Noredim e Gilnei. Celso – Lelo - Wilson Carvalho e Dias. Depois de encerrar a carreira de jogador foi técnico do próprio Farroupilha.

Segundo registro do jornalista Augusto Santos, Izídio era o técnico do Farroupilha em 1980 quando este venceu o Grêmio Portoalegrense, em pleno Estádio Olímpico, em Porto Alegre. Foi homenageado em 2001 como ex-atleta do Farroupilha.

Quando o escritor pelotense Manoel Soares Magalhães soube do fato, ficou sem saber o que pensar. Confira a seguir sua crônica.

Dizer o quê de um atleta que jogou profissionalmente e jamais fez um gol. Até hoje não havia pensado nessa possibilidade. Achava impossível existir um jogador que não tivesse feito pelo menos um golzinho. Um meio gol, talvez, com a ajuda do goleiro, do montinho artilheiro, de um Deus de plantão, cuja benevolência extrapolou.

Folheando o excelente livro escrito por Marco Antonio Damian, escritor e historiador, e de Luiz Cesar Freitas, comentarista e cronista esportivo, chamado “Enciclopédia do Futebol Gaúcho – Volume I - Ídolos e Craques”, lançado em 2009, descobri que houve esse jogador.

Chamava-se Isídio Osório, conhecido como “Cascudo”. Sim, “Cascudo” é o nome do jogador que jamais marcou um gol jogando profissionalmente. Encerrou sua carreira sem nunca ter marcado um gol. Sem jamais ter experimentado na alma a quentura de um gol, revolvendo suas entranhas, arremessando-o às alturas.

O ex-atleta já morreu. O que terá pensado no instante do passamento? Que procurou tratar bem a bola, porém, caprichosa como solista de ópera, frustrou suas expectativas? Difícil saber o que terá imaginado o velho lateral-direito “Cascudo”, cujo profissionalismo e dedicação aos clubes que defendeu fora grande. Isso são coisas intangíveis, inimagináveis.

O fato é que o velho “Cascudo” jamais balançou a rede. Não teve esse gosto. Por uma estranha e infeliz ironia.

Dentre os jogadores que se consagraram na academia tricolor daquela época, e que costumava derrotar Grêmio e Internacional nos jogos no “Estádio Nicolau Fico”, alguns já são falecidos: Osmarino, Gilnei, Lelo e Dias, por exemplo. O treinador tricolor, tenente José Avelino Pires da Fonseca também já morreu.

O Grêmio Esportivo Brasil, que também possuía uma equipe consagrada nesta mesma época, tinha Geovio – Adilson – Jocely - Moacir e Bahia. Caçapava e Birinha. Edy – Oli - Fonseca ou Pintinho e João Borges.

Desse time “Xavante”, já são falecidos Geóvio, Bahia, Caçapava, Edy, Oli, Pintinho e João Borges. O consagrado treinador Paulo de Souza Lobo, o Galego, também já é falecido.

O Esporte Clube Pelotas também possuía um time de respeito: Piva-, Hermínio – Osmar - Walmir e Severo. Serafim ou Luizito e Jara ou Joaquinzinho. Sidnei Buttini-  Leal - Walter e Paraguaio.

Dos atletas da “Boca do Lobo” das décadas de 60 e 70, já são falecidos Hermínio, Osmar (Gauchão), Serafim, Joaquinzinho e Humberto Severo. O famoso treinador Oswaldo Rolla (Foguinho), e o treinador das categorias de base, Getúlio Saldanha, também já morreram.

Nessa época eu morava em Pelotas e trabalhava na imprensa local: Rádios Pelotense e Tupancy, jornal “Diário Popular” e Sucursal da Companhia Jornalística Caldas Júnior.

Era torcedor do Farroupilha, por inspiração do saudoso Gabriel Vargas Campelo, que er sogro do meu também saudoso irmão, Izabelino Tavares. O seu Campelo era dono do “Expresso Ponche Verde”, que transportava cargas de Dom Pedrito, minha terra natal, para o Porto de Rio grande e vice-versa.

Poer isso conheci e fui amigo de muitos jogadores do Farroupilha, nos seus bons tempos.

Também teve destaque no Farroupilha, Luís Carlos Machado, mais conhecido como “Escurinho”, gaúcho de Porto Alegre, onde nasceu em 18 de janeiro de 1950. Morreu em Porto Alegre mesmo, em 27 de setembro de 2011, aos 61 anos de idade.

Perdeu a batalha para a diabetes que já tinha sido responsável pela amputação de uma perna. Quando morreu morava em Guaíba, tendo enfrentado dificuldades financeiras, mas conseguiu ajuda junto ao Internacional e por alguns dirigentes e conselheiros do clube.

“Escurinho” teve dois filhos, D’Marcelus e Cássius, que tentaram a sorte no futebol. Jogaram nas categorias de base de Grêmio e Internacional e por clubes do interior, mas em momento algum alcançaram o sucesso do pai. D’Marcelus jogou, também, no Paraná.

Eu conheci bem o “Escurinho”. No tempo que ele jogou no Farroupilha fizemos uma sólida amizade. Era um cara espetacular, ótimo sambista e compositor. Ele chegou ao clube por empréstimo, junto do também atacante Pedro.

Anos depois os dois atuaram juntos no Palmeiras, de São Paulo. Em fim de carreira teve passagens discretas, por Caxias e Novo Hamburgo.

Contam que era muito cuidadoso com a imagem. Vestia bem, gostava de usar calça branca, apertada, sapatos brancos, sempre bem lustrados, e camisa “volta ao mundo”, quase sempre estampadas e coloridas.

O que ele mais cuidava era o cabelo, sempre bem penteado. Gostava do “Black Power”, que era moda na sua época. Dizem que ficava duas horas antes do treino, e outras duas horas, depois, ajeitando a cabeleira arredondada, usando como pente, um garfo comprido.

“Escurinho”, certa ocasião foi convidado para participar de um programa de esportes da TV Tuiuti, Canal 4, hoje RBS TV, quando seria entrevistado ao vivo.

Botou a melhor roupa, penteou o cabelo por três horas e ai notou que sua calça de linho, branca, tinha uma pequena rasgadura, bem acima do zíper, coisa de meio centímetro, imperceptível.

Mas mesmo assim, “Escurinho” entrou em pânico. Já era seis da tarde e o programa era as sete. O táxi estava para chegar e de nada adiantava os companheiros dizerem que ninguém iria notar.

Quem o convenceu que ninguém ia notar, foi o companheiro Izidio Osório, o “Cascudo”. Mas alguns jogadores mais sacanas, entre os quais o goleiro César, não quiseram perder a oportunidade de fazerem uma brincadeira como colega.

Foram todos para a calçada, frente o Estádio, encostados na parede. Quando Escurinho apareceu, para embarcar no taxi, gritaram ao mesmo tempo: “Pô Negão, tu vai na TV com essa calça rasgada. Tu tá com um baita rasgo em cima do fecho. Vai trocar de calça, pô”.

E “Escurinho”, chorou de raiva, abraçado ao técnico “Cascudo”. Disse que não iria mais. Que ia passar vergonha. E só depois de ser convencido que tudo não passava de uma brincadeira, é que Escurinho embarcou no táxi, rumo ao programa de TV, e ainda assim, desconfiadíssimo. (Pesquisa: Nilo Dias)



domingo, 28 de agosto de 2016

A morte do "Bugre Xucro"

Alcindo Martha de Freitas, mais conhecido como Alcindo, nasceu na cidade gaúcha de Sapucaia do Sul, no dia 31 de março de 1945, e morreu em Porto Alegre, no dia 27 de agosto de 2016, na idade de 71 anos.

O ex-jogador de futebol estava internado no Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Porto Alegre, há mais de três meses devido a complicações originadas pela diabetes.

Em julho, o Grêmio chegou a fazer uma campanha junto aos seus torcedores para a doação de sangue ao ídolo, que defendeu a camisa gremista entre 1964 e 1971, e também em 1977, somando 264 gols no clube, sendo 13 em Gre-Nais.

Com passagens também pelo Santos e pelo futebol mexicano, foram 636 gols marcados na carreira. Em 1966, fez parte do elenco que tentou o tri na Copa do Mundo disputada na Inglaterra.

Alcindo começou a carreira nas categorias de base do Aimoré, de São Leopoldo, tendo depois sido transferido para os juvenis do Lansul, de Esteio. Quando de um jogo com os aspirantes do Internacional, em 1958, Alcindo, que tinha apenas 13 anos de idade foi contratado pelo time colorado.

Ao final dos anos 50 foi dispensado pelo Internacional, em razão de ter pedido uma ajuda de custo para poder comparecer aos treinos. Por isso foi parar nas categorias de base do Grêmio, que o emprestou ao S.C. Rio Grande, de Rio Grande, em 1963, onde teve destacada atuação.

No ano seguinte retornou ao Grêmio para jogar nos profissionais do clube. No Tricolor, formou uma boa dupla de ataque com João Carlos Severiano. Em 1972 foi para o Santos, convidado por Carlos Alberto Torres e atraído por jogar com Pelé.

Em 1973 foi jogar no Jalisco, do México, a convite do treinador Mauro Ramos. Ainda no México, se transferiu para o América. Foi lá na Cidade do México que nasceu seu filho, Juan Carlos.

O “Bugre Xucro”, apelido dado pelo narrador paulista Geraldo José de Almeida, estreou com a camisa tricolor em 1964. Tinha uma jogada mortal: recebia a bola na entrada da área e, de costas para o gol, protegia-a com o corpo e girava rápido, para o chute certeiro.

Veloz, fazia a festa com os lançamentos milimétricos do meia Sérgio Lopes. Alcindo tinha na força física e na intimidade com o gol adversário as suas principais virtudes. 

Se consagrou como o segundo maior artilheiro da história dos Grenais com 13 gols, ficando atrás apenas de Luiz Carvalho, que marcou 17 vezes pelo tricolor no clássico. É o primeiro jogador, na lista dos 10 maiores artilheiros do clube, com 231 gols ao todo.

Jogou a Copa do Mundo de 1966 pela Seleção Brasileira. Com a camisa canarinho fez sete jogos, sendo quatro vitórias, dois empates e uma derrota. Marcou um gol. Seu companheiro de ataque foi Tostão. Encerrou a carreira profissional em 1978, consagrado como um dos maiores ídolos da história do Grêmio.

Alcindo é o maior goleador do Olímpico. Foram 129 gols em 186 jogos. No total, ali e em outros campos, em 11 anos de Grêmio, ele fez 231 gols em 377 partidas. O Olímpico foi o seu templo.

Alcindo inspirou milhares de crianças e adolescentes a serem gremistas. A maioria, que ouvia a narração das partidas pelo rádio, nunca o viu jogar. O centroavante foi a estrela de um time vencedor, numa época em que a competição regional dava a medida da rivalidade Gre-Nal.

Alcindo estreia num Gre-Nal no dia 23 de abril de 1964, uma quinta-feira à noite. Havia completado 19 anos no dia 31 de março. O Grêmio tinha Arlindo, Renato Silva, Airton, Áureo, Ortunho, Cleo, Marinho, Sergio Lopes, Joãozinho, Alcindo e Vieira. O Inter vinha com Gainete, Edmilson, Rui, Luís Carlos, Sadi, Sapiranga, Parobé, Nilzo, Vanderley, Gaspar e Cacildo.

Aos 25 minutos do primeiro tempo, Alcindo faz o que considera o gol mais importante da sua vida, porque o consagra na estreia de um Gre-Nal. O lateral Renato Silva chuta de longe, a bola bate no joelho de Gainete, e o Bugre marca no rebote. Aos 35 minutos, Alcindo marca de novo.

Alcindo adorava Gre-Nal. Jogou 31 clássicos, ganhou 11, perdeu nove e empatou 11. Fez 12 gols em Gainete, Schneider, Silveira, Guaporé e Manga.

Quantos viram Alcindo jogar? Logo que parou, ele sonhava que continuava fazendo gols. O pesquisador Laert Lopes sabe que, se Alcindo fez 129 gols em 186 jogos no Olímpico, sua média era de dois gols a cada três partidas. Em 57 jogos na Arena, Barcos fez 14 gols. Um gol a cada quatro jogos. Não há como não ter saudade de Alcindo.

Fica a memória do “Estádio Olímpico”, com números também monumentais. Desde o primeiro jogo, no dia 19 de setembro de 1954, até o último, em 17 de fevereiro de 2013, o Olímpico teve 1.768 partidas. O Grêmio venceu 1.159 vezes, empatou 382 e perdeu 227. Fez 3.510 gols, sofreu 1.306.

Títulos. Grêmio: Campeão Gaúcho (1964, 1965, 1966, 1967, 1968 e 1977); Santos: Campeão Paulista (1973); Campeão da Copa dos Campeões Brasileiros (1975); América do México: Campeão Nacional (1976). (Pesquisa: Nilo Dias)


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O adeus a Jonas Cardoso

O rádio gaúcho e brasileiro está de luto com o falecimento ocorrido ontem (24) do diretor da Rádio Minuano, de Rio Grande, Joanes Vladimir Lázarus da Cunha Cardoso ou simplesmente Jonas Cardoso, como era mais conhecido pela sua grande legião de ouvintes.

Tinha 62 anos de idade. Os amigos mais íntimos o chamavam carinhosamente de “Carioca” ou “Sapo”. O sepultamento é hoje (25), saindo da capela A, às 11 horas.

Natural de Carazinho (RS), onde nasceu em 25 de junho de 1954, mudou-se para Rio Grande em meados da década de 1960, tendo trabalhado nas três emissoras AM da cidade, Cultura Riograndina, Cassino e Minuano, da qual era diretor nas últimas quase duas décadas.

E também nos jornais “O Tempo” e na Sucursal da Empresa jornalística Caldas Junior, junto com o também saudoso Marcos Rezende e com a amiga Iara Bandeira, da qual nunca mais tive notícias. E por fim na Assessoria de Imprensa da prefeitura de Rio Grande.

Creio que em sua última passagem pela Cultura Riograndina foi levado por mim, ao tempo que a emissora era dirigida pelo saudoso Paulo Nahuys Coelho e pertencia ao Grupo Delfim. Ele foi comentarista e repórter esportivo, além de noticiarista e apresentador de programas musicais.

Em passagem anterior pela emissora, Jonas apresentava um programa vespertino chamado "Super Som Dimensionado", isso lá pela metade dos anos 1970.

Ainda hoje pela manhã, conversando com o amigo e jornalista Willy César lembrei de um costume diário do Jonas. Todas as manhãs quando chegava na emissora, no velho prédio da Silva Paes, ao passar pelo corredor que levava aos banheiros da emissora, sempre levando o jornal “Zero Hora” embaixo do braço, parava na janela do Departamento de Esportes e Jornalismo da emissora, ambos dirigidos por mim e se dirigia a minha esposa Teresinha Motta, que era repórter e dizia: “Terê, vou tirar um barro”. 
  
Não esqueço das idas diárias ao “Bar Minuano”, que ficava na Silva Paes esquina Andrade Neves, bem próximo da rádio, onde derrubávamos as cervejas do meio-dia e depois almoçávamos por lá.  A noite o endereço era o “Bar do Beledón”, também na Silva Paes, esquina com a Praça Tamandaré.

O Beledón era um uruguaio, que preparava o melhor mocotó da cidade. Era um boa praça, que depois de fechar o bar costumava tomar a “saideira” no bar do abrigo de ônibus, na Praça Tamandaré. Ele morava no “Lar Gaúcho”, e certa vez exagerou na dose e entrou dentro do lago que existia ou existe, ainda, na Refinaria de Petróleo Ipiranga. Foi salvo por um dos guardas da indústria.

Mas essa é outra história. No "Bar do Beledón" a gente acompanhava os jornais local e nacional da TV. Na época eu estava na Zero Hora e TV Rio Grande. Era grande a concorrência com a Caldas Júnior, onde o Jonas e o Marcos Rezende trabalhavam na Sucursal.

Certa ocasião eu fiz uma reportagem exclusiva em São José do Norte, quando do resgate de um barco pesqueiro, o “Brasil Atlantic V”, que havia sido jogado na praia após um tremendo temporal na costa nortense.

Jonas e Marcos, apavorados assistiram a reportagem e só não me chamaram de santo, porque não era. Mas rivalidades jornalísticas a parte éramos todos grandes amigos.

Aos domingos o programa era diferente. A gente ia ao Clube de Regatas Rio Grande ou ao Hipódromo da Vila São Miguel, que lamentavelmente não existe mais. Quando chovia o galho era quebrado no "Restaurante Tamandaré", frente a praça de igual nome.

Vez por outra nos aventurávamos a locais mais longe do centro da cidade, como o “Bar Gato Preto”, passando o pórtico. E a gente não desprezava nenhuma festa, fosse longe ou perto.

Em outra oportunidade eu e o Jonas acompanhamos o nosso Rio-Grandense até São Gabriel, para o jogo decisivo pelo campeonato de Ascenso do Rio Grande do Sul. O nosso time perdeu nos pênaltis. Ao chegarmos em Rio Grande, quase ao clarear do dia, deu ainda para tomarmos a saideira no Bar do Abrigo.

Jonas também foi atleta. Excelente goleiro de futebol de salão, defendeu por muitos anos o time do Bossa Nova, clube riograndino de futebol de salão que se sagrou campeão estadual em 1974. Depois jogou no Rio-Grandense futebol de salão, que era dirigido pelo saudoso Bento Castelã.

E também brincava no time do "Bar Minuano", onde eu também jogava e o pessoal me chamava de “Geraldão”, em referencia ao atacante que na época jogava no Internacional, de Porto Alegre. Modéstia a parte, eu era um artilheiro nato.

Na década de 1960, antes de se mudar para Rio Grande, Jonas já atuava como goleiro de futebol de salão e de campo em sua terra natal, Carazinho.

O amigo comum, jornalista Willy César escreveu em sua página no Facebook:

“Aprendi a gostar do Jonas, ouvindo seus programas em rádio, no início dos anos 1970. Lembro de uma parada de sucessos aos sábados, à noite, na Rádio Cultura Riograndina, programa que simplesmente adorava, na inocência dos meus 14 anos. Foi um dos meus ídolos do rádio.

Quis o destino que nos tornássemos amigos e colegas de profissão, no rádio e no jornalismo. Trabalhamos em rádio, no mesmo momento, ele na Cassino, depois na Minuano; eu na Rádio Universidade FM, atual Furg FM.

E entre os anos de 1997 e 2001, atuamos juntos no Gabinete de Imprensa, da Prefeitura Municipal de Rio Grande, como repórteres. Foi um aprendizado muito bom para ambos.

Com ele, aprendi muitos macetes do fazer jornalístico dentro da Prefeitura, situação familiar a ele. Eu dei algumas dicas como escrever em computador, pela primeira vez na vida dele, e dali, deslanchou.

Entrevistei-o na Rádio da Furg, em 1992. Voz linda, perfeita. Ele contou passagens de sua vida como goleiro de futebol de campo e salão. Atuando no Bossa Nova, como goleiro, foi campeão estadual de futsal. Também revelou detalhes incríveis de sua vida de radialista e jornalista. Esta gravação está no Museu da Comunicação "Rodolfo Martensen"/Furg.

Como delegado regional dos jornalistas de Rio Grande, tive a incumbência de montar o processo para obtenção de registro de jornalista profissional, que lhe foi entregue em 1993, embora já atuasse desde os anos 1970.

Foi um exemplo para todos nós. Quando apareceram dois cânceres na garganta, livrou-se deles, um após o outro, mas perdeu a voz. Lutou como um leão, submeteu-se a um transplante de rim, fez diálise, até a hora da morte. Há poucos dias, teve uma perna amputada, mas já pensava em adquirir prótese mecânica. Continuava lutando pela vida.

Como excelente goleiro que foi, defendeu-se das envenenadas "bolas" da morte, matando-as no osso do peito algumas vezes, partida que só perdeu agora, deixando-nos tristes e melancólicos. Foi um bravo, um guerreiro incansável, exemplo que serve a todos os seus familiares, e aos seus amigos e colegas, que com ele aprendemos e juntos crescemos na profissão de radialistas e jornalistas.

Muita luz na reentrada celestial, parceiro Jonas Cardoso. Abraços carinhosos aos irmãos e sobrinhos”.

A última vez que vi o Jonas foi em 2011, em uma bonita festa na Pizzaria Passione, na avenida Domingos de Almeida, em Rio Grande, quando de uma festa organizada pelo Willy César e o Célio Soares, em minha homenagem, com a presença de amigos da imprensa e do F.B.C. Rio-Grandense.

Também foi a última vez que vi o amigo comum Ney Amado Costa. Havia uma particularidade entre eu o Jonas e o Ney. Os três torcíamos pelo Rio-Grandense e pelo Internacional, de Porto Alegre. Mais pelo colorado riograndino, é claro.

Conto essas historinhas para lembrar da grande amizade que nos uniu por mais de 40 anos. Tempo bom que não volta mais. Mas fica a lembrança que nada pode apagar. Que descanse em paz. (Texto: Nilo Dias)

Eu e Jonas, no Bar Minuano, em 2011. (Foto: Meu arquivo pessoal(

Time do Bossa Nova, campeão estadual, com Jonas no gol. (Foto: Arquivo de Claudio Carvalho de Moura)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

“Silva Cão”, o endiabrado

Averaldo Dantas da Silva, conhecido como Silva "Cão", nasceu em 9 de maio de 1948, no bairro do Mutange, em Maceió. O apelido ganhou quando ainda era criança e jogava futebol na rua. E o acompanha até hoje. Silva cresceu sendo chamado de “Cão” por causa de seu estilo de jogo incisivo. Chegou até a ser comparado ao “diabo” porque costumava infernizar os adversários.

O futebol de Alagoas pode até não ser dos mais adiantados do país, o que não impede que muitas vezes surjam jogadores de alta condição técnica e que acabam se transferindo para centros maiores. Foi o caso dele, considerado até hoje um dos maiores ponteiros esquerdos do futebol alagoano.

Aos 16 anos, foi campeão jogando no Bebedourense, time amador de Maceió, quando ainda era um pré-juvenil. Após sair do Bebedourense, foi levado ao CSA, mas não foi aproveitado porque o então técnico Hélio Miranda o achava magrinho e só servia para cruzar a bola.

Rejeitado no time azulino, o então dirigente Binel o viu jogar e o levou ao CRB. Lá ele ficou e o CRB adquiriu o seu atestado liberatório dando em troca uma série de meiões ao Bebedourense. Naquela época, 1965, ainda era um juvenil.

Hábil e driblador, "Silva Cão", aos 18 anos já era titular do CRB. Seu estilo de jogo era mesmo esfuziante. Oportunista e manhoso, o craque superava seus adversários com muita categoria. Seus dribles sensacionais deixavam, quase sempre, em polvorosa as defesas adversárias.

Em 1965, jogando pelo CRB surgiu como a grande revelação do campeonato. Seu primeiro treinador foi Claudinho que confiou no futebol e o lançou no time principal. Aos 18 anos já era um craque cobiçado pelo Sport de Recife, mas o CRB não o deixou se transferir para o futebol pernambucano.

Na sua estreia no profissional do CRB, em 1966, Silva estreou contra o time do extinto Estivadores e marcou o gol da vitória do Galo por 1 X 0 no campo da Pajuçara, o velho “Estádio Severiano Gomes Filho”.

Mas o bom foi a partida seguinte, uma quarta-feira à noite, também no campo da Pajuçara, que, na época, tinha iluminação. O CRB ganhou por 3 X 1 do CSA e “Silva Cão” fez os três gols. Foi a consagração mesmo no início da carreira. Daí em diante, deslanchou.

Nesse período foi campeão alagoano em 1969. Quando surgiu a oportunidade para ir jogar no Vasco da Gama, o clube da Pajuçara fechou o negócio e Silva teve bons momentos em São Januário.

Retornou ao CRB em 1972, e se transformou mais uma vez no grande destaque da equipe. Ganhou os títulos de campeão nos anos de 1972/73 e o tetra campeonato 1976/77/78/79.

Silva se destacava nas cobranças de pênaltis. Uma pequena corrida, a bola colocada num canto e o goleiro no outro. Essa era a fotografia da cobrança de um pênalti por Silva.

Foi o jogador a disputar mais jogos na história do clássico entre CRB e CSA, com 95 participações. Silva tem um recorde nacional de gols em clássicos regionais. Marcou, nada menos, que 65 gols no clássico alagoano, superando até mesmo a marca de Pelé contra o Corinthians que é de 50 gols.

Foi artilheiro dos Campeonatos Alagoanos de 1968 (11 gols), 1972 (21 gols) e 1977 (16 gols). Foi sete vezes campeão alagoano pelo CRB (1969/72/73/76/77/78/79). E  três vezes artilheiro do Campeonato Alagoano (1968/72/77)

Diferentemente de outros personagens, "Silva Cão" garante que nunca sofreu discriminação dentro do futebol por causa do preconceito de cor nos seus quase 20 anos como jogador. E rodou o Brasil jogando por times intermediários e grandes, como o Vasco da Gama, em 1967, Vitória (BA), e o Sport, do Recife, nos anos 70.

Ele sabia que companheiros seus sofreram discriminação por causa da pele, principalmente no Náutico, do Recife. Dizia que por lá, houve uma época que a coisa era pesada. Quando chegou ao CRB, jogadores que foram ídolos no final dos anos 50 e nos anos 60, como o atacante Xavier, não podiam frequentar as festas do clube, por pura discriminação.

Ele, no entanto, salienta que a única coisa que poderia soar como uma suposta discriminação era o fato de a torcida do CSA, sua maior vítima, o apelidar de “Wanderleia”, em alusão à cantora e musa da Jovem Guarda. 

Houve um tempo que quando ele partia para cima do marcador, se fosse do CSA, a torcida o chamava de "Wanderleia, porque antes de dar o bote e o drible, rebolava muito na frente do cara.

Daí a razão do apelido de Wanderleia". Ele revela que Ciro foi quem o marcou melhor ao longo da sua bem-sucedida carreira.

Ao lado de “Silva Cão”, tinha o Geraldo Alves dos Santos, o Geraldo "Cassetete", jogador do rival CSA. Hoje amigos, ponta-esquerda e lateral-direito travaram embates memoráveis no gramado do “Trapichão”. 

“Silva Cão”, endiabrado, infernizava a zaga azulina, enquanto “Cassetete”, viril, parava as jogadas do “Galo”, muitas vezes com faltas, chegando a quebrar um braço do colega de profissão em disputa de uma bola.

Geraldo conta que ganhou o apelido de “Cassetete” quando já havia se profissionalizado. Por causa de suas entradas mais ríspidas, o narrador Arivaldo Maia, da Rádio Gazeta, foi o idealizador da alcunha que o consagrou como carrasco dos pontas do futebol alagoano. 

Ele tinha o costume de adjetivar os jogadores da época. Graças a ele, ficou reconhecido como “Geraldo Cassetete”. Na rua, as pessoas só o conhecem pelo apelido.

O radialista lembra também do “Jorge da Sorte”, que jogou no CRB e no Ferroviário. Ele costumava ficar no banco de reservas, mas, quando entrava em campo, sempre marcava o gol da vitória do seu time. Ele era um talismã e realmente dava sorte às equipes que defendia. Além dele, teve também o “Capeta”, entre tantos outros ícones do nosso futebol, dizia.

“Silva Cao” conta que a própria torcida do CRB cobrava que ele driblasse Geraldo, mesmo que este o quebrasse ao meio. Já o lateral dizia que era cobrado pelos seus torcedores para que tirasse o atacante de campo, pois, ele sempre se dava bem contra o CSA nos clássicos. A missão de Geraldo era não deixar ele jogar, e não importava como.

O curioso é que, após a aposentadoria, a dupla, agora, dedica-se aos números. E se engana quem pensa que a contabilidade diz respeito ao futebol. É que ambos passaram a trabalhar com finanças. Silva, já com 68 anos, atua como contador da Secretaria de Estado da Assistência e Desenvolvimento Social (Seades), enquanto Geraldo, que tem 59, é servidor do Tribunal de Contas do Estado de Alagoas (TCE).

Hoje, Silva e Geraldo vivem a harmonia de uma amizade que, no passado, esteve longe de existir, com direito à provocação antes, durante e após o jogo. “Silva Cão” era um ponta habilidoso, vindo a se tornar o maior artilheiro do clássico das multidões. Já o segundo, um implacável lateral-direito, cuja vontade com a qual entrava em campo deixou marcas em ambos.

Silva, que é também comentarista esportivo, afirma que Geraldo foi o seu maior algoz. O artilheiro diz que ainda carrega consigo as lembranças da rivalidade, um braço quebrado numa jogada pela linha de fundo em que ele chegou forte e o derrubou com um carrinho. Na queda, sofreu a fratura e ficou ausente do time por vários dias.

O ex-ponta do CRB conta que nunca alimentou nenhum rancor e que sabia que aquele era o estilo de jogo do amigo Geraldo, apesar de, à época, o pai de “Silva Cão” ter desejado vingar o filho quando “Cassetete” foi visitá-lo no hospital. Seu pai foi quem ficou furioso com ele e quase o expulsou do quarto.

Apesar da fama de jogador violento, Geraldo garante que apenas seguia as orientações de seus treinadores. Destacou que seu estilo de jogo tinha a força como principal característica, assegurando, no entanto, que nunca agiu de forma desleal. Para ele, Silva foi o adversário mais difícil de marcar, preparando-se de maneira diferenciada para enfrentá-lo.

Explica que não era violento, sempre foi um jogador de marcação firme. Não deixava ninguém passar. Sempre visava à bola quando estava dentro de campo. Confessa, porém, que a sua preparação era outra quando não tinha o Silva pela frente, pois, sabia que, se vacilasse, tomaria muitos dribles.

Contratado pelo CSA em 1981, “Silva Cão” finalmente se viu livre dos pontapés dados pelo algoz Geraldo. E como ambos passaram a ser companheiros de time, a amizade, que dura até hoje, logo se fortaleceu.

Residindo em bairros próximos, “Cão” passou a dar carona para “Cassetete” em idas e vindas para os treinamentos no “CT Gustavo Paiva”, no “Mutange”. (Pesquisa: Nilo Dias)


"Silva Cão" e "Geraldo Cassetete", hoje são amigos. (Foto: Fillipe Lima)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A morte de João Havelange

Morreu hoje no Hospital Samaritano, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro o advogado, empresário, atleta e dirigente esportivo brasileiro Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, mais conhecido como João Havelange.

Ele estava internado para tratamento de uma pneumonia desde julho. O corpo foi enterrado à tarde, no cemitério São João Batista.
No final do ano passado, Havelange foi internado no mesmo hospital em decorrência de problemas pulmonares. Ele havia completado 100 anos de idade no último dia 8 de maio.

Em junho de 2014, ele foi internado por causa de infecção respiratória e permaneceu no mesmo hospital, em Botafogo, por quatro dias até receber alta.

Já em 2012, Havelange chegou a ficar em estado grave com quadro de infecção bacteriana, mas recebeu tratamento no mesmo local e se recuperou. Desta vez, o ex-dirigente não resistiu aos problemas de saúde.

Era filho do belga Faustin Havelange, um comerciante de armas radicado no Rio de Janeiro, que possuía uma grande propriedade que se estendia pelos atuais bairros de Laranjeiras, Cosme Velho e Santa Teresa.

Durante entrevista no programa da SporTV, "Histórias com Galvão Bueno", João Havelange contou que após a morte de seu pai, recebeu convite de uma empresa belga para dar continuidade aos negócios do comércio de armas de seu pai.

Mas não aceitou, dizendo que tinha verdadeira aversão a armas, por se tratar de instrumento de morte e violência. E declarou que nunca teve uma arma em sua vida.

Havelange, que nasceu no Rio de Janeiro em 8 de maio de 1916, desde a infância se dedicou aos esportes. Como atleta praticou natação e polo aquático profissionalmente, obtendo uma medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de 1955.

No Fluminense, foi escoteiro e atleta, infantil, juvenil e adulto, destacando-se em vários esportes, inclusive no futebol, pois em 1931 foi campeão carioca juvenil.

Ainda nesta década graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense e competiu como nadador nas Olimpíadas de Berlim, em 1936. Brilhou como jogador de pólo aquático em Helsinque, em 1952, além de comandar a delegação brasileira em Melbourne, em 1956.

Posteriormente, foi dirigente de esporte, inicialmente na Federação Paulista de Natação, já que residia em São Paulo na época, em 1948. Quando retornou ao Rio de Janeiro em 1952, se tornou Presidente da Federação Metropolitana de Natação e vice-presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD).

A essa época já havia se formado advogado e além de acionista, ocupava o cargo de diretor executivo da Viação Cometa, tradicional empresa de transporte rodoviário de passageiros que opera nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná.

Havelange presidiu a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) de 1956 a 1974, como sucessor de Sylvio Correa Pacheco. Na época a entidade, além do futebol, congregava 24 modalidades esportivas.

Foi nesse período que o futebol brasileiro teve maior sucesso, sagrando-se Tricampeão Mundial de Futebol nas conquistas das Copas do Mundo de 1958, na Suécia, de 1962, no Chile e de 1970, no México.

Depois foi eleito o sétimo presidente da FIFA, cargo que ocupou de 1974 a 1998, substituindo a Sir Stanley Rous. Ao sair, foi sucedido por Joseph Blatter. De 1963 a 2011, foi membro do Comitê Olímpico Internacional. Com mais de 40 anos de mandato ininterrupto, foi decano desse órgão. Foi um dos dois únicos brasileiros que foram membros do COI. O outro foi Carlos Arthur Nuzman, atual presidente do Comitê Olímpico Brasileiro(COB).

Em 1998 foi eleito Presidente de Honra da FIFA, sendo também torcedor e presidente de honra do Fluminense. Apesar de ser torcedor do tricolor carioca, Havelange também foi presidente do Vasco da Gama.

Em 1 de Setembro de 1960 foi eleito Comendador da Ordem da Instrução Pública e a 28 de Fevereiro de 1961 foi eleito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

A 13 de Novembro de 1963 foi elevado a Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública. A 21 de Junho de 1991 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito. Em 2010, foi eleito a "Personalidade do ano de 2009" no prêmio "Faz Diferença" do jornal O Globo.

Eleito para a FIFA em 1974 permaneceu à frente da entidade até 1998. Organizou seis Copas do Mundo, visitou 186 países e trouxe a China, desligada por mais de 25 anos por razões políticas, de volta à FIFA. Criou também os Campeonatos Mundiais de Futebol nas categorias infanto-juvenil, juvenil, juniores e feminina.

Neste período, tornou-se amigo de Horst Dassler, herdeiro da marca esportiva Adidas, e dono da ISL, considerada a maior empresa de marketing esportivo do mundo, que comercializa os direitos de televisionamento e publicidade das Copas do Mundo de futebol e das Olimpíadas.

Quando deixou a Presidência da FIFA, em 1998, já eleito Presidente de Honra, passou a se dedicar ao trabalho filantrópico junto às Aldeias Internacionais SOS, patrocinado pela entidade em 131 países. Ganhou prêmios por isso e foi cotado para ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz.

Em abril de 2013, aos 96 anos de idade, suspeito de envolvimento em casos de corrupção, renunciou à Presidência de honra da FIFA para escapar de qualquer punição.

Dois anos antes, ele já havia deixado de ser membro do Comitê Olímpico Internacional (COI). Nos dois casos, Havelange foi acusado – ao lado de inúmeros outros dirigentes – de receber propinas da empresa de marketing ISL em troca de contratos de transmissão para a Copa do Mundo.

O jornalista investigativo Andrew Jennings, em seu livro “Foul! The Secret World of FIFA: Bribes, Vote-Rigging and Ticket Scandals”, lançado em 2006, descreve Havelange como um dirigente corrupto.

Segundo o escritor, o filho do fundador e ex-diretor da Adidas, Horst Dassler, comprou votos de delegados indecisos na primeira eleição de Havelange. Dois anos depois, o brasileiro retribuiu o favor entregando a Dassler o poder exclusivo sobre a comercialização dos principais torneios mundiais.

Por outro lado, Havelange foi apontado em pesquisa realizada pelo COI, em 1999, como um dos três maiores “Dirigentes do Século”, junto do Barão Pierre de Coubertin, fundador do COI e idealizador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, e o ех-Presidente do órgão, Juan Antônio Samaranch.

Durante sua vida Havelange colecionou medalhas, como a “Legion d'Honneur” (França), “A Ordem de Mérito Especial em Esportes” (Brasil), “Comandante da Ordem do Infante Dom Henrique” (Portugal), “Cavaleiro da Ordem de Vasa” (Suécia) e, em 2002, recebeu do reitor Paulo Alonso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o título de “Doutor Honoris Causa”.

O “Engenhão”, no Rio de Janeiro tinha o nome oficial de “Estádio Olímpico João Havelange”, que depois foi mudado para “Estádio Olímpico Nilton Santos”, cedido em comodato ao Botafogo. Em Uberlândia, o maior estádio multiuso do interior do Estado de Minas Gerais tem o nome de João Havelange.


Apesar de sua morte ter ocorrido em meio à realização dos jogos olímpicos em sua cidade, e da importância que teve na articulação da escolha do Rio de Janeiro como sede, o COI se negou a prestar homenagens ao seu ex-membro.  (Pesquisa: Nilo Dias)

João Havelange, em foto 2010 (Foto: Wikipedia)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A morte de um ídolo colorado

O futebol do Rio Grande do Sul perdeu no domingo, 31, um de seus maiores expoentes, Olávio Dorico Vieira, mais conhecido como “Vacaria”, lateral esquerdo que foi campeão brasileiro pelo S.C. Internacional, de Porto Alegre e destacado treinador em clubes do Sul e Centro Oeste do país. Era natural de Urussanga (SC), onde nasceu no dia 26 de janeiro de 1949, Estava com 67 anos quando morreu.

O óbito ocorreu em Canoas, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre onde morava. Vacaria estava em coma induzido desde a manhã de sábado e não resistiu.

O ex-jogador tinha um histórico de problemas de saúde. Em 2013, ele sofreu um AVC e foi internado em Santa Catarina. No ano passado, foi encontrado desacordado em casa pela família, diagnosticado com hepatite C e internado em Novo Hamburgo.

O velório do ídolo colorado ocorreu às 18h de sábado, no Cemitério Ecumênico de São Leopoldo. O sepultamento foi no mesmo local, às 16h do domingo.

Vacaria começou a carreira no time do Urussanga, de sua cidade natal, sem ganhar nada. Dali foi para o “Bota de Ouro”, de Vacaria, para jogar como ponta esquerda em troca do hotel e 10 cruzeiros por semana.

Era pouco, mas já era alguma coisa para quem tinha planos de um dia chegar em Porto Alegre. O Glória de Vacaria o contratou quando tinha apenas 16 anos. Com 18 anos, o jogador se tornou atleta profissional e rumou ao G.E.R. 14 de Julho, de Passo Fundo.

No time passofundense foi campeão da Série B gaúcha em 1968. Graças as suas boas atuações, chamou a atenção de outros clubes. Sempre teve qualidades de bom marcador e era dono de um poderoso chute de canhota, especialmente em bolas paradas.

Alguém podia pensar que ele nasceu em Vacaria ou tenha morado lá. Nada disso. O apelido veio de forma curiosa. Num treino do 14 de Julho, ele rebateu uma bola com tanta força que ela saiu do estádio, passando por cima da arquibancada. E um jogador, seu colega, não resistiu e disse em tom de gozação: “Essa bola foi parar lá em Vacaria" (a 190 km de Passo Fundo).

No ambiente de vestiário todo mundo tem que ter um apelido, então o pessoal começou a lhe chamar de Vacaria, pois havia jogado antes no Glória. O nome pegou e até hoje o carregou com muito orgulho, dizia.

No time de Passo Fundo trocou a ponta esquerda pela lateral esquerda. Eleito como o melhor lateral esquerdo do campeonato estadual de 1970, o técnico do Internacional, Daltro Menezes, mandou buscá-lo.

Em 1970 foi contratado pelo Internacional, de Porto Alegre. No time colorado Vacaria viveu seus melhores momentos como jogador de futebol. Mesmo se sagrando bicampeão gaúcho em 1970 e 1971, não se firmou como titular, tendo sido emprestado ao Figueirense, onde foi campeão catarinense em 1972. 

Em Santa Catarina, Vacaria se destacou, a ponto de chamar atenção de clubes de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1973 retornou ao Internacional, dessa vez para ser titular absoluto das equipes formadas por Dino Sani (1972-73) e depois por Rubens Minelli (1974-76).

E colecionou títulos. Sagrou-se novamente campeão gaúcho em 1973, 1974, 1975 e 1976, além de bicampeão brasileiro em 1975 e 1976, ao lado de monstros sagrados como Manga, Figueroa, Falcão, Carpegiani, Valdomiro e Lula.

Vacaria participou de todos os jogos da vitoriosa campanha de 1975, mas ficou fora da final contra o Cruzeiro, de Belo Horizonte, por causa de uma lesão. A conquista de 1975 é até hoje a de melhor desempenho de um clube na história do Campeonato Brasileiro, com 19 vitórias em 23 jogos disputados.

Com 1m75 e 71 kg, era definido de forma bem humorada por Falcão como um encurvado “Frango d’água”.

Em 1977 deixou novamente o Internacional, se transferindo para o Palmeiras, de São Paulo. No clube alviverde chegou novamente a final do Brasileiro em 1978, mas perdendo o título para o Guarani, de Campinas (SP), onde encerrou a carreira de atleta em 1980.

Conforme registros do Almanaque do Palmeiras, de autoria de Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti, Vacaria disputou 29 partidas pelo alviverde com 16 vitórias, 9 empates, 4 derrotas e 1 gol marcado.

A partir dai passou a trabalhar como treinador, dirigindo principalmente clubes do interior do Rio Grande do Sul. Mas, também dirigiu a categoria Júnior, do Internacional, ganhando o título estadual em 1988.

Fora do Estado treinou o Atlético Paranaense em 1993. Posteriormente ganhou o título catarinense de 1998 pelo Criciúma. Treinando o Avenida, de Santa Cruz do Sul foi campeão da Segundona Gaúcha, em 1999. Repetiu o feito em 2000, treinando o Novo Hamburgo, e em 2003, no Porto Alegre.

Depois do anilado hamburguês, Vacaria passou a treinar apenas clubes pequenos. Em janeiro de 2008 foi contratado pelo Sinop, que terminou o campeonato matogrossense em 12º lugar, entre 20 disputantes. Este foi seu último trabalho.

Atualmente, Vacaria trabalhava no setor de relacionamento social do Inter e participava dos eventos consulares do clube em várias cidades do Estado.

Títulos conquistados como jogador. 14 de Julho, de Passo Fundo. Campeonato Gaúcho da Série B (1968); Internacional. Campeonato Gaúcho (1970, 1971, 1973, 1974, 1975, 1976); Campeonato Brasileiro (1975 e 1976) e Figueirense. Campeonato Catarinense (1972).

Como treinador. Internacional. Campeonato Gaúcho Júnior (1988); Criciúma. Campeonato Catarinense (1998). Avenida. Campeonato Gaúcho da Divisão de Acesso (1999); Novo Hamburgo. Campeonato Gaúcho da Divisão de Acesso (2000) e Porto Alegre. Campeonato Gaúcho da Série B (2003).

No jogo contra o Corinthians, em que o Internacional perdeu por 1 X 0, o clube prestou homenagens ao ídolo. A morte de Vacaria estremeceu e entristeceu não apenas a comunidade colorada, mas seus ex-colegas de elenco no Inter dos anos 70.

Paulo César Carpegiani recordou com saudosismo as constantes brincadeiras do "querido" Vacaria nos vestiários do Estádio Beira-Rio. Disse lamentar profundamente sua morte. Para ele, Vacaria era uma pessoa magnífica dentro e fora de campo. Extrovertido, brincalhão, malandro. De uma picardia incrível.

Outro parceiro de Vacaria, Jair lembrou da alegria esbanjada pelo ex-colega em um jogo recente a que assistiram lado a lado no Beira-Rio. Tricampeão brasileiro, o “Princípe Jajá” ainda ressaltou a parceria do ex-lateral no ambiente do vestiário colorado.

“O Vacaria era uma grande pessoa, um coração grande. Rapaz que sempre colaborou, um cara que não complicava nada. Um cara fora de série. Infelizmente. Perdemos mais um companheiro, lamentavelmente as coisas acontecem. A vida é assim. Levou mais um dos nossos amigos, do grupo da época. A gente é obrigado a aceitar.

Mas o Vacaria, puxa vida, foi um cara que sempre lutou pelos objetivos da vida dele, para os companheiros. Parece que não cai a ficha. Ontem, ele estava lá, com a gente, brincando, conversando. Que que eu vou fazer? Ele vai para o céu. Cumpriu sua tarefa. Um cara do bem. Deus vai abraçá-lo”, disse.

Em seu Twitter, Elías Figueroa, mesmo de longe, no Chile, manifestou tristeza pela morte do "grande amigo". O chileno ainda pediu que Vacaria "voe alto". “Muito triste com o falecimento do meu grande amigo e companheiro. Voe alto, Vacaria. Que Deus te receba em seus braços”, escreveu. (Pesquisa: Nilo Dias)



sexta-feira, 8 de julho de 2016

O zagueiro das pernas arqueadas

Dia desses, não sei por que cargas d’água fui lembrar de Vagner Bacharel, um zagueiro de boa qualidade que jogou em vários clubes do futebol brasileiro, entre eles o Internacional, de Porto Alegre. E fui vasculhar na Internet maiores informações sobre ele, que faleceu aos 36 anos de idade, vítima de um lance casual no campo de jogo, quando defendia o Paraná Clube.

Zagueiro de estilo clássico, com ótimo posicionamento, bom cabeceador e com espírito nato de liderança, Vagner de Araújo Antunes, de apelido Bacharel, nasceu em 11 de dezembro de 1954, no Rio de Janeiro.

Ele fez sucesso por onde passou. Usou a braçadeira de capitão em praticamente todos os clubes que defendeu. Elogiado pela raça e pela qualidade técnica, o “xerifão” começou a carreira no Madureira, do Rio de Janeiro.

Com atuações destacadas pelo pequeno clube carioca na década de 1970, acabou negociado com o Joinville, de Santa Catarina, que na época batia de frente com as grandes potências futebolísticas no Brasileirão.

Depois chamou a atenção de dirigentes do Internacional, de Porto Alegre onde jogou em 1981. Posteriormente, defendeu o Cruzeiro, de Belo Horizonte, em 1982.

Seguro e implacável na marcação, Vagner Bacharel foi comprado pelo Palmeiras no início de 1983 e tornou-se ídolo da torcida alviverde, transformando-se num dos maiores jogadores do clube nos anos 1980.

Formou dupla de zaga com Luís Pereira e marcou 22 gols nos 260 jogos que disputou pela equipe palmeirense, com 102 vitórias, 105 empates e 53 derrotas, de acordo com o “Almanaque do Palmeiras”, de Celso Unzelte e Mário Sérgio Venditti.

Segundo o filho dele, Wagner Antunes Júnior, foi no Palmeiras que ele ganhou o apelido de Bacharel. Gostava de chamar todos os companheiros de bacharel. No final, foi ele que ficou sendo o Bacharel.

Conseguiu o feito de ser um dos poucos jogadores anistiados pela torcida palmeirense depois de a equipe perder a final do Paulistão de 1986 para a Inter de Limeira, numa das maiores surpresas do futebol até hoje.

Indiscutivelmente, foi uma liderança positiva, que sabia como manter o bom ambiente do grupo. Era metódico e sabia discernir qual a hora da cervejinha com os amigos, principalmente após os jogos.

Bacharel acabou entrando na estatística daqueles jogadores que morreram de maneira trágica e que foram esquecidos pela mídia e até pelos torcedores.

A principal virtude dele era o jogo aéreo. Também pudera, tinha mais de 1.80 de altura. Mas também sabia desarmar. Não era qualquer atacante que conseguia driblá-lo. 

Mas tinha um pecado, que muitas vezes se mostrou fatal, era lento demais e tinha dificuldades quando enfrentava atacantes velozes. E também tinha as pernas arqueadas, mas jurava que elas não o atrapalhavam em nada.

Mas os torcedores dos outros times não perdoavam e a gozação era comum. Tinha gente que dizia maldosamente, se ele jogasse futebol de salão e ficasse na barreira, a bola passaria no “vão” de suas pernas e seria gol do adversário.

Do Palmeiras, onde foi vice-campeão paulista em 1986, foi para o Botafogo, do Rio de Janeiro. E do alvinegro carioca para o Guarani, de Campinas que tinha um grande time e foi vice-campeão paulista de 1988.

No “bugre” campineiro brilhavam jogadores como Evair, Marco Antonio Boiadeiro, Ricardo Rocha, Neto, Paulo Isidoro, Sérgio Neri e outras feras comandadas pelo técnico José Luiz Carbone.

O time bugrino atropelou os concorrentes e chegou à final do estadual contra o Corinthians. Houve empate de 1 X 1 no primeiro jogo no Morumbi. Na partida de volta, o alvinegro venceu por 1 X 0, gol de Viola, aos 4 minutos do primeiro tempo da prorrogação.

Em 1990 foi jogar no Paraná Clube, depois de ter atuado pelo Fluminense, Sport Recife e Villa Nova (GO). Ele foi o primeiro capitão da história do time, que recém havia sido fundado, resultado de uma fusão entre Pinheiros e Colorado.

Estreou na derrota de 1 X 0 para o Coritiba, no dia 4 de fevereiro. Quatro meses após a sua contratação, na tarde de domingo, dia 14 de abril de 1990, no início do segundo tempo contra o Campo Mourão, pelo Campeonato Paranaense, ele subiu para cabecear e chocou-se com César Ponvoni, o “Charuto”, zagueiro adversário.

Com muitas dores, Vagner foi atendido ainda no gramado da Vila Capanema, em Curitiba, e logo encaminhado ao Hospital Evangélico, onde passou por uma radiografia e recebeu analgésicos.

Teve alta dois dias depois, mas retornou ao mesmo hospital. Só então, fizeram uma tomografia, que constatou um traumatismo craniano. Com a piora da sua saúde, foi transferido ao Hospital Cajuru no dia 19 e morreu dia 20 de abril de 1990, deixando a mulher Renata, e os filhos Wagner, hoje analista de projetos, e a analista financeira Tayane.

A viúva contratou advogados e ingressou na Justiça com pedido de indenização. Em 15 de dezembro de 1995, o juiz Valter Ressel, da 16ª Vara Cível de Curitiba, julgou inadequada a conduta dos médicos André Luiz Oliveira, do Paraná, e Inolan Guiginski de Oliveira, do Hospital Evangélico.

E condenou as duas instituições a indenizarem a família em 10,9 salários mínimos mensais até 2019, quando Vagner completaria 65 anos, e mais 500 salários mínimos (R$ 440 mil na época) por danos morais.

O falecimento de Bacharel mudou a vida da família radicalmente. Voltaram a morar no Rio de Janeiro e a viúva Renata Antunes, mulher guerreira, assumiu o papel de pai e o de mãe.

O futebol paranaense já havia sido enlutado no dia 18 de setembro de 1978 com a morte de Valtencir, aos 32 anos de idade, então jogador do Colorado, clube que posteriormente se fundiu com o Pinheiros para a criação do Paraná.

O lateral-esquerdo sofreu lesão na coluna cervical e no cérebro após choque com o meia Nivaldo, do Maringá, e morreu no local, o Estádio Willie Davis, em Maringá.

Apesar de passados 26 anos do falecimento de Bacharel, o filho Wagner Júnior costuma dizer que a dor da perda passa e a saudade fica. É essa saudade que até hoje sente de seu pai, de quem tem orgulho de ser filho. Mas garante que tem mais orgulho, ainda em ser filho da Renata Antunes. Pesquisa: Nilo Dias)