Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sábado, 21 de abril de 2018

Campeão sem precisar jogar

Há exatos 114 anos ocorreu um dos episódios mais estranhos da história do futebol: um clube se sagrar campeão sem precisar jogar uma partida sequer. Foi na Espanha. O Athletic Bilbao ganhou a segunda edição da “Copa do Rei”, em 1904. Já havia vencido a primeira um ano antes.

E isso lhe garantia o direito automático de disputar o título contra a equipe que chegasse a final, depois de passar por adversários representativos de cada uma das regiões espanholas.

Além do Athletic, do país Basco, inscreveram-se o Espanhol, de Barcelona, representando a Catalunha, e dois clubes de Madrid - Espanhol e o Madrid Moderno. Primeiro, teria que se decidir qual o clube que representaria a região da capital, que disputaria o triangular com os bascos e os catalães.

Mesmo em cima da hora a organização decidiu aceitar as inscrições de mais dois clubes madrilenos: Moncloa e Iberia. Com isso foi preciso alterar o calendário, porque haveria mais jogos a fazer para apurar o representante de Madrid no triangular.

A edição do ano anterior, organizada pelo Madrid Foot-Ball Club, tinha decorrido sem qualquer problema, mas em 1904 coube à Associação Madrilena de Futebol a responsabilidade da competição. E o caos se formou.

A final estava marcada para o dia 28 de março, na prática, ainda antes de o torneio começar. E como se a confusão não bastasse, o Espanhol, de Barcelona decidiu sair fora. O vencedor do troféu seria conhecido num jogo entre o Athletic Bilbao e o representante de Madrid.

Foram espalhados cartazes pela capital espanhola anunciando o torneio, que decorreria no hipódromo. Haveria uma tribuna para o rei e restantes figuras proeminentes, além de que seriam colocadas 5 mil cadeiras à volta do campo para os espectadores que pagassem 25 cêntimos pelo lugar.

A 13 de março a bola finalmente começou a rolar, para decidir quem representaria Madrid no jogo final. O Moncloa goleou o Iberia por 4 X 0, no único jogo em que aparentemente não houve qualquer problema.

Em 19 de março, Espanhol, de Madrid e Madrid Moderno realizaram o segundo jogo e começou a confusão. Houve um empate de 5 X 5 e com isso a necessidade de desempate. Mas os times não se acertaram em relação a data desse novo encontro.

O Espanhol queria jogar no dia seguinte, mas o Madrid Moderno não aceitou, alegando que as regras proibiam que se jogasse uma nova partida com menos de 48 horas de antecedência.

O Espanhol não quis nem saber e no dia seguinte entrou em campo. Mas o Madrid Moderno não apareceu. E o que aconteceu? O presidente da Associação Madrilena, organizadora da competição, e que era também o presidente do Espanhol, decidiu que sua equipe fora vencedora do jogo, por falta de comparência do adversário.

Claro que o Madrid Moderno protestou, afirmando que o presidente da Associação lhes tinha garantido que não haveria jogo nesse dia, mas de nada adiantou.

Nessa altura do campeonato sobraram as equipes do Espanhol e do Moncloa para a decisão. Apenas uma delas passaria para a fase seguinte, disputando o troféu com o Athletic.

O jogo foi marcado  para o dia 27 de março de 1904. O Espanhol vencia o Moncloa por 1 X 0 quando o jogador Hermúa, caiu em campo com fratura da tíbia e do perónio. O árbitro suspendeu o jogo.

No dia seguinte, houve uma reunião e o Espanhol foi apontado como o outro finalista. A questão é que 28 de março era a data para a qual estava marcada a final com o Athletic e, oficialmente, esse jogo não chegou a ser adiado.

No dia 28, os bascos apresentam-se para jogar, mas o Espanhol não, obviamente. Assim sendo o Athletic auto proclamou-se vencedor e regressou a Bilbao, levando a taça.

A Associação então resolveu marcar a final para dia 29, mas não avisou os bascos, que até já tinham deixado Madrid. Nesse dia 29, o Espanhol apresentou-se em campo, mas o Athletic já nem estava em Madrid e, claro, não compareceu. 

Assim sendo, o Espanhol foi proclamado vencedor, exigindo aos bascos que lhes entregassem o troféu, coisa que não aconteceu.

Sucederam-se protestos de todos os clubes envolvidos no torneio, acusando a Associação Madrilena de Futebol de falta de organização e dizendo que o Espanhol nem sequer deveria ter sido finalista, uma vez que não ganhou nenhum jogo, empatou um e não terminou o outro.

Finalmente, e assoberbada com tanta confusão, a organização decidiu, já em abril, atribuir a “Copa do Rei” aos bascos, na qualidade de vencedores do ano anterior. E o incível, sem precisar jogar uma única vez. (Pesquisa: Nilo Dias)

Athletic Bilbao, campeão da “Copa do Rei” de 1904. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O pênalti mais demorado da história

Foi no dia 30 de setembro de 1934, que aconteceu em Pelotas (RS) algo que cheira quase ao inacreditável. O campeonato municipal, como era comum naqueles distantes dias era disputado com muito ardor pelos clubes locais.

O ano de 1934 foi muito agitado, não só no Brasil, mas pelo mundo todo. Na Alemanha, Adolf Hitler conseguia concentrar o poder total em suas mãos, depois da chamada “Noite dos Longos Punhais”.

A “Noite dos Longos Punhais” foi o nome dado a uma ação de expurgo interno ao partido nazista, ocorrida na noite do dia 30 de junho para 1 de julho de 1934. O objetivo era minar o fortalecimento dos chefes da SA, Sturmabteilung, a Tropa de Assalto dos nazistas, formada ainda na década de 1920, que tinha como principal líder Ernst Röhm.

Também em 1934 ocorreu o falecimento do presidente Paul von Hindenburg, da Alemanha.  Ante a ausência de poder, assumiu a presidência, quem nessa época era chanceler, Adolf Hitler.  

E lá perto, na Itália, a seleção italiana acabava de ganhar a Copa do Mundo de futebol, que foi marcada pela constante intervenção do fascismo, representada pelo seu líder Benito Mussolini. E na terra tupiniquim, Getúlio Vargas assumia de fato a presidência constitucional.

E aqui no nosso Rio Grande do Sul abençoado por Deus, e bonito por natureza (plagiando o Rio de Janeiro) os times de futebol do 9º Regimento de Infantaria, hoje Farroupilha e do Esporte Cube Pelotas tinham um encontro marcado, ansiosamente aguardado pelas duas torcidas.

Imaginem a cena. Estádio lotado, botando gente pelo “ladrão”, juiz e bandeirinhas dentro de campo, mas nada dos times. O espetáculo que estava prestes a se iniciar talvez tivesse sido único no mundo. As duas torcidas esperavam a batida de um pênalti.

E não se tratava de nenhuma decisão por pênaltis marcada para aquele dia. Seria a cobrança de um pênalti só. Unzinho. Repito, parece surreal, mas juro que isso realmente aconteceu em Pelotas, há exatos 83 anos atrás.

Mas vamos retroceder até o dia 9 de setembro, data em que o jogo entre os dois tradicionais adversários foi realmente realizado e que dera início ao espetáculo da cobrança de um pênalti.

Foi no Estádio da Boca do Lobo, reduto do Pelotas, que na época era conhecido por “Estádio da Avenida Bento Gonçalves”. Tudo indicava que se trataria de um jogo normal, como tantos outros, talvez recheado de jogadas interessantes e lances eletrizantes.

O Regimento tinha um timaço, onde despontava o grande craque “Cardeal”. E ele estava em uma tarde inspirada, tendo marcado dois gols que davam a sua equipe.  Foi quando tudo começou.

No último lance do jogo, Celistro, jogador do Regimento cometeu um pênalti desnecessário e o juiz preparava-se para marcar a infração. Mas vejam só o que ocorreu. Naqueles gloriosos tempos existia a figura do “cronometrista”, a exemplo do que se vê hoje em Futsal e Baquetebol, que deu por encerrada a partida um pouco antes da hora.

Para que? Nesse momento a confusão se formou, com os torcedores das duas equipes invadindo o campo. Acuado, o juiz interrompeu a pugna até resolver o que seria feito. A partir dai uma pergunta se ouvia por toda a cidade: “o pênalti deveria ser batido ou não?”

Ainda mais que já naquela época se sabia que pênalti num jogo de futebol é coisa  tão importante, que o presidente do clube é que deveria ser escalado para batê-lo.

Demorou alguns dias para que a Liga Pelotense tomasse uma decisão. Isso se deu três dias depois, em 12 de setembro, durante reunião realizada na Biblioteca Pública Pelotense, quando se achou por bem mandar que o pênalti fosse batido, corroborando entendimento da "International Board" e do juiz daquela partida, o riograndino Valentino Martinato, em correspondência enviada a Liga.

Alegavam que o “cronometrista” havia encerrado a partida quando o jogador do Pelotas ia efetuar a cobrança. A data foi marcada para 30 de setembro, 21 dias depois do jogo. É claro que uma situação dessas só podia se transformar no assunto mais badalado da cidade.

E o grande dia chegou. A cobrança do pênalti estava marcada para 13h30min. O estádio engalanado, não tinha lugar nem para mosca. Todos queriam ver a cantada e decantada cobrança do pênalti. Pior, a Liga resolveu cobrar ingresso.

Mesmo sob protesto todos pagaram. Foram nomeadas comissões que se encarregariam dos mais exaltados, inclusive de casos policiais que por ventura viessem a ocorrer.

Dentro de campo apenas dois jogadores. De um lado, João Pedro, encarregado da cobrança,  conhecido como o “Canhão Pelotense”, em razão da bomba que tinha nos pés. Do outro, o goleiro Brandão, um verdadeiro “paredão” na meta do Regimento.

O vento soprava levemente no estádio e, em todos os cantos, os torcedores prendiam a respiração. Para aumentar ainda mais a expectativa, o vento soprou a bola para fora da marca de cal e João Pedro arrumou a bola pra bater. Brandão saiu rápido do gol e foi cumprimentar o ponteiro pelo gesto.

Então João Pedro correu, soltou a bomba... e Brandão defendeu magistralmente, garantindo a vitória e abrindo o caminho para o título local, que o Regimento ganhou no final daquele ano, o primeiro título citadino de sua história.

E assim, o “Caso do Pênalti”, como ficou conhecido esse episódio, entrou para a história como um dos acontecimentos mais pitorescos do futebol pelotense, brasileiro e mundial.

O que veio depois todos já sabem, inclusive sobre o jogo extra, acontecido no feriado de 15 de novembro, no campo do C.A. Bancário, com arbitragem de Teotônio Soares, vencido pelo 9º RI por 3 X 1. (Pesquisa: Nilo Dias – Original: Mário Gayer do Amaral, Professor e Historiador)

Pênalti é tão importante, que deveria ser batido pelo presidente do clube.

domingo, 15 de abril de 2018

As “Mocinhas de Araguari” fizeram história

Estávamos na cidade de Araguari (M), no Triângulo Mineiro, distante 670 quilômetros de Belo Horizonte, no ano de 1958. O Grupo Escolar Visconde de Ouro Preto, uma escola municipal da cidade vivia uma situação de dificuldades, com inúmeras contas atrasadas e sem condições de pagá-las.

Foi quando a diretora, dona Isolina, teve uma idéia brilhante, na verdade pouco comum, realizar um jogo de futebol com a renda direcionada para a escola.

A ideia inicial da diretora era que o time masculino do Araguari Atlético Clube fizesse uma partida beneficente em favor da escola. Foi quando o diretor do clube atleticano, Ney Montes deu uma sugestão original: promover uma partida apenas entre garotas, o que certamente chamaria mais a atenção.

Divididas em duas equipes, o Araguari e o Fluminense, as jovens entrariam em campo com a missão de salvar a escola. No ano em que o Brasil conquistava sua primeira Copa do Mundo, garotas de classe média da pacata cidade mineira guardaram os sapatos e os vestidos bem comportados. Partiram para as camisetas, chuteiras e calções.

Da ideia a ação. A diretora não perdeu tempo e pediu para quem quisesse colaborar, que não se fizesse de rogada. E 40 voluntárias atenderam o chamamento.

No dia do jogo o estádio da cidade lotou. Até da vizinha Uberlândia veio gente, torcedores curiosos para ver as meninas jogando futebol, coisa antes nunca pensada por lá.

O entusiasmo foi tão grande que a torcida ficou exaltada, o que obrigou a presença da Cavalaria para acalmar os ânimos.

Até a famosa revista “O Cruzeiro”, a mais lida no país se interessou pelo assunto. Tanto é verdade que dedicou uma reportagem de página inteira, para o que classificou como “As mocinhas de Araguari”.

Não só conseguiram salvar o caixa escolar, mas também movimentar as rodas de conversa da região. O estádio lotava durante as partidas. A notícia voou até a vizinha Uberlândia, que logo convidou o time para um jogo.

Principal revista do país naquela época, O Cruzeiro foi conhecer as primeiras mulheres do futebol brasileiro, publicou reportagem e deu projeção nacional às “mocinhas” de Araguari.

“’Glamour usa chuteiras’”, estampou a revista. Viraram celebridades. Chegaram a desfilar em carro de bombeiros em Salvador e Belo Horizonte.

Em Minas, o time levou mais gente ao estádio do que o Botafogo de Garrincha, no mesmo dia em que o “anjo das pernas tortas” e um garoto de 17 anos chamado Pelé assombraram o mundo.

Na capital mineira até vestiram a camisa do Atlético Mineiro, em um jogo amistoso realizado em 1959. Foram até convidadas a jogar no México, país que naquela época já tinha time feminino de futebol.

A jornalista e pesquisadora Tereza Cristina Montes Cunha, filha do organizador do time Ney Montes, foi quem resgatou a história do time de Araguari.

Ela conta que a alegria das partidas perdeu espaço para a tristeza quando as garotas foram proibidas de jogar. O sucesso fez os incomodados tirarem do baú um decreto-lei da década de 1940, que proibia mulheres de praticarem modalidades esportivas “incompatíveis” com o seu físico – o futebol era citado como uma delas.

O time feminino não durou dez meses. Ainda recebeu pressão da Igreja Católica, também contrária ao envolvimento de mulheres com a prática desportiva. O decreto instituído na ditadura de Getúlio Vargas só caiu na reta final da ditadura seguinte, em 1979.

Com o sonho vindo por água abaixo, só restava as meninas continuarem a pratica do futebol dentro da escola. Mas nem isso foi possível, já que os pais aderiram a proibição.

De qualquer maneira vale o registro, pois meio século antes de Marta conquistar o planeta com seu talento, um time de 25 pioneiras deu um drible na obscura lei brasileira que proibia as mulheres de praticarem futebol e outras modalidades de contato físico e marcou um golaço contra o preconceito.

O tempo passou e longos quase 60 anos nos separam da juventude daquelas jogadoras pioneiras. Muitas já nem estão mais entre nós. Mas no geral as sobreviventes lembram com  saudade da época em que eram craques em fazer história. Para matar a saudade, em 2009 fizeram um encontro com direito a pelada.

No Brasil, a primeira partida de futebol entre moças uniformizadas de que se tem notícia ocorreu no ano de 1913, entre os times de Tremembé e Cantareira (atual bairro de Santana), na Zona Norte paulistana.

Mas Tereza explica que o diferencial do time de Araguari é que tinha o caráter de apresentação, com toda a estrutura de uma partida oficial de futebol. Estava ligado à Federação Mineira de Futebol.

Por isso, considera-se que o Araguari é o pioneiro no futebol feminino. O clube só não foi criado formalmente por causa do decreto-lei de Vargas.

“Elas tinham um grande sonho, de serem jogadoras oficiais. Infelizmente foram proibidas. A maioria seguiu jogando outros esportes, como o vôlei e o handebol”, afirma a pesquisadora. (Pesquisa: Nilo Dias)

“As mocinhas de Araguari, entrando em campo num jogo em Uberlândia, com o estádio completamente lotado.

terça-feira, 10 de abril de 2018

O macumbeiro do profissionalismo

Abelard Jacques Noronha, um dos melhores presidentes da história do Sport Club Internacional, de Porto Alegre, era natural de Vacaria (RS), onde nasceu no dia 22 de outubro de 1911. Faleceu em fevereiro de 1997. Desportista destacado, também foi piloto de automóveis, tendo participado de diversas corridas entre 1934 e 1943.

Em outubro de 1942 ele assumiu a presidência do clube colorado, permanecendo no cargo até dezembro de 1944. Se constituiu em um dirigente vitorioso. Nos seis anos queu presidiu o clube ganhou nada mais, nada menos, do que seis títulos, em seis possíveis: tricampeão municipal e tricampeão estadual.

Sob seu comando o clube disputou 105 partidas oficiais e perdeu apenas sete. O ataque marcou 415 gols e a defesa foi vazada em 174 oportunidades.

Era um homem de ação. Gostava de grandes conquistas. Também foi responsável por importantes melhoramentos no antigo “Estádio dos Eucaliptos”, cada do Internacional, antes da construção do Beira Rio. Em 1943, construiu o pavilhão social que propiciou maior abrigo e conforto aos torcedores.

Presidente no tempo do “Rolo Compressor”, teve de fazer grandes esforços para manter os principais jogadores, que sofriam assédio de clubes do Rio de Janeiro e de São Paulo, na época os principais centros esportivos do país. E sempre respondia: “Não negocio os jogadores do meu clube.”

Os grandes feitos do “Rolo Compressor” chegaram a merecer do famoso compositor musical, Ary Barroso, uma crônica intitulada “O Macumbeiro do Profissionalismo Indígena”, que transcrevo integralmente:

Nos áureos tempos do amadorismo puro, o jogador escolhia livremente o clube dos seus afetos e envergava a sua camiseta com orgulho e entusiasmo. Os vôos eram raros e, quase sempre, provocavam escândalo.

Quando um atleta qualquer trocava de clube, era cognominado sarcasticamente de borboleta. Os borboletas podem ser os precursores da “insensibilidade clubística” que contaminou o nosso profissionalismo. O regime da remuneração organizada (ou desorganizada?) veio acabar definitivamente com o lado emocional do futebol.

Hoje em dia o jogador não tem mais preferência. Vai para o Grêmio que melhor lhe pagar. Não joga por causa do clube, senão pelo contrato a prazo fixo. Tanto se lhe faz vestir uma camisa branca ou preta, azul ou vermelha, aqui ou em São Paulo, no Norte ou no Sul. Todo fim de ano é este corre-corre tremendo em busca de craques, com operações mais ou menos escusas e expedientes geralmente inferiores.

No panorama do profissionalismo brasileiro, porém, há um grupo de jogadores sui generis. As abarrotadas arcas de dinheiro dos clubes milionários do Rio e de São Paulo absolutamente não seduzem o jogador deste grupo. 

São profissionais com mentalidade amadorista. Sentem-se bem onde estão e ouvem com singular desinteresse as ternas e embaladoras canções das sereias astutas que pretendem abraçar. Refiro-me ao notável grupo de profissionais do Internacional de Porto Alegre.

O estribilho destas canções de amor é o mesmo com pequeninas adaptações:
“O que é que vocês pretendem da vida, perdidos lá pelas lonjuras dos pampas? A felicidade está por aqui. Há dinheiro, fama, popularidade, cartaz, enfim... Vamos pensar no dia de amanhã”.

E eles continuam firmes no Internacional... Sai jogador do Pará, de Pernambuco, da Bahia, de Minas Gerais, do Paraná. Do Internacional não sai. Os emissários vão ao Sul e voltam desnorteados com o livro de cheques intacto. 

Que será isso? Não é por falta das sereias cantarem para eles o chorinho buliçoso e metálico das cifras. Há qualquer segredo no apego destes profissionais do Internacional ao próprio clube.

Alguém dirá: “São muito burros”. Responderei: “De burro não têm nada. São divinamente sagazes e inteligentes. Querem saber o que um deles me disse?

Não me interessam as propostas formidáveis que constantemente nos fazem representantes de clubes cariocas e paulistas. Não deixo o Internacional. Vivo bem por lá, rodeado de amigos sinceros, protegido por meus diretores e amparado pela minha torcida. Por que hei de abandonar o agradável ambiente em que vivo, pela ambição de mais alguns cruzeiros?

Nem tudo neste mundo se pode comprar com dinheiro. Não, estou satisfeito no Internacional e já que comecei neste clube, nele hei de terminar minha carreira. Se o futebol brasileiro precisar de meus modestos recursos, estarei a sua disposição com prazer e honra. Agora, clube, só o meu.

Quando o craque terminou eu ainda continuei olhando para ele, meio tonto, meio abobalhado, sem capacidade para articular uma palavra. Percebendo minha atitude, sublinhou as suas expressões com este período definitivo: É isso mesmo, “seu” Ary. Uma espécie de tiro de misericórdia.

Sacudi a cabeça como quem espanta o sono e rapidamente dei um pulo na cadeira e fui cair no gabinete de trabalho do senhor Abelard Noronha, na capital gaúcha, para perguntar-lhe com a sofreguidão dos curiosos impenitentes:

Presidente, o senhor que é macumbeiro do profissionalismo indígena, o senhor que faz despachos terríveis e os coloca na porta da casa de seus jogadores a ponto de inocular-lhes a mística internacionalista, o senhor que não tem medo de tenores e muito menos de sereias, o senhor feiticeiro dos pampas, quer me revelar a sua reza milagrosa?

Olhe, quem sabe não é isso que está faltando ao futebol brasileiro e nós seremos capazes de fazer uma revolução no profissionalismo fazendo de todos os jogadores gente da marca dos seus jogadores. Ah, pai de santo invencível, me dá um pouco de seu “marafo”.

Porque, meus senhores, a obra do presidente do Internacional tem sido tão útil, tão grande e tem produzido tão admiráveis frutos que ele pode ser apontado como único em sua terra, pondo amor no coração dos seus contratados e retendo no seu clube astros de invulgar brilho, como este gigantesco Ávila, este satânico Adãozinho, este incansável Abigail e esta maravilha que é Tesourinha. Eta macumbeiro brabo e perigoso.

Abelard Jacques Noronha era filho de São Sebastião do Cai. Segundo contava sua viúva, Hilda Arregui Noronha, ele era realmente apaixonado pelo Internacional. Tanto que escrevia um diário descrevendo todos os jogos do seu time. Era um estudioso do futebol e, conforme relata o cronista Wianey Carlet,  "era considerado grande entendedor do esporte”.

Abelardo era um homem elegante, alto, magro, usava gravata com alfinete de ouro e abotoaduras. Sempre que o Internacional perdia um treinador e estava com dificuldade para encontrar um substituto, alguém lembrava, invariavelmente: “Chama o Abelard”.

E lá ia o homem do alfinete de ouro e abotoaduras. Orientava treinamentos, definia escalações e comandava o time até o Inter encontrar um profissional da área. Abelard foi treinador do Inter em duas ocasiões, nos anos de 1960 e 1963.

Em outubro de 2010 o Beira-Rio recebeu uma visita especial, da viúva do ex-presidente do Internacional nos anos de 1943 e 1944, Abelard Jacques Noronha. Ela foi recebida no departamento de comunicação social do Clube.

Ela estava na ocasião com 94 anos, conversou com o vice-presidente, Gelson Pires, que enfatizou a sua visita. “Só quem não conhece a história do Inter, não valoriza a importância de Abelard Noronha como presidente. A Hilda representa todas essas coisas boas que ele trouxe para nós, colorados”, disse.

A esposa do ex-presidente colorado chegou acompanhada de sua neta, Bibiana Noronha, que não deixa de recordar das histórias e dos objetos adquiridos pelo avô. “Ele amava realmente o Inter. Até fez um diário contando como foram todos os jogos do time”, exemplificou.

Ao final da visita, todos se dirigiram à sala presidencial do Clube, onde estão expostas as fotos dos presidentes. Lá, Hilda se encontrou novamente com Abelard Jacques Noronha. Um momento, de fato, emocionante.

Nos anos 1940 o Grêmio, o eterno rival, só mandava à campo jogadores da cor branca, conquistou apenas duas vezes o campeonato regional, enquanto o Internacional, que desde os anos 30 se utilizava de negros, no mesmo período vencera 12 campeonatos. "Era negro? Era bom? Era nosso", foi uma frase imortalizada por Abelard Jacques Noronha."

A época em que Abelard foi presidente, fez parte da mais brilhante fase do Internacional, a do “Rolo Compressor”. Esse era o nome de um time brilhante que conquistou o exacampeonato, dos anos 1940 a 1945.

Adãozinho, um dos maiores craques colorados, foi para o Internacional em 1943, descoberto pelo presidente Abelard Jacques Noronha, atuando no time de aspirantes. Em 1944 já era titular do famoso time colorado.

Adãozinho disputou 30 Grenais, vencendo 19, empatando 7 e perdendo 4, marcando 16 gols em clássicos. Jogou pela Seleção Brasileira em duas partidas oficiais: Brasil 1 X 1 Uruguai, em 1947, e Brasil 2 X 4 Uruguai, em 1948. Foi convocado para a Seleção na Copa de 1950.

Abelardo Jacques Noronha, filho de Abelard Jacques Noronha, ex-proprietário da “Fazenda do Socorro”, confirma que recuperou 4.500 peças, roupas e objetos, que pertenceram à sua tia Maria de Lourdes Noronha, conhecida pela cultura e por suas viagens à Europa.

A maior parte de seus vestidos estavam expostos no “Museu da Baronesa”, em Pelotas, mas foram recuperados e, em comodato, cedidos ao “Museu Municipal", esclarece Abelardo, que também atende pelo apelido de Nê.
Ele herdou do pai a paixão pelo futebol. Abelard Jacques Noronhafoi conselheiro e presidente do S. C. Internacional, morreu em 1997. Sua mãe, com mais de 90 anos, reside em Porto Alegre.

Através da lei Nº 8190 de 15 de julho de 1998, a prefeitura de Porto Alegre homenageou Abelard Jacques Noronha dando o seu nome ao logradouro que liga a rua Mostardeiro ao Parque Moinhos de Vento, no bairro de mesmo nome, com a denominação de “Largo Abelard Jacques Noronha”.

Tarde de um dia de outubro de 1944, um sábado, véspera de decisão do Campeonato de Porto Alegre, entre Grêmio e Internacional. Um “Cadillac” preto parte do estádio dos Eucaliptos, no bairro Menino Deus, rumo ao bairro Tristeza, para o Sul da cidade.

Dentro do carro, vão o presidente do Internacional, Abelard Jacques Noronha, e os jogadores Tesourinha, Nena, Alfeu e Motorzinho. Durante o percurso, vão acertando os últimos detalhes do plano.

Entram na “rua da igreja” e chegam à cada de Carlitos. Carlitos era o ponta-esquerda do Internacional, ídolo, um dos artilheiros do time, e foi operado dos meniscos do joelho direito, há 27 dias. Desde que saiu do hospital, ficava em casa repousando. Só vez ou outra é que saia, para pescar uns lambaris no Rio Guaíba, ali perto.

“Carlitos – é Nena, o capitão quem fala num tom amigo mas firme. Viemos te buscar para a concentração”.

“Mas o que é que eu vou fazer lá? Não vou jogar”. Abelard argumenta que quer ver todos os jogadores juntos. Não quer que falte ninguém nessa hora. Está em jogo o pentacampeonato, e nenhum detalhe deve ser descuidado. Afinal, todos os jogadores são como irmãos.

Os cincos desfiam argumentos ao mesmo tempo. E Tesourinha passa o braço sobre o pescoço de Carlitos. “Vamos lá, rapaz, tu sabe como pode ser útil só com a tua presença”. Carlitos acaba concordando. Pede licença para ir buscar o pijama e escova de dentes. Quando se afasta, os outros jogadores piscam o olho.

Manhã de domingo. Cai uma chuva fininha. Nesta cidade de 250 mil habitantes, a semana inteira só se falou na decisão do campeonato. No Gre-Nal  – “o Derby”, “O Clássico dos Clássicos”, “O Choque-Rei”. Agora, ainda mais.

O jogo foi no Estado da Timbaúva, do Força e Luz, no bairro Caminho do Meio. O Força e Luz não costumava ganhar campeonatos, mas a “Timbaúva” era maior do que a “Baixada”, do Grêmio, e do que o “Eucaliptos”, do Internacional. Podia receber umas 13 mil pessoas.

No estádio dos Eucaliptos, depois do almoço, Tesourinha, Nena, Alfeu e Motorzinho cercam Carlitos ao lado da mesa de bilhar. “Tu vai jogar - diz-lhe Nena”. Carlitos franze a testa, arregala os olhos. “Que é isso? Eu fui operado não faz um mês”.

“Vai jogar sim”, entra Tesourinha com seu sorriso. “Mas eu estou sem treinar”. Alguns minutos de conversa, e Carlitos acaba convencido. “Quer saber de uma coisa? Vamos lá”.

Os outros jogadores soltam um urro e vão levar a boa nova ao técnico Orlando Cavedine. Às 15h30min, estoura o foguetório. O Grêmio entra em campo. Vem com Júlio - Clarel e Rui. Vinicius - Touguinha e Sanguinetti. Bentevi e Bombachudo. Ramón Castro - Ivo Aguiar e Mário.

O técnico, que senta no banco usando terno e gravata, é Telêmaco Frazão de Lima. Logo a seguir, mais foguetes. É o Inter que entra: Ivo - Alfeu e Nena. Assis - Ávila e Abigail. Tesourinha - Volpi - Adãozinho - Motorzinho e Carlitos.

As três rádios de Porto Alegre descrevem as cenas. Na cabine da Rádio Gaúcha está Oduvaldo Cozi, famoso narrador carioca, que veio à passeio e foi convidado a narrar o jogo. Com sua voz anasalada, Cozzi recorreu as palavras poéticas para expressar as emoções que antecedem o grande jogo.

O juiz, o elegante senhor Henrique Maia Failace, o “Rei do Apito”, ordena o início. Adãozinho passa a Tesourinha, que estica um passe em diagonal a esquerda. Carlitos entra correndo, leva no peito e, da entrada da área, de canhota, acerta o ângulo esquerdo.

Vai lá dentro do gol, pega a bola, corre para o centro e coloca-a na marca. A torcida do Inter sacode as arquibancadas fazendo a maior barulheira. Os jogadores do Grêmio, como sua torcida, estão paralisados. Quando vão tocar na bola pela primeira vez, já está 1 X 0.

Mas reagem, tornando o jogo parelho. O Grêmio era um bom time. Tinha Júlio, um goleiro que espira confiança; Clarel, beque-central forte, autoritário; Touguinha, centromédio lutador e técnico; Bentevi, um ponta veloz; e, principalmente, Ramón Castro, um centroavante uruguaio de grande classe, exímio cabeceador.

Mas o Internacional era o “Rolo-Compressor”, o grande time do Estado, com um grande jogador em cada posição. Os seus maiores destaques naquela tarde eram Tesourinha e Adãozinho. Tesourinha, vindo de trás, ziguezagueia entre os adversários em dribles estonteantes. E Adãozinho um negrinho atrevido, tornavam a vida de Clarel um inferno.

Aos 25 minutos, Carlitos se chocou com Vinicius e caiu gemendo. Sentiu o joelho. Alfeu, Nena e Tesourinha se olharam, sérios, com uma certa dor na consciência. 

Carlitos se recusava a sair. Não queria deixar o time com 10. já cumprira a sua parte, mas achava que tinha de ir até o fim. Quando o primeiro tempo terminou, era o Grêmio que estava pressionando, aproveitando a vantagem.

Aos 8 minutos do segundo tempo, Carlitos encontrou forças para bater um escanteio. Júlio respondeu de soco e a bola cai nos pés de Volpi. Foi o segundo gol. Agora, viria o baile, apostavam os colorados, certos de que o Grêmio estava morto.

Mas aquela seria, a rigor, a última carga do Internacional sobre o gol do Grêmio. A partir dali, o jogo exigiu muito mais que raça, garra – heroísmo até – do que qualquer outra coisa.

Lodo depois do gol, o lateral-direito Assis se machucou e foi ficar parado na ponta-direita – Volpi veio para o meio e Tesourinha passou para o lugar de Assis. Carlitos andava capengando pela ponta-esquerda. O Internacional recuou. O Ataque se resumia a Adãozinho.

O Grêmio foi todo para a frente. Aos 22 minutos, Ramón Castro cabeceou e a bola bateu na trave. Aos 23, Sanguinetti esticou o passe a Bentevi na direita. O cruzamento veio alto, no segundo poste.

Ramón Castro, desta vez acertou. A torcida do Grêmio se levantou. Em gritaria, pedia a vitória. Confiava nela. Afinal, o Grêmio tinha tradição de grandes viradas – quantas vezes fez dois, três gols em cinco minutos? Certamente, ia ser fácil agora, que o Internacional tinha apenas nove homens úteis.

Pouco depois, Alfeu torce o joelho. Ficaram apenas oito homens úteis. A torcida do Grêmio se agitava ainda mais. Lá dentro os jogadores respondiam atacando em avalanche. Aos 30, o goleiro Ivo defendeu um gol certo de Bentevi. Aos 32, Nena desarmou Ramón Castro de carrinho, quando o uruguaio ia marcar.

O ataque do Internacional só tinha aleijados: Assis, Alfeu e Carlitos. Adãozinho estava na intermediaria, tentando segurar o jogo. O meia Motorzinho era um beque ao lado de Nena. Ávila, o centromédio, um enorme negro de voz forte, postava-se na meia-lua da área e comandava a resistência dali. Não se cansava de rugir para Volpi. “Luta, castelhano covarde”.

Volpi, muito clássico, muito jovem, tinha medo de meter o pé nas divididas. Não era homem para Gre-Nal. Nesta hora, era como se o Internacional estivesse jogando com sete.

E o Grêmio em cima. Touquinha, sem marcação, dav as cartas no meio-de-campo. Os laterais Vinicius e Sanguinetti viraram atacantes, o cerco era completo. O gol deveria sair a qualquer momento. Não era possível que Ivo e seus beques improvisados continuassem resistindo por muito tempo.

O jogo ia chegando ao fim. Aos 42, Ivo faz a sua maior defesa, num chute de Bombachudo. Aos 45, depois da cobrança de um escanteio, formou-se o entrevero e Ivo ficou fora do lance. Ivo Aguiar tinha o gol livre à sua frente e tocou. Quando ia gritar gol, um negro se atirou esticando a perna, desviando e ficando ali, deitado, gemendo, apertando o joelho. Era Alfeu.

O Jogo terminou assim. Junto com o alívio, veio a vontade de chorar. E muitos jogadores choraram abraçados a Assis, Alfeu e Carlitos – os heróis. Mas a torcida pulava o parapeito e acordava os jogadores erguendo-os no ar; o Internacional era pentacampeão da cidade.

Em carros abertos, eles foram levados até o “Estádio dos Eucaliptos” bem devagar, cercados pelo povo. Lá durante o Carnaval, apareceram o presidente do Grêmio, Martim Aranha, e o diretor Balbino Ermida, para apresentarem os cumprimentos de seu clube. E foram muito aplaudidos. Os dirigentes do Internacional anunciaram o prêmio: três contos de réis para cada jogador.

Enquando o Cadillac preto levava Carlitos de volta, ele ia pensando: “Três conto de réis é a metade de um terreno que tem lá perto de casa. Valeu a pena? Não, não foi por isso que eu concordei em entrar em campo”.
Depois disso, ficou um mês em casa. Curando o joelho. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 2 de abril de 2018

A morte de “Xuxu”, torcedor símbolo colorado

José Antônio Silveira, conhecido por “Xuxu” e um dos torcedores símbolos do S.C. Internacional, de Porto Alegre, morreu no último dia 14 de março, em decorrência de um câncer.

Ele acompanhou o clube do seu coração em mais de 600 jogos dentro e fora do “Estádio Beira-Rio“, inclusive tendo ido ao Japão quando da conquista do Mundial de Clubes, o maior título da história colorada de mais de 100 anos. Em 2012 foi homenageado pelo Internacional, por esse fato.

O amor de “Xuxu” pelo Internacional começou ainda na infância. Ele contou que quando tinha apenas 6 anos de idade, ouviu um jogo pelo rádio, junto de sua babá e, desde então, nunca mais abandonou o time.

Ela ficou muito chateada porque o seu time tinha perdido o jogo. E “Xuxu” quis saber que time era esse e a sua resposta o tocou muito: “É o Clube do Povo do Rio Grande do Sul”. E “Xuxu” conta que foi nesse momento que se tornou colorado. A família, todos torcedores do Grêmio, tentaram muito que o menino trocasse de time. Mas falharam.

Ser torcedor do Internacional surpreendeu a família de gremistas. O pai levou um susto quando chegou em casa e encontrou “Xuxu” vestindo a camisa vermelha comprada pela babá. O avô se surpreendeu ainda mais quando o neto, com 12 anos, pediu de presente uma cadeira no estádio Beira-Rio. Estranhou, mas deu.

Com 13 anos pediu de presente uma viagem para o Rio de Janeiro para acompanhar o Internacional. Poderia ter escolhido uma viagem para a Disney, ou qualquer outro lugar. Mas ele queria ver o jogo do colorado. Já tinha 40 jogos fora.

Em um Gre-Nal, “Xuxu” foi levado para entrar em campo junto com os jogadores tricolores. Foi pior para os familiares. “Xuxu” dizia que aí mesmo é que sentiu o amor que tinha pelo Internacional. Entrou de mão dada com os jogadores gremistas, mas garantia que não estava feliz.

Ainda com 6 anos de idade, decidiu que iria assistir a um jogo entre Novo Hamburgo e Internacional. Pegou um ônibus sozinho e foi. A ida até que foi fácil, o problema foi a volta.

Ele estava chorando e morrendo de medo, quando torcedores colorados o encontraram. E como conheciam seu pai, telefonaram para que ele fosse busca-lo. Tomou uma cintada da sua mãe, mas garantia que tinha valido a pena porque o Inter ganhou de 1 X 0.

Em 2009, ele doou material histórico para a construção do museu do clube, entre outras histórias. Foram mais de 20 molduras de fotos, mantas, ingressos e capas de jornais dos torneios vencidos pelo Internacional nos últimos três anos.

Além das edições brasileiras, constam também banners de divulgação dos times que disputaram o Mundial (em japonês), jornais ingleses e espanhóis depois da consagração colorada, entre outros.

Dentre as molduras, estão materiais da “Taça Libertadores da América”, “Mundial Interclubes FIFA”, “Recopa Sul-Americana”, “Dubai Cup” e “Copa Sul-Americana”.

O torcedor colorado folclórico relatava ainda um momento perturbador em sua vida. Ele estava mal de saúde na virada do “Centenário” do clube. Achou que seria sua hora.

Ele já havia tido um pesadelo que, no tão especial dia 4 de abril, iria falecer. Como não aconteceu, decidiu doar as molduras enquanto ainda estava vivo.

“Xuxu” considerava o zagueiro Figueroa como seu maior ídolo da história do Clube e o jogo Internacional 3 X 2 Cruzeiro, em 1972, como a partida mais marcante. Era conhecido por todos dentro do clube, considerado um exemplo de paixão e amor pelo Internacional.

“Xuxu” sofria com a saúde desde cedo. Aos 14 anos sofreu o primeiro AVC e começou a ter problemas pessoais, mas isso não o impediu de seguir torcendo e viajando. O destino mais longe foi Japão, quando viu em 2006 o seu time ser Campeão do Mundo. Todos os anos, assim que saía a tabela dos campeonatos, ele comprava as passagens para todos os confrontos.

Ano passado confessou a amigos que a saúde estava complicada, mas que só iria embora para o outro lado, depois que o Internacional voltasse a Primeira Divisão.

O Internacional lembrou a morte do torcedor em seu site, com a divulgação de uma nota:

“A quarta-feira começou triste para a família colorada. Faleceu nesta manhã José Antônio Silveira, o “Xuxu”, colorado que seguiu o Inter por todas as plagas, sempre defendendo essa paixão que nos une. O clube lamenta profundamente a perda deste ilustre torcedor e deseja força a seus amigos e familiares".

O padre Ceron celebrou uma missa de encomendação do corpo na “Capela Nossa Senhora das Vitórias”, no complexo Beira-Rio. Em seguida, dando continuidade a um desejo de “Xuxu”, seu corpo foi velado no momento em que o Internacional estava em campo, contra o Cianorte, pela terceira fase da Copa do Brasil.

Enquanto o Internacional vencia o Cianorte e garantia classificação à quarta fase da Copa do Brasil, um telão instalado ao lado da capela transmitia a partida para um grupo de colorados que prestava homenagens ao famoso torcedor.

Dentro do local, o Padre Ceron realizou uma Missa para encomendação do corpo de “Xuxu” e deu início ao velório convidando todos a cantarem o hino colorado.

Antes do jogo, foi realizado um minuto de silêncio em homenagem ao célebre torcedor, que acompanhou o Inter por toda vida, onde quer que fosse.

Vale lembrar que “Xuxu” costumava contar, que quando o seu pai faleceu, antecipou o horário de sepultamento, para poder ir até o Beira-Rio assistir a um clássico Gre-Nal.

“Tem que ter muito orgulho de ser colorado, é um espírito de felicidade ser torcedor do Internacional. Na hora ruim e na hora boa sempre tem que estar do lado do clube. Nada de vaia, de forma alguma. Ir ao jogo é uma diversão, um passeio, não leva a nada brigar e discutir", dizia “Xuxu”.

Vale publicar aqui um bonito artigo de Dilto Crouzeiles Nunes, conselheiro do S.C. Internacional, publicado na coluna de Hiltor Mombach, no jornal “Correio do Povo”, de Porto Alegre, em 16 de março último:

XUXU, uma lenda!

O Sport Club Internacional durante sua existência teve vários colorados aficionados que dedicaram suas vidas ao Clube. E nestas últimas décadas não podemos deixar de destacar o posicionamento impar de XUXU.

De berço se tornou colorado e desde então dedicou-se a viver todos os dias, os feitos do Internacional. Era por demais notório o amor que ele tinha pelo Clube. Daria, com certeza, sua vida para defendê-lo.

Sempre pelo presente, junto aos dirigentes, aos atletas e aos torcedores, sua presença era constante e não havia um colorado que não o conhecesse. Ajudava voluntariamente em tudo que era preciso, mesmo sem ter cargos na Diretoria ou no Conselho.

Seu amor era o Inter. Por ele qualquer sacrifício seria superado. Viajava por todos os lugares onde a equipe se apresentasse.
Não havia distancias para ele e nem sofrimentos. Sua alegria maior era a aproximação, o convívio com seu Clube do coração. 

Seu fanatismo era tanto que até em jogos decisivos, no campo do adversário, festejando o feito, se vestia de Papai Noel para brindar a conquista e assim corria por todo o campo sob os aplausos dos torcedores.

Não acreditei quando num jogo decisivo ele me confidenciou que se o Inter ganhasse ele desfilaria desnudo pelo gramado. E minha surpresa não foi maior quando o vi atrás do gol se despir, enquanto todos festejavam, e sair pelado atravessando o campo. Foi notícia nacional. Assunto comentado por toda mídia.

Nada superava a felicidade dele ao ver seu time campeão. Era amigo dos atletas. Quando um era vendido e até ia jogar na Europa, ele viajava para lá a fim de dar sua força, assistindo seu primeiro treino no novo Clube.

Nos hotéis participava junto com a delegação e era bem quisto pelos hoteleiros. Se uma vida foi dedicada ao Inter, esquecendo-se de viver a sua vida, este era o XUXU. Ele teve sua existência interrompida por grave doença. Assim mesmo, doente, era visto nas dependências do clube torcendo.

Bem recebido por todas as torcidas, tinha livre transito por onde andava. Era realmente uma criatura de bem que só tinha um desejo na vida: ver a vitória do Inter.

Hoje, com certeza, ele faz parte de uma estrelinha no céu, brilhante, iluminada, com certeza fixando no firmamento a bandeira este Clube que adorou e dedicou sua vida.

Descanse em paz meu amigo XUXU. (Pesquisa: Nilo Dias)


domingo, 25 de março de 2018

Uma goleada para não ser esquecida

Imprensáveis 16 X 0 foi a goleada que o Internacional aplicou no Nacional, clube já extinto de Porto Alegrem, no distante dia 11 de agosto de 1912. O jogo foi válido pelo também já extinto Campeonato Municipal de Porto Alegre.

O Internacional buscava conquistar seu primeiro título de campeão da cidade, que não veio naquele ano, enquanto o Nacional ocupava a lanterna da competição, já tendo sofrido antes outros escores humilhantes: 6 X 0 do 7 de Setembro, 7 X 0 do próprio Internacional e 8 X 0 do Grêmio.

O Campeonato Municiopal de 1912 foi o primeiro a ter dois turnos. Esse jogo marcou a primeira rodada do returno. Como curiosidade, o Nacional havia sido fundado em 7 de agosto de 1909, sendo um dos fundadores da Liga de Foot-Ball Porto-Alegrense. 

As suas cores eram preto e branco e o escudo formado por uma chuteira tendo por cima uma bola e as iniciais SCN na extremidade. Seu campo ficava no arrabalde do Partenon, e por ser considerado muito distante, não era usado no campeonato. Por isso, seus jogos eram realizados na Baixada gremista.

No jogo dos 16 gols, o Internacional formou com Silla - Ávila e Scabillon. Flores - Kluwe e Pedro Chaves. Túlio - Galvão - Ribas - Lemos e Vares. O presidente do Internacional era Antenor Lemos.

O Nacional, apesar do nome, demonstrava em sua escalação forte influência alemã e italiana: Cabrera - Burgard e Frölich. Vieroski - Adolfo e Pedro. Dami - Vinhas - Júlio Grunewald - Alcides e Bagetta.

Claro que todo o mundo esperava uma vitória fácil do Internacional, que no primeiro turno já havia aplicado 7 X 0. Mas as expecctativas foram superadas em muito. O primeiro tempo terminou com o plcar em 7 X 0.

No segundo tempo foi bem pior. Mais nove gols, somando 16 X 0. Foi a primeira vez que o Internacional chegou a um placar de dois digitos. Lembro de outra vez, 14 X 0 no Ferro Carril, de Uruguaiana.

Os gols colorados foram marcados por Vares (4), Galvão (4), Pedro Chaves (3), Túlio (3), Kluwe e Scabillon. O Internacional estabelecia ali, em sua 23ª partida, um recorde que persiste até hoje.

Depois do jogo o Nacional entrou em uma crise sem volta. Duas semanas depois, levou 23 X 0 do Grêmio, também a maior goleada da história do rival. No final da temporada, o clube fechou suas portas para sempre.


O Sport Club Nacional foi fundado no dia 7 de agosto de 1909, no Bairro Partenon. O clube foi um dos fundadores da Liga Porto Alegrense de Foot-Ball (LPAF) em 1910, juntamente com 7 de Setembro, Grêmio, Internacional, Militar, Fussball e Frisch Auf.

Depois teve um outro Nacional, chamado de "Ferrinho", que não teve nada a ver com o time "saco de pancadaria". O Nacional foi fundado no dia 19 de setembro de 1937, como Departamento Desportivo da Viação Ferrea, por funcionários da Rede Ferroviária de Porto Alegre. Passou a se chamar Nacional Atlético Clube a partir de 1940.

Seu primeiro estádio foi o campo da Rua Arlindo. Com a má situação financeira do Fussball Club Porto Alegre, o Nacional adquiriu o Estádio da Chácara das Camélias por 178 mil cruzeiros, em 1942. O clube, que tinha as cores vermelha e preta, encerrou suas atividades em 1959, um ano após que outros clubes tradicionais da cidade, Renner e Força e Luz.

Uma curiosidade. Scabillon, que marcou um dos gols na goleada colorada de 16 X 0,  estreiou no Internacional nesse jogo. Atuou quatro vezes pelo Internacional. O zagueiro uruguaio no ano seguinte foi jogar em Bagé e acabou assassinado no dia 29 de outubro de 1913, naquela cidade, por Satyro Bittencourt, jogador do Guarany local. Sátiro jogou no Internacional em 1915. 

Outra curiosidade. Álvaro Ribas, ponteiro-esquerdo e um dos principais jogadores colorados foi esfaqueado pelo torcedor gremista, Manoel Costa, funcionário da Empresa Telefônica Rio-Grandense, durante a primeira briga que se tem conhecimento na história do clássico Gre-Nal. 

Foi no clássico de número 11, realizado no dia 4 de agosto de 1918, na Baixada. E Ribas, que levou uma facada de 15 centimetros no quadril direito, passou duas semanas hospitalizado e nunca mais conseguiu jogar.


O Grêmio vencia por 1 X 0, até os 43 minutos do primeiro tempo, quando estourou a primeira grande briga no clássico, após nove anos de sua primeira edição. 

Time do Internacional na goleada de 16 X 0, sobre o Nacional.

sexta-feira, 23 de março de 2018

O jogo que não existiu

Em 1973, o golpe militar que empossou a ditadura de Augusto Pinochet rompeu as relações entre o Chile e a União Soviética. O fato mudou os rumos da Copa de 1974 e transformou o Estádio Nacional de Santiago em um vergonhoso túmulo da história moderna.

Para entender como se chegou a esse estado de coisas é preciso percorrer os caminhos da história e voltar ao passado, até às décadas de 1960 até 1980, época em que os Estados Unidos incentivavam golpes civis-militares na América do Sul, impedindo com isso a escalada comunista.

Em 3 de março de 1964 aconteceu o golpe civil militar no Brasil. O mesmo veio a ocorrer no Chile, em 11 de setembro de 1973, com ascensão do general Pinochet ao poder. O “governo” incentivou o futebol, pois o povo assustado e inseguro, não conseguia viver sem pão e circo.

O problema é que o Chile não havia se classificado nas eliminatórias para a Copa de 1974. E nem a União Soviética (URSS). Foi ai que entrou em ação a FIFA, que resolveu fazer uma repescagem entre os dois países, para admitir um 16º participante na Copa, que até então contava com apenas 15 classificados. E marcou dois jogos, ida e volta.

Sem imaginar que ocorreriam mudanças tão drásticas no panorama político do país, a Federação Chilena de Futebol programou uma série de jogos preparatórios a caminho de Moscou e reservou as passagens aéreas dos jogadores para a noite de 11 de setembro.

Naquele mesmo dia, Salvador Allende morreu dentro do palácio presidencial, obrigando o Chile a largar a mão esquerda soviética e agarrar a mão direita norte-americana, tudo em um piscar de olhos.

Com Pinochet no poder, a URSS passou de principal aliada do Chile à pior inimigo. Pinochet não queria que o jogo se realizasse, mesmo que isso representasse ficar fora do Mundial.

Mas o general acabou convencido e autorizou a viagem, porque ir à Copa seria bom “para o esporte chileno” e, caso o time tivesse uma atuação digna, também seria bom “para a imagem internacional do novo governo e uma alegria para o povo”.

No dia 26 de setembro de 1973, 15 dias depois do golpe civil militar, o Chile conseguiu um empate de 0 X 0 no "Estádio Lenin", em Moscou, diante de 60 mil pessoas que compareceram para vaiar os “novos capitalistas” da América do Sul. Não existe nenhum registro audiovisual daquele jogo.  

Antes da partida, as coisas em Moscou não foram nada fáceis para os chilenos, na maioria esquerdistas. Mas os soviéticos não se importavam com isso. Para eles, a delegação se identificava com Pinochet, então deveria ser tratada de acordo.

Os chilenos passaram dias concentrados no Hotel Ucrânia, onde passaram por situações desagradáveis. A comida não era a que pediam; o ônibus nunca chegava na hora nem mesmo no dia em que foram reconhecer o campo.

Quando chegaram, o estádio já estava fechado. Os jogadores tiveram de pular o muro para treinar, disse o dirigente chileno Alfredo Asfura. Os atletas Alberto Quintano e Pedro Fornazzari viajaram via México, pois lá atuavam. Mas como chegaram três horas antes que o restante da delegação, foram obrigados a esperar sentados no chão do aeroporto, na sala da KGB.

O ponta-esquerda Leonardo Veliz relatou que em Moscou foi abordado na rua por um estudante chileno da "Universidade Lumumba", filho de um comunista. E disse a ele para esquecer de voltar ao Chile, porque o fato de ter morado na URSS seria um perigo para sua integridade. Veliz acha que salvou uma vida.

Os jogadores chilenos lembram que a atuação do juiz brasileiro Armando Marques foi importante, porque ele não se deixou influenciar pelo ambiente hostil ou pelas vaias.

O zagueiro Elias Figueroa, que na época jogava pelo Internacional, de Porto Alegre, declarou: “Como eu já falava um pouco de português, aproveitei para lhe dizer algumas coisas, criar clima favorável. E embora diga que não, eu sei que ele deixou passar várias faltas, como a que cometi no atacante Andreassian”.

Marques, já falecido, não gostava de relembrar a partida, garantindo que só fez seu trabalho. Hugo Gasc, único jornalista chileno que esteve em Moscou naquele dia, disse que o juiz foi decisivo, porque era um anticomunista raivoso. Marques detestava o regime comunista.

Descontente com os rumos fascistas direitistas da política chilena, fascismo, com cor esquerdista, que foi praticado também por Lenin na terra dos czares, a URSS comunicou oficialmente à FIFA que não iria jogar a segunda partida, marcada para 21 de novembro de 1973, no Estádio Nacional de Santiago. Dias após o primeiro jogo, a União Soviética rompeu relações diplomáticas com o Chile e a embaixada foi desconectada.

Os soviéticos sabiam que o Estádio Nacional, em Santiago, havia se transformado em um campo de concentração de trabalhos forçados ao estilo do regime nazista.

Alguns detentos daquele tempo até hoje lembram que durante a noite sempre morria alguém, fosse fuzilado pelos carabineiros de Pinochet, fosse por suicídio. Praticamente todos que para lá eram mandados acabavam também torturados.

Guitarristas supostamente tiveram seus dedos quebrados e foram forçados a tocar seus instrumentos. Os veículos do exército explodiam a música dos "Beatles" e dos "Rolling Stones" no volume máximo para abafar os gritos dos detidos.

Victor Jara, o cantor e ativista icônico foi preso, torturado e executado logo após o golpe. A morte de Pablo Neruda, embora causada por câncer e não pelo regime, tornou-se ainda mais traumática devido ao fato de que Pinochet se recusou a permitir um enterro público. O funeral foi um assunto silenciado, mas milhares de chilenos desafiaram as autoridades e encheram as ruas de luto.

Estima-se que mais de 40 mil pessoas passaram algum tempo no estádio; entre 11 de setembro e 7 de novembro, 12 mil pessoas foram internadas lá.

Assim sendo, as notícias do que acontecia no estádio correram rápido pelo mundo. Ao mesmo tempo em que surgiam as dúvidas sobre se o local da partida seria mesmo aquele, os militares confirmavam o evento, enquanto cuidavam do gramado melhor do que tratavam qualquer detento.

Francisco Fluxá, presidente da Federação Chilena de Futebol, ainda sem a confirmação da partida pela FIFA, sugeriu que o jogo fosse realizado em Viña del Mar. O tirano Pinochet não concordou. Seu plano era fingir estabilidade e normalidade, sobretudo na capital Santiago.

Aos poucos, o governo chileno esvaziou o estádio, transferindo os prisioneiros para outros lugares de reclusão, especialmente no campo inaugurado na abandonada “Salitrera Chacabuco”, a 100 km de Antofagasta.

Por fim, 48 horas antes do jogo, a arena do Estádio Nacional, onde o Brasil havia se consagrado bicampeão mundial em 1962, estava pronta para a maior farsa da história das Eliminatórias das Copas.

Embora a FIFA tenha no dia 17 de novembro informado oficialmente que a URSS não disputaria o jogo, este foi confirmado por determinação de Pinochet, que achava que a não realização geraria grande prejuízo para o seu prestigio.

Como o regime era ditatorial, a imprensa teve de ficar calada. E o povo na sua ignorância e mediocridade não ficou sabendo a verdade. Tudo parecia indicar que o jogo seria realizado e valeria a classificação para a Copa. Os jogadores chilenos até concentraram na véspera, 20 de novembro.

O que se viu foi um jogo fantasmagórico, uma peça de ficção. Um verdadeiro Teatro do Absurdo foi instalado. O povo, no entanto, acreditava no ditador. Pinochet, que insistia na palhaçada. No horário anunciado pelo regime militar, o Estádio Nacional foi aberto. O povo não foi em massa, apenas 15 mil ingressos vendidos. Até um árbitro foi escalado.

O show daquela jornada, batizado mais tarde pela imprensa chilena como “o gol mais triste do Chile”, começou com o som de bandas militares para entreter os pagantes.

E o que se viu a partir daí foi o mais indecoroso espetáculo do futebol. O árbitro apitou e a equipe chilena avançou contra o gol do “adversário fantasma”.

O juiz (chileno) Rafael Ormazábal apitou o início do jogo: Valdes saiu com Caszely, que tocou para Véliz, que passou para Páez. Este devolveu para Caszely e, conforme combinado no vestiário, o camisa 9 entregou a bola ao capitão Francisco “Chamaco” Valdes, que encarou o gol vazio e converteu.

Gol de Pinochet. Como não havia nenhum soviético em campo para reiniciar a partida, o árbitro decretou o fim do jogo, com vitória para o Chile por 1 X 0.

Para agradar ainda mais o povo presente, o Santos F.C., sem Pelé, foi contratado previamente, por uma cota de 30 mil dólares, entrou em campo e mandou 5 X 0 no time chileno totalmente despersonalizado e psicologicamente desmoronado.

Na Copa de 1974, o Chile não ganhou nenhum jogo: perdeu um e empatou dois. No 0 X 0 contra a Austrália, um grupo de chilenos invadiu o campo para protestar contra Pinochet.

Os protestos persistem até hoje em todos os dias 11 de setembro, quando o povo chileno se divide entre os que choram seus desaparecidos e os que ainda defendem a memória do velho ditador.

Essa encenação ridícula de 21 de novembro de 1973 entrou para a história como uma das noites mais tristes da história do futebol, onde o esporte serviu aos interesses partidários para silenciar a voz das vítimas.

Uma placa, para registrar o "Teatro do Absurdo" foi colocada no Estádio, depois da redemocratização do país. Ela diz: “O povo sem memória é um povo sem futuro”. (Pesquisa: Nilo Dias)