Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Estádio Serra do Lago


Logo que cheguei em Sobradinho (DF), onde estou até hoje, morei em uma casa nas proximidades do Estádio Augustinho Lima. E criei o hábito de assistir todos os jogos do Sobradinho Esporte Clube. E fiz amizade com o presidente do clube na época, Manoel Espiridião, o “Manoelzinho”, um ex-jogador de futebol, que entre outros cubes, andou pelo América, do Rio de Janeiro.

E fui convidado a fazer parte da Diretoria, embora nunca tenha sido feita uma reunião. O Manoelzinho reinava absoluto, não ouvia opinião de ninguém. O que fazia com que cargo de Diretoria e nada fosse a mesma coisa.

Mas aproveitei o meu cargo decorativo para acompanhar o clube em seus jogos pelas cidades satélites do Distrito Federal. Viajava sempre no ônibus da delegação. E conheci muitas dessas cidades e até algumas de outros Estados, visto que o “Candangão” conta com agremiações de Goiás e até de Minas Gerais.

E em duas dessas andanças estive em Luziânia, Goiás, terra do ex-governador Joaquim Roriz. E parece que quase tudo por lá gira em torno dessa família de políticos. Joaquim foi eleito vereador e prefeito na cidade. Zequinha Roriz, seu parente, também foi prefeito por duas vezes.

E foi ele que construiu e inaugurou o “Estádio Serra do Lago”, cujo nome oficial é “Zequinha Roriz”. Tem capacidade para receber até 21.564 torcedores, 13.212, nas arquibancadas e 8.352, na geral. A “Tribuna de Honra” tem capacidade para 377 cadeiras e é totalmente coberta. É o maior estádio do Entorno do Distrito Federal e um dos melhores do Estado de Goiás.

O que impressiona é o formato das arquibancadas, que possuem 50 degraus de 80 centímetros cada. Subir aquilo, que parece um tobogã, não é tarefa fácil, ainda mais para idosos que nem eu. Mas a verdade é que lá de cima se tem uma visão magnífica do gramado.

Essas arquibancadas foram construídas através do nivelamento feitos na própria "serrinha", o que proporcionou um desnível das cabines de transmissão de rádio e televisão até o gramado.

O apelido “Serra do Lago” foi escolhido em concurso público promovido pela Secretaria de Desporto e Turismo. Cerca de 700 pessoas votaram, sendo que 170 optaram por “Serra do Lago”. Ainda teve gente que sugeriu “Gigante da Serrinha”, “Serra do Ouro” e “Rorizão”. A moradora Cilene Augusta de Souza ganhou o prêmio de CR$ 500.000,00.

O estádio conta com oito vestiários, dois para clubes visitantes e dois para agremiações locais, um para árbitros, um para gandulas, um para o Departamento Médico e um para almoxarifado e rouparia, todos com estacionamento privativo.

Foi a Polígono Engenharia e Construções Ltda a empresa que construiu o estádio. Cerca de 200 homens trabalharam durante oito meses na obra, que consumiu 33 mil sacos de cimento e 200 toneladas de ferro.

O estádio tem amplo espaço para os blocos das bilheterias, sanitários, lanchonetes, cabines de rádio e televisão e estacionamento para 1.300 veículos.

A primeira vez que estive no “Serra do Lago” estava acompanhado do saudoso amigo “Marrom”, uma espécie de torcedor símbolo do Sobradinho, que era “pandeirista” de primeira.

Chegamos bem antes do jogo e aproveitamos para dar uma volta nas proximidades do estádio. E encontramos um bar onde aproveitamos para derrubar umas loiras geladas, pois estava calor e ninguém é de ferro.

O jogo de inauguração do estádio foi entre Luziânia X Botafogo, do Rio de Janeiro, disputado dia 13 de dezembro de 1992, assistido por um grande público, calculado em 10 mil pessoas, inclusive com torcedores vindos de cidades vizinhas.

Foi uma grande festa, que teve até desfile das equipes mirins (escolinhas), descidas de paraquedistas de Brasília, discursos, chuva forte e muitas homenagens.

O Luziânia surpreendeu e venceu o jogo por 1 X 0, com gol marcado por Rogerinho, aos 36 minutos da primeira etapa, o primeiro na história do “Serra do Lago”.

O árbitro do jogo foi Dario Souza Campos, auxiliado por Antônio Vidal e Filomeno Dourado. A renda somou Cr$ 135.113.000,00 e o público pagante foi de 6.755 pessoas.

Foram expulsos de campo os jogadores Nélson, Vivinho e Marcão, todos do Botafogo.

Luziânia: William Stain - Marcelo Roriz – Gilmar - Eduardo Gaúcho e Marquinhos. Luciano - Carlos Alberto e Zé Carlos. Zé Vieira (Ed Carlos) - Marcelo Cruz e Rogerinho (João Cortes). Técnico: Sidney Nascimento.

Botafogo: Zé Carlos – Marcão – André - Rogério Pinheiro e André Duarte. Pingo - Djair e Macalé. Vivinho - Bob (Marcelo Carioca) e Nélson. Técnico: Joel Martins.

A inauguração dos refletores aconteceu em 15 de junho de 1993, no jogo Luziânia X Goiás, válido pelo Campeonato Goiano, que terminou empatado em 0 X 0.

A Associação Atlética Luziânia foi fundada no dia 20 de janeiro de 1995, com a finalidade de participar do Campeonato Brasiliense de Futebol Profissional, sendo campeã em 1914 e bi em 2016. O símbolo do clube é a igreja do Rosário. (Pesquisa: Nilo Dias)

O "Serra do Lago" é um bonito estádio. (Foto: Divulgação)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O lado sujo do futebol

Hoje em dia, quando suborno, propina, compra de resultados e uma infinidade de situações escabrosas envolvendo o futebol brasileiro, nos dá uma idéia de que é resultado dos tempos modernos, em que a corrupção se mostra presente em praticamente toda a sociedade brasileira.

Mas não é bem assim. Já ao final da década de 1920 nos deparamos com a primeira suspeita de suborno em nosso futebol. Aconteceu no Rio de Janeiro, em 1929 quando o proprietário do Café Estrela d’Alva foi preso em flagrante, ao tentar subornar três jogadores do América, Sobral, Joel e Pennaforte, à véspera de um jogo final contra o Vasco da Gama.

O jornal “O Globo”, edição de 29 de novembro de 1929 noticiou que foram os próprios atletas que tomaram a iniciativa de comunicar o fato a Polícia. O comerciante foi preso ao entregar 20 contos de réis.

Mas nem precisava ter ocorrido a tentativa de suborno, visto que o Vasco ganhou de goleada, 5 X 0. Ao final do jogo muitas suspeitas recaíram sobre os jogadores americanos, Floriano e Osvaldinho, mas não foram levadas adiante por falta de provas.
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Bem antes disso teve outro caso, quando da tentativa de se estabelecer uma competição envolvendo os campeões carioca e paulista. A primeira edição foi em1914, entre Paulistano X América, campeões de 1913.

O América tinha em seu grupo os jogadores uruguaios, A. e J. Bertoni, que eram irmãos e haviam sido protagonistas do primeiro caso de “falso amadorismo”, segundo disseram os jornalistas Tomás Mazzoni e Rubens Ribeiro.

A primeira partida foi realizada no dia 24 de maio de 1914, no Velódromo, e o Paulistano venceu por 3 X 2. O jornal carioca “O Imparcial”, no dia seguinte ao jogo levantou a suspeita de que os dois uruguaios tinham sido subornados pelo Paulistano.

O clube paulista reagiu, acusando o América de ser responsável pelos boatos. Este, por sua vez, não aceitou a acusação. Como consequência os dois romperam relações, e a segunda partida não foi realizada, e o título não foi ganho por ninguém.

Por via das dúvidas, o América afastou os uruguaios sob a justificativa de “disciplina de ordem interna”.

Os dois jogadores foram trazidos para o Brasil em 1912, por iniciativa do S.C. Americano, de São Paulo. Com eles o time ganhou no mesmo ano o título paulista de forma invicta.

Outras denúncias mais recentes de subornos no futebol. O jornal “O Liberal”, de Belém do Pará, em sua edição de 12 de novembro de 2003 publicou matéria em que o ex-presidente do Paysandu, Miguel Alexandre Pinho, contou que o clube bicolor subornou árbitros para conquistar o Campeonato Paraense de 2000 e os brasileiros da Segunda Divisão de 1991 e 2001.

Miguel Pinho disse que o árbitro Wagner Tardelli esteve envolvido no esquema do “Parazão” de 2000, tendo dirigido o primeiro jogo da final frente o Castanhal. O “Papão” venceu por 1 x 0 com um gol de pênalti, nos acréscimos. No lance seguinte Edil quase empatou, carimbando a trave. Tardelli teria dito a Miguel que se fosse gol ele teria anulado.

Também contou ter havido esquema para beneficiar o Paysandu no clássico contra o Remo, em que este precisava vencer por dois gols e ganhou por 1 X 0, mas teve um gol legítimo de Robinho anulado pelo bandeirinha.

O ex-presidente do Paysandu se incluiu entre os cartolas que praticavam suborno. Ele revelou que tentou subornar Mário Fernando, ex-goleiro de Paysandu, Remo e Tuna, quando o jogador atuava por um time pequeno (Sport Belém ou Pinheirense), mas não teve êxito. Segundo Pinho, Mário Fernando não quis conversa.

Sobre os dois títulos da Série B conquistados pelo Paysandu em 1991 e 2001, Miguel Pinho afirmou com todas as letras que o clube bicolor se beneficiou de fortes esquemas. Citou o árbitro baiano Manoel Serapião Filho, referindo-se a ele como “Serapapão”.

No jogo contra o ABC, Serapião realmente “fez chover”. Anulou um gol legal do ABC, marcado por Rildon, e, de quebra, permitiu que o jogo chegasse ao final sem o mínimo de segurança. “Existem dois tipos de torcida, a pacífica e a aguerrida. A do Paysandu é pacífica”, justificou Serapião, para dar continuidade à partida, vencida pelo Paysandu por 3 X 1.

Na década de 40, o São Cristóvão tinha um goleiro que, quando queria, pegava até pensamento. Mas do ponto de vista da honestidade não era lá muito confiável. Na véspera de um jogo contra o Botafogo, que precisava vencer para continuar na disputa do título com o Flamengo, ele teria se oferecido ao presidente botafoguense, João Lyra Filho (que na época também era ministro), para amolecer o jogo. Indignado, o dirigente recusou a oferta, considerando-a um insulto.

No dia seguinte, o goleiro fechou o gol e o jogo terminou empatado. Ao cruzar com João Lyra, teria comentado, ironicamente: “Tá vendo, doutor? É o que dá bancar o honesto. Se o senhor tivesse me ouvido, agora não estaria aí desse jeito, com cara de perdedor arrependido.”

Em São Paulo, ficou famoso o caso do zagueiro corintiano Jaú, que em 1932 teria sido "cantado", como se dizia à época, para facilitar uma vitória do então Palestra Itália, atual Palmeiras. Além de não aceitar o suborno, Jaú armou um encontro para que a pessoa que tentou suborná-lo fosse apanhada em flagrante.

Daquele episódio, restou uma triste e preconceituosa brincadeira entre os torcedores dos dois times, registrada por João Máximo na primeira edição de seu livro “Gigantes do Futebol Brasileiro”, no perfil do ex-craque palestrino Romeu Pellicciari: "Quem é rico compra, quem é pobre se vende".

Também nos anos 40, havia um árbitro argentino que andou apitando jogos do Campeonato Carioca e não pensava duas vezes antes de se vender. Tanto que na semana de um clássico contra o Fluminense o pessoal do Botafogo soube que ele havia "fechado negócio" com o Tricolor. Chamado, o juiz confirmou, mas de dispôs a mudar de lado caso cobrissem a proposta que lhe havia sido feita, o que foi acertado na hora.

No dia do jogo, o Fluminense fez o primeiro gol. O juiz argentino arranjou um pênalti para o Botafogo, que empatou. O Flu passou de novo à frente, e de novo o juiz deu um pênalti, que o Botafogo voltou a converter. Mas não teve jeito, porque no último minuto o Fluminense acabou fazendo o gol da vitória.

"Maldita hora em que troquei o certo pelo duvidoso", teria confessado o juiz a seus amigos de bar. "Esse time do Botafogo é tão incompetente que não consegue ganhar nem jogo comprado..." (Historinhas de suborno – de Celso Unzelte)

Nem o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, escapou das nuvens negras que pairam sobre o futebol. Ele, junto de mais seis cartolas ligados a Fifa, foram presos em 2015 pela Polícia da Suíça a pedido da justiça dos Estados Unidos sob a acusação de corrupção e diversos outros crimes.

Os suspeitos foram detidos num hotel em Zurique, sob suspeita deterem recebido propina sobre  a votação para escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022.

Os outros dirigentes detidos na Suíça, além de Marin, foram Jeffrey Webb (Ilhas Cayman), presidente da Concacaf; Eugenio Figueredo (Uruguai),ex-presidente da Conmebol;  Julio Rocha (Nicarágua), presidente da Federação Nicaraguense; Costas Takkas, braço-direito do presidente da Concacaf; Rafael Esquivel, presidente da federação da Venezuela e membro do Comitê Executivo da Conmebol; e Eduardo Li, presidente da Federação da Costa Rica.

Contar histórias de clubes, juízes, dirigentes e jogadores envolvidos em situações de suborno, certamente daria um grosso livre. Ficam as situações contadas acima, apenas como registro de que nem só de santos vive o futebol, de ontem e de hoje. (Pesquisa: Nilo Dias)

Nem o ex-presidente da CBF, José Maria Marin escapu da sujeira no futebol. (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Tragédias do futebol

Foram muitas as tragédias verificadas em estádios de futebol no decorrer dos anos. A maior delas até hoje envolveu um jogo entre Peru X Argentina, pelas eliminatórias da Copa do Mundo , no Estádio Nacional de Lima.

O jogo se transformou no motim oficial de futebol mais mortal da história. Depois de um gol do Peru ser anulado pelos árbitros, os torcedores ficaram violentos, o que levou a polícia a intervir com gás lacrimogêneo para tentar dominar a revolta. No final, 318 pessoas morreram, ao tentarem escapar da cena pelas saídas do estádio que estavam fechadas.

Num jogo entre as equipes do Accra Hearts of Oak, de Acra, contra o Assante Kotoko, de Kumasi, clubes de Gana, disputado no  Estádio Accra, em maio de 2001, ocasionou a morte de mais de 120 pessoas.

No final do jogo a torcida do Assante Kotoko, que perdia por 2 X 1,  começou a atirar garrafas e outros objetos no campo. A polícia respondeu jogando bombas de gás lacrimogêneo. O pânico tomou conta e aconteceu um tumulto que ocasionou as mortes. Essa foi a quarta tragédia fatal relacionada a futebol em solo africano em um mês.

Nem todas as catástrofes esportivas são causadas por torcedores. Em 1988, quando começou a cair granizo durante uma partida no estádio nacional de futebol em Katamandu, Nepal, os torcedores correram em busca das saídas para evitar serem apedrejados.

Das oito saídas disponíveis, a multidão de 30 mil pessoas só pode acessar uma para escapar, resultando na morte de 93 torcedores por sufocamento ou esmagamento.

Em 1996, a partida de qualificação para a Copa do Mundo entre Guatemala e Costa Rica se tornou mortal depois que milhares de torcedores que haviam comprado ingressos falsos tentaram forçar a entrada ao estádio na Cidade da Guatemala.

Sem nenhum lugar para ir, e cercadas por torcedores raivosos que se tornaram violentos, cerca de 80 pessoas foram sufocadas ou esmagadas até a morte no tumulto.

Em fevereiro de 2012 o que deveria ter sido um jogo de futebol normal em Port Said, no Egito, entre o time local Al-Masry e o Al Ahli, do Cairo, acabou em desastre, depois de uma briga que tirou a vida de mais de 70 pessoas e feriu pelo menos mais 1.000.

A tragédia abalou a nação politicamente frágil, que culpou pelo tumulto o governo, as forças de segurança, o conselho da federação de futebol e os próprios torcedores. Revoltas no futebol do Egito estão entre as mais violentas da história.

Nos momentos finais de um jogo entre o FC Spartek e o HFC Haarlem, no Estádio Luzhniki, na Rússia, em 1982, os torcedores que estavam amontoados em uma seção do estádio com saída única devido a uma frequência menor do que a esperada, começaram a deixar o local com a vitória de 1 X 0 de seu time.

Quando a equipe do Spartek marcou o segundo gol, alguns torcedores tentaram voltar para o jogo, sem espaço para tanto. A emoção do gol, a estreiteza da saída e a falta de visibilidade da via do estádio para o exterior criaram uma situação de pânico em que até 340 pessoas teriam morrido (embora o número oficial de mortes permaneça em 60 e poucas), de acordo com o The Guardian.

Em 1985, no Estádio Heysel, na  Bélgica, o jogo final da Taça dos Campeões Europeus entre Juventus e Liverpool causou tantos danos que, na sequência, os clubes ingleses de futebol foram proibidos de competir na Europa continental por pelo menos cinco anos.

A tragédia começou quando fanáticos torcedores de futebol britânicos tentaram forçar seu caminho para a área do estádio onde se situava a torcida italiana, antes do apito inicial. Ambos os lados já haviam assediado um ao outro atirando projéteis no campo.

Quando os torcedores britânicos atacaram, os do Juventus foram encurralados contra um muro de concreto. Alguns tentaram escalar o muro para fugir, enquanto outros foram esmagados. O muro finalmente desmoronou sob a força dos torcedores.

No final, 39 pessoas morreram, além de ocorrerem cerca de 600 lesões corporais. As equipes ainda entraram em campo, apesar da tragédia, com o Juventus saindo à frente do Liverpool com um resultado de 1 X 0.

Também vale a pena lembrar de mortes trágicas ocorridas em campos de futebol, envolvendo jogadores e outras pessoas com algum relacionamento nos jogos.

As mortes de Marc Vivien Foe, Miklos Feher, Antônio Puerta, Serginho e Piermario Morosini provocaram discussões em torno do tema e trouxeram imagens terríveis para todos os torcedores.

Em 1985, o coração de Jock Stein, treinador irlandês, não aguentou a emoção da partida de sua seleção contra o País de Gales, na rodada final das Eliminatórias da Copa, e parou de bater ainda no estádio Ninian Park, em Cardiff.

A primeira morte que se tem notícia acontecida devido a acidentes no gramado foi a de William Cropper, em 1889. Ele, que atuava pelo Staveley e também jogava cricket, colidiu com o joelho de Dan Doyle, jogador do Grimsby Town. A colisão resultou em uma ruptura intestinal e o jogador morreu ainda nos vestiários, nos braços de um companheiro de equipe.

Ainda nos primórdios do futebol, alguns jogadores morreram de uma forma inusitada: contraindo tétano. Foi o caso de James “Daddy” Dunlop, que em 1892 pisou em um pedaço de vidro.

Outros jogadores lesionaram-se durante partidas e devido às lesões contraíram tétano que os vitimou. Foi o que aconteceu com Joe Powell (1896), James Collins (1900) e Tom Butler (1923).

Essa morte não foi durante a partida, mas foi no centro do gramado do Estádio Parque Central, em Montevidéu, local onde foi disputada uma das duas partidas inaugurais da Copa do Mundo de 1930, entre EUA e Bélgica.

Abdón Porte era um meio-campista talentoso, que venceu a Copa América de 1917, com o Uruguai. No ano seguinte, ele seria reserva do Nacional, clube em que jogava, mas não aceitou a notícia de forma feliz.

Após uma vitória sobre o Charley, em 4 de março de 1918, jogadores e dirigente se reuniram na sede do clube para comemorar a vitória. Porte foi até o Parque Central, chegou ao círculo central do gramado e atirou contra seu coração, tirando a própria vida.

Diversos atletas foram vitimados por raios durante partidas. O primeiro caso que se tem notícia foi o de Tony Allden, do Highgate United, durante um jogo das quartas de final da FA Cup de amadores, contra o Enfield Town.

Em 1984, Erik Jongbloed, filho de Jan Jongbloed, goleiro vice-campeão mundial em 1974 e 1978, teve o mesmo fim, assim como os colombianos Hernán Gaviria (que disputou a Copa de 1994) e Giovanni Córdoba, ambos do Deportivo Cali, em treinamento da equipe no ano de 2002.

Em 1998, uma curiosa notícia surgiu em um jornal da República do Congo, o L’Avenir, e repercutiu no mundo todo, inclusive em sites como a BBC e a CNN. Então, acredita-se que tenha realmente acontecido. Como havia uma guerra civil no leste do país, onde aconteceu a partida, não há confirmação oficial do fato.

Em uma partida entre as equipes do Bena Tshadi e Basanga, um raio teria matado todos os 11 jogadores do Tshadi. Porém, a nota original do jornal fala em “pelo menos 11 mortos, entre 20 e 35 anos, durante o jogo” e ainda que “os atletas do Basanga sobreviveram à catástrofe intactos”.

Portanto, diferente do que sempre foi publicado na mídia, pode sim ter havido mortos do Bena Tshadi, mas aparentemente nos 11 mortos havia também expectadores. Cerca de 30 outros expectadores foram atendidos também.

Sempre se diz que o pênalti é a pena máxima do futebol. No caso de um goleiro argentino, essa também foi sua pena fatal.

Em 24 de abril de 1992, Vicente Vásquez, goleiro do Chacarita Garuhapé, tinha contra ele um pênalti em uma liga local argentina. Vásquez acertou o canto e defendeu a penalidade, com a bola batendo em seu peito.

Porém, o arqueiro nunca conseguiu comemorar. Seu coração não deixou, e Vásquez faleceu em campo, vitimado por uma parada cardiorrespiratória.

Se já falamos em defesa de pênalti, temos que falar também da emoção do gol. Ao marcar contra o Mohun Bagan, o brasileiro Cristiano Júnior, do indiano Dempo Sports, levou uma forte pancada do goleiro adversário Subrata Paul.

Seu time venceu o jogo e conquistou a Copa da Federação de 2004 (2×0), mas Cristiano perdeu a vida ainda em campo. A autópsia apontou um ataque cardíaco. O goleiro adversário, responsável pelo choque, foi suspenso por apenas dois meses.

O croata Goran Tunjíc, do Mladost Buzin, sofreu um infarto e caiu morto no gramado na partida contra o Hrvatski Sokola, em 2010, em campeonato de quinto nível do futebol local.

Trata-se de mais um caso trágico, mas que não se destacaria das outras, não fosse por um pequeno detalhe: o árbitro da partida teria dado cartão amarelo ao jogador, quando este já estava praticamente morto, por simulação.

Essa é a história oficial. Alguns repórteres foram tentar confirmar a informação no clube alguns dias depois do ocorrido e os dirigentes informaram que o lance se deu longe do árbitro e que o cartão não teria sido mostrado. De qualquer forma, a história entra na lista das mais curiosas. (Pesquisa: Nilo Dias)

Na tragédia do Egito, familiares buscavam notícias. (Foto: Revista "Veja")

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O craque que se tornou escritor e poeta

Gilson Lustosa de Lira foi um dos mais destacados jogadores que atuaram no futebol mato-grossense, embora tenha nascido em Natal (RN), no dia 7 de março de 1948. Criado no Rio de Janeiro é filho de João Bezerra de Lira e Maria José Lustosa de Lira.

Começou a carreira no amador em Cachoeira de Macacu (RJ), cidade para onde seus pais vieram quando Gilson tinha dois anos de idade saídos de Natal (RN), e lá, foi onde comecei a jogar.

Defendeu o Cachoeirense, 11 Unidos, Ipê e Independente. Depois foi para Bom Jardim e Nova Friburgo. Na época foi observado pelo goleiro Castilho e pelo zagueiro Pinheiro, que eram ídolos do Fluminense, e o levaram aos 13 anos de idade para as divisões de base do clube.

Naquela época não havia juniores, era só o juvenil, depois aspirantes e finalmente o profissional. Gilson, depois do Fluminense, passou pelo Friburgo (hoje Friburguense) e Bangu.

Num jogo do Friburguense em que estava presente o jornalista Mário Filho, que dá nome ao estádio do Maracanã e Euzébio Gonçalves de Andrade e Silva, que foi presidente do Bangu de 1963 a 1968, Gilson marcou três gols.

Depois do jogo ele foi para o Bangu, onde jogou no juvenil, aspirantes e nos profissionais, em dois jogos do campeonato de 1966, quando o Bangu foi campeão.

Gilson considerou um prêmio ter jogado, nem que fosse poucos minutos, num timaço como era aquele do Bangu. Sua primeira partida como profissional aconteceu no ano de 1967, jogando pelo Bangu, num amistoso na cidade de Petrópolis, com vitória por 2 X 0.

Como um cigano do futebol andou pelo Grêmio de Maringá (PR), Náutico (PE), onde foi campeão pernambucano em 1969. Em 1970, fui para o ABC (RN), onde se sagrou campeão estadual e da “Taça Cidade de Natal”.

Em 1971 jogou no Galícia (BA), que era o time dos espanhóis; depois em 1972 voltou ao Rio de Janeiro.

Chegou ao Mato Grosso em 1973, onde disputou seu primeiro campeonato profissional estadual de futebol. Foi pelo Operário, de Várzea Grande. Havia recebido dois convites, um do Itabuna, da Bahia e outro do Operário, optando pelo clube mato-grossense.

Na época, o treinador Nivaldo Santana, que foi seu técnico no Friburguense, teria convencido a diretoria do Operário que se contratasse Gilson Lira, seria campeão, o que realmente aconteceu.

No Operário Gilson teve um desentendimento com Rubens do Santos, que era diretor do clube, por isso acabou indo emprestado para o União, de Rondonópolis, onde marcou 23 gols em 1975, marca essa que ainda não foi quebrada.

E esses gols garantiram o título ao União. Mas acabou ficando com o vice, graças a uma decisão no “Tapetão” que beneficiou o Comercial, de Campo Grande.

Teve ainda passagens pelo Grêmio de Maringá (PR), Náutico (PE), Galícia (BA), ABC (RN), Grêmio Anapolina (GO), Operário (MT), Comercial (MS) e União (MT).

Gilson foi artilheiro por todos os clubes que jogou. E colecionou títulos, em torno de 15 ao todo. Depois que deixou os gramados, teve uma experiência como treinador no União Esporte Clube e Vila Aurora.

Encerrou a carreira em 1980 no União E. C. de Rondonópolis. O último jogo da carreira foi pela Taça de Prata, contra o Villa Nova de Nova Lima (MG), em que seu clube ganhou por 1 X 0 com um gol seu, de cabeça, aos 44’30 do segundo tempo.

Foi o gol de número 684 de sua carreira. Neste torneio, o União fez sete partidas, com uma vitória, três empates e três derrotas.
No Mato Grosso conquistou 13 títulos, sendo sete pelo Operário, Campeão Estadual de 1973, Bi-campeão da Copa Cuiabá em 1973 e 1974, Campeão do Centro-Oeste de 1974, Campeão dos Torneios Ranulpho Paes de Barros, Semana da Pátria e Agripino Bonilha nos anos 1973 e 1974.

E três títulos no Comercial, Campeão do Torneio Incentivo de 1977, Torneio Marcelo Miranda também em 1977 e Taça Campo Grande de 1978; e três títulos no União, Campeão Invicto do Torneio Incentivo de 1975, 1976 e 1979. Marcou em Mato Grosso 285 gols, sendo 199 pelo União (é o maior artilheiro de sua história), 41 pelo Operário e 45 pelo Comercial.

Foi artilheiro do Campeonato Matogrossense em 1973, 1975 e 1976. Recordista de gols com 23 marcados numa única temporada e até hoje não ultrapassado. Bi-artilheiro no Torneio Incentivo em 1976 e 1979. Pelo ABC de Natal foi campeão estadual em 1970 e 1971.

Fora dos gramados construiu uma carreira bem diferente, tendo trabalhado como porteiro de uma escola. Depois conseguiu uma vaga de professor e chegou ao cargo de diretor. Trabalhou por 27 anos em escolas públicas. Foram 11 anos como diretor e 16 anos como professor.

Por influência de amigos, em 1992 teve uma incursão no mundo da política, tendo sido candidato a vereador, mas não conseguiu se eleger. Hoje longe de todas essas atividades se dedica apenas a escrever livros. Mora em Rondonópolis há mais de 30 anos.

Gilson Lira também trabalhou na Radio Juventude, de Rondonópolis, primeiro como comentarista esportivo e depois como narrador. Era chamado de “Comentarista Artilheiro”. Atuou também na Rádio Clube, Tropical FM e foi apresentador de um programa esportivo na TV Gazeta. E foi redator esportivo do jornal “A Tribuna”.

Atualmente é professor aposentado no Estado e escritor com 23 livros lançados nas escolas e 130 em seu site pessoal, o www.gilsonlirapoesias.com.br, que incentiva a leitura doando livros (E-books) para os estudantes.

A queda para a poesia veio desde os tempos escolares. Quando cursava o antigo segundo ano ginasial, no Rio de Janeiro, toda vez que a professora pedia uma redação, Gilson a fazia em versos.

Em 1979 ele lançou seu primeiro livro, que foi uma participação literária.

Gilson Lira tem formação acadêmica em Licenciatura de curta duração Estudos Sociais e Licenciatura plena em História e Filosofia, além de uma pós graduação em História pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

Gilson é casado com Martha Eliane do Nascimento Lira, com quem tem três filhos: Bárbara, Diego e Ígor. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Lampedusa, o time dos refugiados

Uma equipe de atletas refugiados participou da Olímpiada do Rio de Janeiro o ano passado, sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional (COI). A equipe era composta por 10 pessoas, seis homens e quatro mulheres: dois nadadores sírios, duas judocas congolesas e seis corredores da Etiópia e do Sudão do Sul. Todos foram vítimas de perseguições e tiveram que deixar seus países.

O Papa Francisco chegou a enviar uma carta aos atletas, em que disse esperar que a "fraternidade" do time de refugiados "faça bem a todos". Desde 2013, quando assumiu a liderança católica, que Francisco se preocupa com a crise de refugiados.

Em sua primeira viagem como papa, Francisco visitou a Ilha de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo, no Sul da Itália, lugar que se tornou o ponto de chegada de imigrantes e refugiados em travessias ilegais. 

Lampedusa é famosa pelas lindas praias frequentadas pelos italianos em férias. Hoje, também é lembrada como primeiro ponto de chegada de refugiados, especialmente do Norte da África, com destaque para a Líbia, por sua posição geográfica.

Pois bem, o nome Lampedusa chegou a Alemanha, mais precisamente no bairro de Sankt Pauli, em Hamburgo, onde foi criado um programa de apoio aos refugiados, em que se destaca um time amador de futebol com tendências libertárias, que congrega atletas vindos de várias partes do mundo. Todos refugiados.

Desde antes da atual onda migratória, já no começo dos anos 2000, os refugiados chegavam a Lampedusa e de lá eram liberados para tentar a vida em algum país europeu. Por isso o nome do time é uma homenagem a localidade.

Tudo começou em 2013, dois anos antes de ser deflagrada a Guerra da Líbia. Cerca de 80 dos milhares de refugiados líbios, conseguiram chegar na ilha e posteriormente a Hamburgo, onde foram abrigados em uma igreja no bairro de Sankt Pauli.

Torcedores do clube local, o Sankt Pauli se uniram para proteger os recém-chegados contra o desejo das autoridades locais que queriam expulsá-los. E assim nasceu o Lampedusa, time de futebol dos refugiados líbios. Com o tempo, pessoas vindas de diversos lugares do mundo, também passaram a fazer parte do time.

É o caso de um jogador afegão que não podia jogar em seu país porque não tinha documentos. E outros que nunca pensaram em jogar futebol, mas com a acolhida em Hamburgo, preferiram praticar o esporte, em vez de enfrentarem a fúria de bairros, cidades e países que fazem campanha pela volta dos refugiados a seus países de origem.

Nenhum desses atletas refugiados pode jogar em times profissionais da Alemanha, por que não possuem um endereço registrado, o que no Lampedusa não é empecilho. Hoje, o clube conta com mais de 30 jogadores.

Rexhep, um refugiado vindo do Kosovo, chegou a ser deportado para o Leste Europeu, visto que algumas regras estabelecem que o refugiado deve ficar no país onde pisa primeiro na Europa. Mas com o tempo, ele conseguiu voltar para o campo de refugiados em Hamburgo e para o time, onde foi meio campista.

Mas sua alegria durou pouco. O ano passado, por estar “ilegalmente” no país, foi preso pela polícia alemã no aeroporto de Hamburgo e agora se encontra em processo de deportação para o Kosovo, seu país de origem.

O time, que usa as cores amarela e vermelha, tem quatro treinadoras, todas ex-jogadoras de futebol. Uma delas, de nome Hagar, pouco mais de 40 anos é dona de uma loja de material esportivo, que vende camisetas, adesivos e bolsas do time. Seu marido, de nome Fernando, é o mais velho entre os jogadores do time e o único refugiado sul-americano da equipe, vindo da Colômbia há alguns anos.

O escudo do Lampedusa é redondo, com o nome do time em cima e do bairro de Sankt Pauli embaixo. Dentro, uma âncora representa justamente a cidade e o bairro, que fica numa região portuária.

A âncora é formada por um braço com os punhos cerrados em sinal de resistência, e se o lado esquerdo mostra uma seta, com a tendência esquerdista do time, no outro está a figura da bola. O lema do clube, “Here to play” (aqui para jogar), vai ao encontro do lema de muitas lutas pelos refugiados: “here to stay” (aqui para ficar).

A maioria dos refugiados não fala inglês e muito menos alemão. Dai a dificuldade que o time encontra para marcar treinos e viagens, visto que muitos jogadores não conseguem ler placas ou se orientar via transporte público. Qualquer viagem para uma cidade fora do perímetro urbano de Hamburgo pode ser a última aventura de algum jogador na Alemanha, sob risco de deportação.

Todos os jogadores do Lampedusa não são chamados por sobrenome. Usam somente os primeiros nomes, para que não sejam identificados e nem criem panelinhas étnicas.

Os jogadores se chamam apenas  pelo nome, e tratar alguém pela nacionalidade, “o afegão”, “o árabe”, “o libanês”, “o cara da Somália”, pode gerar repreensão das treinadoras. As histórias deles como refugiados não importam. Eles estão ali “para jogar e para ficar”.

"O importante é que eles estão com outras pessoas que estão na mesma situação que eles, sem importar se eles vieram do Iêmen, da Albânia ou da Sérvia. Eles não sabem falar a língua, não têm casa, não tem equipamento. Eles viram irmãos jogando futebol juntos”, justifica a treinadora.

Mesmo enfrentando todo o tipo de dificuldades o projeto do Lampedusa foi agraciado com um “City to City Barcelona FAD Award”, ambicionado prêmio catalão que escolhe as melhores iniciativas urbanas fora da Espanha que melhoram a vida dos cidadãos. Um dos patrocinadores do prêmio é a “Fundação Barcelona”, ligada ao time de Messi, Neymar e Suárez. Por isso o prêmio foi entregue de maneira especial.

O FC Lampedusa foi até Barcelona, onde realizou treinamentos na mesma “Ciudad Deportiva” em que o Barcelona e seu plantel de craques treina diariamente. Teve também uma visita ao museu do Barcelona. E para alegria das treinadoras, puderam assistir um treino da equipe feminina principal e conhecer o estádio “Camp Nou”.

Por iniciativa do Barcelona, o Lampedusa fez um jogo amistoso na “Ciudad Deportiva”, contra a Penya Blaugrana Vallirana, time de um projeto social apoiado pelo clube.

O time joga apenas partidas e torneios amistosos. Não é também filiado a qualquer associação. Mas ainda assim é um time de futebol de verdade, com treinos regulares e alguns jogos. Para ser atleta do Lampedusa tem que ser refugiado e ter no mínimo 16 anos.

O Lampedusa tem o apoio do Sankt Pauli, a equipe profissional do bairro, que ajuda com equipamentos, divulgação e organização de eventos. Em 2015 o time perdeu o campo onde realizava os treinamentos, e o Sant Pauli liberou toda a estrutura para uso do time de refugiados.

No meio do ano, virou parceria registrada: o Lampedusa virou o time oficial de refugiados do clube da segunda divisão alemã, trocando seu nome de “FC Lampedusa Hamburgo” para “FC Lampedusa Sankt Pauli”.

O Sankt Pauli já teve um presidente gay. O time entra em campo ao som de rock and roll e só tem torcedores de esquerda. O clube alemão da caveira, das bandeiras de Che Guevara, luta contra o racismo, o fascismo e o machismo. O clube, enfim, que deixa louco qualquer combatente contra o futebol moderno.

As faixas contra o fascismo, o neonazismo, a favor da causa palestina e da liberdade de expressão são presentes, bem como alguns gorros com as cores do arco-íris LGBT se destacam no meio da maioria de uniforme e cachecóis negros e marrom escuro.

Adesivos de boas vindas aos refugiados estão por toda parte no bairro e no estádio. Na loja oficial do Sankt Pauli pode ser vista uma bonita camiseta com um símbolo de resistência dentro do escudo do clube e a frase, que é o slogan de uma campanha oficial: “nenhum ser humano é ilegal”. (Pesquisa: Nilo Dias)

O Lampedusa quanto esteve na Espanha, a convite do Barcelona. (Foto: Divulgação)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A morte de Carlos Alberto Silva

Morreu hoje aos 77 anos de idade Carlos Alberto Silva, ex-técnico campeão brasileiro pelo Guarani, de Campinas em 1978, quando venceu o Palmeiras no jogo final, com um elenco que contava com craques como Zenon, Careca, Capitão, Mauro e Miranda.

E foi vice-campeão Olímpico pela Seleção Brasileira, em Seul, e campeão nos Jogos Pan-americanos de 1987 em Indianapolis, Estados Unidos. O Guarani publicou mensagem em sua rede social oficial agradecendo o treinador. “Obrigado por tudo, mestre”, escreveu.

Há cerca de um mês, o ex-treinador da seleção brasileira foi submetido a uma cirurgia no coração e vinha se recuperando bem. Ele morreu enquanto dormia em casa. Carlos Alberto Silva já tinha abandonado o futebol há alguns anos e mantinha em Minas Gerais, sua terra natal, alguns negócios pessoais, sendo dono da Ibiza Turismo.

O velório está previsto para ter início às 19 horas de hoje, e o sepultamento acontecerá amanhã, sábado, às 11 horas, no Cemitério Parque da Colina, em Belo Horizonte.

Carlos Alberto era natural de Bom Jardim de Minas (MG), onde nasceu em 14 de agosto de 1939. Formado em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais, além do Guarani dirigiu o São Paulo, Atlético Mineiro, Palmeiras, Santa Cruz (PE), Sport  (PE), Cruzeiro (MG), Corinthians, Goiás e Santos, ao longo de em carreira de mais de 20 anos.

Treinou também clubes do exterior como o La Coruña, da Espanha, Porto, de Portugal, onde ganhou dois Campeonatos Nacionais e uma Supercopa , no Japão, onde comandou o campeão japonês Yomiuri Kawasaki, em 1991 e no Santa Clara, de Portugal entre 2202 e 2004.

Já na Seleção Brasileira, Carlos Alberto Silva conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, perdendo a final para a União Soviética, na prorrogação, por 2 x 1. Além do ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianópolis, nos Estados Unidos.

No Brasil foi também bicampeão paulista pelo São Paulo, em 1980 e 1989. Conquistou ainda o Mineiro, com o Atlético Mineiro e o Pernambucano, com o Santa Cruz. Ocupou o cargo de diretor de futebol do Atlético Mineiro e se aposentou do futebol como técnico em 2005. Morava em Belo Horizonte. Seu último trabalho no futebol foi como vice-presidente no Villa Nova. 

Foi Carlos Alberto Silva quem lançou Ronaldo Fenômeno no time profissional do Cruzeiro. Em 1993, o treinador relacionou o atacante, então com 16 anos, para uma excursão do time mineiro à Portugal. Ronaldo marcou gols contra Belenenses-POR e Peñarol-URU, e assim assumiu a titularidade do time cruzeirense.

Títulos conquistados. Campeão Paulista da Série a-2, pela Catanduvense (1974). Campeão Brasileiro pelo Guarani, de Campinas (1978); Campeão Paulista pelo São Paulo (1980); Campeão Mineiro pelo Alético (1981); Campeão do Torneio de Paris pelo Atlético Mineiro (1982); Campeão Pernambucano pelo Santa Cruz (1983); Campeão da Taça Stanley Rous pela Seleção Brasileira (1987); Medalha de Ouro nos jogos Pan-Americanos pela Seleção Brasileira, nos Estados Unidos (1987); Medalha de Prata nos Jogos Olímpicos de Seul, pela Seleção Brasileira (1988); Campeão do Torneio Bicentenário de Independência da Austrália pela Seleção Brasileira (1988); Campeão Paulista pelo São Paulo (1989); Campeão Japonês Pelo Yomiuri Kawasaki (1991); Campeão Português pelo Porto (1992/1993); Campeão da Súper Taça de Portugal pelo Porto (1992) e Campeão da Copa Master da Súper Copa pelo Cruzeiro (1995).

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) lamentou a morte:

Com profundo pesar, a Confederação Brasileira de Futebol lamenta o falecimento do ex-treinador da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Silva, aos 77 anos. Profissional inspirador de gerações, Carlos Alberto fez história em seus trabalhos por dezenas de clubes brasileiros e pelo selecionado nacional, que dirigiu em 46 partidas.

Pela Seleção Brasileira, foi campeão do Pan-Americano (1987), da Taça Stanley Rous (1987), do Torneio Bicentenário de Independência da Austrália (1988) e do Torneio Pré-Olímpico de 1987, que classificou o Brasil para as Olimpíadas de Seul de 1988, onde ficou com a medalha de prata. Lançou na Seleção jogadores como Taffarel, Jorginho, Raí, entre outros, que depois formariam a base tetracampeã do Mundo.

Ganhou fama nacional ao conquistar o título brasileiro de 1978, com o Guarani de Campinas. Também foi campeão paulista, pelo São Paulo, mineiro, pelo Atlético Mineiro, e pernambucano, pelo Santa Cruz. No exterior, ganhou campeonatos nacionais em Portugal, com o Porto, e no Japão, com o Yomiuri Kawasaki.

A Diretoria da CBF e seus funcionários desejam força aos familiares, com a certeza de que Carlos Alberto Silva deixa um grande legado ao futebol brasileiro.

Marco Polo Del Nero - Presidente (Pesquisa: Nilo Dias)


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um marroquino na França

Just Fontaine foi um dos melhores jogadores franceses de todos os tempos, embora não tivesse nascido na França, sim em Marraquech, no Marrocos, que na época era colônia francesa. Fontaine veio ao mundo em 18 de agosto de 1933.

De origem humilde, seu pai dava um duro danado em uma indústria de tabacos para sustentar os sete filhos. O sonho do patriarca dos Fontaine era oferecer uma formação universitária para os filhos, apesar do talento evidente do pequeno Just para o futebol, além da prática do basquete.

Quando deixou o Liceu Lyautey, Fontaine começou sua carreira profissional jogando pelo USM Casablanca em 1950, graças ao comprometimento dos dirigentes em custear o prosseguimento de seus estudos.

O USM Casablanca, em 1952, foi campeão da Liga Marroquina e da Copa dos Campeões do Norte da África, torneio que não é mais disputado e que reunia os times campeões das colônias francesas do Marrocos, Argélia e Tunísia.

Com 1;74 de altura, “Justo”, como era chamado por seus companheiros, também anotava seus tentos de cabeça. Em razão de suas boas atuações chamou a atenção dos principais clubes da França, sendo contratado pelo Nice em 1953. Em sua primeira temporada sagrou-se campeão da Copa da França de 1954.

Acabou índio para o Stade Reims, para jogar no lugar do ídolo Raymond Kopa, que se transferiu para o Real Madrid. Em seis temporadas que vestiu a camisa do Reims, Fontaine marcou 121 gols, sendo o artilheiro da Primeira Divisão em 1958, ano em que também ajudou seu clube a ganhar a Copa da França.

Essa conquista garantiu ao Reims a chance de disputar novamente a Taça dos Campeões Europeus, atual “UEFA Champions League”, torneio do qual o clube fora vice-campeão dois anos antes, perdendo a final para o Real Madrid.

Rems e Real Madrid disputaram outra vez a grande final de 1959. Fontaine, embora tivesse sido o artilheiro da competição, com 10 gols, foi bem marcado naquele jogo e não teve boa atuação e nem fez gol, enquanto o novo time de Kopa, contando com Alfredo di Stéfano e Ferenc Puskas venceu por 2 X 0.

Na temporada 1959-60 Fontaine e Kopa voltaram a jogar juntos no Rems, repetindo o trio que fez sucesso na Copa do Mundo de 1958, com Roger Piantoni.

E o Rems foi novamente campeão francês e Fontaine artilheiro, embora estivesse afastado dos gramados desde março de 1960, quando fraturou a tíbia e o perônio da perna direita em jogo contra o Sochaux. Não conseguiria recuperar-se totalmente da lesão.

O último jogo de Fontaine como profissional ocorreu em julho de 1962, poucas semanas depois de ter-se sagrado outra vez campeão francês. Como havia se precavido e feito um polpudo seguro para suas pernas, se aposentou em ótimas condições. Além do dinheiro ganho como garoto-propaganda da Adidas. No total, ele marcou 165 gols em 200 partidas no campeonato principal da França.

Jogando pela Seleção Francesa teve números estatísticos impressionantes. Na primeira vez que vestiu a camisa francesa, em 17 de dezembro de 1953, marcou um gol de chapéu numa vitória de goleada por 8 X 0 sobre a Seleção de Luxemburgo. O jogo era válido pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1954, para a qual ele não foi convocado.

Já para as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958, tudo aconteceu ao contrário: Fontaine não foi utilizado, mas convocado para o Mundial. O atacante titular e artilheiro francês, Thadée Cisowski lesionou-se e não pode ir a Copa.

A estreia no mundial da Suécia não poderia ser melhor: uma goleada de 7 X 3 contra o Paraguai, com três gols de Piantoni. A primeira fase encerrou-se com outros três gols de Fontaine: os dois na derrota de 3 X 2 para a Iugoslávia e um na vitória por 2 X 1 sobre a Escócia, resultado que garantiu a classificação gaulesa.

Veio o mata-mata e Fontaine marcou mais dois gols na vitória por 4 X 0 sobre a Irlanda do Norte, pelas quartas-de-final. Nas semifinais, marcou uma vez, frente o Brasil. Depois, na decisão do terceiro lugar, contra a Alemanha Ocidental, Fontaine fez quatro gols, somando um total de 13, superando o artilheiro do mundial anterior, o húngaro Sándor Kocsis, que fez 11.

Fontaine foi o jogador que mais gols marcou em uma única Copa até hoje. Somadas mais de uma Copa, o alemão Miroslav Klose é o maior artilheiro, com 16 gols: cinco em 2002, cinco em 2006, quatro em 2010 e dois em 2014.

As lesões tiraram Fontaine da Seleção. O seu último jogo pela França foi em 1960, nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1962, contra a Bulgária. As lesões lhe impediram de jogar as demais partidas e a França acabou perdendo a vaga justamente para os búlgaros.

Ao todo, marcou pela Seleção 30 gols em 21 partidas. Fontaine superou notáveis jogadores como Michel Platini e Zinédine Zidane em 2004, quando foi eleito o melhor jogador francês dos 50 anos da UEFA, nos prêmios do jubileu da entidade.

Curiosamente, assim como eles e como seus contemporâneos Roger Piantoni e Raymond Kopa, Fontaine tem sangue estrangeiro: é filho de mãe espanhola com um francês.

Depois de deixar os gramados Fontaine foi presidente do sindicato dos jogadores da França, lutando para garantir contratos maiores para a classe.

Pelé e Fontaine tiveram um desentendimento em 1960, quando de uma excursão do Santos pela Europa, já após Fontaine ter sofrido a fratura que interrompeu sua carreira.

Ele entregou um lápis a Pelé, pedindo que assinasse na perna engessada. Pelé não entendeu o pedido em francês. Fontaine irritou-se e perguntou se o idioma de Pelé era "africano" ou "macaquês". Indignado, Pelé atirou o lápis no francês, seguido de um palavrão - em bom português.

Fontaine chegou a ser técnico da Seleção da França em 1967, mas durou pouco tempo, apenas dois jogos amistosos que terminaram em derrota. Entre 1979 e 1981, treinou o selecionado do Marrocos, tendo chegado perto de classifica-lo para a Copa do Mundo de 1982. O time  chegou à última etapa, quando disputou vaga em duas partidas contra Camarões, que venceu ambas.

Em sua carreira ganhou prestigio como artilheiro. Na Copa do Mundo FIFA, em 1958, fez 13 gols. Na Primeira Divisão Francesa, na temporada 1957-58 marcou 34 vezes. E na temporada 1959-60, balançou as redes em 28 oportunidades. Na Taça dos Campeões Europeus, em 1958-59, estufou as redes em 10 vezes. Foi homenageado pela FFF em 2005, como o maior futebolista francês dos últimos 50 anos.

A enorme capacidade goleadora de Fontaine completava-se com sua velocidade para se infiltrar na área, seu chute forte e o bom cabeceio, qualidades que ajudou o jogador a marcar 27 gols em suas escassas 20 aparições em partidas internacionais. (Pesquisa: Nilo Dias)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Um grande nome do futebol caxiense

Em Caxias do Sul o nome de Osvaldo Valentim Palmiro Artico,é até hoje lembrado com respeito e até veneração. Ele esteve presente em momentos importantes da cidade, especialmente no futebol. Foi um dos fundadores do Sport Club Ideal, o primeiro time de futebol que se tem notícia em Caxias do Sul.

O Sport Clube Ideal foi fundado em 3 de outubro de 1910, por jovens amadores que praticavam o futebol de forma precária, sem um campo fixo e sem equipamentos, jogando com bolas de pano, laranjas ou bexigas de animais. Até mesmo seu uniforme era improvisado.

A situação era tão difícil que até mesmo os calções eram feitos de sacos de linhagem, que eram furados no fundo para os jogadores passarem as pernas. E depois eram amarrados com um pedaço de corda na barriga, como se usa nos pijamas.

O surgimento do Ideal deu-se em uma cidade conservadora onde até então os principais esportes eram o jogo de cartas, o jogo da mora e o jogo da bocha.

Osvaldo tinha o apelido de “Mirim”, para diferenciá-lo de seu avô, que tinha o mesmo nome. O apelido ele carregou por toda a vida. No Ideal destacou-se como um líder, tendo se envolvido em incontáveis brigas durante os jogos, coisa comum entre a meninada da época.

Nessas ocasiões costumava usar um cinturão de onde pendia pesada fivela de metal. Fora isso, era bem quisto por companheiros e adversários.

Com o tempo o Ideal foi crescendo, desenvolvendo outras atividades além do futebol, como "matinés dançantes" que atraíam os jovens de todos os cantos da cidade;

Nessas ocasiões a disciplina era bastante rígida, quase uma postura militar. Era proibido que os moços tocassem nas moças. A religião e a moral católica eram princípios fundamentais.

Mas nem por isso os escândalos não eram totalmente evitados. Uma coisa que nos dias de hoje nem chamaria atenção, era tratada como um desrespeito naqueles distantes anos. A presença de jogadores do Ideal com as pernas descobertas.

Também esteve presente na fundação do Esporte Clube Juventude, em 29 de junho de 1913, onde se destacou como atleta, capitão, diretor de departamentos e presidente. Ainda ajudou a fundar o Recreio da Juventude, um dos mais tradicionais clubes sociais de Caxias. Em 1938 foi secretário do Recreio Guarany.
Osvaldo foi jogador titular do Juventude desde a primeira partida, atuando como centromédio. O clube era formado basicamente por adultos, e para criar um quadro de juniores Osvaldo propôs ao Ideal se fundir ao Juventude.

Mas a ideia não foi bem aceita, ao contrário, provocando uma cisão. Metade gostou, mas a outra metade, não, preferindo aderir ao Clube Juvenil, fundando o seu Departamento de Futebol.

Com a fusão, Osvaldo foi designado capitão-instrutor dos Juniores. Em 1915, atuou como diretor de Campo do Juventude. Em 1917 foi presidente, e jogador ao mesmo tempo, sendo o capitão em 1917 e 1918.

O historiador do Juventude, Michielin, descreveu Osvaldo como um dos "imortais" do clube. E lembrou de um jogo contra o Cruzeiro, disputado em 1918, em, que classificou a atuação de Osvaldo como "fantástica".

Ainda recordou de uma partida frente o 14 de Julho, de Santana do Livramento, em 1919: "Osvaldo Artico, depois de sete temporadas seguidas, está no auge de sua classe, jogando com uma gana incrível. Sua raça é indomável, não há “leão” que o assuste.

Toma conta do campo e marca o terceiro e quarto tentos. No placar, Juventude 4 X 1. É uma loucura". A referência ao “leão” é uma alusão ao 14 de Julho, chamado “Leão da Fronteira”, que se encontrava invicto até enfrentar o time caxiense. A partir dessa vitória histórica, o Juventude passou a ser chamado pela imprensa da capital de “Tigre da Serra".

Osvaldo Artico ainda ocupou várias outras funções no Juventude, deixando uma importante marca na história do clube. Em 1924 esteve no Conselho Fiscal; em 1931 ocupou a Presidência pela segunda vez; em 1933 e 1934 integrou o Conselho Técnico; em 1935 e 1936 foi capitão-geral; e em 1938 foi diretor técnico.

Sua atuação no futebol não se limitou ao Ideal e ao Juventude. Em 1934 foi um dos fundadores e primeiro presidente da Liga Interna Caxiense de Foot-Ball, depois renomeada Liga Esportiva Caxiense.

Fora do futebol foi comerciante e político. Teve elogiada atuação como sub-prefeito do distrito de São Marcos, em 1939 e 1940, onde também foi um dos fundadores da Associação Rural, um dos fundadores e dirigente do Tiro de Guerra 248, com a patente de capitão, um dos fundadores e primeiro vice-presidente da seção local da Liga de Defesa Nacional, um dos fundadores do Diretório Municipal de Geografia de Caxias e do Grêmio Americano, de quem foi o primeiro presidente honorário.

Foi reconduzido ao cargo em 1941 e 1942. Depois transferiu-se para o distrito de Ana Rech, onde foi sub-prefeito em 1948. Em 1976 a Prefeitura de Caxias honrou sua memória batizando uma rua com seu nome.

Osvaldo Artico descendia de uma antiga família da nobreza italiana, que habitava a região compreendida entre o Friuli e o Vêneto. Depois, um ramo familiar mudou-se para Ceneda. E foi lá, em 1845, que nasceu o avô de Osvaldo, também de nome Osvaldo.

Ele casou com Magdalena de Nadai, foi militar e oficial de Giuseppe Garibaldi, lutando no “Risorgimento” italiano. Em 1879 decidiu emigrar para o Brasil, indo para Caxias do Sul, não se sabe por quais razões.

Em terras gaúchas, participou dos trabalhos de fundação de Caxias do Sul. Trabalhou como professor, ferreiro e foi dono de uma bodega, além de membro da Comissão de Obras da primeira Igreja Matriz e um dos fundadores da Sociedade Príncipe de Nápoles.

Foi por iniciativa dele que a cidade ganhou a primeira fábrica de fogões a lenha. Depois tornou-se industrial do vinho. Faleceuo em 1909 em confortável situação financeira e prestigiado socialmente. Seu sepultamento foi um dos mais concorridos da época. Deixou seis filhos: Antônio, Augusto, José, João, Celestina e Maria.

Os negócios do avô Osvaldo tiveram continuidade, com Augusto tomando conta da ferraria. Antônio, casado com Teresa Segalla, e pai de Osvaldo (“Mirim”) assumiu a direção da cantina e a ampliou significativamente, exportando 10 mil barris de vinho por ano e tendo seu produto premiado.

Antônio esteve ainda ligado a política, sendo dirigente do Partido Republicano Rio-Grandense, e membro da Diretoria da Associação dos Comerciantes. Em 1921 o negócio da cantina faliu, e Antônio abriu um pequeno hotel com restaurante, onde organizava banquetes de encomenda.

Morreu no dia 6 de março de 1936. Com Teresa teve o filho Osvaldo e as filhas Ilda, falecida na infância, Irma, Norma, Graciema e Rina.

Osvaldo foi casado com Erci Sturtz. Seus filhos Ervaldo e Juarez também permaneceram ligados ao Juventude. Ervaldo foi jogador, conhecido pelo apelido de “Nenê”. Juarez também jogou e depois passou por funções administrativas, chegando a ser diretor administrativo, diretor dos juniores, vice-presidente de futebol e presidente do Conselho Deliberativo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Osvaldo Artico. (Foto: "Wikipedia)

Osvaldo fez parte da primeira equipe da história do Juventude. (Foto: "Wikipedia)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O mais famoso time de negros

A exemplo do Rio Grande do Sul que teve algumas equipes de futebol formadas só por jogadores negro e três ligas, a.... de Porto Alegre, a Rio Branco, de Pelotas e a...de Rio Grande, em São Paulo tivemos a Associação Athletica São Geraldo, chamada popularmente de o “clube dos homens de cor”.

A entidade foi fundada no dia 1º de novembro de 1917, por Silvério Pereira, Rufino dos Santos, Felisbino Barbosa, Horácio da Cunha, Benedito Costa e Benedito Prestes. A finalidade era promover a prática tanto do futebol quanto do atletismo. Não obstante, ao longo do tempo, seus investimentos maiores concentraram-se no esporte bretão.

As cores do clube eram o preto e o branco. Teve sua sede social primeiro na Barra Funda e posteriormente nos Perdizes. Sua criação deveu-se as dificuldades que os atletas negros e mulatos tinham para serem aceitos em uma das grandes agremiações do futebol paulista, como Athlético Paulistano, Associação Athlética das Palmeiras e Sport Club Corinthians Paulista.

Nos primórdios do futebol brasileiro era crença de que os jogadores negros eram inferiores tecnicamente aos brancos. Os raros que eram aceitos nos times, não tinham direito a participação nas atividades sociais, como festas e bailes.

A ideia de criação do São Geraldo não era apenas de um caráter recreativo. Muito mais que isso. Buscava, também, inserir a população negra paulistana na rede de associativismo que, a partir do início do século XX, floresceu por lá. As associações se multiplicavam na tentativa de proporcionar atividades recreativas, culturais, políticas e sociais dos negros.

Mesmo com todas voltadas para o enquadramento dos negros num ambiente social, os tipos de eventos e as atividades proporcionadas eram diferentes em vários aspectos, o que se poderia constatar nos próprios nomes dessas entidades. Algumas eram dançantes, outras recreativas. Havia às dramático recreativas ou dramático recreativas e literárias, dramáticos recreativas literárias e beneficentes, as beneficentes e humanitárias, recreativas e esportivas ou apenas esportivas.

Mesmo com atividades diferentes, elas contribuíam a sua maneira para o desenvolvimento de uma identidade específica de negros, já que não eram aceitos nas organizações de brancos.

O São Geraldo foi fundado na Barra Funda, bairro que acolhia uma grande população negra, formada, na maioria, por pessoas vindas de pequenas cidades do interior do Estado, em busca de melhores condições de vida.

O bairro da Barra Funda era o local preferido dessas pessoas, pois lá se encontrava a estação ferroviária e grandes  armazéns para estocar especialmente o café. A mão de obra era constituída, na maioria por negros, responsáveis pelos serviços mais pesados. Alguns se deslocavam até o porto de Santos, sempre que escasseava o trabalho em São Paulo. Já as mulheres prestavam serviços como domésticas nas casas das famílias ricas da cidade.

Nas horas de folga a população negra promovia batuques, rodas de samba, pernadas, umbigada e tiririca (espécie de capoeira), em volta dos botequins que existiam na Alameda Glette e no Largo da Banana. Nos períodos carnavalescos participavam dos grupos “Barra Funda”, “Campos Elísios” e “Flor da Mocidade”, que se constituíram nos primeiros cordões carnavalescos de São Paulo.

A Barra Funda propiciava condições para a prática de esportes, principalmente o futebol, visto que nas primeiras décadas do século XX, existiam vários terrenos baldios na parte alta do bairro, próximo ao Bom Retiro.

E foi num desses terrenos vazios que o São Geraldo teve seu primeiro campo, que ficava ao final Rua Tupi. O clube foi criado pelos negros da Alameda Glette, próximo à linha férrea. O grupo não tinha profissionais especializados, eram todos trabalhadores como carregadores e ensacadores. Eram conhecidos e respeitados como “valentes da Barra Funda”, devido a força física.  informações fragmentadas disponíveis não permitem tecer detalhes acerca da origem do São Geraldo.

Mesmo sem intelectuais no grupo, o São Geraldo conseguiu se organizar e oficializou em cartório o seu Estatuto, estabelecendo uma estrutura de funcionamento alicerçada em várias instâncias, tais como diretoria, corpo de associados e programa de atividades. Sua sede foi instalada na Rua Barra Funda, mais tarde transferida para a Rua Florêncio de Abreu.

Não demorou para o time se filiar à Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), entidade que era a responsável de organizar o futebol no Estado, para disputar o campeonato da chamada “Divisão Municipal”, que reunia as equipes varzeanas da cidade.

Dono de uma equipe homogênea, constituída de bons jogadores, o São Geraldo logo ganhou destaque no futebol de várzea. Entre os destaques que vestiram a camisa preta e branca naqueles anos, estavam Zelão, Tita, Africano, Filipão, Olavo, Caçaróia, Pé, Buiú, Alfredo, Goiabada, Bizerrão, Caetano, Vaca Braba e Bode e Hilário que protagonizaram grandes espetáculos na chamada “Zona Pacaembu”.

Também tiveram passagem pelo “alvinegro” da Barra Funda,  Carlos Campos, o “famoso beque” Sarará, o atacante Ditinho – considerado um dos craques do time – e o “meia esquerda” Paulo, que foi uma figura brilhante, conforme escritos em jornais da época.

Quem pensa que praticar futebol naqueles distantes anos era tarefa fácil e barata, está enganado. Boa parte do material utilizado para o futebol era importado, tais como bola, meias, calções, luvas, joelheiras e tornozeleiras. Não se sabe exatamente a maneira pela qual o São Geraldo conseguia arcar com as despesas da equipe. Provavelmente a receita vinha das mensalidades dos sócios.

Também existiam outras fontes de renda: donativos e realizações de festas e bailes. A”Revista da Mocidade Negra”, noticiou em sua edição de 22 de julho de 1928, que  “Revestiu-se de grande brilhantismo o festival dançante que A.A. São Geraldo fez realizar no último sábado no salão Modelo à Rua da Consolação, 27, dedicado aos seus associados e suas famílias”.

Dionísio Barbosa, fundador e principal dirigente do “Cordão Carnavalesco Camisa Verde”, disse anos depois que emprestava o salão da agremiação ao São Geraldo, para a realização de suas festas, que eram realizadas para o clube angariar recursos para a compra de equipamentos esportivos. Não cobrava nada, ap0enas contava com os jogadores do São Geraldo fazendo a seguranças nas festas do “Camisa Verde”.

O São Geraldo tem uma bonita história. Sua principal conquista foi a “Copa do Centenário da Independência do Brasil”, nome dado ao campeonato paulista de 1922, que fez parte das comemorações dos 100 anos da emancipação política do país. A competição foi disputadíssima. O São Geraldo, com um time formado só por negros decidiu o título frente o Flor do Belém, uma equipe de brancos

A grande final foi realizada no Estádio da Floresta, num domingo de Páscoa. No primeiro tempo o São Gerado não esteve bem e saiu perdendo por 2 X 0. A torcida do Flor do Belém já gritava “é campeão”, “é campeão”.  Veio o segundo tempo e com ele a reação incrível do São Geraldo, que virou o jogo para 3 X 2 a seu favor. Os jogadores campeões deixaram o gramado, carregados por seus torcedores.

Depois dessa conquista o alvinegro da Barra Funda tornou-se o principal time de negros de São Paulo, embora de longa data já fizesse por merecer isso. Os jornais diziam que a “Associação Atlética São Geraldo era uma agremiação de homens pretos que, no esporte, tem sabido não só na capital, como em todo o Estado, honrar sobremaneira o nome do negro brasileiro”.

Cerca de um ano depois, os jornais, especialmente da imprensa negra, voltavam a se reportar ao São Geraldo, dizendo que se tratava de um clube que merecia um capítulo à parte. “Deus, parece, que escolheu a camisa alvinegra, para dar-lhes essa honrosa designação, evidenciando, deste modo, o quanto a nós, pretos, o Brasil deve a sua Independência”, publicou o “Progresso”, em 28 de julho de 1929.

O São Geraldo, além de participar das competições organizadas pela APEA, não dispensava jogos amistosos contra os clubes de negros. Bastava a existência no bairro de um time de futebol, para que a interação entre eles se desenvolvesse naturalmente.

O maior rival do São Geraldo era o Grêmio Barra Funda, do mesmo bairro. Eles realizaram jogos memoráveis. Em abril de 1926, o “Grêmio Recreativo Nem que Chova” promoveu um “festival esportivo”, com a presença de 10 times de futebol do meio negro, no campo do Paulista de Aniagens, situado na Rua Glicério. Como premiação, previa-se distribuir “duas ricas taças”.

O “festival” aconteceu no dia 9 de maio de 1926, e contou com a participação do São Geraldo. Já em 1932, a agremiação alvinegra disputou e ganhou a “Taça Clarim d’Alvorada”, enfrentando equipes esportivas da raça negra, que militavam na capital. Os amistosos do São Geraldo também aconteciam frente clubes do interior paulista. Em 11 de agosto de 1929, sua equipe viajou até a cidade de Campinas, onde enfrentou a Ponte Preta.

Mesmo amistoso, o jogo chamou muito a atenção. Um grande público compareceu ao estádio. A partida foi movimentada e terminou com a vitória da Ponte Preta, por 4 X 2. O São Geraldo teve um gol legítimo anulado, e um pênalti que foi desperdiçado.

O São Geraldo também jogou contra equipes de outros estados, principalmente do Rio de Janeiro, em torneios e jogos amistosos.  Em 1925, ocorreu uma crise na organização do futebol paulista, levou o Clube Atlético Paulistano a abandonar a APEA e criar a Liga de Amadores de Futebol (LAF), no que foi de imediato acompanhado pela Associação Atlética das Palmeiras e pelo Sport Club Germânia.

Com isso foi criado um impasse. As duas entidades diziam ser a representaste oficial do futebol do Estado de São Paulo. O São Geraldo aderiu à nova associação, disputando o campeonato da divisão “intermediária”. Nessa época, não havia lei de acesso. Os nove times considerados grandes, Club Atlético Paulistano, Sport Club Germânia, Sport Club Corinthians, Associação Atlética das Palmeiras, Britânia Atlético Clube, Clube Atlético Santista, Antártica Futebol Clube, Clube Atlético Independência e Paulista Futebol Clube, que compunham a divisão mais importante da LAF, jogavam entre si e não corriam o risco de rebaixamento.

O São Geraldo participava de uma divisão composta por clubes menores, muitos vindos do futebol de várzea. Mesmo se destacando mais que os rivais, não havia a perspectiva de ascender à divisão principal.

Em 1928 o time não foi bem no campeonato. Mas em 1929 foi campeão invicto. E nenhum de seus jogadores, no tocante a disciplina, foi sequer advertido. E para completar, o time só levou um gol em toda a competição. Aquela foi a última vez que o “alvinegro” da Barra Funda disputou o campeonato da LAF, a entidade que, desde a sua criação, mostrava-se favorável à permanência do amadorismo.

Tudo levava a crer que a LAF iria substituir a APEA como legítima representante do futebol de São Paulo, mas não foi isso que aconteceu. A entidade dissidente não conseguiu se consolidar no meio futebolístico. E os times foram um a um regressando à APEA, caso do Sport Club Corinthians, que ajudou a erguê-la em 1925 e tomou parte num único campeonato por ela patrocinado. Em 1927 voltou a APEA.

A LAF organizou somente três campeonatos paulistas. Dizem que seu insucesso se deveu em grande parte a insistência em manter o futebol amador. Era uma época em que os clubes cada vez mais se profissionalizavam e os atletas exigiam pagamento, pois não podiam viver só do futebol. Precisavam ter também outra ocupação para garantir o sustento da família.

A APEA, da boca para fora defendia o amadorismo, mas na prática fazia vistas grossas para a realidade que mostrava clubes e jogadores experimentando o profissionalismo. Os jogadores não queriam defender times da LAF, uma vez que só ganhavam o material de jogo (calção, camisa, meias, toucas e chuteira) para entrar em campo, ao passo que os times da APEA pagavam um salário paralelo ao trabalho de cada um fora do futebol.

O São Geraldo acabou por entrar na realidade e voltou a se filiar à APEA, participando de suas competições.  Mas pouco a pouco entrou em crise, enfrentou tensões internas e se desarticulou coletivamente. Sem resultados expressivos dentro de campo, restava viver de um discurso saudosista. Não se sabe ao certo quando o clube enrolou a bandeira, mas tudo indica que foi na primeira metade da década de 1940.

E ninguém sabe ao certo porque razões levaram ao fechamento. Desconfia-se que o desmonte do clube também teve relações ao novo contexto social e cultural. Como o futebol se tornou um esporte de massa, e a sua definitiva profissionalização implicou em um aumento na competitividade entre os grandes clubes, as associações de linhas de cor e de classe social perderam terreno.

Aliado a isso, os principais clubes de futebol aos poucos reformaram seus estatutos, retirado cláusulas que proibiam a entrada de homens de cor. O órgão oficial de comunicação da “Frente Negra Brasileira”, publicou que o jogador símbolo do ingresso do negro nos altos cenários do futebol foi Mateus Marcondes, atleta do Clube Espéria.

Teria sido ele a última “figura a aparecer vitoriosamente em nossos esportes, vencendo e convencendo os paredros do futebol bandeirante.”

Na década de 1930 praticamente todos os grandes clubes paulistas passaram a contratar jogadores negros. Mas não era permitido que tomassem parte em setores do clube destinados somente aos associados brancos.

Foi na época que grandes jogadores negros migraram para os grandes clubes. Bianco, o famoso “gorrinho encarnado” do Sul-América, transferiu-se para a Associação Atlética das Palmeiras. Talvez o caso mais emblemático tenha sido Petronilho de Brito, um típico jogador da várzea paulistana que, na concepção de Thomaz Mazzoni, trouxe pioneiramente para o “futebol dos grandes clubes o verdadeiro futebol da raça negra”.

Time de negro não passava para a primeira divisão do campeonato. Mas ao enfrentarem amistosamente tudo quanto era time de São Paulo, os de cor ganhavam sempre. Por isso ninguém queria jogar contra o São Geraldo.

Quem primeiro descobriu ali uma fonte de ótimos jogadores foi o Corínthians, que devagar foi passando a mão nos negros. Tirava um, depois outro até que destruiu o São Geraldo, contam os saudosistas. Pena que não tenham deixado o São Geraldo jogar a Primeira Divisão. Era um time de primeira categoria.

Em 1948, ao recordar os “maiores feitos do futebol brasileiro”, a folha “Mundo Esportivo“ mencionou o título do São Geraldo de campeão do Centenário da “Divisão Municipal”. A esse respeito, O “Clarim d’Alvorada” já tinha sido bem incisivo em sua edição de 26 de julho de 1931: “o São Geraldo é um clube que honra a coletividade negra no futebol paulista”. (Pesquisa: Nilo Dias)