Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A tragédia da Piedade

Faz mais de um século que essa história real aconteceu. É tão impressionante que atiça a incredulidade: jogador do Botafogo é baleado por Euclides da Cunha, participa da morte do escritor, enfrenta o Fluminense com uma bala cravada na espinha uma semana depois de levar o tiro, é campeão carioca no ano seguinte (enquanto perde parte dos movimentos do corpo), vai parar em um hospício, vira mendigo e suicida-se, miserável, inválido e louco, no Rio Guaíba, em Porto Alegre.

De tão absurda, a história parece um roteiro ruim, uma tragédia grega, um causo qualquer. Não é. É incrível, mas absolutamente real - é a história de Dinorah, herói nos campos, vilão na sociedade, vítima em uma tragédia de sangue, amor, traição, literatura e até futebol.

O relato é baseado em reportagens de jornais durante mais de 10 anos e em livros escritos sobre a "Tragédia da Piedade". Em meio a uma série de contradições e versões confusas, este trabalho também se baseia no livro "Matar para não morrer", da historiadora Mary del Priore, obra lançada em 2009 pela “Editora Objetiva”.

Dinorah e Dilermando eram gaúchos de Porto Alegre, filho de João Cândido de Assis, segundo tenente de artilharia, e de Joanna Carolina de Assis. Dilermando e Dinorah não deixavam olhares passarem despercebidos em idos da primeira década do século 20.

Eram jovens, fortes - o primeiro de cabelos mais claros do que o segundo. Tinham características parecidas, como se um irmão fosse a sombra do outro: ambos viajados (do Rio Grande do Sul para São Paulo, de São Paulo para o Rio de Janeiro), os dois ligados à carreira militar. Ambos atléticos.

Os irmãos eram devotados aos esportes. Mas com aptidões diferentes. Dilermando era esgrimista dos bons. Dinorah preferia usar os pés. Jogava futebol, um esporte que se espalhava pelos “grounds “ (campos) cariocas e começava a se popularizar.

Em 1904, Dinorah passou a morar com seu irmão, Dilermando, na pensão Monat, situada no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Dois anos mais tarde, foi para São Paulo, onde iniciou sua carreira futebolística no extinto Internacional.

Tão logo chegou ao Rio, já com a vivência de ter atuado pelo Internacional (SP), foi defender as cores do América. Na zaga rubra, foi aliado de Belfort Duarte, símbolo de disciplina, defensor que tinha asco a faltas. Jogou dois anos lá.  

No Campeonato Carioca, marcou um gol e atuou como árbitro na partida em que o Fluminense goleou o Paissandu e ficou com o título.

Em 1909, transferiu-se para o Botafogo, que seria o seu último clube, sem ter ideia da desgraça que o destino bordava para sua vida. Voltou a morar com o irmão para estabelecer a carreira militar. 

Em 15 de agosto de 1909, acabou sendo baleado em um trágico incidente envolvendo seu irmão, o escritor Euclides da Cunha e sua esposa Ana Emília Ribeiro, gaúcha de Jaguarão.

Dinorah vivia dias simples. Jogava bola e tinha aulas na “Escola Naval”.  Mas seu irmão era mais inquieto. Com 17 anos, trocava olhares com uma mulher bem mais velha, de 33. Pior: casada.

Pior ainda: casada com um dos brasileiros mais célebres na época. Qualquer possibilidade de envolvimento seria um escândalo, uma bomba-relógio. Não poderia acontecer. Mas aconteceu.

Foi na “Pensão Monat”, no número 17 da Rua Senador Vergueiro, no bairro do Flamengo, que Dilermando e Anna começaram o romance proibido. Em 1904, Euclides partiu para uma expedição na Amazônia. Retornou apenas em 1906 - tarde demais para evitar um tórrido relacionamento entre sua esposa e aquele adolescente.

Anna foi morar naquela pensão para aplacar a solidão. Lá, viviam duas amigas de sua mãe, Angélica e Lucinda Ratto. Elas eram tias de Dilermando e Dinorah. Solteironas e futriqueiras, logo perceberam algo de estranho no ar. Em um piscar de olhos, a história se espalhou. E chegou aos ouvidos do escritor - que, inicialmente, não acreditou nos rumores.

Dinorah nada tinha a ver com a história. No auge do romance, estava em São Paulo, defendendo o Internacional. Não acumulava grandes preocupações. 

Pressão mesmo era Anna quem sofria. Para evitar maiores fuxicos, Dilermando se mudou. Mas os encontros prosseguiram. As suspeitas aumentaram. A situação começou a ficar incontrolável. O casamento virou um inferno.

Dilermando chegou a escrever uma carta para Euclides, alegando inocência. O escritor respondeu, dizendo a ele que se tranquilizasse: "Na sua idade nunca se é um homem baixo. Não creio que houvesse feito uma tal injustiça. A minha casa continua aberta aos que são justos e bons. Não poderá fechar-se para você."

Puro teatro. Anna estava grávida de Dilermando, e Euclides percebia a barriga crescendo. Em meio ao caos, Mauro nasceu prematuro - a mãe, em vão, tentara abortar, inclusive inserindo agulhas no corpo.

A criança nasceu, mas morreu com oito dias de vida. Houve quem acusasse Euclides de matar o bebê, impedindo que a esposa o amamentasse. Os protagonistas da história viviam o inferno. Euclides lidava com a traição.

Anna carregava a fama de adúltera; Dilermando se equilibrava entre uma paixão proibida e a dor pela perda do filho. A situação foi amenizada em 1906, quando o militar foi convocado pelo Exército para retornar ao Sul. Mesmo assim, no ano seguinte, em visita ao Rio, ele reencontrou Anna. E a engravidou.

Nasceu Luiz, o “Lulu”. Era loiro, feito Dilermando, diferente dos filhos de Euclides - "uma espiga de milho em meio a um cafezal", como definia, ironicamente, o escritor. O filho bastardo não melhorou em nada o ambiente.

No sábado, 14 de agosto de 1909, Dinorah recebeu um pedido de Anna e Dilermando: que fosse à Rua Nossa Senhora de Copacabana observar, escondido, o máximo possível do comportamento de Euclides.

O jogador, que há pouco soubera do relacionamento, acatou a solicitação. Afinal, era grande o temor na pequena casa da Estrada Real de Santa Cruz, na Piedade, onde agora moravam os irmãos. Solon, filho de Anna com Euclides, ouvira o pai jurar vingança. A apreensão pesava sobre os amantes.

Dinorah pouco conseguiu escutar. Ao retornar para casa, teve que acalmar Solon, perturbado com todo o absurdo da situação - a mãe se relacionando com um rapaz pouco mais velho que ele, o pai prometendo matar os traidores. Eles jogaram uma partida de xadrez. Tranquilizaram-se. E foram dormir - para depois despertar no dia que mudaria suas vidas.

Chovia. Euclides da Cunha escolheu sua pior roupa naquela manhã de domingo: uma calça de casimira escura, uma ceroula branca de linho, uma camisa de linho branco e uma camisa interna de flanela.

No bolso, posicionou um revólver “Smith and Wesson”. Carregado. Pegou o trem na estação central e rumou para o subúrbio. Como não sabia onde era a casa, pediu informações a vizinhos. Até que a encontrou.

A moradia de número 214 era simples - uma construção de um pavimento, com duas janelas de venezianas, um portão baixo na entrada e um jardim enfeitado por um mamoeiro. 

Por volta de 10 horas, Dinorah observava o movimento da rua quando percebeu a presença de Euclides da Cunha. Assustado, virou-se para dentro da casa e avisou que ali estava o escritor. Acharam que era brincadeira dele. Mal sabiam que era o extremo oposto disso.

Dilermando rumou para seu quarto. Foi colocar seu traje militar. Anna e Solon se esconderam. E Euclides disse a Dinorah que queria falar com o irmão dele. Adentrou o portão. Invadiu a casa. Gritou: "Vim para matar ou morrer!". E depois arrombou o dormitório principal com um chute na porta, seguido de dois tiros. Começava o derramamento de sangue.

Dinorah, para proteger o irmão, pulou em Euclides. Os dois se engalfinharam. O escritor disparou duas vezes na direção do jogador - um tiro pegou de raspão. O zagueiro se levantou e correu na direção de outro quarto, onde pretendia pegar uma arma. Não chegou lá. Levou um tiro pelas costas, abaixo da nuca. Desabou.

Mas Dilermando também tinha uma “Smith and Wesson”. E ela também estava carregada. Com Dinorah caído, seu irmão e o escritor passaram a trocar tiros. Dilermando foi atingido abaixo da garganta, acima do estômago e no tórax. Sobreviveu.

Euclides foi baleado no ombro direito, no braço esquerdo e no lado direito do peito. O último tiro, de uma bala de 17 milímetros de comprimento por nove de largura, foi fatal. O autor de "Os Sertões" cambaleou até o jardim, onde caiu morto, abatido pelo amante de sua mulher.

Em um último suspiro, deixou uma frase de efeito, em uma derradeiro gesto literário - mas cujo teor varia na descrição de cada jornal da época. “Sofri muito... matei... morro... mas perdôo"  - segundo publicou o "Jornal do Brasil". “Odeio-te, mas te perdôo”, de acordo com "O Paiz".

Foi o fato do ano. Os jornais se esbaldaram com o escândalo. Inicialmente, para proteger a honra de Euclides, compraram a tese (elaborada pelos irmãos e por Anna) de que o escritor agira em um impulso paranoico, envolvido pelas fofocas de Angélica e Lucinda Ratto. 

Por poucos dias, Dilermando e Dinorah foram tratados como vítimas de um desvio mental do intelectual. Eram elogiados! Mas isso logo mudaria. Com o aprofundamento das investigações policiais, ficou evidente que Dilermando e Anna tinham mesmo um caso, que Euclides efetivamente foi traído - e que Dinorah foi cúmplice do romance.

A postura da imprensa, da noite para o dia, mudou radicalmente. Os irmãos passaram a ser perseguidos. Viraram vilões. E Dinorah não colaborou para amenizar isso.

Ele passou cinco dias entre hospitais e delegacias. Tentou invadir o local do crime, já que estava sem casa, e foi prontamente criticado pelos jornais. No domingo, veio a rebeldia maior: resolveu que iria a campo pelo Botafogo contra o Fluminense.

Foi um choque para a sociedade. Parecia absurdo que aquele rapaz, envolvido na maior tragédia do ano, trocasse o luto pelos uniformes de jogo, pelas chuteiras, apenas uma semana depois do ocorrido. Mas ele não quis saber. Foi mesmo assim - e como atacante. Detalhe: seguia com a bala cravada em sua espinha.

O Fluminense jogava em casa, e sua torcida era maioria. Ver Dinorah com a camisa alvinegra acirrou a antipatia do público pelo adversário, conforme relatou na época o "Jornal do Brasil". O Fluminense venceu por 2 X  1. Dinorah não fez gols.

Enquanto Dilermando se recuperava dos tiros e enfrentava a fúria popular, Dinorah, também criticado, era vice-campeão carioca com o Botafogo. O futebol era presença sólida em sua vida.

No ano seguinte, ele seguiria jogando. Mas começaria a perceber algo diferente. Ao contrário do que disseram os médicos, o tiro de Euclides da Cunha causara, sim, efeitos no corpo do zagueiro. Dinorah estava perdendo parte dos movimentos.

Motivo para largar os campos? Não tão cedo. Em 1910, ele participou ativamente do título estadual. Cada vez mais debilitado, fez gols nos massacres de 9 X 1 sobre o Riachuelo, em 5 de junho, e de 11 X 0 contra o Hadock Lobo, em 2 de outubro. Só não participou de uma partida na campanha de nove vitórias em 10 jogos.

Veio 1911, e o corpo já não obedecia mais o jogador. Em 14 de maio, ele fez seu último jogo oficial, na vitória de 3 X 0 sobre o Rio Cricket. Também foi a campo em 23 de julho, em derrota de 4 X 3 para o Americano (SP) em amistoso.

Impossibilitado de correr, atuou como goleiro. E nunca mais vestiu a camisa alvinegra. Menos de dois anos depois da “Tragédia da Piedade”, o tiro de Euclides da Cunha encerrava a carreira de Dinorah. Chegou a atuar como árbitro em algumas partidas do campeonato de 1911.

Enquanto isso, Dinorah despencava rumo à morte. O ex-zagueiro não conseguiu superar seus dramas. A invalidez impediu que jogasse futebol, e a antipatia da sociedade tornou a vida militar inviável. Ele ficou sem norte. Caiu em uma vida de bebedeiras. Contraiu sífilis. E passou a ter distúrbios mentais.

Em 1913, acompanhando o irmão em Minas Gerais, Dinorah foi parar em um hospício pela primeira vez. Foi nessa época que a bala disparada por Euclides da Cunha finalmente foi retirada de seu corpo.

Um ano depois, ele voltou ao Rio de Janeiro, e a situação só piorou. Fora de si, ele vagava pelas ruas. Dava pena. Em julho, entrou em um carro, uma espécie de táxi, e circulou pela cidade durante duas horas.

Pediu que o motorista parasse na Praia de Botafogo, perto do clube. Com metade do corpo imóvel, se jogou na água. A tentativa de suicídio foi impedida por uma testemunha da cena.

Paralitico de um lado, sem poder nadar, ia perecer, quando em seu auxílio correu o senhor Joaquim Alves Ferreira, empregado na “Fundição Americana”, que o salvou, descreveu o jornal "A Noite" em 6 de julho de 1914.

O drama de Dinorah comoveu parte da sociedade. Jornais pediram ajuda a ele. O Fluminense se solidarizou e sugeriu um jogo festivo. Em vão. O ex-zagueiro voltou a viver nas ruas. Companheiros dos tempos de América faziam o possível para que, escondido, ele passasse as noites sob as arquibancadas do estádio.

Colegas da época de Botafogo abriam uma sala para ele no clube. Mas Dinorah não tinha cura: louco, paralítico e miserável, ele rumava para seu fim. Em 1914, no Rio de Janeiro, sobrevivia de esmolas e se locomovia com auxilio de uma muleta.

Em 1916, de volta a Porto Alegre, o campeão de seis anos antes teve outra tentativa de suicídio. Na Praça da Alfândega, no Centro da cidade, deu um tiro no peito. Novamente, não conseguiu dar fim à vida.

Nos anos seguintes, reencontrou um pouco de paz ao voltar a viver com o irmão em Bagé, no interior gaúcho. Lá, segundo as memórias de Judith, filha de Anna e Dilermando, até tentou ensinar “Lulu”, seu sobrinho, a jogar futebol. Era uma cena comovente: de muletas, quase imóvel, brincava com uma bola - o objeto que tanto amava.

Mas os sinais de recuperação eram falsa esperança. Em 1921, novamente em Porto Alegre, a tragédia do ex-zagueiro encontrou seu ponto final.

Era domingo. Por volta de 17 horas, depois de conversar com conhecidos na Rua Barros Cassal, Dinorah rumou para o Rio Guaíba. E repetiu o que fizera no Rio de Janeiro. 

Na altura da Voluntários da Pátria, no trapiche da “Companhia Becker”, caiu para a morte. Foi visto por um policial, que logo iniciou a tentativa de encontrá-lo. Em vão. O corpo só foi achado uma hora depois, já sem vida.

Mas a maior vítima talvez tenha sido justamente a mais involuntária. Dinorah não traiu ninguém, não tentou matar ninguém. Por crimes e pecados de outros, pagou com o corpo, com a mente e com a vida.

Pior: corre o risco de cair no esquecimento, mesmo tendo conquistado, com uma bala cravada na espinha, um título tão representativo para o Botafogo - o clube "campeão desde 1910", como se orgulha a primeira estrofe de seu hino.

Já Dilermando e Anna se casaram em 1911. O casal teve quatro filhos, mas o relacionamento durou apenas 14 anos. Dilermando viveu em muitas cidades ao serviço do Exército e foi promovido até ao posto de General. 

Após seu relacionamento com Ana de Assis, teve Dilermando com Maria Antonieta de Araújo Jorge uma filha, a escritora Dirce de Assis Cavalcanti, prima de J. G. de Araújo Jorge.

Os acontecimentos posteriores tornaram ainda mais absurda a “Tragédia da Piedade”. Solon, o filho-testemunha da traição, se rebelou com a família. Virou seringueiro no Acre. Foi assassinado por grileiros em 1914, em uma tocaia, na floresta.

Dois anos após este acontecimento, Euclides da Cunha Filho, o “Quidinho”, aspirante da Marinha, encontrou-se a 4 de Julho de 1916 no "Cartório do 2º Ofício da 1ª Vara de Órfãos", no Rio de Janeiro, com o responsável pela morte de seu pai. E resolveu abater Dilermando.

Incrível: foi morto por ele, repetindo a sina do escritor. Puxou a arma e feriu Dilermando de Assis. Logo após este novo atentado, Dilermando reagiu ali mesmo e matou o filho da amante com três tiros. Novo escândalo, nova absolvição, mas Dilermando ficou para sempre com um rasto de sangue atrás de si.

Foram muitas as vítimas daquela manhã de domingo em 1909. Euclides foi para matar e acabou morto. Dois de seus filhos, Solon e Quidinho, não suportaram os acontecimentos e, direta ou indiretamente, também morreram por causa daquela tragédia.

Dilermando teve longa vida, casou-se duas vezes, colecionou filhos, mas sempre conviveu com a imagem de vilão, de assassino - até falecer em novembro de 1951, vítima de colapso cardíaco, aos 63 anos.

Anna de Assis também tocou sua vida, conseguiu viver com o homem que amava, mas sempre com a fama de adúltera tatuada em sua testa. Também morreu em maio de 1951, de câncer, aos 74 anos.

Entre o drama e a glória, entre a vítima e herói, Dinorah foi tudo isso, mas também foi o precursor da tradição mística da camisa número quatro do Botafogo, que identificava os “full-back” canhotos da época, a quem se seguiram o argentino Basso, que, segundo consta, inspirou o futebol de Nílton Santos, considerado por muitos o maior lateral esquerdo do mundo.

Este triste episódio deu origem à mini-série “Desejo”, encenada pela “Rede Globo”, em 1990, tendo Tarcísio Meira interpretando Euclides da Cunha, Guilherme Fontes interpretando Dilermando e Vera Fischer interpretando Anna Emília Sólon da Cunha.

Títulos conquistados. Internacional, de São Paulo: Campeão Paulista (1907); Botafogo: Campeão Carioca (1910), título que deu ao Botafogo a alcunha de “Glorioso”.  (Pesquisa: Nilo Dias)

O duelo, charge do jornal"A Manhã".

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Morre lateral campeão mundial de 1962

Morreu na última sexta-feira (9), em São Gonçalo (RJ), com a idade de 81 anos, Altair Gomes de Figueiredo, um dos maiores nomes da história do Fluminense, do Rio de Janeiro. Suas condições se debilitarem bastante durante os últimos meses e não se levantava mais da cama,

No dia 31 de maio ele foi internado no “Hospital das Clínicas”, em São Gonçalo (RJ) por causa de um problema pulmonar e não conseguiu se recuperar. Altair teve falência de múltiplos órgãos.

Altair foi diagnosticado em 2013 com a “Doença de Alzheimer”, que afeta principalmente a memória. Enquanto o presente se esfacelava na mente do ex-lateral, o passado no Fluminense ainda estava vivo, a ponto de imaginar que ainda era jogador.

O corpo foi sepultado numa gaveta baixa no “Cemitério do Maruí”, subúrbio de Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro o mesmo onde Zizinho, craque da Seleção nos anos 50, também está enterrado.

Em respeito à morte de Altair, a CBF colocou as bandeiras de sua sede a meio mastro, mas não mandou representante no adeus ao campeão mundial. Os jogos do fim de semana tiveram um minuto de silêncio em sua homenagem.

Ao longo da última década, Altair teve um apoio fundamental da cuidadora Eluana Galvão, que tomou conta dele e o levou para morar em sua casa. A esposa do ex-jogador falecera em 2009 e a única filha do casal, em 2002.

Lamentavelmente, o enterro de Altair, campeão mundial com a “Seleção Brasileira” em 1962, reuniu apenas 18 pessoas. O Fluminense não mandou representante ou coroa de flores ao sepultamento.

Após o fato se tornar público, o clube divulgou nota oficial na qual explicou a ausência de um representante no enterro ou de envio de uma coroa de flores. O clube alega que foi avisado em cima da hora.

O aviso do falecimento chegou por volta das 11 horas. As informações sobre o velório chegaram ainda mais tarde. E Altair foi enterrado às 15 horas (nota da redação: o enterro terminou às 17h30).

Não sabem se por problemas de comunicação ou decisão da família, o fato é que a informação tardou a chegar ao clube. O clube se limitou a decretar luto oficial de três dias e publicar no seu site uma nota de quatro parágrafos em homenagem ao ex-campeão.

Um fato chamou a atenção, na “Capela São Lucas”. O corpo de Altair, vestido com uma camisa da Seleção, acabara de chegar ao cemitério suburbano. Um senhor negro de 83 anos entrou lentamente no salão vazio decorado somente com uma coroa de flores.

Vestido também com a camisa da Seleção, ele parou em frente ao caixão, abraçou o seu filho Jair Marinho Filho e ficou em silêncio por um minuto. Em seguida, o ex-jogador cumprimentou os outros oito presentes no velório, até então.

"Vivemos a vida inteira, juntos, e precisava vir aqui me despedir do meu melhor amigo", disse Jair Marinho aos presentes na capela. Campeão da Copa de 1962 pela Seleção, Marinho deu um aceno para o amigo no caixão e foi se sentar do lado de fora. Altair foi lateral-esquerdo, reserva de Nilton Santos. Marinho jogava na lateral direita e ficou na reserva de Djalma Santos.

Além de conquistarem a Copa no Chile, os dois foram titulares do Fluminense e moravam na mesma cidade, Niterói. Marinho lembrou que Altair tinha 14 anos quando se conheceram.

Iam e voltavam dos treinos e jogos juntos. Todo o dia cedo se encontravam nas barcas. “Jogador não era rico. Tinha que pegar barca e ônibus”, contou.

Ao contrário de Altair, que só vestiu a camisa do Fluminense, Marinho jogou também pelo Corinthians, Portuguesa, Vasco e Campo Grande. Após o final da carreira, eles permaneceram amigos. Trabalharam na Prefeitura de Niterói como professores em escolinhas pela cidade

No enterro, Marinho lembrou quando os dois se lançaram "na música". Em 2006, eles foram contratados por produtores alemães para cantarem clássicos de Jorge Ben Jor em festas durante a Copa de 2006.

Jairzinho, Brito e Roberto Miranda faziam parte do grupo. “Aquilo foi uma farra. Nunca pensei em ser cantor. Até isso fizemos na vida. Cantávamos em playback em praças lotadas. Ficávamos nos olhando e rindo com tanta alegria”, lembrou Marinho ao se levantar para fazer a última oração com familiares de Altair.

No futebol, eles costumavam dividir o quarto nas concentrações. Nas viagens depois do final da carreira, gostavam de fazer o mesmo. Em 2013, eles se hospedaram juntos em Brasília antes da abertura da “Copa das Confederações”.

Na ocasião, Marinho disse que tomou o maior susto da vida. Altair já dava sinais do “Mal de Alzheimer”, diagnosticado logo depois por médicos.

Ao deixar Niterói, o ex-jogador foi avisado pelos familiares de Altair, que o amigo andava esquecido. No início da tarde, o ex-lateral esquerdo disse que iria passar um tempo na portaria do hotel.

Uma hora depois, como o amigo não chegava, Marinho desceu preocupado e não o encontrou. A polícia foi chamada. Somente no final da noite, após 10 horas de procura, Altair foi encontrado perdido numa das avenidas da capital federal  pelos jornalistas Alexandre Lozetti, Leandro Canônico,  Marcelo Baltazar e Thiago Salata, os três primeiros do “Globo Esportes” e o último do “Diário Lance” .

“Foi um susto imenso. A partir dali, a nossa convivência foi diminuindo. Nos últimos três anos, ele parou de falar. Mas sempre o visitava. Amigo é para sempre. É para tudo”, disse Marinho, sentado ao lado do filho, aguardando o início do cortejo que reuniu apenas 18 pessoas.

Altair foi o quarto atleta a jogar mais vezes pelo tricolor, tendo participado de 551 partidas, com dois gols marcados. Foi campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1957 e de 1960.

E também, campeão carioca em 1959, 1964 e 1969 e da Taça Guanabara em 1966 e 1969, quando estas eram competições independentes do Campeonato Carioca, não tendo jogado na de 1969, mas fazendo ainda parte do elenco tricolor nessa época. O clube decretou luto oficial por três dias.

Ivan Mira, aposentado, 73 anos de idade, foi o único fã a comparecer ao enterro. “Ele era o meu ídolo. Por isso, fico muito triste ao ver que o Fluminense, único clube dele durante toda a vida, não mandou nem uma coroa de flores. Nem os representantes da torcida vieram. Não sabemos cuidar da nossa história”, lamentou.

Além dele e Marinho, as demais 16 pessoas eram parentes de Altair ou da família da cuidadora do campeão mundial.

Nascido em Niterói no dia 21 de janeiro de 1938, Altair Gomes de Figueiredo deu seus primeiros passos no futebol ainda nas categorias de base do Manufatora, de Niterói, sua cidade natal. Altair era botafoguense durante a infância.

Diante da desaprovação de seus pais, que preferiam o adolescente se dedicando aos estudos como chapeador naval, precisou sair escondido para ir à peneira do Fluminense para atuar como quarto-zagueiro, mas como só havia vaga na lateral-esquerda, aceitou trocar de posição, aconselhado pelo colega Pinheiro. E foi assim que deslanchou em outro setor.

Foi aprovado e dava seu jeitinho para burlar o cerco da família. Sua irmã falsificou a assinatura do pai durante a chegada ao Flu, em 1953. Além disso, um amigo dava cobertura durante os finais de semana, em que o prodígio dizia estar estudando, mas permanecia concentrado com os juvenis. Apesar de tudo, prosperou.

Altair destacou-se na lateral esquerda por sua boa técnica e intensidade na marcação, pois dificilmente perdia uma dividida, apesar de seu corpo magro em relação a altura, pois tinha 1,73 m e pesava 59 kg .

Considerado um especialista em "carrinhos", teve duelos com jogadores como Garrincha, sendo considerado o seu melhor marcador. E logo começou a ganhar títulos no único clube no qual jogou.

As atuações logo despertaram a atenção da Seleção Brasileira.Altair chegou a participar da preparação à Copa de 1958, mas se lesionou durante um treinamento em Vitória.

A primeira partida com a camisa amarela só ocorreu em setembro de 1959, contra o Chile. Três anos depois, conseguiu uma grande façanha.  Altair foi reserva de Nilton Santos na Copa do Mundo do Chile de 1962.

O jovem não chegou a entrar nos gramados chilenos. Ainda assim, comemorou junto com os companheiros o bicampeonato mundial, após a coleção de exibições fantásticas de Garrincha.

Em 1966, voltou a estar na Copa do Mundo com a Seleção Brasileira, e foi titular na vitória sobre a Bulgária e na derrota para a Hungria. Foi, ainda, campeão da “Taça Bernardo O'Higgins” em 1959 e 1961, "Taça Oswaldo Cruz", em 1958, 1961 e 1962 e "Copa Roca), em 1963.

Altair foi um dos 47 jogadores convocados, pelo técnico Vicente Feola, para o período de treinamento que visava conquistar a Copa da Inglaterra de 1966 e, consequentemente, o tricampeonato mundial de futebol.

Infelizmente deu tudo errado. Jogou 22 partidas pela Seleção Brasileira, com 16 vitórias, 2 empates e quatro derrotas e 1 gol contra.

Os jogos pela Seleção:

1) 20/09/1959 – 1 X 0 Chile; 2) 06/05/1960 – 3 X 0 Egito; 3) 11/05/1961 – 1 X 0 Chile; 4) 24/04/1962 – 4 X 0 Paraguai; 5) 09/05/1962 – 1 X 0 Portugal; 6) 13/04/1963 – 2 X 3 Argentina; 7) 16/04/1963 – 5 X 2 Argentina; 8) 21/04/1963 – 0 X 1 Portugal; 9) 24/04/1963 – 1 X 5 Bélgica; 10) 28/04/1963 – 3 X 2 França; 11) 17/06/1965 – 3 X 0 Argélia; 12) 15/05/1966 – 1 X 1 Chile; 13) 19/05/1966 – 1 X 0 Chile; 14) 04/06/1966 – 4 X 0 Peru; 15) 08/06/1966 – 2 X 1 Polônia; 16) 15/06/1966 – 2 X 2 Tchecoslováquia; 17) 21/06/1966 – 5 X 3 Atlético de Madrid; 18) 27/06/1966 – 8 X 2 Åtvidabergs FF , da Suécia; 19) 04/07/1966 – 4 X 2 Allmanna Idrottsklubben, da Suécia; 20) 06/07/1966 – 3 X 1 Malmo FF, da Suécia; 21) 12/07/1966 – 2 X 0 Bulgária e 22) 15/07/1966 – 1 X 3 Hungria.

No país com mais conquistas de "Copas do Mundo", apenas 94 brasileiros podem dizer que foram campeões do mundo. Altair Gomes Figueiredo integra esse grupo de menos de 100 privilegiados.

Antes de encerrar a carreira, o lateral ainda jogou pelo Sport e Vitória. Após disputar alguns jogos pelo Canto do Rio, Altair pendurou as chuteiras e seguiu morando em Niterói, onde administrou uma lotérica (benesse recebida do governo justamente pelo título mundial) e participou de projetos sociais relacionados ao futebol.

Também retornou ao Fluminense, assumindo outras funções principalmente na década de 1990. Integrou diferentes comissões técnicas e era assistente de Joel Santana no emblemático título carioca de 1995, com o famoso gol de barriga de Renato Gaúcho, além de servir como técnico interino em ocasiões pontuais.

Também ajudou na formação de talentos nas categorias de base. A contribuição do velho ídolo aos tricolores era inesgotável.

“Lamento muito. Vi agora a notícia. Sabia que estava doente. Conhecia muito o clube e me ajudou muito como auxiliar na minha comissão técnica em 95. Uma perda para o futebol”, disse Joel Santana. (Pesquisa: Nilo Dias)

Apenas 18 pessoas foram ao enterro de Altair.


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A torcedora símbolo do Vasco da Gama

A torcedora Dulce Rosalina dedicou toda a sua vida ao Clube de Regatas Vasco da Gama, do Rio de Janeiro e fez história nas arquibancadas. Dulce Rosalina foi uma figura icônica, não só para os cruzmaltinos, mas também para todas as mulheres, configurando um exemplo de pioneirismo em sua luta por espaço e voz dentro do futebol.

Com dois anos de idade, já era sócia do “Gigante da Colina”, aprofundando o seu amor a cada ano graças ao pai português que, assim como o “cruzmaltino”, pregava igualdade e combatia o preconceito racial. Um vascaíno convicto.

Era um tempo em que ela, apesar de mulher, se impunha e tinha o respeito dos demais chefes de torcida da época. A Dulce era uma pessoa muito especial, que protegia as outras mulheres torcedoras, e se precisasse até brigava, saía na mão mesmo, era mulher de fibra, vascaína de verdade.

Encantada com os ideais do clube de São Januário, Dulce se tornou frequentadora assídua dos jogos vascaínos, tendo se tornado a primeira mulher a assumir a presidência de uma torcida de futebol, a “Torcida Organizada do Vasco“ (TOV), quando tinha 22 anos, em 1956.

Levada a TOV pelo Presidente Artur Pires, recorda que no primeiro jogo em que ficou comandando os torcedores, o técnico Martin Francisco, compadre de Dulce, lhe disse:

“Organize a Torcida que eu lhe darei o campeonato”. E, realmente isso aconteceu, pois os Vascaínos foram campeões com uma antecipação de duas rodadas. 

Já presidente da TOV, decidiu deixar de trabalhar para não se privar da maior alegria de sua vida: o Vasco. Dedicando boa parte de sua energia à sua paixão, marcou seu nome ao introduzir nas arquibancadas cariocas a bateria, o concurso de torcida e o papel picado, verdadeiras inovações na época.

Posteriormente casou-se com o então jogador de futebol, “Ponce de León”, com quem teve os seus dois filhos. Ponce de Leon foi um craque que teve o seu nome ligado a história do futebol brasileiro.

Ele jogou pela "Seleção Paulista de Novos" contra os cariocas, na inauguração do então "Estádio Ângelo Mendes de Moraes", mais tarde na intimidade do torcedor, carinhosamente chamado de "Maracanã", e por decisão do legislativo guanabarino, hoje "Mário Filho".

Sua influência transcendia as arquibancadas, tanto que era amiga de jogadores como Vavá e Bellini, que compareciam a festas de aniversário em sua casa.

Certa vez, foi barrada junto a seu filho “Poncinho” na entrada do Maracanã por levar papel picado, sendo presa em seguida ao chamar o policial de flamenguista.

Sabendo do ocorrido, os jogadores do Vasco se recusaram a entrar em campo até que a torcedora-símbolo fosse liberada. Dito e feito, foi solta pouco tempo depois, já estava na arquibancada para apoiar o clube.

Atuante, viajava Brasil afora pelo “Time da Colina”. No entanto, em 1976, quando apoiou a candidatura de Medrado Dias à presidência do Vasco, foi obrigada a desvincular-se da torcida. Fundou, em seguida, a ”Renovascão”. Em 1991, um problema na visão a obrigou a se afastar dos jogos noturnos.

No início da década de 1960, venceu o concurso de melhor torcedor do Brasil, realizado pela prestigiada “Revista do Esporte”, e doou o prêmio ao Vasco da Gama. Ela foi um exemplo de pioneirismo na luta das mulheres por espaço e voz dentro do futebol.

A entrega ao Vasco ultrapassava barreiras. Em 1968, numa caravana para São Paulo, um dos 30 ônibus no qual Dulce fazia parte sofreu um grave acidente.

Ninguém morreu no episódio, mas ela ficou afastada das arquibancadas por dois anos devido a uma fratura na clavícula e no braço, além do afundamento do crânio.

Por incrível que pareça, quis ir ao Maracanã logo após se recuperar, segundo relatos do seu próprio filho, “Poncinho”. Também optou por não fazer a cirurgia, pois as cicatrizes, segundo ela, eram provas de sua dedicação à “Cruz de Malta”.

Dulce foi convidada pelo escritor Claudio Aragão para narrar a trajetória do clube desde sua fundação, no final do século 19, até a conquista do título carioca de 2003. Seus relatos deram origem a obra “A História do Vasco da Gama em Cordel”, da editora Bom Texto.

Dulce Rosalina faleceu no dia 19 de janeiro de 2004, comovendo a nação cruzmaltina e permanecendo em sua memória até hoje Homenagens não faltaram, tanto que, por decreto da prefeitura do Rio de Janeiro, mudaram o nome da antiga “Rua do Reservatório” para “Dulce Rosalina”, próxima à sua casa, e de todos os vascaínos, São Januário.

DECRETO Nº 23925 DE 22 DE JANEIRO DE 2004

Altera a denominação do logradouro que menciona, situado no bairro Vasco da Gama, na VII Região Administrativa – São Cristóvão. O prefeito da cidade do Rio de Janeiro, no uso de suas atribuições legais e, considerando o recente falecimento de D. Dulce Rosalina, aos 79 anos, torcedora-símbolo do Clube de Regatas Vasco da Gama, exemplo da paixão carioca pelos times de futebol da cidade, decreta:

Art. 1.º A Rua do Reservatório, CL 08023-4 reconhecida pelo Decreto n.º 1165, de 31 de outubro de 1917, passa a denominar-se Rua Dulce Rosalina.

Art. 2.º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Rio de Janeiro, 22 de janeiro de 2004 – 439º ano da fundação da Cidade.  

Cesar Maia - Prefeito.

Esta é a história de Dulce Rosalina, que remota ao tempo em que o brado de guerra e do incentivo aos seus favoritos no campo da luta, era feito das sociais, com os gravatinhas e os chapéus de palhinha. Não existia o tom da Escola de Samba, embora o calor humano do aplauso e do entusiasmo fossem os mesmos de hoje. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 6 de agosto de 2019

Morre a memória da Seleção Brasileira

O pesquisador cearense Airton Fontenele morreu aos 92 anos, ontem, em Fortaleza, após 70 dias de internação. Airton sofreu complicações em uma cirurgia e não resistiu, deixando três filhos, netos  e um legado de valor inestimável sobre o futebol e "Seleção Brasileira".

Uma forma de eternizar esse amor foi a construção de um arquivo com dados da equipe brasileira, constando de livros, artigos, jornais, e principalmente uma pesquisa exaustiva digna de reconhecimento até pela Fifa e pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

De seus 92 anos, pelo menos 75 deles foram dedicados à memória da “Seleção Brasileira”, da qual foi o maior pesquisador. Figura emblemática no cenário do futebol foi peça fundamental na construção da memória do esporte brasileiro.

Airton deixou um enorme legado para o futebol brasileiro. Sua memória e o cuidado com as informações eram características bem singulares. Tornou-se referência internacional ao dirimir dúvidas sobre o passado do futebol.

Airton Fontenele nasceu em Viçosa do Ceará, no dia 27 de janeiro de 1927. Era bancário, funcionário do "Banco do Nordeste Brasileiro" (BNB) e formado em Odontologia. 

Ficou marcado por ser uma das principais fontes da imprensa esportiva a respeito de dados e curiosidades da história do futebol cearense e da "Seleção Brasileira".

Passou a gostar de futebol na "Copa do Mundo" de 1938. Em 1947 começou a escrever no semanário “O Goal”, a primeira das mais de três mil colaborações que deu à imprensa em mais de 60 anos.

Formou-se em Odontologia em 1950. Entre 1952 e 1954 foi correspondente do jornal “A Gazeta Esportiva”, de São Paulo. De 1954 a 1979 trabalhou como bancário na equipe pioneira do "Banco do Nordeste".

Durante os anos 1960 participou de maneira direta da reformulação do “Estádio Presidente Vargas”. Em 1986, lançou o primeiro dos oito livros publicados, “Futebol, Seleção das Seleções”. É um dos mais respeitados historiadores e pesquisadores do futebol brasileiro.

Antes de se falar do pesquisador em si, Airton evoca o desportista que sempre foi, nadador de longas distâncias, capaz de fazer travessias em mar aberto e um amante do futebol, ao ponto de colaborar na campanha da construção do “Estádio Presidente Vargas”.

Escreveu 8 livros sobre a “Amarelinha”, cinco deles focados sobre a participação do time verde-amarelo em Mundiais. Dono de um acervo invejável de livros, revistas, itens esportivos e dezenas de cadernas de anotação, “Seu Airton” tinha catalogadas informações minuciosas sobre as partidas da Seleção, desde 1938, jogadores que atuaram, que foram convocados, além de inúmeras outras estatísticas.

Livros de Airton Fontenele:

"O Brasil nas 15 Copas" (1998): Apresentação Blanchard Girão, "Orelha"de Tom Barros.

"O Brasil em Todas as Copas -1930/1998" (2002): Apresentação de Tostão, contracapa Dr João Havelange, "Orelhas"dos jornalistas Alan Neto e Vicente Alencar.

"O Brasil na rota da Alemanha" (2006): Apresentação Sílvio Carlos Vieira Lima, contracapa de Tom Barros e "Orelhas" Armando Nogueira e Homero Benevides.

"O Brasil em Todas as Copas- 1930/2010" (2010): Apresentação Mauro Carmélio (presidente da FCF), cartas de apoio Ferruccio Feitosa (Secretário de Esporte do estado do Ceará), "Orelhas" de Tom Barros e Sérgio Redes.

"O Brasil em Todas as Copas do Mundo 1930/2014 (2014) - História, Curiosidades e Estatísticas": Apresentação: Jorge Campos- Jorginho, (campeão mundial de 1994) e prefácio: Raimundo Fagner e cartas do prefeito de Fortaleza Dr Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra, Dr João Havelange, Tom Barros e André Ribeiro. “O Brasil em Todas as Copas do Mundo" é, sem dúvida, a Bíblia da Seleção Brasileira.

“O Brasil na Copa das Confederações" é uma viagem pelas oito Copas das Confederações já realizadas. Airton Fontenele, além de trazer a história do surgimento do torneio até sua transformação para o modelo atual, conta curiosidades exclusivas e detalhes do desempenho de todas as seleções que já participaram da competição.

Sem dúvida, é a obra mais completa sobre o certame que tem como principal vencedor o Brasil.

“O Brasil na Copa América”, é também a obra mais completa sobre a competição. O livro contou com a chancela da CBF. A obra preencheu uma lacuna na literatura esportiva nacional. Ainda hoje é permanente fonte de consulta pelo elevado conteúdo de informações.

Seu primeiro livro foi “Futebol, Seleção das Seleções”.

Na sua residência, no coração da “Aldeota”, na capital cearense, idealizou e montou um museu da memória do futebol cearense e nacional, com peças de raro valor, fotos e documentos históricos. Também colecionou amizades importantes, como Zizinho, Belini, João Havelange e outros nomes do esporte brasileiro.

Não por acaso, há alguns anos, no “Jornal do Brasil,” o mestre e saudoso João Saldanha escreveu matéria alusiva ao pesquisador cearense. No título, João colocou: "Com o Airton Ninguém Pode".

Motivo: Airton corrigira com provas irrefutáveis textos das grandes revistas nacionais relativos às “Copas do Mundo”. Agora restaram só as lembranças deste monumento à pesquisa.

O Fortaleza declarou três dias de luto e prestou suas condolências para familiares e amigos. "É com profundo pesar que o Fortaleza Esporte Clube comunica o falecimento do historiador e pesquisador, Airton Fontenele.

O Fortaleza se solidariza com a família e amigos de Airton Fontenele ao tempo que presta às condolências e decreta luto oficial por 3 (três) dias", escreveu o Tricolor.

O Ceará também lamentou a morte de “Seu Airton, que era tio-avô de Pedro Mapurunga, o diretor cultural do Alvinegro. “Tio Airton deixou um enorme legado para o futebol brasileiro. Sua memória e o cuidado com as informações eram características bem singulares. O Estado perde uma grande figura e eu perco um amigo da bola”, declarou Mapurunga para o site oficial do “Vovô”.

O presidente da Federação Cearense de Futebol (FCF), Mauro Carmélio, assim se referiu ao pesquisador: "O Airton teve uma história muito bonita como um amante, um verdadeiro fã da "Seleção Brasileira". Ele publicou livros, onde o torcedor da “Canarinho” conheceu a história das Copas e dos atletas que vestiram a camisa da Seleção. O futebol brasileiro é muito grato ao Airton".

O prefeito Roberto Cláudio lamentou em nota, na noite desta segunda-feira (5), a morte do historiador Airton Fontenele, 92, que morreu à tarde, após complicações em cirurgia.

“É com enorme pesar que registro a perda do pesquisador e escritor Airton Fontenele que se notabilizou pelo amor ao esporte, especialmente ao futebol e à nossa seleção brasileira.

Associo-me aos sentimentos de dor de seus familiares e dos amigos, entre os quais me incluo, tendo tido o privilégio de conviver com este cearense que dignificou com seu exemplo de vida uma história que espelha e inspira a muitos de nós e que, sem nenhuma dúvida, orgulha toda a sua família.

Seguramente, a história do futebol e da seleção, assim como o seu registro bibliográfico, tem dois momentos: um antes e outro depois do profícuo trabalho realizado pelo nosso cearense de Viçosa Airton, Fontenele”, disse Roberto Claudio.

O velório aconteceu ontem mesmo, na “Funerária Eternus”, na Aldeota e o sepultamento foi  hoje (6), no “Cemitério Parque da Paz”. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Morre o mais vitorioso presidente do Vasco da Gama

Morreu hoje (5) o ex-presidente do Vaso da Gama, do Rio de Janeiro, Antônio Soares Calçada, aos 96 anos de idade.  De origem portuguesa, foi um dos dirigentes mais emblemáticos da história do clube da “Cruz de Malta”. Além de ser presidente de honra,  deixou como legado o fato de ter sido o mandatário mais vitorioso do clube.

Entre 1983 e 2000 no poder, o clube foi campeão da “Copa
Libertadores”, conquistou três “Campeonatos Brasileiros”, uma “Copa Mercosul” e sete “Campeonatos Estaduais”.  Seu sucessor no clube foi também o já falecido Eurico Miranda.

Calçada estava internado em um hospital na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, tratando de uma infecção abdominal. Em 10 de julho ele teve de ser internado pela primeira vez, mas como apresentou melhora deixou a unidade no dia 19 de julho, porém, teve uma recaída e voltou à UTI na última terça-feira (30).

Em seu site oficial, o Vasco soltou uma nota lamentando a morte do ex-presidente. O clube também decretou luto de três dias. "O Club de Regatas Vasco da Gama lamenta profundamente o falecimento nesta segunda-feira (05/08) do ex-Presidente da Diretoria Administrativa e Presidente de Honra do Clube, Antônio Soares Calçada, vítima de complicações causadas por uma infecção abdominal".

Antônio Soares Calçada era português, nascido em Vila da Feira, Distrito de Alver, em 16 de abril de 1923. Chegou ao Brasil ainda garoto. Sua ligação com o Vasco teve início em 1942, quando ingressou como sócio do clube.

Logo ocupou seu primeiro cargo: tornou-se diretor do “Departamento de Tênis de Mesa”, na administração de Otávio Menezes Póvoa. Além disto, foi vice de futebol nas gestões de Cyro Aranha, Manuel Castro Filho, Artur Rodrigues Pires e João Silva.

Em 1982, Antônio Soares Calçada alcançou o principal posto no Vasco. Com a chapa "Vasco da Gama", venceu ao histórico presidente Agarthyno da Silva Gomes, que teve uma de suas gestões marcadas pelo título brasileiro de 1974.

No poder a partir de 1983, Calçada manteve “Roberto Dinamite” como principal jogador do elenco, que tinha jovens como Acácio, Donato, Geovani e Mauricinho, e atletas mais experientes como Roberto Costa, Elói e Daniel González. No ano seguinte, o time chegou à decisão do “Campeonato Brasileiro”, mas perdeu para o Fluminense.

Em 1985, a equipe não teve bom rendimento na  “Copa Libertadores”. Porém, durante o ano viu o surgimento de um atacante promissor: no amistoso diante do Nova Venécia, Romário marcou seus primeiros gols. Mesmo assim, no fim do ano, Calçada foi reeleito em pleito contra Eurico Miranda.

A partir de 1986, Calçada uniu-se com o até então adversário político Eurico Miranda, que passou a ser seu vice de futebol. No ano seguinte, o mandatário saboreou o seu primeiro título no clube.

Com um gol de Tita, que fora contratado naquele ano, o Vasco sagrou-se campeão carioca em 1987, batendo o Flamengo por 1 X  0. Comandada por Sebastião Lazaroni, a equipe que tinha a dupla Romário e Roberto Dinamite como destaques, contou ainda com Dunga, Mazinho e Paulo Roberto.

No ano de 1988, Calçada voltou a ser reeleito, contando com a base da equipe campeã do ano anterior. Após uma estreia com revés para o Flamengo, o “Cruz-Maltino” fez mais uma grande campanha no “Carioca”.

Além de vencer dois dos três turnos, a equipe foi novamente campeã sobre o Flamengo, com direito ao célebre gol de “Cocada”. Naquele ano, o Vasco ainda fez uma "quina": emplacou cinco vitórias seguidas sobre o maior rival.

Em 1989, Calçada, ao lado de Eurico Miranda, "atiçaram" a rivalidade entre Vasco e Flamengo. Aproveitando que Bebeto estava com sua situação contratual indefinida com o rubro-negro, o Cruz-Maltino fez uma negociação cautelosa e conseguiu que o craque fosse para São Januário.

Com Bebeto como referência e artilheiro, a repatriação de Tita e contratações como Luiz Carlos Winck, Quiñonez, Zé do Carmo e Marco Antônio Boiadeiro, o clube sagrou-se campeão brasileiro. No Morumbi, coube a Sorato garantir a conquista com o gol da vitória por 1 X 0 sobre o São Paulo, consagrando também jovens como Bismarck e William.

Depois desta conquista, o dirigente, que foi reeleito em 1991, voltou a ver o Vasco campeão em 1992, meses após a equipe ver o título brasileiro escapar por tropeços na fase final.

Em um Estadual com Maracanã interditado, o “Gigante da Colina”, que tinha “Roberto Dinamite” em seu último ano na carreira, as revelações Edmundo, Valdir, Leandro Ávila e Carlos Germano e nomes como Bismarck, Luisinho, Jorge Luís e William, foi campeã invicto em dois turnos. No jogo do título, Valdir garantiu a vitória por 1 X 0 sobre o Bangu.

Mesmo perdendo “Roberto Dinamite”, Edmundo e Luiz Carlos Winck, o “Cruz-Maltino” alcançou o bicampeonato carioca no ano seguinte. Com Valdir como co-artilheiro, com 19 gols, ao lado de Ézio, do Fluminense e a afirmação de nomes como Pimentel, Gian e Yan, a equipe sagrou-se campeã de forma dramática.

Após uma vitória por 2 X 0 no jogo de ida e uma derrota por 2 X 1 no segundo jogo, o Vasco alcançou o título com o empate em 0 X 0 na decisão.

Em 1994, Calçada teve um novo feito como presidente: levou a equipe a seu primeiro e único tricampeonato carioca. Com um time reforçado pelo craque Dener e pelo zagueiro Ricardo Rocha, o Vasco teve um início promissor na competição.

Mesmo abalado pela morte do camisa 10, Dener, devido a um acidente automobilístico, o Vasco voltou a se firmar e sagrou-se campeão com uma vitória por 2 X 0 sobre o Fluminense, com dois gols marcados pelo jovem Jardel. No mesmo ano, conseguiu mais uma vez sua reeleição.

Após dois anos marcados por entressafras, idas e vindas de jogadores e brigas políticas, Calçada conseguiu um grande feito: no início de 1997, a Conmebol reconheceu a conquista do Campeonato Sul-Americano de Clubes de 1948 como título continental. Graças a esta atitude, o Vasco teve direito a disputar a edição da ”Supercopa Libertadores”.

Além disto, o Vasco alcançou um patamar ainda maior dentro de campo. Capitaneado por Edmundo, que já estava vendido à Fiorentina, da Itália e com reforços pontuais como Mauro Galvão, Evair e Válber, o time, que mantivera no elenco nomes como Felipe, Juninho, Ramón e Pedrinho, foi campeão de maneira irrepreensível.

Após ter sido líder de ponta a ponta, o Vasco chegou ao topo do país com dois empates sem gols diante do Palmeiras.

Reeleito para o cargo em 1997, o dirigente teve a missão de conduzir o Vasco no ano do centenário do clube. Contando com o aporte financeiro do “Bank of America”, o clube montou uma sucessão de esquadrões.

Foram contratados jogadores como Donizete, Luizão, Vagner, Sorato e Mauricinho para o decorrer da temporada e o time alcançou mais feitos. Além de um novo título carioca, Calçada era o presidente no ano do maior título da história: a “Copa Libertadores”. Porém, o sonho do “Mundial Interclubes” esbarrou na derrota para o Real Madrid.

Em 1999, no entanto, o dirigente logo voltou a comemorar pelo clube. Tendo Guilherme, Donizete e Juninho como destaques e em reforços como Paulo Miranda e Zé Maria, o Vasco iniciou o ano campeão do “Torneio Rio-São Paulo”, derrotando o Santos nas duas partidas da final.

No mesmo ano, os dirigentes ainda repatriariam Edmundo e depositariam as fichas na contratação de Viola, mas o time se despediu cedo no “Brasileiro”.

O ano de 2000 começou de maneira empolgante para o clube: em uma "cartada", da qual o presidente foi crucial, Romário, dispensado do Flamengo, retornou à “Colina” para a disputa do” Mundial de Clubes” em janeiro.

Tendo também como novidades a ascensão de Hélton e as chegadas de Jorginho e Júnior Baiano, o clube foi à decisão no Maracanã, mas amargou a derrota nos pênaltis para o Corinthians.

Passadas as frustrações das finais do “Torneio Rio-São Paulo” e “Campeonato Carioca”, o Vasco teria um fim de ano para não esquecer. Com novidades como Clébson, Juninho Paulista e Euller, o “Cruz-Maltino” foi crescendo no decorrer da “Copa Mercosul” e da “Copa João Havelange” e chegou à decisão em ambas.

Diante do Palmeiras, o time alcançou a '"Virada do Milênio", no jogo em que obteve uma histórica virada de 3 X 0 para 4 X 3 em pleno “Parque Antarctica”.

Já na final turbulenta na “Copa João Havelange”, Calçada conseguiu seu último título como presidente. Com a vitória por 3 X 1 sobre o São Caetano, o mandatário conquistou seu terceiro e último título brasileiro.

Além de conquistas no futebol, Antônio Soares Calçada foi vencedor em outras modalidades: obteve o bicampeonato da “Liga Sul-Americana de Basquete” e o tricampeonato estadual de Remo.

Mesmo tendo deixado a presidência a partir de 2001, sequer se candidatou em 2000, na eleição vencida por Eurico Miranda, Calçada se manteve ligado ao Vasco. Além de ser um dos beneméritos, tornou-se presidente de honra do clube. Em 2014, ele deu nome ao ginásio poliesportivo localizado em São Januário.

Lúcido até o fim de sua vida, Antônio Soares Calçada mostrou-se ativo até no pleito que culminou na eleição de 2017. Ele tornou-se vice de Júlio Brant assim que a chapa entre Brant e Campello se rompeu, mas foi derrotado por Alexandre Campello.

No início de julho deste ano, as complicações abdominais chegaram a levá-lo para o CTI. Após chegar a ficar estável, Calçada voltou ao CTI e, desta vez, não resistiu.

Títulos ganhos como Presidente do Vasco da Gama:

Campeão da Taça Libertadores da América (1998); Campeão da Copa Mercosul (2000); Campeão Brasileiro de Futebol (1989, 1997 e 2000); Campeão Estadual de Futebol (1982, 1987, 1988, 1992, 1993, 1994 e 1998); Campeão da Liga Sul-Americana de Basquete (1999 e 2000); Campeão Sul-Americano de Clubes de Basquete (1998 e 1999); Campeão Brasileiro de Basquete (2000); Campeão Estadual de Basquete (1983, 1987, 1989, 1992, 1997 e 2000); Campeão Estadual de Remo (1998, 1999 e 2000. (Pesquisa: Nilo Dias)