Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Heleno, o craque que morreu louco

Indiscutivelmente Heleno de Freitas foi um dos melhores jogadores que o futebol brasileiro conheceu em todos os tempos. Era mineiro de São João Nepomuceno, onde nasceu a 12 de fevereiro de 1920. Morreu em Barbacena, também em Minas Gerias, no dia 8 de novembro de 1959, com apenas 39 anos de idade.

Heleno estudou no Colégio São Bento e depois obteve o bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, atual Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Era considerado membro da alta sociedade, com amigos empresários, juristas e diplomatas. Seu pai era dono de um cafezal e ainda cuidava de negócios de papel e chapéus.

Sua vida foi marcada por vícios em drogas como lança-perfume e éter. Isto o fez tentar se auto-eletrocutar num treino do Botafogo. Boêmio, era frequentador de diversas boates do Rio de Janeiro.

Heleno foi casado com Ilma, que conhecia muito bem os problemas do jogador com drogas e mulheres. E mesmo assim disse que o aceitaria como era. Com ela teve um filho apenas, Luiz Eduardo.
Não aguentando mais o temperamento de Heleno de Freitas, ela fugiu para Petrópolis em 1952.

Depois casou com o melhor amigo dele, à quem Heleno pedira que cuidasse dela, enquanto ele jogava no Boca Juniors, da Argentina. Seu amigo acabou se apaixonando por Ilma. Luiz Eduardo — por ter perdido contato desde a mudança — só teve notícias sobre o pai com 10 anos de idade, justamente sobre seu falecimento.

Além de jogador de futebol era advogado, catimbeiro, boa vida, irritadiço e metido a galã. Tinha uma boa aparência, mas quase intratável, em razão de seu gênio destemperado. Por causa disso muitas vezes era expulso de campo.

Teve muitos inimigos. Seus companheiros do “Clube dos Cafajestes” e a torcida do Fluminense o apelidaram de “Gilda”, por seu temperamento e por este ser o nome de uma personagem da atriz norte-americana Rita Hayworth em filme de mesmo nome.

Era Heleno reclamar de qualquer coisa para o povo começar a gritar “Gilda, Gilda!”, o que enfurecia o pobre Heleno cada vez mais. Aí, ele perdia a razão. Xingava quem estivesse pela frente.

Um domingo, jogando em General Severiano, a social do Botafogo, que supostamente deveria apoiar o time, começou a chamar Heleno de “Gilda”, que levando o dedo a boca pediu silêncio aos sócios. A reação foi terrível. A social não parou mais de chamar o maior ídolo do Botafogo, naquela época, de Gilda.

Era Heleno pegar na bola e lá vinha o coro de “Gilda, Gilda”.
Calmamente, ele veio caminhando em direção à social - é preciso dizer que a social dos clubes naqueles anos 30 e 40, era o único lugar nos estádios frequentados por senhoras acompanhando seus maridos -, se postou bem em frente, fez como se fosse agradecer e, repentinamente abaixou o calção.

Foi terrível. Foi só a partir desse episódio que os jogadores foram obrigados a usar uma espécie de sunga elástica por baixo do calção.
O escândalo foi tamanho que o Botafogo se viu na obrigação de vender Heleno para o Boca Juniors, da Argentina.

O craque foi o símbolo de um Botafogo guerreiro, que nunca se dava por vencido. Descoberto por Neném Prancha no time do Botafogo de praia, Heleno chegou ao onze principal em 1937, com a responsabilidade de substituir o ídolo Carvalho Leite, goleador do tetracampeonato estadual, de 1932 a 35 e não decepcionou a torcida, com grande habilidade e excelente cabeceio.

Dono de uma postura elegante dentro e fora de campo, o jogador de cerca de 1,82 metros de altura foi o maior ídolo alvinegro antes de Garrincha, mesmo sem nunca ter sido campeão pelo clube.

Heleno andava ao volante de um Cadillac branco, rabo de peixe, conversível.  Advogado formado, anel no dedo médio da mão direita. Era venerado pelas mulheres e invejado pelos homens. Mas - era obrigatório ter um “mas” -, quando calçava as chuteiras, se transformava.

Jogava muito. Diziam que ele tinha sido o maior camisa 9 de todos os tempos - só que perdia a razão com a maior facilidade. Se irritava tanto com os adversários quanto com seus companheiros.

Marcou sua passagem pelo Botafogo com 204 gols em 233 partidas, tornando-se o quarto maior artilheiro da história do clube. Deixou General Severiano em 1948, quando foi vendido ao Boca Juniors, da Argentina, na maior transação do futebol brasileiro até então.

Jogou ainda no Vasco da Gama, conquistando seu único título por clube, o de campeão carioca de 1949 com o memorável “Expresso da Vitória”, pelo Atlético Junior de Barranquilla, da Liga Pirata da Colômbia, pelo Santos e pelo América, onde encerrou a carreira.

No clube americano jogou apenas uma vez. Foi no Maracanã, tendo sido expulso aos 35 minutos do primeiro tempo, depois de acertar um carrinho violento em um zagueiro adversário.

Ainda tentou voltar aos gramados defendendo o Flamengo, por indicação do técnico “Kanela”, mas se desentendeu com os jogadores num treino e não foi aceito.


Em maio de 1953, jogou a sua última partida antes da internação. Com a camisa vermelha e branca do Rochedo de Minas, da cidade de mesmo nome, enfrentou um combinado de Guarani. Heleno foi o centroavante. Não ria para ninguém, era grande e glamuroso. Num lance, matou a bola no peito e fuzilou o canto do goleiro. No outro, chutou de fora da área, marcando outro golaço.

Fez 18 partidas pela Seleção Brasileira marcando 19 gols, tendo sido artilheiro do Campeonato Sul-Americano de Futebol de 1945 - atual Copa América - com 6 gols.

Heleno sonhava em disputar uma Copa do Mundo, mas devido à 2.ª Guerra Mundial, no auge da sua carreira, o Mundial foi cancelado em duas ocasiões, 1942 e 1946.

Heleno foi um dos personagens favoritos de escritores e jornalistas. Na lista de fãs, se destaca o escritor colombiano Gabriel García Márquez, autor do clássico “Cem Anos de Solidão” e vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1983.

O colombiano era jornalista do periódico “El Heraldo” quando Heleno foi contratado pelo Atlético de Barranquilla, em 1950. Na coletânea “Obra jornalística - Vol. 1 - Textos caribenhos”, da Editora Record, em 2006, foram selecionados dois textos do escritor sobre o jogador brasileiro: “O doutor De Freitas” e “Heleno de ponta a ponta”.

Gabriel Garcia Marques escreveu que “em nenhum caso uma partida da qual participe Heleno tem probabilidade de se transformar num logro, porque vaiar, da mesma maneira como aplaudir, é uma forma coletiva de reconhecer publicamente um fato”.

E ainda: “Heleno de Freitas tinha pinta de cigano, cara de Rodolfo Valentino e humor de cão raivoso. Nas canchas, resplandecia. Uma noite, perdeu todo o seu dinheiro no cassino. Outra noite perdeu não se sabe onde, toda a vontade de viver. E na última noite morreu, delirando, num hospício”.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano contou: “Heleno foi visitar um amigo doente. E então aconteceu o seguinte: todas as mulheres da casa, da avó à lavadeira, apaixonaram-se por ele.”

O grande jornalista e dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues, assim, descreveu o ex-jogador: “Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva e descansa, hoje, no cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça.”

O jornalista Amando Nogueira foi taxativo: “Por ser um jogador boa pinta, elegante, de classe alta e boêmio, envolveu-se com várias mulheres e por causa disso contraiu sífilis, que o deixou louco.”

E por fim, Roberto Drumond, escritor e ex-colunista do Estado de Minas: “O grande Heleno de Freitas, o deus das cabeçadas, que deslumbrou plateias do mundo, envergando, entre outras, as gloriosas jaquetas do Botafogo e do Boca Juniors. (...). Aquele que aqui na terra foi um Deus, que multiplicou gols como se gols fossem peixes.”

Em Minas Gerais, a ficção "Quando fui morto em Cuba", de Roberto Drummond, criou um romance hipotético entre Heleno e Rita Hayworth, que viveu “Gilda”, nos cinemas. Durante a carreira o jogador era chamado de "Gilda", pelos rivais, por ser genioso como a personagem vivida por Hayworth.

Segundo o ex-goleiro Danton, Heleno, já internado em um sanatório, assistia acompanhado de um médico os jogos do Olympic de Barbacena e, dentre seus delírios megalomaníacos, contava que teve casos amorosos com várias mulheres bonitas, incluindo um nunca comprovado com Eva Perón no período em que jogou na Argentina.

Veio a falecer no ano de 1959, em um hospício de Barbacena, onde foi internado seis anos antes, em 1953, com apoio da família.

Sua vida é retratada no livro “Nunca houve um homem como Heleno”, do jornalista e escritor Marcos Eduardo Neves, e no filme “Heleno”, estrelado por Rodrigo Santoro, que fez o papel título e Aline Moraes, que fez sua esposa, cujo nome foi mudado para Sílvia.

Títulos conquistados. Pela Seleção Brasileira: Copa Roca (1945) e Copa Rio Branco (1947); Botafogo: Torneio Inicio (1947). Campeonato Carioca de Aspirantes (1944 e 1945). Campeonato Carioca de Amadores (1943 e 1944). Copa Burgos, na Espanha (1941). Taça Prefeito Dr. Durval Neves da Rocha (1942); Vasco da Gama: Campeão Carioca (1949). Campeão Carioca de Aspirantes (1949); Santos: Taça Santos (1952). Torneio FPF (1952). Quadrangular de Belo Horizonte (1951).

Artilharia. Copa América (1945). Botafogo: Campeonato Carioca (1942).

O médico José Theobaldo Tollendal foi quem descobriu, em exame na Casa de Saúde Santa Clara, em Belo Horizonte, a doença que mataria Heleno: paralisia geral progressiva (PPG).

Um mês depois, em 19 de dezembro de 1954, Heleno de Feitas deu entrada na Casa de Saúde São Sebastião, segundo documentos do prontuário 220, uma pasta com cerca de 120 cartas trocadas entre o médico e Heraldo de Freitas, irmão do ex-craque, que custeou as despesas.

Para a médica Lucinéia Carvalhaes, diretora clínica do Hospital Eduardo de Menezes, em Belo Horizonte, referência nacional em doenças infecciosas, “é possível que Heleno tenha contraído sífilis nos primeiros anos da vida sexual, pois era comum então ter as primeiras relações com prostitutas”.

Também conhecida por neurossífilis ou sífilis terciária, a PPG é uma manifestação tardia da doença. Não tem cura e o tratamento apenas impede o avanço, sem dar fim às sequelas. A sífilis é um mal silencioso. Na primeira fase, aparecem pequenas feridas, que somem em três semanas. Pouco tempo depois, a manifestação é uma alergia no corpo, que igualmente desaparece.

O paciente perde peso, apresenta fortes dores musculares e passa a caminhar com a base alargada, como se estivesse perdendo o equilíbrio. As principais manifestações psiquiátricas são mania de grandeza, discurso sem nexo e confusão entre fantasia e realidade – sintomas apresentados por Heleno.

Segundo a sobrinha do jogador, Helenize de Freitas, Heleno contava muitos casos já durante o período que morou em São João Nepomuceno, entre 1952 e 1954, antes de se internar em definitivo.

Ele contava que era amigo de Víctor Mature, ator de “Sansão e Dalila”. Como ele convivia com muitos artistas nos tempos de glória do Rio, não se sabia se era verdade. Só depois, mais tarde, que foi percebido que aquilo já era delírio de Heleno.

Sempre ao lado do médico, tomava refrigerante no Bar Colonial e buscava charutos na Tabacaria Minas Gerais, no Centro. Ele passava, pegava o fumo, dizia "Eu sou o Heleno" e saía sem pagar”, contam os irmãos Luiz Galvão e Sebastião Pereira, herdeiros da loja. 

Com mania de grandeza, falava coisas sem nexo. Os tempos de glória ainda o atormentavam. Dizia que a cada gol pelo Boca Juniors era obrigado a dar um abraço em Evita Perón, a primeira-dama argentina.

No fim de 1957, Tollendal escreveu a Heraldo: A saúde e a sanidade pioravam rapidamente. Ele havia perdido muito peso, os dentes estavam enfraquecidos e o cabelo caía. Havia passado a ouvir vozes, agir de forma violenta e infantil, comer papel e rasgar roupas com os dentes.

Pele enrugada, cabelos ralos e brancos, aos 38 anos, o homem de 1,80m pesava pouco mais de 40 kg. Na manhã de 8 de novembro de 1959, ao abrir a porta do quarto com o café da manhã, um enfermeiro encontrou Heleno morto.

A ida do corpo para São João Nepomuceno foi tão conturbada quando a vida do mito. Caía verdadeiro dilúvio. Às 15 horas, perto de Juiz de Fora, o caixão teve de ser trocado de carro, que meia hora depois atolou. Só chegou à cidade às 9h da manhã seguinte.

“No velório, um senhor de cerca de 50 anos ficou o tempo todo ao lado do caixão. Devia ser alguém que conviveu com o astro. Depois ninguém nunca mais o viu”, lembra Helenize.

O comércio fechou e uma fila seguiu o caixão da casa da família, na Rua Capitão Braz, até o cemitério São João Batista, onde Heleno foi enterrado às 15 horas, ao lado dos pais e de Heraldo.



terça-feira, 29 de novembro de 2016

O futebol brasileiro está de luto

O acidente ocorrido na madrugada de hoje na Colômbia, que matou 75 membros da delegação da Chapecoense, de Chapecó (SC), está sendo considerado o maior desastre aviatório da história, envolvendo times de futebol no mundo.

O acidente envolvendo um time de jogadores descendentes de surinameses, o "Colorful 11", teve um número maior de mortos - 178 - no entanto, havia menos jogadores entre as vítimas.

A aeronave, da companhia venezuelana "LaMia", de matrícula CP 2933, levava 77 pessoas a bordo: 68 passageiros e nove tripulantes, de acordo com a Aeronáutica Civil colombiana. O avião se dirigia para Medellín, onde iria disputar, amanhã (30/11), a primeira partida da final da Copa Sul-Americana, contra o Atlético Nacional da Colômbia.

A queda ocorreu nas proximidades de Medellín, pouco antes de chegar ao destino. Uma das possibilidades é o avião ter sofrido pane elétrica. 

Foram retirados com vida dos destroços o lateral esquerdo Alan Ruschel, 23 anos, que já defendeu o Juventude, de Caxias do Sul e o Internacional, de Porto Alegre, os goleiros Marcos Danilo Padilha, 31 anos, que morreu no hospital e Jackson Follmann, 24 anos, que teve uma perna amputada, o radialista Rafael Henzel Valmorbida, da Rádio Oeste Capital, de Chapecó, Helio Hermito Zampier, conhecido como Neto, zagueiro do clube catarinense, uma comissária de bordo, identificada como Ximena Suárez e Erwin Tumiri, técnico da aeronave.

Por ter esquecido o passaporte, Matheus Saroli, o filho do técnico da Chapecoense, Caio Júnior, morto no acidente trágico desta madrugada, não embarcou com a delegação. O prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, foi convidado para acompanhar o time, mas não embarcou. 

Ele teve de ir a São Paulo, onde tinha um compromisso e embarcaria para Medelín, na Colômbia, nesta terça-feira (29), em voo comercial, para acompanhar a primeira partida da final da competição. O presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, Gelson Merísio estava na lista de convidados do voo da Chapecoense para Medellín, mas não embarcou com a delegação. Merísio desistiu de ir na última hora, em função de compromissos na Assembleia nesta terça-feira. 

O mesmo aconteceu com o presidente do Conselho Deliberativo da Chapecoense, Plínio David de Nes Filho, que estava na lista de convidados da viagem para Medellín, na Colômbia. Mas acabou não viajando em razão de compromissos em São Paulo. Seguiria viagem para Medellín na tarde desta terça. 

Outro que escapou de morrer foi Claudio Winck, lateral direito, ex-Internacional que não foi relacionado para o jogo em Medellin. Já o volante Matheus Biteco, o zagueiro William Thiego e o lateral Dener Assunção, todos ex-Grêmio, não tiveram a mesma sorte. Também o ex-jogador da dupla Grenal, Mário Sérgio e Anderson Paixão, filho de Paulo Paixão, que, assim como o pai, foi preparador físico de Grêmio e Internacional, estão entre as vítima fatais.

O avião teria perdido o contato com a torre de controle às 22h15 (1h15 no horário de Brasília). O pedido de socorro foi emitido entre as cidades de Ceja e Lá Unión. A aeronave fez uma parada em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, depois de decolar do Brasil.

Na emergência do voo, o piloto teria aberto os tanques de combustível para evitar a explosão da aeronave na queda. A região do acidente é montanhosa. O avião teria caído a 25 quilômetros da cabeceira da pista do aeroporto de destino e não explodiu, de acordo com informações de paramédicos.

A Aviação Civil da Colômbia publicou em sua página no Facebook a lista de todos os passageiros que estavam no voo da "LaMia".

Jogadores e equipe: Alan Luciano Ruschel, Ananias Eloi Castro Monteiro, Arthur Brasiliano Maia, Bruno Rangel Domingues, Ailton Cesar Junior Alves da Silva, Cleber Santana Loureiro, Marcos Danilo Padilha, Dener Assunção Braz, Filipe José Machado, Jakson Ragnar Follmann, José Gildeixon Clemente de Paiva, Guilherme Gimenez de Souza, Everton Kempes dos S. Gonçalves, Lucas Gomes da Silva, Matheus Bitencourt da Silva, Helio Hermito Zampier Neto, Sergio Manoel Barbosa dos Santos, Willian Thiago de Jesus, Tiago da Rocha Vieira Alves, Josimar Rosado da Silva Tavares, Marcelo Augusto Mathias da Silva, Mateus Lucena dos Santos, Luiz Carlos Saroli (Caio Júnior), Eduardo de Castro Filho, Anderson Rodrigues Paixão Araújo, Anderson Roberto Martins, Marcio Bestene Koury (médico do clube), Rafael Correa Gobatto, Luiz Cezar Martins Cunha, Luiz Felipe Grohs, Segio Luis Ferreira de Jesus, Anderson Donizette Lucas, Adriano Wulff Bitencourt, Cleberson Fernando da Silva, Emersson Fabio Di Domenico, Eduardo Luiz Preuss, Mauro Luiz Stumpf, Sandro Luiz Pallaoro (presidente do clube), Nilson Folle Junior, Decio Sebastião Burtet Filho, Jandir Bordignon, Gilberto Pace Thomas, Mauro Dal Bello, Edir Félix de Marco, Daví Barela Dávi, Ricardo Phillippi Porto e Delfim Pádua Peixoto Filho.

Jornalistas: Victorino Miranda (Fox), Rodrigo Santana Gonçalves (Fox), Devair Paschoalon (Fox), Lilácio Pereira Junior (Fox), Paulo Júlio Moraes Clement (Fox), Mário Sergio Pontes de Paiva, ex-jogador e ex-técnico do Internacional, de Porto Alegre (Fox), Guilherme Marques (Globo), Ari de Araújo Junior (Globo), Guilherme Laars (Globo), Giovane Klein Victória (RBS), Bruno Mauri da Silva (RBS), Djalma Araújo Neto (RBS), André Luis Goulart Podiacki (RBS), Laion Machado Espíndola (Globo Esporte), Rafael Henzel Valmorbida (Rádio Oeste Capital, de Chapecó) e ainda os radiaistas Renan Carlos Agnolin, Fernando Schardong, Edson Luiz Ebeliny, Gelson Galiotto, Douglas Dorneles, Jacir Biavatti e Ivan Carlos Agnoletto.

Tripulação: Miguel Quiroga, Ovar Goytia, Sisy Arias, Romel Vacaflores, Ximena Suarez, Alex Quispe, Gustavo Encina, Erwin Tumiri e Angel Lugo. 

O mundo do futebol, desde a notícia da queda do avião, foi se unindo numa rede jamais vista em toda a história esportiva. Clubes, jogadores, cronistas, torcedores de todos os cantos do planeta se abraçaram no emblema Força Chape.

Grandes clubes da Europa, como o Benfica, querem emprestar jogadores para ajudar a Chapecoense a manter o legado esportivo construído pelos seus heróis mortos. No Brasil, essa ideia ganha corpo. O Nacional, de Medellín, não quer saber de título da Sul-Americana. Sugere que fique com a Chape ou se divida a taça.

Craques planetários, como Iniesta, se emocionaram. Querem ajudar financeiramente. Os jogadores de um clube alemão postaram um minuto de silêncio antes de um treino, abraçados.

Tanta solidariedade espontânea dá esperança contra a violência, o racismo e outras pragas que infestam o futebol. O que é importante, de fato? Para os colorados: será tão dolorido assim jogar uma Série B? No caso do Grêmio: que importância tanto tempo sem título teve de verdade?

A tragédia da Chapecoense é revoltante de tão injusta, mas no meio de tanta dor já produziu algo histórico, bonito, do tamanho da grandeza de um clube que tem na força da comunidade a sua força motriz: uma rede espontânea de solidariedade jamais vista na história do futebol mundial. E que nos convida a olhar tudo de outra maneira, como ensina Paulo Paixão.

Outros acidentes envolvendo equipes de futebol:

Em 4 de maio de 1949, há algumas milhas de Turim, sob forte nevoeiro, aconteceu uma tragédia que marcaria para sempre a história do futebol italiano e mundial. O avião, um Fiat G212, que transportava a delegação do Torino de volta à Itália, após um amistoso contra o Benfica em Portugal, chocou-se contra uma das torres da basílica de Turim de Superga, a 600 metros de altura. Não houve sobreviventes. Morreram 18 jogadores.

A tragédia que a Inglaterra nunca esquecerá. No dia 6 de fevereiro de 1958, após a disputa de uma partida contra o Estrela Vermelha, em Belgrado, o Manchester fazia a viagem de retorno à Inglaterra. Era o vôo 609 da British European Airways.

Segundo testemunhas, durante a viagem estava nevando muito. O piloto do bimotor Airspeed Ambassador, prefixo G-ALZU, construído pela “De Havilland”, que fazia vôos regulares entre a Alemanha e a Inglaterra, estava com pouca visibilidade. E, para piorar, um dos motores estava com defeito.

A torre chegou a ser informada sobre o problema, mas nada adiantou. Logo depois, o motor pegou fogo e o avião caiu nas proximidades da cidade de Munique, na região da Baviera, por volta das 18 horas.

No acidente morreram 28 pessoas entre passageiros e moradores do local da queda do avião. A comitiva do Manchester era formada pelo diretor esportivo, o secretário da equipe, 11 jornalistas e 17 jogadores.

A tragédia que podia ser evitada. O Alianza Lima foi, ao longo dos anos 70 e 80, a grande sensação do futebol peruano e a base para as convocações da seleção nacional. Na época o Peru ocupava o lugar de quarta potência do futebol sul-americano atrás apenas de Brasil, Uruguai e Argentina. Porém, essa história de grande celeiro de grandes jogadores do futebol peruano se encerrou de forma rápida e trágica.

No dia 8 de dezembro de 1987, o Alianza estava na cidade de Pucallpa, onde disputava mais uma partida pelo Campeonato Peruano, competição que liderava naquele momento. O time saiu de campo vencedor por 1 X 0. Foi a última vitória da precoce carreira daqueles atletas.

No retorno à capital, poucos minutos antes de aterrissar no Aeroporto Internacional Jorge Chavez, o avião Fokker 27 MPA, da Marinha de Guerra do Peru, apresentou problemas no trem de pouso dianteiro.

O piloto – mais tarde descobriu-se que não era qualificado – fez, por duas vezes, manobras bruscas com a aeronave, para cima e para baixo, no intuito de baixar o trem de pouso a força. Na segunda manobra perdeu o controle do avião que caiu no Mar de Ventanilla.

Apenas ele, o piloto, sobreviveu. Perderam a vida todos os jogadores, comissão técnica, alguns torcedores, árbitros e a tripulação.

A Tragédia de Viloco. Em 24 de setembro de 1969, feriado local, a equipe do The Strongest foi convidada para participar de um jogo amistoso organizado pela Associação de Futebol de Santa Cruz de La Sierra.

Para a equipe, era somente outra visita a cidade de Santa Cruz, após o término do Campeonato Nacional. Na noite do dia 26 de setembro, soube-se que o avião, um DC-6 da Lloyd Aéreo Boliviano, com a maioria da delegação do The Strongest, que retornava da cidade de Santa Cruz de La Sierra em direção a La Paz havia desaparecido.

Passadas vinte e quatro horas do desaparecimento, e já sem muita esperança, o país recebeu a notícia: o avião havia se precipitado contra uma região montanhosa chamada La Cancha, na região mineira de Viloco, a cerca de 100 km de La Paz. Todos os 69 passageiros e 9 membros da tripulação morreram.

Chile Green Cross (atual Deportes Temuco). Em03 de abril de 1961 o avião Douglas DC-3 da LAN Chile, prefixo CC-CLD-P210, realizava o voo 210 trazendo de volta a equipe do Chile Green Cross (hoje Deportes Temuco) de uma partida em Osorno, pelo Torneio Apertura da Copa Chile.

Voando com visibilidade ruim, chocou-se contra a Serra de Las Animas, na Cordilheira de Linares, matando todos os seus 20 passageiros e quatro tripulantes.

Pakhtakor Tashkent. No dia 11 de agosto de 1.979, uma colisão aérea entre dois aviões russos Tupolev 134As da Aeroflot, vitimou a equipe de futebol do Pakhtakor Tashkent, do Uzbequistão, que fazia o  vôo 7880, rota Tashkent - Donetsk - Minsk sobre a antiga União Soviética.

Uma falha do controle de tráfego aéreo da Rússia na separação aérea das aeronaves causou o choque entre elas, a 27.200 pés de altitude, que vieram a cair sobre a cidade de Dneprodzerzhinsk, na Ucrânia.

No avião prefixo CCCP-65735 da delegação do Pakhtakor Tashkent morreram todos os 84 ocupantes, entre eles os 14 jogadores e os três membros da comissão técnica. Na outra aeronave, a de prefixo CCCP-65816, morreram os 94 ocupantes. Computando as duas aeronaves o saldo foi de 178 mortos.

Seleção da Zâmbia. A Tragédia no Gabão. No dia 28 de abril de 1993 uma aeronave De Havilland DHC-5 da Força Aérea da Zâmbia, prefixo AF-319, que levava a Seleção do país para uma partida das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994, explodiu logo após decolar de um aeroporto em Libreville, no Gabão, onde havia sido reabastecido.

Dezoito jogadores, três dirigentes da Associação de Futebol da Zâmbia (FAZ) e cinco militares morreram.

Não se pode esquecer o acidente com o avião que levava o time de rugby do “Old Christians Club”, de Montevidéu, para uma partida em Santiago do Chile, que caiu na Cordilheira dos Andes em 13 de outubro de 1972. O episódio que ficou conhecido como “Os sobreviventes dos Andes” foi até tema de um filme.

Devido ao mau tempo, o avião se chocou contra uma montanha da Cordilheira dos Andes, na remota fronteira entre o Chile e a Argentina. Morreram 18 pessoas imediatamente ou nos dias que se seguiram e os outros não dispunham de alimentos, roupas ou remédios apropriados.

Esta foi a história de sobrevivência mais importante da humanidade, porque foi protagonizada por gente comum. Havia 45 pessoas a bordo, no voo fretado da Força Aérea Uruguaia 571.

Os sobreviventes foram obrigados a comer a carne de alguns de seus companheiros mortos, além de terem suportado mais de dois meses em um dos ambientes mais inóspitos, sob temperaturas de dezenas de graus negativos, sem roupas apropriadas ou esperança de resgate.

A decisão de recorrer ao canibalismo não foi fácil. O sobrevivente Fernando Parrado conta em seu livro “Milagre nos Andes” que eles tentaram se alimentar até de tiras de couro rasgado de peças de bagagem antes de apelar ao canibalismo.

Quarenta e quatro pessoas morreram no dia 7 de setembro de 2011 na queda de um avião de passageiros russo Yak-42 na região de Yaroslavl, a 200 quilômetros ao norte de Moscou.

A aeronave, na qual viajava a equipe de hóquei no gelo do "Lokomotiv Yaroslavl", caiu pouco depois de decolar e explodiu no ar, segundo a agência russa "Interfax".

O "Lokomotiv Yaroslavl" foi campeão russo de hóquei no gelo em 1997, 2002 e 2003. O time enfrentaria no dia 8 ao Dínamo Minsk. O acidente aconteceu por volta das 9h (de Brasília). A aeronave, pertencente à companhia "Yak-Service", tinha como destino o aeroporto de Minsk, capital de Belarus.

As quase tragédias.  A equipe do Leeds United da Inglaterra por pouco não foi vitimada por uma tragédia aérea em 1 de outubro de 1998. Após uma partida em que foi derrotado pelo West Ham por 3 X 0 jogadores e comissão técnica retornavam de Londres para a cidade de Leeds.

O avião, um bimotor British Aerospace 748 fretado da empresa Emerald Airways, parou de funcionar após a decolagem assim que atingiu os 150 pés. Com um dos motores em chamas o piloto realizou um pouso de emergência no Aeroporto Stansted, em Londres. Havia 19 jogadores entre os 44 passageiros. Apenas um jogador feriu-se, mas sem gravidade.

A equipe do Santos que escapou da morte. No dia 15 de setembro de 1968, um domingo, o Santos enfrentou o Flamengo no Maracanã vencendo por 3 X 2. Após a partida, Pelé & Cia. retornavam a São Paulo viajando num avião modelo Viscount, prefixo PP-SER, da Vasp, que pousou no aeroporto de Congonhas às 21h15. Desembarcaram 52 passageiros e comissários, incluindo a delegação do Santos. Permaneceram a bordo o comandante Neutel e co-piloto Freire.

Cerca de três minutos após, o avião decolou para um vôo de treinamento dos tripulantes. Ao sobrevoar a Cidade Universitária (o Campus da USP – Universidade de São Paulo), houve falha numa das turbinas e o avião caiu ficando reduzido a escombros. Morreram na queda os dois tripulantes e em terra uma senhora que residia numa das casas atingidas pelo impacto e pelas labaredas.

O acidente não foi destaque na imprensa. Apenas um jornal de São Paulo publicou, mas sem alarde, que o Santos havia desembarcando a poucos instantes daquele aparelho que acabou se precipitando na região da Cidade Universitária.

Pânico no Equador. No dia 1 de maio de 1996, um sério acidente numa tentativa frustrada de decolagem do avião que traria de volta a delegação do Corinthians para o Brasil após um jogo em Quito, no Equador, quase acaba em tragédia.

A bordo da aeronave os jogadores comemoravam com champanhe a vitória de 3 X 1 sobre o Espoli, do Equador, quando "viram a morte de perto". Às 18h45 daquela quarta-feira, 80 pessoas entre jogadores, comissão técnica, torcedores e jornalistas estavam prontas para decolar de Quito rumo a São Paulo.

Chovia forte no momento da tentativa de decolagem efetuada pelo comandante Cledir da Silva, nos controles do Boeing 727-2B6, prefixo PP-LBY, da companhia aérea FLY. Eram 17 horas locais (19 horas de Brasília). Na aeronave 72 pessoas a bordo. A pista do aeroporto Mariscal de Sucre é considerada uma das mais perigosas do mundo.

Quarenta e seis segundos após o início da corrida, quando o avião deveria estar levantando vôo, os passageiros descobriram o que o comandante já sabia: o 727 não iria decolar. Na realidade ele já havia iniciado os procedimentos para abortar a decolagem, isso a mais de 200 quilômetros por hora.

Nesse momento a aeronave patinou, saiu da pista, deslizou pela grama e destruiu tudo pela frente, incluindo cercas e o muro onde finalmente parou quase nas ruas da capital do Equador.

O tanque de combustível da asa direita rompeu-se e derramou combustível sobre o trem de pouso que se partia e as faíscas deflagraram um incêndio que atingiu a aeronave que já estava com sua cabine destruída e a fuselagem partida ao meio.

O pronto atendimento dos bombeiros evitou o incêndio total da aeronave e o fogo foi logo apagado. Segundo o comandante, no momento em que o avião taxiava, chovia pouco, mas aumentou ao tentar arremeter.

Grêmio e Caxias. Mudança de voo na última hora salva os dois times. A queda do vôo JJ 3054 da TAM em São Paulo no dia 17 de julho de 2007 quase vitimou toda a delegação do Grêmio. O diretor de futebol do clube, Paulo Pelaipe, afirmou que o elenco seguiria nesse vôo para chegar a Goiânia, onde enfrentou o Goiás no dia 19 de julho, mas o caos aéreo acabou alterando a programação.

Uma das alternativas era São Paulo-Porto Alegre à tarde. Em uma conversa com Mano Menezes (técnico), foi decidido que não seria pego aquele voo para São Paulo. Decidiu-se por Brasília e depois Goiânia, local do jogo.

No momento da queda, a delegação já estava no Distrito Federal e os celulares entupidos de telefonemas.

Elenco do Caxias escapa da tragédia ao embarcar em vôo seguinte. Além da delegação do Grêmio, o elenco do Caxias também esteve muito perto de embarcar no vôo JJ 3054 da TAM, que caiu dia 17 de julho de 2007 em Congonhas, São Paulo.

O time seguia para Maringá (PR), onde enfrentaria o ADAP/Galo-PR no dia seguinte pela Série C do Campeonato Brasileiro, mas embarcou no vôo seguinte ao do acidente.

O vôo dos jogadores do Caxias mudou a rota e desembarcou em Curitiba, onde os passageiros souberam da tragédia em São Paulo.

De acordo com o assessor de imprensa do clube, Gustavo Rech, o elenco ficou muito emocionado. O ex-presidente do Internacional, Paulo Amoretty, estava entre as vítimas do acidente.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

O craque que virou mendigo


É difícil de entender como uma pessoa que conheceu a fama e ganhou muito dinheiro pode ter chegado a uma situação próxima ao fundo do poço. Perivaldo Lúcio Dantas, o “Peri da Pituba”, conhecido jogador de futebol que brilhou nos times do Bahia, Botafogo, São Paulo, Palmeiras, Ferroviário, do Ceará, Bangu e até Seleção Brasileira pode dizer como isso pode acontecer.

Depois de muitas lesões, Perivaldo desapareceu das notícias. Somente 30 anos depois é que o programa “Fantástico”, da Rede Globo o encontrou, em 18 de novembro de 2013, caminhando pelas ruas de Lisboa, com roupas andrajosas e catando coisas em latas de lixo.

Depois que parou de jogar futebol no Brasil, no Bangu, em meados dos anos 80, pouco se sabe da vida do ex-jogador. Ele diz que foi para a Coreia, na Ásia, e depois para Portugal. O “Fantástico” procurou a Federação Portuguesa de Futebol e a informação oficial é de que não há registro de nenhum jogador brasileiro chamado Perivaldo Lúcio Dantas.

Na "Feira da Ladra", em Lisboa, era fácil achar Perivaldo vendendo suas mercadorias. Quando jogador tinha fama de carismático, ele continuava extrovertido. “Sete e sete são quatorze, três vezes sete é 21. Tenho sete amores no mundo, mas não caso com nenhum. Paranauê, paranauê, Paraná”, brincava ele.

Ou então: “Vamos embora, compadre. Aqui, o que é bom aqui. Se quiser coisa boa, está aqui na banca do Peri da Pituba”. Ele ganhava algum dinheirinho vendendo peças de roupa. Mas a dificuldade para vender alguma coisa era grande. Dizia que o comércio não estava bom na Feira.

Os produtos que vendia eram provenientes de lojas de saldo, comprados baratos. Dava para comprar e até ganhar um bom dinheiro. Mas nada que pudesse garantir uma vida digna. Por isso, era junto a um muro, com uns papelões no chão, que dormiu por muitos anos.

Marcelo Sampaio Dantas, um de seus filhos, disse ao jornal “A Tarde”, de Salvador, ter chorado ao ver as condições de Perivaldo, na época com 60 anos.

"Peri da Pituba", nascido em berço humilde, viu-se de repente na condição de homem abastado. Deslumbrou-se. E um dia, não resistiu ao apelo que lhe vinha do Oriente, de jogar a bola a troco de nove mil dólares por mês, e partiu para a Ásia.

Lá na Coréia ele ganhou muito dinheiro. Só as luvas chegaram a 100 mil dólares por dois anos. Mas ele não cumpriu o contrato. Só ficou por lá 8 meses ou 9 meses. Deu vontade de ir embora, largou tudo. Foi assim a sua atrapalhação. Ele prejudicou só a si mesmo.

Um dia, depois de uma vida errante, chegou a Lisboa, já na fase descendente da sua carreira, mas ainda com um bolso cheio de notas. Ficou hospedado em um hotel de luxo, na capital lusitana.

Primeiro, da vida simples ao luxo, como jogador. Depois, ao lixo, como mendigo. Notas que foram desaparecendo, uma vez que não arranjou trabalho naquilo que melhor sabia fazer – jogar à bola.

Na noite da capital, arranjou amigos. Bons e maus. Os maus lhe foram sugando o dinheiro que lhe pediam emprestado e nunca mais devolveram.

Outros, que pura e simplesmente o roubaram. Acabou na miséria e assim se manteve, vagueando pela cidade que lhe deu guarida, durante 24 longos anos. De bom, o nunca se ter enredado nos caminhos tortuosos da droga e nem sequer fuma ou fumou um simples cigarro.  

Perivaldo tem noção de que não soube orientar a vida. Diz: “andei montado num cavalo, agora ando montado num burro e o burro sou eu”.

Faz uma sentida referência à mãe e dos avisos que ela sempre lhe fez e a que ele não deu a devida importância. E assume, com uma modéstia exemplar e por inteiro, toda a responsabilidade pela sua triste e desgarrada vida.

Mas não explicou ao certo como foi parar em Portugal e chegou à situação de penúria financeira. Disse que foi mal aconselhado e que perdeu dinheiro por falta de juízo e empréstimos a amigos.

Em seus tempos mais confortáveis tinha artigos de luxo. Até um relógio “Rolex”, que deveria valer hoje uns 70 mil euros. Em joia, ele teve mais de 200 mil euros. Quando o dinheiro foi acabando ele vendeu tudo.

Até uma casa, uma casa que ele tinha no Brasil e que vendeu por pouco mais que nada. Deveria valer cerca de dinheiro português uns 300, 400 mil euros.

“Peri da Pituba” não culpa a ninguém pela situação de dificuldades que vivenciou. Só a ele mesmo. Assume os erros, como os problemas com bebidas, e só lamentou as amizades não confiáveis no período.

Mesmo evitando tocar no assunto, comentou os dias sofridos em Portugal. “Vou falar do fundo do meu coração: eu tive uma vida muito bacana em Portugal. Não tenho que culpar ninguém, apenas a mim. Bebi, gastei muito. Mas não posso reclamar. Sei que tudo que aconteceu foi culpa minha. Eu tive muito dinheiro, fui milionário, mas me prejudiquei. Bebia direto, dormia na rua por conta disso”.

Além disso, Perivaldo foi traído por muita gente. “O futebol tem disso. As pessoas se aproximam, usam seu dinheiro e somem. Tomei muita volta. Por isso que não ligo mais para dinheiro hoje. Só quero estar bem acompanhado e feliz na minha volta ao Brasil", encerrou.

O presidente do sindicato dos Atletas de Futebol do Rio de Janeiro (Saferj), Alfredo Sampaio, viu a reportagem, sensibilizou-se e ajudou a buscar o jogador e prometeu ajuda para integrá-lo socialmente no Brasil e reencontrar sua família.

Deu a ele um emprego no Sindicato, de auxiliar técnico de um projeto que mantém em treinamento jogadores sem clube em uma instalação chamada “Casa do Atleta”. E ainda colabora no setor administrativo. Um cenário que nem de longe lembra os sofridos dias passados em Lisboa.

“Peri” voltou a ter nome, sobrenome e dignidade. Além do emprego tem uma casa para morar na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, cujo aluguel é pago pelo Sindicato. E casou com uma namorada de longa data. Além de Perivaldo o Sindicato tem outros 12 atletas em situação semelhante, trabalhando lá, remunerados e com carteira assinada.

Bem humorado disse que não tem mais problemas na vida. Ou quase nenhum. Seu grande desafio agora é na área da tecnologia, onde trava uma "guerra" com o computador sobre a mesa em seu mais novo local de trabalho.

E após muito tempo sem rumo na Europa, Perivaldo nem pensa em mudar sua trajetória e função no Brasil. Ele só espera ser forte o suficiente para não "vacilar" mais uma vez e desperdiçar a oportunidade.

Confessa que gosta do ambiente, das pessoas, da maneira como é tratado. São todos amigos de verdade. Só pede a Deus que lhe dê força e coragem para seguir adiante. Até lhe ofereceram outras coisas, mas não quer sair do Sindicato.

Garante que dinheiro não lhe atrai mais, já teve muito. Ele só quer esse ambiente. E acha que não encontrará outro lugar para ser bem tratado como esse. Fala que ali está o seu futuro.

Reconhece que se não fosse o Alfredo Sampaio, não saberia dizer onde estaria e como seria seu regresso ao Brasil, acrescentando que nem poderia ter certeza da volta. E de repente virou ídolo novamente, pois depois da reportagem no “Fantástico” e de ter voltado para casa, é reconhecido nas ruas.

Conta que as pessoas o ajudam muito. Encontra até torcedores de Flamengo e Vasco na rua e recebe carinho. Eles vêm falar, o chamam de ”Peri da Pituba”, brincam que não gostavam dele na época que enfrentava seus clubes de preferência.

Perivaldo, que iniciou a carreira no Itabuna, da Bahia, tinha um estilo de jogo bastante ofensivo. Ficou conhecido pelos cruzamentos por trás do gol. Disputou vaga na Seleção Brasileira com outros dois laterais do Rio: Leandro, do Flamengo, o preferido da chamada Flapress, e Edvaldo do Fluminense.

“Peri” acabou barrando o segundo. Foi artilheiro do Botafogo em uma temporada e virou cobrador oficial de pênaltis da equipe. A torcida entoava no Maracanã o seguinte grito de guerra: "Não tem Leandro, nem Edvaldo, o lateral da seleção e Perivaldo".

Jogando pela Seleção Brasileira salvou o Brasil de uma derrota no Pacaembu ao conseguir alcançar uma bola e tirar de cima da linha com uma bicicleta. Sua fama não fez justiça ao grande jogador que foi.

Perivaldo conta que quando chegou a Seleção Brasileira, Zico e Junior foram dois de seus maiores amigos, que lhe deram mais apoio. Garante que sempre foi um cara muito engraçado, que adorava pegar no pé dos companheiros. Estava sempre brincando.

O apelido de “Peri da Pituba” ganhou porque costumava dizer que era filho do bairro, famoso por ser morada de gente de classe alta, em Salvador.

Em Portugal sentia muita saudade da sua mulher, Virginia e dos 12 filhos e netos, que quando estava em casa sempre lhe cobravam: “Meu avô dali, meu avô daqui”.

Títulos conquistados: Bahia: Campeão Baiano (1975, 1976 e 1977); São Paulo: Campeão Paulista (1981), Bangu: Vice-campeão Brasileiro (1985) e Vice-campeão Carioca. (1985). (Pesquisa: Nilo Dias)


Peri, antes e depois.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Vanderburgo e a Manicure

Que Vanderlei Luxemburgo é um cara polêmico, ninguém tem dúvida. Já se meteu em várias encrencas. A mais encardida de todas, e talvez a menos conhecida foi a que inspirou o filme “Vanderburgo e a Manicure”, da produtora “Brasileirinhas”.

Tudo aconteceu quando o Palmeiras, então treinado por Luxemburgo, foi jogar em Americana, contra o Rio Branco, em 16 de maio de 1996. O jogo, válido pela segunda fase do “Paulistão”, disputado no Estádio Décio Vitta foi ganho pelo alviverde por 2 X 1.

Naquele ano o Palmeiras foi campeão do torneio com 27 vitórias, dois empates, uma derrota, 102 gols marcados, 19 sofridos e 83 pontos ganhos, o que sem dúvida se constituiu em uma campanha admirável. Mas o que teve mais destaque naquele ano não foi nada disso.

Hospedado no quarto 206 do hotel Vila Rica, em Campinas, Luxemburgo requisitou a presença da manicure Cláudia Cavalcante. Até ai, nada de mais. Não fosse o fato de que o treinador a esperava no quarto enrolado apenas em uma toalha. E que ele a agarrou, beijou e tirou o “negócio” para fora.

Pelo menos foi isso que a moça contou ao delegado de Polícia. Luxemburgo disse em sua defesa que estava vestido com o agasalho do Palmeiras.

A coisa ficou pior para o treinador quando a Justiça aceitou a acusação de Cláudia, de atentado violento ao pudor. Mas o final da história foi favorável a Luxemburgo, que acabou inocentado em novembro de 1997. No ano seguinte, em outubro, a sentença que o absolveu foi confirmada em segunda instância.

O treinador, depois de absolvido disse que ganhou todos os processos contra Cláudia. E contou que estava hospedado no hotel e ela foi fazer suas unhas. E só no dia seguinte, às 11 horas da manhã, é que foi à delegacia.

E argumentou: “Se eu tentei sacanear, fazer alguma coisa, ele teria ido direto na delegacia e não esperar o dia seguinte, né? Ela pegou um advogado e tentou tirar de mim R$ 700 mil”.

O caso ainda rendeu outro capítulo. Luxemburgo não gostou nada que o caso tivesse virado filme. Ainda em 1996, processou a produtora “Brasileirinhas”, responsável pelo filme “Vanderburgo e a Manicure”, uma paródia sobre a acusação. E de quebra deu um sumiço em quase todas as cópias do filme.

São poucas as informações que se tem hoje sobre o filme. O antigo dono da “Brasileirinhas”, Luis Alvarenga não quer falar sobre isso e nem de filme pornô. Até mesmo o processo sofrido pela “Brasileirinhas” é tema pouco conhecido.

As informações sobre o filme são raras, mas existem. O filme foi dirigido por Victor Corrêa e estrelado por Adriana, Andreia, Natiele, Marina, Marcel e Gustavo. A apresentação de atores sem sobrenome é recorrente no mercado de filmes adultos, e muito utilizada no Brasil.

No mundo do futebol não foi só Vanderlei Luxemburgo que se envolveu em escândalos desse tipo.

Em abril de 2008, “Ronaldo Fenômeno” foi acusado pela travesti Andréa Albertino - que morreu de Aids em 2009 - de não ter quitado um programa com ela e outras duas colegas, Carla Camille e Veida Dezaroli.

O ex-corinthiano André Santos, enquanto atuava pelo Fenerbahçe, da Turquia, teria promovido uma maratona sexual num hotel em Istambul. Estariam presentes os brasileiros Fábio Bilica e Vederson, além do turco Kazim Richards.

Em 1987, a suíça Sandra Pfäffl i, de 14 anos, foi a um hotel em Berna em busca de autógrafos dos atletas gremistas. Ela acusou de estupro o atual técnico do Palmeiras, “Cuca” e mais três atletas, que foram presos por 28 dias até voltarem ao Brasil. Cuca pagou 4.000 dólares para a menina e os custos do processo. (Pesquisa: Nilo Dias)



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O "Flecha de Ouro" de Piracicaba

Romeu Italo Ripoli, conhecido como "Flecha de Ouro" foi um folclórico presidente do E.C.XV de Novembro, de Piracicaba (SP). Era filho de Piracicaba, onde nasceu em 21 de novembro de 1916, lá mesmo falecendo no dia 28 de outubro de 1983.

Vivaz, inteligente, dotado de excepcionais dinamismo e capacidade de liderança, muito combativo e irrequieto, salientou-se por seu entranhado amor a terra natal e ao Esporte Clube XV de Novembro, de que foi presidente, assim como pela participação apaixonada na vida política local. Fascinado pelos esportes desde cedo, foi inegavelmente o grande líder do XV de Novembro.

Romeu Italo Rípoli foi uma das mais fascinantes personalidades piracicabanas nas últimas décadas. Polêmico, controvertido, amado e odiado, tornou-se símbolo da saga do E.C.XV de Novembro. Ele e o "Nhô Quim" pareciam uma só entidade. Falar em um era pensar no outro.

Além de desportista de projeção nacional foi também engenheiro agrônomo, empresário e político. Era filho dos humildes imigrantes italianos Caetano Ripoli (1866-1940) e Emília Viccini Ripoli (1875-1972). Passou a infância e adolescência em sua cidade natal.

Estudou no Ateneu Piracicabano, na Escola de Comércio Cristóvão Colombo e no Colégio universitário. Após a formatura na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq), foi funcionário da Secretaria da Agricultura do Estado e técnico da usina Tamoio, em Araraquara, de Pedro Morganti.

No seu período universitário teve forte atuação e trabalho pela construção da sede própria do Centro Acadêmico Luiz de Queiroz, o que só se concretizou em 1963. Em 1943, publicou o livro "Quarenta Anos de Glórias", narrando a história da Associação Atlética Acadêmica Luiz de Queiroz, entre 1903 e 1943.

Ele jogou como ponta direita no time da ESALQ-USP, mas ganhou notoriedade na presidência do XV de Piracicaba, quando foi comparado a Vicente Mateus, lendário presidente do Corinthians.

Foi um dos responsáveis pela introdução do bicho da seda no oeste do estado de São Paulo, quando trabalhava no serviço estadual de agricultura. Rompeu com o Governador Adhemar de Barros e pediu demissão do serviço público por não concordar com o uso das suas ações profissionais para fins políticos e demagógicos.

Ainda nos anos 40, coordenou a construção das arquibancadas do estádio do XV de Novembro de Piracicaba, time de futebol da cidade.

Teve fazenda e criou a indústria piracicabana de seda. Atraído pelo ramo imobiliário, construiu inúmeras casas populares, vendendo-as a prestações. Em 1950, lançou no mercado imobiliário de Piracicaba um dos primeiros bairros tipicamente residenciais de alto padrão do interior de São Paulo e o primeiro asfalto da cidade, em terras da antiga fazenda do Pedro Rico, tendo como sócio empreendedor o comendador Mário Dedini, seu padrinho.

Homem visionário, Ripoli sentiu o impacto que teria a chegada da televisão ao Brasil. Fundou uma pequena empresa de montagem de aparelhos de TV, a Sociedade Brasileira de Televisão (Sobratel), com intuito de competir com as importadas.

No entanto, foi vencido pelo lobby das empresas de importação. Com recursos próprios instalou uma torre de TV na cidade, para retransmitir os programas da TV Tupi. Foi a primeira retransmissora de canal televisivo da América Latina, que captava os sinais da ex-Rede Tupi, de São Paulo.

Em 1954, montou uma comissão para construir o ginásio coberto "Waldemar Blatkauskas", para que Piracicaba pudesse receber os “Jogos Abertos do Interior”, em 1955. Coordenou, ainda, a arrecadação de fundos para a construção da maternidade da Santa Casa de Misericórdia de Piracicaba.

Foi vereador em Piracicaba nos seguintes mandatos: 1948 a 1951, 1952 a 1955, 1956 a 1959, 1969 a 1972. Durante essa última legislatura, foi presidente da Casa legislativa por pouco mais de 11 meses, uma vez que foi perseguido e forçado a renunciar, sob a acusação de sonegar o Imposto de Renda.

Na verdade, Ripoli havia aberto uma sindicância na Câmara para apontar irregularidades do seu ex-presidente, Francisco Antônio Coelho, acusado pela imprensa de patrocinar funcionários fantasmas.

Como Coelho era ligado a militares do 5º Grupo de Canhões Anti-Aéreos, de Campinas, fez valer tal condição para pressionar o então novo presidente. Por meses Ripoli foi intimado para interrogatórios de forte pressão psicológica, o que o levou a necessitar ser internado para tratamento em clínica especializada.

Algum tempo mais tarde, recebeu carta do general Rubens Restell, isentando-o de todas as acusações que lhe haviam sido feitas. No entanto, a área em que Ripoli mais se destacou foi como presidente do XV de Piracicaba. Esteve à frente do clube durante 17 anos, em dois períodos: entre 1959 e 1966 e depois entre 1973 e 1983.

Em 1964, levou o XV em excursão pela Europa e pela Ásia. Naquela época, o Brasil já era bicampeão mundial e apenas o Santos e o Botafogo faziam esse tipo de viagem. O time jogou na Suécia, na Polônia, na Alemanha (Ocidental e Oriental, divisão da época), na Dinamarca e, no auge da Guerra Fria, nas então repúblicas soviéticas da Rússia, Moldávia, Ucrânia, Casaquistão e Usbequistão.

Em 1976, o XV foi vice-campeão do Campeonato Paulista de Futebol, maior título do time até a presente data e o primeiro clube do interior paulista a atingir tal classificação. Nesse mesmo ano, extremamente popular, Ripoli foi candidato a prefeito.

Porém, devido a erros políticos cometidos, como falar demais sobre suas polêmicas idéias, acabou perdendo a eleição e chegando em terceiro lugar. A Prefeitura de Piracicaba foi o grande sonho não atingido por ele. Em 1977, o XV chegou a 8º lugar no Campeonato Brasileiro de Futebol.

Dirigente carismático, Ripoli envolveu-se em diversas disputas com a Federação Paulista de Futebol (FPF), sempre buscando trazer benefícios para os clubes do interior de São Paulo. Conhecido por sua grande inteligência, por falar vários idiomas e pela caracterização que fazia do caipira interiorano, Ripoli era fumante inveterado.

Sempre enrolando seu cigarro de palha, fazia tipo nos jornais e nos programas esportivos da TV, onde aparecia com frequência, criticando juízes e dirigentes da (FPF). Foi o mentor intelectual e o agregador dos clubes do interior paulista que levaram a FPF a ter, pela primeira vez na história, um presidente do interior.

Vítima de câncer no pulmão faleceu em 1983, pouco antes de seu 67º aniversário e do XV sagrar-se campeão da segunda divisão, voltando à elite do futebol paulista. Deixou a esposa Bela Ripoli e quatro filhos:

Tomaz Caetano Cannavam Ripoli (1947-2013), que foi professor titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-USP; Elizabeth Cannavam Ripoli (1952), pianista profissional e empresária musical conhecida como Beth Rípoli, que casou-se com Luiz Carlos Franco; Antonio Roberto de Godoi (1957), engenheiro de comunicações, pesquisador e empresário; e Edson Diehl Ripoli (1964), general do Exército Brasileiro.

Ninguém escapou às aprontadas de Romeu Italo Rípoli. Nem o filho Caetano. Ou melhor: especialmente o Caetano, filho “hóme” de Romeu Ítalo Rípoli, não conseguiu fugir às invenções, arrumações, aprontadas que ele fazia. Aconteceu em Maceió, onde Caetano morava, atuando em sua especialidade científica na área agronômica.

Querido na sociedade alagoana, o casal Caetano e Lúcia Rípoli participava das atividades locais, era requisitado para festas, encontros. Até que, um dia, o presidente de um dos principais clubes alagoanos, o CRB, descobriu que Caetano Rípoli era filho do famoso Romeu Ítalo Rípoli, presidente do E.C.XV de Novembro. E foi a festa.

Pois o presidente do CRB, todo assanhado, quis porque quis, insistiu e grudou no Caetano, pedindo que interferisse junto ao pai para emprestar alguns jogadores do XV para o time de Alagoas.

Solícito e querendo prestigiar o filho hóme, Rípoli enviou três atletas para o CRB, convencido de que, assim, colaboraria para Caetano aumentar ainda mais suas relações alagoanas. Entre os jogadores, estava o Joãozinho Paulista, que Romeu Rípoli inventava ser o “sucessor de Pelé”, só que era reserva no time do XV. E Joãozinho se tornou artilheiro do campeonato alagoano. E ídolo da torcida.

O valor do empréstimo não estava sendo pago pelo CRB e Rípoli não pressionava muito. Mas sabia que o XV, pelo Campeonato Nacional (antigo Brasileiro) iria jogar em Maceió, justamente contra o CRB. E lá embarcaram todos, Rípoli e o time do XV para a terra onde Caetano morava.

Toda a imprensa de Maceió foi recepcionar o polêmico presidente e sua famosa equipe. E Rípoli, ainda no aeroporto, mandou brasa: “Vim aqui em Maceió, pessoalmente, para ver o meu time dar uma sova no CRB e, também e especialmente, para cobrar o calote que estou levando do presidente dessa equipe pelo empréstimo do Joãozinho Paulista.”

Foi um fuá. E Caetano Rípoli enlouqueceu, pensando no que haveria de acontecer para ele e sua família, assim que o valentão do pai se fosse embora. Afinal de contas, Maceió é terra de gente valente, com “peixeira” na cintura.

Caetano, tremendo, tentou conter o papai Romeu: “Pai, você está em Alagoas. Você já ouviu falar em peixeira, em machismo alagoano, em honra de cabra macho? Eu moro aqui, caramba! E se eles vierem por cima de mim?”

Rípoli com o peito estufado e sorriso maroto no rosto entrou no carro do filho e disse: “Fique frio! Esta entrevista vai render para nós”. E no noticiário da noite do Jornal Regional de Maceió saiu o ofensivo e provocante pronunciamento.

Não levou 20 minutos e lá estava o presidente do CRB esmurrando a porta da casa de Caetano Rípoli, filho do presidente valentão. O homem entrou bufando, nem sequer olhou para o dono da casa, mal cumprimentou Lucia e partiu para xingação pra cima de Romeu Rípoli. Que, enrolando o cigarrinho de palha, começou a gargalhar e desmontou o presidente machão do CRB.

E antes de se apresentarem formalmente, de se sentarem e tomarem uma cervejinha, Rípoli falou para o colega de Maceió: “Presidente, depois que nos conhecermos melhor aqui, você vai aos estúdios da TV Gazeta e desce o cacete em mim. Diga que a honra do CRB precisa ser lavada, mas sem violência. Que se lave essa honra lotando de torcedores o jogo no Estádio Rei Pelé. Teremos uma baita de uma renda, você me paga o que me deve e todos ficaremos felizes…”.

Não deu outra. O jogo XV e CRB, que terminou com empate de 1 X 1, teve uma das maiores rendas daquele ano em Maceió. Rípoli voltou a Piracicaba, com o dinheiro que lhe era devido, e Caetano Rípoli foi empossado diretor de Esportes Náuticos do CRB, com direito a coquetel de apresentação e “oba-oba”.

Na década de 1960 a Portuguesa Desportos revelou para o futebol brasileiro um zagueiro chamado “Ditão”, um verdadeiro “Gigante de Ébano”, atlético, vigoroso e imponente. Não demorou para ser vendido ao Corinthians, onde logo se transformou em ídolo da torcida e alcançou consagração nacional.

“Ditão” tinha um irmão, o “Ditinho”, parecido fisicamente e no estilo de jogar, que atuava no XV de Novembro, de Piracicaba. Mas era inexpressivo, em relação à fama e ao prestígio do irmão mais velho.

O presidente do XV, na época, Romeu Ítalo Rípoli foi um dirigente muito esperto, que sabia tudo de futebol, por isso é até hoje lembrado na cidade.  Resolveu que o clube iria ganhar muito dinheiro, vendendo “Ditinho”. E passou a dizer na imprensa que se tratava de uma “jóia rara”, uma promessa de grande jogador, é o novo “Ditão”.

Com tanto barulho na imprensa, o Flamengo mostrou interesse em adquirir o passe de “Ditinho”, mas de maneira pálida, tímida. Ripoli, no entanto sabia “jogar”. Era amigo do presidente do Santos, na época, o influente Modesto Roma. E pediu ao colega santista que lhe fizesse um grande favor: comunicasse à imprensa que o Santos estava interessado em adquirir o passe de “Ditinho”.

E Modesto Roma atendeu o amigo, dizendo: “O Santos está negociando o passe de “Ditinho”, um craque com muito mais categoria que “Ditão”, do Corinthians. São irmãos, mas “Ditinho” é mais jovem, mais habilidoso e tem grande futuro”.

Não deu outra. O vice-presidente do Flamengo – o suíço Gunnar Goransson, todo-poderoso presidente da multinacional “Facit” quis “passar a perna no Santos” e “atravessou” o negócio, para alegria e felicidade de Romeu Ítalo Rípoli.

Resultado: o Flamengo comprou o passe de “Ditinho” que nunca chegou a ser “Ditão”. E, além de pagar um dinheirão, o Gunnar Goransson fez a “Facit” financiar e montar todo um esquema para o XV de Piracicaba excursionar à Europa e Asia.

Resultados da excursão do XV de Piracicaba;


2 de fevereiro de 1964 – Em La Paz: XV de Piracicaba 2 X 2 Bolivar

5 de fevereiro de 1964 – Em La Paz: XV de Piracicaba 3 X 1 Bolivar

Em Cochabamba: XV de Piracicaba 0 X 1 Aurora

19 de abril de 1964 – Em Tashkent, no Uzbequistão: XV de Novembro 0 X 1 Seleção do Uzbequistão

21 de abril de 1964 - Em Alma Ata, no Cazaquistão: XV de Novembro 1 X 3 FC Kairat Almaty

Em Moscou: XV de Piracicaba 0 X 2 Seleção da União Soviética

26 de abril de 1964 – Em Kichinev, Moldávia: XV de Piracicaba 2 X 4 Seleção Local

29 de abril de 1964 – Em Krasnodar, Rússia: XV de Piracicaba 1 X 3 Spartack

2 de maio de 1964 - Em Odesa, Ucrânia: XV de Piracicaba 0 X 0 Tchernomoretz

5 de maio de 1964 – Em Katovich , Polônia: XV de Piracicaba 1 X 1 Seleção da Polônia

7 de maio de 1964 – Bydgoszcz, Polônia: XV de Piracicaba 0 x 0 Seleção da Polônia

9 de maio de 1964 – Em Stettin (Szczecin), Polônia: XV de Piracicaba 0 X 0 Seleção do Estado da Pomerânia

12 de maio de 1964 - Em Copenhaguen, Dinamarca: XV de Piracicaba 0 X 2 Combinado Danish-Staevenet

14 de maio de 1964 - Em Leipzig, Alemanha Oriental: XV de Piracicaba 1 x 4 B.S Chemie
1
7 de maio de 1964 – Em Berlim, Alemanha Oriental: XV de Piracicaba 2 X 1 Motor Jena

Em OUE: XV de Piracicaba 1 X 3 Wismuth

23 de maio de 1964 – Em Kalshure, Alemanha Ocidental: XV de Piracicaba 0 X 3 Kalshure

26 de maio de 1964 – Em Hannover, Alemanha Ocidental: XV de Piracicaba 0 X 2 Hannover

29 de maio de 1964 – Em Munique, Alemanha Ocidental: XV de Piraciacaba 2 x 0 Munchen 1860

2 de junho de 1964 – Na Suécia: XV de Piracicaba 5 x 5 Gaevle I.F.

4 de junho de 1964 - Ostersund , Suécia: XV de Piracicaba 8 X 2 I.K.F.

7 de junho de 1964 – Na Suécia: XV de Piracicaba 4 x 1 Seleção do Norte

Em Harvick, Suécia: XV de Piracicaba 5 X 0 Garker

Jogos: 23
Vitórias: 6
Empates: 6
Derrotas: 11
Gols pró: 32
Gols contra: 39
Saldo negativo de gols: 7

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo alvinegro piracicabano durante sua viagem, o acontecimento ficou marcado para sempre na história centenária do XV de Piracicaba.


O fato inédito de romper a cortina de ferro, antes de qualquer outra equipe do futebol brasileiro, é mais uma dos marcantes acontecimentos do clube mais tradicional do interior de São Paulo.

Em 1976 – o XV já consagrado como vice-campeão do futebol paulista – Rípoli, com popularidade incontestável, aceitou ser candidato a prefeito de Piracicaba. Chegar à Prefeitura era-lhe o grande sonho, irrealizado. Pesquisas eleitorais davam-no como imbatível. Talvez, tivesse conseguido, mas Rípoli, como sempre, falou demais. E perdeu.

A luta política era intensa e Rípoli, um homem controvertido, polêmico, uma candidatura complicada. A imprensa estava dividida, mas as rádios eram-lhe claramente hostis, fosse ele candidato ou não. A paixão pelo XV despertava reações radicais. E uma das emissoras decidiu promover um debate público com os candidatos, começando por Romeu Ítalo Rípoli. Foi na “Sociedade Italiana”.

E a promessa de alguns debatedores era a de um massacre, de linchamento moral, de tiro ao alvo, misturando política com vida privada, um salve-se - quem puder. Haveria uma armadilha política e um momento de vingança. Havia sede de sangue.

O povo lotou as dependências do clube, lembrando os romanos na arena, torcendo mais para as feras do que para o gladiador. Ou público de tourada, à espera de sangue, do touro ou do toureador.

Estranhamente, Rípoli estava calmo, como se indiferente ao que lhe fosse perguntado. À espera de ser chamado, ficou enrolando o cigarrinho de palha. Ao ir ao palco, cumprimentou cada um dos debatedores. Mas de maneira estranha. Abraçava um por um, falava-lhes coisas no ouvido. E eles, contrafeitos, voltavam a se sentar. Ninguém entendia.

As feras, a cada cochicho do Rípoli, ficavam dóceis feito cordeiros. Tão dóceis que fizeram perguntas como se dirigidas à Branca de Neve. Rípoli usara a diplomacia do “eu sei…” Cochichando, dava o recado:

“Eu também sei de você…” E contava, no ouvido, o que ele sabia. Rípoli foi um especialista na arte dessa diplomacia do “eu sei…” Ainda que hipócrita e apesar dos tolos – ela conseguia, ainda, impedir o retorno à lei das selvas.

Rípoli era mestre em realizar o que hoje passou a se chamar de factóide. Se não havia notícia, ele inventava. Se nada de novo acontecia, ele criava. E seus blefes e invencionices eram tão absurdos que passavam por verdadeiros. 

Na década de 1970, o Corinthians perdeu um título tido como ganho num jogo contra o Palmeiras. E o bode expiatório foi o extraordinário craque Rivelino que, na verdade, tremeu naquele jogo. E a torcida o execrou, transformando, num momento, o ídolo em vilão.

Era incrível: a torcida corintiana não queria mais Rivelino no time. E, por quantia milionária, o Corinthias começou a negociá-lo com o Fluminense, do Rio de Janeiro. E o que fez, então, Romeu Ítalo Rípoli? Convocou a imprensa paulista, jornais, rádios e emissoras de televisão, informando que tinha uma grande notícia para dar, decisão bombástica.

Ora, todos sabiam da difícil situação financeira do XV, mas controlada de maneira genial por Rípoli. Ele contava tostões. Jogadores tinham salários  baixos, básicos. E ele dava "bichos" altíssimos por cada vitória. A estratégia fazia com que jogadores se matassem em campo para ganhar os "bichos". E dava certo.

Mas a situação financeira era precária. Mesmo assim, Rípoli convocou a imprensa, anunciando a "bomba", aquela que seria uma contratação de repercussão internacional.

Enrolando o cigarrinho de palha, diante de microfones e câmeras de televião, Rípoli anunciou, com aura de herói: o que o Corinthians está fazendo é uma vergonha para o futebol paulista. Rivelino é patrimônio dos paulistas e não podemos admitir que ele se transfira para o Rio de Janeiro.

Paralisaram-se microfones, máquinas fotográficas, emudeceram-se jornalistas e radialistas. Rípoli lambeu a palha do cigarrinho, deu o nó final, acendeu, tirou umas baforadas, fulminou a imprensa nacional:

Diante de tamanha agressão ao futebol paulista, eu resolvi: o XV irá fazer um grande sacrifício, mas não permitiremos que Rivelino vá para o Rio de Janeiro. Já comuniquei à diretoria do Corinthians que quero comprar o passe de Rivelino, que ficará em São Paulo e jogará com a camisa alvi-negra do "Nhô Quim".

A mentira era tão grande, mas tão grande que ninguém duvidou. E, durante um mês, o XV e Rípoli ocuparam espaços e tempo enormes nos meios de comunicação brasileiros. O Fluminense, diretoria e torcida,  quase enlouqueceram, o Corinthians aumentou o preço do passe de Rivelino e Rípoli, com cara de santo, alegava que a diretoria corintiana estava fazendo jogo sujo com o XV, leiloando Rivelino.

Que, obviamente, foi para o Fluminense. E Rípoli nunca confirmou ter sido blefe e mentira a oferta por Rivelino. "Eu ia comprar, estava tudo certo. O Corinthians é que me traiu. Para se ver que não se fazem mais Romeu Rípoli como antigamente.

Piracicaba o elegeu como uma das personalidades do ano, em 1975-76. Recebeu inúmeros diplomas e condecorações. Uma avenida tem seu nome, no Parque Residencial Eldorado, paralela a avenida Eurico Gaspar Dutra e perto da SP-308. (Pesquisa: Nilo Dias)