Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sábado, 19 de outubro de 2019

Como surgiu o volante no futebol brasileiro

O treinador e ex-futebolista argentino Carlos Martín Volante, mais conhecido apenas como “Carlos Volante”, nasceu em  Lanús, no dia 11 de novembro de 1910 e faleceu em Milão, Itália, em 9 de outubro de 1987 foi um, que atuava como volante.

No Brasil, fez sucesso defendendo o Flamengo, do Rio de Janeiro e comandando o Internacional, de Porto Alegre e Vitória e Bahia, ambos da “BoabTerra”. Também ganhou notoriedade em sua época de jogador, por dar origem à expressão "Volante” no futebol brasileiro.

Como jogava no meio de campo, a expressão "Volante" se tornou popular definindo a sua posição, e a expressão é utilizada para os jogadores que atuam na mesma posição até os dias atuais, em todo o Brasil.

Jogou por diversos clubes da Argentina, Itália e França, mas foi no Flamengo que se destacou mais, sendo tricampeão carioca.

Chegou ao rubro-negro após uma curiosa experiência na “Seleção Brasileira” na “Copa do Mundo FIFA” de 1938: na época, ele jogava na França, que sediava o “Mundial”, e trabalhou como massagista na delegação do Brasil.

Comandou diversas equipes brasileiras, entre as quais o Vitória, onde foi bicampeão baiano e ajudou no fim do jejum de títulos do “rubro-negro” em 1953. No Bahia, comandou o time no jogo extra da final do “Campeonato Brasileiro” de 1959, onde consagrou-se campeão.

Até hoje, “Volante” é o único treinador estrangeiro a ter conquistado o título de campeão brasileiro, pelo Bahia, em 1959. E ainda treinou o “Rolo Compressor”, do Internacional. E “fez seu nome”, ou melhor, sobrenome, no Brasil. Literalmente.

Títulos como jogador. Livorno (Itália): Campeonato Italiano – Serie B (1932–1933);

Flamengo: Campeonato Carioca (1939, 1942 e 1943); Torneio Relâmpago: (1943). Como treinador. Internacional: Campeonato Gaúcho (1947 e 1948). Vitória: Campeonato Baiano (1953 e 1955). Bahia: Campeonato Brasileiro (1959).

Campanhas em destaque, como jogador. Rennes (França): Vice-campeão da Copa da França (1934–1935). Vice-campeão da Copa da França, pelo Olympique Lillois (França), atual Lille (1935–1936).



Era filho do imigrante italiano e ferreiro ferroviário Giuseppe Volante, que adquiriu uma das cotas oferecidas pelo proprietário do enorme terreno que deu origem à cidade de Lanús.

Carlos foi o quarto de sete filhos de Giuseppe. Veio a se consagrar mais internacionalmente do que na própria terra natal, onde o Volante mais notabilizado foi o sétimo filho do italiano: José Pepe Norberto, o primeiro dos três homens que no profissionalismo argentino foram jogadores, técnicos e presidentes de um mesmo clube (claro, o Lanús), antecedendo Carlos Babington (Huracán) e Daniel Passarella (River).

Carlos Volante, por sua vez, foi apenas jogador e técnico no “Granate” e nas duas funções não passou de um ano no time. Ainda assim, construiu renome para ter perfil no livro “97 Íconos de la Historia Granate” (de 2012, quando o clube fez 97 anos), bem como no “ABC Granate” (de 2013).

Carlos Voolante passou por outros clubes da cidade. Nas categorias de base, começou na quinta divisão juvenil do “Argentino”, de Lanús. Na idade da quarta divisão juvenil, passou ao “Lanús Central”, sendo campeão e voltando ao “Argentino”, onde não teve continuidade.

Em 1923, ingressou nos “Grenás” para, em 1924, já integrar o quadro de aspirantes. Foi o capitão do elenco vice-campeão nessa categoria e no mesmo ano, estreou no time adulto. Foi em 19 de outubro, na 24ª rodada do campeonato, no 2-2 com o “Tigre”.

Volante jogou até 1926 no clube, quando foi 6º colocado entre 26 equipes, até então a melhor campanha do time. Mas não passou de 11 jogos, sem gols, sem maiores registros fotográficos.

Em 1927, passou ao “Adrogué”, que pouco depois foi afastado da Liga. O jogador foi cumprir serviço militar, onde foi buscado pelos dirigentes do “San Martín”.

Em 1928, ele ingressou no “Platense”, onde obteve uma sequência maior. Na mesma época, o irmão José Volante, da mesma posição de centromédio, começava no time adulto do “Lanús”, que viria a enfrentar o “Platense” em 24 de março.

Os irmãos teriam combinado que Carlos não jogaria. A mãe Luísa interferiu e ordenou que o mais velho também jogasse e que ambos lutassem pela vitória. E José foi uma das figuras da vitória lanusense por 5 X 2.

Já Carlos foi punido pela diretoria do “Platense”, que acreditou que ele não havia dado tudo de si. O jogador passou pela insólita situação de ouvir as duas torcidas o chamando de traidor

Ele se defendeu dizendo que um pontapé sofrido aos 10 minutos afetou suas condições físicas. A resposta ao novo clube logo seria dada: o “Platense” não passou de um 25º lugar de 36 times em 1928, mas Volante estreou em novembro pela “Seleção”, em amistoso não-oficial com o Boca (1 X 1).

Em fevereiro (6 X 1) e março (2 X 0), mais dois jogos não-oficiais, ambos contra o América, do Rio de Janeiro. Em 16 de junho, a estreia oficial, no 1 X 1 com o Uruguai no “Gran Parque Central”, de Montevidéu.

Volante jogou novo amistoso não-oficial em agosto de 1929, contra o Ferencváros húngaro (2 X 0). Ausente das convocações à C”opa América” daquele ano (realizada em novembro) e da “Copa do Mundo” de 1930, voltou a ser chamado em agosto de 1930, na primeira partida da seleção após a “Copa”.

Três dias depois da final, jogadores não-convocados foram reunidos para amistoso contra a Iugoslávia, a semifinalista que ainda estava de passagem pelo Rio da Prata. E que foi derrotada por 3 X 1 por aquele virtual time B.

Foi o último jogo de Volante pela Argentina. Ele também não durou muito no “Platense”; no fim de 1930, integrou uma celebrada excursão do “Vélez” pelas Américas, onde um elenco tido pela crítica como capaz de envergonhar o país perdeu só uma partida no exterior até meados de 1931.

Quando estava na etapa chilena da viagem, Volante recebeu telegrama de José avisando-o do interesse do futebol italiano.

Se armou uma grande discussão na sua casa. Volante tinha a esperança de levar algum dia seu pai para ver a Itália de que sentia falta fazia muitos anos.

Sua mãe não queria deixar Carlos ir. Então lhe propôs: “veja, mamãe: vou pedir um disparate para que não me contratem. Se me derem 150 mil liras por dois anos e 4 mil por mês, você me deixa ir?’.

Aceitou e ele fez a proposta, que foi aceita. Lhe deram tudo mais duas passagens, uma para seu pai e outra para ele. O grande sonho se cumpriu e durante nove anos esteve na Itália e na França.

Viu grandes equipes como a Juventus, a Internazionale, a Roma, o Torino. E viu jogar os ingleses dentro e fora de sua casa.

Na Itália, jogou por Napoli, Livorno (onde venceu a Serie B de 1933) e Torino. E conheceu e casou-se com uma certa Maria Luisa, da elite da sociedade de Turim.

Mas assustou-se com a determinação de Mussolini em obrigar ítalo-estrangeiros que estivessem no país a defender o exército. Em 1935, quando os fascistas invadiram a Abissínia (atual Etiópia), Volante e esposa escaparam pela Suíça rumo à França, onde ele defendeu o Rennes (foi finalista da Copa da França), Lille e o C.A. Paris.

Hoje sumida, essa equipe ainda existe e era onde jogava Lucien Laurent, autor do primeiro gol das “Copas do Mundo”. Segundo se sabe, Volante veio a se assustar na França com o mesmo clima bélico que sentira na Itália.

O jogador aproximou-se da “Seleção Brasileira” na “Copa de 1938”, onde improvisou-se como massagista, para rumar infiltrado de volta à América.

Ele assim se tornou até hoje o único argentino a compor uma delegação brasileira em “Copas do Mundo” Voltou junto com os tupiniquins e conseguiu no Rio de Janeiro se alojar no Flamengo, onde brilhou.

Em 1939, o rubro-negro encerrou seu maior jejum estadual (12 anos) em uma equipe repleta de argentinos: ele, Agustín Valido, Alfredo González, Raimundo Orsi (outro que fugia da Itália, pelo qual marcou o gol do título da Copa de 1934) e Arturo Naón.

Volante chegou a ser até os anos 50 o estrangeiro que mais vezes defendeu o Flamengo, onde foi campeão também em 1942 e 1943, pendurando as chuteiras e voltando à Argentina.

Seu estilo ímpar como centromédio fez com que o sobrenome viesse a nomear o próprio posto, com diferentes técnicos solicitando aos colegas de posição “que joguem como Volante”, um meia recuado que se movia e criava jogo ao invés de alguém de postura rígida e fixa, como era comum.

A frase foi virando “que joguem de volante” e seu significado se espalhou pela América, inclusive na Argentina, para onde o jogador, uma vez aposentado, voltou.

Em 1945, virou técnico do Lanús, clube em que iniciou no esporte que lhe deu tanto e ao qual devia as maiores e mais inesquecíveis emoções experimentadas na vida.

O desempenho em 1946, quando ficou por mais tempo, foi de um mero 12º lugar. Curiosamente, em janeiro daquele ano ele voltou a compor a delegação brasileira, participando como “sparing” convidado no time de reservas nos rachões internos em meio à “Copa América”.

Como técnico “Granate”, foram ao todo 30 jogos, com 8 vitórias, 7 empates e 15 derrotas. Números nada auspiciosos. Mas o que fez ele deixar o clube foi uma proposta do Internacional e a não-adaptação da esposa na Argentina.

O Internacional vinha atravessando uma década vitoriosa, com seis títulos estaduais seguidos, mas a série se interrompeu exatamente em 1946, ano de título gremista.

O “Rolo Compressor” voltou, com a imprensa também o rotulando continuamente como “os pupilos de Volante”. O time ganhou os títulos de 1947 e 1948, tendo mais três argentinos: José Villalba, o segundo maior artilheiro dos “Grenais”, Francisco Fandiño e Moisés Beresi, ex-gremista campeão em 1946.

Na campanha de 1947, ano em que Volante foi campeão também como técnico do time de aspirantes, o “Jornal do Dia” até ventilou que o treinador também poderia entrar em campo no primeiro “Grenal” do campeonato municipal (então classificatório ao Estadual), se escalando como elemento surpresa.

O futebol do Inter foi descrito como “de ação harmoniosa”, “convincente”, “aplastante” e “eficientíssima”, após um 6 X 0 no Cruzeiro (RS) naquela campanha.

“Vistoso, bem coordenado, que serviu para demonstrar o esplêndido estado de treinamento em que se encontrava a equipe”, após um 3 X  no Grêmio em 1948 – ano em que, contra um time de reservas, o Inter também conseguiu sua maior goleada nos “Grenais”, um 7 X 0 com quatro gols do argentino Villalba.

O mais surpreendente em leituras da época é notar homenagens gremistas ao rival antes da partida, incluindo flores e um cartão de prata.

O argentino jamais foi derrotado nos 12 clássicos que disputou. E sete gols foram até dados como rotineiros: “o Internacional, ainda domingo, deu mostra de seu poderio, abatendo de maneira espetacular e convincente o onze do Rio-Grandense, um dos mais categorizados esquadrões de quantos concorreram ou estão concorrendo ao Campeonato Estadual de 1948”.

O escore que então construiu: 7 X 2, chegou a não constituir novidade para os torcedores do ‘Rolo Compressor’, já que fazer sete tentos em seus adversários, qualquer que seja sua categoria, se tornou ‘tabela’ no onze preparado por Volante”. Foram as palavras do “Jornal do Dia” antes da semifinal com o Floriano. Na final, 5 X  no Grêmio Santanense.

Volante, figura que “que desfrutou de largo prestígio e de grande simpatia no seio da grande família colorada, em face de suas excepcionais qualidades de caráter (palavras de “Jornal do Dia”, de 13 de novembro de 1947)”, rescindiu sem conflitos o seu contrato em 1948, pouco após o bicampeonato, para voltar ao Rio de Janeiro.

Fez talvez ainda mais história na Bahia: assumiu o Vitória em 1953, quando o “Leão” enfim profissionalizou o seu futebol, sendo imediatamente campeão baiano após 44 anos, iniciando assim a rivalidade com o Bahia.

Campeão com os “rubro-negros” também em 1955, Volante foi ainda mais longe no rival, treinando-o na finalíssima da vitoriosa “Taça Brasil” de 1959 sobre o Santos. Primeiro técnico campeão nacional no Brasil, Volante também foi o primeiro técnico de um time brasileiro na “Libertadores”, na edição de 1960.

Seu sobrinho-neto Calvente contou que só o viu uma vez, na Argentina, nos anos 70, pois Volante decidiu naquela década voltar com a esposa à Itália, falecendo e sendo enterrado em Milão em 9 outubro de 1987. (Pesquisa: Nilo Dias)

Volante, no seu tempo de Lanús.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O time que assustou o Corinthians

Um dos clubes de Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, chama-se Santa Cruz. O outro, seu maior rival, é o Avenida, representante da região fumageira. O porquê do nome do time alviverde? O filho do primeiro presidente do “Periquito” explica essa história..

Clóvis Alberto Koppe, o “Chico”, é herdeiro de Arno Evaldo Koppe. Seu pai foi um dos rapazes que fundaram o Avenida, em 1944. Como Arno não jogava futebol, acabou definido como o mandatário. Seria a forma encontrada de não "excluí-lo" do grupo de atletas. Para escolher o nome do time, um bairro da cidade foi definitivo.

O Avenida é um clube de bairro, que tinha o nome de “Várzea”. Se reuniam uns jovens, muitos jogavam no segundo time do Santa Cruz e resolveram criar um clube próprio.

Como a rua principal é a “Avenida Independência”, ficou a dúvida entre colocar o nome de Independência ou Avenida. Como já havia um clube de bolão, um esporte muito jogado antigamente, com o nome de Independência, então, optaram por colocar Avenida.

Houve uma época, porém, que os problemas financeiros afetaram os dois rivais de Santa Cruz do Sul. Em comum acordo, o Avenida e o Santa Cruz se fundiram na Associação Santa Cruz de Futebol no início da década de 1970.

Nos primeiros anos, houve certo destaque, mas não durou muito. Em 1977, com Chico Koppe entre os líderes, a dissidência do Avenida rompeu a parceria.

O pessoal investiu em iluminação, arquibancada, tudo no campo do Santa Cruz. O Avenida ficou atirado às traças. Como recém tinha chegado à cidade depois de ter morado no interior, “Chico” procurou mais dois amigos, e estudaram uma maneira de romper o contrato.

No fim de 1977 foi rompido, e o clube voltou a ter vida própria. Qual não foi a surpresa quando, no primeiro ano na segunda divisão, em 78, o Avenida chegou em segundo lugar.

Hoje em dia, não há nenhuma chance de os rivais se unirem novamente. Inclusive, anda até difícil de se enfrentarem. Enquanto o Avenida participa de competições nacionais pela primeira vez em 75 anos, o Santa Cruz amarga a terceira divisão gaúcha. E o clube segue escrevendo história.

Este ano o “Periquito” atraiu os olhares de todo o Brasil ao abrir 2 X 0 no Corinthians, em “Itaquera”. A equipe não resistiu, cedeu uma derrota por 4 X 2 e foi eliminada na 2ª fase da “Copa do Brasil”. (Fonte: Globo Esporte)

A reunião realizada em 11 de fevereiro de 1949, culminou com a fundação do Avenida Futebol Clube.

domingo, 13 de outubro de 2019

Um argentino na Seleção Brasileira

Que a rivalidade entre Brasil X Argentina no futebol é enorme, ninguém tem dúvidas. Mas será que um jogador nascido na Argentina teria alguma chance de um dia vestir a camisa da "Seleção Brasileira"? E vice-versa? Ou essa história é apenas mais uma das inúmeras lendas do futebol? Mas isso já aconteceu.

Em 1942, em meio à Segunda Guerra Mundial, um atacante argentino chamado Adolpho Milman, conhecido por aqui como “Russo”, que desenvolveu quase toda a sua carreira de futebolista no Fluminense, defendeu a ""Seleção Brasileira".

É verdade que a sua passagem pela Seleção foi meteórica, apenas um jogo, pelo "Campeonato Sul-Americano" daquele ano, vitória de 2 X 1 sobre o Peru. Mas bastou para acender uma discussão que que persiste até hoje.

O xis da questão é descobrir exatamente onde o ex-atacante nasceu. Sabe-se que sua família era natural da região onde hoje fica o Afeganistão, então dominada pelo Império Russo, migrou para a província de Entre Ríos, na Argentina, e depois se estabeleceu no Rio Grande do Sul.

Ao longo da história, esses três lugares já foram apontados como berço do ex-jogador. Enquanto ele atuava profissionalmente, a história que circulava entre os torcedores era de que “Russo” havia nascido na Rússia/Afeganistão e vindo para o Brasil ainda quando bebê. Os jornais da época diziam que ele era de Pelotas.

No entanto, a família de “Russo” tem essa outra versão para a nacionalidade do antigo centroavante. De acordo com seu filho, Fernando Milman, ele era mesmo um imigrante argentino, nascido na província de Entre Rios, em 26 de julho de 1915, filho de Salomão e Clara, um casal de ucranianos.

O escritor pelotense Lourenço Cazarré, afirma que ele nasceu, sim, no exterior, mas bem mais perto daqui. Citando Jane Gershenson, sobrinha do craque, Lourenço diz:

"Salomão e Clara casaram-se em Buenos Aires, mas logo partiram para viver na província argentina de Entre Ríos. Lá vieram à luz seus três primeiros filhos: Joana, Adolfo e Bertha. Tempos depois, se transferiram para Pelotas, onde nasceram os outros cinco: Moisés, Isaac, Milton, Rosa e Ada".

Então, de acordo com sua sobrinha, “Russo” teria nascido na Argentina, na província de Entre Ríos, próxima ao Uruguai e ao Rio Grande do Sul. Nesta província, há uma "Plaza Milman", situada no pequeno município de Ubajay - seria uma homenagem à família?

As dúvidas acerca de suas origens acabaram alimentadas pelo próprio atleta, que recusava-se até mesmo com os filhos a falar muito do seu passado.

Caso essa realmente seja a versão verdadeira da história, o ex-atacante do Fluminense é um dos cinco jogadores de toda história nascidos no exterior que defenderam em algum momento a "Seleção Brasileira".

Além dele, apenas o britânico Sidney Pullen, o português Casemiro do Amaral e o italiano Fracisco Police, todos no começo do século passado, além do meia belga Andreas Pereira, ainda em atividade e hoje no Manchester United, alcançaram esse feito.

A história de Adolpho Milman é muito semelhante à do seu oposto perfeito, Aarón Wergifker, o único brasileiro que jogou pela Argentina. O ex-zagueiro do River Plate também era de família russa e nasceu no Brasil em uma parada da viagem dos seus pais rumo ao país vizinho.

"Russo" foi criado em Pelotas, onde passou a infância e adolescência. Seu pai era dono de uma pequena fabrica de japonas e casacos, chamada “Londres”. Iniciou sua carreira juvenil no Esporte Clube Pelotas, tendo participado de jogos do clube no Campeonato Gaúcho de 1933. 

Depois disso “Russo” dedicou praticamente toda sua carreira ao Fluminense. Ele chegou ao clube quando tinha 18 anos, em 1933, e se aposentou 11 anos depois. Com exceção de uma passagem de alguns meses pela França (Cercle Paris), só vestiu a camisa tricolor.

“Russo” foi um dos grandes artilheiros da história do Fluminense, tendo feito 154 gols em 249 jogos, entre 1933 e 1944, sendo um dos destaques do famoso "Fla-Flu da Lagoa", na final do “Campeonato Carioca” de 1941.

Participou das conquistas dos Campeonatos de 1936, 1937, 1940 e 1941, além do "Torneio Aberto" de 1935 e do "Torneio Extra" de 1941.

"Russo" estreou pelo Fluminense em 1933, e formou linhas de ataque lendárias, ao lado de Pedro Amorim, Carreiro, Sobral, Rongo, Romeu Pellicciari, Tim e Hércules.

Sofreu uma grave contusão em 1938, não tendo disputado nenhuma partida pelo Tricolor neste ano, tendo ido para Paris, a fim de se recuperar e onde chegou a jogar por um pequeno clube local, o Cercle Athlétique, retornando para o Fluminense em 1940, a tempo de se sagrar campeão carioca, e conseguindo recuperar a antiga forma.

"Russo" é especialmente lembrado por duas atuações espetaculares: em 1941, anotou cinco gols contra o Bangu; em 1943, fez três contra o Botafogo.

Até pouco tempo, era o segundo maior artilheiro do Fluminense em Fla-Flus com 13 gols, perdendo neste quesito apenas para Hércules, autor de 15 gols nas décadas de 30 e 40 do Século XX.

“Russo” era tido como jogador de rara inteligência, tendo, entre seus fãs, ninguém menos do que seu companheiro de clube, Tim, que quando se tornou treinador, foi um dos maiores estrategistas da história do futebol brasileiro, mestre de toda uma geração de técnicos.

o "Campeonato Carioca" de 1941, fez parte do ataque que fez 106 gols, um feito jamais igualado neste torneio, tendo como companheiros o argentino Rongo, Romeu Pellicciari, Tim e Hércules.

Contava Tim que, no dia do "Clássico Vovô" de 4 de setembro de 1943, no "Estádio de Laranjeiras", o então técnico do Fluminense, o uruguaio Ondino Viera, no momento da distribuição de camisas e tarefas aos jogadores, pediu a “Russo” que marcasse o jogador Santamaría, um argentino que jogava no Botafogo, o que ele recusou, devolvendo a camisa ao técnico.

Interpelado por Ondino Viera,”Russo” explicou que sua posição em campo e suas características não lhe permitiriam executar bem a função, recomendando que o treinador escalasse Carlos Brant, que era volante e ainda sabia atacar.

Vencido pelo argumento de ”Russo”, Ondino preferiu deixá-lo entrar em campo e jogar como acreditava que seria o melhor para ele e para o tricolor. Resultado: o Fluminense ganhou do Botafogo por 5 X 3 e Russo marcou três gols.

Depois da aposentadoria, foi técnico do América em 1949, conquistando o "Torneio Início" do "Campeonato Carioca" daquele ano, assim como foi técnico interino do Fluminense durante o "Torneio Rio-São Paulo" de 1955, com uma derrota para o Santos no "Estádio da Vila Belmiro" por 2 X 1 e uma vitória no Fla-Flu por 3 X 1.

Amigo de João Saldanha foi supervisor da "Seleção Brasileira" antes da “Copa do Mundo” de 1970. Ele morreu em 22 de fevereiro de 1980, aos 65 anos, no Rio de Janeiro, vítima de um câncer causado pelo hábito de fumar. Em seu obituário no “Jornal do Brasil”, Sandro Moreyra escreveu que ele era gaúcho, de Pelotas.

Em 1982, dois anos após a morte de “Russo”, a revista “Placar” elegeu uma seleção histórica do Fluminense, e ele foi um dos onze escolhidos.

Em 2006, teve lançada uma biografia escrita pelo jornalista paranaense Carlos Alberto Pessôa, intitulada "O Sábio de Chuteiras", pela editora "Travessa dos Editores", que eu tenho na minha biblioteca.



sábado, 12 de outubro de 2019

Os 100 anos do “Fantasma da Mogiana”

O Batatais Futebol Clube, da cidade paulista de Batatais completou 100 anos de existência no último dia 18 de setembro. Fundado em 1919, suas cores são vermelha e branca. Atualmente disputa a Série A2 do Campeonato Paulista.

Sua fundação com a denominação de Batataes Foot-ball Club ocorreu em razão de uma dissidência no Riachuelo Futebol Clube, graças aos esforços do "coronel" Olvídeo Tristão de Lima, considerado o patrono e presidente de honra do clube.

O próprio “coronel” Tristão doou o terreno para a construção do primeiro campo do clube, onde hoje fica o “Estádio Doutor Oswaldo Scatena”, também conhecido por “Scatenão” ou “Ghost Arena”, com capacidade para 15 mil lugares.

O início do “Fantasma da Mogiana”, como é chamado por sua torcida, foi muito melhor do que esperavam os fundadores. Logo na primeira partida, fora de casa, o atacante Bruno fez o primeiro gol do Batataes, que levou a equipe à vitória, sobre a Associação Atlética Olympica, em Jordanópolis, no dia 25 de outubro de 1919.

E 15 dias depois, a "vítima" foi o Altinópolis Futebol Clube, em uma goleada impressionante de 7 X 0.

Entre 1934 e 1937, o Batataes Futebol Clube conseguiu uma das marcas históricas mais impressionantes do futebolismo, que persiste até os dias de hoje, quando disputou mais de 100 partidas, sendo derrotado em apenas três únicos jogos.

Essa era a formação de 1934: Ye - Caty e Pavão – Lulu - Orlandão e Neca. Netto – Coelho – Chiquinho - Zé Lopes e Bicicleta. Com esta equipe o Batataes formou a primeira fase áurea do esporte local.

O “Quadro de Ouro” venceu tudo e a todos na região, ganhando o apelido de "Fantasma da Mogiana". O nome se deve à “Estrada de Ferro Mogiana”, que nasceu em Campinas e passava por Ribeirão Preto, Batatais e outras cidades do norte do Estado em direção ao ”Triângulo Mineiro”. Daí surgiu o “Fantasminha”, mascote do clube.

Em 1945, o clube se destacou ainda mais com a conquista do título de “Campeão Paulista do Interior” e com o movimento que veio a encabeçar, pois na época, só existia profissionalismo na capital.

Com a reunião de esforços do Batatais, já com nova grafia, e o apoio da Ponte Preta e do XV de Piracicaba, os clubes do interior puderam disputar por igual o “Campeonato Paulista”. Graças a este movimento encabeçado pelo Batatais FC, no ano seguinte foi instituída a “Lei do Acesso”, batizada de “Oswaldo Scatena”, em homenagem ao então presidente do Clube.

Em 1949, o Batatais chegou bem perto do título paulista e o acesso para a Elite, porém, a equipe ficou com o vice-campeonato, naquilo que foi considerado à época como a maior vergonha já vista no futebol brasileiro. "Batatais FC é roubado na Rua Javari", estampavam os Jornais da época.

Na Final disputada contra o Guarani, de Campinas, o Batatais foi derrotado por 2 X 1 e o clube campineiro subiu à divisão maior do futebol. Neste episódio lamentável, de uma forma vergonhosa e corrupta, houve mala-preta e suborno dentro do próprio Batatais, envolvendo diretoria, comissão técnica e atletas.

Desolados com o acontecido e o envolvimento da arbitragem na partida, a diretoria retirou o clube das competições profissionais, desativando o “Departamento de Futebol“ por longos anos.

Em 1956, o clube reativou seu departamento retornando ao profissionalismo contando com grandes atletas que fizeram renascer o “Fantasma da Mogiana” na disputa da competição equivalente à “Série A2” do “Campeonato Paulista” até 1967.

A partir de 1968 mais uma nova paralisação ocorreu, mas desta vez por um motivo nobre: a construção do “Estádio Doutor Oswaldo Scatena”. O futebol retornou três anos mais tarde, agora investindo também nas categorias de base do clube.

Desde então o clube não parou mais, e chegou bem perto de conquistar o acesso para o que equivale à “Série A1”, mas nunca conseguiu.

Disputou a “Terceira Divisão” entre 1987 até 1993, visto que em 1994, com novas mudanças feitas pela “Federação Paulista de Futebol”, o clube foi colocado na “Série B1-A”, a última divisão do Paulista, e permaneceu por lá durante longos anos.

O tabu foi quebrado no dia 25 de outubro de 2008, quando conquistou o vice-campeonato da atual “Segunda Divisão” de 2008, subindo para a “Série A3”.

Na “Série A3” de 2013, terminou a primeira fase na terceira posição, se garantindo assim entre os oito classificados. No quadrangular decisivo, disputou duas vagas de acesso com as equipes do Flamengo, de Guarulhos, Marília e Independente, de Limeira.

No dia 12 de maio de 2013, após uma vitória de virada por 2 X 1 sobre o Marília em Batatais, garantiu o retorno para a “Série A2” de 2014.

Com essa vitória, terminou na liderança da chave e de quebra se classificou para a decisão do campeonato frente ao São Bento, de Sorocaba. Após 46 anos, o Batatais recolocou a cidade na “Série A2”, competição que disputou por várias vezes entre as décadas de 50 e 60.

Em 2014, o “Fantasma” fez uma campanha sem grandes sustos e terminou a “Série A2” na 10ª colocação com 25 pontos em 19 jogos, garantindo sua permanência para o ano seguinte.

Grandes revelações saíram do clube. As mais recentes foram Marcelo Batatais (Cruzeiro e Coritiba), Anderson Taubinha, (Ponte Preta, Sertãozinho, Fortaleza, Japão, Ponte Preta e foi capitão do Paulista de Jundiaí no título da Copa do Brasil), Cocito (Atlético Paranaense, Corinthians, Grêmio, Real Murcia da Espanha, Fortaleza, etc.), Michel (Rio Claro, União São João e Vitória de Setubal,), Renan (Atlético Mineiro, Santa Cruz, Brondby da Dinamarca, Celta de Vigo, Sport Recife, Fortaleza) e os imortais Zeca Lopes, Baldocchi e Algisto Lorenzato, o “Batatais”.

Títulos conquistados. Estaduais: Campeão da LBF (1952); Campeão da Série Wilton Gosling (1959); Vice-campeão da 1ª divisão (1960); Campeão da Série Djalma Santos da 1ª divisão (1974); Campeão da Série "E" Grupo Amarelo 2ª Divisão (1984).

Campanhas de destaque. Paulista: 2º lugar da Série A2 (1949); 2º lugar da Segunda Divisão (2008); 2º lugar da Série A3 (2013).

Outras conquistas. Série Ouro da Segunda Divisão (1957, 1959 e 1973). Categorias de base: Campeonato Paulista Sub-20 - 2ª Divisão (2004) e 2º lugar na Copa São Paulo de Futebol Júnior (2017). (Pesquisa: Nilo Dias)

Batatais Futebol Clube, anos 1960.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O futebol feminino no Rio Grande do Sul

Não se sabe muito sobre o futebol praticado por mulheres no Rio Grande do Sul. Os registros encontrados são poucos. O que se sabe de real é que os primeiros registros sobre o futebol feminino no Rio Grande do Sul são de 1950 e mostram que em Pelotas dois clubes praticavam o esporte: o Vila Hilda Futebol Clube e o Corinthians Futebol Clubes, ambos fundados em abril daquele ano.

Isso foi até tema de uma reportagem que publiquei neste espaço, destacando que as duas agremiações eram bem organizadas, tinham sede própria e também equipes de futebol masculino.

Os times femininos duraram até que houve a proibição oficial deste esporte para mulheres. Notícias só voltaram a aparecer na década de 1980, após o término da proibição oficial.

Neste período surgiu em Porto Alegre a equipe “Pepsi-Bola”, que em 1983, tornou-se a equipe de futebol de mulheres do Sport Club Internacional comandada por Rosa Dutra.

Outra equipe também despontou com o intuito de fazer oposição ao recente clube do “Pepsi”, a equipe de futebol do Independente que mais tarde assumiria o escudo do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

Foi neste mesmo ano que surgiu o primeiro Campeonato Gaúcho de Futebol Feminino que teve a participação de cinco equipes: o S.C. Internacional e o Grêmio Football Porto Alegrense, ambos de Porto Alegre, o Esporte Clube Internacional de Santa Maria, o Cerâmica Atlético Clube de Gravataí e o Clube Esportivo Bento Gonçalves da cidade de Bento Gonçalves.

Por mais incrível que possa parecer, não se encontrou em nenhum lugar qualquer menção a essa competição nos anos de 1984 a 1996. Não se sabendo resultados dos jogos e nem quem foi campeão.

Foram encontrados registros dessa competição apenas em 1997, embora Grêmio e Internacional tenham criado nos anos 1990 os seus Departamentos de Futebol Feminino garantindo apoio as equipes formadas por mulheres, tais como espaço para treinamentos, fornecimento de materiais esportivos, assim como
os uniformes de treino e de jogo, além da existência de comissões técnicas especializadas.

Sabe-se que no ano de 1993 foi convocada a primeira Seleção
Gaúcha de Futebol Feminino. Ela representou o Rio Grande do Sul em um torneio nacional de seleções, que reuniu equipes de Estados brasileiros.

Depois dessa competição surgiram equipes no Estado tais como a do Sport Clube Rio Grande, do Internacional e do Grêmio.

O desenvolvimento do futebol feminino em terras gaúchas, deve-se ao protagonismo de Eduarda Maranghelo Luizelli, a “Duda”, ex-jogadora de futebol, que no ano de 1996 assumiu a frente na retomada do Departamento de Futebol Feminino do Sport Club Internacional.

“Duda”, participou diretamente da reabertura do Departamento de Futebol Feminino do clube e ajudou a difundir a modalidade. O encerramento das atividades do Internacional aconteceu em 2004 e só foi novamente retomado no ano de 2017, outra vez por intermédio de “Duda”, que tornou-se referência da modalidade no Estado.

Destaque também para a criação da Associação Gaúcha de Futebol Feminino em 28 de abril de 2010, entidade que assumiu a
organização do campeonato gaúcho em todos os níveis, desde as categorias de base sub-15 e sub-17 até a categoria principal. Desde então o campeonato gaúcho não sofreu nenhuma interrupção.

A trajetória de Maria Ivete Gallas, outra atleta de destaque no futebol feminino, colaborou para a estruturação da modalidade no Brasil e no Rio Grande do Sul.

Maria Ivete Gallas nasceu em 4 de novembro de 1968, em São José do Sul interior da cidade de Montenegro (RS), sendo a quinta filha de uma família de seis irmãs e um irmão, filhas e filho de Fridolino Romeu Gallas e Ilse Terezinha Gallas.

Ivete, iniciou seus primeiros contatos com o futebol através de brincadeiras com suas irmãs e irmão. Aos 12 anos de idade, incentivada pela irmã Maria Iris Gallas, Ivete passou a integrar
a equipe de futebol vinculada a uma fábrica de taninos, na cidade de Montenegro denominada de “Tanac”.

A empresa fundada em 1948 iniciou a produção de extratos vegetais de acácia negra em Montenegro. Sua produção era direcionada à indústria coureira, ao tratamento de águas de abastecimento e de efluentes industriais, além de condicionadores de lama para perfuração de poços de petróleo, adesivos para madeira, entre outras aplicações.

Ivete relatou participações em jogos e torneios com a equipe do “Tanac”, treinava aos sábados e jogava aos domingos, Durante a semana frequentava a escola, e às vezes não ia à aula aos sábados para poder treinar.

Diante da incerteza da continuidade das competições, o futsal de traduzia em uma alternativa para continuarem competindo no Estado. Em 1993, Ivete contou que não haviam mais equipes de futebol de mulheres no Rio Grande do Sul competindo, por isso a adesão ao futsal com a equipe “Funil/Kombisul” de Alvorada.

As atividades do futebol de campo estavam estagnadas no Estado desde 1987. As atletas que compunham os departamentos dos clubes migraram para o futsal para que pudessem se manter em atividade.

Foi somente no ano de 1993 que a Federação Gaúcha de
Futebol realizou uma peneira com vistas a participar da “I Taça Havelange”, competição nacional que correspondia ao campeonato brasileiro.

Ivete relembrou que foi realizada uma seletiva para reunir a seleção gaúcha: eles convocaram as atletas para fazer uma peneira lá no campo suplementar do Beira-Rio. Ela chegou lá e era tanta mulher no campo que o pessoal conhecido só ria. Era muita gente, todo mundo queria ser da Seleção.

Nesse mesmo período Ivete também participou do Campeonato Estadual de Futsal, atuando na equipe “Funil/Kombisul”, de Alvorada que tinha como grande rival a equipe “Sociedade Esportiva Recreativa Bruxas”, composta por suas colegas de equipe na seleção gaúcha, “Duda”, Maria Giovana e Bel.

No campeonato brasileiro de Futsal disputado em Itapeva, Ivete narrou a importância dessa competição em sua trajetória, pois foi nesse momento que conheceu Romeu Castro, na época, presidente do SAAD e organizador do campeonato da FIFUSA.

O Romeu tinha feito levantamento no histórico do brasileiro de campo e Ivete não estava sabendo disso. Após o primeiro contato com ele a equipe do SAAD foi a Porto Alegre disputar um torneio
realizado com equipes de São Paulo, Porto Alegre e Curitiba.

E foi nesse torneio que Ivete recebeu a proposta para integrar a equipe do SAAD. Devido a uma lesão no joelho não conseguiu manter-se nos treinamentos e acabou optando por investir na gestão esportiva do clube.

O SAAD Esporte Clube foi pioneiro em categorias de base no futebol de mulheres. Grande parte dessa organização se deu pelo empenho de Ivete que ao longo do tempo administrou as categorias de base dessa equipe assim como geriu o Centro de Treinamento do SAAD.

Em 1998, Ivete retornou a Porto Alegre e começou a acompanhar os treinamentos do Grêmio Foot-ball Porto Alegrense. Em seguida foi convidada a treinar essa equipe na qual se tornou campeã gaúcha em 2001.

Analisar a trajetória de Maria Ivete Gallas no contexto histórico permitiu reconstruir a história do futebol de mulheres no Rio Grande do Sul. Os poucos registros oficiais encontrados demonstram a necessidade de que se criem estratégias de visibilidade para o futebol praticado por elas.

Conhecer e reconhecer a trajetória de mulheres que fizeram e fazem a história do futebol torna-se uma estratégia importante uma vez que acabam por constituir as fontes de pesquisa e registros desse esporte no Rio Grande do Sul e no Brasil. (Pesquisa: Nilo Dias)

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Alex, o campeão do jogo limpo

Alex foi um zagueiro exemplo de disciplina, ganhador do “Prêmio Belfort Duarte”, em 10 de agosto de 1977, e símbolo de dedicação ao America Football Club, de onde chegou oriundo do Clube Esportivo Aimoré, de São Leopoldo (RS), pelo qual atuou em 1965 e 1966.

Seu jogo de estreia no clube americano deu-se num empate em 2 X 2 contra o América Mineiro, no ”Mineirão”. Já a estreia no Maracanã aconteceu a 25 de maio de 1967, na vitória por 4 X 2 sobre o Huracán, da Argentina, pelo “Torneio Internacional Governador Negrão de Lima”.

Realizou pelo clube rubro do Rio de Janeiro um total de 673 jogos entre 1967 e 1979, tendo sido campeão da “Taça Guanabara”, em 1974, e duas vezes vice-campeão (1967 e 1975). Foi ainda eleito titular absoluto do time ideal do América do século XX, em votação realizada no ano de 2000.

Ao final de 1948, Alex Kamianecky, seu irmão Miguel e o restante da  família de ucranianos chegou ao Brasil, deixando para trás uma Alemanha destruída pela guerra. Na bagagem, além da esperança por dias melhores, os dois robustos lourinhos de apenas dois anos de idade.

Desembarcaram no Rio Grande do Sul e fixaram moradia em Canoas, uma cidade em franco desenvolvimento, principalmente depois da instalação do “3º Regimento de Aviação Militar”, em 1937.

Alex Kamianecky nasceu no dia 9 de dezembro de 1945, em Hamburgo, na Alemanha. Foi como zagueiro do Clube Esportivo Aimoré de São Leopoldo (RS), que Alex assinou seu primeiro compromisso profissional. Jogava ao lado do irmão Miguel até receber um convite para treinar no Vasco da Gama.

Alex tomou coragem e foi ao Rio de Janeiro, sem imaginar que agradaria tanto ao técnico Zizinho, que depois do primeiro treinamento comparou seu futebol ao lendário Hideraldo Luís Bellini.

Mas uma indecisão dos dirigentes do Vasco, que na época tentavam negociar Brito com o Santos, precipitaram o retorno de Alex para o Rio Grande do Sul.

E foi o próprio Zizinho que indicou Alex ao América, um contato que virou contrato em 1967. A primeira participação no time principal aconteceu no empate em 2 X 2 contra o América mineiro, no Estádio do Mineirão.

No Maracanã, a primeira partida de Alex aconteceu em 25 de maio de 1967, na vitória por 4 X 2 sobre o Huracán da Argentina, confronto válido pelo “Torneio Internacional Governador Negrão de Lima”.

Moço disciplinado, zagueiro leal, Alex ainda carregava o jeitão tipicamente interiorano, o que despertava a malandragem oportunista de alguns atacantes maldosos.

Mas o América contava com Almir Albuquerque, que prontamente inibia os valentões que se metessem com o amigo Alex. E assim, a amizade entre os dois continuou por muito tempo.

Orientado pelo técnico Evaristo de Macedo, Alex foi determinante na grande campanha do América na “Taça Guanabara” de 1967. Abaixo, os registros de uma grande vitória do time de Evaristo:

16 de julho de 1967 – Taça Guanabara – América 3 X 0 Flamengo – Estádio do Maracanã – Árbitro: Cláudio Magalhães – Gols Edu aos 14’ e 20’ do primeiro tempo; Eduardo aos 20’ do segundo tempo.

América: Ita – Sérgio – Alex - Aldeci e Djair. Marcos e Ica. Joãozinho – Antunes - Edú e Eduardo. Técnico: Evaristo.
Flamengo: Marco Aurélio – Murilo – Jaime - Ditão e Válter. Carlinhos e Jarbas. Fio – Zezinho - Ademar e Rodrigues.
Técnico: Modesto Bria.

Em 1970, sob o comando do técnico João Saldanha, Alex fez parte da lista dos 40 pré-convocados para a fase de preparação para a “Copa do Mundo” daquele ano, mas acabou cortado sem chegar a vestir a camisa canarinho.

A maior conquista pelo América foi a “Taça Guanabara” de 1974. Ao todo foram 673 partidas disputadas sem nenhuma expulsão, o que lhe valeu o “Prêmio Belfort Duarte” de disciplina, recebido em agosto de 1977.

Alex nunca machucou um companheiro de profissão, ou mesmo esteve no Departamento Médico por qualquer espécie de contusão. Apenas uma hepatite contraída em 1969, que o afastou por 20 dias dos gramados.

Alex também marcava seus golzinhos, quase sempre de cabeça ou em cobranças de penalidades.

Naturalizado brasileiro, Alex permaneceu no América até 1979. Ao receber o passe livre e se transferir para o Sport Clube do Recife, Alex fez questão de incluir em seu novo contrato uma cláusula para não jogar contra seu ex-clube.

Conforme alguns registros, o zagueiro defendeu ainda por um curto período o América de Natal e Moto Clube de São Luís, onde encerrou pela primeira vez sua carreira como jogador.

Posteriormente, Alex ainda retornou aos gramados para defender o São Cristóvão em 1982, que na oportunidade disputava a Segunda Divisão do campeonato carioca.

Depois do futebol, Alex trabalhou como Representante Comercial de materiais de informática. Atualmente, mora em Canoas (RS). É empresário e ocupa-se também revelando jogadores.

No ano 2000, uma eleição promovida pela revista Placar colocou Alex Kamianecky no “Melhor América de todos os tempos”. Alex também está entre os jogadores homenageados no Hall da Fama do Estádio do Maracanã.

Desde13 de maio de  2017, a história de 13 anos, marcada por identificação, regularidade, liderança e amor pelo América que encantou o Rio de Janeiro - e o Brasil -, no fim dos anos 60 até o fim da década de 70, está registrada no livro "Alex Coração Americano: o campeão do jogo limpo", livro-homenagem de autoria de Sílvio Köhler.

Além de Alex, o lançamento do livro também contou com depoimentos de personalidades como Apolinho, Dé Aranha, Edu Coimbra, Iata Anderson, Jairzinho Furacão e Zico. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 8 de outubro de 2019

O time dos homens de cor

Que o racismo imperou no futebol brasileiro em seus primeiros tempos é sabido. O que pouca gente sabe é que em São Paulo um clube de futebol foi fundado como uma resposta aos que dificultavam ou restringiam a presença de atletas “pretos” e “mulatos” em suas entidades.

Sua criação também serviu como uma reação à “linha de cor” que imperava dentro e fora dos gramados naqueles tempos. Os grandes times do futebol paulista eram o Club Athlético Paulistano, a Associação Athlética das Palmeiras e o Sport Club Corinthians Paulista, nascido em 1910.

Os dirigentes desses clubes acreditavam que os atletas negros eram inferiores aos brancos na técnica e à ciência do futebol clássico Mesmo quando algum era aceito para jogar, não tinha permissão para participar das suas atividades sociais – como festas e bailes.

A Associação Athletica São Geraldo foi conhecida em seus áureos tempos como o “clube dos homens de cor”. Sua fundação ocorreu no dia 1º de novembro de 1917, por um grupo de desportistas negros: Silvério Pereira, Rufino dos Santos, Felisbino Barbosa, Horácio da Cunha, Benedito Costa e Benedito Prestes.

A finalidade era promover a prática tanto do futebol quanto do atletismo. Suas cores eram o preto e o branco. Ao longo do tempo, seus investimentos maiores foram sempre no futebol. O clube teve sedes na Barra Funda e depois em Perdizes.

Praticar o futebol já naquela época custava caro. Parte do material usado no esporte, tais como bolas, meias, calções, luvas, joelheiras e tornozeleiras era tudo importado.

Não se tem ideia de como o São Geraldo conseguia enfrentar tais despesas. É provável que a sua principal fonte de recursos derivava das mensalidades dos sócios.

Outras prováveis fontes de renda vinham de donativos e da arrecadação das festas e bailes.

Anos mais tarde, Dionísio Barbosa – o fundador e principal dirigente do “Cordão Carnavalesco Camisa Verde”, disse que cedia o salão da agremiação ao São Geraldo, para que este realizasse bailes para arrumar dinheiro, para comprar camisas. E os jogadores do São Geraldo, por sua vez, retribuíam fazendo a proteção dos bailes do “Camisa Verde”.

O clube foi criado pelos “negros da Glette”, um grupo que se encontrava na “Alameda Glette”, próximo à linha férrea. Não tinham habilidades artesanais que os favorecessem profissionalmente, nem dominavam um ofício, por isso trabalhavam como carregadores e ensacadores. Por vezes viviam à margem da ordem social vigente.

Eram respeitados pela sua força física, daí terem recebido a alcunha de “valentes da Barra Funda”. Todavia, as informações fragmentadas disponíveis não permitem tecer detalhes acerca da origem do São Geraldo.

Além do caráter recreativo, o São Geraldo também se inseriu na rede de associativismo negro que, a partir do início do século XX, floresceu em São Paulo. Foram criadas dezenas de associações voltadas para fomentar as atividades recreativas, culturais, políticas e sociais dos autodenominados “homens de cor”.

Eram entidades “dançantes”, “recreativas”, “dramático recreativas”, “dramático recreativa e literária”, “dramático recreativa literária e beneficente”, “beneficente e humanitária, recreativas e esportivas”, ou exclusivamente “esportivas”.

Apesar das diferenças de nomes, essas associações buscavam o desenvolvimento de uma identidade específica, de negros (nós), em oposição aos brancos (eles).

O São Geraldo surgiu na Barra Funda, bairro onde existia um importante segmento da “população de cor”, vinda na maioria de pequenas cidades do interior do Estado. Essa gente vinha à Capital em busca de emprego e melhores condições de vida no pós-abolição.

Era o tempo da fartura do café nas lavouras paulistanas. Na Barra Funda, foram construídos, além da estação ferroviária, grandes armazéns para estocar especialmente o produto.

A mão de obra básica era composta por negros, que realizavam as tarefas mais penosas de carregamento e descarregamento de mercadorias, tanto nesses armazéns, quanto naqueles situados no porto de Santos, para onde eles iam sempre que escasseava o trabalho em São Paulo.

Já as mulheres prestavam serviços como domésticas nas casas das famílias ricas da cidade.

Quando tinham um tempo livre os negros realizavam batuques em torno dos botequins da “Alameda Glette”, rodas de samba, jogos de pernada, umbigada e tiririca (espécie de capoeira) no “Largo da Banana” e comemoravam o Carnaval por meio dos grupos “Barra Funda”, “Campos Elísios” e “Flor da Mocidade”, cordões carnavalescos pioneiros em São Paulo.

A Barra Funda era na verdade um dos maiores “territórios negros” da cidade, nas primeiras décadas do século XX. Na parte alta do bairro, próximo ao Bom Retiro, os terrenos baldios existiam em profusão, sendo usados por essa população, nos primórdios do futebol.

A entidade organizou seus estatutos, registrou em cartório e criou uma estrutura funcional alicerçada em uma Diretoria, associados e atividades. Sua primeira sede foi Rua Barra Funda, mais tarde transferida para a Rua Florêncio de Abreu.

Aos poucos o time de futebol, cujo uniforme tinha as cores preta e branca, foi se estruturando até se filiar à Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA) – encarregada de organizar o futebol no Estado – e disputar o campeonato da chamada “Divisão Municipal”, que reunia uma série de clubes de várzea.

Não demorou para o clube ganhar destaque em meio aos negros. Tinha no time bons jogadores, como Zelão, Tita, Africano, Filipão, Olavo, Caçaróla, Pé, Buiú, Alfredo, Goiabada, Bizerrão, Caetano, Vaca Braba, Bode e Hilário, que protagonizaram, na “zona Pacaembu, jogos de escol”.

Também merecem ser lembrados Carlos Campos, o “famoso beque” Sarará, o atacante Ditinho – considerado um dos craques do time – e o “meia esquerda” Paulo, que foi uma figura brilhante.

Ao longo de sua trajetória, o “alvinegro” da Barra Funda colecionou resultados positivos dentro dos gramados, sendo o principal deles a conquista da “Copa do Centenário da Independência do Brasil” – nome dado ao campeonato paulista de 1922 –, evento que fez parte das comemorações alusivas aos 100 anos da emancipação política do Brasil.

Tratou-se de uma competição bastante disputada. O São Geraldo, clube constituído “somente de elementos de cor”, enfrentou na final o Flor do Belém, time “formado por brancos” e considerado favorito ao ambicionado título.

A decisão do “Campeonato do Centenário” se deu no “Estádio da Floresta”, num domingo de Páscoa.

Com a conquista do título, o “alvinegro” da Barra Funda tornou-se mais conhecido em São Paulo, especialmente no meio negro, legitimando-se como o principal time de futebol do gênero.

Além de disputar o campeonato da APEA, o São Geraldo costumava jogar contra outros clubes de negros. Um dos grandes rivais do São Geraldo localizava-se justamente no mesmo bairro. Era o time de futebol do Grêmio Barra Funda, com o qual disputou partidas memoráveis.

Em abril de 1926, o “Grêmio Recreativo Nem que Chova” abriu as inscrições de um “festival esportivo”, planejando reunir 10 times de futebol do meio negro no campo do “Paulista de Aniagens”, situado na Rua Glicério. Como premiação, previa-se distribuir “duas ricas taças”.

O “festival” ocorreu no dia 9 de maio daquele ano e, ao que parece, contou com a participação do São Geraldo. Já no ano de 1932, o time ganhou a “Taça Clarim d’Alvorada”, troféu de campeão entre as agremiações esportivas negras, que existiam na capital.

Também os intercâmbios do “alvinegro” da Barra Funda ocorreram com os clubes do interior paulista. Em agosto de 1929, a equipe viajou até a cidade de Campinas, para enfrentar a Ponte Preta, que venceu por 4 X 2.

Em algumas vezes o São Geraldo jogou torneios e partidas amistosas  contra adversários de outros Estados, em especial do Rio de Janeiro.

Em 1925, ocorreu uma crise na organização do futebol paulista, o que levou o Clube Atlético Paulistano a abandonar a APEA e decidir criar a Liga de Amadores de Futebol (LAF).

Seu gesto foi acompanhado imediatamente pela Associação Atlética das Palmeiras e pelo Sport Club Germânia. A nova associação nasceu com o propósito de “depurar” o futebol e incrementar a prática do esporte sobre as bases do “mais restrito amadorismo”.

Tanto a APEA quanto a LAF reivindicavam para si o direito de representar oficialmente o futebol do Estado de São Paulo. Neste cenário, o São Geraldo aderiu à nova associação, disputando o campeonato da divisão “intermediária”.

Convém lembrar que, nessa época, não havia lei de acesso. Os nove times considerados grandes: Club Atlético Paulistano, Sport Club Germânia, Sport Club Corinthians, Associação Atlética das Palmeiras, Britânia Atlético Clube, Clube Atlético Santista, Antártica Futebol Clube, Clube Atlético Independência e Paulista Futebol Clube, que compunham a divisão mais importante da LAF, jogavam entre si e não corriam o risco de rebaixamento.

Já o São Geraldo jogava contra os clubes menores, muitos dos quais egressos do futebol de várzea. E mesmo que aí se destacasse, não havia a perspectiva de ascender à divisão principal.

A imprensa negra costumava acompanhar o desempenho do São Geraldo: “A Associação Atlética São Geraldo é uma das agremiações de homens pretos que, no esporte, tem sabido honrar sobremaneira o nome do negro brasileiro”.

Segundo jornal “O Clarim d’Alvorada”, o São Geraldo fechou a competição de 1929 de “um modo brilhante e digno de todos os encômios”. Basta dizer que, no decorrer do ano, seu “quadro” não sentiu o gosto da derrota. Os “jogadores não sofreram a menor pena ou censura, em se tratando de disciplina”.

Aquele foi o último campeonato que o São Geraldo disputou na LAF.
Lentamente, os times foram regressando à APEA. Foi o caso do Sport Club Corinthians, que ajudou a erguê-la em 1925, e retornou à APEA em 1927, tendo nela participado de apenas um campeonato. Ao todo, a LAF organizou três campeonatos paulistas, extinguindo-se em 1929.

O insucesso da entidade deveu-se basicamente à sua insistência em manter o futebol amador. Enquanto isso, a APEA, que na teoria preconizava o amadorismo, na prática deixava que clubes e jogadores experimentassem o profissionalismo.

Não tardou para que os melhores jogadores da entidade dissidente começassem a se transferir para as equipes da APEA. Os que lá permaneceram, com raras exceções, não desejavam mesmo se profissionalizar como futebolistas.

Foi neste contexto que o São Geraldo elegeu uma nova diretoria e voltou a se afiliar à APEA, participando de suas competições. Mas, naquela altura, o clube da Barra Funda já não era o mesmo.

Pouco a pouco entrou em crise, enfrentou tensões internas e se desarticulou coletivamente. Sem resultados expressivos dentro de campo, restava viver de um discurso saudosista. Não é possível assegurar, quando o time encerrou as suas atividades, mas parece que foi na primeira metade da década de 1940.

O insucesso do São Geraldo deveu-se basicamente à sua insistência em manter o futebol amador – condição na qual os jogadores ficavam desprovidos de salário, vínculo formal e não conseguiam viver exclusivamente do futebol.

Conforme revelou “A Voz da Raça” em julho de 1933, “os principais clubes de futebol aos poucos iam reformando seus estatutos e entre cláusulas abolidas figurava sempre a que proibia a entrada de homens de cor”.

Para o veículo de comunicação “oficial da Frente Negra Brasileira”, o jogador símbolo do “ingresso do negro nos altos cenários” do futebol foi Mateus Marcondes.

O “másculo” atleta do Clube Espéria teria sido a última “figura a aparecer vitoriosamente em nossos esportes, vencendo e convencendo aos paredros do futebol bandeirante”.

Muitos clubes da primeira divisão do futebol paulista passaram a “recrutar” jogadores negros na década de 1930. Isto não significa que tenham cessado as denúncias de que tais jogadores, embora elevassem o nome das agremiações desportivas, eram aceitos apenas como atletas e não como sócios.

Seja como for, emergiu um fenômeno novo: alguns dos melhores jogadores negros migraram para os grandes clubes. Bianco, o famoso “gorrinho encarnado” do Sul-América, transferiu-se para a Associação Atlética das Palmeiras.

Talvez o caso mais emblemático tenha sido Petronilho de Brito, um típico jogador da várzea paulistana que, na concepção de Thomaz Mazzoni, trouxe pioneiramente para o “futebol dos grandes clubes o verdadeiro futebol da raça negra”.

Quem um dia descobriu o São Geraldo foi o Corínthians. Começou a passar a mão nos negros devagarinho, tirou um, tirou outro e destruiu o São Geraldo.

O São Geraldo, continuou a ser evocado no meio negro como o “Campeão do Centenário”. Dada a importância do acontecimento, devia ser celebrado, rememorado e transmitido de geração para geração, para não cair no esquecimento.

Em 1948, ao recordar os “maiores feitos do futebol brasileiro”, a folha “Mundo Esportivo” mencionou o título do São Geraldo de campeão do Centenário da “Divisão Municipal”.

A esse respeito, o “Clarim d’Alvorada” já tinha sido bem incisivo em sua edição de 26 de julho de 1931: “o São Geraldo é um clube que honra a coletividade negra no futebol paulista”.

Para muitas “pessoas de cor”, o São Geraldo era uma fonte de orgulho racial. Na prática desportiva, constituía uma espécie de sismógrafo do quanto o negro era perseverante, dotado de disciplina e qualidades físicas, aliadas à inteligência e competência para alcançar os pináculos da vitória e se impor perante os desafios da vida (e da nação), colocando em xeque a ideologia de sua inferioridade racial. (Pesquisa: Nilo Dias – Fonte maior: “Verminosos por Futebol)

O São Geraldo sagrou-se campeão municipal do centenário, em 1922 (Foto: Cacellain)