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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A morte do "Monstro Sagrado"

O futebol português recebeu mais um duro golpe, com o falecimento ocorrido hoje de Mário Esteves Coluna, 78 anos, que foi o capitão da Seleção de Portugal, em seu maior momento na história, quando conquistou a inédita terceira colocação no Mundial de 1966, disputado na Inglaterra.

Desde domingo o ex-jogador estava internado no Instituto do Coração, em Maputo, antiga Lourenço Marques, capital e maior cidade de Moçambique, em coma e com respiração assistida, e não resistiu a uma parada cardíaca. Em 2012, o jogador moçambicano foi internado no mesmo hospital, depois de ter sofrido um ataque cardíaco.

Em janeiro já havia morrido o atacante Euzébio, outro ídolo do futebol português e também moçambicano de nascimento. Quando em dezembro de 1960, Eusébio da Silva Ferreira chegou a Lisboa, proveniente de Moçambique trazia consigo uma carta da sua mãe para entregar a Mário Coluna.

A carta de Dona Elisa pedia ao senhor Coluna para tomar conta do filho. E o então capitão do Benfica cumpriu a promessa que fez a Dona Elisa e tratou Eusébio como um filho.

Natural da Ilha de Inhaca, em Moçambique, Coluna nasceu no dia 6 de agosto de 1935. Embora o Benfica tenha sido a sua casa durante longos 16 anos, foi no Grupo Desportivo Lourenço Marques, da cidade moçambicana de igual nome, que ele iniciou a brilhante carreira.

Foi no bairro do Alto Mahé, na antiga Lourenço Marques, que Coluna se mostrou para o futebol. A localidade já havia revelado outros nomes ilustres do futebol lusitano, como Matateu, Vicente e Hilário.

Seu primeiro time foi o João Albasini. Mas depois seguiu os passos do pai, que foi fundador e antigo goleiro do Desportivo. Com apenas 17 anos já era titular absoluto da equipe.

Carlos Mesquita, treinador do Desportivo e antigo jogador do F.C. do Porto, tentou levá-lo para o seu ex-clube, que chegou a oferecer 90 contos por sua transferência por três temporadas. O Sporting também mostrou interesse e quis pagar 100 contos, mas por duas temporadas.

Mas foi o Benfica, clube do qual o Desportivo era filial, quem assegurou a contratação. No dia 22 de Agosto de 1954, com 19 anos de idade, Coluna chegou a Lisboa.

Não demorou a querer voltar para casa, pois a saudade da família era grande. Com a chegada do técnico Otto Glória, acabou por se resignar e ficar no clube. Era tido como um goleador, mas foi o treinador, um profundo conhecedor do futebol, que descobriu sua verdadeira posição, a de médio ofensivo, na qual se consagrou mundialmente, nas décadas de 1950 e 1960.

A sua estreia pelo Benfica foi num clássico contra o Porto. A temporada terminou com o seu primeiro título e ele reconhecido como um grande artilheiro, pois em 32 jogos marcou 17 gols, divididos entre o Campeonato Nacional e a Taça de Portugal.

E no plano internacional recebeu o apelido de "Didi Português", uma alusão ao notável craque brasileiro campeão mundial em 1958 e 1962, e campeão europeu no Real Madrid, em 1959/1960. Tempos depois a torcida do Benfica o apelidou de “Monstro Sagrado”.

A partir daí firmou-se como uma das referências do time, ao longo de 16 temporadas, de 1954 ate 1970, tendo participado das duas conquistas europeias, em 1960/1961, quando bateu na final ao Barcelona por 3 X 2, e em 1961/1962, quando goleou o Real Madrid por 5 X 3.

No primeiro título, conquistado em Berna, Suíça, Coluna marcou o terceiro gol do Benfica, com um chute forte de fora de área. O capitão José Águas, angolano de nascimento, levantou a taça. Na segunda conquista, em Amsterdã, Holanda, fez outra vez o terceiro gol de sua equipe, com um petardo de fora da área. Dessa feita coube a ele, já como capitão da equipe, erguer o valioso troféu.

O Benfica poderia ter ganho pela terceira vez a Copa Europeia, em final contra o Milan, da Itália. Mas perdeu em Wembley, na Inglaterra. Esse jogo ficou marcado por uma falta, ainda antes do intervalo, que deixou Coluna com lesão grave num pé. Como naquela competição não havia substituições, foi como se o Benfica ficasse reduzido a 10 homens em campo.

Como capitão ainda jogou e perdeu outras duas finais, contra Inter, de Milão e Manchester United, da Inglaterra. Mas nunca deixou de manifestar uma convicção face à forma como decorreram esses jogos: "Em qualquer deles poderíamos ter ganho".

A maioria dos jogadores chamava Coluna de "capitão", inclusive Eusébio, que lhe tratava também como "o mais velho". Mas ele, tímido e sossegado, não precisava da braçadeira para ser respeitado, muito menos de levantar a voz.

Impunha-se com naturalidade e foi assim que capitaneou o Benfica durante sete anos, a seleção portuguesa e a do resto do mundo. Marcou gols nas finais europeias em que venceu e só não repetiu a proeza em 1963, por ter sido posto a “nocaute” por Pivatelli.

A 27 de Setembro de 1967 viveu um dos seus momentos mais memoráveis: em Madrid, no Estádio do Real, foi o líder da seleção do Resto do Mundo, na homenagem ao imortal goleiro Ricardo Zamora. Como aconteceu outras tantas vezes, Eusébio estava em campo ao seu lado e marcou um gol nos 3 X 0 sobre à Espanha.

No dia 8 de dezembro de 1970, quando o técnico do Benfica já era José Augusto, seu ex-companheiro de equipe, Coluna despediu-se do clube que defendeu por longos anos. A festa de despedida, no Estádio da Luz, teve casa cheia e convidados especiais como Cruijff, Bobby Moore e Luís Suárez.

Coluna conquistou 24 títulos pelo Sport Lisboa e Benfica: duas Taças dos Campeões Europeus (1960/1961 e 1961/1962; 10 campeonatos nacionais (1954/1955, 1956/1957, 1959/1960, 1960/1961, 1962/1963, 1963/1964, 1964/1965, 1966/1967, 1967/1968 e 1968/1969); sete Taças de Portugal (1954/1955, 1956/1957, 1958/1959, 1961/1962, 1963/1964, 1968/1969 e 1969/1970) e cinco Taças de Honra da Associação de futebol de Lisboa.

No final de carreira jogou pelo Lyon, da França, na temporada 1970/1971. Voltou a Portugal para ser jogador e treinador do Estrela, de Portalegre, na temporada 1971/1972. Mas em seguida parou de jogar. Seguiram-se passagens pelos Juniores do Benfica, de Huambo, Angola, Textáfrica, de Moçambique e Ferroviário.

O “Monstro Sagrado” teve igualmente percurso notável na Seleção Portuguesa, tendo sido capitão do time na campanha do Mundial de 1966, quando Portugal foi terceiro colocado, tendo eliminado a Seleção Brasileira da competição. Coluna jogou 57 vezes pela Seleção entre 1955 e 1968, tendo marcado oito gols.

A primeira vez que vestiu a camisa da Seleção de Portugal foi aos 19 anos, em 4 de maio de 1955, num amistoso contra a Escócia, em que a equipa lusa perdeu por 3 X 0.

Coluna está entre os 100 melhores jogadores do século XX segundo a FIFA.  O regresso a Moçambique, após a sua independência, garantiu-lhe lugar de relevo na sociedade. Primeiro como deputado, mais tarde na qualidade de membro de um dos governos de Samora Machel, como ministro dos Esportes entre 1994 e 1999.

Enfim, no topo da estrutura do futebol moçambicano como presidente federativo, enquanto as forças o ajudaram. Antes de ser eleito para a FMF, criou uma Academia de Futebol na vila da Namaacha, para formação de jovens atletas. (Pesquisa: Nilo Dias)

Mário Coluna foi um dos maiores símbolos do futebol português. (Foto: Jornal "A Bola")

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O pequeno gigante


Nilo Murtinho Braga, o “Nilo”, um dos maiores artilheiros da história do Botafogo, nasceu a 3 de Abril de 1903 no Rio de Janeiro, onde faleceu a 5 de Fevereiro de 1975, com 72 anos de idade. Era um atacante de baixa estatura, que tinha como características a velocidade, a habilidade e a facilidade de marcar gols.

A vitoriosa carreira do atacante começou no América, de Natal, onde foi campeão potiguar em 1919. Nilo foi o primeiro jogador carioca a vestir a camisa do clube do Rio Grande do Norte, ainda um garotão filho de um militar oficial da Marinha do Brasil, que veio servir em Natal.

Foi um tempo em que a cidade não tinha ainda um estádio, sendo utilizado para os jogos os espaços da praça André de Albuquerque e o terreno onde tempos depois foi construído o Estádio Juvenal Lamartine. Ele integrou a equipe rubra que se sagrou campeão da Taça Independência do Brasil, dia 7 de setembro de 1922, com apenas 19 anos.

O time do América tinha esta formação: Cazuza – Canela e José Gomes – Américo – Oscar e Chiquinho – Benfica – Nilo - Aguinaldo Tinoco - Arari e João Ricardo. Nilo passou pouco tempo em Natal, pois seu pai teve que retornar ao Rio de Janeiro.

Emanuel Murtinho Braga, tio de Nilo Murtinho Braga foi um dos fundadores da Liga de Desportos Terrestres do Rio Grande do Norte (LDTRGN), atual Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol (FNF), em 14 de julho de 1918, no camarote do comandante do encouraçado "Deodoro". Há quem diga que foi no "Minas Gerais".

Depois foi jogar no time infantil do Fluminense, do Rio de Janeiro, onde foi campeão carioca da categoria, em 1916.

Em 1918 transferiu-se para o Botafogo, time pelo qual torcia, numa época em que o futebol reunia quase que exclusivamente rapazes das melhores e mais abastadas famílias do Rio e São Paulo, e também de estrangeiros. 

No Botafogo, estreou no terceiro quadro, num jogo em que o alvinegro derrotou o rival Flamengo, por 1 X 0, em jogo válido pelo campeonato da categoria de 1919, realizado no antigo Estádio de General Severiano.

No time principal a estreia foi no dia 7 de dezembro de 1919, quando o Botafogo derrotou o Bangu por 2 X 0. Até 1921, Nilo continuou nas equipes secundárias, mas saiu em 1922 após algumas brigas.

O tio Oldemar Murtinho foi afastado do Botafogo. Nilo não concordou e saiu então para o S.C. Brasil, da Segunda Divisão, em 1922, para não ter de enfrentar o alvinegro, o seu clube do coração.

Nilo era um botafoguense de raiz, tendo começado a gostar do clube porque acompanhava o tio Oldemar Murtinho aos jogos no campo da Rua São Clemente, no qual o clube realizava os seus jogos no campeonato de 1912.

O Brasil tinha sua sede na Urca, bairro da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, e disputou os campeonatos cariocas de 1923 e 1924. Ainda na década de 30, o clube foi extinto. Seus títulos no futebol foram o Campeonato Carioca de Juvenis, de 1932 e o Campeonato Carioca de 2º Quadros da 3ª Divisão de 1916. Outro jogador de renome que defendeu o Brasil, foi Leônidas da Silva, no primeiro semestre de 1935.

Seu uniforme era composto por uma camisa branca com uma faixa horizontal vermelha, calções brancos e meias brancas contendo o monograma S.C.B. em vermelho no peito. Por conta de seus trajes, era conhecido como o "Clube da Faixa Rubra".

Retornou ao Botafogo em 1923, mas em agosto do mesmo ano, outra briga levou o jogador a sair novamente do clube. Ainda assim foi o artilheiro do time no estadual daquele ano. No período de 14 de agosto a dezembro de 1923, atuou novamente pelo S.C. Brasil.

No ano seguinte foi defender o Fluminense, onde ficou por três anos, tendo sido campeão e artilheiro do Estadual de 1924, quando marcou 28 gols. No Fluminense, Nilo acertou às redes adversárias por 60 vezes, em 42 jogos, numa média incrível de 1,43 gols por partida.

Em 1927 Nilo estava de volta a General Severiano, época em que o clube começou a formar um super time, que ganhou nada mais, nada menos, do que cinco títulos no início da década de 30, quatro dos quais seguidos. Nesse ano, Nilo marcou 30 dos 67 gols botafoguense, quatro deles numa fabulosa goleada de 9 X 2 sobre o Flamengo, a maior da história do clássico.

Nilo vestiu a camisa do Botafogo em 201 jogos, tendo marcado 190 gols, tornando-se o quinto maior artilheiro da história do clube, em todos os tempos. O jogador detém o recorde de média de gols numa temporada só, ao assinalar 42 gols em 28 jogos em 1927.

Nilo foi artilheiro do campeonato carioca em 1923, 1927, 1929, 1933 (19 gols) e 1934. Campeão Carioca em 1932, 1933, 1934 e 1935, tendo marcando 69 gols em toda a campanha do tetracampeonato. Foi ainda cinco vezes campeão brasileiro pela Seleção Carioca.

Disputou a “I Copa do Mundo”, em 1930, no Uruguai. A Seleção Brasileira naquela ocasião disputou apenas duas partidas, e Nilo jogou uma, contra a Iugoslávia. Pela Seleção Brasileira atuou em 19 partidas e anotou 11 gols.

Em 16 de Maio de 1938, o pequeno grande artilheiro Nilo, já distante da rotina diária do clube, despediu-se dos gramados realizando o seu último jogo, um empate em 2 X 2, com o Olaria, pelo Campeonato Carioca.

Títulos. América, de Natal (RN), Campeão Potiguar (1919); Fluminense, do Rio de Janeiro. Campeão Carioca (1924); Botafogo. Campeão Carioca.(1930, 1932, 1933, 1934 e 1935); Torneio Interestadual. (1931); Seleção Brasileira. Copa Rio Branco. (1931); Campeão Brasileiro de Seleções estaduais, pelo Rio de Janeiro (cinco vezes) e artilheiro absoluto do Campeonato Carioca (1923, 1924, 1927, 1929 e 1933). (Pesquisa: Nilo Dias)

Nilo é o quinto maior artilheiro da história do Botafogo. (Foto:Acervo fotográfico do Botafogo Futebol e Regatas)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Morreu o homem que modernizou o futebol brasileiro


O futebol brasileiro perdeu na noite de ontem (20) um de seus mais legítimos símbolos. O ex-jogador e treinador, Mário Travaglini faleceu aos 81 anos de idade, depois de heroica luta contra um câncer no cérebro. Ele estava internado na Unidade Pompéia do Hospital São Camilo, em São Paulo, desde 6 de janeiro e não resistiu a complicações respiratórias associadas ao câncer.

O seu estado de saúde deteriorou muito no último mês, por isso a família chegou até a vetar visitas de amigos. Durante sua estada no Hospital São Camilo, os médicos notaram que o câncer no cérebro havia se espalhado para o pescoço e o pulmão. O sepultamento acontecerá às 17 horas de hoje no Cemitério do Araçá, na capital paulista. Travaglini era solteirão convicto e não tinha filhos.

Travaglini nasceu no dia 30 de abril de 1932, no bairro do Bom Retiro, em, São Paulo, local que desde o início do século 20 sempre reuniu vários clubes de várzea e foi o berço de fundação do S.C. Corinthians Paulista.

Desde pequeno Travaglini mostrou que tinha bola no pé. O talento como zagueiro impressionou Francisco Minelli, pai do ex-treinador Rubens Minelli, que o levou para fazer testes no Clube Atlético Ypiranga.

E não deu outra. Com apenas 16 anos de idade começou a jogar pelo time infantil ipiranguista, onde foi campeão paulista de 1948, seu primeiro título. Estreou no time profissional em 12 de setembro de 1953, quando o técnico Sastre o escalou num jogo frente o Corinthians, no Pacaembu, pelo Campeonato Paulista, que terminou empatado em 1 X 1.

Travaglini lembra que não estava preparado para jogar no time de cima. Estava no estádio para atuar pela equipe de aspirantes, quando foi surpreendido pelo técnico Sastre, que o escalou no lugar de Giancoli, que era o beque central e teve um problema de saúde. Jogou bem e a partir dali se firmou como jogador profissional.

Depois foi jogador do Palmeiras, em 1955. O time base era Laércio – Manuelito – Mário Travaglini – Valdemar Carabina (que já tinha jogado no Ypiranga)- Dema – Lima – Humberto Tozzi – Nei – Jair Rosa Pinto e Rodrigues.

Devido a uma contusão ele foi emprestado para o Nacional, de São Paulo. Jogou três meses lá. Como em 1955 havia se formado em Economia, conseguiu um emprego na Estrada de Ferro Santos - Jundiaí, e abandonou o futebol.

Vale ressaltar que na sua trajetória pelos gramados, Travaglini fez grande sucesso com o público feminino, que muitas vezes comparecia em massa aos estádios para vê-lo jogar e contemplar suas pernas.

Como jogador, a maior recordação foi ter enfrentado Pelé. Sobre o “Rei”, Travaglini costumava dizer que não o marcou, mas sim contemplou seu futebol. E foi adiante: “Era um cara tão fantástico que o que ele fazia com a bola é impossível de descrever".

Quem o viu jogar garante que se tratava de um zagueiro clássico, inteligente, no Ypiranga, no Palmeiras e no Nacional, capaz de achar um tempinho diário para se diplomar em Economia. Respeitava os adversários e a bola, também.

Passou um tempo e o Palmeiras o chamou para trabalhar nas Divisões de Base, pois o técnico Rubens Minelli havia sido contratado por outro clube, iniciando assim a carreira de treinador. 

Começou em 1963. Foi Campeão Infantil, Juvenil e Aspirante. Era também auxiliar. Na interinidade, dirigiu o Palmeiras por 10 vezes, ganhando o Campeonato Paulista de 1966, quebrando a hegemonia do Santos, de Pelé, a Taça Brasil no ano seguinte e também o “Robertão”. Ficou praticamente até 1971, quando começou a carreira como supervisor, que hoje chamam de gestor.

Ele pode ver as duas “Academias”, pois em 1971, quando Oswaldo Brandão estava chegando, foi Vice-Campeão Paulista contra o São Paulo. O técnico da primeira “Academia” foi Filpo Nuñes.

Travaglini dirigiu uma equipe dos sonhos: Valdir - Djalma Santos - Djalma Dias - Valdemar Carabina – Zequinha – Dudu - Ademir da Guia – Julinho – Servilio - Tupã e Rinaldo.

Depois foi para o Rio de Janeiro, onde começou no Fluminense, que precisava de um treinador para resolver alguns problemas, porque havia eleição no clube. Em vista disso assinou um contrato de risco, pois se a oposição vencesse, estaria fora.

O título de 1972 foi decidido contra o Flamengo, pois o Fluminense havia vencido a Taça Guanabara. E o rubro-negro foi campeão. Travaglini foi muito bem tratado nas Laranjeiras e aceitou o contrato de risco. As portas se abriram para ele, que foi para o Vasco em 1973.

No Vasco ficou mais tempo, cerca de três anos, sendo Campeão Brasileiro em 1974. Andrada – Fidélis - Miguel (que depois foi para o Fluminense) – Moisés – Alfinete - Alcir, Lê – Zanata - Jorge Carvoeiro e tinha o Luiz Carlos como quarto homem pelo meio. Na frente havia o Dé. Esse o time. Foi Travaglini que lançou Roberto “Dinamite” no time titular, com apenas 18 anos de idade.

Saiu do Vasco para ir para o Sport, de Recife. Lá ele ganhou o título do primeiro turno. Como teve um problema com um diretor, em razão de não ter vencido o segundo turno também, preferiu sair.

Voltou ao Fluminense em 1976 para ser campeão carioca, num time que tinha Renato - Carlos Alberto Torres – Miguel - Edinho e Rodrigues Neto - Carlos Alberto Pintinho - Paulo Cesar Caju - Rivellino e Dirceu - Gil e Doval. O esquema tático era o 4-4-2. O time era uma máquina.

Em 1978 fez parte da Comissão Técnica da Seleção Brasileira, na Copa do Mundo da Argentina, sendo supervisor técnico de Cláudio Coutinho. Passado isso, continuou na CBF (na época era CBD) e foi nomeado para dirigir as Divisões de Base.

Disputou o Campeonato Sulamericano, do qual foi Vice-Campeão, e depois o Panamericano de Porto Rico em 1979, quando o Brasil foi medalha de ouro. Em 1980 foi técnico da Portuguesa de Desportos, que tinha um jogador maravilhoso, o Enéas, que morreu tempos depois em um acidente de carro.

A Portuguesa ganhou o primeiro turno, e o Santos, o segundo. Um dia antes do jogo final o clube vendeu Enéas para o Bolonha, da Itália, e o Santos foi campeão.

Entre 1981 e 1983 comandou o Corinthians em plena “Democracia Corinthiana”, movimento idealizado pelo jogador Sócrates. Conquistou o título paulista já de cara. Foi Travaglini quem revelou o centroavante Casagrande, vindo das categorias de base do clube. Dirigiu o Corinthians em 122 jogos, com 63 vitórias, 39 empates e 20 derrotas.

Saindo do Corinthians foi dirigir o São Paulo, que já o havia convidado anteriormente, quando estava no Rio de Janeiro, treinando o Vasco da Gama. No tricolor paulista foi apenas vice-campeão em 1983, perdendo o título para o Corinthians.

Em 1984 voltou ao Palmeiras. Treinou novamente o Corinthians, em 1985. Em 1987 comandou o Vitória, da Bahia, onde foi campeão estadual. Em 1988 foi técnico do XV de Novembro, de Piracicaba. Teve uma passagem pelo Botafogo, de Ribeirão Preto, em 1989. Em 1992 dirigiu a Ferroviária, de Araraquara e no mesmo ano o São Bento, de Sorocaba (SP), onde encerrou a carreira de treinador. Ainda foi supervisor do Corinthians, em 1993.

A atividade com os treinadores seguiu também fora do campo: foi presidente quase eterno do Sindicato dos Treinadores do Estado de São Paulo, que ele ajudou a fundar. Também foi presidente do Centro Acadêmico Leão XIII, por ser formado em Economia pela Universidade Católica, de São Paulo.

Mário Travaglini não foi só um grande técnico, que dirigiu equipes que entraram para a história, como a “Academia do Palmeiras”, a “Democracia Corinthiana” e a “Máquina Tricolor” (Fluminense). Foi também responsável pela introdução de estratégias adotadas na Europa, que modernizaram os esquemas táticos no futebol brasileiro.

Em 2006 sua vida virou livro: “Mário Travaglini – da Academia à Democracia”, produzido em parceria com os jornalistas Mário Trevisan e Hélvio Borelli. (Pesquisa: Nilo Dias)

Aos 81 anos de idade morreu um dos maiores técnicos do futebol brasileiro, em todos os tempos. (Foto: LancePress)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A vergonha de Oruro


Quem acredita em Justiça? Muito pouca gente. Motivos são raros para que se acredite nisso. Basta lembrar a morte do menino Kevin Beltrán Espada, de apenas 14 anos de idade, ocorrida em 20 de fevereiro do ano passado, num jogo de futebol no Estádio Jesús Bermudes, em Oruro, Bolívia, valendo pela “Taça Libertadores da América”.

O menino teve sua vida ceifada pela irresponsabilidade de alguns delinquentes que se dizem torcedores do Corinthians Paulista, pertencentes a torcida organizada “Gaviões da Fiel”, que jogaram um sinalizador naval em direção a torcida do San José, time adversário.

Na ocasião 12 corinthianos foram presos pela Polícia boliviana e mantidos em cárcere por seis meses e depois colocados em liberdade. Com certeza nem todos os 12 eram culpados, mas também não se pode afirmar que a totalidade era inocente. Pelo menos dois deles tinham pólvora nas mãos, e ajudaram a colocar o sinalizador para dentro do estádio, o que também se configura como crime.

Tanto é verdade que no retorno ao Brasil alguns deles se envolveram em brigas em estádios e na recente invasão do Centro de Treinamento do próprio Corinthians. No Brasil, houve uma tentativa fraudulenta de colocar em um “laranja”, menor de idade, a responsabilidade pelo crime. E o processo no Brasil acabou arquivado o ano passado.

Agora, que o menor completou 18 anos, seu nome foi revelado. Trata-se de Hélder Alves Martins, que vive em liberdade no Brasil, já que seu processo foi arquivado. Atualmente trabalha em uma rede de cinemas e pretende fazer vestibular para Engenharia Macatrônica.

Ele não vai mais aos jogos do Corinthians e nem à quadra da uniformizada, já que foi acusado de ter levado os sinalizadores para Oruro, sem autorização da diretoria.

O próprio clube paulista, que merecia uma punição rigorosa e não sofreu, se colocou ao lado da bandidagem, dizem que até pagando advogados e conseguindo toda uma pressão política. A única coisa que queriam era tirar logo da Bolívia os 12 torcedores e trazê-los para o Brasil.

Existem fortes indícios de que o processo foi uma farsa. Na época da morte de Kevin, Roger Pinto Molina, senador de oposição na Bolívia, estava refugiado na embaixada brasileira. Durante o processo, cogitou-se que a intervenção direta dos dois governos em ambos os casos sugeririam uma troca de favores.

No fim, o político deixou a Bolívia de maneira clandestina, autorizado pelo ministro Eduardo Saboia, o mesmo que negociou a libertação dos 12 corintianos.

Além disso, o caso foi acompanhado de perto por autoridades de peso. Mário Gobbi, presidente do Corinthians, reuniu-se com dois ministros de Dilma para pedir ajuda. Depois da soltura dos brasileiros, Evo Morales, presidente boliviano, admitiu que teve influência no desfecho do caso.

Tivesse esse caso ocorrido na Europa, o Corinthians, com certeza, ficaria anos a fio excluído de qualquer competição esportiva de caráter internacional. A punição no Brasil se resumiu a um jogo com portões fechados e a devolução dos valores dos ingressos vendidos antecipadamente. Vergonha.

Só restou a dor de uma família atingida pela tragédia. Limbert Beltrán, um professor de classe média, pai de Kevin tem motivos de sobra para não acreditar mais em Justiça. Ele até que tentou levar o caso adiante, mas estava sozinho, ninguém o ajudou a continuar um processo fora do seu país. Limbert guarda a mágoa em dose dupla: ter perdido o filho e não ter conseguido justiça.

Logo após a tragédia ocorreram os discursos de sempre, que logo ali são esquecidos. Jogo para a platéia. O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, prometeu ajuda, colaboração à família. E o que fez depois? Nada, absolutamente nada.

E o presidente do Corinthians, então? Disse da boca para fora que a vida do menino morto não tinha preço, que queria ajudar com uma quantia em dinheiro. Chegou até a oferecer 200 mil dólares. Na hora de pagar havia baixado para 50 mil dólares.

Passaram-se 365 dias depois da tragédia na Bolívia, e a família de Kevin nunca viu a cor do dinheiro prometido pela Federação Boliviana de Futebol (FBF), que viria de um amistoso realizado com a Seleção Brasileira. O jogo foi realizado dia 6 de abril de 2013, o Brasil venceu por 4 X 0 e a renda somou R$ 1,087 milhão.

A FBF ficou com o total da arrecadação e prometeu doar cerca de R$ 42 mil (3,9%) aos pais de Kevin na semana seguinte ao jogo. O montante, porém, nunca foi repassado.

O próprio time do San José, da Bolívia, também não fez nada. A Conmebol usou a morte de Kevin para se promover, fazendo vista grossa para os torcedores, para as brigas e toda a violência.

Apenas duas instituições e uma pessoa ajudaram a família de Kevin, e sem fazer qualquer espetáculo ou divulgação disso. As instituições foram a do Club Bolívar, de La Paz, do Aurora, de Cochabamba, e uma pessoa do Brasil, de nome Fabiano, que, via Internet, doou 500 dólares. Só esses foram solidários.

Um ano se passou da morte de Kevin e apenas sobrou a impunidade. O sacrifício do jovem parece que de nada adiantou. Os estádios de futebol continuam dominados por multidões de delinquentes, patrocinados e protegidos por quem deveria reprimi-los, os dirigentes dos grandes clubes.

A Polícia também, teve sua parcela de culpa na tragédia, pois não revistou nenhum dos torcedores brasileiros que se acotovelavam em um dos portões do estádio. Esse foi o erro. Se tivessem feitos as revistas, ninguém teria entrado no estádio com sinalizadores.

Casa arrombada, tranca de ferro. Depois da morte de Kevin, uma nova lei foi implantada na Bolívia, proibindo o uso de artigos pirotécnicos em estádios de futebol. Mas a Conmebol nada fez no sentido de garantir mais segurança nos jogos que promove.

A falta de sensibilidade é tão grande, que o ano passado o presidente corinthiano, Mário Gobbi, ofereceu simbolicamente aos 12 torcedores presos em Oruro, o título de campeão paulista.

E pior. O que o presidente corinthiano falou, e saiu na imprensa, "que a grande lição dessa história toda, o mais doloroso foi 12 torcedores ficarem injustamente presos na Bolívia, e não a morte do garoto". Mário Gobbi desprezou a vida de um jovem de 14 anos que tinha um bom futuro pela frente e que respeitava todas as regras da sociedade.

Depois disso, nada mais restou ao pai do menino morto, do que questionar a dignidade de Gobbi, que desrespeitou à sua família. Fica guardada a indignação de Limbert Beltrán, que disse em alto e bom som:

“Quando penso nesse indivíduo, eu penso em alguém que está mergulhado em dinheiro, mas tem muita carência de valores e sentimentos. Acho que ele não tem filhos. Vou esperar que ele um dia tenha consciência moral e mude sua opinião. Que ele reflita sobre o assunto com o tempo. E que a família dele nunca sofra o que os seus “queridos” torcedores provocaram à nossa família”.

Aliás, cinco dos “queridos” torcedores protegidos por Mário Gobbi, depois de soltos na Bolívia e de volta ao Brasil, já foram protagonistas de cenas nada louváveis: três deles, Cleuter Barreto Barros, Leandro Silva de Oliveira e Fábio Neves Domingos, brigaram com torcedores do Vasco e com a Polícia Militar, em agosto do ano passado, em jogo do “Brasileirão”, realizado no Estádio Nacional de Brasília..

Outro dos “mártires” de Oruro, Tiago Aurélio dos Santos Ferreira foi preso hoje, depois de ter-se envolvido na invasão ao CT Joaquim Grava, no dia 2 de fevereiro, que teve agressões, inclusive ao atacante Guerrero, quebra-quebra, vômitos e cervejada.

Quem está preso há mais tempo é Raphael Machado Castilho Araújo, que foi detido por ter fugido de uma blitz e atirado contra policiais na Bahia. Ele ainda estava usando uma moto roubada. O corintiano foi baleado e teve que ser internado, mas escapou da morte. “Anjinhos”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Torcedores corinthianos estiveram presos por seis meses em Oruro. Na volta ao Brasil, alguns deles se envolveram em brigas e desordens. (Foto: Divulgação)

O pior futebol do Brasil


O futebol de Roraima é considerado o pior do Brasil. E tem motivos de sobra para isso, a começar pelo presidente da Federação local, José Gama Xaud, o “Zeca Xaud”, que em 2014 completa 40 anos no cargo. Ele assumiu a Federação em 1974, quando ela foi criada, e desde então vem conduzindo o precário futebol do Estado.

Ele até fala que é preciso uma renovação, mas não o deixam sair. Não aparece ninguém para lhe suceder. E disse que isso se deve ao fato de a Federação não ter dinheiro. E se arrisca a falar que se tivesse, teria um monte de candidatos.

Ele ressalta que apesar da crise, não deixa a entidade contrair dívidas. Garante que até tiraria dinheiro do próprio bolso, se preciso fosse. O mandato de “Zeca Xaud” termina no fim de 2014, mas foi prorrogado por causa da "Copa do Mundo". E segundo ele próprio, a idade – 70 anos – está começando a pesar.

Só para se ter uma ideia do tempo em que “Zeca Xaud” dirige o futebol roraimense, basta lembrar que quando ele assumiu, Pelé ainda jogava futebol, o Brasil era tri-campeão do mundo e Ricardo Teixeira, outro que se eternizou na direção da CBF – foram 23 anos -, ainda nem conhecia a filha de João Havelange, com quem se casou, tempos depois.

É um recorde nacional, talvez até mundial. São 11 mandatos ininterruptos. O campeonato estadual é tão desinteressante, que a média de público é de pouco mais de 50 torcedores por jogo. E pasmem, o ingresso é grátis.

Mesmo assim não chama a atenção dos torcedores. Qualquer campeonato amador de futebol, seja realizado onde for, é mais interessante que o Campeonato de Roraima, que só tem o nome de profissional.

Por lá acontecem coisas quase inacreditáveis. Um jogo entre duas equipes que disputavam o campeonato principal atrasou, porque um dos times esqueceu de levar o uniforme. Um cronista esportivo se ofereceu a emprestar um jogo de camisas, mas não foi preciso, porque o uniforme original foi finalmente levado até o estádio.

Em outro jogo aconteceu quase a mesma coisa. Em vez de esquecer o fardamento uma equipe não levou a documentação dos jogadores. Por pouco o jogo não foi cancelado. Outra coisa, o futebol de Roraima é o único no país que não tem “Segunda Divisão”.

Em 2010 o Atlético de Roraima tentou mandar seu jogo contra a Portuguesa de Desportos, pela Copa do Brasil, no Rio Grande do Sul, dizendo ter recebido uma oferta de empresários para isso. O presidente da Federação, "Zeca Xaud", disse que nada poderia fazer para impedir o jogo no Sul. A partida acabou ocorrendo em Roraima mesmo, com goleada do time paulista por 7 X 0.
       
Ainda que o futebol de Roraíma seja de péssima qualidade, o “Estádio Flamarion Vasconcelos”, popularmente conhecido por “Canarinho” foi reformado e sua capacidade aumentada para receber até 10 mil torcedores. A reforma custou cerca de R$ 100 milhões e foi executada pelo Governo do Estado, com recursos do Governo Federal.

A situação dos clubes é tão difícil, que até para contratar jogadores de fora é preciso muito jogo de cintura, pois ninguém quer jogar lá, devido a distância. O centro mais próximo de Boa Vista é Manaus, que fica a 800 quilômetros. Para jogar com time de outro Estado, só viajando de avião. E 70% da população local é de outras regiões do país e chegaram já como torcedores dos clubes de suas regiões. 

“Zeca Xaud” usa métodos paternalistas para se manter no poder. A Federação banca taxas de arbitragens, registros de jogadores e outras despesas. Mas mesmo assim os clubes estão afundados em dívidas e sem qualquer perspectiva de mudar essa situação.

O pior, a maioria dos presidentes de clubes estão também há décadas no poder. Quase não existem patrocínios de camisas, a TV não oferece contratos e nos estádios inexistem placas de publicidade.

O futebol no Estado profissionalizou-se em 1995 e contou com três equipes participantes no campeonato: Atlético Roraima e Baré ambos da capital, e Boa Vista e Progresso, da cidade de Mucajaí.

Nas décadas de 60 e 70 os roraimenses costumavam assistir os jogos no “Estádio João Mineiro”, que não existe mais. Ao que se sabe, o nome do estádio foi em homenagem a um pedreiro chamado “João Mineiro”. Ele foi o incentivador do futebol em Roraima, além de ter sido presidente de um time chamado Operário, cuja camisa era vermelha, azul e branca.

Na época o maior clássico do futebol local era o “Bareíma”, reunindo Baré X Roraíma. Depois de cada jogo, era costume do time vencedor sair pelas principais ruas da Capital numa carreata misturada com passeata, saindo do “Estádio João Mineiro” em direção a rua Jaime Brasil, no centro da cidade.

No portal do estádio João Mineiro tinha bilheterias separadas, para evitar confrontos entre os torcedores. Esta medida foi tomada em razão da grande rivalidade entre os torcedores dos dois times, na época. Quando do clássico, o estádio sempre lotava, chegando a receber público superior a dois mil expectadores.

Os torcedores lembram com saudade alguns bons jogadores que passaram pelo futebol de Roraíma, como Roberto Silva, que foi artilheiro durante 10 anos do Campeonato Amador, promovido pela Federação Riobranquense de Desporto (FRD). E também de Chico Roberto, ex-prefeito de Pacaraima, os irmãos Barac e Rubinho Bento, Newton Campos, chamado de a "Enciclopédia do Futebol Roraimense", Rubens Silva, o "Rubão", irmão de Roberto Silva.

Além de Idalmir Cavalcanti, Clóves Rates, Pedro Reis, Luciano Araújo e seu irmão Agacy Araújo, Augusto Monteiro, hoje diretor geral do Tribunal de Justiça, o próprio “Zeca Xaud, os goleiros Wilson Arruda, o “Pipira” e Alcides Lima, o “Alcidinho, Nelson Almeida, Pedro "Camarão" e Paulo Duarte, entre outros.

Em 1951 aconteceu um fato bastante pitoresco no “João Mineiro”. O médico Reinaldo Neves, que era uma pessoa muito impulsiva, não aceitou a marcação de um pênalti contra o Baré e foi até o árbitro reclamar. Disse que o pênalti não seria batido, o que realmente aconteceu. Além disso pediu que o juiz fosse substituído, o que também ocorreu, verificando-se um tremendo sururu em razão disso.

A demolição do “Estádio João Mineiro”, que ocupava um grande espaço em área nobre da cidade, aconteceu depois da inauguração do “Estádio Flamarion Vasconcelos”, o “Canarinho”. No local foi construída a Maternidade Nossa Senhora de Nazaré e uma praça. Mas uma parte da história do estádio ainda permanece de pé, o portal por onde os torcedores compravam os ingressos nos dias de jogos. (Pesquisa: Nilo Dias)

Do antigo "Estádio João Mineiro", só restou o portal de entrada, que foi restaurado e fica a frente da Maternidade Nossa Senhora de Nazaré. (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O "Rei do Passe"


Aníbal Medici Machado, apelidado “Candiota”, nasceu em Bagé (RS), no dia 14 de junho de 1900 e faleceu em 22 de janeiro de 1951, aos 50 anos de idade. Começou sua carreira de jogador de futebol no Guarany F.C., de sua terra natal, onde jogou de 1916 a 1918, transferindo-se depois para o Cruzeiro, de Porto Alegre (1918 e 1919) e para o Flamengo, do Rio de Janeiro (1919 a 1925).

Seu primeiro jogo pelo Flamengo ocorreu no dia 15 de Maio de 1919, na goleada de 5 X 0 sobre o Mangueira. “Candiota” marcou um dos gols. Em 1921, na decisão do Campeonato carioca, anotou o gol que deu o título ao Flamengo, quando faltavam 10 minutos para o término do jogo. Pelo rubro-negro carioca atuou em 118 jogos e marcou 50 gols.

Era conhecido como o “Rei do Passe”, devido a precisão de seus lançamentos. Ele foi o primeiro jogador bageense a ser chamado para a Seleção Brasileira, que defendeu entre 1920 a 1922. E foi também o primeiro jogador do Flamengo a marcar um gol pelo selecionado nacional, isso, no jogo Brasil 3 X 0 Paraguai, pela primeira fase do Campeonato Sul-Americano de 1921, disputado na Argentina.

Naquela ocasião o time brasileiro entrou em campo com Marcos Carneiro de Mendonça - Luiz Paulo Barata Fortes e José de Almeida Neto – Alfredo Silva – Lais e Antônio Galvão Bueno – Orlando Pires Pereira – Frederico Pinheiro – José Carlos Guimarães – Anibal Médicis Candiota e Ernesto Duarte Machado da Silva.

De volta a Bagé em 1925, jogou pelo G.E. Bagé que chegou a final do Campeonato Gaúcho daquele ano, quando enfrentou e venceu ao Grêmio Portoalegrense por 2 X 1, gols de Oliveira. O jogador “Feio” descontou para o time da capital.

O Bagé foi campeão com Júlio - Antônio e Fortunato - Misael Romero - Aníbal Machado e Catulino Moreira – Leonardo – Pasqualito – Oliveira - Páschoa e João. Em 1926 voltou ao Guarany, onde atuou de 1926 até 1932, quando encerrou a carreira.

Títulos. Pelo Flamengo. Campeão do Torneio América Fabril (1919, 1922 e 1923); Campeão Carioca (1920, 1921, 1925 e 1927); Campeão do Torneio Início (1920 e 1922); Taça Sport Club Mackenzie (1920); Taça Ypiranga Football Club (1921); Campeão do Troféu Carioca Football Club (1923); Campeão do Troféu Petropolitano Football Club (1923); Troféu Torre Sport Club – Pernambuco (1925); Troféu Agência Hudson – Pernambuco (1925); Troféu Jornal do Commércio de Pernambuco (1925); Troféu Sérgio de Loreto – Pernambuco (1925); Troféu Associação Paranaense de Desportos (1927) e Taça Dr. Affonso de Camargo (1927).

Pelo E.C. Cruzeiro, de Porto Alegre: Campeão Gaúcho (1918). G.E. Bagé: Campeão Gaúcho (1925); Guarany F.C., de Bagé: Campeão Gaúcho (1926, 1927 e 1932) 


Candiota, foi um dos grandes jogadores oriundos de Bagé. (Foto:Divulgação)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Caboclo Miró

José Mirobaldo Bastos Correia, o Mirobaldo, apelidado de “Caboclo Miró”, atacante que fez história no futebol brasileiro e português, nasceu em Aracaju (SE), no dia 31 de maio de 1946. Começou a carreira nas categorias de base do Confiança, em 1961. Depois foi para o Olímpico, também de Sergipe, onde jogou em 1965 e 1966.

Em 1967, defendeu o América, da capital sergipana. Voltou ao Confiança em 1968 e no ano seguinte transferiu-se para o Santa Cruz, de Recife (PE), a pedido do técnico Gradim, depois de um jogo entre os dois clubes.

A contratação de Mirovaldo mereceu festa da torcida “coral”. No primeiro treino do atacante, cerca de duas mil pessoas foram até o “Arruda”, na manhã do dia 2 de fevereiro de 1969, para vê-lo de perto.

Mesmo desambientado e sem ritmo, Mirobaldo fez um treino apenas razoável. A grande sensação naquele dia foi Rubens Salim que comandou o ataque do time reserva, na vitória por 5 X 1 sobre os titulares. Depois do treino, Mirobaldo assinou contrato com o Santa Cruz, com salários mensais de Ncr$ 700,00.

Um dia depois o Santa Cruz completou 55 anos de fundação, comemorados com um coquetel na sede social, e com a promessa da nova diretoria de fazer o clube retornar aos seus dias de glórias, já que não ganhava um título estadual desde 1959.

Os torcedores se mostravam ansiosos para ver o recém contratado em ação. Na noite de 6 de fevereiro de 1969 o atacante sergipano vestia pela primeira vez a camisa tricolor, num amistoso contra o Santo Amaro, também conhecido por “Vovozinhas”, no “Arruda”.

O apelido do Santo Amaro se devia ao fato do time ser patrocinado, na época, pelo radialista Alcides Teixeira, que tinha um programa radiofônico assistencialista com o nome de “Programa das Vovozinhas”.

O Santa Cruz ganhou por 7 X 1, com gols de Nivaldo (2), Alberi (2), Luciano Veloso, Fernando Santana e Mirobaldo, que marcou o seu primeiro gol com a camisa coral e foi poupado na segunda etapa do jogo.

O Santa venceu com Pedrinho (Lula Vasquez) – Noberto - Adevaldo (Edson) - Rivaldo e Valdir - Zito e Luciano Veloso (Inaldo) - Cuíca (Fernando Santana) - Uriel (Alberi) - Mirobaldo (Erandi) e Nivaldo. A renda foi de Ncr$ 3.484,00.

O Santa Cruz estreou no Campeonato Pernambucano dia 9 de fevereiro, no “Arruda”, sem contar com Mirobaldo, que ainda não tinha condição legal de jogo. O time venceu por 2 X 1 e a renda somou Ncr$ 8.829,00. Depois desse jogo vieram os festejos carnavalescos e a competição foi paralisada.

Aproveitando o recesso o Santa Cruz jogou um amistoso frente o Treze, de Campina Grande (PB), no “Arruda”, dia 12, com vitória de 3 X 0, gols de Fernando Santana, Luciano veloso e Mirobaldo, que já caíra definitivamente no gosto da torcida.

No dia 23, após a pausa carnavalesca, o campeonato recomeçou e o Santa Cruz goleou o América por 5 X 0, depois de um primeiro tempo em 0 X 0.

O goleiro “Jagunço”, do América, que também fez história no futebol pernambucano jogando pelo Íbis, fechou o gol no primeiro tempo, deixando a torcida preocupada. No segundo tempo, porém, com a entrada de Uriel no lugar de Erandi, a time deslanchou e chegou a goleada com facilidade. Uriel, Jaminho (contra), Zito, Luciano Veloso e Mirobaldo marcaram os gols do Santa Cruz. A renda somou Ncr$ 14.435,00.

O mês de fevereiro terminou com uma vitória de 2 X 0 sobre o Ibis. O placar não foi maior graças a grande atuação do goleiro adversário Omar. Os gols foram de Luciano Veloso.

No clube “Coral”, Mirobaldo ficou por três temporadas, 1969, 1970 e 1971. Suas grandes atuações no clube pernambucano fizeram com que o Farense, de Portugal o contratasse. Ficou no clube de luso de 1971 a 1976, quando se transferiu para o Vitória, de Setubal, onde permaneceu até 1979.

Nas suas andanças pelo futebol luzitano, foi jogar no Portimonense nos anos de 1979 e 1980. Já no final de carreira, atuou pela Segunda Divisão Portuguesa, defendendo o Desportivo Beja, em 1980 e 1981. Retornou ao Farense em 1981 e 1982 e vestiu a camisa do Olhanense de 1982 a 1984, quando encerrou a carreira.

Mirobaldo foi um dos raros jogadores estrangeiros a ter defendido os três “grandes” clubes da região da Algarvia, em Portugal: Farense, Portimonense e Olhanense. Era alto, 1m87, bom no cabeceio e dono de uma verdadeira “patada” com o pé esquerdo.

O ataque do Farense tinha Mirobaldo, Farias e Adilson, apelidado de M.F.A., as iniciais dos nomes dos jogadores. Foi o maior artilheiro do clube na época, marcando 42 gols em 127 jogos.

No Vitória, de Setúbal, atuou ao lado de grandes jogadores, como Jaime Graça, Jacinto João,Vitor Baptista e Fernando Tomé. E continuou a marcar gols, sendo o artilheiro do time na temporada 76/77, tendo marcado 15 vezes.

Também no Portimonense mostrou suas qualidades de artilheiro, marcando 10 gols em 25 jogos, na temporada 79/80. Era o capitão da equipe. No retorno ao Farense, que dessa feita estava na 2ª Divisão, anotou 12 gols em 21 jogos, na temporada 81/82. No Olhanense, seu último clube, mesmo com 37 anos deixou a sua marca de goleador. (Pesquisa: Nilo Dias)

 
 Mirobaldo quando jogava no Vitória, de Setubal, Portugal. (Foto: Divulgação)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Até que a Justiça seja feita

Eu venho acompanhando desde o início essa questão envolvendo a Portuguesa de Desportos, que foi alijada do Campeonato Brasileiro deste ano, embora tenha conquistado dentro de campo esse direito. Tenho uma opinião formada: o time paulista está sendo alvo de algo que parece ter sido decidido nos bastidores da última e decisiva rodada do campeonato do ano passado. Não sei o que aconteceu, mas que houve algo muito estranho, não tenho a menor dúvida.

Na véspera do jogo da Portuguesa de Desportos contra o Grêmio Portoalegrense, aconteceu o julgamento no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em que o jogador Héverton, do clube paulista foi condenado a dois jogos de suspensão, pela expulsão no jogo contra o Bahia, e já havia cumprido um deles.

Até aí, tudo bem. O advogado da Portuguesa, Osvaldo Sestário, esteve presente ao julgamento, e se comunicou ao clube o resultado, não sei. Existem controvérsias entre as partes: o clube garante que não foi comunicado e o advogado afirma que tentou contato com os dirigentes, sem êxito. Será que foi isso mesmo?

Sendo assim, a Portuguesa de Desportos não ficou sabendo da nova punição ao jogador. E o que fez? O óbvio, olhou no site da CBF e viu que nada de novo estava publicado lá. Do que se depreendeu que o jogador estava apto para jogar. Correto.

Héverton entrou em campo nos minutos finais de jogo com o Grêmio. Com o empate o clube do Canindé se livrou da ameaça do rebaixamento. E festejou isso. Na segunda-feira a surpresa: a CBF denunciou o clube por ter utilizado o jogador de forma irregular, pois tinha mais um jogo de suspensão a cumprir, e não o fez.

Mas o que mais me chamou a atenção foram declarações do presidente do Fluminense, logo após o jogo em que o seu time venceu o Bahia, e de nada adiantou. Ele não quis comentar o rebaixamento, dizendo que só falaria no outro dia. Porque? Será que ele já sabia do que estava por acontecer? Talvez.

O procurador do STJD, Paulo Schmith se antecipou ao julgamento, e em declarações a imprensa deixou transparecer que a Portuguesa de Desportos seria punida com a exclusão da Série A do Campeonato Brasileiro de 2014. Não poderia ter feito isso. Mas fez, sem que nada lhe acontecesse. Participou do julgamento normalmente. Outro colega seu, que fez a mesma coisa, foi afastado.

As decisões do STJD podem e devem ser anuladas, visto que o procurador Paulo Schimith está no cargo de maneira ilegal. Em 2009, o Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) definiu que os procuradores seguiriam as mesmas normas que o presidente do STJD: mandatos de dois anos, e só uma recondução. Na ocasião, Paulo Schmith já estava no cargo há três anos. Em 2010, foi eleito, e, em 2012, reeleito. Esses nove anos no cargo e duas reconduções violaram o CBJD.

O julgamento pareceu uma peça de teatro bem ensaiada. Os procuradores já vieram com os votos prontos de casa. Os advogados que falaram, perderam tempo. O caso já estava decidido. Houve o recurso e a repetição do teatro.

A Portuguesa de Desportos, através de torcedores entrou na Justiça Comum e conseguiu algumas liminares que devolviam ao clube os quatro pontos perdidos, e em consequência a sua permanência na Série A, com base no que diz o “Estatuto do Torcedor”. 

A CBF conseguiu derrubar todas as liminares, através de despachos de um único juiz, desembargador Dácio Tadeu Viniani Nicolau, e apressou-se em anunciar a tabela do “Brasileirão”, sem a Portuguesa e com o Fluminense.

Tudo muito estranho. É de se perguntar, como um juiz pode desconhecer que uma lei federal, o “Estatuto do Torcedor”, está acima da decisão de um órgão de entidade privada, como o STJD? Tudo isso merece uma apuração séria e necessária.

O pior não é isso. A ação visando devolver os pontos a Portuguesa teve inicio na 42ª Vara Cível Central de São Paulo contra a CBF, visando a anulação do julgamento do STJD. À essa ação foi concedida tutela antecipada para suspender os efeitos da decisão do tribunal esportivo. 

Mas em 14 de janeiro, duas novas ações - uma distribuída para a 2ª Vara Cível da Barra da Tijuca e a outra movida no Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos, ambos no Rio de Janeiro - obrigaram a CBF a cumprir o julgamento do STJD, contrariando a decisão do juízo paulista. 

Como isso foi posível, se todas as ações deveriam ser julgadas pelo mesmo juízo da ação de origem, ou seja, no foro da capital paulista? Mais uma vez, tudo muito estranho.

Outra coisa, o artigo 133 do CBJD é inconstitucional, porque abusa do principio da celeridade em detrimento da razoabilidade e da proporcionalidade. E pior, desrespeita o “Estatuto do Torcedor”. E o que diz o artigo 35, do “Estatuto do Torcedor”?

“As decisões proferidas pelos órgãos da Justiça Desportiva devem ser, em qualquer hipótese, motivadas e ter a mesma publicidade que as decisões dos tribunais federais”. O que quer dizer isso? Que toda e qualquer decisão judicial deve ser publicada antes de entrar em execução. E não foi o que aconteceu na decisão do STJD.

Recorrer a Justiça comum é um direito de qualquer pessoa ou entidade. A recente decisão dos clubes, em obediência a Rede Globo e a CBF, determinou que nenhum clube pode se valer da Justiça, que não a esportiva, para buscar seus direitos. Decisão inconstitucional, não vale nada. Nem Fifa, nem CBF pode ser maior que a Constituição de um país.

E é bom que não se esqueça da tentativa da CBF em subornar a Portuguesa de Desportos, acenando com um empréstimo de R$ 4 milhões, com clausulas especiais e vantajosas, para que o clube desistisse de se manter na Série A do Brasileirão.

E quanto ao Fluminense? É inegável que o clube conta com gente poderosa, a começar pela CBF e a Rede Globo. Se não vejamos: a escandalosa ascensão do clube da Terceira Divisão para a Série A, sem passar pela B, em 2000, na “Copa João Havelange”, que substituiu o “Brasileirão”, em razão do caso Gama.

Em 2010, o Fluminense deveria ter sido punido pela escalação do meia Tartá e até perder o título brasileiro. O jogador começou o Campeonato Brasileiro atuando pelo Atlético Paranaense, clube pelo qual recebeu dois cartões amarelos.

Ao retornar para o Fluminense, o jogador foi considerado suspenso pelo corpo jurídico do clube carioca depois de receber o primeiro amarelo pelo tricolor, quando na verdade o jogador já tinha recebido o terceiro cartão amarelo contra o Vasco, e, dessa forma, não poderia ter jogado contra o Goiás.

Na ocasião, no entanto, o procurador-geral do STJD, Paulo Schmitt disse que não havia “condição moral” para punir o Fluminense.Valia o resultado de campo. É de se perguntar: e porque contra a Portuguesa de Desportos foi diferente, o resultado de campo não valia mais?

E ainda tem o caso do Duque de Caxias, que foi absolvido pelo STJD, em 2010, pela escalação irregular de um jogador, na Série B do Campeonato Brasileiro. Punido com um cartão amarelo quando atuava pelo Ipatinga, Leandro Chaves tomou dois amarelos depois de se transferir para o clube carioca, o que, segundo a legislação desportiva, o obrigaria a cumprir suspensão automática. E não cumpriu. O que aconteceu? Nada.

Está mais do que claro que foi armado um complô contra a Portuguesa de Desportos. Mas o clube deve e vai continuar na luta por seus direitos. Na semana que vem deve entrar na Justiça Comum, enfrentando todos os obstáculos, mas com a Constituição brasileira ao seu lado. E paralelamente, os tribunais de todo o país vão se encher de novas ações, até que a Justiça seja feita. (Nilo Dias, Jornalista) 



terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O Príncipe cearense

João Erivaldo Queiroz Damasceno, conhecido apenas por Damasceno foi um dos melhores zagueiros do futebol cearense em todos os tempos. Era muito hábil no trato com a bola, o que não impedia de ser vigoroso na marcação aos adversários. Nasceu em Fortaleza, no ano de 1936.

Sua carreira de futebolista teve início no time amador do Atlético Cearense, do Montese, subúrbio de Fortaleza. Sua vida de rapaz pobre começou a mudar quando em 1951, João Brega, o “Jombrega”, na época técnico do Ceará, o viu jogando no campo do Colégio Piamarta.

De imediato o convidou para fazer um teste no alvinegro. E não decepcionou. O Ceará tinha um bom grupo de jogadores na época, com destaques para o lateral-direito William, Alexandre “Filé de Gia”, "Dico Camaroeiro” e Carneiro, lateral-esquerdo.

Em 1953 já era titular absoluto do time e considerado pela crítica cearense como tecnicamente superior a Vareta e Sapenha, do Fortaleza e Macaúba, do Ferroviário.

Naquele ano o Ferroviário sagrou-se campeão cearense, mas Damasceno foi um dos jogadores mais destacados do seu time e da competição. Só conseguiu colocar a faixa no peito nos anos de 1957 e 1958, quando o Ceará foi bicampeão estadual.

Jogou ao lado do volante paraibano Cláudio e dos laterais "Pelado", Clarindo e "Becão", este vindo do Calouros do Ar. Na seleção cearense junto do maranhense Carneiro, também do Ceará e de Filgueiras, alagoano que defendia as cores do "Usina Ceará", clube extinto, que por anos representou os funcionários da fábrica Siqueira Gurgel.

Jogou no Ceará Sporting por quase 10 anos, fazendo dupla com Alexandre Nepomuceno, outro zagueiro de grandes predicados técnicos. Os dois se completavam, um sabia onde o outro estava, mesmo sem se verem. Formaram o par verdadeiramente perfeito dentro de campo.

Damasceno foi apelidado de “Príncipe do Futebol Cearense”, pelo locutor esportivo Ivan Lima, quando o Vasco foi a Fortaleza para um amistoso com o Ceará, que venceu por 1 X 0, gol de Guilherme.

Para motivar a torcida e levá-la a campo, Ivan criou a história do confronto entre o “príncipe carioca”, Danilo, e o “príncipe cearense”, Damasceno. O apelido pegou e acompanhou o zagueiro em toda a sua carreira. Pelé já era o rei.

O zagueiro marcou grandes atacantes do futebol brasileiro, entre os quais Zagalo, Didi, Garrincha, Pelé, Mengálvio, Coutinho, Pepe e Dorval. Mas também destacou os jogadores cearenses Gildo e Mozart, como “terríveis”, capazes de desarticular qualquer zaga.

Damasceno ficou no Ceará até 1960, ano em que se transferiu para o Náutico, do Recife. No clube pernambucano jogou por três anos, até 1963. Depois de ter fraturado a clavícula fez acordo com o clube, se comprometendo a não jogar pelo Sport e Santa Cruz, retornando a Fortaleza, dessa feita para defender o Ferroviário.

Jogou no Ferroviário até 1967, quando completou 36 anos e resolveu encerrar a carreira.  Mas não abandonou o futebol, sua grande paixão. Aceitou um convite do Tiradentes, o time da Polícia Militar do Estado, para ser o seu treinador. Depois foi técnico do Guarani, de Sobral, Salgueiro, de Salgueiro (PE) e seleções de Marcanaú, Juazeiro e Tauá.

Em 1972, quando era técnico da Seleção de Juazeiro, levou consigo o atacante Geraldino “Saravá”, que tempos depois se tornou o maior artilheiro da história do estádio “Castelão”. Apesar de não ter muita intimidade com a bola, “Saravá” era um daqueles jogadores que se podia chamar de “matador”. Batia na bola como poucos, sempre escolhendo os cantos da goleira.

Damasceno prezava muito as amizades. Tanto é verdade que resolveu abandonar a carreira de treinador depois que o ex-zagueiro e seu grande amigo, Pedro Basílio, ter sido dispensado do Fortaleza, onde era o técnico. Foi uma injustiça muito grande, já que sob seu comando o time ganhou um turno invicto. Bastou perder o primeiro jogo no returno para ser mandado embora.

Damasceno morreu no dia 12 de outubro de 2008, aos 72 anos de idade, deixando 12 filhos e sete netos de dois casamentos. Na sua brilhante carreira, o “príncipe” Damasceno ganhou o troféu “Personalidades Esportivas Flávio Ponte”,  em 10 de dezembro de 2001.

Mesmo tendo sido um dos mais importantes jogadores na história do futebol cearense, o “Príncipe” ganhou muito pouco em sua carreira. Conseguiu uma aposentadoria por idade, graças a ajuda de um amigo do INSS, quando completou 65 anos.

Quando jogava, a situação era difícil, não guardou nem um documento que comprovasse o tempo de trabalho. A casa onde morava, no Bairro Vila União, foi construída na década de 1980, graças a ajuda de familiares. Isso, muito tempo depois de ter abandonado o futebol. (Pesquisa: Nilo Dias)

Seleção Cearense de 1954. Damasceno é o quinto em pé, a contar  da esquerda para a direita. (Foto: "Jornal Pequeno")

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Brasileiro morre na Ucrânia

O jogador de futebol Maicon Pereira de Oliveira, o “Maicon”, de 25 anos de idade, que pertencia ao Shakhtar Donetsk, da Ucrânia e estava emprestado ao Illichivets Mariupol, também da Liga Ucraniana, morreu na madrugada de ontem em um acidente de carro, perto da cidade de Donetsk. Maicon era carioca, nascido em 8 de maio de 1988.

Começou a carreira nas categorias de base do Fluminense, onde ficou de 2004 a 2006. Depois foi para o Flamengo onde jogou de 2007 a 2008. Em 2009, sem oportunidade entre os profissionais das equipes cariocas, assinou seu primeiro contrato de profissional com o Atlético Mogi, de Mogi Mirim (SP), e em seguida foi para a Europa contratado pelo Volyn Lutsk, da Ucrânia.

Em 2011, foi emprestado para o Steaua Bucaresti, da Romênia, por um período de três meses. Ao voltar para o Volyn Lutsk foi artilheiro do campeonato ucraniano, com 16 gols, e da Copa da Ucrânia, com 10 gols. Em 2 de julho de 2012 foi vendido para o Shakhtar Donetski, onde foi campeão ucraniano na temporada 2012/2013.

Sem muito espaço no clube ainda o ano passado foi emprestado para o Zorya Luhansk, também da Ucrânia, e depois para o Illichivets Mariupol, onde disputou a última edição do campeonato nacional. Em 2013/2014, Maicon somou 11 partidas, sendo todas como titular, e marcou três gols.

Embora estivesse emprestado, o Shakhtar Donetsk, dono de seus direitos federativos até 2015, cancelou todos os treinos programados para este sábado. O Shakhtar Donetsk é um clube grande, que conta com uma estrutura excelente.

É um dos clubes europeus que mais contrata jogadores brasileiros. Lá também jogam Wellington Nem, Fred, Bernard, Fernando, Eduardo da Silva, Luiz Adriano, Douglas Costa, Taison, Alex Teixeira, Ilsinho, Dentinho e Ismaily. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Um botafoguense revolucionário

Os torcedores do Botafogo, do Rio de Janeiro costumam dizer que algumas coisas só acontecem com o clube. A superstição andou sempre lado a lado com o alvinegro.  Talvez muitas pessoas nunca tenham ouvido falar em Djalma Dutra. Ele jogou no Botafogo desde o glorioso ano de 1910, em que o clube conquistou seu primeiro título de campeão carioca.

A bem da verdade, Djalma, nascido em 1895, recém estava chegando ao clube, para jogar na Escolinha de Futebol. O Botafogo foi pioneiro na organização de categorias de base, no Rio de janeiro. Sua primeira escolinha se chamava Carioca F.C., criada em 1905. Depois foi extinta e o clube fundou em 1908 o Botafogo Infantil.

Djalma Dutra foi um dos astros dessa equipe. Em 1910, enquanto o time principal se sagrava campeão, os infantis venciam o maior rival da época, o Fluminense e levantavam o caneco do “Torneio Infantil”.

Foram dois jogos para decidir quem seria o campeão. No primeiro, realizado dia 30 de Junho de 1910, o Botafogo ganhou por 4 X 2. Os gols foram anotados por Paulo Azeredo e Mário Pinto, dois cada um. O time formou com Waldemar - Adolfo Couto e Carlos Amorim -  Ewaldo - Rui Bandeira e Paulo - Jorge Martins - Djalma Dutra - Mário Pinto - Paulo Azeredo e Tavares.

A segunda partida aconteceu em 3 de julho de 1910, om nova vitória botafoguense, dessa feita por 2 X 1. Mário Pinto e Djalma Dutra fizweram os gols. O campeão mandou a campo Mário - Augusto Tavares e Carlos Amorim - Adolfo Couto - Ewaldo e Kiki - Luiz Menezes - Djalma Dutra - Mário Pinto - Paulo Azeredo e Burlamaqui.

Djalma Dutra tinha tudo para seguir uma carreira exitosa no futebol. Quando chegou na idade de servir ao Exército, sua vida mudou por completo. Com espirito idealista, lutou com ardor por causas em que acreditava.

Cursou a Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, e em 1922 já estava envolvido em movimentos revolucionários. Foi considerado desertor quando servia no regimento de Dom Pedrito (RS), terra do operador deste blog e juntou-se a “Coluna Prestes”.

Depois que as tropas comandadas por Luiz Carlos Prestes, já desgastadas pela longa marcha, terem abandonado o território brasileiro, encerrando aquela fase da luta, exilou-se na Argentina junto com a maioria dos demais líderes revolucionários.

Em 1929, Djalma veio clandestinamente ao Brasil, junto de Siqueira Campos, que fora um dos líderes da “Coluna Prestes”, para preparar uma insurreição em São Paulo. A policia paulista os localizou em uma casa da rua Andrade e esperou que saíssem, recebendo-os à bala. Siqueira Campos regaiu também atirando, conseguindo escapar.

Djalma Dutra foi preso e levado para o Rio de Janeiro, tendo conseguido fugir pouco tempos depois, para  juntar-se novamente ao movimento revolucionário.

Com a derrota da candidatura de oposição a Getúlio Vargas nas eleições presidenciais, Djalma regressou para São Paulo em março, para preparar a deflagração do movimento armado que visava depor o presidente Washington Luís. Em Outubro, quando teve início a “Revolução de 1930”, encontrava-se em Minas Gerais, onde tomou parte em combates.

O movimento revolucionário do qual fazia parte ganhou força a partir do rompimento entre as oligarquias paulista e mineira, ambas ligadas a interesses de produção e exportação de café. Djama Dutra morreu em outubro de 1930 quando tomava parte na tomada do 4º Regimento de Cavalaria, sediado em Três Corações (MG).

Teve participação destacada na “Coluna Prestes”, tendo sido comandante de um dos quatro destacamentos em que se dividia o exército rebelde, que percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil entre 1925 e 1927.

Sua história não foi esquecida. Tanto é verdade que hoje é nome de rua em São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Recife, Manaus, Salvador, Belém, Presidente Prudente (SP), São Bernardo do Campo (SP),Araraquara (SP),  Olinda (PE), Niterói (RJ), Santos (SP), Senhor do Bonfim (BA), Pilares (SP), São José dos Pinhais (PR), Bacabal (MA), Escada (PE), Camamau (BA), Brejo Alegre (SP), São Sebastião do Paraíso (MG), Cruzeiro do Sul (AC), Nova Cruz (RN), Caruaru (PE), Iararé (SP), Glória do Goitá (PE), Altamira (PA), São João do Rio Peixe (PB), São Vicente (SP), Poções (BA) e Carpina (PE).

Além de identificar ruas em todas essas cidades, Djalma Dutra é nome de uma estação ferroviária e de um time de futebol amador em Divinópolis (MG). Djalma Dutra também foi nome da cidade baiana de Poções, durante algum tempo, mas em 1943 voltou a denominação anterior.

Para completar, Djalma Dutra também empresta seu nome a um vapor que transporta passageiros no rio São Fracisco, denomina um hospital municipal em São Luiz (MA) e a uma estação de metrô em São Paulo. (Pesquisa: Nilo Dias)