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terça-feira, 8 de abril de 2008

O folclórico Gentil Cardoso

Gentil Cardoso foi talvez o mais folclórico técnico do futebol brasileiro. Ele começou a carreira de treinador no F.B.C. Rio-Grandense, de Rio Grande, por quem foi campeão gaúcho em 1939. Depois de Rio Grande, onde foi oficial da Marinha, Gentil Cardoso ganhou o Brasil e o mundo. Treinou vários clubes do futebol brasileiro, entre os quais Fluminense, Bangu, Vasco da Gama, Portuguesa de Desportos, Ponte Preta, São Paulo, Sport Recife, Santa Cruz e Náutico. Foi o primeiro negro a ser contratado pelo Náutico do Recife em 59 anos de existência.

Também treinou a famosa seleção pernambucana, chamada de “Cacareco”, que representou o Brasil no Sul-Americano Extra do Equador, em 1959. No exterior dirigiu o Sporting, de Lisboa, Portugal. Gentil Cardoso foi considerado um dos melhores treinadores brasileiros na época, mas ganhou fama pela facilidade de criar frases que entraram para o folclore do nosso futebol.

O técnico do Flamengo Joel Santana chama a atenção pela inseparável prancheta. Gentil, pelo quadro negro que usava para explicar táticas aos jogadores, recurso que ele aprendeu numa das viagens à Europa, quando ainda era marinheiro. Também não se separava do boné, outra de suas marcas registradas.

São muitas as passagens hilariantes atribuídas ao gordo treinador. Vamos conferir algumas delas:

Em 1946, contratado pelo Fluminense, prometeu: “Dêem-me Ademir de Menezes que lhes dou o título”. O jogador veio e o título, também. Depois voltou ao Vasco da Gama e repetiu a promessa. Não deu outra, faixa no peito de novo.

Em 1952, correu um boato de que o Vasco pretendia mandá-lo embora. Um repórter perguntou o que ele achava disso e a resposta foi imediata: “Eu estou com as massas, e as massas derrubam até governos". No outro dia foi despedido.

Foi Gentil Cardoso que lançou Garrincha no futebol carioca. O “homem das pernas tortas” chegou a General Severiano, em 1953, encaminhado pelo lateral Arati, para fazer testes. Disse que jogava de meia-direita no Palmeiras de Pau Grande, sua terra natal. Gentil olhou um treino e disse que ele seria ponteiro-direito, pois sua grande virtude era a arrancada.

Falavam na época, ninguém assegura se é ou não verdade, que antes do primeiro treino de Garrincha com os profissionais do Botafogo teria ocorrido este diálogo entre o técnico e o jogador: "Você joga de que, meu filho?", perguntou Gentil Cardoso. "De chuteiras, moço." Caíram todos na gargalhada e o garoto, chateado, tentou remendar: "Se quiser, posso jogar descalço. Não ligo para isso". De cara amarrada, o treinador explicou: "Qual é a posição?".

Gentil o colocou na ponta direita do time reserva, e ele descadeirou ninguém menos do que Nilton Santos, a “Enciclopédia do Futebol”, já consagrado como um dos maiores laterais do futebol brasileiro e mundial de todos os tempos. Anos depois, quando Garrincha já estava morto, Nilton Santos costumava dizer: "A bola era a maior amiga e a principal distração daquele garoto. Era só o que ele sabia fazer".

Mas, continuemos com o folclórico Gentil Cardoso: uma tarde, depois de uma derrota e cercado de repórteres alguém lhe perguntou por que havia perdido o jogo. E a resposta veio sem meias palavras: “Perdemos, porque o adversário fez mais gols".

Num treino do Vasco, um jogador “cabeça-de-bagre” tentou dar uma bicicleta e caiu no chão. Gentil, que olhava tudo, não agüentou e soltou esta frase antológica: “Meu filho, você já é ruim chutando em pé, imagine de cabeça para baixo’’.

Num treino da equipe juvenil, Gentil Cardoso se preparava para substituir um garoto alto e magro, ruim de bola, quando um sócio do clube gritou do outro lado da cerca: ”Aquele lá é meu filho. Sempre quis que ele crescesse e se tornasse um craque”. Gentil olhou nos olhos do pai coruja e cinicamente disse: ”Bem, pelo menos ele cresceu direitinho”.

Nos anos 50 jogava no Vasco um goleiro chamado Bituca, que tinha um medo terrível de mandinga. Gentil Cardoso treinava o Bangu e pediu ao atacante Mário que levasse para o campo uma mistura de areia e talco e jogasse na cabeça do goleiro, dizendo que era feitiço. Dito e feito. Mal começou o jogo e Bituca aceitou um frango fenomenal. Daí a pouco novo gol numa bola defensável. E um gol atrás do outro, para desespero do técnico vascaíno, Aimoré Moreira, que gritava: “Pega a bola, safado! Pega a bola”. E Bituca, quase chorando respondeu: “Não posso, tô macumbado”.

Em outra ocasião um jogador não parava de dar chutões para o alto. Irritado, Gentil Cardoso chamou o moço e perguntou: "Meu filho, bola é feita de quê?" “De couro seu Gentil”. "E couro, meu filho, vem de onde?" “Da vaca seu Gentil”. "Então, meu filho, aprende: vaca gosta de grama, bola gosta de rolar na grama”.

Quando era treinador da Ponte Preta, Gentil Cardoso levou um megafone para dentro de campo, durante um jogo amistoso. Na época jogava no time de Campinas, um volante de nome Pepino, muito bom de bola. Gentil pedia aos seus jogadores que tocassem a bola sempre de primeira. E gritava: "Zezinho, lança para o Marcos na esquerda. Isso, muito bem". Como era um jogador altamente técnico, Pepino abusava dos dribles, antes de fazer o passe. Gentil Cardoso não perdoava: "Eu falei pra você passar de primeira, Pepino".

No outro dia Pepino colocou as mãos na cintura, olhou para o treinador balançando a cabeça e mostrando-se contrariado. Gentil Cardoso não perdeu tempo, estufou o peito e gritou: "É a sua". O médico do clube, surpreso, disse ao treinador: "Mas ele não falou nada..." "Não falou, mas pensou", disse Gentil.

Foi Gentil Cardoso que criou a expressão “zebra”, hoje tão popular no futebol e que explica a vitória de um time pequeno, contra um grande: “deu zebra”. Gentil treinava a Portuguesa carioca, que no domingo ia jogar contra o Vasco. Um repórter perguntou o que o técnico achava do jogo: “Vai dar zebra”, foi a resposta. E deu, a Portuguesa cometeu o “crime” e venceu. A zebra, que não existe no Jogo do Bicho, simboliza o improvável na Loteria Esportiva.

Treinando a seleção “Cacareco”, Gentil conseguiu a proeza de derrotar a poderosa seleção paulista em jogo pelo campeonato brasileiro de seleções por 4 X 2. A equipe de São Paulo tinha craques como Pelé, Gilmar, Olavo, Zito, Julinho e Chinezinho. No lado pernambucano, os jogadores só eram conhecidos em Pernambuco.

Para finalizar, algumas frases célebres atribuídas ao grande treinador: "Quem se desloca, recebe, quem pede, tem preferência"; “Treino é treino, jogo é jogo”; "Quem não faz, leva"; “O craque trata a bola de você e não de Excelência"; “Futebol é uma caixinha de surpresa”; "Eu quero que vocês corram atrás da bola como se ela fosse um prato de comida". E a última frase da sua vida, quando estava no hospital, dias antes de morrer: “Eu quero sair daqui na vertical e não na horizontal”. Não deu. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)

Um comentário:

M. Exenberger disse...

Parabéns pelo texto.