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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Operários fundaram o S.C. Corinthians Paulista

Operários fundaram o S.C. Corinthians Paulista
O S.C. Corinthians Paulista, uma das mais tradicionais e populares agremiações futebolísticas do país, completa hoje 98 anos de fundação. Mesmo com o clube buscando saída para uma séria crise administrativa, que vem enfrentando desde o ano passado, os torcedores têm bons motivos para comemorar tão auspiciosa data: a diretoria não tem poupado esforços para recolocar o “timão” no seu devido lugar. O retorno à elite do futebol brasileiro é só uma questão de tempo. O time lidera absoluto a Série B e não tem tomado conhecimento dos adversários.

O Corinthians tem origem humilde. Nasceu no meio do povo. Os trabalhadores da São Paulo Railway, Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, César Nunes, Rafael Perrone, Anselmo Correia, Alexandre Magnani, Salvador Lopomo, João da Silva e Antônio Nunes decidiram fundar um clube de futebol de raízes populares.

Para tal, sobre a luz de um lampião de gás foi realizada uma reunião no dia 01 de setembro de 1910, às 20h30min, frente a uma confeitaria, localizada na casa de número 34 da avenida dos Imigrantes (hoje José Paulino), na esquina da rua Cônego Martins, no Bom Retiro. O hoje importante bairro comercial da metrópole, na época era uma área operária, onde moravam milhares de trabalhadores da São Paulo industrial do começo do século XX. A população era na maioria formada por imigrantes italianos, portugueses e espanhóis. Para essa reunião foram convidados vários outros desportistas que mostraram interesse pela idéia, entre eles Miguel Bataglia, funcionário da Light e primeiro presidente do clube.

As coisas começavam a andar, mas era preciso definir algumas situações, como o nome do novo clube. Sugestões não faltaram: Santos Dummont, Carlos Gomes e até Guarani, mas nenhum agradou. Foi então que o pintor Joaquim Ambrósio teve a idéia de homenagear o time de estudantes ingleses, Corinthian Casuals Football Club (homenagem à cidade grega de Corinto), que excursionava por São Paulo e Rio de Janeiro. Nos jogos que disputou no antigo estádio do Velódromo (na área do bairro da Consolação), esse time encantou muita gente pela beleza de seu futebol, inclusive Ambrósio. Na mosca. Não havia escolha melhor. A letra "s" foi acrescentada ao nome, e o clube passou a chamar-se Corinthians.

O curioso é que o clube inglês também foi fundado à luz de um lampião de gás, mas com uma diferença enorme: seus fundadores eram alunos de Oxford e Cambridge, universidades freqüentadas por pessoas da elite inglesa, geralmente filhos de burgueses. O novo Corinthians Paulista seria o oposto dessa situação, um clube de gente pobre e humilde. Tanto é verdade que a primeira bola do time foi comprada por 6 mil réis, dinheiro arrecadado em uma lista que passou de casa em casa pelo bairro.

Agora só faltava entrar em campo. E isso aconteceu pela primeira vez em 10 de setembro, apenas 10 dias após a fundação. O adversário foi o União da Lapa, destacada equipe da várzea paulistana. Era esperada uma goleada, até porque o jogo seria fora de casa, mas isso não aconteceu, o resultado foi apenas 1 X 0, aclamado como se fosse uma vitória. No segundo jogo, realizado quatro dias depois, a primeira vitória: 2 X 0 sobre o Estrela Polar. O autor do primeiro gol da história corinthiana foi o atacante Luis Fabi. E seguiram-se dois anos de invencibilidade.

Ganhando fama de verdadeiro “bicho-papão”, o número de torcedores cresceu bastante. Eles vinham de várias partes da cidade, não só do Bom Retiro.

Muitos dos primeiros sócios e torcedores do Corinthians eram imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, que às vezes não tinham dinheiro para pagar a mensalidade, devido à sua situação financeira, mas sempre davam um jeito de acertar as contas. E alguns dos jogadores que passaram pelo clube no seu início, também, como o espanhol Casemiro Gonzáles, o português Horácio Coelho e o italiano Américo Fraschi.

Hoje em dia a situação mudou pouco: os torcedores são de todas as classes, mas a maioria é da camada mais pobre da população. O clube tem a segunda maior torcida do país, ficando atrás apenas do Flamengo. Já os sócios do clube atualmente são, em maioria, da classe média paulista, e não da massa proletária, como antes. Até a localização do clube mudou: hoje está no Tatuapé, bairro de classe média.

Com os bons resultados dentro de campo, a diretoria começou a pensar em vôos mais altos: disputar o Campeonato Paulista de 1913. A Liga Paulista resolveu dar uma chance, mas o Corinthians teria que disputar uma eliminatória contra o Minas Gerais e o São Paulo do Bexiga. Não deu outra, dois jogos, duas vitórias, 1 X 0 no Minas Gerais e 4 X 0 no São Paulo do Bexiga e o direito de disputar o Paulistão.

A estréia oficial não foi boa, uma derrota para o Germânia, por 3 X 1. Joaquim Rodrigues fez o gol corinthiano, o primeiro em partidas oficiais, escrevendo seu nome na história do clube. Nessa primeira experiência, o “Timão” acabou o campeonato em quarto lugar. No segundo ano, em 1914, o Corinthians começou a mostrar para que veio. Foi campeão com uma campanha espetacular: 10 jogos e 10 vitórias, com 39 gols marcados e goleadas que não acabavam mais. Neco, com 12 gols se sagrou o artilheiro da competição. Começava assim a bonita história futebolística do Sport Club Corinthians Paulista, o mais brasileiro dos clubes.

Nos primeiros tempos, como consta em ata, o clube oferecia aos sócios pic-nics, saraus, torneios de ping-pong e matchs (partidas) de futebol. O Corinthians nunca foi só futebol. Inclusive, a primeira taça conquistada pelo clube veio do pedestrianismo em 1912, quando três competidores corintianos chegaram nas três primeiras colocações na prova disputada no estádio do Parque Antártica.

Os anos se passaram, muitos títulos e situações aconteceram na vida desse grande clube, como a bola quadrada até hoje guardada no clube, que foi jogada em campo não se sabe por quem. Outro caso é do torcedor José da Costa Martins que, na década de 20, a cada gol que o Corinthians marcava acendia um charuto. Por isso ele ficou conhecido como torcedor "mosqueteiro corinthiano" (mascote do time), que está sempre fumando um charuto.

E tem a história de Manuel Nunes, o Neco, primeiro grande craque e maior ídolo corintiano nestes 98 anos. Antes de jogar no time, quando era apenas um torcedor ele participou de um episódio inusitado, que ajudou o Corinthians a se manter vivo. O clube, em seus primeiros anos de vida passava por difícil situação financeira, não conseguindo pagar o aluguel da pequena sede. O dono trancou as portas com tudo o que havia de patrimônio do clube dentro, inclusive as primeiras atas e a Taça Unione Vigiatori Italiani, o primeiro troféu.

Tudo seria perdido se não fosse Neco e alguns amigos que na calada da noite arrombaram a sede pela janela, e retiraram todos os pertences do clube. Poucos anos depois, ele se tornaria um dos maiores jogadores da história do Corinthians.

O Corinthians sempre enfrentou preconceitos. No início, porque era um time de operários, hoje pela rivalidade que tem com outros clubes paulistas e brasileiros. Sabe-se que um dos primeiros jogadores negros do futebol brasileiro, Davi, jogou no Corinthians, mas somente no segundo quadro, pois se fosse titular o clube dificilmente seria aceito no campeonato.

Mesmo assim, em 1915 o Corinthians foi excluído do campeonato paulista, embora tenha sido o campeão em 1914. Os grandes times paulistas estavam divididos, entre duas ligas: a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA) e a Liga Paulista de Futebol (LPF). A primeira convidou o Corinthians a participar de seu campeonato de 1915, por interesses financeiros. Então, o alvinegro saiu da LPF e foi à APEA, mas, na hora de competir, não foi aceita sua participação, e também não pôde voltar à LPF, ficando fora dos dois campeonatos.

O preconceito existente no início da história corintiana se devia ao fato da elite paulistana, participar de clubes grandes, como o Paulistano, São Paulo Athletic e Mackenzie, e não aceitar que em seus campeonatos, se inserisse pessoas da classe mais baixa. E muito menos perder para um time de bairro, formado por operários que muitas vezes eram seus subordinados. Isso deixava os elitistas muito irritados, a ponto de tentarem tirar o clube das competições.

O Corinthians cresceu até chegar aos dias de hoje como uma das maiores forças do futebol brasleiro. E continua a derrubar preconceitos e a enfrentar dificuldades, mas vencendo todas, uma a uma. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)