Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Restabelecendo a verdade

O jornalista riograndino, Willy César através de um minucioso trabalho de pesquisa, conta toda a verdade sobre a polêmica história da "Taça Serrada", que está exposta metade na sede do S.C. São Paulo, metade na sede do S.C. Rio Grande.

O assunto já foi tratado neste blog, mas com falhas que agora são esclarecidas. Mesmo passados 70 anos, o acontecimento traz ainda repercussão, inclusive nacional. Recentemente a revista do canal televisivo "ESPN Brasil" publicou matéria a esse respeito, com as fotos que estão inseridas abaixo, e que foram tiradas pelo jornalista Willy César, a quem o colunista titular deste blog, agradece pela valiosa colaboração prestada.

A incrível história da taça serrada

Por Willy Cesar

Jornalista, autor do livro "Um século de futebol popular – A história do Sport Club São Paulo", a ser publicado neste ano de 2011.

Afinal, porque razão o Sport Club São Paulo e o Sport Club Rio Grande tem cada um, em seu acervo de troféus, uma taça cortada ao meio, referente a um torneio jogado em 1940?

Em 2010, quanto perguntamos a pessoas da rua, na cidade do Rio Grande, a resposta é: “o torneio terminou empatado depois de sucessivas partidas e cobranças de pênaltis, sem que se chegasse a um resultado. Então a taça foi dividida entre os dois clubes por uma decisão do árbitro da última partida”. É, também, o que está escrito no site oficial do S.C. São Paulo, na internet.

Setenta anos depois que o São Paulo entregou a metade ao Rio Grande, a história da taça dividida ainda repercute e gera controvérsias. Voltemos ao início desse incrível episódio do futebol rio-grandino, para entendermos melhor o que se passou.

A hegemonia do esporte das multidões estava com o Foot Ball Club Rio-Grandense no final da década de 1930. Os clubes, "Caturrita" (São Paulo) e "Veterano" (Rio Grande) não conseguiam ganhar o campeonato da cidade, e o "Guri Teimoso" (Rio-Grandense) é que seguia sempre para as disputas do Campeonato Estadual de Profissionais (o "Gauchão" de hoje). Em 1938, o Rio-Grandense foi vice-campeão, mas em 1939, arrebatou o título estadual. Quanto aos títulos da cidade, desde 1937, a vitória era colorada.

Que fizeram os dois antigos rivais? Uniram-se para tentar derrubar a invencibilidade do "Guri Teimoso". Surgiu então o "Eixo Rio Grande-São Paulo", isto é, uma união informal extra-campo. Essa expressão nos remetia ao eixo Berlim-Roma-Tóquio, formado antes do início da Segunda Guerra Mundial. O "eixo" dos clubes de Rio Grande apareceu na imprensa por pouco mais de um ano, porque a expressão se tornou politicamente incorreta, quando Alemanha, Itália e Japão mostraram a cara da guerra de conquista, a partir de setembro de 1939.

A expressão foi suprimida, mas a amizade entre "Veteranos" e "Paulistas" continuou. Era evidente que isso incomodava ao Rio-Grandense, mas os três times continuavam jogando entre si. Até que surgiu um rompimento, quando o Rio Grande não compareceu a um jogo contra o Rio-Grandense marcado pela Associação Rio-Grandina de Futebol (ARGF). Na mesma data e hora, o "Veterano" estava em campo, mas para jogar a decisão de um outro torneio com o seu companheiro do eixo. "Que desaforo!", protestaram os "Colorados". Rio Grande e São Paulo romperam com o Rio-Grandense, se afastaram do campeonato e foram punidos com multas pela ARGF.

Resultado: sem os dois amigos do "eixo", o campeonato da cidade perdeu o interesse e ninguém mais foi assistir partidas sem graça. Esses incidentes aconteceram em maio de 1940 e por dois meses, os estádios ficaram às moscas.

A Federação Rio-grandense de Futebol (atual Federação Gaúcha) promoveu uma reconciliação entre os clubes, para salvar as rendas do futebol. A ata da pacificação foi assinada em 25 de julho de 1940, na capital do Estado, pelo presidente da Federação, Cícero Ahrends, e representantes dos clubes. A amizade entre Saõ Paulo e Rio Grande era de tal ordem, que o presidente veterano, J.J. Oliveira Cardoso, foi quem assinou a ata pelo clube caturrita. Nesse documento, as multas aplicadas aos clubes do "eixo" foram anuladas, ficando estabelecido que o campeonato da cidade continuaria, e que haveria um torneio de confraternização entre os três clubes.

A Federação ofereceu a taça para o torneio, que seria disputado em apenas três partidas, por contagem de pontos, em campo neutro, saindo daí o campeão. O calendário foi publicado na ata: 28 de julho, no campo do "Veterano", jogaram São Paulo 4 x 1 Rio-Grandense; 4 de agosto, no campo do Rio-Grandense, Rio Grande 1 x 1 São Paulo; e em 11 de agosto, na "Linha do Parque", Rio Grande 2 x 4 Rio-Grandense.

O torneio foi vencido pelo São Paulo, com três pontos; seguido pelo Rio-Grandense, com dois pontos, e em último, o Rio Grande, com um ponto. A pergunta agora é: qual a necessidade de se jogar outras partidas e/ou recorrer a pênaltis, se houve um vencedor?

O jornal "Rio Grande", de 12 de agosto de 1940, ao fazer a cobertura da terceira e última partida do "torneio da paz", anunciou em sub-título, na página 3:

"São Paulo conquistou a Taça Confraternização"

E no dia 21 de outubro de 1940, voltou a informar que a taça inteirinha fora entregue ao São Paulo, na véspera, no estádio da "Linha do Parque", onde o prefeito de Rio Grande, Roque Aíta Júnior, discursou em homenagem ao campeão do torneio e à pacificação do nosso futebol. No corpo da taça está escrito:

Taça Confraternização
Oferecida pela FRGD
Vencedor S.C. São Paulo
1940

Dois meses depois, a direção do São Paulo decidiu, por sua livre e espontânea vontade, que metade da troféu seria entregue ao seu "arqui-amigo" Rio Grande. Para fazer isso, foi preciso levar o artefato de metal às oficinas da Viação Férrea, onde uma serra elétrica dividiu-a em duas partes iguais, fixando-as sobre bases em madeira. A metade que foi entregue ao clube irmão recebeu a mesma gravação da outra parte, no copo, e uma plaqueta de metal em oferecimuento, onde se lê:

Sport Club São Paulo
ao
Sport Club Rio Grande

A entrega foi feita pela diretoria do São Paulo, na sede do Rio Grande, em 26 de dezembro de 1940. A amizade dos antigos companheiros do "eixo" foi a única razão para o gesto incomum. A decisão tornou esse fato único na história do futebol, até hoje não reproduzido na literatura brasileira sobre o assunto.

É aqui que começa a lenda. Décadas depois, ninguém se lembrava que a motivação foi assim tão simples e singela. A partir dos anos 1960, a imprensa de Rio Grande e da capital, começou a publicar a historinha da taça cortada ao meio, após entrevistar dirigentes dos clubes e esportistas da época. Nota-se que esses se socorreram da linguagem do futebol e de suas práticas, que prevêem partidas extras, ou até a decisão por pênaltis, para se chegar a um vencedor de um torneio. Como a taça fora dividida, “só poderia ter sido por empate”.

Ao agir dessa forma, criaram uma ficção. Teriam resolvido a questão satisfatoriamente se tivessem visitado o acervo da "Bibliotheca Rio-Grandense", e pesquisado nos jornais de 1940. A verdade sempre esteve ali, como ainda está, dormindo nas páginas da história do nosso futebol mais que centenário.

Essa é mais uma lenda urbana, de tantas que ocupam o seu lugar na história. Como toda a lenda é mais atraente e espetacular do que a realidade, e também tem a sua força, é certo que ela continuará a ser reproduzida pelas pessoas na rua. Espero que não mais pela imprensa, que tem a obrigação de informar corretamente à comunidade. A missão do jornalista é estabelecer a verdade. Viva o futebol rio-grandino!

Parte do S.C. Rio Grande.
Parte do S.C. São Paulo.

2 comentários:

claudio disse...

Prezadíssimo Nilo Dias. Através do Papareia cheguei no teu blog. Parabéns. Estamos envelhecendo, mas tem este lado bom, que é recordar o passado, exercitando a memória, e como no teu caso, repassando para as novas gerações. Ontem mesmo estive com o Célinho, agora escritor. Hoje visitarei o Cicica que ainda trabalha no AGORA.
O JJ de Olveira Cardoso citado era meu pai. Ele dizia que bons tempos no futebol eram aqueles que se comprava juiz com um casal de canários. Abraços na Terezinha e na prole. Claudio Renato Cardoso.

NILO DIAS REPÓRTER disse...

Pena que o amigo Reanato não tenha colocado seu e-mail para entarmos em contato, o que seria muito bom.