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domingo, 1 de junho de 2014

A morte de Marinho Chagas

Morreu na madrugada deste domingo em João Pessoa, na Paraíba, o ex-lateral esquerdo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, Marinho Chagas, aos 62 anos de idade. Ele estava desde ontem internado no Hospital de Emergência e Trauma de João Pessoa.

O ex-jogador, que morava em Natal (RN), estava na capital paraibana onde lançaria uma camisa retrô da Seleção Brasileira de 1974, na banca “Viña del Mar”, no Mag Shopping. Antes, participou de um encontro com colecionadores de figurinhas da Copa do Mundo, quando se sentiu mal e começou a vomitar sangue.

Foi imediatamente encaminhado para a Unidade de Pronto-Atendimento Oceania, onde os médicos diagnosticaram uma "hemorragia digestiva alta". Devido a dificuldade que os profissionais encontraram para estancar o quadro hemorrágico, ele foi transferido para o Hospital de Emergência e Trauma, mais bem equipado para esse tipo de procedimento.

Ao que se sabe os médicos colocaram um balão no estômago de Marinho Chagas, para que o sangramento estancasse o que não deu resultado. Com o estado de saúde se agravando cada vez mais, Marinho foi mantido sedado, mas por volta das 3 horas da madrugada não resistiu e morreu.

Segundo os médicos que o atenderam, o ex-jogador chegou a tomar mais de 10 bolsas de sangue, para repor a perda provocada pela hemorragia, o que não foi suficiente para reverter o quadro grave que se instalou. Marinho enfrentava uma batalha diária contra o alcoolismo, doença que possivelmente provocou os problemas que o levaram a morte.

No ano passado, chegou a passar 10 dias internado na UTI de um hospital de Natal, entre a vida e a morte, justamente por causa de uma hemorragia digestiva. Na época, ele prometeu parar de beber para estar vivo na Copa do Mundo do Brasil. Marinho Chagas sofria de hepatite C, bronquite, ácido úrico e hipertensão. Mas a sua maior doença parecia ter sido curada de vez.

O craque, que esteve próximo de perder o jogo contra o alcoolismo, fez um transplante de fígado e vivia relativamente bem de saúde. Quando jogava, Marinho não bebia, teve problemas com o álcool só depois de encerrar a carreira.

Ao longo da semana passada, contudo, estava bem. Nos dias que antecederam o evento, deu entrevistas, falou sobre Copa do Mundo e sobre o Botafogo, seu clube do coração.

O corpo de Marinho Chagas será velado no “Estádio Frasqueirão”, do ABC, em Natal, cidade onde nasceu. O sepultamento está previsto para as 9h da manhã de segunda-feira (2) no cemitério “Morada da Paz”, em Emaús, bairro de Parnamirim, na capital potiguar.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) divulgou uma nota oficial assinada pelo presidente José Maria Marin, lamentando a morte do ex-jogador da Seleção Brasileira.

Em razão das mortes de Marinho Chagas e do apresentador Maurício Torres, da TV Record, a CBF determinou que todos os jogos do Campeonato Brasileiro de hoje, fossem precedidos de um minuto de silêncio.

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, também lamentou a morte de Marinho Chagas. O dirigente se manifestou através de uma rede social na tarde deste domingo. "Muito triste com a morte trágica do ex-jogador de Seleção, Marinho Chagas. Descanse em paz", postou Blatter em seu perfil no Twitter.

Em João Pessoa, Marinho participou do programa “Globo Esporte”, na TV Cabo Branco, quando disse estar confiante na conquista do hexa e pediu ao povo que desse uma trégua nos protestos durante a Copa do Mundo.

Durante a entrevista, Marinho fez uma revelação curiosa: a estreia dele como profissional foi na Paraíba, em 1970. E jogando em Sousa. Foi pelo ABC.O time viajou num “pau-de-arara”e enfrentou a Sociedade. O campo era pequeno e a torcida ficava muito próxima

Francisco das Chagas Marinho, esse seu nome completo, nasceu em 8 de fevereiro de 1952, em Natal. Começou a carreira no Riachuelo, clube da Grande Natal. Depois foi para o ABC e América, ambos de Natal e Náutico, de Recife (PE). Mas ganhou destaque no Botafogo, do Rio de Janeiro, com atuações que o levaram até à seleção brasileira. Pelo scratch nacional jogou 36 partidas entre 1973 e 1977.

Sua estreía no clube da “Estrela Solitária” deu-se num jogo contra o Santos de Pelé. E Marinho contava que logo no primeiro lance roubou a bola do Pelé e deu um lençol nele. No seguinte, tocou a bola entre as pernas do “Rei”, que ficou muito incomodado com isso. No final do jogo Marinho se desculpou..

Na Copa do Mundo de 1974 foi considerado o melhor jogador da competição e escreveu seu nome na galeria dos grandes laterais esquerdos do país, ao lado de Nilton Santos, Júnior, Branco e Roberto Carlos.

Naquele Mundial, ganhou notoriedade ao encarar o goleiro Leão, que tinha fama de brigão, e o culpou pelo gol da Polônia que tirou da seleção o terceiro lugar.

Depois da Copa de 1974 vestiu as camisas de Fluminense, São Paulo, Bangu, Fortaleza, voltou ao América, de Natal, e teve duas passagens por clubes dos Estados Unidos, tendo jogado no NY Cosmos, onde atuou ao lado de Franz Beckenbauer, Johan Cruyff, Pelé e Carlos Alberto. Ainda atuou no Fort Lauderdale Strikers e no LA Heat.

Também defendeu o alemão Harlekin Augsburg, seu último time como jogador, em 1988. Como treinador, comandou apenas o Alecrim, de Natal.

Dono de um chute muito forte era chamado pelos torcedores potiguares de “Canhão do Nordeste”. No Botafogo marcou muitos gols cobrando faltas. Outro apelido que ganhou na carreira foi de "Bruxa".

Marinho Chagas tinha longos cabelos louros que balançavam ao vento à medida que dava velocidade às jogadas. Pinta de playboy usava uma pulseirinha preta no pulso.

O ex-lateral esquerdo foi um jogador polêmico, dentro e fora de campo. Mas inegavelmente estava a frente de seu tempo, já que costumava apoiar o ataque com avançadas rapidadas até o lado adversário, caracteristicas de um ala no futebol moderno. Mas por causa disso, os adversários diziam que ele deixava uma verdadeira "Avenida Marinho Chagas".

O que poucos sabem, é que a famosa e polêmica "paradinha", já banida do futebol recentemente, foi criada por Marinho Chagas nos anos 70, quando de uma excursão do Fluminense à Europa. E ele contava como se deu o lance, que acabou inspirando jogada executada nos últimos anos pelo chileno Valdivia.

Foi na Espanha. Marinho, ao cobrar um pênalti, deu um giro de 360 graus, jogou a perna para o lado e chutou o vento. O goleiro caiu e ele só encostou a bola para a rede. Os espanhóis ficaram boquiabertos, sem saber como ele tinha feito aquilo.

Nessa mesma excursão, Marinho Chagas se vangloriava de ter feito uma de suas maiores conquistas amorosas, ao namorar com uma “princesa de Mônaco”.

Dizia que naqueles tempos era bonito e sarado, loirão de olhos verdes. A princesinha teria ficado doida quando o viu numa festa com o pessoal do time. Marinho dançou com ela a noite toda e a beijou várias vezes. Não foi além disso, porque o time viajaria na manhã seguinte.

Marinho Chagas era considerado uma espécie de David Beckham dos anos 70 e 80. Gostava de vestir roupas espalhafatosas, cordões de ouro e carrões de marca eram constantes em sua carreira. E isso lhe rendeu mais uma boa história. Dessa vez com um Mercedes-Benz conversível.

Estava caminhando na rua de um país europeu e passou na frente de uma loja. Quando viu aquele carro, não conseguiu se controlar. Alugou o "bicho" e foi direto para o hotel onde o time estava hospedado.

Chegando lá, todo mundo o chamou de maluco, inclusive o Paulo Cezar Caju. Foi muito engraçado, porque o presidente do Fluminense, Francisco Horta, pegou carona com ele.

Marinho guardava uma mágoa, de não ter sido convocado para as Copas do Mundo de 1978 e 1982. Ele achava que ainda era o melhor lateral-esquerdo do país e estava no auge da carreira. Lembra que o técnico Claudio Coutinho também não levou Falcão e Paulo Cezar Caju. “Deu no que deu”, dizia.

Marinho, que atualmente era comentarista esportivo da Band Natal, emissora do Grupo Bandeirantes de Comunicação, e ocupante de  cargo comissionado na Prefeitura de Natal, havia sido nomeado o ano passado, pela então prefeita da cidade, Micarla de Sousa, embaixador da Copa do Mundo 2014 na capital potiguar.

O ex-jogador foi homenageado diversas vezes pelo Estado do Rio Grande do Norte. A última delas foi uma estátua sua de sete metros de altura, feita pelo artista plástico Guaraci Gabriel, que foi colocada entre as decorações da cidade do Natal para a Copa do Mundo. Antes, em fevereiro, já tinha sido homenageado com uma marchinha de Carnaval pelo bloco “Jegue Empacado”.

Títulos conquistados. ABC: Campeão Potiguar (1970); São Paulo: Campeão Paulista (1981); Fluminense: Campeão do Troféu Teresa Herrera – Espanha (1977); Seleção Brasileira: Campeão do Torneio Bi-centenário dos Estados Unidos (1976); Prêmios individuais: Bola de Prata – Revista Placar (1972, 1973 e 1981; 2º Maior Futebolista Sul-Americano do ano (1974) e Melhor Jogador da Copa do Mundo da Alemanha (1974). (Pesquisa: Nilo Dias)


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