Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Um gringo na Seleção

Sidney Pullen foi um dos três únicos jogadores estrangeiros que vestiram a camisa da Seleção Brasileira principal, em todos os tempos. Além dele, apenas o goleiro português Casemiro Amaral, que jogou seis vezes pela Seleção, em 1916 (Sul-Americano) e 1917, e o italiano Francisco Police, que jogou somente uma partida pelo Brasil, na derrota de 1 X 0 para o Dublin, do Uruguai, em 27 de janeiro de 1918.

O boliviano Marcelo Moreno também vestiu a camisa “canarinho”, mas somente nas Seleções de categorias de base. Alguns pesquisadores incluem nessa lista o atacante Patesko, que jogou às Copas do Mundo de 1930 e 1938 pelo Brasil, como sendo polonês. Porém, sua certidão de nascimento é de Curitiba.

Sidney Pullen nasceu em Southampton, Inglaterra em 14 de julho de 1885. Ainda criança veio para o Brasil, já que seu pai fora transferido para uma fábrica no Rio de Janeiro. Nos primeiros tempos do futebol na então capital brasileira, muitos ingleses jogavam futebol por clubes de lá, casos de Edwin Cox e Welfare, no Fluminense e Harry Robinson, Sidney Pullen e Eustace Pullen, no Paysandu Cricket Club.

Em 1910, Sidney Pullen, com apenas 15 anos de idade já jogava futebol no time do Paysandu. E com 17 anos foi campeão carioca. O título foi conquistado em cima do Flamengo, que pela primeira vez disputava o Campeonato Carioca, depois de ter criado o seu Departamento de Futebol, iniciativa de oito jogadores que deixaram o Fluminense, que fora campeão de 2011.

O Flamengo de 2012 era praticamente o Fluminense de 2011. Mas foi vice, perdendo o título para o Paysandu, que tinha uma boa equipe com destaques para dois atacantes infernais: Sidney Pullen e Harry Robinson, este, autor de 26 dos 64 gols que o time marcou na competição.

O Paysandu tinha sua sede na rua de mesmo nome, em um terreno de propriedade do Conde d’Eu. Montou um time formado somente por jogadores ingleses, que se impunham pela força física e disciplina tática de seus atletas. Nas partidas decisivas contra o Flamengo, o Paysandu venceu por 2 X 1 e, no segundo turno, segurou o empate em 1 X 1 que lhe garantiu o título.

Nos dois jogos o atacante Sidney Pullen foi decisivo, marcando gols importantes e evitando que o Flamengo tivesse a glória de ser campeão já no seu "debut" no certame carioca.


Participaram do Campeonato Carioca de 1912 os seguintes clubes: América Football Club, Bangu Atlético Clube, Clube de Regatas do Flamengo, Fluminense Football Club, Paysandu Cricket Club, Rio Cricket and Athletic Association, São Cristóvão Athletic Club e Sport Club Mangueira. 

Sidney Pullen e seu irmão Eustace ficaram no Paysandu até 1914, ano em que se transferiram para o Flamengo. No rubro-negro, Sidney jogou até 1925. Era polivalente, tendo atuado em diversas posições, dentre elas de “center-half” (volante de hoje) e de “inside-foward” (meia, de hoje).

No rubro-negro carioca Sidney Pullen chegou a condição de capitão do time, de 1915 até 1923, substituindo Alberto Borgeth, que capitaneou o Fluminense de 1911 e o Flamengo nos anos de 1912, 1913 e 1914. O jogador nascido na Inglaterra foi o principal jogador do futebol carioca nesse período, tendo sido artilheiro no campeonato de 1919, com 12 gols. Jogou 116 partidas pelo Flamengo e marcou 40 gols.

Em 1910, o Corinthians, da Inglaterra, que inspirou a fundação do Corinthians Paulista, excursionou ao Brasil e ganhou todos os jogos que disputou, alguns com goleadas incríveis, caso do Fluminense que levou 10 X 1. Em 1913, o time inglês voltou ao Brasil. Dessa feita perdeu um jogo, foi para o Selecionado Carioca, por 2 x 1, no dia 23 de agosto.

O “Jornal do Commercio”, do Rio de Janeiro escreveu o seguinte sobre o jogo: “O ataque dos brasileiros, formado por Mimi, Welfare e Sidney excedeu a toda a expectativa. Estes elementos, quer collectiva, quer individualmente foram de uma actividade à toda prova”. Uma curiosidade: o goleiro do selecionado carioca nesse jogo foi Harry Robinson, o mesmo que fora artilheiro do “Campeonato Carioca” de 1912 pelo Paysandu.

Em 1914, o Paysandu fechou seu Departamento de Futebol, em razão da Diretoria estar incomodada com a má campanha do clube no certame de 1913 e também com a necessidade de trocar de sede. Todos os seus jogadores ficaram livres, entre os quais Sidney Pullen, que optou por defender o Flamengo.

O antigo estádio do Paysandu ficava na rua homônima, no bairro de Laranjeiras, bem perto do campo do Fluminense. O clube participou do Campeonato Carioca da 1ª divisão em 1906, 1907, 1908, 1911, 1912, 1913 e 1914, quando abandonou a prática do futebol, além de ter jogado a 2ª divisão em 1909 e 1910.

Seu jogo de estréia no Flamengo foi um empate em 1 X 1 com o Vila Isabel em 21 de Abril de 1915. Seu primeiro gol pelo Flamengo foi no dia 2 de maio de 1915, no jogo em que o rubro-negro empatou por dois gols com o Rio Cricket.

De cara foi campeão carioca, com o Flamengo conquistando o título de forma invicta, com goleadas de 5 X 0 no Fluminense e 4 X 2 no América, os principais rivais na época. Pullen e Riemer formaram uma dupla avassaladora nesse ano.

Hugh Pullen, pai de Sidney acompanhou o filho na ida para o Flamengo. Tempos depois foi tesoureiro do clube e também o responsável pela importação do uniforme com as cores vermelho, preto e branco e que ficou conhecido como “Cobra Coral”.

Com o advento da 1ª Guerra Mundial, o Flamengo teve que retirar o branco do uniforme, pois vermelho, preto e branco eram as cores da bandeira alemã.

De acordo com o livro “Um jogo inteiramente diferente”, o anglo-brasileiro Sidney Pullen (anglo por parte do pai e por ter nascido em Southampton e brasileiro por parte da mãe) foi de considerável influência para a retirada do branco do uniforme flamenguista. 

Até o ano de 1916, o uniforme preto e vermelho era exclusivo do remo do Flamengo, na época o esporte mais popular da cidade, mas de prática acessível apenas à elite.

Ainda em 1916, foi convocado para a Seleção Brasileira que disputou o 1º Campeonato Sul-Americano (atual Copa América), que foi realizado em Buenos Aires. De acordo com o livro “O negro no futebol brasileiro”, escrito pelo jornalista Mario Filho, a Seleção teve grandes dificuldades para poder inscrever Sidney Pulllen, pois ninguém acreditava que ele fosse brasileiro. Era naturalizado.

Solucionado o problema, Pullen jogou três partidas pela Seleção, que foi terceira colocada na competição: empates em 1 X 1 com Argentina e Chile e derrota para o Uruguai,que viria a ser o campeão, por 2 X 1. Nesse jogo havia sido acordado entre as duas equipes que poderia haver substituições.

O zagueiro brasileiro Orlando se contundiu e seria substituído, mas o capitão uruguaio, Jorge Germán Pacheco, não concordou com a alteração e o Brasil teve que ficar até o final do jogo com 10 atletas em campo. Nossa seleção vencia por 1 X 0, com magnifica atuação de Arthur Friedenreich. Mas com um jogador a menos, acabou sofrendo a virada.

A partida entre Argentina e Chile ia ser cancelada por falta de árbitro, mas as duas equipes concordaram que Sidney Pullen apitasse. A Argentina goleou por 6 X 1.

Sidney Pullen foi um dos principais jogadores do Flamengo em toda a sua história. Ficou no clube de 1915 a 1923, quando encerrou a carreira. Jogou 130 partidas pelo Flamengo e marcou 47 gols.

Em 1925, aceitou o desafio de integrar a Comissão Técnica do Flamengo, ajudando a montar aquele que talvez seja o primeiro grande esquadrão da história do clube, uma máquina de jogar futebol com vários jogadores de seleção, como Hélcio, Penaforte, Candiota, Nonô e Moderato. Era um timaço que não tomava conhecimento dos rivais, a ponto de conquistar o título carioca goleando o América por 4 X 0 no jogo decisivo.

Como jogador conquistou nada mais, nada menos que 16 títulos pelo Flamengo, sendo os principais os bi-campeonatos de 1914/1915 e 1920/1921. Em 1916 foi convocado pelo Exército inglês e lutou por seu país na 1ª Guerra Mundial. Dizem que também teve uma passagem pelo Fluminense, porém, não há registros do período em que atuou pelo tricolor.

Antes de ir para a Guerra, Sidney deixou as suas chuteiras com o jovem "Back", jogador do segundo quadro do Flamengo. Após voltar da guerra, em 1917, ainda conquistou os Campeonatos Cariocas de 1920 e de 1921 pelo Flamengo, sendo, ao lado de Junqueira em 1920 e de Nonô em 1921, um dos grandes destaques do time.

Títulos conquistados. Paysandu: Campeão Carioca (1912); Flamengo: Campeão Carioca (1914, 1915, 1920 e 1921; Troféu Artístico do Pará (1916); Taça Tricentenário de Belém (1916); Taça Madame Gaby Coelho Neto (1916); Troféu Asilo do Bom Pastor (1916); Taça Sport Club Juiz de Fora (1917); Torneio Triangular do Rio de Janeiro - Troféu América Fabril (1919, 1922 e 1923); Torneio Início do Campeonato Carioca (1920 e 1922); Taça Sport Club Mackenzie (1920); Taça Ypiranga (1921); Troféu Carioca Football Club (1923) e Troféu Petropolitano (1923).

Sem a giga e a malicia do jogador brasileiro, Pullen era dotado de extrema mobilidade, o que o tornava quase imarcável, e dono de uma mortífera perna esquerda. Possuia uma extraordinária capacidade de enxergar o jogo e colocar a bola onde quisesse, com assistências notáveis o que o diferenciava dos outros jogadores. Além disso, Pullen "cantava" o jogo o tempo todo, orientando, motivando e esbravejando, como um verdadeiro líder que era.

Até o final de sua vida nos anos 50, Sidney Pullen jamais se afastou do ambiente do futebol. Carismático, transitou livremente por vários clubes, sendo muito bem aceito em todos eles. Costumava jogar tênis nas Laranjeiras, reduto do Fluminense. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time do Paysandu, campeão carioca de 1912. Sidney Pullen é o segundo sentado.

sábado, 7 de dezembro de 2013

O bugre de Bagé

Tem muita gente da imprensa carioca e paulista, especialmente, que até hoje não se conforma que um clube do interior do Rio Grande do Sul seja de fato e de direito o mais velho em atividade no futebol brasileiro. Alguns comentaristas, desinformados pelo jeito, insistem em dizer que é a Ponte Preta, de Campinas (SP), o “vovô”, no caso a “vovó” do futebol em nosso país.

A antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), hoje Confederação Brasileira de Futebol (CBF), confirmou em oficio datado de 28 de julho de 1975, a legitimidade do clube gaúcho de ser o mais velho time de futebol do Brasil. E em homenagem estabeleceu o 19 de julho, data de fundação do clube, como o "Dia do Futebol Brasileiro".

Outra coisa que deixa cariocas e flamenguistas loucos de raiva é saber que o rubro-negro mais velho do futebiol brasileiro não é o Flamengo, e sim o E.C. 14 de Julho, de Santana do Livramento, fundado em 14 de julho de 1902, que também o caracteriza como o terceiro clube mais velho do futebol brasileiro. O Fluminense foi fundado no mesmo ano, mas em 21 de julho, uma semana depois que o clube gaúcho. O futebol no Flamengo começou em 1912.

Outra coisa que teve origem em um clube gaúcho foi o de abolir o racismo no futebol. A CBF insiste em dar ao Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, o mérito por isso, quando na verdade o Guarany F.C., de Bagé, aceitou negros em sua equipe de futebol, antes do time da Cruz de Malta. Em 1920 o alvirubro de Bagé conquistou o título de campeão estadual, com uma equipe repleta de jogadores negros e mulatos. 

Talvez o Bangu, merecesse ser citado como o primeiro clube a aceitar negros em sua equipe. Sabe-se que em 1905, Francisco Carregal, um negro, jogava no time principal do Bangu, no Campeonato Carioca da 1ª Divisão daquele ano. Mas isso não era a prática comum da época.

Sabe-se que em 1914 o mulato Carlos Alberto, vindo do América jogou no Fluminense, um time de brancos. Foi quando surgiu a história do “pó de arroz”, que teria sido usado pelo atleta para esconder a cor da sua pele. E com o suor, acabou se desfazendo e mostrando que não era tão branco quanto parecia. A partir daí o Fluminense passou a ser chamado de “pó de arroz” pelas torcidas adversárias.

Mas deixando de lado fatos históricos e ainda polêmicos do nosso futebol, vamos contar um pouco da história do Guarany, de Bagé, o único clube do interior do Rio Grande do Sul a conquistar por duas vezes o Campeonato Estadual. O “bugre” bageense foi fundado no dia 19 de abril de 1907, por 11 rapazes que se encontravam na Praça de Matriz, no centro da cidade.

Seus fundadores foram: João Guttemberg Maciel, Viriato Bicca Nunes, Cervantes Perez, Secundino Maciel, Francisco Sá Antunes, Manoel Berruti, Carlos Martins Peixoto, Lucidio Garrastazu Gontan, Carlos Garrastazu e Gonzalo Perez. Foram sugeridos dois nomes para a novél agremiação, Internacional e Guarany, sendo este o escolhido pela maioria.

O curioso é que o Guarany não nasceu vermelho e branco, como é hoje. Suas primeiras camisas, em vermelho, azul e branco, pertenceram ao Nacional, de Montevidéu e foram levadas até Bagé pelo fundador alvirrubro Carlos Garrastazu, que havia atuado pelo clube uruguaio. Mas pouco tempo depois foi adquirido o fardamento tradicional do clube bageense.

Em 1913 o Guarany jogou pela primeira vez no exterior, na cidade uruguaia de Melo, contra o Artigas e o Melense. Foi o primeiro clube gaúcho a jogar no “Monumental de Nuñez”, em Buenos Aires, contra o River Plate. Já enfrentou as seleções do Uruguai, Paraguai e Rússia.

Em Bagé o primeiro jogo internacional do Guarany foi em 1913, contra o Lavallejas, de Rivera. A primeira partida noturna em Bagé, ocorreu em 23 de novembro de 1952, no estádio Antônio Magalhães Rossel, também chamado de “Estrela D'alva”, contra o E.C. Pelotas.

Sabe-se que a dupla Internacional e Grêmio manda no futebol gaúcho. Mas o clube do interior que mais se destacou nos 94 anos de história do Campeonato Gaúcho foi o Guarany, única agremiação a conquistar dois títulos de campeao gaúcho, em 1920 e 1938. O alvirrubro bageense foi vice-campeão gaúcho em 1926 e 1929.

Outros clubes interioranos campeões foram: G.E. Brasil, E.C. Pelotas e G.A. Farroupilha, de Pelotas; G.E. Bagé, de Bagé; S.C. Rio Grande, S.C. São Paulo e F.B.C. Rio-Grandense, de Rio Grande; Grêmio F.B. Santanense, de Santana do Livramento e S.E.R. Caxias e E.C. Juventude, de Caxias do Sul.

Em 1926, o Guarany foi vice-campeão gaúcho, perdendo à final para o Grêmio, por 4 X 3, em partida realizada em Porto Alegre. O onze bageense reclamou muito da arbitragem daquele jogo. Por exemplo, o gol da vitória gremista foi marcado na prorrogação. Em 1929, foi vice de novo, ao perder à final para o Cruzeiro, de Porto Alegre, por 1 X 0. Em 1958 mais um vice, quando perdeu os dois jogos finais para o Grêmio.

O Guarany sempre foi um verdadeiro celeiro de bons jogadores. Exemplos de Max, que jogou no futebol francês; Tupanzinho, que brilhou no Palmeiras, de São Paulo; Branco, tetra-campeão mundial pela Seleção Brasileira; Martin Silveira, que jogou as Copas do Mundo de 1934 e em 1938; Darci Menezes, que foi campeão da América e vice-campeão intercontinental, jogando pelo Cruzeiro, de Belo Horizonte e Raul Calvet, tetra-campeão paulista, bicampeão da América e intercontinental, pelo Santos F.C., entre outros.

Calvet era conhecido pela classe e elegância com que jogava. Foi um dos grandes nomes da história do Guarany. Jogou ainda pelo Grêmio, sendo campeão gaúcho em duas oportunidades (1956 e 1959).

Branco, iniciou a carreira nas divisões de base do time. Ainda como Júnior, jogou na base do Internacional, até se transferir para o Fluminense, onde foi campeão brasileiro (1984) e tricampeão estadual (1983, 1984 e 1985). Pela seleção brasileira, ganhou a Copa América de 1989 e a Copa do Mundo de 1994. Jogou também pelo Porto, de Portugal, onde venceu o Campeonato Português de 1989/1990.

Martim Silveira brilhou com a camisa do Guarany na década de 1930. Ele e Branco foram os dois únicos jogadores que passaram pelo clube a ter disputado Copas do Mundo.

Títulos. Campeonato Municipal de Bagé (1918, 1919, 1920, 1921, 1926, 1929, 1932, 1934, 1935, 1938, 1943, 1945, 1946, 1947, 1948, 1950, 1956, 1958, 1960, 1961, 1964, 1965, 1966, 1969, 1970, 1971, 2010 e 2012 e 2013); Vice-campeão citadino (1922, 1924, 1925, 1927, 1928, 1931, 1932, 1933, 1936, 1939, 1940, 1942, 1944, 1949, 1951, 1952, 1953, 1954, 1955, 1957, 1971, 1975, 1976 e 2009).

Não houve disputas nos anos de 1923, 1930, 1962, 1963, 1967, 1968, 1972, 1973 e 1974. Não se tem a informação de qual clube foi o campeão nos anos de 1912, 1913, 1914, 1915, 1916, 1917, 1941 e 1959.

Campeonato Estadual Série A (1920 e 1938); Campeonato Estadual Série B (1969 e 2006); Campeonato Estadual Série C (1999); Campeão do Acesso à Divisão Especial (1960); Taça 50 Anos Zero Hora (1977); Campeonato do Interior Gaúcho (1920, 1926, 1938, 1958 e 1962); Vice-campeão gaúcho da Série A (1926, 1929 e 1958).

Artilheiros do Campeonato Gaúcho Principal. Grecco, com 2 gols (1920); Picão (1938); Artilheiro do Campeonato Gaúcho - Série B, Alexandre Santos, com 12 gols (1997). Artilheiro do Campeonato Gaúcho - Série C, Alexandre Santos, com 18 gols (1999).

Os maiores goleadores da história do clube são: Max, 129 gols; Picão, 125 gols e Rubilar, 123 gols. Picão participou da campanha do título de 1938, tendo jogado no Guarany de 1933 até 1943. Chegou a jogar ao lado de Rubilar, artilheiro também muito reverenciado no ”índio bageense”.

Neste ano de 2013 esteve no Guarany o herói do Internacional, no Mundial de Clubes de 2006, Adriano Gabiru. Ele marcou o gol contra o Barcelona, na maior conquista do colorado em toda a sua história. Mas não deu sorte e acabou dispensado antes mesmo de terminar seu contrato.

O Guarany Futebol Clube tem como seu principal rival o Grêmio Esportivo Bagé, com quem realiza o clássico Ba-Gua, um dos mais tradicionais do Estado. Dede 1921 foram realizados 413 clássicos, com 150 vitórias do Guarany, 121 empates e 142 vitórias do Bagé. O Guarany marcou 496 gols, enquanto o Bagé anotou 477.

O primeiro clássico ocorreu no dia 31 de julho de 1921, válido pela “Taça A. Magalhães”, tendo o jogo terminado empatado em 2 X 2. O Bagé jogou com: Duarte - Fortunato e Gavino - Aníbal Machado - Guri e Estanislau – Leonardo – Argeu – Chico-  Lucídio e Marceló. O Guarany atuou com Balverdu - Avancini e Afonso - Souza Pinto - Seixas e Kluwe – Ratão – Saraiva – Greco - Lagarto e Cláudio.

O segundo confronto foi disputado no mesmo ano, no dia 14 de agosto, com vitória do Bagé por 2 X 1. O primeiro clássico a noite foi jogado em 1953, no “Estrela D’Alva”, com vitória do Bagé por 2 x 1. No final do jogo aconteceu uma briga entre os jogadores das duas equipes.

A denominação Ba-Gua foi dada anos mais tarde do primeiro confronto, pelo jornalista bageense Mário Nogueira Lopes, quando de um clássico de basquetebol, disputado pelos dois clubes, mas acabou transcendendo para o futebol.

O Guarany manda seus jogos no “Estádio Antônio Magalhães Rosel”, também conhecido por “Estrela D’Alva”, que tem capacidade para 10 mil expectadores. (Pesquisa: Nilo Dias)

Guarany F.B.C., campeão gaúcho de 1920. (Foto: Acervo fotográfico do Guarany F.C.)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um estádio no meio do nada

No meio do deserto egípcio ergue-se o décimo maior estádio de futebol do planeta. Um recinto imponente, a meio caminho entre Alexandria e o Cairo que representa a evolução desportiva do Egito, um país onde o futebol é uma questão de vida ou morte.

O Estádio multi-uso de “Borg Al Arab”, situado em Alexandria, foi inaugurado em 2006, e tem capacidade para 80 mil expectadores. É o segundo maior estádio da África, atrás apenas do “Soccer City”, de Johannesburgo. Se encontra na autopista do deserto que une Alexandria ao Cairo, a 10 quilômetros do Aeroporto de "Borg el Arab" e a 15 do centro de Alexandria.

Conta com uma pista de atletismo em volta do campo de jogo. O estádio foi desenhado e construído pelo Corpo de Engenheiros das Forças Armadas do Egito. Foi projetado para a candidatura fracassada do país a Copa do Mundo de 2010. Junto com o Estádio Internacional do Cairo, é agora sede de jogos da Seleção Egípcia de Futebol e o principal estádio do Norte da África e Oriente Médio.

O Estádio de “Borg Al-Arab” está para o futebol egípcio como as pirâmides de “Keops”, “Kefren e “Mikerynios” estão para o reinado dos faraós. É gigantesco, é distinto de tudo o que se pode encontrar no continente africano. E está no meio do nada.

A obra durou um ano e meio. Quando o “Berg Al Arab” ficou pronto, já se sabia que o Mundial seria na África do Sul e o estádio sede, o “Soccer City”, iria ultrapassá-lo em capacidade de público. Foi um duro golpe para as autoridades egípcias. Para piorar, os primeiros jogos realizados no gigantesco estádio, provaram que seria impossível que alcançasse sua lotação.

O fato de estar longe de qualquer zona urbana densamente habitada, fez com que nenhum clube se interessasse em jogar lá. Desde então tem recebido alguns jogos da Seleção, que ainda assim prefere jogar no Cairo, onde tem mais apoio da torcida.

Também foi palco da “Taça do Egíto” e do “Mundial Sub-20”, muito pouco para aquele que é o 10º maior estádio do mundo em dimensão e um dos projetos mais ousados da arquitetura desportiva na África. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A bola perdeu um amigo

Primeiro foi Nilton Santos, agora Pedro Rocha que nos deixa. Em poucos dias o futebol perdeu dois de seus grandes nomes. Nilton Santos foi da “Seleção Brasileira” e Pedro Rocha da “Celeste Olímpica”. Dois grandes amigos da bola.

O ex-jogador uruguaio, que foi ídolo no São Paulo F.C. na década de 1970, morreu ontem (02/12) em sua casa, na capital paulista, um dia antes de completar 71 anos de idade. Ele padecia de atrofia do mesencéfalo, um mal que afetava seus movimentos e a fala, mas não a compreensão e a memória. Pedro Rocha passava os dias em casa, ao lado da mulher Mabel, fazendo fisioterapia e recebendo assistência médica.

Pedro Virgílio Rocha Franchetti nasceu no dia 3 de dezembro de 1942, na cidade de Salto, Uruguai e se consagrou como um dos melhores camisas 10 do mundo. Escreveu seu nome na galeria de craques de dois dos principais times do continente, o Peñarol e o São Paulo.

Era chamado de “El Verdugo”, apelido dado pelos torcedores do Peñarol, em razão da grande quantidade de gols que marcou contra o rival Nacional. Era o “matador”, com sua categoria, chute forte e cabeçadas arrasadoras.

Forte e elegante, chegou ao São Paulo no dia 15 de setembro de 1970, aos 28 anos de idade, depois de terem sido contratados Gerson “Canhotinha de Ouro” e Toninho "Guerreiro", para compor um dos mais fortes meios de campo da história são paulina.

O tricolor paulista não ganhava nada há 13 anos e a diretoria resolveu partir para a formação de um time forte, ao mesmo tempo que concluía as obras do estádio do Morumbi. Os primeiros jogos de Pedro Rocha com a camisa do São Paulo foram desanimadores. Até a saída de Gerson do clube, fez tão somente 13 gols em 59 partidas.

Em 1972 tudo foi diferente e o artilheiro uruguaio marcou 25 gols em 56 partidas, um desempenho notável que o consagrou como o primeiro jogador estrangeiro a ser o artilheiro de um Campeonato Brasileiro. Ele fez 17 gols, dividindo a artilharia com Dario, do Atlético Mineiro.

Seu companheiro de São Paulo, Peñarol e Seleção Uruguaia, Pablo Forlán, chegou a dizer que Pedro Rocha foi o melhor jogador uruguaio dos últimos 50 anos. Edson Arantes do Nascimento, o “Pelé”, também era fã de Pedro Rocha. Para o “rei”, ele foi um dos cinco melhores jogadores do mundo, na época.

A descrição de Rocha como jogador, beirava a perfeição. Ele caminhava com a bola, lançava o centroavante e continuava a correr, até recebê-la de volta. Aí tocava para um dos pontas e se deslocava em direção a área, confundindo os defensores que não sabiam a quem marcar, facilitando seu cabeceio.

Em outras ocasiões, quando não tinha como dar o passe, costumava segurar a bola até poder desferir um chute forte de 30 metros de distância. No final da Copa América de 1967, vencida pelo Brasil, era Pedro Rocha o cobrador de faltas pelo lado esquerdo de campo. Geralmente ele colocava a bola no canto esquerdo do goleiro adversário.

Pedro Rocha era uma pessoa educada, quieto, não se prestava para muitas brincadeiras e tinha como “hobby” jogar sinuca. No “pano verde” era praticamente invencível, jogava como ninguém. Diziam que ele era “um gênio da bola", dentro de campo ou numa mesa de sinuca.

Pedro Rocha vestiu a camisa do São Paulo 393 vezes e marcou 119 gols. Ficou no clube do Morumbi por longos sete anos, saindo em 1977 depois de se desentender com o técnico Rubens Minelli. No clube das três cores ganhou um Campeonato Brasileiro e dois estaduais.

No Peñarol, de Montevidéu, clube que o revelou para o futebol, Rocha foi três vezes campeão da “Taça Libertadores da América” e duas vezes da “Copa Intercontinental de Clubes”, antes de se transferir para o São Paulo. Cada vez que ele entrava em campo a torcida amarela e preta uruguaia cantava: “Rocha, meu bom amigo, esta campanha queremos estar contigo. Estaremos de coração. Essa torcida quer te ver campeão”.

Entre seus maiores feitos, destaca-se o fato de ser o único jogador uruguaio até hoje a disputar quatro Copas do Mundo, 1962, 1966, 1970 e 1974.

A carreira vitoriosa de “El verdugo” não lhe garantiu uma aposentadoria tranquila. Depois de deixar os gramados tentou a carreira de treinador, tendo dirigido o Internacional, Ponte Preta e Portuguesa de Desportos, sem obter sucesso. Aí partiu para outra aventura, ser dono de uma casa de Bingo, que também não deu certo.

Passou a viver com uma aposentadoria que não chegava a R$ 2 mil. E com os graves problemas de saúde que enfrentou nos últimos anos, a coisa só piorou. O São Paulo inicialmente ajudou no tratamento médico, mas tempos depois suspendeu o apoio. E o prometido amistoso em sua homenagem nunca saiu.

Segundo seu filho Pedrinho Rocha, ex-jogador de futebol (atuou nos juniores do Palmeiras e São Paulo, depois foi para o Uruguai, onde jogou no Peñarol e hoje é treinador), dois médicos amigos ajudavam Rocha. Um deles também se responsabilizava pela fisioterapia que o ex-jogador fazia. Queixa-se de que o São Paulo não fez por ele o que deveria ter feito. Ajudou um pouco, mandou um médico, e só.

Equipes que atuou: Peñarol (1959 - 1970), São Paulo (1970 - 1977), Coritiba (1978), Palmeiras (1979), Bangu, Deportivo Neza, do México, Monterrey, do México (1980) e Al-Nassr, da Arábia Saudita (1980).

Títulos conquistados. Campeonato Uruguaio (1959, 1960, 1961, 1962, 1964, 1965, 1967 e 1968); Taça Libertadores da América (1960, 1961 e 1966); Taça Intercontinental de Clubes (1961 e 1966); Recopa Sul-Americana (1969); Campeonato Paulista (1971 e 1975); Campeonato Brasileiro (1977) e Campeonato Paranaense (1978). Gols marcados. Peñarol (81 gols em 159 jogos); São Paulo (119 gols em 393 jogos) e seleção do Uruguai (17 gols em 52 partidas).

Prêmios individuais: Melhor jogador do Campeonato Sul-Americano, atual Copa América (1967); Bola de Prata, Revista Placar (1973) e 38º Melhor futebolista Sul-Americano do Século XX, escolhido pela International Federation of Football History & Statistics - IFFHS (1999).

Pedro Rocha virou parte de um livro, “Tricolor Celeste”, de autoria do jornalista Luis Augusto Simon, onde é descrita a trajetória de quatro jogadores uruguaios que vestiram a camisa do São Paulo F.C.: Pablo Forlán, Dario Pereyra, Diego Lugano e Pedro Rocha.

Pena que nunca tenha sido Campeão do Mundo pela “Celeste”, o que o equipararia a outros monstros sagrados do futebol uruguaio, como Juan Schiaffino, Obdulio Varela, Hector Scarone e José Leandro Andrade. Mas, a exemplo desses, foi um grande craque.

O jornalista Juca Kfouri, em seu blog, escreveu hoje uma frase que resume toda a carreira de Pedro Rocha: “A bola perdeu mais um de seus melhores amigos em todos os tempos”. (Pesquisa: Nilo Dias).

 Pedro Rocha e Pelé. (Foto: Divulgação)

sábado, 30 de novembro de 2013

O craque desengonçado

Já imaginaram um jogador de futebol todo desengonçado, baixinho, apenas 1,67m, pernas finas e curtas, barriga de dirigente de clube e um jeito nada convencional de correr? Pois existiu um com todas essas caracteristicas antifutebolísticas, o atacante “Ageu Sabiá”, assim apelidado pela semelhança com o pássaro. Mas bastava entrar em campo, para em poucos minutos deixar calados todos os que não acreditavam nele.

O peso ideal de Ageu era 65 quilos, mas perdeu as contas de quantas vezes entrou em campo com até 10 quilos a mais, o que segundo ele, em nada atrapahava seu desempenho. Esse ganho extra de peso tinha tudo a ver com sua alimentação que não era nada saudável. O que ele gostava mesmo era de hambúrguer, churrasco, pastel, pão com manteiga e refrigerante. E às vezes, para acompanhar, generosos copos de cerveja.

Os preparadores físicos dos clubes em que Ageu jogou, tinham consciência de que sua alimentação não era a ideal para um jogador de futebol, mas não o questionavam sobre isso, porque sabiam que dentro de camopo ele resolvia. Muito pelo contrário, até o deixavam fora das tradicionais “maratonas”. Fazia apenas treinamentos específicos. Em dia de jogo, era capaz de correr 100 metros em dez segundos, o que não era façanha para qualquer um.

Era um artilheiro nato, daqueles que gostava de pegar a bola na intermediária, deixar os zagueiros no chão a dribles, fazer o gol e correr em direção a torcida para comemorar. Foi um dos maiores mitos da história do futebol paraense.

Foi artilheiro por dois anos seguidos do “Campeonato Santareno” de 1986/87, o que chamou a atenção do diretor Walter Abél, do Tuna Luso, de Belém. Mas ao ver o biotipo do atleta, até então desconhecido, jogadores, comissão técnica e até os repórteres que cobriam o dia a dia do clube riram e se perguntavam: “como uma pessoa acima do peso poderia se aventurar a jogar profissionalmente?”

Ageu Elivan Lopes do Nascimento nasceu no dia 10 de Setembro de 1967 em Monte Alegre (PA). Seu primeiro time profissional foi o São Raimundo, de Santarém (PA), que disputava o campeonato da cidade. Em 1986 trocou de time, indo para o rival São Francisco, onde se tornou artilheiro e bi-campeão municipal.

Ganhou fama, e em 1988 foi contratado pelo Tuna Luso, onde se sagrou campeão estadual pela primeira vez. Depois foi para o Paysandu, que estava na “Terceira Divisão” e conseguiu subir para a “Segunda”. Em 1992 o Remo o contratou.

Em 1993 estava de volta ao Tuna Luso, conquistando a artilharia do campeonato estadual. Igual a pássaro que anda de galho em galho, retornou ao Remo no segundo semestre daquele mesmo ano, para disputar o “Campeonato Brasileiro da Série A”.

Novamente deixou o Remo, se transferindo para o Noroeste, de Bauru (SP). Ficou pouco tempo e voltou ao Pará, passando antes pelo São Carlense, de São Carlos (SP) e Tuna Luso. Voltou ao Remo em 1996, para ganhar mais dois títulos estaduais, em 1996 e 1997.

Competições disputadas. Pelo Remo: Série B (1992); Campeonato Brasileiro da Série A (1993); Campeonato Paraense (1996, 1997 e 1998); Copa do Brasil (1996, 1997 e 1998). Títulos ganhos pelo Clube do Remo. Campeonato Paraense (1996 e 1997); Pelo Tuna Luso. Campeão estadual (1988); Campeão municipal de Santarém, pelo São Francisco (1986 e 1987)

O que pouca gente sabe é que “Ageu Sabiá”, enquanto fazia história no futebol paraense, colecionava títulos, medalhas e marcava centenas de gols, divertindo os torcedores paraenses, viveu um drama extracampo. Ele lutou por três longos anos pela saúde do filho Breno, que sofria de leucemia.

Em 2010, quando o menino completou 9 anos, a grande nóticia: estava curado. Para Ageu isso foi melhor do que qualquer título que ganhou. Pai e filho passaram por um verdadeiro drama, que começou quando o menino tinha apenas 7 anos e foi diagnosticada a doença.

Foram 2 anos e 7 meses na luta pela cura da doença. A rotina de pai e filho mudou. Breno deixou de jogar bola e estudar, para se dedicar ao tratamento. E Ageu, teve que se mudar para o Hospital Ophir Loyola, onde o menino passou muitos dias de sua vida.

Ageu Sabiá” também ganhou fama de folclórico. Contava muitas histórias engraçadas que diziam respeito a sua barriga descomunal. Talvez a melhor de todas seja uma ocorrida em 1993, quando Remo e Portuguesa de Desportos jogaram no Estádio do Canindé, pelo “Campeonato Brasileiro”.

Um repórter veio entrevistar Ageu e perguntou como ele podia correr com uma barriga daquele tamanho. Sem pestanejar, respondeu: “O cavalo é barrigudo e também corre”. Em1993, antes de uma partida contra o Goiás, no “Serra Dourada”, outro repórter lhe disse que era difícil alguém de fora ganhar deles lá dentro. E Ageu respondeu: “Difícil é dar rasteira em cobra e cachuleta em jabuti. O resto é fácil”.

Quando desembarcava do ônibus as pessoas pensavam que ele era o roupeiro do time. Ageu não se importava e respondia dentro de campo com muitos gols Mas é inegável que a fama de “gordinho” atrapalhou um pouco a sua carreira, não tendo conseguido jogar em nenhum time grande do Sul ou do Sudeste. É verdade que andou pouco tempo no interior paulista, onde jogou no Noroeste, de Bauru e São Carlense, de São Carlos.

Em 1994 quase fechou com a Portuguesa de Desportos, mas esbarrou no preconceito. Ageu já tinha até arrumado as malas para viajar até São Paulo, quando o técnico Candinho foi demitido e outro contratado. E desistiram de contratá-lo. A sua fama de “gordo” falou mais alto que sua condição de artilheiro.

Antes de encerrar a carreira, “Ageu Sabiá” ainda marcou muitos gols por Tiradentes, Águia, de Marabá e Ananindeua, todos clubes do Pará.

Fora dos gramados, Ageu ainda acompanha o futebol, em especial o “Campeonato Brasileiro”, vendo jogos pela TV. E elegeu este ano o seu ídolo, que não poderia ser outro, senão Valter, centro-avante do Goiás. Ele vê no craque “gordinho” as mesmas caracteristicas que tinha no tempo em que jogava. Não acredita que Valter possa emagrecer um dia, mas garante que continuará fazendo gols.

Para Ageu, o camisa 9 do Goiás faz por merecer uma chance na “Seleção Brasileira”, por se tratar de um excelente jogador, oportunista, um exímio “matador”. “Sabiá” se diverte dizendo que ele é o verdadeiro “gordinho artilheiro” mais famoso do Brasil, e Walter é o segundo.

O futebol do Pará sempre se caracterizou por alguns aspectos peculiares que serviriam até para um estudo mais aprofundado. Nos anos 50, por exemplo, jogou no Payssandu um atacante de apelido “Pau Preto”. Fez muitos gols e garantiu títulos para o clube. O engraçado, é que os locutores de rádio primavam pela desatenção ao narrarem alguns de seus gols.

Certa ocasião “Pau Preto” estava em tarde de gala, fazendo diabruras dentro de campo, driblando meio time adversário e concluindo para a rede. Um certo locutor, sem perceber a besteira que estava dizendo, lascou: “”Pau Preto” entrou com bola e tudo”.

Na década de 70, jogou no Remo um centro-avante de estatura alta, 1,92m, chamado Alcino e apelidado “Negão Motora”. Era forte e rápido, chutava e cabeceava bem, fazendo gols de todo jeito. O mais lembrado de todos, ele fez num clássico contra o Paysandu. Driblou os zagueiros e o goleiro, colocou a bola em cima da linha e sentou sobre ela antes de fazer um gol de bunda.

Desde então a torcida do Payssando quer ouvir falar no diabo do que em Alcino, protagonista de tamanha humilhação. Alcino era capaz de qualquer coisa para provocar a torcida rival, até de baixar o calção e mostrar as partes íntimas, o que convenhamos, passava de todos os limites toleráveis. Alcino, depois jogou no Grêmio Portoalegrense.

Da mesma época de “Ageu Sabiá”, surgiu no futebol paraense o atacante Edil, talvez o mais folclórico jogador que atuou nos gramados nortistas. Era a verdadeira versão amazônica de “Túlio Maravilha”. A diferença estava no porte físico, Edil tinha mais de 1,80m de altura, nariz de tucano e um cabelo cacheado, estilo anos 80.

Começou a carreira nas categorias de base do Paysandu. Aos 19 anos já estava no elenco de profissionais e foi campeão paraense de 1987. Ganhou fama e foi jogar no Nordeste, para voltar ao Payssandu na década de 90 e fazer história. Começou a marcar gols, ganhar títulos e virou um falastrão.

Foi ele um dos pioneiros na introdução de comemorações irreverentes no futebol paraense. Criou personagens fixos para celebrar os seus gols, como o “Carrasco”, em 1992, quando jogava no Payssandu. Ele carregava preso ao calção um capuz e cobria o rosto com ele, quando fazia um gol. E com o auxilio de um companheiro de time, simulava a degolação de um condenado com uma machadada imaginária. A torcida entrava em delirio.

Em 1996, quando Edil jogou no Clube do Remo, inovou na comemoração, criando o "Braddock", inspirado na série de filmes estrelada pelo igualmente matador “Chuck Norris”. A cada gol, dois ou três jogadores se alinhavam num paredão invisível e eram "metralhados" por Edil.

Em 2000, ele foi contratado pelo Castanhal, do interior paraense. E lá se tornou "Highlander, o goleador imortal". Ele deixava sempre uma espada de plástico no banco de reservas, que servia para performances hilariantes que agradavam a torcida do seu time.

No “Sul Maravilha” também teve um jogador cujo fisico não era nada recomendável para um atleta. Tratava-se de Mauro Coelho, que ganhou o apelido de “Barrilzinho de Pólvora”, pelos quilos a mais que o deixavam quase redondo. Mas isso não impediu que se tornasse um meia-ponta-de-lança respeitado no futebol gaúcho, defendendo Cruzeiro e Internacional, de Porto Alegre, nos anos 60 e 70.

Fez história nas equipes em que jogou, tendo participado da excursão que o Cruzeiro portoalegrense empreendeu por gramados da Europa, em 1960, sendo o primeiro clube brasileiro a fazer isso, fora do eixo Rio-São Paulo. Mauro faleceu prematuramente há alguns anos. (Pesquisa: Nilo Dias)


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O último capítulo da "Enciclopédia do Futebol"

O ex-lateral esquerdo do Botafogo e da Seleção Brasileira, Nilton Santos, morreu na tarde desta quarta-feira, aos 88 anos de idade, na Clinica Bela Lopes, bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde estava internado desde o último sábado em razão de complicações respiratórias.

Na terça, ele havia apresentado uma melhora no quadro de pneumonia que foi diagnosticado na segunda. De acordo com o boletim médico, Nilton morreu em decorrência de pneumonia comunitária, tendo comorbidades a doença de Alzheimer e a insuficiência cardíaca grave.

O ex-craque, que padecia do “Mal de Alzheimer” há cinco anos, vivia na Clínica da Gávea. O Botafogo, desde 2007, quando o presidente era Bebeto de Freitas, arcava com as despesas hospitalares do ídolo. Sua esposa Célia luta contra um câncer no cérebro. Eles, inclusive, tiveram que se separar por conta das doenças no fim de 2012.

O corpo do "Enciclopédia do Futebol" foi carregado para dentro da sede de "General Severiano" ao som do hino do clube e coberto pela bandeira com a "Estrela Solitária". Parentes, amigos e torcedores devem velar Nilton Santos até a zero hora.

Depois, as portas serão reabertas às 7 horas, para receber o público em geral. O ex-lateral-esquerdo deixará a sede alvinegra às 15 horas em um carro aberto do Corpo de Bombeiros, que seguirá em carreata até o cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, na Zona Sul do Rio, onde será sepultado.

O ex-craque nasceu em 16 de maio de 1925 no bairro carioca da Ilha do Governador. Ganhou o apelido de "Enciclopédia de Futebol", dado pelo ex-narrador esportivo Waldir Amaral, por causa de seus conhecimentos sobre o esporte e por ser completo como jogador, tendo a capacidade de encantar o torcedor.

Enquanto cumpria serviço militar foi descoberto por um oficial da Aeronáutica que o viu jogar na praia e se encantou. Foi levado por ele para jogar no Botafogo em 1948. Sua estréia com a camisa do clube da estrela solitária aconteceu num jogo amistoso contra o América, de Minas Gerais.

No campeonato carioca de 1948, entrou no time numa partida contra o Canto do Rio, em Caio Martins, vencida pelo alvinegro por 4 X 2. Não participou do primeiro jogo do Campeonato, contra o São Cristóvão, o titular foi Nilton Barbosa. O Botafogo ganhou o título daquele ano.

Nilton defendeu o Botafogo por 16 anos. Foi o único time que jogou em toda a carreira, conquistando o Torneio Rio-São Paulo em 1962 e 1964, além do Campeonato Carioca em 1948, 1957, 1961 e 1962. Também vestiu a camisa da Seleção Brasileira, onde foi bicampeão mundial em 1958 e 1962, além de participar das Copas do Mundo de 1950, da qual era o último remanescente, e de 1954. Somente deixou General Severiano em 1964 quando abandonou os gramados.

A direção do Botafogo emitiu nota oficial em que lamenta o falecimento de seu ídolo Nilton Santos, o maior lateral-esquerdo de todos os tempos, “adorado quanto Garrincha e respeitado quanto Pelé”. No Botafogo, disputou 723 partidas, e marcou 11 gols. Na Seleção, fez 84 jogos, marcando 3 gols.

Nilton estreou na seleção no Sul-Americano de 1949. A competição foi realizada no Brasil que acabou campeão. Ainda foi campeão com a camisa “Canarinho” no “Pan-Americano” de 1952. Sua despedida da Seleção ocorreu na final da Copa de 1962, contra a Tchecoslováquia.

Foi o maior responsável pela contratação de Garrincha, depois de tê-lo marcado em um treino do Botafogo e levado um drible entre as pernas. Ficou furioso, mas exigiu que o endiabrado ponteiro-direito fosse contratado e titular da equipe, pois assim, não teria que marcá-lo novamente. Em 1998, em pesquisa realizada pela Fifa foi eleito junto com Garrincha para fazer parte da Seleção Mundial de todos os tempos.

Nilton Santos foi o precursor em arriscar subidas ao ataque através da lateral do campo. Revolucionou a posição de lateral-esquerdo, utilizando-se de sua versatilidade ao defender e atacar, inclusive marcando gols, numa época do futebol que a posição tinha apenas função defensiva.

Até marcou um gol pela Seleção Brasileira, na Copa do Mundo de 1958, contra a Áustria. Ele pegou a bola no campo de defesa e driblou o time adversário inteiro, finalizando com um chute indefensável. O técnico Vicente Feola quase ficou doido com o desenrolar da jogada.

Outra jogada que entrou para a história do futebol foi protagonizada por Nilton Santos na Copa do Mundo de 1962. Ele cometeu um pênalti escandaloso em um jogador da Espanha, que vencia o confronto por 1 X 0. A partida era válida pela última rodada da fase de classificação e decisiva. Quem perdesse, voltava para casa.

Assim que o atleta caiu, ele deu dois passos para frente e saiu da área. O árbitro, que estava longe do lance, apenas marcou a falta, em vez de pênalti. Ao lembrar o lance, Nilton dizia que foi pura malandragem, daquelas que se aprende nas peladas. Depois o Brasil virou o jogo com dois gols de Amarildo.

Nilton Santos, Gilmar, Didi e Zagalo foram os únicos jogadores da Seleção Brasileira que participaram de todos os jogos das Copas do Mundo de 1958 e 1962.

Contam que num jogo amistoso do Botafogo na cidade do México contra o River Plate, da Argentina, Garrincha estava estraçalhando o beque Vairo. Nestor Rossi, o maestro portenho, teria chamado o lateral e aconselhou: “Quer melhorar teu futebol? Então faz o seguinte, aquele ali é o Nilton Santos, beque esquerdo como você. Vai lá perto, disfarça e passa a mão na perna dele. só isso. Passa a mão que naqueles pés está o futebol de todos os beques do mundo".

Nílton Santos era um jogador clássico, elegante, raramente fazia falta e nunca jogou com violência. Começou a carreira como centroavante, mas foi colocado como quarto-zagueiro em um treino e logo em seguida firmou-se na lateral. Encerrou a carreira com os quatro meniscos inteiros, o que prova que tinha bom equilíbrio.

Romântico, não ligava para dinheiro, tinha um espirito amador. Chegou a assinar três contratos em branco, no auge de sua carreira. Mas não se arrependeu e garantia que faria tudo de novo. Agradecido, dizia sempre que tudo o que tinha, tudo o que era, devia ao Botafogo.

Ele fez parte do “Fifa 100”. E foi homenageado no “Prêmio Craque do Brasileirão de 2007”. Foi eleito pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS), o nono maior jogador brasileiro do século e o 28º da América do Sul. Em 2000 foi escolhido pela Fifa o melhor lateral esquerdo do mundo em todos os tempos.

Foi escolhido ainda para integrar a seleção da América do Sul de todos os tempos. A enquete foi realizada com cronistas esportivos de todo o mundo. A Seleção foi esta: Fillol (Argentina) - Carlos Alberto Torres (Brasil) – Figueroa (Chile) - Daniel Passarella (Argentina) e Nilton Santos (Brasil) – Maradona (Argentina) - Di Stéfano (Argentina) – Rivelino (Brasil) e Didi (Brasil) – Garrincha (Brasil) e Pelé (Brasil).

Em 2002, Nilton Santos recebeu uma homenagem do apresentador e jornalista Milton Neves. Um tapete vermelho foi estendido para que o eterno botafoguense pudesse participar do "Terceiro Tempo", na TV Record.

Depois de encerrar a carreira, Nilton Santos não se afastou do futebol. Em 1998, tocou um projeto de uma escolinha de futebol em Palmas, Tocantins, para crianças carentes.

Mesmo declarando que nunca sonhou em ser treinador de futebol chegou a treinar o Bonsucesso, modesto clube do subúrbio do Rio de Janeiro. Com seus grandes conhecimentos futebolísticos, montou um time até bom, considerando-se os parcos recursos de que dispunha.

Depois de sete jogos, conseguiu cinco vitórias. A diretoria do Bonsucesso não estava acostumada com aquilo e chegando à conclusão de que, pagando tantos "bichos" por vitória, o clube acabaria falindo, optaram pela solução mais "lógica" e barata. Simplesmente demitiram o técnico que estava causando tanto prejuízo.

Depois passou sem grande êxito pelo Galícia e Vitória, ambos da Bahia e São Paulo, da cidade gaúcha de Rio Grande, onde não conseguiu se adaptar ao frio e pediu para ir embora. O último time que treinou foi o Taguatinga, de Brasília. O próprio Nilton gostava de contar como aconteceu a sua saída do clube gaúcho:

Eu estava acostumado ao calor do Rio de Janeiro, e era duro enfrentar o rigoroso inverno gaúcho. Num domingo, me levaram para visitar a extensa praia do Cassino. O frio era intenso e nem saí do carro. De repente, ví um pinguim morto na beira da praia. Era a desculpa que precisava para romper o contrato: olha, pessoal, se nem pinguim aguenta o frio daqui, o que é que estou fazendo nesta cidade? Arrumou as malas e voltou ao sol da sua “Cidade Maravilhosa”.

Chegou a fazer parte da cúpula do futebol do Botafogo. Mas não durou muito tempo, sendo afastado após dar um soco no ex-árbitro Armando Marques, derrubando-o escada abaixo do Estádio do Maracanã, depois de um jogo em 1971.

Nilton Santos era um verdadeiro especialista em contar passagens divertidas da vida de Garrincha, seu "compadre" e amigo íntimo de muitos anos. Ele garantia que na sua frente Garrincha, um contumaz alcoólatra, nunca havia tomado um gole, pedindo sempre um "copo de água" quando o via.

Em meados da década de 1990, o ex-lateral esquerdo estabeleceu residência em Brasília e marcou época na cidade. Como coordenador de um projeto de iniciação ao futebol para crianças, Nilton Santos ensinou os segredos da bola e dos gramados a mais de mil aprendizes.

Esforçou-se o quanto pode para manter a iniciativa, mesmo nas condições mais adversas, mas foi obrigado a abandonar o programa quando deixou de ter um local para abrigar os meninos.

Na passagem pela cidade, foi ainda treinador do Taguatinga, mas a nova experiência como técnico de futebol também não foi bem-sucedida. Contratado como colunista do jornal “Correio Braziliense”, Nilton Santos revelou talento com as palavras, comentando temas esportivos e revelando histórias curiosas dos tempos de jogador. Conquistou leitores assíduos e acabou agraciado com o título de cidadão honorário de Brasília, em 1997.

De volta ao Rio de Janeiro, Nilton Santos fixou residência na cidade de Araruama, onde escreveu e lançou, em 1998, uma autobiografia de muito sucesso, intitulada “Minha Bola, Minha Vida”, pela editora Gryphus, na qual contou detalhadamente todos os passos da vitoriosa carreira.

Ele também foi homenageado no “Cantinho da Saudade”, em dezembro de 1999, no “Museu dos Esportes Edvaldo Alves de Santa Rosa – Dida”, que fica localizado no Estádio Rei Pelé, em Maceió.

Nilton Santos é nome de estádio. Fica em Palmas, Tocantins, onde morou entre 1999 e 2000, quando desenvolveu um projeto social com jovens através do futebol. Tem capacidade para receber até 8 mil torcedores.

Foi inaugurado no dia 12 de outubro de 2000. O primeiro gol no estádio foi marcado pelo atacante Malzone, que nesta ocasião jogava pela Seleção Brasileira Sub-17, no amistoso Seleção Brasileira Sub-17 2 X 2 Seleção Tocantinense Sub-20, que inaugurou a praça de esportes.

Títulos. Torneio Rio-São Paulo: (1962 e 1964); Taça dos Campeões Estaduais Rio-São Paulo (1961); Campeonato Carioca (1948,1957,1961 e 1962); Torneio Início Carioca (1961, 1962 e 1963); Torneio Municipal de Futebol do Rio de Janeiro (1951); Torneios Internacionais. 6º Torneio Pentagonal do México (1958); Torneio Internacional da Colômbia (1960); Torneio Internacional da Costa Rica (1961); 6º Torneio Pentagonal do México (1962); Torneio Jubileu de Ouro da Associação de Futebol de La Paz (1964); Torneio interclubes do Suriname (1964); Torneio Governador Magalhães Pinto (1964); Torneio Triangular de Porto Alegre (1951); Seleção Brasileira. Copa do Mundo (1958 e 1962); Campeonato Sul-Americano (1949); Taça Oswaldo Cruz (1950, 1955, 1956, 1958, 1961 e 1962); Copa Rio Branco (1950); Campeonato Pan-Americano (1952); Taça Bernardo O'Higgins (1955, 1959 e 1961) e Taça do Atlântico (1956 e 1960).

Um amigo de Nilton Santos, Damásio Desidério,autor de um enredo na Escola de Samba Vila Isabel, em 2002, que homenageou o ex-craque, ganhou de presente todo o acervo de relíquias juntadas por ele em toda a carreira. Agasalhos, chuteiras e as camisas das finais da Copa de 1958 e de 1962, utilizadas por Nilton Santos, integram uma lista de quase duas dezenas de peças de valor histórico.

Para ajudar o amigo, Desidério resolveu colocar o acervo à venda, mas pelo que sei não encontrou interessados até hoje. Nem o Botafogo, e muito menos a CBF mostraram interesse em adquirir esse verdadeiro tesouro do futebol brasileiro. (Pesquisa: Nilo Dias)


Um louco chamado Heleno

Heleno de Freitas talvez tenha sido o mais polêmico jogador do futebol brasileiro até hoje. Um verdadeiro craque que maravilhava multidões. Mas sofria de uma doença que foi diagnosticada tarde demais, paralisia geral progressiva, também conhecida como neurossífilis ou sífilis terciária, que não tem cura e o tratamento apenas impede o avanço, sem dar fim às sequelas.

Essa doença, contraída possivelmente por seu envolvimento com prostitutas, foi a grande culpada pelas atitudes amalucadas que tomava dentro e fora de campo. A sífilis é um mal silencioso. Na primeira fase, aparecem pequenas feridas, que somem em três semanas. Pouco tempo depois, a manifestação é uma alergia no corpo, que igualmente desaparece.

O paciente perde peso, apresenta fortes dores musculares e passa a caminhar como se estivesse perdendo o equilíbrio. As principais manifestações psiquiátricas são mania de grandeza, discurso sem nexo e confusão entre fantasia e realidade – sintomas apresentados por Heleno.

Heleno nasceu em São João Nepomuceno (MG), no dia 12 de fevereiro de 1920. Tinha sete irmãos. Aos sete anos de idade já jogava futebol no segundo time do infantil do Mangueira, de sua cidade natal. Em 1933, quando tinha 11 anos, sua família se mudou para o Rio de Janeiro.

No Rio foram morar no Posto 6, localizado no canto direito da Praia de Copacabana, e que na época recém começava  a ser povoado. Hoje é uma área nobre, repleta de construções.

Foi um pouco adiante de onde morava, no Posto 4, que Heleno começou a mostrar seu futebol refinado, no time de praia do famoso “Neném Prancha”, roupeiro do Botafogo, onde jogavam várias pessoas ligadas ao alvinegro carioca. De cara se destacou e em 1935, aos 15 anos já estava fazendo sua primeira partida oficial pelo “Glorioso”.

Os estudos e o trabalho, que ele conheceu cedo, não permitiam uma dedicação total ao futebol. Nessa época cursava o Ginasial no Colégio São Bento e trabalhava na firma Hime & Companhia. Depois obteve o bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito, atual Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Era considerado membro da alta sociedade, com amigos empresários, juristas e diplomatas. Seu pai era dono de um cafezal e ainda cuidava de negócios de papel e chapéus. Chegou uma hora em que a irregularidade no comparecimento aos treinos fez com que Heleno deixasse o clube, ficando apenas no time de praia, a título de recreação.

Em 1938, porém, alguns amigos decidiram levá-lo para o Fluminense, dono de uma equipe forte, onde teria maiores possibilidades de progredir na carreira. Foi para o tricolor sem contudo abandonar o Botafogo. Isso era possível, porque alguns clubes já haviam adotado o profissionalismo, exemplo do Fluminense e outros não, caso do Botafogo.

Durante algum tempo Heleno viveu a curiosa experiência de jogar nos dois times. Em 1940 ele integrou-se totalmente ao Botafogo. Mas sua estada no Fluminense foi importante, visto que o treinador uruguaio Carlomagno descobriu que ele não era centro-médio, posição em que se apresentou no clube, e sim centro-avante.

Ainda em 1940 ele seguiu para sua primeira experiência internacional, uma viagem do Botafogo ao México. Era reserva de Carvalho Leite, artilheiro do clube, e chegou a entrar no time algumas vezes. Nesse mesmo ano conquistou a titularidade nas disputas do Campeonato Carioca, com o time perdendo o título na última rodada.

Com seu 1,82m de altura não demorou a se tornar o maior ídolo botafoguense, antes de Garrincha, mesmo tendo sido campeão pelo clube uma única vez, em 1935. Heleno começou a ser considerado o mais clássico e o mais elegante dos centro-avantes do futebol carioca e brasileiro. Era dono de grande habilidade e excelente cabeceio.

De 1940 a 1947 suas atuações no Botafogo o levaram a uma ascensão enorme. Todos concordavam que se tratava de um craque. Virou celebridade em todo o país. Sua carreira chegou ao auge em 1945, quando foi artilheiro com 6 gols e o grande cartaz do Campeonato Sulamericano disputado no Chile, embora o Brasil não tenha sido campeão.

E não foi pouca coisa, pois se destacou num ataque que tinha Tesourinha, Zizinho, Jair e Ademir, craques notáveis. Ao todo fez 18 partidas pela Seleção Brasileira, tendo ainda disputado e ganho a Copa Roca, em 1945 e a Copa Rio Branco, em 1947. Heleno nunca jogou uma Copa do Mundo, pois as competições de 1942 e 1946 foram canceladas devido a Segunda Guerra Mundial.

E na Copa do Mundo de 1950, mesmo já sofrendo de sífilis, Heleno foi cortado pelo técnico Flávio Costa. Para muitos torcedores e jornalistas de todos os países da época, isso foi crucial para a perda da Copa, pois Heleno era ainda um dos principais jogadores brasileiros.
Ele foi o inventor da jogada “domínio no peito”, também chamada de “matada no peito”. E ficou conhecido pelo seu jeito clássico em campo, pelo seu futebol arte e jeito provocador de jogar. Heleno de Freitas, por exemplo, quando ficava cara a cara com o goleiro levantava a bola para ele mesmo cabecear.

Depois da consagração começou também o seu fim. A sífilis já lhe destruia o sistema nervoso. A torcida já o via como um jogador indisciplinado, irascivel e mal comportado.

Heleno foi Deus e diabo. Deus no trato da bola, demônio no trato com os homens. A grande explosão veio em 1947. No ano anterior um filme fez grande sucesso na cidade, “Gilda”, em que a atriz Rita Hayworth desempenhava o papel de uma mulher temperamental e voluntariosa.

Foi o que bastou para os torcedores do Fluminense e seus amigos do “Clube dos Cafajestes” verem uma semelhança entre “Gilda” e ele. Não deu outra. Nos pequenos estádios do Rio, ainda não havia o Maracanã, a platéia gritava “Gilda”, “Gilda”, “Gilda”, o que levava Heleno a loucura. Aos poucos essa atmosfera começou a insdispô-lo também com os companheiros, técnicos, dirigentes, adversários e juízes.

Deixou General Severiano em 1948, quando foi vendido ao Boca Juniors, da Argentina, na maior transação do futebol brasileiro até então. O presidente recém eleito, Carlito Rocha ainda tentou mantê-lo no clube, mas Heleno era homem de palavra e honrou o compromisso assumido com a equipe argentina. Na sua passagem pelo Botafogo marcou 209 gols em 235 partidas, tornando-se o quarto maior artilheiro da história alvi-negra.

Heleno chegou a conquistar um Campeonato Carioca em 1935, ao contrário do que é divulgado. Poucos sabem, mas Heleno fez uma partida pelo clube quando tinha somente 15 anos. Não se sabe, mas é provável que Heleno tenha sido o jogador mais jovem a estrear no Botafogo desde que um grupo de garotos fundou o clube. E ainda o atleta mais jovem a ser campeão de algum torneio profissional, recorde que dificilmente será batido algum dia.

No Boca Juniors não teve o sucesso esperado, pois as outras vedetes do clube o boicotaram. Por isso voltou ao Brasil para jogar no Vasco da Gama, onde foi campeão carioca de 1949. O time cruzmaltino era chamado de “Expresso da Vitória”.

Ainda vestiu às camisas do Atlético Junior, de Barranquilla, da Liga Pirata da Colômbia, Santos e América carioca, onde encerrou a carreira. Jogou apenas menos de um tempo pelo clube de Campos Sales, tendo sido expulso aos 35 minutos do primeiro tempo, após acertar um carrinho violento em um zagueiro adversário.

Heleno de Freitas foi homenageado em Barranquilla com uma estátua com a seguinte frase "El Jogador", pela sua passagem pela Colômbia, onde foi ídolo nacional. Em 2012 ganhou uma estátua em São João Nepomuceno, sua cidade natal.

Ainda tentou, depois, voltar aos campos pelo Flamengo por indicação do técnico Kanela, do time de basquete, mas se desentendeu com os jogadores do rubro-negro num jogo-teste e acabou dispensado.

Advogado, boêmio, catimbeiro, boa vida, irritadiço, galã, Heleno era um homem quase intratável. Depois de 11 anos jogando futebol, entrou para a história como um dos maiores jogadores sul-americanos e também o primeiro "craque problema" do futebol brasileiro.

Sua vida foi marcada por vícios em drogas como lança-perfume e éter. Isto o fez tentar se auto-eletrocutar num treino do Botafogo. Boêmio, era frequentador de diversas boates do Rio de Janeiro.

Até hoje é reconhecido como o primeiro e o maior gênio romântico do futebol por ter sido estrela, bonito, rico, vaidoso, elegante, boa família, formado, mulherengo, festeiro, temperamental e a amar de verdade um clube no Brasil. Heleno  é considerado o maior ídolo do Botafogo pré-Mané Garrincha.

Heleno foi casado com Ilma, que conhecia muito bem os seus problemas com drogas e mulheres. Mesmo assim o aceitou como marido. Teve um filho apenas, Luiz Eduardo, que nunca soube o que é amor paterno.

A mãe, depois de se separar de Heleno, com pouco mais de três anos de união, casou-se com João Emídio Resende da Costa, sobrinho do ex-governador mineiro Israel Pinheiro. O padrasto não permitia que se fizesse qualquer menção ao nome do ex-jogador. Luiz Eduardo era matriculado em escolas onde não se praticava o futebol.

Quando tomou ciência de quem era filho, o garoto passou a perguntar aos outros se conheciam o centroavante do Botafogo. Teve um choque quando um taxista lhe respondeu: “Qual? Aquele que morreu louco”?

Pai de cinco filhas, Camila, Bianca, Joanna, Danuza e Mariah, Luiz Eduardo mora no Leblon, no Rio de janeiro e torce pelo Fluminense. Separado da única mulher, trabalha como corretor de imóveis e gosta de passar o tempo com o neto mais novo, Matheus Amado Pimenta D’Aguiar.

O filho de Heleno se lembra pouco do pai. Nascido em 1949, ano em que Heleno voltava ao futebol brasileiro, teve o último contato com ele em Barranquilla, em 1951. Sua mãe estava em Chicago, junto com os avós maternos e passaram pela Colômbia. Tinha pouco mais de dois anos, mas lembra dos gritos de “arriba, arriba” no estádio. Talvez seja sua única memória bem distante do pai.

Luiz Eduardo conheceu São João Nepomuceno aos 14 anos e ficou impressionado com o quanto Heleno era querido por lá. Foi bem recebido na cidade e levado para jogar uma pelada. No primeiro passe que recebeu, se enrolou todo com a bola. Alguns gritaram: “É mentira! Esse perna de pau aí não é filho do Heleno”.

Segundo o ex-goleiro Danton, Heleno, quando já estava internado em um sanatório, em Barbacena (MG), costumava assistir, acompanhado do médico doutor Tollendal, os jogos do time local do Olympic. E nos seus delírios megalomaníacos contava que teve envolvimentos amorosos com várias mulheres bonitas, incluindo um caso nunca comprovado com Eva Peron, no período em que ele jogou na Argentina.

Segundo a sobrinha do jogador, Helenize de Freitas, Heleno contava muitos casos já durante o período que morou em São João Nepomuceno, entre 1952 e 1954, antes de se internar em definitivo. Ele contava que era amigo do Víctor Mature, ator de “Sansão e Dalila”. Como ele convivia com muitos artistas nos tempos de glória do Rio, os parentes não duvidavam. Depois viram que já era efeito da doença.

Heleno de Feitas deu entrada na Casa de Saúde São Sebastião em 19 de dezembro de 1954. Cinco anos depois o médico José Theobaldo Tollendal diagnosticou que ele sofria da doença conhecida por “paralisia geral progressiva”, após exames feitos na Casa de Saúde Santa Clara, em Belo Horizonte, um mês antes de sua morte.

Heraldo de Freitas, irmão do ex-jogador foi quem custeou às despesas hospitalares. Heleno morreu no dia 8 de novembro de 1959, com apenas 39 anos de idade. Hoje é nome de rua em São João Nepomuceno. Uma ruazinha tranquila, bem diferente de sua vida atribulada.

Títulos. Seleção Brasileira, Copa Roca: (1945); Copa Rio Branco: (1947). Botafogo: Campeonato Carioca (1935); Torneio Inicio do Campeonato Carioca: (1947); Campeonato Carioca de Aspirantes: (1944 e 1945); Campeonato Carioca de Amadores: (1943 e 1944); Copa Burgos, disputada no México: (1941); Taça Prefeito Doutor Durval Neves da Rocha (1942). Pelo Vasco da Gama. Campeonato Carioca: (1949); Campeonato Carioca de Aspirantes: (1949). Pelo Santos. Taça Santos: (1952); Torneio FPF: (1952); Quadrangular de Belo Horizonte: (1951). Foi artilheiro da Copa América: (1945) e do Campeonato Carioca: (1942).

Sua vida é retratada no filme “Heleno, o principe maldito”, do diretor José Henrique Fonseca e estrelado por Rodrigo Santoro que faz o papel título. No filme, o diretor relembra a atmosfera dos anos 1940, usando fotografia em preto e branco que evoca os clássicos filmes de Hollywood.

No elenco, além de Santoro, estão Alinne Moraes, no papel de Ilma, Angie Cepeda, que vive Diamantina, uma vedete amante do jogador no auge da carreira, e Othon Bastos, interpretando Carlito Rocha, o mítico e supersticioso dirigente alvinegro.

A vida do ex-jogador também é contada no livro “Nunca houve um homem como Heleno” , Editora Jorge Zahar, R$ 44,00, lançado em 2006. Marcos Eduardo começou as pesquisas sobre Heleno em 2002, logo depois de lançar “Anjo ou Demônio”, biografia do polêmico “Renato Gaúcho”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Heleno de Freitas morreu louco. (Foto: Acervo fotográfico do Botafogo F.R.)