Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A vergonha de Oruro


Quem acredita em Justiça? Muito pouca gente. Motivos são raros para que se acredite nisso. Basta lembrar a morte do menino Kevin Beltrán Espada, de apenas 14 anos de idade, ocorrida em 20 de fevereiro do ano passado, num jogo de futebol no Estádio Jesús Bermudes, em Oruro, Bolívia, valendo pela “Taça Libertadores da América”.

O menino teve sua vida ceifada pela irresponsabilidade de alguns delinquentes que se dizem torcedores do Corinthians Paulista, pertencentes a torcida organizada “Gaviões da Fiel”, que jogaram um sinalizador naval em direção a torcida do San José, time adversário.

Na ocasião 12 corinthianos foram presos pela Polícia boliviana e mantidos em cárcere por seis meses e depois colocados em liberdade. Com certeza nem todos os 12 eram culpados, mas também não se pode afirmar que a totalidade era inocente. Pelo menos dois deles tinham pólvora nas mãos, e ajudaram a colocar o sinalizador para dentro do estádio, o que também se configura como crime.

Tanto é verdade que no retorno ao Brasil alguns deles se envolveram em brigas em estádios e na recente invasão do Centro de Treinamento do próprio Corinthians. No Brasil, houve uma tentativa fraudulenta de colocar em um “laranja”, menor de idade, a responsabilidade pelo crime. E o processo no Brasil acabou arquivado o ano passado.

Agora, que o menor completou 18 anos, seu nome foi revelado. Trata-se de Hélder Alves Martins, que vive em liberdade no Brasil, já que seu processo foi arquivado. Atualmente trabalha em uma rede de cinemas e pretende fazer vestibular para Engenharia Macatrônica.

Ele não vai mais aos jogos do Corinthians e nem à quadra da uniformizada, já que foi acusado de ter levado os sinalizadores para Oruro, sem autorização da diretoria.

O próprio clube paulista, que merecia uma punição rigorosa e não sofreu, se colocou ao lado da bandidagem, dizem que até pagando advogados e conseguindo toda uma pressão política. A única coisa que queriam era tirar logo da Bolívia os 12 torcedores e trazê-los para o Brasil.

Existem fortes indícios de que o processo foi uma farsa. Na época da morte de Kevin, Roger Pinto Molina, senador de oposição na Bolívia, estava refugiado na embaixada brasileira. Durante o processo, cogitou-se que a intervenção direta dos dois governos em ambos os casos sugeririam uma troca de favores.

No fim, o político deixou a Bolívia de maneira clandestina, autorizado pelo ministro Eduardo Saboia, o mesmo que negociou a libertação dos 12 corintianos.

Além disso, o caso foi acompanhado de perto por autoridades de peso. Mário Gobbi, presidente do Corinthians, reuniu-se com dois ministros de Dilma para pedir ajuda. Depois da soltura dos brasileiros, Evo Morales, presidente boliviano, admitiu que teve influência no desfecho do caso.

Tivesse esse caso ocorrido na Europa, o Corinthians, com certeza, ficaria anos a fio excluído de qualquer competição esportiva de caráter internacional. A punição no Brasil se resumiu a um jogo com portões fechados e a devolução dos valores dos ingressos vendidos antecipadamente. Vergonha.

Só restou a dor de uma família atingida pela tragédia. Limbert Beltrán, um professor de classe média, pai de Kevin tem motivos de sobra para não acreditar mais em Justiça. Ele até que tentou levar o caso adiante, mas estava sozinho, ninguém o ajudou a continuar um processo fora do seu país. Limbert guarda a mágoa em dose dupla: ter perdido o filho e não ter conseguido justiça.

Logo após a tragédia ocorreram os discursos de sempre, que logo ali são esquecidos. Jogo para a platéia. O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, prometeu ajuda, colaboração à família. E o que fez depois? Nada, absolutamente nada.

E o presidente do Corinthians, então? Disse da boca para fora que a vida do menino morto não tinha preço, que queria ajudar com uma quantia em dinheiro. Chegou até a oferecer 200 mil dólares. Na hora de pagar havia baixado para 50 mil dólares.

Passaram-se 365 dias depois da tragédia na Bolívia, e a família de Kevin nunca viu a cor do dinheiro prometido pela Federação Boliviana de Futebol (FBF), que viria de um amistoso realizado com a Seleção Brasileira. O jogo foi realizado dia 6 de abril de 2013, o Brasil venceu por 4 X 0 e a renda somou R$ 1,087 milhão.

A FBF ficou com o total da arrecadação e prometeu doar cerca de R$ 42 mil (3,9%) aos pais de Kevin na semana seguinte ao jogo. O montante, porém, nunca foi repassado.

O próprio time do San José, da Bolívia, também não fez nada. A Conmebol usou a morte de Kevin para se promover, fazendo vista grossa para os torcedores, para as brigas e toda a violência.

Apenas duas instituições e uma pessoa ajudaram a família de Kevin, e sem fazer qualquer espetáculo ou divulgação disso. As instituições foram a do Club Bolívar, de La Paz, do Aurora, de Cochabamba, e uma pessoa do Brasil, de nome Fabiano, que, via Internet, doou 500 dólares. Só esses foram solidários.

Um ano se passou da morte de Kevin e apenas sobrou a impunidade. O sacrifício do jovem parece que de nada adiantou. Os estádios de futebol continuam dominados por multidões de delinquentes, patrocinados e protegidos por quem deveria reprimi-los, os dirigentes dos grandes clubes.

A Polícia também, teve sua parcela de culpa na tragédia, pois não revistou nenhum dos torcedores brasileiros que se acotovelavam em um dos portões do estádio. Esse foi o erro. Se tivessem feitos as revistas, ninguém teria entrado no estádio com sinalizadores.

Casa arrombada, tranca de ferro. Depois da morte de Kevin, uma nova lei foi implantada na Bolívia, proibindo o uso de artigos pirotécnicos em estádios de futebol. Mas a Conmebol nada fez no sentido de garantir mais segurança nos jogos que promove.

A falta de sensibilidade é tão grande, que o ano passado o presidente corinthiano, Mário Gobbi, ofereceu simbolicamente aos 12 torcedores presos em Oruro, o título de campeão paulista.

E pior. O que o presidente corinthiano falou, e saiu na imprensa, "que a grande lição dessa história toda, o mais doloroso foi 12 torcedores ficarem injustamente presos na Bolívia, e não a morte do garoto". Mário Gobbi desprezou a vida de um jovem de 14 anos que tinha um bom futuro pela frente e que respeitava todas as regras da sociedade.

Depois disso, nada mais restou ao pai do menino morto, do que questionar a dignidade de Gobbi, que desrespeitou à sua família. Fica guardada a indignação de Limbert Beltrán, que disse em alto e bom som:

“Quando penso nesse indivíduo, eu penso em alguém que está mergulhado em dinheiro, mas tem muita carência de valores e sentimentos. Acho que ele não tem filhos. Vou esperar que ele um dia tenha consciência moral e mude sua opinião. Que ele reflita sobre o assunto com o tempo. E que a família dele nunca sofra o que os seus “queridos” torcedores provocaram à nossa família”.

Aliás, cinco dos “queridos” torcedores protegidos por Mário Gobbi, depois de soltos na Bolívia e de volta ao Brasil, já foram protagonistas de cenas nada louváveis: três deles, Cleuter Barreto Barros, Leandro Silva de Oliveira e Fábio Neves Domingos, brigaram com torcedores do Vasco e com a Polícia Militar, em agosto do ano passado, em jogo do “Brasileirão”, realizado no Estádio Nacional de Brasília..

Outro dos “mártires” de Oruro, Tiago Aurélio dos Santos Ferreira foi preso hoje, depois de ter-se envolvido na invasão ao CT Joaquim Grava, no dia 2 de fevereiro, que teve agressões, inclusive ao atacante Guerrero, quebra-quebra, vômitos e cervejada.

Quem está preso há mais tempo é Raphael Machado Castilho Araújo, que foi detido por ter fugido de uma blitz e atirado contra policiais na Bahia. Ele ainda estava usando uma moto roubada. O corintiano foi baleado e teve que ser internado, mas escapou da morte. “Anjinhos”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Torcedores corinthianos estiveram presos por seis meses em Oruro. Na volta ao Brasil, alguns deles se envolveram em brigas e desordens. (Foto: Divulgação)

O pior futebol do Brasil


O futebol de Roraima é considerado o pior do Brasil. E tem motivos de sobra para isso, a começar pelo presidente da Federação local, José Gama Xaud, o “Zeca Xaud”, que em 2014 completa 40 anos no cargo. Ele assumiu a Federação em 1974, quando ela foi criada, e desde então vem conduzindo o precário futebol do Estado.

Ele até fala que é preciso uma renovação, mas não o deixam sair. Não aparece ninguém para lhe suceder. E disse que isso se deve ao fato de a Federação não ter dinheiro. E se arrisca a falar que se tivesse, teria um monte de candidatos.

Ele ressalta que apesar da crise, não deixa a entidade contrair dívidas. Garante que até tiraria dinheiro do próprio bolso, se preciso fosse. O mandato de “Zeca Xaud” termina no fim de 2014, mas foi prorrogado por causa da "Copa do Mundo". E segundo ele próprio, a idade – 70 anos – está começando a pesar.

Só para se ter uma ideia do tempo em que “Zeca Xaud” dirige o futebol roraimense, basta lembrar que quando ele assumiu, Pelé ainda jogava futebol, o Brasil era tri-campeão do mundo e Ricardo Teixeira, outro que se eternizou na direção da CBF – foram 23 anos -, ainda nem conhecia a filha de João Havelange, com quem se casou, tempos depois.

É um recorde nacional, talvez até mundial. São 11 mandatos ininterruptos. O campeonato estadual é tão desinteressante, que a média de público é de pouco mais de 50 torcedores por jogo. E pasmem, o ingresso é grátis.

Mesmo assim não chama a atenção dos torcedores. Qualquer campeonato amador de futebol, seja realizado onde for, é mais interessante que o Campeonato de Roraima, que só tem o nome de profissional.

Por lá acontecem coisas quase inacreditáveis. Um jogo entre duas equipes que disputavam o campeonato principal atrasou, porque um dos times esqueceu de levar o uniforme. Um cronista esportivo se ofereceu a emprestar um jogo de camisas, mas não foi preciso, porque o uniforme original foi finalmente levado até o estádio.

Em outro jogo aconteceu quase a mesma coisa. Em vez de esquecer o fardamento uma equipe não levou a documentação dos jogadores. Por pouco o jogo não foi cancelado. Outra coisa, o futebol de Roraima é o único no país que não tem “Segunda Divisão”.

Em 2010 o Atlético de Roraima tentou mandar seu jogo contra a Portuguesa de Desportos, pela Copa do Brasil, no Rio Grande do Sul, dizendo ter recebido uma oferta de empresários para isso. O presidente da Federação, "Zeca Xaud", disse que nada poderia fazer para impedir o jogo no Sul. A partida acabou ocorrendo em Roraima mesmo, com goleada do time paulista por 7 X 0.
       
Ainda que o futebol de Roraíma seja de péssima qualidade, o “Estádio Flamarion Vasconcelos”, popularmente conhecido por “Canarinho” foi reformado e sua capacidade aumentada para receber até 10 mil torcedores. A reforma custou cerca de R$ 100 milhões e foi executada pelo Governo do Estado, com recursos do Governo Federal.

A situação dos clubes é tão difícil, que até para contratar jogadores de fora é preciso muito jogo de cintura, pois ninguém quer jogar lá, devido a distância. O centro mais próximo de Boa Vista é Manaus, que fica a 800 quilômetros. Para jogar com time de outro Estado, só viajando de avião. E 70% da população local é de outras regiões do país e chegaram já como torcedores dos clubes de suas regiões. 

“Zeca Xaud” usa métodos paternalistas para se manter no poder. A Federação banca taxas de arbitragens, registros de jogadores e outras despesas. Mas mesmo assim os clubes estão afundados em dívidas e sem qualquer perspectiva de mudar essa situação.

O pior, a maioria dos presidentes de clubes estão também há décadas no poder. Quase não existem patrocínios de camisas, a TV não oferece contratos e nos estádios inexistem placas de publicidade.

O futebol no Estado profissionalizou-se em 1995 e contou com três equipes participantes no campeonato: Atlético Roraima e Baré ambos da capital, e Boa Vista e Progresso, da cidade de Mucajaí.

Nas décadas de 60 e 70 os roraimenses costumavam assistir os jogos no “Estádio João Mineiro”, que não existe mais. Ao que se sabe, o nome do estádio foi em homenagem a um pedreiro chamado “João Mineiro”. Ele foi o incentivador do futebol em Roraima, além de ter sido presidente de um time chamado Operário, cuja camisa era vermelha, azul e branca.

Na época o maior clássico do futebol local era o “Bareíma”, reunindo Baré X Roraíma. Depois de cada jogo, era costume do time vencedor sair pelas principais ruas da Capital numa carreata misturada com passeata, saindo do “Estádio João Mineiro” em direção a rua Jaime Brasil, no centro da cidade.

No portal do estádio João Mineiro tinha bilheterias separadas, para evitar confrontos entre os torcedores. Esta medida foi tomada em razão da grande rivalidade entre os torcedores dos dois times, na época. Quando do clássico, o estádio sempre lotava, chegando a receber público superior a dois mil expectadores.

Os torcedores lembram com saudade alguns bons jogadores que passaram pelo futebol de Roraíma, como Roberto Silva, que foi artilheiro durante 10 anos do Campeonato Amador, promovido pela Federação Riobranquense de Desporto (FRD). E também de Chico Roberto, ex-prefeito de Pacaraima, os irmãos Barac e Rubinho Bento, Newton Campos, chamado de a "Enciclopédia do Futebol Roraimense", Rubens Silva, o "Rubão", irmão de Roberto Silva.

Além de Idalmir Cavalcanti, Clóves Rates, Pedro Reis, Luciano Araújo e seu irmão Agacy Araújo, Augusto Monteiro, hoje diretor geral do Tribunal de Justiça, o próprio “Zeca Xaud, os goleiros Wilson Arruda, o “Pipira” e Alcides Lima, o “Alcidinho, Nelson Almeida, Pedro "Camarão" e Paulo Duarte, entre outros.

Em 1951 aconteceu um fato bastante pitoresco no “João Mineiro”. O médico Reinaldo Neves, que era uma pessoa muito impulsiva, não aceitou a marcação de um pênalti contra o Baré e foi até o árbitro reclamar. Disse que o pênalti não seria batido, o que realmente aconteceu. Além disso pediu que o juiz fosse substituído, o que também ocorreu, verificando-se um tremendo sururu em razão disso.

A demolição do “Estádio João Mineiro”, que ocupava um grande espaço em área nobre da cidade, aconteceu depois da inauguração do “Estádio Flamarion Vasconcelos”, o “Canarinho”. No local foi construída a Maternidade Nossa Senhora de Nazaré e uma praça. Mas uma parte da história do estádio ainda permanece de pé, o portal por onde os torcedores compravam os ingressos nos dias de jogos. (Pesquisa: Nilo Dias)

Do antigo "Estádio João Mineiro", só restou o portal de entrada, que foi restaurado e fica a frente da Maternidade Nossa Senhora de Nazaré. (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O "Rei do Passe"


Aníbal Medici Machado, apelidado “Candiota”, nasceu em Bagé (RS), no dia 14 de junho de 1900 e faleceu em 22 de janeiro de 1951, aos 50 anos de idade. Começou sua carreira de jogador de futebol no Guarany F.C., de sua terra natal, onde jogou de 1916 a 1918, transferindo-se depois para o Cruzeiro, de Porto Alegre (1918 e 1919) e para o Flamengo, do Rio de Janeiro (1919 a 1925).

Seu primeiro jogo pelo Flamengo ocorreu no dia 15 de Maio de 1919, na goleada de 5 X 0 sobre o Mangueira. “Candiota” marcou um dos gols. Em 1921, na decisão do Campeonato carioca, anotou o gol que deu o título ao Flamengo, quando faltavam 10 minutos para o término do jogo. Pelo rubro-negro carioca atuou em 118 jogos e marcou 50 gols.

Era conhecido como o “Rei do Passe”, devido a precisão de seus lançamentos. Ele foi o primeiro jogador bageense a ser chamado para a Seleção Brasileira, que defendeu entre 1920 a 1922. E foi também o primeiro jogador do Flamengo a marcar um gol pelo selecionado nacional, isso, no jogo Brasil 3 X 0 Paraguai, pela primeira fase do Campeonato Sul-Americano de 1921, disputado na Argentina.

Naquela ocasião o time brasileiro entrou em campo com Marcos Carneiro de Mendonça - Luiz Paulo Barata Fortes e José de Almeida Neto – Alfredo Silva – Lais e Antônio Galvão Bueno – Orlando Pires Pereira – Frederico Pinheiro – José Carlos Guimarães – Anibal Médicis Candiota e Ernesto Duarte Machado da Silva.

De volta a Bagé em 1925, jogou pelo G.E. Bagé que chegou a final do Campeonato Gaúcho daquele ano, quando enfrentou e venceu ao Grêmio Portoalegrense por 2 X 1, gols de Oliveira. O jogador “Feio” descontou para o time da capital.

O Bagé foi campeão com Júlio - Antônio e Fortunato - Misael Romero - Aníbal Machado e Catulino Moreira – Leonardo – Pasqualito – Oliveira - Páschoa e João. Em 1926 voltou ao Guarany, onde atuou de 1926 até 1932, quando encerrou a carreira.

Títulos. Pelo Flamengo. Campeão do Torneio América Fabril (1919, 1922 e 1923); Campeão Carioca (1920, 1921, 1925 e 1927); Campeão do Torneio Início (1920 e 1922); Taça Sport Club Mackenzie (1920); Taça Ypiranga Football Club (1921); Campeão do Troféu Carioca Football Club (1923); Campeão do Troféu Petropolitano Football Club (1923); Troféu Torre Sport Club – Pernambuco (1925); Troféu Agência Hudson – Pernambuco (1925); Troféu Jornal do Commércio de Pernambuco (1925); Troféu Sérgio de Loreto – Pernambuco (1925); Troféu Associação Paranaense de Desportos (1927) e Taça Dr. Affonso de Camargo (1927).

Pelo E.C. Cruzeiro, de Porto Alegre: Campeão Gaúcho (1918). G.E. Bagé: Campeão Gaúcho (1925); Guarany F.C., de Bagé: Campeão Gaúcho (1926, 1927 e 1932) 


Candiota, foi um dos grandes jogadores oriundos de Bagé. (Foto:Divulgação)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Caboclo Miró

José Mirobaldo Bastos Correia, o Mirobaldo, apelidado de “Caboclo Miró”, atacante que fez história no futebol brasileiro e português, nasceu em Aracaju (SE), no dia 31 de maio de 1946. Começou a carreira nas categorias de base do Confiança, em 1961. Depois foi para o Olímpico, também de Sergipe, onde jogou em 1965 e 1966.

Em 1967, defendeu o América, da capital sergipana. Voltou ao Confiança em 1968 e no ano seguinte transferiu-se para o Santa Cruz, de Recife (PE), a pedido do técnico Gradim, depois de um jogo entre os dois clubes.

A contratação de Mirovaldo mereceu festa da torcida “coral”. No primeiro treino do atacante, cerca de duas mil pessoas foram até o “Arruda”, na manhã do dia 2 de fevereiro de 1969, para vê-lo de perto.

Mesmo desambientado e sem ritmo, Mirobaldo fez um treino apenas razoável. A grande sensação naquele dia foi Rubens Salim que comandou o ataque do time reserva, na vitória por 5 X 1 sobre os titulares. Depois do treino, Mirobaldo assinou contrato com o Santa Cruz, com salários mensais de Ncr$ 700,00.

Um dia depois o Santa Cruz completou 55 anos de fundação, comemorados com um coquetel na sede social, e com a promessa da nova diretoria de fazer o clube retornar aos seus dias de glórias, já que não ganhava um título estadual desde 1959.

Os torcedores se mostravam ansiosos para ver o recém contratado em ação. Na noite de 6 de fevereiro de 1969 o atacante sergipano vestia pela primeira vez a camisa tricolor, num amistoso contra o Santo Amaro, também conhecido por “Vovozinhas”, no “Arruda”.

O apelido do Santo Amaro se devia ao fato do time ser patrocinado, na época, pelo radialista Alcides Teixeira, que tinha um programa radiofônico assistencialista com o nome de “Programa das Vovozinhas”.

O Santa Cruz ganhou por 7 X 1, com gols de Nivaldo (2), Alberi (2), Luciano Veloso, Fernando Santana e Mirobaldo, que marcou o seu primeiro gol com a camisa coral e foi poupado na segunda etapa do jogo.

O Santa venceu com Pedrinho (Lula Vasquez) – Noberto - Adevaldo (Edson) - Rivaldo e Valdir - Zito e Luciano Veloso (Inaldo) - Cuíca (Fernando Santana) - Uriel (Alberi) - Mirobaldo (Erandi) e Nivaldo. A renda foi de Ncr$ 3.484,00.

O Santa Cruz estreou no Campeonato Pernambucano dia 9 de fevereiro, no “Arruda”, sem contar com Mirobaldo, que ainda não tinha condição legal de jogo. O time venceu por 2 X 1 e a renda somou Ncr$ 8.829,00. Depois desse jogo vieram os festejos carnavalescos e a competição foi paralisada.

Aproveitando o recesso o Santa Cruz jogou um amistoso frente o Treze, de Campina Grande (PB), no “Arruda”, dia 12, com vitória de 3 X 0, gols de Fernando Santana, Luciano veloso e Mirobaldo, que já caíra definitivamente no gosto da torcida.

No dia 23, após a pausa carnavalesca, o campeonato recomeçou e o Santa Cruz goleou o América por 5 X 0, depois de um primeiro tempo em 0 X 0.

O goleiro “Jagunço”, do América, que também fez história no futebol pernambucano jogando pelo Íbis, fechou o gol no primeiro tempo, deixando a torcida preocupada. No segundo tempo, porém, com a entrada de Uriel no lugar de Erandi, a time deslanchou e chegou a goleada com facilidade. Uriel, Jaminho (contra), Zito, Luciano Veloso e Mirobaldo marcaram os gols do Santa Cruz. A renda somou Ncr$ 14.435,00.

O mês de fevereiro terminou com uma vitória de 2 X 0 sobre o Ibis. O placar não foi maior graças a grande atuação do goleiro adversário Omar. Os gols foram de Luciano Veloso.

No clube “Coral”, Mirobaldo ficou por três temporadas, 1969, 1970 e 1971. Suas grandes atuações no clube pernambucano fizeram com que o Farense, de Portugal o contratasse. Ficou no clube de luso de 1971 a 1976, quando se transferiu para o Vitória, de Setubal, onde permaneceu até 1979.

Nas suas andanças pelo futebol luzitano, foi jogar no Portimonense nos anos de 1979 e 1980. Já no final de carreira, atuou pela Segunda Divisão Portuguesa, defendendo o Desportivo Beja, em 1980 e 1981. Retornou ao Farense em 1981 e 1982 e vestiu a camisa do Olhanense de 1982 a 1984, quando encerrou a carreira.

Mirobaldo foi um dos raros jogadores estrangeiros a ter defendido os três “grandes” clubes da região da Algarvia, em Portugal: Farense, Portimonense e Olhanense. Era alto, 1m87, bom no cabeceio e dono de uma verdadeira “patada” com o pé esquerdo.

O ataque do Farense tinha Mirobaldo, Farias e Adilson, apelidado de M.F.A., as iniciais dos nomes dos jogadores. Foi o maior artilheiro do clube na época, marcando 42 gols em 127 jogos.

No Vitória, de Setúbal, atuou ao lado de grandes jogadores, como Jaime Graça, Jacinto João,Vitor Baptista e Fernando Tomé. E continuou a marcar gols, sendo o artilheiro do time na temporada 76/77, tendo marcado 15 vezes.

Também no Portimonense mostrou suas qualidades de artilheiro, marcando 10 gols em 25 jogos, na temporada 79/80. Era o capitão da equipe. No retorno ao Farense, que dessa feita estava na 2ª Divisão, anotou 12 gols em 21 jogos, na temporada 81/82. No Olhanense, seu último clube, mesmo com 37 anos deixou a sua marca de goleador. (Pesquisa: Nilo Dias)

 
 Mirobaldo quando jogava no Vitória, de Setubal, Portugal. (Foto: Divulgação)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Até que a Justiça seja feita

Eu venho acompanhando desde o início essa questão envolvendo a Portuguesa de Desportos, que foi alijada do Campeonato Brasileiro deste ano, embora tenha conquistado dentro de campo esse direito. Tenho uma opinião formada: o time paulista está sendo alvo de algo que parece ter sido decidido nos bastidores da última e decisiva rodada do campeonato do ano passado. Não sei o que aconteceu, mas que houve algo muito estranho, não tenho a menor dúvida.

Na véspera do jogo da Portuguesa de Desportos contra o Grêmio Portoalegrense, aconteceu o julgamento no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em que o jogador Héverton, do clube paulista foi condenado a dois jogos de suspensão, pela expulsão no jogo contra o Bahia, e já havia cumprido um deles.

Até aí, tudo bem. O advogado da Portuguesa, Osvaldo Sestário, esteve presente ao julgamento, e se comunicou ao clube o resultado, não sei. Existem controvérsias entre as partes: o clube garante que não foi comunicado e o advogado afirma que tentou contato com os dirigentes, sem êxito. Será que foi isso mesmo?

Sendo assim, a Portuguesa de Desportos não ficou sabendo da nova punição ao jogador. E o que fez? O óbvio, olhou no site da CBF e viu que nada de novo estava publicado lá. Do que se depreendeu que o jogador estava apto para jogar. Correto.

Héverton entrou em campo nos minutos finais de jogo com o Grêmio. Com o empate o clube do Canindé se livrou da ameaça do rebaixamento. E festejou isso. Na segunda-feira a surpresa: a CBF denunciou o clube por ter utilizado o jogador de forma irregular, pois tinha mais um jogo de suspensão a cumprir, e não o fez.

Mas o que mais me chamou a atenção foram declarações do presidente do Fluminense, logo após o jogo em que o seu time venceu o Bahia, e de nada adiantou. Ele não quis comentar o rebaixamento, dizendo que só falaria no outro dia. Porque? Será que ele já sabia do que estava por acontecer? Talvez.

O procurador do STJD, Paulo Schmith se antecipou ao julgamento, e em declarações a imprensa deixou transparecer que a Portuguesa de Desportos seria punida com a exclusão da Série A do Campeonato Brasileiro de 2014. Não poderia ter feito isso. Mas fez, sem que nada lhe acontecesse. Participou do julgamento normalmente. Outro colega seu, que fez a mesma coisa, foi afastado.

As decisões do STJD podem e devem ser anuladas, visto que o procurador Paulo Schimith está no cargo de maneira ilegal. Em 2009, o Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) definiu que os procuradores seguiriam as mesmas normas que o presidente do STJD: mandatos de dois anos, e só uma recondução. Na ocasião, Paulo Schmith já estava no cargo há três anos. Em 2010, foi eleito, e, em 2012, reeleito. Esses nove anos no cargo e duas reconduções violaram o CBJD.

O julgamento pareceu uma peça de teatro bem ensaiada. Os procuradores já vieram com os votos prontos de casa. Os advogados que falaram, perderam tempo. O caso já estava decidido. Houve o recurso e a repetição do teatro.

A Portuguesa de Desportos, através de torcedores entrou na Justiça Comum e conseguiu algumas liminares que devolviam ao clube os quatro pontos perdidos, e em consequência a sua permanência na Série A, com base no que diz o “Estatuto do Torcedor”. 

A CBF conseguiu derrubar todas as liminares, através de despachos de um único juiz, desembargador Dácio Tadeu Viniani Nicolau, e apressou-se em anunciar a tabela do “Brasileirão”, sem a Portuguesa e com o Fluminense.

Tudo muito estranho. É de se perguntar, como um juiz pode desconhecer que uma lei federal, o “Estatuto do Torcedor”, está acima da decisão de um órgão de entidade privada, como o STJD? Tudo isso merece uma apuração séria e necessária.

O pior não é isso. A ação visando devolver os pontos a Portuguesa teve inicio na 42ª Vara Cível Central de São Paulo contra a CBF, visando a anulação do julgamento do STJD. À essa ação foi concedida tutela antecipada para suspender os efeitos da decisão do tribunal esportivo. 

Mas em 14 de janeiro, duas novas ações - uma distribuída para a 2ª Vara Cível da Barra da Tijuca e a outra movida no Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos, ambos no Rio de Janeiro - obrigaram a CBF a cumprir o julgamento do STJD, contrariando a decisão do juízo paulista. 

Como isso foi posível, se todas as ações deveriam ser julgadas pelo mesmo juízo da ação de origem, ou seja, no foro da capital paulista? Mais uma vez, tudo muito estranho.

Outra coisa, o artigo 133 do CBJD é inconstitucional, porque abusa do principio da celeridade em detrimento da razoabilidade e da proporcionalidade. E pior, desrespeita o “Estatuto do Torcedor”. E o que diz o artigo 35, do “Estatuto do Torcedor”?

“As decisões proferidas pelos órgãos da Justiça Desportiva devem ser, em qualquer hipótese, motivadas e ter a mesma publicidade que as decisões dos tribunais federais”. O que quer dizer isso? Que toda e qualquer decisão judicial deve ser publicada antes de entrar em execução. E não foi o que aconteceu na decisão do STJD.

Recorrer a Justiça comum é um direito de qualquer pessoa ou entidade. A recente decisão dos clubes, em obediência a Rede Globo e a CBF, determinou que nenhum clube pode se valer da Justiça, que não a esportiva, para buscar seus direitos. Decisão inconstitucional, não vale nada. Nem Fifa, nem CBF pode ser maior que a Constituição de um país.

E é bom que não se esqueça da tentativa da CBF em subornar a Portuguesa de Desportos, acenando com um empréstimo de R$ 4 milhões, com clausulas especiais e vantajosas, para que o clube desistisse de se manter na Série A do Brasileirão.

E quanto ao Fluminense? É inegável que o clube conta com gente poderosa, a começar pela CBF e a Rede Globo. Se não vejamos: a escandalosa ascensão do clube da Terceira Divisão para a Série A, sem passar pela B, em 2000, na “Copa João Havelange”, que substituiu o “Brasileirão”, em razão do caso Gama.

Em 2010, o Fluminense deveria ter sido punido pela escalação do meia Tartá e até perder o título brasileiro. O jogador começou o Campeonato Brasileiro atuando pelo Atlético Paranaense, clube pelo qual recebeu dois cartões amarelos.

Ao retornar para o Fluminense, o jogador foi considerado suspenso pelo corpo jurídico do clube carioca depois de receber o primeiro amarelo pelo tricolor, quando na verdade o jogador já tinha recebido o terceiro cartão amarelo contra o Vasco, e, dessa forma, não poderia ter jogado contra o Goiás.

Na ocasião, no entanto, o procurador-geral do STJD, Paulo Schmitt disse que não havia “condição moral” para punir o Fluminense.Valia o resultado de campo. É de se perguntar: e porque contra a Portuguesa de Desportos foi diferente, o resultado de campo não valia mais?

E ainda tem o caso do Duque de Caxias, que foi absolvido pelo STJD, em 2010, pela escalação irregular de um jogador, na Série B do Campeonato Brasileiro. Punido com um cartão amarelo quando atuava pelo Ipatinga, Leandro Chaves tomou dois amarelos depois de se transferir para o clube carioca, o que, segundo a legislação desportiva, o obrigaria a cumprir suspensão automática. E não cumpriu. O que aconteceu? Nada.

Está mais do que claro que foi armado um complô contra a Portuguesa de Desportos. Mas o clube deve e vai continuar na luta por seus direitos. Na semana que vem deve entrar na Justiça Comum, enfrentando todos os obstáculos, mas com a Constituição brasileira ao seu lado. E paralelamente, os tribunais de todo o país vão se encher de novas ações, até que a Justiça seja feita. (Nilo Dias, Jornalista) 



terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O Príncipe cearense

João Erivaldo Queiroz Damasceno, conhecido apenas por Damasceno foi um dos melhores zagueiros do futebol cearense em todos os tempos. Era muito hábil no trato com a bola, o que não impedia de ser vigoroso na marcação aos adversários. Nasceu em Fortaleza, no ano de 1936.

Sua carreira de futebolista teve início no time amador do Atlético Cearense, do Montese, subúrbio de Fortaleza. Sua vida de rapaz pobre começou a mudar quando em 1951, João Brega, o “Jombrega”, na época técnico do Ceará, o viu jogando no campo do Colégio Piamarta.

De imediato o convidou para fazer um teste no alvinegro. E não decepcionou. O Ceará tinha um bom grupo de jogadores na época, com destaques para o lateral-direito William, Alexandre “Filé de Gia”, "Dico Camaroeiro” e Carneiro, lateral-esquerdo.

Em 1953 já era titular absoluto do time e considerado pela crítica cearense como tecnicamente superior a Vareta e Sapenha, do Fortaleza e Macaúba, do Ferroviário.

Naquele ano o Ferroviário sagrou-se campeão cearense, mas Damasceno foi um dos jogadores mais destacados do seu time e da competição. Só conseguiu colocar a faixa no peito nos anos de 1957 e 1958, quando o Ceará foi bicampeão estadual.

Jogou ao lado do volante paraibano Cláudio e dos laterais "Pelado", Clarindo e "Becão", este vindo do Calouros do Ar. Na seleção cearense junto do maranhense Carneiro, também do Ceará e de Filgueiras, alagoano que defendia as cores do "Usina Ceará", clube extinto, que por anos representou os funcionários da fábrica Siqueira Gurgel.

Jogou no Ceará Sporting por quase 10 anos, fazendo dupla com Alexandre Nepomuceno, outro zagueiro de grandes predicados técnicos. Os dois se completavam, um sabia onde o outro estava, mesmo sem se verem. Formaram o par verdadeiramente perfeito dentro de campo.

Damasceno foi apelidado de “Príncipe do Futebol Cearense”, pelo locutor esportivo Ivan Lima, quando o Vasco foi a Fortaleza para um amistoso com o Ceará, que venceu por 1 X 0, gol de Guilherme.

Para motivar a torcida e levá-la a campo, Ivan criou a história do confronto entre o “príncipe carioca”, Danilo, e o “príncipe cearense”, Damasceno. O apelido pegou e acompanhou o zagueiro em toda a sua carreira. Pelé já era o rei.

O zagueiro marcou grandes atacantes do futebol brasileiro, entre os quais Zagalo, Didi, Garrincha, Pelé, Mengálvio, Coutinho, Pepe e Dorval. Mas também destacou os jogadores cearenses Gildo e Mozart, como “terríveis”, capazes de desarticular qualquer zaga.

Damasceno ficou no Ceará até 1960, ano em que se transferiu para o Náutico, do Recife. No clube pernambucano jogou por três anos, até 1963. Depois de ter fraturado a clavícula fez acordo com o clube, se comprometendo a não jogar pelo Sport e Santa Cruz, retornando a Fortaleza, dessa feita para defender o Ferroviário.

Jogou no Ferroviário até 1967, quando completou 36 anos e resolveu encerrar a carreira.  Mas não abandonou o futebol, sua grande paixão. Aceitou um convite do Tiradentes, o time da Polícia Militar do Estado, para ser o seu treinador. Depois foi técnico do Guarani, de Sobral, Salgueiro, de Salgueiro (PE) e seleções de Marcanaú, Juazeiro e Tauá.

Em 1972, quando era técnico da Seleção de Juazeiro, levou consigo o atacante Geraldino “Saravá”, que tempos depois se tornou o maior artilheiro da história do estádio “Castelão”. Apesar de não ter muita intimidade com a bola, “Saravá” era um daqueles jogadores que se podia chamar de “matador”. Batia na bola como poucos, sempre escolhendo os cantos da goleira.

Damasceno prezava muito as amizades. Tanto é verdade que resolveu abandonar a carreira de treinador depois que o ex-zagueiro e seu grande amigo, Pedro Basílio, ter sido dispensado do Fortaleza, onde era o técnico. Foi uma injustiça muito grande, já que sob seu comando o time ganhou um turno invicto. Bastou perder o primeiro jogo no returno para ser mandado embora.

Damasceno morreu no dia 12 de outubro de 2008, aos 72 anos de idade, deixando 12 filhos e sete netos de dois casamentos. Na sua brilhante carreira, o “príncipe” Damasceno ganhou o troféu “Personalidades Esportivas Flávio Ponte”,  em 10 de dezembro de 2001.

Mesmo tendo sido um dos mais importantes jogadores na história do futebol cearense, o “Príncipe” ganhou muito pouco em sua carreira. Conseguiu uma aposentadoria por idade, graças a ajuda de um amigo do INSS, quando completou 65 anos.

Quando jogava, a situação era difícil, não guardou nem um documento que comprovasse o tempo de trabalho. A casa onde morava, no Bairro Vila União, foi construída na década de 1980, graças a ajuda de familiares. Isso, muito tempo depois de ter abandonado o futebol. (Pesquisa: Nilo Dias)

Seleção Cearense de 1954. Damasceno é o quinto em pé, a contar  da esquerda para a direita. (Foto: "Jornal Pequeno")

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Brasileiro morre na Ucrânia

O jogador de futebol Maicon Pereira de Oliveira, o “Maicon”, de 25 anos de idade, que pertencia ao Shakhtar Donetsk, da Ucrânia e estava emprestado ao Illichivets Mariupol, também da Liga Ucraniana, morreu na madrugada de ontem em um acidente de carro, perto da cidade de Donetsk. Maicon era carioca, nascido em 8 de maio de 1988.

Começou a carreira nas categorias de base do Fluminense, onde ficou de 2004 a 2006. Depois foi para o Flamengo onde jogou de 2007 a 2008. Em 2009, sem oportunidade entre os profissionais das equipes cariocas, assinou seu primeiro contrato de profissional com o Atlético Mogi, de Mogi Mirim (SP), e em seguida foi para a Europa contratado pelo Volyn Lutsk, da Ucrânia.

Em 2011, foi emprestado para o Steaua Bucaresti, da Romênia, por um período de três meses. Ao voltar para o Volyn Lutsk foi artilheiro do campeonato ucraniano, com 16 gols, e da Copa da Ucrânia, com 10 gols. Em 2 de julho de 2012 foi vendido para o Shakhtar Donetski, onde foi campeão ucraniano na temporada 2012/2013.

Sem muito espaço no clube ainda o ano passado foi emprestado para o Zorya Luhansk, também da Ucrânia, e depois para o Illichivets Mariupol, onde disputou a última edição do campeonato nacional. Em 2013/2014, Maicon somou 11 partidas, sendo todas como titular, e marcou três gols.

Embora estivesse emprestado, o Shakhtar Donetsk, dono de seus direitos federativos até 2015, cancelou todos os treinos programados para este sábado. O Shakhtar Donetsk é um clube grande, que conta com uma estrutura excelente.

É um dos clubes europeus que mais contrata jogadores brasileiros. Lá também jogam Wellington Nem, Fred, Bernard, Fernando, Eduardo da Silva, Luiz Adriano, Douglas Costa, Taison, Alex Teixeira, Ilsinho, Dentinho e Ismaily. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Um botafoguense revolucionário

Os torcedores do Botafogo, do Rio de Janeiro costumam dizer que algumas coisas só acontecem com o clube. A superstição andou sempre lado a lado com o alvinegro.  Talvez muitas pessoas nunca tenham ouvido falar em Djalma Dutra. Ele jogou no Botafogo desde o glorioso ano de 1910, em que o clube conquistou seu primeiro título de campeão carioca.

A bem da verdade, Djalma, nascido em 1895, recém estava chegando ao clube, para jogar na Escolinha de Futebol. O Botafogo foi pioneiro na organização de categorias de base, no Rio de janeiro. Sua primeira escolinha se chamava Carioca F.C., criada em 1905. Depois foi extinta e o clube fundou em 1908 o Botafogo Infantil.

Djalma Dutra foi um dos astros dessa equipe. Em 1910, enquanto o time principal se sagrava campeão, os infantis venciam o maior rival da época, o Fluminense e levantavam o caneco do “Torneio Infantil”.

Foram dois jogos para decidir quem seria o campeão. No primeiro, realizado dia 30 de Junho de 1910, o Botafogo ganhou por 4 X 2. Os gols foram anotados por Paulo Azeredo e Mário Pinto, dois cada um. O time formou com Waldemar - Adolfo Couto e Carlos Amorim -  Ewaldo - Rui Bandeira e Paulo - Jorge Martins - Djalma Dutra - Mário Pinto - Paulo Azeredo e Tavares.

A segunda partida aconteceu em 3 de julho de 1910, om nova vitória botafoguense, dessa feita por 2 X 1. Mário Pinto e Djalma Dutra fizweram os gols. O campeão mandou a campo Mário - Augusto Tavares e Carlos Amorim - Adolfo Couto - Ewaldo e Kiki - Luiz Menezes - Djalma Dutra - Mário Pinto - Paulo Azeredo e Burlamaqui.

Djalma Dutra tinha tudo para seguir uma carreira exitosa no futebol. Quando chegou na idade de servir ao Exército, sua vida mudou por completo. Com espirito idealista, lutou com ardor por causas em que acreditava.

Cursou a Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, e em 1922 já estava envolvido em movimentos revolucionários. Foi considerado desertor quando servia no regimento de Dom Pedrito (RS), terra do operador deste blog e juntou-se a “Coluna Prestes”.

Depois que as tropas comandadas por Luiz Carlos Prestes, já desgastadas pela longa marcha, terem abandonado o território brasileiro, encerrando aquela fase da luta, exilou-se na Argentina junto com a maioria dos demais líderes revolucionários.

Em 1929, Djalma veio clandestinamente ao Brasil, junto de Siqueira Campos, que fora um dos líderes da “Coluna Prestes”, para preparar uma insurreição em São Paulo. A policia paulista os localizou em uma casa da rua Andrade e esperou que saíssem, recebendo-os à bala. Siqueira Campos regaiu também atirando, conseguindo escapar.

Djalma Dutra foi preso e levado para o Rio de Janeiro, tendo conseguido fugir pouco tempos depois, para  juntar-se novamente ao movimento revolucionário.

Com a derrota da candidatura de oposição a Getúlio Vargas nas eleições presidenciais, Djalma regressou para São Paulo em março, para preparar a deflagração do movimento armado que visava depor o presidente Washington Luís. Em Outubro, quando teve início a “Revolução de 1930”, encontrava-se em Minas Gerais, onde tomou parte em combates.

O movimento revolucionário do qual fazia parte ganhou força a partir do rompimento entre as oligarquias paulista e mineira, ambas ligadas a interesses de produção e exportação de café. Djama Dutra morreu em outubro de 1930 quando tomava parte na tomada do 4º Regimento de Cavalaria, sediado em Três Corações (MG).

Teve participação destacada na “Coluna Prestes”, tendo sido comandante de um dos quatro destacamentos em que se dividia o exército rebelde, que percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil entre 1925 e 1927.

Sua história não foi esquecida. Tanto é verdade que hoje é nome de rua em São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Recife, Manaus, Salvador, Belém, Presidente Prudente (SP), São Bernardo do Campo (SP),Araraquara (SP),  Olinda (PE), Niterói (RJ), Santos (SP), Senhor do Bonfim (BA), Pilares (SP), São José dos Pinhais (PR), Bacabal (MA), Escada (PE), Camamau (BA), Brejo Alegre (SP), São Sebastião do Paraíso (MG), Cruzeiro do Sul (AC), Nova Cruz (RN), Caruaru (PE), Iararé (SP), Glória do Goitá (PE), Altamira (PA), São João do Rio Peixe (PB), São Vicente (SP), Poções (BA) e Carpina (PE).

Além de identificar ruas em todas essas cidades, Djalma Dutra é nome de uma estação ferroviária e de um time de futebol amador em Divinópolis (MG). Djalma Dutra também foi nome da cidade baiana de Poções, durante algum tempo, mas em 1943 voltou a denominação anterior.

Para completar, Djalma Dutra também empresta seu nome a um vapor que transporta passageiros no rio São Fracisco, denomina um hospital municipal em São Luiz (MA) e a uma estação de metrô em São Paulo. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Santa Cruz centenário

O Santa Cruz, de Recife (PE), completa hoje 100 anos de atividades no futebol brasileiro. A história desse grande clube eu já publiquei no blog. Para conhecê-la é só acessar os endereços eletrônicos abaixo

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=1656799841567369036#editor/target=post;postID=2766854468252825705;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=17;src=postname

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=1656799841567369036#editor/target=post;postID=1367345585056699815;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=16;src=postname

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=1656799841567369036#editor/target=post;postID=263382202043248946;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=15;src=postname

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O centenário do "Papão da Curuzu"

O Paysandu Sport Clube, um dos mais tradicionais clubes de futebol do Norte brasileiro foi fundado no dia 2 de fevereiro de 1914, uma segunda-feira, quando de uma reunião realizada na residência de Abelardo Conduru, na rua Pariquis, 22, que ficava entre as travessas Apinagés e São Matheus - hoje Padre Eutíquio. Portanto, hoje o Payssandu ingressa na seleta galeria de clubes centenários do futebol brasileiro.

Tudo começou a partir de um jogo do “Norte Club” contra o Guarany, realizado em 15 de novembro de 1913, e que terminou empatado em 1 X 1, tirando as chances de conquista ao titulo daquele ano, pois a equipe precisava vencer para disputar com seu rival, o Remo, um jogo extra para a decisão.

Os fundadores do “Norte Club” entraram com um recurso na Liga Paraense de Foot-Ball, pedindo a anulação da partida por irregularidades e a realização de um novo jogo. Porém a Liga julgou improcedente o recurso.

Com isso, o Grupo do Remo, atual Clube do Remo se beneficiou e ficou com o titulo. Revoltados, o pessoal do “Norte Club”resolveu fundar um novo clube - que viria a se tornar o maior da Região Norte do Brasil, o Paysandu.

Hugo Manoel de Abreu Leão, que jogava no “Norte Club”, foi o líder do movimento destinado a fundar a nova agremiação. Os integrantes do Grupo do Remo chegaram até a convidá-lo para ingressar no clube, idéia que foi repelida, de imediato, com a seguinte frase: "Vou fundar um clube para superar o Grupo do Remo".

Reuniões se sucederam e os componentes do “Norte Club” acabaram por se decidir pela extinção da agremiação, e pela fundação de outra, mais forte e com nova denominação. Da intenção a realização, foi rápido e uma reunião foi marcada para fundar o novo clube.

Ela aconteceu no dia 2 de fevereiro de 1914 e foi bastante concorrida, já que estiveram presentes nada menos do que 42 desportistas, a maioria deles integrantes do antigo “Norte Club”, também chamado de “Time Negra", por causa do uniforme preto e os restantes representantes do Internacional Sport Club, Recreativa e outros.

A reunião para fundação do novo clube foi dirigida por Hugo Manoel de Abreu Leão. Como secretário foi escolhido Humberto Burlamaqui Simões. Já na abertura dos trabalhos, Hugo propôs que a nova agremiação tivesse o nome de Paysandu Foot-Ball Club, como homenagem ao feito glorioso e heróico da Marinha de Guerra Brasileira, ao transpor o Passo do Paysandu, na guerra contra o Paraguai.

A sugestão de Hugo Leão foi motivo de acirrados debates na assembléia, que logo se dividiu em duas alas, uma a favor, e outra contrária, propondo o nome de “Team Negra Foot-Ball”. Feita a votação, registrou-se a vitória da denominação de Paysandu Foot-Ball Club.

A primeira Diretoria foi eleita após exaustivos debates e ficou assim constituída: Presidente, Deodoro de Mendonça; Vice-Presidente, doutor Eurico Amanajás; 1º Secretário, Arnaldo Moraes; 2º Secretário, Humberto Simões; Tesoureiro, Gastão Valente; Comissão de Sindicância, Pedro Paulo Pena e Costa, Manuel Marcus e Edgar Proença e Delegado perante a Liga, Hugo Manoel de Abreu Leão.

Para redigir o Estatuto do clube foram escolhidos os seguintes desportistas: Deodoro de Mendonça, Eurico Amanajás e Arnaldo Moraes. Como ainda não estavam organizados os primeiro e segundo times de futebol, a escolha dos “capitães” foi adiada. Ainda ficou definido que o número de associados não poderia exceder 50, sendo os 42 participantes da reunião considerados fundadores.

No dia 10 de fevereiro de 1914, uma nova reunião aconteceu e ainda na residência de Abelardo Conduru, quando a Diretoria foi tomou posse e aumentado para 100 o número de sócios. Na ocasião foi determinado que o uniforme do clube teria às cores azul e branca, em listras verticais e calções brancos. O escudo do clube, na altura do peito, teria as iniciais “PEC”.

O associado Bayma de Moraes foi contrário, ressaltando que preferia um uniforme totalmente branco. Devido o adiantado da hora, o assunto ficou para ser decidido em outra reunião, que aconteceu no dia 19 de fevereiro, na residência do presidente, doutor Deodoro de Mendonça, na Vila Amazônia, Estrada de São Braz 30-E , hoje avenida Braz de Aguiar.

Com a presença de número recorde de associados, de imediato o assunto “uniforme do clube” foi posto em discussão. Surpreendentemente, Mário Bayma de Moraes retirou sua proposta, o que determinou a aprovação unânime da sugestão de Hugo de Leão.

No dia 19 de fevereiro aconteceu nova reunião, quando foi trocado o nome do clube, passando de Paysandu Foot-Ball Club para Paysandu Sport Club. Na ocasião foi lido um oficio que seria remetido à Liga Paraense de Futebol, solicitando filiação do clube.

O primeiro jogo da história do Paysandu ocorreu no dia14 de junho de 1914, um domingo, quando da inauguração do campo da firma Ferreira & Comandita, atual “Curuzu”, que hoje pertence ao Paysandu Sport Club. O campo estava superlotado. A solenidade de batismo ficou a cargo da madrinha Mille Isolina Coutinho.

Ás 16 horas começou o primeiro clássico do futebol paraense, entre Paysandu e Grupo do Remo (depois mudou o nome para clube do Remo). O doutor Deodoro de Mendonça, representando o Independente, de Belém, deu o ponta-pé inicial.

Graças a um pênalti marcado no finalzinho do jogo, dizem que duvidoso, o Remo venceu por 2 X 1. O juiz foi o doutor Guilherme Paiva. Nos primeiros anos de vida, o Paysandu viu o Grupo do Remo reinar no futebol paraense, foi heptacampeão estadual entre 1913 e 1919.

A primeira formação do Paysandu Sport Club foi esta: Eurico Romariz - Genaro Bayma de Moraes e Sylvio Serra de Moraes Rego - Jaime Bastos Cunha - Moura Palha (Gigi) e George Mitchell – Matheus - Maurilio de Souza Guimarães - José Pinheiro Garcia - Hugo de Leão e Arthur Pereira Moraes.

A primeira vitória do Paysandu contra o Remo ocorreu no dia 31 de janeiro de 1915. Foi na estréia do jogador “Suiço”, primeiro ídolo do clube. O Paysandu ganhou por 2 X 0. Esse jogador foi fundamental na campanha do primeiro título paraense da história bicolor, em 1920, quebrando a série de sete taças seguidas do Remo. Nos três anos seguintes, o craque do “Papão conduziu” o clube ao tetracampeonato.

O Paysandu já foi chamado de “Clube do Suiço”. Isso se deve ao fato de Antônio Barros Filho, o “Suíço”, ter sido um dos grandes futebolistas que o Pará conheceu em toda a história. Embora tenha nascido no Pará, em 1899, ganhou o apelido depois de ter morado na Suíça por algum tempo.

Morreu ainda moço, com apenas 23 anos, no dia 2 de julho de 1922. Dizem que “Suiço” era um excelente jogador, que atuava com eficiência em qualquer posição. Mas se dava melhor como lateral esquerdo ou centro-médio. Foi sempre o “capitão do time” no Paysandu, função que, na época, incluía a de treinador.

O primeiro time de “Suiço” foi o Guarany Football Club, da avenida José Bonifácio. No campeonato de 1914, o time de “Suiço” perdeu para o Paysandu por 4 X 1. Foi a primeira competição disputada pela nova agremiação. No ano seguinte “Suiço” foi jogar no Paysandu, fazendo seu jogo de estréia em 31 de Janeiro de 1915. Atuando na meia-direita, ajudou o seu novo time a derrotar o Clube do Remo, por 2 X 0.

A importância de “Suiço” no Paysandu foi tão grande, que o clube guarda até hoje em um armário envidraçado na sede social, o último uniforme que o ídolo usou: camisa, calção, meias e chuteiras. E, na parede, pendurado por cima desse armário, o retrato emoldurado do ex-jogador.

Contam que num clássico frente o Remo, no dia 15 de julho de 1923, válido pelo Campeonato Paraense, quando o escore estava em 0 X 0, o juíz marcou pênalti contra o Paysandu nos minutos finais. “Suiço” teria dito ao goleiro João Moraes, de seu time, que se jogasse para o lado direito.

E o goleiro não teve dúvida, fechou os olhos, ouviu o apito, e jogou-se para o lado direito. Defendeu e rápido, chutou a bola para frente, o atacante Vadico, livre, pegou a bola e fez 1 X 0, dando a vitória ao Paysandu.

O segundo jogo da história do Paysandu aconteceu no dia 14 de julho de 1914, quando enfrentou o Ipiranga, pelo campeonato estadual. Nesse jogo houve um pênalti a favor do Paysandu, que Hugo, encarregado da cobrança ficou de costas para o goleiro e de calcanhar mandou a bola para a rede, fazendo o 6º gol do seu time.

Isso provocou a maior "bronca". Hugo foi tachado de "mesquinho" e outros "carinhosos elogios", inclusive pela imprensa, mas deu a todos a devida resposta. Resultado desse jogo 14 X 3 para o Paysandu.

São consideradas como primeiras sedes do Paysandu às residências de Abelardo Conduru e de Deodoro de Mendonça, esta uma bonita casa, cuja frente foi demolida e hoje transformada em um bar. No final de 1914 e até fevereiro 1915, a sede foi fixada na residência de Edgar Proença, na Vila Amazônia, Passagem Mac Dowell, de onde foi para a sede da associação Dramática, Recreativa e Beneficente, pois era estudada a fusão das duas entidades, o que acabou não acontecendo.

Posteriormente o Paysandu ocupou as seguintes sedes: 1915, antiga “Estação dos Bondinhos”, na São Matheus 170, entre Pariquis e Caripunas. No local construiu, nos fundos, um campo de futebol que, depois, foi do Ibérico e do Liberto. Hoje o terreno está todo edificado.

Em 1918, ocupou o alto do prédio de número 4, da rua Lauro Sodré, hoje “Ó de Almeida”, esquina com a São Matheus, frente a Praça Saldanha Marinho. Em 1919 foi para a Serzedelo Correa 25-A, frente a Praça Batista Campos, num prédio que já foi demolido. No ano de 1920, mudou-se para a Travessa do Carmo nº 1, altos da garage Náutica.

E, finalmente, em maio de 1926 mudou-se para a Avenida Nazaré 66 (hoje 404), cujo prédio foi adquirido em 1927, por 50 contos de réis, remodelado e mais tarde demolido para dar lugar à sede atual.  No local funciona a Presidência, Diretoria do Clube, Secretaria e Departamento Administrativo/Financeiro.

O primeiro campo do Paysandu foi no Bairro do Souza,  ao lado do Instituto Lauro Sodré,  e serviu para treinamentos, embora se saiba que no local também foram realizados alguns jogos amistosos.

Posteriormente teve um outro campo que se localizava atrás da sede da travessa São Matheus 170, com a rua Caripunas. A arquibancada foi inaugurada dia 16 de abril de 1916, um domingo, com caprichada programação esportiva.

O atual Estádio do Paysandu é o Leônidas Castro, também chamado de “Curuzu”, localizado na rua Almirante Barroso, antiga Tito Franco. A área pertenceu a Firma Ferreira & Comandita, que construiu e inaugurou a praça de esportes em 14 de junho de 1914.

O Campo também é chamado "Vovô da Cidade". Hoje pertence ao Paysandu graças a Leônidas Sodré de Castro, cujo nome foi dado ao campo. Ele teve grande influência na compra da atual sede, ocorrida em 1918 por 12 contos de réis. Presidiu o Paysandu de 2 de fevereiro de 1930 à 2 de fevereiro de 1931 e participou de outras diretorias.

No final da década de 30 o Paysandu passou a ser conhecido como “Esquadrão de Aço". Em 1947 sagrou-se pentacampeão estadual. Dois anos antes, no dia 22 de julho, o “Papão” goleou o eterno rival, Clube do Remo, por 7 X 0, maior goleada da história do clássico.

Vinte anos depois, em 1965, outro feito célebre para a história do clube foi a vitória por 3 X 0 sobre o Peñarol, do Uruguai, que era base da seleção nacional, no Estádio da “Curuzu”, durante excursão da equipe pelo Brasil.

Em 1990, depois de décadas obscuras, fazendo campanhas discretas na Série A do Brasileirão e disputando algumas temporadas na Série B, o time disputou, pela primeira vez, a Série C, alcançando a quinta colocação e o consequente acesso à Segundona. Em 1991, então, conquistou a Série B pela primeira vez, feito que se repetiu em 2001.

O início do milênio foi marcante para o clube, campeão da “Copa Norte”, em 2002, e da “Copa dos Campeões”, no mesmo ano. Ganhou com isso o direito de disputar a “Copa Libertadores da América” no ano seguinte.

O time surpreendeu positivamente na competição sul-americana, chegando às oitavas de final, e proporcionando um feito histórico, ao bater o Boca Juniors, da Argentina, por 1 X 0, em plena “Bombonera”. Na volta, porém, em Belém, o time bicolor perdeu por 4 X 2 e foi eliminado.

Após quatro temporadas na série A, o time despencou, e em dois anos foi parar na Série C, onde permaneceu por seis anos. Em 2012, no entanto, voltou à série B, caindo novamente em 2013 para a Série C.

Vale a pena contar que a família Couceiro tem forte ligação com o Paysandu, iniciada em meados de 1940, quando o português Armando Diogo Couceiros se estabeleceu em Belém. Comprou uma mercearia que na época era chamada de “Casa Paisandú”.

Alí começou uma história que mistura paixão clubística, tradição familiar, folclore e muito trabalho em prol do “Papão”. Já são quatro gerações de bicolores a participarem da vida do clube que hoje se torna centenário.

Acreditando que o nome da mercearia tinha a ver com o clube de futebol, Armando Couceiro logo se associou ao Paysandu. A cada jogo do time levava seus 11 filhos ao “Estádio da Curuzu”, para assistir os jogos. Um deles, Abílio Couceiro, foi assessor de imprensa no clube. Depois, foi diretor de futebol.

Em 1964, Abílio foi um dos responsáveis pela contratação do goleiro Castilho, do Fluminense, do Rio de Janeiro, que havia ganho passe livre pelos 20 anos de serviços prestados pelo clube. Foi uma grande contratação. Depois dele ainda foram contratados Rubilota e Bené.

Abílio Couceiro ainda era diretor de futebol, quando de um dos momentos mais marcantes na história centenária do Paysandu: a vitória diante do Peñarol por 3 X 0, em 18 de julho de 1965. O time uruguaio era campeão da Libertadores e do Mundo e servia de base para a Seleção do Uruguai.  Os gols foram marcados por “Pau Preto”, Milton Dias e Ércio.

Já seu irmão, Antônio Couceiro foi mais longe. Foi presidente do Conselho Deliberativo, da Junta Governativa, fez parte da comissão que construiu parte do Estádio da “Curuzu” e chegou ao cargo de presidente do Paysandu em 1983/1984.

Entre os fatos marcantes que viveu no “Papão”, Antônio destaca o clássico “Re-Pa”, realizado no Estádio “Baenão”, que decidiu o Terceiro Turno do Campeonato Paraense de 1972. Os bicolores venceram por 1 X 0, gol de Alfredinho, com o maior rival acertando a trave por sete vezes. Antônio Couceiro guarda um pedaço dessa trave como o seu maior troféu enquanto esteve no Paysandu.

Além de Abílio e Antônio, o outro irmão, Celso Couceiro, viveu intensamente o Paysandu. Apesar de ter sido diretor de futebol em 1983, foi no boliche que ele teve as maiores conquistas. Atleta durante 11 anos, Celso foi campeão paraense por nove vezes. A tradição dos Couceiro ultrapassou a segunda e chegou até a terceira geração com Tony e Leopoldo, filhos de Antônio, e Abílio, filho de Abílio Couceiro.

Leopoldo é considerado até hoje o presidente mais novo de um Conselho Deliberativo do futebol brasileiro, cargo que ocupou em 1994, aos 18 anos. Tony é diretor de projetos especiais do clube e responsável pela obra que vai construir um hotel para concentração dos jogadores na “Curuzu”, enquanto que Abílio fez parte das categorias de base do clube e atualmente é membro do Departamento de Marketing.

Os primos já preparam a quarta geração dos Couceiro, com Felipe, filho de Leopoldo, e Arthur, filho de Tony, ambos com 16 anos. No momento, eles são apenas torcedores, mas garantem que pensam em seguir os passos do avô, tios e pais e perpetuarem a história vitoriosa e cheia de significados de uma das famílias mais tradicionais e que comemoram com muito orgulho o centenário bicolor.

O Paysandu é o clube com maior número de títulos da Região Norte. Já conquistou o Campeonato Paraense em 45 oportunidades, três vezes a mais que o Remo, o que lhe dá a condição de segundo maior campeão de Estaduais do país. Por duas vezes ganhou o Campeonato Brasileiro da Série B. Tem um título de campeão da Copa Norte e outro de vencedor da Copa dos Campeões de 2002. É o único clube da Região Norte que participou de uma “Copa Libertadores da América”.

Atualmente é o clube nortista mais bem posicionado no ranking da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o único a figurar no ranking mundial de Clubes da Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS), fato que se deve as grandes campanhas, tanto no Campeonato Brasileiro como na Taça Libertadores da América de 2003. Nesse ano foi considerado o clube que mais evoluiu no planeta no início do século XXI.

Possui a maior torcida da Região Norte e a 19ª do Brasil, segundo o levantamento feito pelo Instituto de pesquisa “Pluri Stochos”, realizado entre novembro de 2012 e fevereiro de 2013.

A mascote do Paysandu Sport Club foi criada em 1948 pelo jornalista Everardo Guilhon, com o codinome de "Bicho-Papão". A inspiração do jornalista baseou-se no temor que o “Esquadrão de Aço”, como era conhecido o time naquela época, passava aos seus adversários no campo de jogo. No decorrer do tempo, ficou conhecido como o famoso "Papão da Curuzu", o maior papão de títulos de futebol do Norte do País. (Pesquisa: Nilo Dias)

O primeiro time do ainda Paysandu Foot-Ball Club. Em pé: Bayma - Romariz e Sylvio. Ajoelhados, no meio: Jaime, Moura palha e o inglês Mittchel. Sentados: Mattheus, autor do primeiro gol da história do clube, Guimarães, Garcia, Hugo Leão e Arthur Moraes. (Foto: Arquivo fotográfico do clube)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Orlando "Gato Preto"

Orlando Alves Ferreira, o “Gato Preto”, nasceu no dia 25 de julho de 1940, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Começou a carreira de futebolista em 1958, aos 18 anos, no São Cristóvão, que na época  era uma referência entre as equipes suburbanas cariocas. Ficou em “Figueira de Melo” até 1962. O apelido de “Gato Preto” se devia a sua grande elasticidade e agilidade, além de ser negro.

Em 1963 o goleiro foi contratado pela Portuguesa de Desportos, de São Paulo, onde foi companheiro inseparável do grande goleiro Félix, com quem revezou por muito tempo no arco da lusa. Também foi companheiro dos goleiros Aguilera, Carioca, Aguinaldo, Edson Mug e Zecão durante sua trajetória pelo Canindé.

Em 1964, numa excursão da Portuguesa de Desportos pelos Estados Unidos, após o nono gol, contra o Massachusetts, o goleiro Félix foi jogar de centroavante para permitir a entrada de Orlando. E curiosamente, Félix marcou o décimo gol da “Lusa”, numa partida que terminou 10 X 1.

Em 1973, com 33 anos de idade, Orlando foi suplente na campanha vitoriósa do título paulista naquela jornada contra o Santos. O goleiro titular era Zecão, que hoje mora na cidade de Sorocaba, no interior paulista.

No curriculo de Orlando consta um feito histórico, o de ter sido o último ganhador do “Prêmio Belfort Duarte”, em 6 de setembro de 1973. Era um prêmio concedido aos jogadores profissionais que completassem mais de 200 partidas oficiais de futebol ou ficassem durante 10 anos sem sofrer uma única punição.

Orlando ainda vestiu as camisas do Sampaio Correia (MA), Operário de Campo Grande (MS) e Operário de Várzea Grande (MT), time onde encerrou a carreira em 1976. Chegou a ser treinador de goleiros da própria Portuguesa e do Juventus. Depois, para passar o tempo, jogou no time amador do Milionários, que era formado por ex-jogadores de futebol.

A militância de Orlando no futebol aconteceu num tempo em que eram raros os goleiros negros. Até então os exemplos marcantes se resumiram a Barbosa, Veludo, Barbosinha, Ubirajara, Alcântara, Mão de Onça, Dimas Monteiro, Tobias e Jairo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Orlando "Gato Preto", quando defendia o São Cristóvão, do Rio de Janeiro. (Foto: Museus dos Esportes)