Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

108 anos de futebol (1)

O Campeonato Carioca de Futebol é o terceiro mais antigo do Brasil, ficando atrás apenas dos certames paulista e baiano. Começou a ser disputado em 1906, com o jogo Fluminense 7 X 1 Paissandu, realizado no dia 3 de maio, no Campo da Rua Guanabara, no Bairro de Laranjeiras, com o primeiro gol da competição marcado por Horácio da Costa, atacante do tricolor, que foi o primeiro campeão.

A Liga Metropolitana de Football foi a organizadora do campeonato, do qual participaram as equipes do Fluminense Football Club, do Bairro das Laranjeiras; Payssandu Cricket Club, do bairro do Flamengo; Rio Cricket and Athletic Association, do Bairro Praia Grande, em Niterói; Botafogo Football Club, do Bairro de Botafogo; The Bangu Athetic Club, do Bairro de Bangu e Football and Athletic club, do Bairro da Tijuca.

Da segunda divisão participaram America, Colégio Latino-Americano e Riachuelo. Para o campeão foram criadas as taças "Municipal" e "Colombo".

Quando do surgimento dos primeiros times de futebol no Rio de Janeiro, era comum encontrar diversos campos espalhados por toda a cidade, mas, principalmente, no subúrbio. Foi uma época em que o futebol começava a ganhar equipes e simpatizantes.

Nas décadas de 10 e 20, o subúrbio carioca tinha mais de 50 times, distribuídos na primeira e segunda divisão, além do Departamento Autônomo, que equivaleria nos dias de hoje, à terceira divisão.

Os estádios eram acanhados, na maioria apenas um cercado de madeira e poucos degraus de arquibancadas. O público que ia aos jogos era reduzido, em média 20 pessoas. A partir da década de 10 é que o interesse aumentou.

Os jogadores não tinham vida fácil. A bola e a chuteira eram pesadas, feitas de couro e eles não recebiam salários, apenas atuavam pelo prazer. Ainda assim, boa parte da sociedade elitista da época, chamava os jogadores de desocupados e vagabundos, algo impensado nos dias atuais.

Nos 108 anos de disputa, muitos times participaram dos campeonatos cariocas, alguns deles certamente desconhecidos da maioria das pessoas. Neste trabalho mostraremos aos leitores todos os clubes que tomaram parte no certame principal do Rio de Janeiro, de seu começo até agora.

A partir dos anos 30, muitos clubes fecharam as portas, uma vez que a federação de futebol do Rio estabeleceu que todos os times - para disputar o Estadual - deveriam ter um estádio próprio. Como muitos não possuíam um local fixo, mais de 80% dos times suburbanos enrolaram as bandeiras. Conheçam alguns desses times que desapareceram, sendo sugados pelo profissionalismo.

Começamos pelo Payssandu Cricket Club, nascido de uma dissidência do Rio Cricket Club, que foi fundado no dia 15 de agosto de 1872, por um grupo de jovens ingleses. Em 1875 após discordâncias entre alguns dos fundadores, foi criado o Payssandu, que em 1880 recebeu  denominação de Paysandu Cricket Club, reconhecido como o primeiro clube esportivo organizado do Brasil.

Em 1896, Oscar Alfredo Cox, filho de um dos fundadores do clube, jogador de Cricket e familiarizado com o futebol, mandou buscar na Suíça uma bola da marca “Dupont”, a primeira chegada ao Rio de Janeiro. Porém, ela não pôde ser utilizada para a prática do futebol, pois o terreno onde o clube treinava e jogava, era esburacado demais, permitindo somente a prática do Rugby.

Em 1906 o clube participou do primeiro Campeonato Carioca, terminando como vice-campeão. Em 1912, conquistou o título, com uma equipe formada por maioria de jogadores de origem inglesa. Em 1914 o clube abandonou a prática oficial do futebol, e passou a se chamar Paysandu Athletic Club.

Até hoje o Paissandu tem uma rivalidade clubística forte com o Rio Cricket e a Associação Atlética, da colônia inglesa de Niterói. Para além da rivalidade entre as cidades, os clubes guardam uma origem comum, sendo o Paysandu Cricket Club, uma dissidência do Rio Cricket. Em algumas fontes antigas as partidas entre os dois clubes, nos mais variados esportes, eram chamadas de “Clássico dos Ingleses”.

O Paissandu Atlético Clube existe até hoje e se dedica a prática de esportes como tênis, squash, bowls, futebol, dentre outros. Também possuí áreas de lazer como piscina, sauna, restaurantes, salão de beleza, massagens e muito mais.

O clube participou do Campeonato Carioca em 1906, 1907, 1908, 1911, 1912, 1913 e 1914. Jogou também a 2ª divisão em 1909 e 1910.

Em 2006, o clube voltou a disputar uma partida de futebol após quase 92 anos, durante as comemorações dos 105 anos do futebol no Estado do Rio de Janeiro, realizadas na sede do Rio Cricket. 

Por não possuir mais Departamento de Futebol ou jogadores, o clube pegou "emprestado" o time principal do Tombense Futebol Clube, de Minas Gerais, que cedeu jogadores para a partida especial. O Paissandu venceu o Rio Cricket por 2 X 1.

Títulos no futebol: Campeão Carioca de 1912, primeira divisão, e Campeão Carioca de 1910, segunda divisão.

Já o Rio Cricket e Associação Atlética, do bairro de Icaraí, em Niterói, é o terceiro clube mais antigo destinado á prática de esportes naqquela cidade, atrás apenas do Clube de Regatas Gragoatá e do Clube de Regatas Icaraí, ambos fundados em 1895.

Ao contrário do que alguns pensm, o Rio Cricket jamais abandonou a prática do futebol. Teve que se licenciar do Campeonato Carioca, do qual era convidado especial, já que na época pertencia a outro Estado, apenas por conta da I Guerra Mundial, quando muitos de seus jogadores foram defender a Inglaterra.

O clube retonou as atividades em1920, as quais mantém até hoje, no entanto, nunca se profissionalizou, continuando amador como o futebol era em seu princípio.

O clube participou do primeiro Campeonato Carioca de Futebol ficando com a terceira colocação. Foi no campo do Rio Cricket que foi definido o primeiro Campeonato Carioca de futebol.

A primeira partida de futebol oficialmente realizada no Estado do Rio de Janeiro foi disputada no campo do Rio Cricket em 22 de setembro de 1901. Neste dia o Sr. Oscar Cox, que viria posteriormente a ser fundador e presidente do Fluminense Football Club, atravessou a Baía de Guanabara para enfrentar os praticantes de críquete e tênis do clube inglês.

Ainda cerca de 15 observadores assistiram o jogo que terminou empatado em 1 X 1, causando espanto a crônica da época, não habituada a relatar embates finalizados sem vencedores.

O clube participou das primeiras edições do Campeonato Carioca em 1906, 1908, 1911, 1912, 1913, 1914 e 1915 e do campeonato niteroiense em 1925, 1926, 1927, 1928 e 1929.

O Football and Athletic Club, agremiação extinta da Zona Norte do Rio de Janeiro, foi fundado em 27 de junho de 1904. Foi criado por moradores das redondezas do Andaraí e Engenho Velho. Sua sede situava-se no Andaraí, e seu campo de futebol era na Rua Campos Sales, na Tijuca, razão pela qual o clube é frequentemente citado como sendo deste bairro.

Suas cores eram o vermelho e o branco. Seu uniforme consistia em camisas vermelhas com o monograma F.A.C. em branco no peito e calções brancos. Sua bandeira era listrada em vermelho e branco na horizontal, com o monograma no quadrante superior esquerdo em vermelho, em estilo semelhante à bandeira dos Estados Unidos.

Em uma partida amistosa contra o Bangu, em 1904, o clube usou um uniforme tricolor (verde, branco e vermelho). O clube seguiu vencendo amistosos e logo tornou-se uma das mais fortes equipes da cidade, contando com bom número de sócios na Zona Norte.

A partir da iniciativa dos dirigentes do Athletic, este em conjunto com os clubes Fluminense, Botafogo, Bangu, Paysandu e Rio Cricket fundaram a Liga Metropolitana de Football, que organizou o Campeonato Carioca de 1906. O Athletic, no entanto, terminou em último lugar.

A partir de 21 de novembro de 1906 mudou a sua denominação para Associação Athletica Internacional. Em 1907, também disputou o campeonato ao ficar em 3° lugar, empatado com o Paysandu. A Internacional ainda seguiu disputando alguns poucos amistosos, até o seu fim definitivo, nos idos de 1912.

O Riachuelo Football Club foi fundado em 19 de outubro de 1905. Tinha as cores verde e branca. Sua sede estava localizada na Rua Diamantina, na casa de Carlos Suckow Joppert, no bairro homônimo, na Zona Norte da cidade.

O clube foi o vencedor do 1º Campeonato Carioca da 2ª Divisão em 1906. Na final, disputada no dia 28 de outubro, venceu o America pelo placar de 5 X 1. O feito valeu ao Riachuelo o apelido de “Clube dos Irmãos Joppert”.

Contudo, na partida contra o Football and Athletic Club, lanterna da primeira divisão, que valia a vaga na primeira divisão do ano seguinte, o adversário o venceu por 5 X 2. Em 1907 foi campeão da Liga Suburbana. O Riachuelo só veio a disputar a primeira divisão a partir de 1908. Participou dos Campeonatos Cariocas de 1908 a 1910.

O Riachuelo foi dissolvido em 21 de janeiro de 1911, pois grande parte de seus atletas havia abandonado o clube para se juntar ao recém-formado, São Cristóvão, e já não havia mais condições de se manter na elite do futebol carioca.

O Haddock Lobo Football Club, uma agremiação do Bairro da Tijuca foi fundado em 23 de julho de 1908 e disputou os Estaduais da Primeira Divisão de 1909 e 1910 e a Segunda Divisão de 1911.
As cores do clube eram o marrom e o branco.

O primeiro uniforme consistia em camisas marrons com gravatas brancas, calções brancos e meias negras. Logo esse uniforme foi mudado para camisas listradas alvimarrons e os calções e meiões brancos.

Em 15 de maio de 1910, mudou as cores para azul e branco. Em 17 de maio de 1911, em meio a uma crise financeira uniu-se ao America Football Club, porém antes voltou a usar as cores originais.

O América herdou seu estádio, na Rua Campos Sales, além da integração de seus atletas, entre eles Marcos Mendonça, o primeiro goleiro da Seleção Brasileira. A identidade do América permaneceu inalterada.

Há registros de um outro Haddock Lobo Football Club, fundado a 4 de outubro de 1913, talvez formado por ex-membros do então já extinto clube. Esse segundo Haddock Lobo não participou de nenhuma competição importante e teve vida breve. Seu endereço era na Rua Barão de Itapagipe, 119, Rio Comprido.

O Sport Club Mangueira foi fundado em 29 de julho de 1906, por operários da “Fábrica de Chapéus Mangueira”. Como a maioria de seus funcionários morava no morro, a localidade em que viviam passou se chamar Mangueira, onde nasceu a “Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira”.

Suas cores eram vermelho e preto, o escudo uma bola de futebol vermelha com as iniciais S.C.M. em preto e o uniforme consistia de camisa listrada na vertical vermelha e preta e calções brancos.

A sua sede se localizavana na Rua Desembargador Isidro, 72. Nos dias de hoje, o local onde antes residia o estádio, abrange parte do clube Tijuca Tênis Clube. Ao todo, a S.C. Mangueira participou de 11 campeonatos cariocas, 1909, 1912 e 1913 e de 1917 a 1924.

No dia 30 de maio de 1909, no campo da Rua Voluntários da Pátria, o Mangueira sofreu a sua pior humilhação, que colocou o time no “Livro dos Recordes”, Botafogo 24 X 0, sendo a maior goleada em campeonatos regionais, de todos os tempos.

O uniforme da S.C. Mangueira era camisa listrada na vertical vermelha e preta e calções brancos. A melhor colocação aconteceu em 1913 e 1917, quando terminou em oitavo lugar, dentre 10 participantes. Após uma seqüência de insucessos, a agremiação decidiu abandonar a competição em 1921. (Pesquisa: Nilo Dias)


Paysandu Cricket Club, campeão carioca de 1912. (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Uma lenda inglesa

Brian Howard Clough, considerado por muitos o melhor técnico de futebol de toda a história, nasceu em Middlesbrough, Inglaterra, no dia 21 de Março de 1935 e faleceu em Derby, também Inglaterra, em 20 de Setembro de 2004.

Era o sexto de nove filhos de uma família de classe trabalhadora. Na escola mostrou-se um aluno brilhante, embora sua atenção estivesse sempre mais voltada para os esportes, especiamente o futebol, do que para os livros.

Aos 15 anos Brian abandonou a escola para trabalhar em uma indústria quimica e depois tentou a sorte nos gramados, além de ter jogado uma prtida ou outra de criquete.

Foi jogar no Billinghan Synthonia, um pequeno clube local. Em 1953 foi obrigado a parar com o futebol, para cumprir dois anos de serviço militar obrigatório na Força Aérea Real.

Em 1955, livre para voltar aos gramados, assinou contrato com o Middlesbrough F.C., de sua cidade natal. Rapidamente conquistou a torcida, graças a seu futebol envolvente. Era um atacante habilidoso e nos seis anos que esteve no clube, marcou 197 gols em 213 partidas.

Porém na mesma medida em que era artilheiro, Clough também era problemático. Ele sempre tinha atritos com seus colegas de clube, e vivia pedindo para ser transferido.

Até que o Middlesbrough cedeu aos pedidos do seu atacante, e ele foi vendido ao Sunderland, em 1961. Nesse clube marcou mais 54 gols, em 61 jogos. Nos dois times que atuou, Clough marcou um total de 251 gols em 273 jogos disputados, numa fabulosa média de 0,92 gols por jogo.

No final de 1962, quando tinha 27 anos de idade, sua carreira de jogador foi interrompida por uma grave lesão em um dos joelhos. O lance que abreviou sua carreira aconteceu num jogo frente o Bury, pelo “Boxing Day”, disputado sob muita chuva e frio.

Ele chocou-se com o goleiro adversário, Chris Harker e rompeu os ligamentos do joelho. Em 1964, Clough ainda tentou voltar a jogar, mas não suportou as dores, atuando em apenas três partidas, e aposentando-se aos 29 anos e com dois jogos pela seleção inglesa.

Com a carreira de jogador chegando ao fim precocemente, em 1965, Clough, com 30 anos de idade tornou-se treinador. Seu primeiro clube na nova função foi o Hartlepool United, da 4ª Divisão. Dessa maneira, ele tornou-se o técnico mais jovem da Liga de Futebol. Desde o começo já mostrou a mesma ambição, obsessão e habilidade que o caracterizaram nos tempos de jogador. A permanência de Clough no Hartlepool foi curta e um oitavo lugar como melhor posição.

Foi lá que ele conheceu o auxiliar técnico Peter Taylor, que viria a ser o seu parceiro inseparável por muitos anos. Em 1967, os dois se mudaram para o Derby County, da Segunda Divisão. Foram tempos de glórias. Dois anos depois, o time subiu para a elite inglesa, após mais de 10 anos amargando uma divisão inferior.

Quando chegou ao Derby, Clough colocou ordem na casa ao reestruturar por completo o elenco do time e montar uma base que renderia frutos muito em breve. Chegaram jogadores como Roy McFarland, John O’Hare, Alan Hilton e John McGovern.

Além dos reforços, Clough fez uma faxina no quadro administrativo do Derby ao demitir secretária, jardineiro e, diz a lenda, até duas senhoras que serviam chá por rirem após uma derrota do Derby. O estilo centralizador e ao mesmo tempo sarcástico de Clough conquistou a todos no clube.

Na sua primeira temporada pelo Derby, o time ficou no meio da tabela. Porém, o elenco da agremiação estava em um completo processo de reformulação.

Para a temporada seguinte, Clough manteve no clube apenas quatro jogadores que já estavam lá antes da sua chegada, e realizando uma série de contratações, entre as quais dois jogadores do Hartlepool: o goleiro Les Green e o jovem meia John McGovern, que o acompanhou em quase todas as suas mudanças de clube.

E as mudanças funcionaram. Em 1968/69, o Derby County conseguiu o título da “Segunda Divisão”, com direito a uma série invicta de 22 jogos. Em 1972, o clube ganhou o campeonato principal, de forma dramática, com um elenco cheio de jogadores quase desconhecidos, com exceção de Archie Gemmilli, meia da seleção escocesa.

Em uma disputa ferrenha com Leeds United, Liverpool e Manchester City, o Derby superou seus rivais por apenas um ponto, conquistando seu primeiro título inglês, com uma vitória por 1 X 0 sobre o Liverpool no último jogo.

A equipe do Derby venceu 24, empatou 10 e perdeu apenas oito dos 42 jogos disputados, com 69 gols marcados e 33 sofridos. Na campanha do título inédito, o time derrotou equipes como Liverpool (1 X 0 em casa), Manchester City (3 X 1 em casa), e os dois clássicos contra o Nottingham Forest por 4 X 0 (em casa) e 2 X 0 (fora).

A festa foi enorme na cidade e todo o elenco desfrutou de merecidas férias, com Clough aproveitando o sossego nas Ilhas Scilly (ou Sorlingas), na península de Cornualha, Inglaterra.

Com o título, Brian Clough ficou ainda mais famoso na Inglaterra, não só por conseguir levar uma equipe mediana ao topo do futebol do país, mas também pelo jeito ácido de tratar a imprensa e se recusar a responder perguntas tolas, além de sempre exigir que fosse chamado de “Mr. Clough”.

Em 1973, o Derby chegou às semifinais da Copa da Europa, mas acabou perdendo para a Juventus, da Itália, que tinha no time monstros sagrados como Dino Zoff, Franco Causio, José Altafini, Fábio Capello e Roberto Bettega.

Nesse mesmo ano Clough e Taylor pediram demissão do clube, depois de muita tensão e conflitos com o conselho de administração do Derby. Com o sucesso no comando do time, Clough pediu aumento salarial, não sendo atendido.

Também queria que o clube permitisse que ele levasse sua família em uma viagem de pré-temporada à Holanda e Alemanha Ocidental, ou a contratação de David Nish, por $225, 000, valor recorde a época, sem o consentimento da diretoria.

Resolveu então demitir-se. Embora o Derby tenha novamente ganho o campeonato inglês em 1975, a saída de Clough é apontada até hoje como péssima pela torcida, havendo quem diga que, caso o treinador tivesse continuado, o Derby teria sido o melhor time da década, não o Liverpool.

Os torcedores do clube protestaram e os jogadores ameaçaram greve, mas de nada adiantou, os dois foram embora. Ele comandou o Derby County em 289 jogos com 135 vitórias, 70 empates e 84 derrotas.

O novo destino foi o Brighton, mas a passagem foi curta, visto que o clube se encontrava mergulhado na terceira divisão inglesa. Foi aí que Clough fez a jogada mais polêmica e memorável de sua carreira.

Em julho de 1974, ele deixou o Brighton para assumir o comando técnico do Leeds United, da Primeira Divisão, substituindo o seu desafeto, Don Rivie, que foi comandar a seleção inglesa. A decisão de Clough foi contra os desejos de seu assistente Peter Taylor, que não o seguiu em seu novo posto.

Durante a primeira reunião em sua nova equipe, Clough teria se indisposto com os jogadores ao dizer: “Vocês todos podem jogar suas medalhas no lixo, porque não foram conquistados de forma justa". Depois de 44 dias de confrontos constantes com os jogadores e diretores, e um recorde impressionante de apenas uma vitória em seis jogos, Clough renunciou ao cargo.

Os jogadores, que permaneceram fiéis ao antigo treinador, o boicotaram, não havendo clima para a sua permanência. Apesar de rápido, o período de Brian Clough no Leeds United ficou marcado no futebol inglês, e rendeu até um filme, o excelente “Maldito Futebol Clube” (The Damned United, em inglês). 

De setembro até dezembro, Brian Clough ficou sem trabalhar e fez apenas suas aparições na mídia como comentarista. Depois, em janeiro de 1975, o treinador voltou à ativa para seu quinto clube na carreira – e que também seria o último: o Nottingham Forest, que se encontrava na segunda divisão.

Encontrou um território hostil e pouco convidativo. Ele assumia o rival do time em que ele tivera maior sucesso até então, o Derby County e pegava um clube na segunda divisão e com graves problemas financeiros. Além disso, o Forest nunca havia conquistado um campeonato nacional e ostentava apenas duas “FA Cup” como principais títulos, além de troféus de divisões inferiores.

A ascensão meteórica começou na temporada seguinte. O time foi promovido à primeira divisão depois de ter sido terceiro colocado, com um ponto de diferença sobre o Bolton Wanderers e o Blackpool.

Em 1977/78, também com um elenco de nomes modestos, cujos únicos astros eram o goleiro da Seleção Inglesa Peter Shilton e Archie Gemmill, ex-Derby, que chegaram naquela temporada, o Nottingham ganhou seu único título no campeonato inglês, sete pontos à frente do Liverpool.

Clough optou por um estilo de jogo baseado em manter a bola no chão, priorizando dribles e passes curtos ao invés de bater bolas longas pelo ar. Certa vez, ele disse: "Se Deus nos queria jogando futebol nas nuvens, ele teria colocado grama lá em cima".

O clube também ganhou a sua primeira Copa da Liga Inglesa. Em 1978/79 o Nottingham teve uma invencibilidade de 42 jogos no Campeonato Inglês, que só foi superada mais de 20 anos depois, pelo Arsenal.

No Nottingham, Clough foi ainda mais longe, conquistando com o clube um extraordinário bicampeonato na Copa dos Campeões Europeus (atual Liga dos Campeões da UEFA).

Foi o primeiro clube a vencer uma semifinal do torneio na casa do adversário, 1 X 0 sobre o Colônia, que conseguira empatar em 3 X 3 na Inglaterra. Depois disso, Clough chegou a ser procurado pelo Derby para voltar ao time, mas recusou.

O Nottingham Forest, sob o comando de Clough ganhou uma incrivel quantidade de títulos: promoção para a Primeira Divisão em 1977; campeão da Primeira Divisão em 1978; quatro vezes vencedor da Taça da Liga e duas vezes campeão da Copa Europeia. Clough ficou no clube por 18 anos, aposentando-se em 1993, como talvez a figura mais amada na história.

Um fato pouco conhecido é o de que logo após ter assumido o Forest, Clough poderia ter deixado o clube, já que chegou até a ser entrevistado para assumir nada menos do que o “English Team”, outra vez no lugar de Don Revie, mas o negócio acabou não se concretizando.

No final do seu período no Nottingham Forest, Clough enfrentou problemas sérios de alcoolismo, necessitando passar por um transplante de fígado em 2003. Um ano depois, não resistiu a um câncer no estômago e faleceu aos 69 anos.

Um fato liga até hoje as equipes do Derby e do Nottingham.E que ambas nunca se recuperaram totalmente depois que ele as deixou. Em decadência, a disputa maior dos dois clubes tem sido pelo apoio de Clough como torcedor, mesmo anos após a sua morte.

Desde 2007, os dois times disputam um amistoso anual que leva o seu nome. Clough virou estátua, tanto em Derby quanto em Nottingham, distantes apenas 20 quilômetros uma da outra, assim como dá nome a estrada que liga as duas cidades. Há uma estátua também na sua cidade natal de Middlesbrough.

Na década de 1980 as conquistas não passaram de um novo bi-campeonato na Copa da Liga, em 1989 e 1990. Em 1982, Peter Taylor se aposentou e Clough se viu abandonado e sem o homem que tanto o ajudou a montar elencos, apontar bons nomes para contratar e o porto seguro nos momentos mais difíceis e decisivos.

Em 1993, após 18 temporadas comandando a equipe, Clough decidiu sair. Comandou o Nottingham Forest em 907 jogos com 411 vitórias, 246 empates e 250 derrotas.

O clube foi rebaixado na “Premier League”, que estava em sua primeira edição. Chegou a voltar em 1999, mas novo rebaixamento veio em seguida, e outro mais tarde, levando o clube à terceira divisão.

Clough era dono de uma personalidade forte. Costumava utilizar frases de efeito e polêmicas, como: "Posso não ser o melhor técnico do futebol, mas estou no primeiro lugar do ranking geral". Sobre a participação do Manchester United no primeiro Mundial de Clubes da FIFA, disputado em 2000 no Brasil, comentou: “Espero que peguem uma diarreia”.

Outra ocasião, falando sobre o excesso de jogadores estrangeiros no futebol britânico: “Se eu não consigo soletrar espaguete em italiano, como vou pedir para um jogador italiano pegar a bola? Ele deveria pegar a minha”.

Em uma partida contra o Millwall, conhecido por seus torcedores intimidarem os adversários, mandou parar o ônibus que levava seus atletas, cerca de dois quilômetros e meio do estádio do clube, fazendo-os seguir o restante do caminho a pé.

Títulos. Derby County: Campeão Inglês da Segunda Divisão (1968/69); Campeão Inglês (1971/72); Nottingham Forest: Campeão Inglês (1977/78); Copa da Liga Inglesa (1977/78, 1978/79, 1988/89 e 1989/90); Supercopa da Inglaterra (1978); Copa dos Campeões da Europa (1978/79 e 1979/80); Supercopa Europeia (1979); Full Members Cup (1989 e 1992).


Individuais. Artilheiro do Campeonato Inglês da Segunda Divisão (1958/59, com 42 gols e 1959/60, com 39 gols); Técnico do ano pela LMA (1977-1978);Eleito um dos 1000 maiores esportistas do século XX pelo jornal The Sunday Times e Eleito para o Hall da Fama do Futebol Inglês (2002) (Pesquisa: Nilo Dias)


sábado, 2 de agosto de 2014

O fim de um reinado de 35 anos


Morreu na última quarta-feira (28), o presidente da Associação Argentina de Futebol (AFA), Julio Humberto Grondona, aos 82 anos de idade. Ele dirigia a entidade máxima do futebol do vizinho do país desde 1979, uma década a mais que o recordista brasileiro, Ricardo Teixeira. Era também um dos vices-presidentes da Fédération Internationale de Football Association (Fifa), desde 1988.

O dirigente foi internado às pressas na noite de terça-feira no Sanatório Mitre, em Buenos Aires, após sentir fortes dores no peito. Grondona teve uma parada cardíaca, quando ia se submeter a uma cirurgia por causa de um aneurisma na artéria aorta.

Ele estava acompanhado de seu filho, “Julito”, atual presidente do Arsenal de Sarandí. Com a piora do quadro, mais dirigentes começaram a chegar ao hospital. Também lá esteve Carlos Bilardo, diretor de seleções da AFA e treinador da seleção entre 1983 e 1990.

Levado para uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), passou a respirar por aparelhos e não resistiu, morrendo às 12h50 (horário de Brasília).

Grondona não teve tempo de anunciar o novo técnico da seleção argentina, depois de Sabela, que levou o país ao vice-mundial no Brasil, ter confirmado que não seguiria no comando. Com a morte do dirigente, acredita-se que o anuncio do nome do novo técnico, irá atrasar em 15 dias. O favorito ao cargo é Tata Martino, ex-técnico do Barcelona.

Durante o longo período que “Don Julio” comandou a AFA, a Seleção Argentina teve 10 técnicos: César Luis Menotti, Carlos Salvador Bilardo, Alfio Basile, Daniel Passarella, Marcelo Bielsa, José Pekerman, novamente Alfio Basile, Diego Maradona, Sergio Batista e Alejandro Sabella.

O dirigente deixou três filhos: Liliana, Humberto, que é técnico de futebol e Julio, o "Julito", atual presidente do Arsenal de Sarandí.

Em junho de 2012, “Don Julio” se abateu muito com a morte da esposa, Nélida Enriqueta Pariani de Grondona, de 76 anos. Ela sofria de um câncer e passou o último mês de vida conectada a um respirador artificial.

Depois da morte da esposa, Grondona passou por sério problema de saúde. Os médicos recomendaram a ele cirurgia para curar uma doença intestinal. Mandou os especialistas encontrarem outra solução. Por isso, ele usava uma bolsa excretora presa do lado direito de sua barriga.

O falecido desportista teve sua vida sempre ligada ao futebol. Nasceu em 8 de setembro de 1931. Começou a carreira de dirigente em 1957, aos 26 anos, quando junto de alguns amigos do seu bairro fundou o Arsenal, de Sarandi.

O clube teve inspiração no Arsenal inglês e tem as cores dos dois mais importantes times de Avellaneda, o azul do Racing e o vermelho do Independiente. Grondona presidiu o clube por quase 20 anos, e hoje o estádio do Arsenal, ao Sul de Buenos Aires e com capacidade para 16 mil torcedores, leva o seu nome.

Nos anos 60, mesmo sendo dirigente do Arsenal, assumiu o Departamento de Futebol do Independiente, que sob seu comando saiu das últimas divisões para a elite do futebol argentino. Nesse período o Independiente conquistou às Copas Libertadores da América, de 1964 e 1965.

Em 1970, foi suspenso por um ano e meio por agredir o árbitro Filacchione. No mesmo ano, sua chapa perdeu as eleições do clube. Retornou em 1976, dessa vez como presidente.

Em 1979, um ano após a conquista do Mundial de 1978, foi colocado na presidência da AFA pela ditadura militar, que vigorou no país de 1976 até 1983. Grondona substituiu a David Bracuto, então presidente do Huracán.

No tempo em que dirigiu o futebol argentino, a Argentina teve nada mais, nada menos, do que 13 presidentes da República: Os generais e ditadores Jorge Rafael Videla, Roberto Viola, Leopoldo Fortunato Galtieri e Reynaldo Bignone, os presidentes civis constitucionais Raúl Alfonsín, Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Ramón Puerta, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Camaño, Eduardo Duhalde, Néstor Kirchner e a atual Cristina Kirchner).

Grondona gostava de dizer que havia sobrevivido a dois Papas, João Paulo II e Bento XVI. E de quebra, Jorge Bergoglio, como Papa Francisco, iniciou um terceiro pontificado.

Sob seu comando a Argentina chegou a três finais de Copas do Mundo, ganhando o título em 1986 e sendo vice em 1990 e 2014, conquistou duas medalhas de ouro em Olimpíadas, 2004 e 2008, seis Mundiais sub-20 da Fifa e duas Copas América, em 1991 e 1993.

Em 1988 foi convidado pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter, para dirigir a Comissão de Finanças e o Conselho de Mercadotecnia e Televisão. Tempos depois, passou a ser um dos vices-presidentes da entidade máxima do futebol.

O dirigente, durante os 35 anos que presidiu a AFA foi alvo de muitas polêmicas. Em 2003, por exemplo, foi acusado de antissemitismo, depois de dizer, em uma coletiva de imprensa, que "judeus não gostam de trabalhar".

Também foi um dos investigados no escândalo de compra de votos da Fifa, na eleição que indicou o Catar como sede da Copa do Mundo de 2022. Mas nada ficou provado contra ele.

Desde 26 de outubro de 2011, ele cumpria seu nono mandato consecutivo como presidente. Em sete, das oito reeleições, sempre foi aclamado pelos colegas do Comitê Executivo.

Uma única vez, em 1991, teve um opositor: o ex-árbitro Teodoro Nitti, que recebeu um voto, contra 40 dados a “Don Julio”. Na AFA, o voto não é secreto, e os dirigentes erguem a mão para aprovar tudo. Ninguém ousava ficar de braço abaixado no momento de apoiar proposições do chefe.

Durante o tempo que presidiu a AFA, Grandona conviveu com oito greves de jogadores, três paralisações de árbitros, mais de 40 casos de doping de jogadores da seleção, o surgimento – e o fortalecimento dos “barrabravas” (os hooligans argentinos), além de acusações de corrupção e de vínculos controvertidos com o poder e empresários amigos que possuem negócios comerciais com a AFA.

A presidente argentina, Cristina Kirchner, esteve quinta-feira, no prédio da AFA, para prestar solidariedade aos familiares de Grondona. Em 2011, para agradar a presidente, Grondona batizou o prêmio do campeonato nacional de futebol com o nome do ex-presidente Kirchner, que morreu em outubro de 2010.

O dirigente falecido foi o principal aliado da presidente na estatização das transmissões dos jogos de futebol. “Somente morto saio da AFA”, disse em 2010. E realmente isso se concretizou.

O craque argentino Lionel Messi e o presidente da Fifa, Joseph Blatter, estiveram presentes ao atos de sepultamento, ocorridos na sexta-feira (30).

Também compareceram os jogadores da Seleção Vice-Campeã do Mundo, Javier Mascherano, Maximiliano Rodríguez, Fernando Gago, Sergio Romero e Lucas Biglia, assim como o técnico Alejandro Sabella.

O corpo de Grondona foi sepultado em um cemitério de Avellaneda, no Sul da província de Buenos Aires. A AFA decretou sete dias de luto, suspendeu atividades até segunda-feira (4) e adiou a primeira rodada de todas as divisões do país.

O presidente da CBF, José Maria Marin, determinou que se respeitasse um minuto de silêncio em partidas de futebol realizadas no Brasil, para homenagear o dirigente argentino falecido.

A escolha de um novo presidente será feita em uma assembleia de clubes no mês de outubro. Até lá o comanda da AFA ficará por conta de Luis Segura, primeiro vice-presidente da Confederação e presidente do Argentinos Juniors.

O mandato do novo comandante terá validade de um ano. Em 2015, em uma outra reunião, será escolhido um novo mandatário que ficará no poder por quatro anos. (Pesquisa: Nilo Dias)

Só a morte tirou Grondona da presidência da AFA. (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O futebol de Sergipe

O Estado de Sergipe não figura entre os principais centros futebolísticos do país, o que não invalida que se mostre a sua história, recheada de fatos interessantes.  Ao que se sabe, o major Crispim Ferreira, que servia no 26º Batalhão de Infantaria, com sede em Aracaju, foi o primeiro personagem a proporcionar uma apresentação do chamado “esporte bretão”, na capital do Estado.

Isso teria ocorrido em setembro de 1907, quando ele reuniu soldados e recrutas da unidade para um jogo de futebol no improvisado campo da “Praça Valadão”, que se localizava frente o Quartel. Não se tem registros históricos do que aconteceu depois disso.

Em 1909, Mário Lins de Carvalho, um menino de 17 anos de idade, natural da cidade interiorana de Lagarto, regressou de Salvador, onde morou por três anos. Junto com ele veio o desejo de fundar um clube de futebol em Aracaju. Para tal, convidou o amigo Carlos Baptista Bittencourt. Os dois passaram a buscar outros interessados na idéia.

Tempos depois, com um seleto grupo de jovens entusiastas pelo esporte inventado pelos ingleses, promoveram uma reunião na casa de Bittencourt, na rua de Maruim e fundaram o "Sport Club Lux", nome que teve curta duração, sendo em seguida mudado para "Club do Football Sergipano", com as cores vermelha e branca.

A primeira sede foi na residência de um dos fundadores, João Rocha, na rua Laranjeiras, 123. Os primeiros treinos se realizaram na Praça do Palácio, atual Fausto Cardoso.

Essa agremiação, no entanto, não participou do primeiro campeonato de futebol em Sergipe, que só foi realizado em 1918, organizada pela "Liga Desportiva Sergipana". Tomaram parte na competição apenas quatro equipes: Cotinguiba, 41° Batalhão F.C., Sergipe e Industrial. O Continguiba foi o campeão, ganhando do Sergipe por 2 X 0 no jogo final. No ano seguinte não houve campeonato.

De 1920 a 1948 os jogos de futebol em Aracaju foram realizados no “Estádio Adolpho Rolemberg", na época uma das melhores praças esportivas das regiões Norte e Nordeste. Em 1927 surgiu a "Liga Sergipana de Esportes Atléticos", com apenas três clubes filiados: Associação Atlética, América e Palmeiras, dividindo o futebol estadual em duas organizações.

A outra era a antiga “Liga Desportiva Sergipana”, fundada em 10 de novembro de 1926, com quatro filiados: Sergipe, Brasil, Cotinguiba e Aracaju. Em 1928 a nova “Liga Sergipana de Esportes Atléticos”, que estava muito bem organizada, recebeu mais oito filiações: Vasco, Guarani, Paulistano, Palestra, Vitório, Siqueira Campos, 13 de Julho e ETEA, tomando conta do futebol no Estado, o que fez com que a sua antagonista fechasse as portas.

A partir de 10 de novembro de 1941 mudou a denominação para “Federação Sergipana de Desportos”, e por decisão da Assembléia Geral Extraordinária realizada em 20 de janeiro de 1976, para “Federação Sergipana de Futebol”, que permanece até hoje.

Em 1936 o campeonato passou a contar também com clubes do interior do Estado. O primeiro a disputar foi o Ipiranga, de Maruím. Em 1939, dividiu-se o certame em duas divisões, a do “Interior”, com quatro equipes, Ipiranga, Riachuelo, Socialista e Laranjeiras e a da “Capital”.

O Ipiranga foi campeão do “Interior” e o Sergipe, da “Capital”. O título foi decidido em melhor de três jogos, sistema que perdurou até 1958. O Sergipe levou a melhor e levantou a taça, depois de vencer o jogo final na prorrogação, por 2 X 0.

Mas o Ipiranga, descontente com o resultado, entrou com recurso na Liga, alegando que o adversário incluiu o jogador Renato Vieira, em condição irregular, pois estava inscrito na liga Paulista. Com isso, o Ipiranga foi proclamado campeão estadual.

Em 1959 foi testada uma fórmula que dividia o campeonato em três zonas: Leste, com clubes da Capital, Norte, Sul e Centro. Depois, os cinco melhores de Aracaju juntaram-se aos campeões das zonas do interior e decidiram o campeonato em dois turnos. Já em 1960 foi disputado o primeiro campeonato de profissionais do Estado.

Inaugurado em junho de 1969, o “Estádio Batistão", com capacidade para 25 mil pessoas, dveria ser responsável por uma nova era no futebol sergipano. Mas não foi o que aconteceu, visto que a média de público na nova praça de esportes, não passou de oito mil expectadores pagantes por jogo.

Em 1980 foi instituído o “Acesso” e “Descenso”, numa tentativa de deixar os campeonatos mais atraentes.

Os principais clubes do Estado são Club Sportivo Sergipe e Associação Desportiva Confiança, ambos de Aracaju. Eles realizam o maior clássico sergipano, que é conhecido por “Derby”. Nas 91 edições já realizadas do Campeonato Estadual, os dois somam 51 conquistas, 33 do Sergipe e 18 do Confiança.

Outro clube de tradição é a Associação Olímpica de Itabaiana, que já foi campeã do Estado em 10 oportunidades, sendo a maior força do futebol interiorano. É também detentora da maior conquista do futebol sergipano em todos os tempos, o Campeonato do Nordeste de 1971.

Outras equipes com certa tradição e que buscam espaço novamente, são o Esporte Clube Propriá, o Cotinguiba Esporte Clube, ambos centenários e o Centro Sportivo Maruinense. Agremiações mais novas como o São Domingos F.C. e S.E. River Plate, estão conseguindo certa visibilidade a nível nacional.

O futebol sergipano não tem sido um bom celeiro para o futebol brasileiro. Seu maior idolo atualmente é o goleiro-artilheiro Márcio Luiz Silva Lopes Santos Souza, do Atlético Clube Goianiense que disputou este ano a Série B do Campeonato Brasileiro.

Também merecem destaque os garotos Victor Andrade e Geuvânio, integrantes do novo time do Santos F.C. E o artilheiro Diego Costa, do Atlético, de Madrid e da Seleção Espanhola, que nasceu em Lagarto.

No passado foram destaques os jogadores Onça, zagueiro que jogou no Flamengo, do Rio de Janeiro e Sandoval, meia que defendeu São Paulo, Internacional e Atlético Paranaense. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 22 de julho de 2014

Estrangeiros que treinaram a Seleção Brasileira

No momento em que a Seleção Brasileira de Futebol começa a chamada “2ª Era Dunga”, muitas vozes se levantaram sugerindo a contratação de um treinador estrangeiro. Se isso tivesse realmente ocorrido, não seria a primeira vez que um profissional de outro país dirigiria o scratch nacional.

Em 1944 o português Jorge Gomes de Lima, o “Joreca” fez parte da Comissão Técnica da seleção Brasileira, ao lado de Flávio Costa, em dois jogos frente o Uruguai. Foi o primeiro estrangeiro a comandar o time nacional. No dia 14 de maio, em São Januário, os brasileiros venceram por 6 X 1 e três dias depois, no Pacaembu, nova goleada, 4 X 1.

Jorge Gomes de Lima, o “Joreca”, nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 7 de Janeiro de 1904 e faleceu em São Paulo, no dia 5 de Dezembro de 1949, vitima de um ataque cardíaco.

Foi técnico de futebol, funcionário da Federação Paulista, jornalista, árbitro e até “boxeur”, com duas vitórias em dois combates. Sua carreira foi quase toda no Brasil, onde treinou o São Paulo, alcançando três campeonatos paulistas na década de 1940 e o Corinthians, sem muito sucesso.

“Joreca” era um sujeito daqueles que se costuma chamar de “bonachão”. Gostava de charutos cubanos e de contar histórias. Formou-se na Escola de Educação Física do Estado de São Paulo, no inicio da década de 1940, e começou a carreira de treinador na Seleção Paulista de Amadores.

Era conhecido por “Português”. Como árbitro dirigiu o jogo de estréia de Leônidas da Silva pelo São Paulo, frente o Corinthians, em 24 de maio de 1942, com 70 mil pessoas no Pacaembu. O jogo terminou empatado em 3 X 3.

No ano seguinte foi treinar o São Paulo, substituindo o uruguaio Conrado Ross. Estreou com uma vitória contra a Portuguesa Santista por 6 X 1. “Joreca” comandou o tricolor paulista durante 166 jogos, com 109 vitórias, 31 empates e 26 derrotas. Foi campeão paulista em 1943, 1945 e 1946.

O primeiro título de “Joreca” ficou conhecido como o “Da moeda em pé”. Palmeirenses e corinthianos, que dominavam o futebol paulista na época, diziam que o São Paulo só seria campeão se fosse lançada uma moeda ao ar e esta caísse de pé. Depois do jogo, a equipe campeã desfilou pelas ruas da cidade num carro alegórico exibindo uma moeda em pé

Em 1949 foi contratado pelo Corinthians, tendo ficado 52 partidas a frente do elenco alvi-negro, com 28 vitórias, 10 empates e 14 derrotas, 139 gols marcados e 89 sofridos. No seu primeiro jogo no Corinthians, "Joreca" não ficou no banco, embora tenha orientado e dado a preleção aos jogadores.

O jogo foi contra o Torino, da Itália, no Pacaembu, em 21 de julho de 1948. “Joreca” não ficou no banco porque o clube ainda não havia oficializado sua contratação e o trio Cláudio, Hélio e Servílio acabou liderando a equipe contra o tetracampeão italiano.

Foi o primeiro treinador de Baltazar e ajudou a criar a figura do «cabecinha de ouro», obrigando o atacante a melhorar o jogo aéreo. Baltazar marcou 71 gols de cabeça, foi o segundo maior goleador da história do Corinthians. O português faleceu no final de 1949, vítima de um ataque cardíaco. Já deixara a sua marca.


O outro estrangeiro que treinou a Seleção Brasileira foi Nélson Ernesto Filpo Núñez , ou simplesmente Filpo Nuñez, argentino de Buenos Aires, nascido em 19 de agosto de 1920 e falecido em São Paulo, no dia 6 de março de 1999, aos 78 anos.


Como jogador de futebol defendeu as equipes do Estudiantil Porteño, onde começou a carreira, em 1935, e posteriormente no Acassuso, ambos times argentinos.

Apelidado de “El Bandonéón”, teve importante passagem pelo futebol brasileiro, entrando para a história como o treinador-símbolo da "Academia", como foi chamada a Sociedade Esportiva Palmeiras nos Anos 60 . Foi o técnico da equipe quando o Palmeiras, vestindo a camisa da Seleção Brasileira, venceu a Seleção do Uruguai por 3 X 0.

Começou a carreira de treinador em 1948, quando dirigiu o Independiente, de Rivadávia (Argentina).Depois treinou o Cruzeiro, de Belo horizonte, em dois períodos diferentes; Guarani, de Campinas (SP); Jabaquara, de Santos (SP), por quatro períodos diferentes); América, de São José do Rio Preto (SP), em dois períodos diferentes; Portuguesa Santista, de Santos (SP), em três períodos diferentes; Vasco da Gama, do Rio de Janeiro; Leixões, de Portugal, em três períodos diferentes; Vitória, de Setúbal, Portugal; Palmeiras, de São Paulo, em três períodos diferentes; XV de Novembro, de Piracicaba (SP); Corinthians Paulista, em dois períodos diferentes; Galicia, da Bahia; Portuguesa de Desportos, de São Paulo; Coritiba; Paulista, de Jundiaí (SP); San Martin, da Argentina; Veles Sarfield, da Argentina; Uberaba, de Uberaba (MG); Badajóz, da Espanha; São Bento, de Sorocaba (SP); Monterrey, do México; São José, de São José dos Campos (SP), em dois períodos diferentes; Botafogo, da Paraíba; Araçatuba, de Araçatuba (SP); Francana, de Franca (SP); Internacional, de Limeira (SP); Sport, de Recife; Mogi Mirim, de Mogi Mirim (SP) e Fabril, de Lavras (MG). 

Em seus primeiros anos, a Seleção Brasileira foi dirigida por uma comissão técnica, sendo um jogador dentro do campo, o capitão, responsável pela equipe. Abaixo, ano a ano, todos os treinadores da Seleção Brasileira.

1914, Rubens Salles e Silvio Lagreca, capitão da equipe; 1915, não houve jogos; 1916, Benedito Montenegro, Joaquim Ribeiro, Mário Cardim e Silvio Lagreca, capitão; 1917, Chico Netto, capitão, Mário Pollo e R. Cristófaro; 1918, Amílcar Barbuy, capitão, Afonso de Castro e Ferreira Netto; 1919, Affonso de Castro, Amílcar Barbuy, Arnaldo da Silveira, capitão, Ferreira Netto e Mário Pollo; 1920, Fortes, capitão e Oswaldo Gomes; 1921, Ferreira Netto; 1922, Amílcar Barbuy, capitão, Célio de Barros e Ferreira Netto; 1922, Clodô, capitão e Ferreira Netto; 1923, Chico Netto; 1924, não houve partidas; 1925, Joaquim Guimarães; 1926–1927, não houve partidas; 1928–1929, Laís; 1930, Píndaro de Carvalho; 1931–1932, Luís Vinhaes; 1933, não houve partidas; 1934, Luís Vinhaes e Armindo Nobs Ferreira; 1935, Armindo Nobs Ferreira; 1936–1938, Ademar Pimenta; 1939, Carlos Nascimento; 1940, Silvio Lagreca e Jayme Barcellos; 1941, não houve partidas; 1942, Ademar Pimenta; 1943, não houve partidas; 1944, Flávio Costa e Jorge Gomes de Lima, o “Joreca”; 1945–1950, Flávio Costa; 1951, não houve partidas; 1952, Zezé Moreira; 1953, Aymoré Moreira; 1954–1955, Zezé Moreira; 1955, Vicente Feola, Flávio Costa e Osvaldo Brandão; 1956, Osvaldo Brandão, Teté e Flávio Costa; 1957, Osvaldo Brandão, Sylvio Pirillo e Pedrinho; 1958, Vicente Feola; 1959, Vicente Feola e Gentil Cardoso; 1960, Oswaldo Rolla e Vicente Feola; 1961–1963, Aymoré Moreira; 1964, Vicente Feola; 1965, Vicente Feola, Filpo Núñez (argentino), Osvaldo Brandão e Aymoré Moreira; 1966, Carlos Froner e Vicente Feola; 1967, Aymoré Moreira e Zagallo; 1968, Aymoré Moreira, Antoninho, Zagallo, Carlyle Guimarães, Jota Júnior e Yustrich; 1969, João Saldanha; 1970, João Saldanha e Zagallo; 1971-1974, Zagalo; 1975–1976, Osvaldo Brandão; 1977, Osvaldo Brandão e Cláudio Coutinho; 1978–1979, Cláudio Coutinho; 1980–1982, Telê Santana; 1983, Carlos Alberto Parreira; 1984, Edu Coimbra; 1985, Evaristo de Macedo; 1986, Evaristo de Macedo e Telê Santana; 1986, Telê Santana; 1987–1988, Carlos Alberto Silva; 1989–1990, Sebastião Lazaroni; 1991, Paulo Roberto Falcão, Ernesto Paulo e Carlos Alberto Parreira; 1992–1994, Carlos Alberto Parreira; 1994–1998, Zagallo; 1998–2000, Vanderlei Luxemburgo; 2000, Candinho; 2000–2001, Emerson Leão; 2001–2002, Luiz Felipe Scolari; 2003–2006, Carlos Alberto Parreira, 2006–2010, Dunga; 2010–2012, Mano Menezes; 2013–2014, Luiz Felipe Scolari e 2014-????, Dunga.    
                            
Em Copas do Mundo. 1930, no Uruguai: Píndaro de Carvalho; 1934, na Itália: Luís Vinhaes; 1938, na França: Ademar Pimenta; 1950, no Brasil: Flávio Costa; 1954, na Suíça: Zezé Moreira; 1958, na Suécia: Vicente Feola; 1962, no Chile: Aymoré Moreira; 1966, na Inglaterra: Vicente Feola; 1970, no México: Zagallo; 1974, na Alemanha: Zagallo; 1978, na Argentina: Cláudio Coutinho; 1982, na Espanha: Telê Santana; 1986, no México: Telê Santana; 1990, na Itália: Sebastião Lazaroni; 1994, nos  Estados Unidos: Carlos Alberto Parreira; 1998, na França: Zagallo; 2002, na Coreia do Sul/ Japão: Luiz Felipe Scolari; 2006, na Alemanha: Carlos Alberto Parreira; 2010, na África do Sul: Dunga e 2014, no Brasil: Luiz Felipe Scolari. (Pesquisa: Nilo Dias)

"Joreca", nos tempos de árbitro. (Foto: Divulgação)

Filpo Nuñez,quando treinava o Palmeiras. (Foto: Divulgação)

sábado, 19 de julho de 2014

A morte de Armando Marques

Faleceu na última quarta-feira (16) aos 84 anos de idade, por insuficiência renal, o ex-árbitro de futebol Armando Nunes Castanheira da Rosa Marques. De acordo com informações da Secretaria de Saúde do Município do Rio de Janeiro, ele deu entrada na Coordenação de Emergência Regional (CER), do Leblon, na terça-feira, com um quadro muito grave de insuficiência renal e não resistiu.

O extinto era carioca, nascido a 6 de fevereiro de 1930 e marcou a sua carreira pela polêmica. Ainda assim chegou a ser considerado o melhor árbitro do Brasil, enquanto esteve em atividade.

Começou na profissão em 1961, aos 31 anos e ao longo da carreira foi considerado um dos maiores árbitros do futebol brasileiro. Participou de 12 decisões de campeonatos nacionais até 1974 e apitou 1.896 jogos, até se aposentar.

Além disso, apitou também diversas decisões e clássicos de campeonatos estaduais. Também atuou em duas Copas do Mundo: 1966 na Inglaterra e 1974 na Alemanha.

Armando Marques conseguiu a façanha de ser amado e odiado por torcedores e jogadores. Teve erros históricos, especialmente quando trabalhou no futebol paulista.

Um deles é lembrado até hoje pela torcida do Palmeiras, quando anulou um gol legitimo de Leivinha, que ajudou o São Paulo a ser campeão paulista daquele ano. Marques marcou toque de mão, quando todo o estádio viu e as imagens confirmaram que o gol foi de cabeça.

O maior erro da carreira do árbitro aconteceu na final do Campeonato Paulista de 1973, quando ele encerrou a cobrança de pênaltis no momento em que o Santos vencia a Portuguesa de Desportos por 2 X 0, mas ainda existia a possibilidade de empate . Por causa disso o título teve de ser dividido entre os dois clubes.

Na final do Campeonato Brasileiro de 1974, no Maracanã, o Cruzeiro necessitava somente de um empate para se sagrar campeão. O Vasco vencia por 2 X 1 quando Armando Marques anulou um gol legítimo marcado por Zé Carlos, para o Cruzeiro. Isso impediu o time mineiro de conquistar o título.

Mesmo com muitas falhs, Armando Marques foi escolhido para apitar as decisões nacionais de 1962 (segunda partida), 1963, 1964, 1965, 1966, 1967 (Náutico X Palmeiras), 1968 (Internacional  X Corinthians), 1969 (Palmeiras X Botafogo), 1970 (Palmeiras X Cruzeiro), 1971, 1973 (Internacional X Cruzeiro) e 1974. Dos Campeonatos Cariocas de 1962, 1965 (Flamengo X Fluminense), 1968, 1969 e 1976, dos Campeonatos Paulistas de 1967, 1971 e 1973 e do Campeonato Mineiro de 1967.

A masculinidade de Armando Marques foi sempre colocada em xeque pela imprensa, que criticava seu jeito efeminado. Em tom de gozação diziam que “em mulher não se bate nem com uma flor”, e completavam: “Nem em Armando Marques”.

Por seu estilo, provocou o coro pouco habitual de "bicha" nos estádios, de público predominantemente conservador. Ele dizia que adorava ser chamado assim:”Era a minha marca registrada”. Confirmou que até estimulava tais gritos, fazendo trejeitos.

Era costume do árbitro chamar os jogadores pelo nome próprio.  Pelé, por exemplo, era chamado de Édson. Mas isso não queria dizer que ele era educado no trato com os atletas. Muito pelo contrário. Costumava enfiar o dedo indicador direito (era destro) na cara dos jogadores, quando lhes chamava a atenção. Nem Pelé escapou.

Armando foi o árbitro que expulsou Pelé de campo. Levou um soco de um dos maiores ídolos do futebol nacional, Nilton Santos. Linha-dura e elegante, era um personagem em campo, inclusive com uniformes confeccionados pelo costureiro Denner, mas reservado fora e avesso a entrevistas.

Depois de encerrar a carreira de árbitro, Armando Marques apresentou em 1973 um programa de auditório na extinta TV Manchete, onde também foi comentarista esportivo. No programa havia um quadro em que ele contava e admitia alguns erros que cometera durante sua carreira.

Depois foi diretor da Comissão Nacional de Arbitragem da CBF por oito anos, onde continuou a ser polêmico, em razão de escolhas suspeitas para arbitragens do Campeonato Brasileiro de Futebol. 

Ele não resistiu à crise após as denúncias sobre manipulação de resultados, envolvendo os árbitros Edílson Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon, e os empresários Nagib Fayad, o "Gibão" e Wanderlei Pololi.

Além de ser acusado de omissão, ele teria mentido ao dizer que o árbitro Edilson Pereira de Carvalho tinha sido integrado ao quadro da Fifa durante a gestão de Ivens Mendes na Comissão Nacional de Arbitragem.

Em âmbito internacional, Marques apitou o jogo inaugural do Estádio Olímpico de Munique, na Alemanha, em 1972, entre a Seleção Alemã e a União Soviética.

Em 1974, Marques apitou um jogo pela Copa do Mundo entre a antiga Alemanha Ocidental (ainda havia o muro dividindo as duas Alemanhas) e a Iugoslávia, que não existe mais. O jogo foi realizado em Dusseldorf, com 66.085 torcedores no Rheinstadion. De repente, não se sabe bem porque, Armando Marques passou a dar um sermão no craque alemão Overath.

Dedo em riste, a perna direita ligeiramente dobrada, ele gritava com Overath. A cena foi constrangedora. O jogador, impávido, ouviu tudo. E o jogo prosseguiu. A Alemanha Ocidental venceu por 2 X 0, com gols de Breitner e Müller. No dia seguinte, a Comissão de Arbitragem da FIFA afastou o árbitro da competição.

Em abril deste ano fez sua última aparição pública, quando no programa de Jô Soares, já aparentando fragilidade física, levou a plateia aos risos ao admitir os erros de sua carreira, falou de Neymar e ainda fez piadas.

Em memória do ex-árbitro, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), determinou que nos jogos do Campeonato Brasileiro até este domingo (20), sejam respeitados um minuto de silêncio. (Pesquisa: Nilo Dias)

Armando Marques. (Foto: Divulgação)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Com uma “bala” no corpo

Você já imaginou alguém jogar futebol com uma bala de revólver alojada em seu próprio corpo? Pois isso aconteceu. Jair Félix da Silva, que fiou conhecido no mundo do futebol como “Jair Bala”, viveu essa experiência. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim (ES), no dia 10 de maio de 1943, era um meio-campista ofensivo, também chamado de ponta-de-lança.

Começou a carreira no Estrela do Norte, de sua cidade natal, ainda menino, contrariando a vontade de sua mãe, dona Maria da Conceição, que fez de tudo para Jair seguir a profissão do pai e do avô, operários da Ferrovia Leopoldina.

Mas Jair preferiu seguir os conselhos de "Seu Zezinho”, que era educador e também padeiro. Foi descoberto quando jogava em um campinho na periferia da cidade. “Seu Zezinho” perguntou de quem ele era filho. Ao saber que era cria do “Seu Batata”, disse que seu pai foi o maior atacante da história do futebol cachoeirense.

Ali começou verdadeiramente a sua carreira. Foi levado para os infantis do Estrela do Norte. No início dos anos 60 o Flamengo, do Rio de Janeiro, jogou uma partida amistosa em Cachoeiro e o técnico rubro-negro, o paraguaio Fleitas Solich, se encantou com o futebol de Jair, que havia marcado um gol e aconselhou sua imediata contratação. No time carioca começou no time juvenil, que costumava treinar com os titulares, por isso atuou ao lado de craques como Dida e Gérson.

O apelido de "Bala" surgiu nessa época. Ele fora ao escritório das categorias de base, em busca do dinheiro de um "bicho", quando encontrou o funcionário Willian, a quem fez o pedido. Este, num gesto de brincadeira, para que Jair desistisse da “grana”, tirou da gaveta um revólver, que pertencia a Jaime de Almeida.

Willian não sabia que a arma estava carregada, e chegou a apontá-la para Jair. Mas ao baixá-la ocorreu um disparo acidental. A bala ricocheteou no chão e foi atingir a coxa esquerda do jovem jogador, parando na virilha, sem atingir nenhuma parte vital.

Os médicos resolveram não retirar o projetil, que Jair carrega até hoje dentro do corpo, em local ignorado. A partir daí passou a ser chamado de “Jair da Bala", que depois virou “Jair Bala”.

Não ficou muito tempo no Flamengo, onde se profissionalizou. Em 1963 foi parar no Botafogo de Garrincha, Nilton Santos e muitos craques, depois que o Flamengo mandou embora o técnico Fleitas Solich, que era adorado pelos jogadores.

Foi quando o afamado jornalista Nélson Rodrigues, na sua coluna “À sombra das chuteiras imortais”, lhe dedicou uma crônica em que deu um tom poético à bala que Jair carregava no corpo e no apelido:

 "(...) se Jair fosse simplesmente Jair, estaria apodrecendo na obscuridade. À toda hora, em toda parte, nós esbarramos, nós tropeçamos num Jair qualquer.(...) Contra o Madureira, o nosso Jair se disparou realmente como um tiro. Desde o primeiro minuto, foi uma arma apontada para o peito do inimigo. E todos percebemos, em General Severiano, que nunca um Jair fora tão bala. É a autenticidade dos apelidos, que nunca existe nos nomes (...)" . Jair também foi personagem em vários textos de Roberto Drummond, Fernando Brant e outros cronistas importantes.

“Jair Bala” foi um verdadeiro cigano do futebol, andando por muitos clubes. Esteve no Comercial , de Ribeirão Preto, onde é lembrado até hoje como um dos maiores ídolos da história do clube.

Defendeu a Ponte Preta, de Campinas; Cruzeiro, de Belo Horizonte, que tinha Tostão e Dirceu Lopes; Palmeiras nos tempos da Academia de Ademir da Guia; Santos, de Pelé; XV de Novembro, de Piracicaba e América Mineiro, onde alcançou a melhor fase de sua carreira, tendo sido artilheiro do Campeonato Mineiro em 1964, o último da “Era Independência”.

O “Coelho” tinha um time muito bom, com Pedro Omar, Juca Show, Misael. Cândido e Zé Carlos Generoso, entre outros. “Bala” chegou a ser eleito o melhor jogador da história do América em todos os tempos, em enquete realizada pelo jornal “Estado de Minas”.

Seus pés estão gravados em cimento na “Calçada da Fama”, do “Estádio Mineirão”. Depois jogou ainda no Bahia e encerrou a carreira no Paysandu, de Belém do Pará, nos anos 1970.

Quando jogou no Santos entrou no lugar de “Pelé”, após este ter marcado seu milésimo gol, na partida contra o Vasco da Gama, no Maracanã, em 19 de novembro de 1969. No jogo anterior, contra o Bahia, marcou o único gol santista no empate em 1 X 1, que poderia ter antecedido a festa.

“Jair Bala” também fez carreira como treinador. Esteve à frente de diversas equipes do futebol mineiro. Começou no Sete de Setembro, clube já extinto de Belo Horizonte. Depois dirigiu o Londrina, do Paraná, onde foi Campeão Brasileiro da Segunda Divisão, em 1980, chamada na época de “Taça de Prata”.

Atualmente “Jair Bala” é funcionário da Prefeitura de Belo Horizonte, membro da Associação dos Ex-Jogadores do América/MG, da qual foi um dos fundadores e eventualmente participa do programa “Alterosa Esporte”, da TV Alterosa. É casado com Sônia Albano, com quem teve três filhos. Jair Albano Félix, ex-árbitro de futebol, Sabrina e Sandrelle, e ainda a sobrinha Veruska como filha de criação.

Títulos conquistados. Palmeiras: Taça Roberto Gomes Pedrosa (1967);  América: Campeão Mineiro (1971); América: Artilheiro do Campeonato Mineiro (1964 e 1971). (Pesquisa: Nilo Dias)


Jair Bala nos tempos de América Mineiro. (Foto: Divulgação)

sábado, 12 de julho de 2014

A morte do "Doutor Osmar"

Faleceu ontem em São Paulo aos 71 anos de idade, o médico e jornalista Osmar Pereira Soares de Oliveira, ou simplesmente “Doutor Osmar”, nascido na capital paulista em 20 de junho de 1943. Ultimamente participava como debatedor dos programas esportivos “Jogo Aberto” e “Terceiro tempo”, além de transmissões esportivas da TV Bandeirantes.

Osmar de Oliveira estava internado no “Hospital AC Camarg”, em São Paulo, depois de ter passado por uma cirúrgia para retirada de um tumor na próstata. O irmão do jornalista, o também médico César de Oliveira, confirmou a morte que aconteceu às 18h15min, em decorrência de uma parada cardíaca.

Há cerca de um mês Osmar teve seu estado de saúde complicado, quando ao tentar levantar da cama, a sonda que ele usava se prendeu e afetou a bexiga, originando uma grave hemorragia. Em julho de 2013 ele também havia sofrido um infarto e necessitou de cirúrgia. Além disso, tinha problemas pulmonares.

Osmar de Oliveira formou-se em Medicina pela Pontificia Universidade Católica (PUC), de Sorocaba (SP), e atuava nas especialidades Medicina Esportiva e Ortopedia. Trabalhou como médico do Corinthians e do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e da Seleção Brasileira de Basquete.

Enquanto estudava, escrevia no jornal “Cruzeiro do Sul” e tomava parte em programas esportivos da Rádio Cacique, ambos de Sorocba. Em 1966 tornou-se redator da “Revista do Corinthians” e do jornal “Coringão”.

Também era formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Em 1978 recebeu convite de Roberto Petri, para trabalhar na TV e Rádio Gazeta, durante a Copa do Mundo da Argentina.

Polivalente, era narrador da TV, comentarista da rádio e membro atuante da “Mesa Redonda”, junto de Petri, Milton Peruzzi, Zé Italiano, Peirão de Castro, Rubens Pecci, Dalmo Pessoa, José Silveira, Geraldo Blota e Sérgio Baklanos.

Em 1980 foi trabalhar na TV Globo onde ficou por três anos, transferindo-se depois para a TV Bandeirantes, onde tornou-se o primeiro narrador do programa “Show do Esporte “, na equipe comandada por Luciano do Vale, recentemente falecido. Trabalhavam também Juarez Soares, Jota Jr, Elia Jr, Eli Coimbra, Luiz Ceará e Eduardo Savóia, entre outros.

Em 1986, atendendo convite de Sílvio Santos foi para o SBT, onde comandou a equipe de esportes que tinha Juca Kfouri como comentarista e Jorge Kajuru como repórter.

Depois da Copa do Mundo do México, retornou à Band para cobrir os Jogos Olímpicos de Seul. Como um cigano da imprensa - foi o único jornalista esportivo que trabalhou em todos os canais de televisão aberta em São Paulo -, logo mudou-se para a TV Manchete, para ser o chefe da equiipe de esportes da emissora, onde foi colega de João Saldanha, Paulo Stein, Márcio Guedes, Alberto Léo, Antonio Pétrin, José Carlos Conti e Mariana Godoy.

Em 1992, voltou ao SBT, junto de Juarez Soares, Orlando Duarte, Silvio Luiz, Luiz Alfredo, Oscar Ulisses, Nivaldo Prieto, Eli Coimbra, Antonio Petrin, entre outros. Em 1999 teve uma passagem pela PSN, emissora americana de canal fechado no Brasil. Em 2000 passou pela TV Cultura, onde participou do programa “Cartão Verde”, ao lado de Juarez Soares e Flávio Prado.

No mesmo ano mudou-se para a TV Record onde foi locutor, comentarista e apresentador. Ficou por lá durante sete anos, participando dos programas “Debate Bola” e “Terceiro Tempo”, ambos comandados por Milton Neves. Em agosto de 2007 voltou para à TV Bandeirantes, onde permaneceu até a morte.

O jornalista falecido dá nome ao “Instituto Osmar de Oliveira”, de sua propriedade, que fica em São Paulo e há mais de 30 anos é referência ao atendimento em ortopedia, fisioterapia, medicina esportiva e reabilitação.

Ultimamente, o “Doutor Osmar” havia feito transformações no Instituto, com a Clinica atendendo os mais pobres sem nada cobrar por isso. E também dando ênfase as pesquisas. (Pesquisa: Nilo Dias)

Osmar de Oliveira era torcedor apaixonado do Corinthians. (Foto: Divulgação)