Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Há 38 anos morria o craque Boszik

Uma das seleções mais poderosas que o mundo conheceu foi sem dúvida a da Hungria, na Copa de 1954, disputada na Suíça. Nos cinco jogos que disputou, conseguiu a façanha de ser até hoje, passados 62 anos a seleção mais ofensivas da história, com o recorde de gols em uma única edição de Copa do Mundo, 27.

A Seleção Magiar assombrou o mundo, como na goleada de 6 X 3 sobre a Inglaterra em 1953, quando se preparava para a Copa do Mundo. O ataque húngaro era uma verdadeira máquina de fazer gols, com Puskás, Kocsis, Czibor, Hidegkuti e Budai. Esse cinco nomes se eternizaram, jamais serão esquecidos.

József Bozsik jogava mais atrás, era um gênio de seu tempo, mas pouco reconhecido. Sua genialidade no futebol começou na infância, ao lado de Puskás, talvez a maior lenda do futebol húngaro em todos os tempos. Os dois eram vizinhos e juntos transformaram a história do Kispest, posteriormente chamado de Honvéd. E, também a seleção.

Ferenc Puskás, ingressou na equipe principal do Kispest dois anos depois de Bozsik. A mudança de nome veio em 1949, quando a equipe tornou-se do Exército. Até então mediana, o Honvéd tornou-se um dos mais fortes times do país, recebendo vários craques recrutados por Sebes, dentre eles Gyula Grosics, László Budai, Sándor Kocsis e Zoltán Czibor.

Os títulos que o Kispest nunca conquistara não demoraram a chegar após a transformação. Bozsik faturou os campeonatos húngaros em 1950, 1952, 1954 e 1955.

A primeira partida de Bozsik pela Hungria foi em 1947. O país, porém, decidiu não participar das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1950, juntamente com os demais comunistas do Leste Europeu, com exceção da Iugoslávia.

Cinco anos depois, Bozsik ganhou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Verão de 1952 com a seleção. O Honvéd era a base do time, que no início da década de 1950 viveu uma invencibilidade ainda não igualada de 32 partidas.

A consagração definitiva ocorreu na Copa do Mundo de 1954: no ano anterior, a Hungria ganhou a Copa Dr. Gerö, precursora da atual Eurocopa, e bateu por 6 X 3 a Inglaterra em pleno Wembley, tornando-se a primeira seleção não-britânica a vencer os ingleses nos domínios deles.

A um mês do mundial, na revanche do English Team em Budapeste, a Hungria ampliou seu favoritismo, massacrando por 7 X 1.

A Seleção Magiar conseguiu fazer uma revolução tática no futebol da época, a qual dependia bastante de Bozsik, que dava o equilíbrio necessário no meio do campo. Era um dos responsáveis pela dinâmica do time. A maior parte das jogadas passava por ele, que tinha excelente saída de bola e sabia dar proteção à zaga, além de aparecer na frente como elemento surpresa.

Os húngaros chegaram até a final da Copa de 54, após uma campanha brilhante: na primeira fase, impuseram novos massacres: foram 9 X 0 na Coreia do Sul e 8 X 3 na Alemanha Ocidental.

Depois, nas quartas-de-final e semifinais, venceram por 4 X 2 as seleções que decidiram a Copa do Mundo anterior, Brasil e Uruguai. O jogo contra a Celeste foi o único em que ele não participou: contra os brasileiros, havia sido expulso juntamente com Nilton Santos, após ambos trocarem empurrões e pontapés, em uma partida tão marcada pela violência das duas equipes que ficou conhecida como "Batalha de Berna", em alusão também à cidade onde foi realizada a partida.

Ao ser indagado pelo árbitro da partida, o inglês Arthur Ellis, se havia sido suspenso posteriormente pela federação nacional, Bozsik respondeu desdenhosamente que "na Hungria, nós não prendemos deputados".

E ele realmente voltou ao time na final, onde novamente os húngaros enfrentaram a Alemanha Ocidental. Os magiares estavam certos de nova vitória e não se abalaram nem após os alemães empatarem aos 18 minutos do primeiro tempo a vitória parcial por 2 X 0 que a Hungria conseguira construir nos sete primeiros minutos, mesmo com o segundo gol alemão saindo após falta no goleiro Grosics.

Bastante autoconfiantes, os húngaros nunca protestavam contra a arbitragem, pois costumavam compensar eventuais erros dela com muitos gols.

Porém, não foi o que aconteceu. Os alemães impuseram uma marcação firme sobre o principal armador das jogadas húngaras, Nándor Hidegkuti, e souberam fechar-se na defesa.

A seis minutos do fim, em um contra-ataque, viraram a partida e conseguiram suportar a pressão húngara nos últimos minutos, em que um gol de Puskás chegou a ser anulado. A invencibilidade húngara caiu naquela partida, justo quando não podia.

Quatro anos depois, Bozsik disputou a Copa do Mundo de 1958 como um dos titulares remanescentes de 1954, ao lado de Gyula Grosics, László Budai e Nándor Hidegkuti.

A Hungria sentiu a decadência sofrida pelo Honvéd após a crise de 1956. Puskás, Czibor e Kocsis, justamente os três melhores jogadores do time, haviam preferido o exílio no futebol espanhol. Os húngaros, sem eles, já não eram considerados favoritos como antes.

Curiosamente, foi nesse ambiente que Bozsik marcou seu primeiro (e único) gol em Copas, na estreia contra o País de Gales. Porém os húngaros resolveram recuar para segurar o resultado, sofreram o empate e terminaram a partida sofrendo pressão galesa, algo inimaginável anos antes.

No jogo seguinte, a Hungria enfrentou a anfitriã Suécia. Bozsik foi escalado no meio-de-campo, em uma posição mais avançada. Ele fez o que pôde, armando jogadas para que o jovem Lajos Tichy desferisse seus chutes violentos, mas apenas um deles resultou em gol, enquanto os nórdicos fizeram dois e venceram.

A partir daquela partida, o técnico Lajos Baróti, para o espanto geral, decidira não escalar mais Bozsik e Hidegkuti juntos: Hidegkuti não jogou contra a Suécia, voltou contra o México (contra quem Bozsik não jogou) e novamente saiu para a volta de Bozsik no play-off, em que os magiares voltaram a enfrentar Gales.

Apesar da violência húngara, os britânicos conseguiram vencer de virada e desclassificaram prematuramente os vice-campeões mundiais.

Bozsik permaneceu fiel às cores do Honvéd e da Hungria, as únicas duas equipes de sua carreira. Já em 1962, despediu-se da equipe nacional pouco antes do Mundial do Chile, se tornando o segundo jogador da história a superar a marca de 100 partidas por uma seleção.

Ainda atuou como deputado, dirigente e técnico na Hungria. Transformou-se em autoridade no país que ajudou a dar projeção graças à seleção. Bozsic morreu ainda jovem, aos 52 anos vítima de um ataque cardíaco, em 31 de maio de 1978, em Budapest.

Tinha um sentimento, o de nunca mais ter visto os ex-companheiros de seleção que fugiram do país, inclusive o amigo Puskás. 


Em janeiro de 2015 morreu ao Norte de Budapeste, na avançada idade de 85 anos o lateral direito Jeno Buzanszky, último integrante da mítica seleção de futebol húngara da década de 1950, que ficou invicta por quatro anos.

Buzanszky nasceu em Újdombóvár em 3 de maio de 1925 e começou sua carreira aos 13 anos de idade em uma equipe de sua cidade natal. Depois, jogou nas equipes Pécsi VSK e Dorogi Bányász, pela qual fez 274 partidas na primeira liga húngara.

Entre 1950 e 1956, vestiu a camisa da seleção húngara em 49 ocasiões, e em 1952 ganhou medalha de ouro nos Jogos Olímpicos em Helsinque.

Buzanszky encerrou sua carreira ativa em 1960, quando começou a trabalhar como treinador de vários times em Dorog e Esztergom. Em 1993, foi eleito membro da direção da Federação Húngara de Futebol.

O ex-jogador foi internado no hospital de Esztergom em 12 de dezembro, onde foi operado. O estádio de Dorog, onde jogou entre 1947 e 1960, tem o nome de Buzanszky desde 2010. (Pesquisa: Nilo Dias)



domingo, 29 de maio de 2016

Quando a supertição entra em campo

O Botafogo, do Rio de Janeiro foi um clube quase sempre cercado de crendices e superstições. Essa fama começou em 1948, quando o presidente era o folclórico Carlito Rocha, que adotou como mascote do clube um bonito cachorro de nome “Biriba”, de pelo preto e branco, as cores do Botafogo. E como o time foi campeão carioca, a partir daí o mascote quase virou “santo”.

Por incrível que possa parecer, nenhum jogador do time que tinha uma verdadeira constelação de astros foi responsabilizado pela conquista do título, e sim o cachorro “Biriba”, que foi achado na rua pelo jogador “Macaé”, e levado para General Severiano.

O presidente Carlito Rocha, era um supersticioso de carteirinha, desde os seus tempos de jogador do clube, quando era capaz de entrar em campo com 40 graus de febre. Durante um jogo em que a equipe de reservas do Botafogo venceu o Madureira por 10 X 2, em 1948, o cãozinho preto e branco invadiu o campo como que a comemorar o décimo gol.

Aquela cena bastou para que Carlito considerasse ter sido um “sinal”. Então, adotou o “Biriba” como mascote oficial, mesmo sabendo que o dono era o zagueiro “Macaé”.

A partir daí Carlito levou o vira-lata “Biriba” a todas as partidas do Botafogo no campeonato de 1948, o qual acabou por ganhar espetacularmente na decisão com o “Expresso da Vitória”, a poderosa equipe do Vasco da Gama.

O cachorro tinha lugar privilegiado no banco de reservas e participava na comemoração dos gols. Carlito considerava que "Biriba" dava sorte e ninguém conseguia barrar o animal, fosse onde fosse.

A partir daí ele foi adotado como mascote pelo presidente, depois que o Botafogo venceu naquela semana, com “Biriba” no banco de reservas. Na verdade, “Biriba” tornou-se muito mais do que um simples mascote, quando o adversário estava apertando o Botafogo, Carlito Rocha mandava “Macaé” soltar o cachorro dentro do campo.

“Biriba” corria em direção a bola e os jogadores do Botafogo tinham ordem de não se mexer. Na tentativa do juiz e adversários em pega-lo, o jogo parava e esfriava. Então o Botafogo reagia e vencia. E “Biriba” tornou-se uma espécie de jogador numero doze.

Esse fato registrou-se inúmeras vezes no Campeonato Carioca de 1948 até que os dirigentes dos outros times começassem a estrilar. Houve até ameaças de seqüestrar “Biriba”, como precaução. Para se prevenir das ameaças, Carlito Rocha ordenou a “Macaé” que dormisse com o cachorro numa das torres da sede.

Outras ameaças vieram depois, como de envenenar “Biriba”. Então “Macaé” tinha de provar a comida do cachorro antes que ele a comesse.

Outro fato pitoresco, que fez aumentar ainda mais a crença de que o cachorro era verdadeiramente um talismã, aconteceu quando ele, na véspera de um jogo importante, fez “xixi” na perna do jogador Braguinha e o Botafogo ganhou.

A partir daí, em todo jogo importante, o presidente Carlito obrigava Braguinha a emprestar sua perna para servir de poste ao mascote.  Ou então “Biriba” tinha de lamber as chuteiras do jogador Otávio.

Num jogo frente o Vasco da Gama, no primeiro turno do certame de 1948, o presidente cruzmaltino, Ciro Aranha, proibiu a entrada de “Biriba” no estádio de São Januário. Carlito Rocha então perguntou: “E o presidente do Botafogo, pode entrar?” Ciro Aranha respondeu evidentemente que sim.

Então Carlito Rocha pegou “Biriba” no colo e, impávido, entrou com ele nas sociais do Vasco. O Botafogo foi campeão derrotando o Vasco na ultima rodada e “Biriba” posou com os craques na foto oficial, aos pés de Pirilo e Otávio.

Como presente ganhou uma coleira de ouro com o escudo do Botafogo. E também deram-lhe champanhe no prato esmaltado e, por intermédio de “Macaé”, passou a ganhar até bicho.

O Botafogo só faltou registra-lo na federação e o cachorro vivia a contrafilé. Em 1948, com a presença de “Biriba”, o Botafogo registou 17 vitórias e 2 empates, sagrando-se campeão invicto após 13 anos.

“Biriba” viajava com o time para todo lado. Certa ocasião, o ônibus estava lotado, e faltava lugar para ele. Carlito Rocha não teve dúvida, afastou um jogador da delegação para que o animal pudesse ir em seu lugar.

Mas a sorte de “Biriba” só ocorreu em 1948. A partir de 1949 o Botafogo andava tão mal que o mascote viu sua estrela se apagar e começou a ser abandonado. Passou a viver pelos cantos do clube e às vezes desaparecia durante dias e ninguém dava por sua falta.

Como a sua carreira no futebol estava encerrada, por volta de 1953 “Macaé” o levou para seu apartamento em Copacabana. O sindico, um vascaíno amargo e vingativo, não queria saber de cachorros no prédio – muito menos aquele. Mas teve de ceder.

“Macaé” deu a “Biriba” todo o amor que podia e o levava para passear quase todos os dias. Com 12 anos de idade, praticamente cego e sofrendo do coração nos últimos anos, morreu no dia 10 de agosto de 1958, vitimado por um colapso.

“Biriba” morreu na residência do seu dono, a rua Raul Pompéia (Copacabana), do zagueiro “Macaé”, que foi o seu lançador como mascote do “team” naquele campeonato de 1948.

Até hoje, o símbolo mais conhecido do Botafogo é o cachorro, que foi sofrendo alterações ao longo dos anos e é desenhado das mais diversas formas. A torcida organizada “Fúria Jovem” divide-se atualmente em “canis” e as torcidas adversárias apelidaram os botafoguenses de “cachorrada”.

Osvaldo Baliza, um dos maiores goleiros da história botafoguense, era quem mais gostava de “Biriba”, depois de Carlito Rocha é claro. Os jogadores diziam que antes e depois dos treinos Osvaldo andava com o cachorro a tira colo.

Em 2008, a tradição foi revivida quando um cão, chamado “Perivaldo”, em homenagem ao ex-jogador do clube nos anos 1970, entrou em campo junto com o time em uma partida da Copa do Brasil, levado por seu dono, um carioca e fanático torcedor botafoguense residente na Paraíba.

Em suas costas negras, o beagle “Perivaldo” trazia uma marca de nascença em formato de estrela na cor branca, remetendo ao símbolo máximo do clube, a estrela solitária. Neste mesmo ano, o clube lançou dois mascotes oficiais, chamados “Biriba” e “Biruta”, para se identificarem com crianças.

No Tocantins uma família de torcedores do Botafogo batizou o cão recém-nascido de “Biriba Júnior”. O animal é todo preto com uma mancha branca em cima da cabeça e lembra o escudo do time carioca. E para o dono dele, José Ribamar Alves, o cachorro deu sorte para o time que foi campeão da Série B do ano passado e garantiu a volta do time a Série A do “Brasileirão”.

“Biriba Júnior” nasceu em Pium, região central do Tocantins e além do nome igual, o cachorro é vira-lata assim como o mascote original. E de acordo com Ribamar, desde que o “Biriba júnior” nasceu, no dia 29 de setembro do ano passado, o Botafogo foi só crescendo na competição, até se sagrar campeão.

A cadela deu 8 filhotes de várias cores. No terceiro que saiu, veio um todo pretinho, com um sinalzinho branco e foi escolhido para ficar na casa. Até aí o dono não tinha percebido nada. Quando mandou uma foto dele para os seus filhos, eles falaram do desenho da estrela solitária.

Todo o botafoguense tem superstição e com Ribamar não foi diferente. Assiste todos os jogos com o cachorro ao seu lado e acredita na sorte que ele dá ao time. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 9 de maio de 2016

O futebol paranaense está de luto

Morreu na manhã do último sábado 7, o ex-jogador de futebol José Roberto Marques, o “Zé Roberto”, que brilhou em vários clubes do futebol brasileiro. Ele estava internado há uma semana no hospital Amparo, da cidade de Serra Negra, no interior paulista onde residia, tendo sido vítima de uma apendicite supurada. Após uma piora em seu estado de saúde, ele passou por uma cirurgia e acabou não resistindo.

A supuração acontece quando o apêndice não é retirado a tempo e acaba se rompendo, ocasionando o derrame de fluidos inflamatórios com bactérias na cavidade do abdômen, podendo provocar peritonite e insuficiência de múltiplos órgãos.

Nos últimos 15 anos, estava muito debilitado pela vida desregrada. Vivia modestamente por conta de uma aposentadoria da Prefeitura de Serra Negra, onde residia.

Em 2013 foi internado em uma clínica da cidade, por conta de um grave Acidente Vascular Cerebral (AVC), que deixou seu braço esquerdo parcialmente paralisado. Recuperado, chegou a comparecer a um encontro de ex-atletas do Palmeiras ainda naquele ano.

Zé Roberto, que era considerado o melhor jogador de toda a história do futebol paranaense,  estava aposentado e iria completar 71 anos no próximo dia 25. Ele deixou três filhos, Rose, Renata e Roberto, dois netos e dois bisnetos.

Batizado José Roberto Marques, e chamado pelos torcedores dos clubes onde jogou, de "craque-encrenqueiro", nasceu no dia 31 de maio de 1945 em São Paulo. Começou a carreira de futebolista jogando nas divisões de base do Botafogo, de Ribeirão Preto.

Seu Jerônimo, pai de Zé Roberto, tinha seu passado marcado pelo futebol. Foi também jogador do Botafogo nos anos 40 e conhecia muito bem o mundo de ilusões que cercam os gramados.

Um dia descobriu uma perturbadora e preocupante coincidência. O filho, outro sonhador com apenas 13 anos de idade, faltava na escola para jogar no infantil do mesmo Botafogo Futebol Clube.

O garoto, que vivia com os avós em Ribeirão Preto, dizia que ia para o grupo escolar e no caminho deixava os livros de lado e tirava sua chuteirinha surrada da sacola. Foi assim que seu Jerônimo decidiu enviar o filho para São Paulo.


Sob os cuidados da mãe, voltaria sua cabeça para os estudos e com tarefas produtivas que o ajudariam na construção de um futuro melhor. O primeiro emprego, como datilógrafo, foi arrumado pela própria mãe, em um escritório da Rua São Caetano.

Depois dessa primeira ocupação, Zé Roberto também trabalhou como corretor no bolsa de valores. Até o dia em que descobriu o time amador do São Paulo no bairro de Santa Terezinha.

Novamente, faltava nos compromissos para jogar futebol e coincidentemente, o time do bairro de Santa Terezinha também apresentava cores iguais ao Botafogo, de Ribeirão Preto.

Ai não teve jeito. Do São Paulo de Santa Terezinha ele acabou no São Paulo do Morumbi. Seu Jerônimo nem falava mais nada. Como ponta de lança, centroavante ou mesmo ponta esquerda, Zé Roberto sabia fazer gols.

Alto, o corpo esguio e um tanto desengonçado, o jovem talento não demorou muito tempo para cair nas graças do saudoso Vicente Feola, que sempre arrumava um tempinho para assistir aos garotos das divisões de base.

E Zé Roberto foi crescendo dentro do Morumbi. O ano de 1964 apresentou os primeiros frutos na carreira do atacante. Convocado para o selecionado nacional juvenil que foi aos jogos olímpicos do Japão, Zé Roberto anotou os três gols da vitória de 3 X 0 sobre os argentinos, em partida disputada ainda no período de preparação da equipe.

Profissionalizou-se pelo São Paulo, onde foi considerado “o craque do futuro” pelo técnico Vicente Feola, e ganhou o apelido de “Gazela”, devido as pernas finas. Depois da olimpíada, Zé Roberto atuou por empréstimo pelo Guarani e pela Francana no ano de 1966.

A fama de “jogador problema” não demorou para chegar. Zé Roberto amava popularidade, não ligava para o dinheiro e gostava mesmo era da vida na boemia.

Mesmo querido dentro do clube, o presidente Laudo Natel não pensou duas vezes em liberar o atacante por empréstimo quando surgiu o interesse do Atlético Paranaense. Para o São Paulo, Zé Roberto era um irrecuperável.

Além de Zé Roberto, o presidente do Atlético, Jofre Cabral, investiu em veteranos consagrados contratando Bellini e Djalma Santos.
Com o uniforme do Furacão, o “Gazela”, apelido de Zé Roberto, logo se transformou em ídolo. Durante essa primeira temporada no cenário paranaense, anotou 24 tentos e foi o artilheiro da competição.

Com o término do empréstimo, o Atlético não dispunha da quantia exigida pelo São Paulo. E assim, Zé Roberto voltou ao Morumbi. O Atlético tentou de tudo para contratá-lo em definitivo. Não conseguiu.

Campeão paulista de 1970, não demorou muito tempo para que ele voltasse ao futebol paranaense. Dessa vez o destino foi o Coritiba Foot Ball Club.

Segundo o Grupo Helênicos, no primeiro treino do meia no Coxa, o estádio ficou lotado de torcedores ansiosos por sua estreia. No “Coxa”, Zé Roberto aprendeu muito seguindo orientações do técnico Tim.

Em 1972 atingiu o auge de sua carreira ao conquistar o concorrido prêmio da “Bola de Prata” da revista Placar. Nos anos seguintes, foi campeão do Torneio do Povo em 1973 e tetracampeão paranaense (1971, 72, 73 e 74).

Defendendo o Coritiba, jogou 146 partidas e marcou 72 gols, sendo o sétimo maior artilheiro da história do clube. Filho de jogador, que jogou no Corinthians de 1942 a 1955, deixou sua marca como o maior artilheiro dos anos 70, com 73 gols em partidas oficiais de competição. Sua última partida pelo Coritiba foi no dia 13 de julho de 1974, contra o Fortaleza, no estádio Belfort Duarte.

Em 1974, Zé Roberto foi negociado com o Corinthians e tudo parecia ser um casamento perfeito, Em seu primeiro clássico contra o Palmeiras no estádio do Pacaembu, o “Gazela” anotou os três gols da espetacular virada alvinegra por 3 X 1.

Zé também foi o autor do gol da vitória contra o São Paulo, que deu ao Corinthians o título de campeão do primeiro turno, o que valeu qualificação para disputar o encontro final do campeonato paulista.

Depois da sofrida derrota na finalíssima do certame para o Palmeiras, Zé Roberto voltou ao seu tradicional “porto seguro”, o Coritiba, onde permaneceu até o ano de 1977.

Jogou ainda no CRB, de Alagoas, Guarani, de Campinas e Francana, de Franca (SP). Voltou ao “Furacão” em 1977, quando tinha 32 anos, mas já não estava em boas condições físicas e decidiu se aposentar.  Daí em diante só voltou aos gramados em times amadores.

Além de ser um artilheiro sem igual dentro de campo, Zé Roberto carregava consigo todo o folclore de ser um jogador boêmio e adorado por praticamente todos aqueles foram seus companheiros de equipe. Ele definia muitos fatos como lenda, mas admitia que tinha sim um gosto pela vida noturna.

Antes de chegar ao “Timão”, a passagem dele pelo “Coxa” foi marcante, tendo empilhado títulos: Torneio do Povo, em 1973; tetracampeão paranaense em 1971, 1972, 1973 e 1974. (Pesquisa: Nilo Dias)


sábado, 7 de maio de 2016

Morreu o craque que quase fez o Estádio Olímpico desmoronar

Morreu na sexta-feira, 6, aos 83 anos de idade, Larry Pinto de Faria, um dos maiores jogadores da história do S.C. Internacional, de Porto Alegre. Desde dezembro do ano passado ele tratava de uma pneumonia. Em 29 de abril, seu estado piorou e teve de ser internado no Hospital Santa Clara, onde sofreu uma parada cardíaca e faleceu por volta das 6 horas da manhã.

O velório de Larry foi realizado na Capela Nossa Senhora das Vitórias, no estádio Beira-Rio. O funeral aconteceu às 16h de sábado no Crematório Metropolitano Saint Hilaire. O ex-craque deixa a mulher, Maria Luiza, os filhos Marcelo, Larry Júnior e Zilda Maria, além de seis netos e uma bisneta

Era natural de Nova Friburgo (RJ), onde nasceu a 3 de novembro de 1932.Começou a jogar nos mirins do Friburgo, time de sua terra natal, na posição de meia-esquerda. A infância e a puberdade ocorreram sem novidades. E em plena adolescência, aos 17 anos, mudou-para a antiga capital federal, para se matricular no Curso Preparatório para Oficiais da Reserva (CPOR).

No Rio continuou a manter estreitas relações com o futebol. Procurou o Fluminense e integrou-se na equipe de jovens, cujo técnico era Oto Glória. Em 1951 ganhou seu primeiro título no futebol, campeão carioca de juvenis. Ficou no Fluminense até 1954, quando se transferiu para o colorado gaúcho. Era um camisa 9 eminentemente técnico, que jogava com elegância e não trombava com os adversários.

A torcida colorada logo simpatizou com ele, pois já no segundo clássico Gre-Nal que disputou, o da inauguração do Estádio Olímpico, do maior rival, o Internacional aplicou uma goleada de 6 X 2 e Larry marcou quatro gols, em um fiasco que os gremistas antigos não esquecem.

A capacidade técnica de Larry ia muito além de fazer gols. Era um atleta clássico, refinado, coisa rara entre os centroavantes da época e de qualquer tempo. Tinha como companheiro de ataque um outro jogador excepcional, Bodinho, um pernambucano , que com ele formou uma dupla infernal, capaz de tabelinhas só comparáveis às dos santistas Pelé e Coutinho.

Um feito notável de Larry foi o de ter marcado 23 gols em apenas 18 partidas, quando só não se sagrou artilheiro do Campeonato Gaúcho de 1955, porque Bodinho fez 25 gols. A moral de Larry com a torcida vermelha era tanta, que mesmo errando dois pênaltis contra o Renner, que tiraram o Inter da disputa do título gaúcho de 1958, saiu de campo aplaudido.

Como jogador Larry foi campeão carioca em 1951 e fez parte do elenco que disputou e ganhou a Copa Rio, em 1952. Mas fora convocado para a Seleção Olímpica, o que prejudicou seu aproveitamento pelo time tricolor.

Porém, foi o artilheiro da Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos de Verão de 1952, quando marcou quatro gols em três jogos. Larry também foi o segundo jogador que marcou um gol do Brasil em olimpíadas, em Helsinque.

O primeiro gol foi marcado por Humberto Tozzi, na vitória de 5 X 1 sobre a Seleção da Holanda. O time brasileiro também contava com craques como Evaristo, Vavá, Zózimo, Carlos Alberto, Mauro, Valdir, Adézio, Milton Bororó, Humberto Tozzi e Jansen .  Foi, ainda, campeão Pan-Americano em 1956, quando a seleção gaúcha representou o Brasil. Pelo Internacional ganhou o Campeonato Gaúcho de 1954 e o de 1961.

O Brasil venceu duas partidas seguidas, 5 X 1 sobre a Holanda e 2 X 1 sobre Luxemburgo , até sofrer uma goleada para a Alemanha. O Brasil começou vencendo a Alemanha por 2 X 0 até os 30 minutos do segundo tempo. Os alemães empataram no último minuto.

Na prorrogação, 4 X 2 para a Alemanha e o Brasil, eliminado. A campanha acabou considerada boa e todos os jogadores tiveram três dias de folga em Paris, a capital francesa.

Depois que deixou os gramados trabalhou na Caixa Econômica Estadual. Entrou para a política, sendo eleito vereador em Porto Alegre por quatro vezes, secretário municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) (de 1983 a 1985) e ainda suplente de deputado estadual. 

Também atuou como comentarista esportivo na extinta TV Difusora, canal 10 de Porto Alegre, nos programas “Portovisão” e “Meio-Dia - A Hora Local”. Trabalhou como comentarista esportivo na Rádio Gaúcha.

Quando chegou ao Internacional, Larry morou por um ano no antigo Estádio dos Eucaliptos, a casa colorada antes da construção do Beira Rio, junto de Bodinho, Gerônimo e Salvador . Lembra de quando o estádio foi derrubado. Ele ia consultar com um médico, nas cercanias do Eucaliptos, quando ouviu o barulho das máquinas.

Teve medo. Desconfiava do que se tratava, pois sabia que a área havia sido vendida para a Melnick Even, por R$ 28 milhões, bem mais do que o dinheiro arrecadado por Ildo Meneghetti para comprar o terreno no Menino Deus, em 1931. Quatro anos depois da conclusão do negócio, o estádio começou a desaparecer para dar lugar as torres de um condomínio de luxo.

E em vez do alojamento que serviu de casa para Larry Pinto de Faria, Bodinho, Jerônimo e Salvador, áreas de lazer. Em vez das arquibancadas da Dona Augusta, tantas vezes lotada de homens de chapéu e gravata, estacionamentos.

Larry desviou um tanto do caminho do consultório, parou o carro na Rua Silveiro e teve a certeza: naquele instante, uma parte da sua vida, da história do futebol gaúcho e da capital gaúcha começava a sumir para sempre, diante dos próprios olhos. 

Então, Larry, na época com 79 anos, emblema dos tempos de glória dos Eucaliptos, suspirou, guardou silêncio solene e disse: “Agora serão só minhas lembranças”.

Em 260 jogos pelo Internacional, Larry marcou 176 gols. Sete deles em quatro Gre-Nais, incluídos os quatro no 6 X 2 do torneio de inauguração do Olímpico. Juntos, ele e Bodinho somam 410 gols. Quase todos marcados no estádio que sumiu do mapa.

Era um tempo bem diferente de hoje, em que o clube tem ônibus super luxuoso. Antes, não, os jogadores iam a pé jogar fora de casa, no Força e Luz, na Baixada, na Montanha.

Uma curiosidade daquela época: não havia cama do tamanho de Salvador na concentração dos Eucaliptos, na verdade uma peça única forrada de paredes nuas com banheiro comum. As canelas ficavam de fora, o que deve ser incômodo.

O volante Salvador, era um negro gigantesco que vestiu a camisa 5 do Inter nos anos 50 e fez história no Peñarol e no River Plate. Também jogou no Cruzeiro, de São Gabriel (RS). Nas noites de calor, Salvador apanhava o lençol e o travesseiro e dormia no gramado, bem no círculo central. Era volante até dormindo.

Era comum moleques gremistas atazanarem a vida dos jogadores colorados, subidos em uma árvores atrás da goleira. O goleiro Milton Vergara trazia funda de casa para acertar esses moleques. Não havia agentes, assessores, empresários. Os torcedores convidavam os jogadores para um churrasco em casa e eles iam, com mulher e filhos.

Depois dos treinos, subiam todos para as cabines de imprensa, no ponto mais alto do estádio, e viam juntos os navios partindo do Guaíba. Larry dizia que ia ficar com saudade da sua primeira casa em Porto Alegre, mas se conformava lembrando que a história não se apaga.

Um dos filhos de Larry, o executivo Larry Pinto de Faria Junior, foi um dos sobreviventes do atentado de 11 de setembro de 2011 no World Trade Center, em Nova York, onde trabalhava. E diz não guardar traumas, mas afirma que o episódio o transformou em uma pessoa diferente.

"Ver a morte assim de perto muda a maneira de encarar a vida", disse Júnior à BBC Brasil, acrescentando que mudou sua filosofia de vida e suas. Passo a ser uma pessoa completamente tranquila e consciente das responsabilidades, procurando ser uma pessoa menos egoísta. (Pesquisa: Nilo Dias)

Larry Pinto de Farias. (Foto: Revista Colorada)

terça-feira, 26 de abril de 2016

"Teleco", o rei das viradas

Uriel Fernandes, o “Teleco”, é dono de um recorde até hoje mantido, o de jogador com a maior média de gols por partida. Ele conseguiu a incrível marca de 1.02 gols por jogo, marca que nem mesmo Pelé foi capaz de bater.

O “Rei” fez 1281 gols em 1375 jogos – média de 0,93 gols por partida. Ele foi um dos primeiros ídolos da história corinthiana, tendo jogado nos anos 30.

E de lambuja, “Teleco” marcou 251 gols em 246 jogos pelo Corinthians Paulista, o que lhe garante a terceira colocação entre os principais artilheiros do clube até hoje, atrás somente de Baltazar, com 269 gols, e Cláudio, que é o maior artilheiro da história do clube com 305 tentos.

“Teleco” foi um dos primeiros ídolos da história corinthiana, tendo jogado nos anos 30. Nos 246 jogos que “Teleco” jogou pelo Corinthians, ganhou 155 e perdeu apenas 38.

“Teleco”, apelido que recebeu de sua avó, quando ainda era menino, nasceu em Curitiba no dia 12 de novembro de 1913. Começou a carreira em 1933 na equipe paranaense do Britânia, um dos clubes que deram origem ao Paraná Clube e foi para o Corinthians em 1934, após chamar a atenção em uma partida pela Seleção Paranaense.

Foi o primeiro jogador negro a vestir a camisa corinthiana. Teve ainda breves passagens pelo Santos, também em 1944 e depois pelo Juventus.

Com 21 anos já era titular do Corinthians, onde jogou por 10 anos, na posição de centroavante. Fez a sua estreia pelo Corinthians em 16 de dezembro de 1934, quando o seu time foi goleado pelo Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, por 5 X 0.

O seu primeiro gol pelo clube veio logo depois, na última partida de 1934, marcando duas vezes na vitória por 4 X 1 sobre a Portuguesa Santista, em jogo amistoso disputado no Estádio Ulrico Mursa, em Santos.

Vestindo a camisa alvinegra conquistou quatro títulos de campeão paulista,1937, 1938, 1939 1941, e foi cinco vezes o artilheiro do Campeonato Paulista, nos certames de 1935 (9 gols), 1936 (28 gols), 1937 (15 gols), 1939 (32 gols) e 1941 (26 gols).

“Teleco” é também o corintiano que mais vezes marcou num “Paulistão” só: 32 vezes, no torneio de 1939. O jogador quase virou lenda, tal a sua dedicação em campo.

A facilidade que “Teleco” tinha de fazer gols era um desafio à lógica. De cabeça, com os pés, e principalmente, de virada - sua jogada mortal -, eles sempre saíram em profusão.

Era chamado pelos torcedores de "O Rei das Viradas", porque antes de chutar a gol costumava se virar de costas para a meta adversária, para rapidamente torcer o corpo no ar e arremessar a bola para dentro do gol. Era também conhecido por "O Homem Gol".

Contam que em 1937, chegou a jogar com um dos braços imobilizado, com talas escondidas sob o uniforme de manga longa, num importante confronto frente o Palestra Itália, que anos depois virou Palmeiras. Ele estava fora do jogo, mas como o seu reserva imediato, “Zuza”, desmaiou ao saber que iria jogar, foi obrigado a entrar em campo.

Mesmo sem contar com toda a forma física, ainda assim “Teleco” marcou de cabeça o gol que deu a vitória ao Corinthians, e em consequência a conquista do título paulista.

Depois que deixou os gramados permaneceu no clube como funcionário responsável por cuidar da “Sala de Trofeús” duante 25 anos, até o dia em que morreu, 22 de julho de 2000, aos 86 anos. A causa da morte não foi revelada. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 12 de abril de 2016

Um grande goleiro

Oscar Modesto Rodrigues Urruty, um dos melhores goleiros que conheci, é uruguaio de Durazno, onde nasceu em 1934. Filho de Modesto Rodrigues e Segunda Josefa Urruty de Rodrigues, começou a carreira de futebolista no pequeno Wanders, de Montevidéu. Ele veio para o Brasil em 1954, com 18 anos de idade, para jogar no Guarany, de Bagé.

Ainda em 1954 quase foi parar no G.E. Gabrielense, de São Gabriel, que recém se tornara profissional.  Não houve acerto. Em 1955 passou por testes no Internacional, de Porto Alegre, mas não ficou por lá.

Em 1956 alçou vôos mais altos: foi para São Paulo, defender a Sociedade Esportiva Palmeiras, mas não teve muita sorte. Lesionou-se, parou por algum tempo e resolveu retornar para o Sul, onde defendeu o G.E. Brasil, de Pelotas.

Em 1957, foi para o rival Pelotas, indicado pelo técnico Paulo de Souza Lobo, o “Galego”. Deu sorte. Foi tricampeão da cidade, em 1958, ano em que o clube comemorava o seu cinquentenário. Em 1960 foi “Campeão dos Campeões”, do interior do Estado.

Em 1962 mudou de endereço, indo jogar no Farroupilha, também de Pelotas. No time do bairro Fragata novas glórias o esperavam: fez parte do time que marcou época no futebol pelotense na década de 1960. Jogou ao lado de Wilson Carvalho, Lelo, Cascudo, Noredin, Wellington e Dias.

Só saiu do Farroupilha em 1965, para jogar no São Paulo, de Rio Grande. Ainda teve uma passagem pelo Flamengo, de Caxias do Sul, hoje S.E.R. Caxias.

Depois de deixar os gramados Oscar se tornou treinador. Seu grande momento foi quando conquistou com o clube “xavante”, a “Taça Governador do estado”, 1972. Uma curiosidade, ele trabalhou de graça, sem cobrar nada, depois que uma comissão formada por dirigentes e torcedores foram em caravana a sua casa, no bairro Cruzeiro, para convencê-lo a assumir o comando técnico.

Oscar era bastante polêmico. Certa vez fez duras criticas ao presidente da Federação Gaúcha de Futebol, o autoritário Rubens Hoffmeister (já falecido), que não gostou e  exigiu uma "retratação". E o que fez Oscar? Mandou-lhe uma foto 3 X 4 com dedicatória em bom castelhano: “Es la retratación.”

A mania de sempre dizer o que pensa é de sua naturalidade. O acompanha desde que jogava futebol. Gosta de dizer que jogou no “time dos rebeldes”. Nunca foi puxa saco de dirigentes, costumava lutar por seus direitos.

Não admitia que atrasassem seus salários, o que lhe garantiu muitos problemas. Dizia que arriscava a sua cabeça na chuteira dos adversários. Foi um dos fundadores do extinto Sindicato dos Jogadores Profissionais de Pelotas, com apoio jurídico do advogado Ápio Cláudio de Lima Antunes.

Oscar, apesar de ter jogado nos três clubes profissionais de Pelotas, garante que não torce para nenhum deles, sim pelos amigos que deixou em sua trajetória profissional. A maior parte da família de Oscar Urruty mora no Uruguai e torce pelo Peñarol.

Depois de abandonar a carreira de treinador, Oscar se dedicou a outra arte – marcenaria. Ele é até hoje restaurador de móveis antigos. Atualmente também se dedica a cutelaria - a arte de fabricar facas. Utiliza o mesmo metal usado em tesouras de esquila. Os cabos são feitos de rabo de tatu e pata de avestruz. Tudo trabalhado a mão.

Depois que sai de Pelotas, 1m 1975, e lá se vão 41 anos, nunca mais tive o prazer de ver Oscar Urruty. O último contato que tive com ele foi num churrasco em sua casa, do qual participaram vários jogadores de futebol que trabalharam com ele.

Eu ajudei a servir a cerveja, atendendo um pedido de Oscar. Na época eu trabalhava na imprensa esportiva de Pelotas, mais precisamente no jornal “Diário Popular”.

Os jornalistas pelotenses Ayrton Centeno, Luiz Lanzetta e Lourenço Cazarré - os três foram meus colegas no jornal "Diário Popular", de Pelotas, pretendem lançar, até o final di ano, provavelmente na "Feira do Livro de Pelotas", um livro que visa resgatar a história e a importância do "Triz", jornal alternativo que circulou em Pelotas no final de 1976. E curiosamente, com uma única edição.

O jornal dedicou, na oportunidade, três, das suas 16 páginas, para uma antológica entrevista com o ex-goleiro Oscar Urruty, já dedicado aos trabalhos de artesanania em madeira. Na ocasião, Oscar, que não tinha papas na língua disse que abandonou o futebol por estar desalentado com a patifaria que reinava no época, patifaria.


No entender do ex-goleiro o jogador pode fazer suas farrinhas. Não influi nada no procedimento. Não escondeu que sempre bebeu. Disse que quando jogou no Pelotas, havia uns 8 ou 10 que eram da boêmia. e assim mesmo foi tricampeão.  pelo Pelotas. Confessou ter jogado 11 vezes com o joelho infiltrado, debaixo de agulha, durante todo o primeiro turno de 1961.

Seu filho, também de nome Oscar, nascido em 1961, curiosamente no mesmo dia em que comemora aniversário, seguiu a carreira do pai. Foi excelente goleiro, tendo atuado pelo Brasil, de sua cidade, passou depois por São Paulo, de Rio Grande (RS), Internacional, de Limeira (SP), Francana, de Franca (SP), Paulista, de Jundiai (SP), Paysandu, de Belém (PA) e Figueirense, de Florianópolis (SC).

Como preparador de goleiros trabalhou no Brasil, de Pelotas, Al Ettifaq, da Arábia Saudita, Grêmio Portoalegrense, Figueirense, de Florianópolis (SC), Jubilo Iwata, do Japão, Cruzeiro, de Belo Horizonte (MG),  Atlético Mineiro, Santos  e no Palmeiras, onde se encontra desde setembro de 2014.

“É sempre uma satisfação muito grande retornar. O Uruguai é um país extremamente hospitaleiro, do qual absorvi algumas coisas pelo contato, por ter ido várias vezes para lá desde pequeno. Tomo mate, o nosso chimarrão, como muita carne na parrilla (churrasco)…

A gastronomia é fantástica. E, a passeio, gosto de ir também a Punta del Este, Piriápolis... O litoral uruguaio tem praias lindas, é muito bacana”, elogia Oscar Rodriguez. (Pesquisa: Nilo Dias)


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Um torcedor apaixonado

João Faria da Silva, o “Russão”, foi um dos mais apaixonados torcedores do Botafogo, do Rio de Janeiro. Era estofador de móveis por profissão, tendo sido o fundador da extinta “Torcida Folgada”, que depois se chamou “Torcida Russão”.

Antes, em 1965, quando tinha 18 anos de idade fundou na geral do Maracanã, a torcida “Fogo-Duro”, formada por torcedores pobres e fanáticos que, antes das 7 horas, pulavam o muro do estádio e permaneciam escondidos até à abertura do portão.

Em 1968, por sugestão de Tolito, dono da mais famosa banca de jornais alvinegra do Rio de Janeiro, sugeriu a “Russão” que criasse uma nova torcida, a organizada “Fogo-Lito”, para atuar na arquibancada, em vez da geral.

Foi quando “Russão” conheceu “Tarzan”, outro fanático torcedor. Os dois conviveram bem até 1974, quando “Tarzan” resolveu voltar para Belo Horizonte, deixando  seu amigo Celso, diretor da bateria, como líder da torcida.

Mas este não conseguiu segurar a barra, que era realmente pesada, e passou a liderança para “Russão”. Em 1978, porém, “Tarzan” voltou a morar no Rio de Janeiro e retomar a liderança da torcida organizada.
“Russão” conseguiu se manter no cargo, mas a torcida ficou dividida. Por causa disso ele acabou por passar a liderança ao seu amigo “Barriga”.

Tempos depois, em entrevista concedida a revista “Placar”, “Russão” disse que não guardava a menor mágoa de Tarzan, que aprendera com ele a ser mais Botafogo, a ser mais valente, fiel e a defender as cores do clube.

Em setembro de 1981, fundou a “Torcida Folgada”, que depois se chamou “Folgada do Russão”, que chegou a ter 800 sócios de carteirinha, que pagavam mensalidades. Foi o auge da liderança do torcedor. A exemplo de outras torcidas do clube a “Folgada” acabou por ser extinta.

Em setembro de 2010, “Russão” precisou ser hospitalizado em uma clínica no bairro de Laranjeiras, com infecção generalizada em uma das pernas, que teve de ser amputada. Ele sofria de diabetes. Na época, o torcedor chegou a pedir ajuda em dinheiro, já que tinha problemas financeiros.

Em 2011, quando das eleições presidenciais no Botafogo, “Russão” esteve no clube sentado em uma cadeira de rodas. Ao entrar em General Severiano, o torcedor foi recebido por uma salva de palmas de todos os presentes. “Russão” se emocionou e chorou muito.

Ele aproveitou para lembrar dos tempos em que ajudou a erguer a atual sede do “Glorioso”, antes de sua última reforma. Disse que capinou tudo por lá.

Contou que 15 pessoas moravam no local e consumiam drogas. Botou todo mundo para fora, salientando que ali é a casa do alvinegro, enquanto gritava “Eu te amo, Botafogo”.

Era o presidente de honra da torcida “Loucos pelo Botafogo”, que vinha levantando fundos para adquirir uma perna mecânica, para que “Russão” pudesse frequentar o “Engenhão” e o seu time em ação.

Em 28 de fevereiro de 2012, “Russão” faleceu aos 63 anos de idade, devido a vários problemas que fragilizaram sua saúde.

O Botafogo prestou solidariedade e divulgou nota oficial sobre a morte.

O Botafogo comunica e lamenta o falecimento de um seus torcedores-símbolo: João da Silva Faria, o “Russão”. O clube decreta luta oficial de três dias e hasteia sua bandeira a meio mastro, além de colocar à disposição suas dependências para o velório. Haverá um minuto de silêncio antes da partida entre Botafogo e Americano, a ser jogada em Campos.

Exemplo de amor e dedicação ao Botafogo, “Russão” sempre defendeu os interesses do clube e o representou nas arquibancadas. A “Folgada do Russão”, durante anos, foi uma das principais torcidas organizadas do Glorioso - destacou o clube no comunicado.

O Botafogo presta solidariedade à família de um torcedor apaixonado, que dedicou grande parte de sua vida ao clube, e será uma eterna referência nas arquibancadas.(Pesquisa: Nilo Dias) 


segunda-feira, 28 de março de 2016

A morte de uma lenda do futebol

Morreu no último dia 24, em Barcelona (Espanha) onde morava, Hendrik Johannes "Johan" Cruyff, o melhor futebolista neerlandês de todos os tempos. Ele nasceu em Amsterdã, no dia 25 de abril de 1947. Seu sobrenome é originalmente grafado, na língua neerlandesa, como "Cruijff", sendo mais popularmente escrito como "Cruyff" no exterior.

Ele foi praticamente criado dentro do Ajax. Seu pai, Manus, era dono de uma mercearia que fornecia frutas ao clube. Sua mãe trabalhou como faxineira do clube após tornar-se viúva.

Com apenas quatro anos de idade, o garoto “Cruyff” frequentava os vestiários. Por ideia da mãe, o filho entrou nas categorias de base do Ajax. Ela acreditava que assim ele poderia superar a deficiência que tinha nos pés, cuja má formação o obrigava a utilizar aparelhos ortopédicos.

O garoto estreou no time principal do Ajax em 1964. Um ano depois, em 1965, chegou Michels, que aceitou o jogo ditado por “Cruyff” e os títulos viriam em série: o Ajax foi campeão neerlandês na primeira temporada com ambos trabalhando juntos, a de 1965/66.

Outros três títulos no campeonato nacional vieram em espaço de cinco anos. Cinco Copas dos Países Baixos também foram levantadas no período.

Com 19 anos de idade estreou pela Seleção dos Países Baixos em 1966, em jogo contra a ainda respeitada Hungria, em partida válida pelas eliminatórias para a Eurocopa 1968, quando fez um gol.

Cruijff transformou a Seleção Neerlandesa, então modesta, em uma potência mundial. Mas não foi de imediato. O país não se classificou para as fases finais da própria Euro 1968 e também da de 1972, e Copa do Mundo de 1970.

A revista brasileira “Placar”, em uma edição especial, elegeu os 100 melhores jogadores de futebol do Século XX, sendo que ele ocupou a terceira posição, atrás somente de Pelé e Maradona.

"Cruyff" não tinha semelhança com o futebol de Pelé e Maradona, se assemelhava mais a Alfredo Di Stéfano. Era um jogador de muita velocidade, intuição, inteligência e objetividade em campo.

Era considerado um jogador revolucionário, tático, ofensivo, coletivo, vistoso e eficiente. Suas extraordinárias atuações no Ajax inspiraram muitos jogadores e treinadores a partir de suas extraordinárias atuações no clube e, também na Seleção Holandesa na Copa do Mundo de 1974.

Foi ele e o seu treinador no Ajax, Barcelona e na Seleção Neerlandesa, Rinus Michels que criaram o chamado futebol total, no qual os jogadores de linha se sentem à vontade ao desempenhar todas as posições. Foi essa a última revolução tática na história do futebol, mesmo passados mais de 40 anos da Copa do Mundo de 1974.

O rodízio que funcionara bem no Ajax, chamado de "futebol total", transformou-se para os olhos do mundo no "Carrossel Holandês". Era um grupo de grande talento que trouxe inovações para a época como a valorização da troca de passes e posse de bola, a linha defensiva de impedimento e marcação firme, tentando roubar a bola ainda na intermediária adversária.

“Cruyff”, era um jogador com fome de bola. Corria o campo inteiro para marcar o adversário e tirar-lhe a bola. Era magro e dono de um fôlego privilegiado, sabedor como ninguém de como controlar a velocidade, sabendo de antemão o que iria fazer, depois de receber a bola.

Foi escolhido pelo IFFHS o maior jogador europeu do século XX, e o segundo maior do mundo, atrás somente de Pelé. Para o colunista Maurício Barros, da ESPN Brasil, Cruyff é o maior da história do futebol na soma jogador-treinador, mesmo sem ter ganho nenhuma Copa do Mundo.

Ele pode ser taxado de um revolucionário do futebol. Sabia impor suas noções de táticas, e a negociar seus termos salariais. Foi o casamento perfeito, quando se encontrou em 1965 com Rinus Michel, até então um professor de ginástica para crianças surdas.

Michel chegou ao Ajax para ser o técnico. Ambicioso, planejava transformar o clube, até então uma equipe semiprofissional que fazia jogos pelo leste de Amsterdã, em um time internacional de ponta. Ele e “Cruijff” conseguiram isso em seis anos.

Frank Rijkaard, um dos seus discípulos, afirmava que Diego Maradona poderia ganhar um jogo sozinho, mas não tinha o talento de “Cruyff” para mudar a tática do time para vencer a partida.  Dava a impressão de que tinha quatro pernas, sendo hábil no chute com o lado de fora do pé.

Era capaz de dar giros em pequenos espaços, tinha chutes longos e certeiros, driblava fácil e ainda era bom cabeceador e artilheiro. Tinha uma personalidade forte e não aceitava ordens.

Na Copa dos Campeões da UEFA, o Ajax chegou à final em 1969. No caminho, eliminou o Benfica de Eusébio, mas perdeu a decisão para o Milan. Em 1971, 1972 e 1973 foi tricampeão da mais importante competição europeia.

Pelos títulos de 1971 e 1973 foi premiado com a “Bola de Ouro”, da France Football, sendo o primeiro neerlandês a recebê-la.
O Ajax também venceu a Copa Intercontinental de 1972, derrotando o Independiente, da Argentina por 3 X 0, depois de empatar em 1 X 1 fora de casa,  com gol de “Cruyff”.  O clube não ganhou outras Intercontinentais pois não quis participar.

Em 1971, foi o Panathinaikos quem enfrentou os uruguaios do Nacional. Em 1973, quando a disputa seria outra vez contra o Independiente, o Ajax voltou a ceder a vaga para o vice-campeão
europeu, desta vez a Juventus, de Turim (Itália).

“Cruijff “ liderava sozinho um time de bairro, dono de um estádio pequeno até para as segundas divisões da Itália ou Espanha, cujos jogadores não ganhavam mais do que um bom lojista. Ainda assim conseguiu reinventar o futebol dentro do clube.

Em 1973, decidiu sair do clube, vítima do próprio poder que ajudara a deixar nas mãos dos jogadores: seus colegas decidiram que o novo capitão do clube seria Piet Keizer. “Cruijff” foi então para o Barcelona, onde se encontrava Michels, o homem que o compreendera.

Chegou ao clube espanhol na negociação mais cara do futebol mundial até então. O Barcelona pagou cinco milhões de florins, preço tão alto que o governo espanhol não aprovou a transferência.

Só conseguiu ser levado porque foi registrado oficialmente como uma peça de máquina de agricultura. O jogador justificou o alto investimento. No jogo de estreia fez dois gols e reconduziu o Barcelona a um título espanhol que não ganhava havia 14 anos, quando ainda jogavam pelo clube Luis Suárez, László Kubala, Zoltán Czibor, Sándor Kocsis e Evaristo.

Foi o melhor jogador do campeonato, ganhando sua terceira “Bola de Ouro”. O ano não podia ter sido melhor, já que a Seleção Neerlandesa conseguiu se classificar para a Copa do Mundo de 1974, coisa que não acontecia desde a segunda participação, na edição de 1938.

Em 1975, 1976 e 1978, o campeão foi o Real Madrid. Na única temporada em que os “merengues” não foram bem, ficando em 9º lugar no campeonato, o Barcelona perdeu o título, que ficou com o Atlético, de Madrid, por um ponto.

Além do título nacional de 1974, Cruijff só conseguiu ganhar com o Barcelona a Copa do Rei de 1978. Ficou oito anos no clube. Quase morreu por lá, quando sofreu um infarto, em 1991, muito provavelmente consequência dos cigarros que inveteradamente fumava. Teve, por isso, de implantar pontes de safena.

Logo depois se aposentou, não participando da Copa do Mundo de 1978. Ele se dizia cansado da violência que imperava nos gramados espanhóis, onde chegou a ter uma perna quebrada.

Cruijff se despediu dos gramados em outubro de 1978, vestindo a camisa do Ajax, em um jogo amistoso contra o Bayern Munique.  Os alemães ganharam por 8 X 0. Mas tudo não passou de um adeus fictício. O investimento que o jogador fez na criação de porcos, o fez perder milhões, de dólares, o que o obrigou a voltar a jogar.

Foi para os Estados Unidos, onde poderia viver tranquilo, no anonimato. Passou dois anos por lá, onde jogou primeiro no Los Angeles Aztecs, tendo novamente como treinador Rinus Michels. Depois foi para o Washington Diplomats. Também fez uma partida de exibição pelo New York Cosmos.

Se o futebol americano era calmo, Cruijff não foi. Sempre de mau humor, deixou quase loucos colegas e outros técnicos. Certa vez, quando o seu técnico no Diplomats estava fazendo a preleção, ele levantou-se, limpou o quadro-negro e disse: "É claro que faremos tudo diferente disso".

Um dos jogadores do Diplomats teria dito que o clube, ao contratar o neerlandês, deveria ter pago também por um estoque de algodão para que todos ali tivessem algo mais para tapar os ouvidos.

Sem clima para continuar nos Estados Unidos, voltou para a Espanha, dessa feita para defender o pequeno Levante, de Valência, que estava na segunda divisão. Mas não obteve sucesso, pois o clube estava afundado em dívidas.

Depois disso jogou uma partida pelo Milan, em um torneio amistoso organizado por Silvio Berlusconi, mas saiu vaiado após uma atuação apagada. Retornou aos Países Baixos e ao Ajax. Enfrentou resistências, sendo chamado de "desbocado" e "dinheirista". Dizem que ele cobrava para dar autógrafos.

Em seu retorno ao Ajax foi campeão neerlandês da Copa nacional. Também causou furor ao inventar a cobrança em dois lances de um pênalti. Em outra partida, ao cobrar a penalidade, apenas tocou a bola para a frente, deslocando o goleiro enquanto um companheiro corria atrás da bola para repassar-lhe para que concluísse sem obstáculos para as redes.

Outro lance foi de calcanhar: Cruijff certa vez avançou em direção ao gol e o goleiro adiantava-se para tentar bloquear-lhe. Ele então virou-se e passou a correr em direção ao próprio campo, sendo seguido pelo goleiro até perto do meio-de-campo, quando este então percebera que em algum momento Cruijff chutara para as redes sem interromper seu passo.

Após duas temporadas o Ajax o mandou embora, pois já o consideravam velho demais. Aos 36 anos, assinou contrato com o rival Feyenoord, onde jogou sua última temporada profissional. Foi campeão da Eredivisie, quebrando um jejum de dez anos do novo clube no campeonato nacional. Também foi campeão da Copa dos Países Baixos.

Desde 1996, 12 anos após a aposentadoria de Cruijff, um troféu que leva seu nome foi criado pela Real Associação de Futebol dos Países Baixos, sendo entregue ao vencedor da partida entre os campeões do campeonato e da Copa nacionais.

No livro de sua autoria “Futebol Total”, lançado em 1974, Cruijff antecipou que não iria para a Copa do Mundo de 1978. De fato, acabou não indo à Argentina, o que foi por muito tempo interpretado como um protesto à ditadura militar naquele país.

Mas 30 anos depois, foi revelado o real motivo: ele afirmou que, já em 1978, sofrera uma tentativa de sequestro e, temendo novos ataques, contratou seguranças particulares por um ano e meio. E também por causa da confusão conjugal que tivera pouco antes da final de 1974.

Dois anos depois de deixar o Feyenoord, voltou ao Ajax, porém sem êxito. Em 1988, os Países Baixos finalmente conquistaram um torneio, a Eurocopa, sob o comando de Rinus Michels.

Sua saída da direção técnica do Barcelona não foi nada amistosa: quando soube que seria substituído, jogou uma cadeira na porta do escritório do cúpula do clube e gritou bem alto: “Deus o punirá por esta ação, da mesma forma que o puniu antes!", em referência a um neto recém-falecido do presidente.

Em 2009 foi técnico da Catalunha, cuja seleção não é reconhecida pela FIFA e costuma fazer partidas apenas anuais. Deixou o comando da equipe em janeiro de 2013. Sua despedida foi em um amistoso contra a Nigéria, no Estádio Cornellà-El Prat, em Barcelona.

Também chegou a jogar uma partida pela Seleção Catalã. O jogo realizou-se em 9 de junho de 1976. Cruijff atuou ao lado de pelo menos dois outros não-catalães, sequer espanhóis: o compatriota e colega de Barcelona Johan Neeskens (autor do gol da Catalunha) e o chileno Carlos Caszely, do Español.

O Ajax não teve vida fácil com Cruijff. No final de março de 2011, toda a diretoria, incluindo o presidente do clube, entregou seus cargos por discussões com ele. Seu radicalismo era tanto, que chegou a declarar que iria torcer contra o próprio país na final da Copa do Mundo de 2010. O adversário foi a Espanha, repleta de jogadores do Barcelona.

Se o Ajax não deu andamento aos projetos de Cruijff, om o Barcelona foi diferente. Graças a ele foram montadas 12 equipes, cada uma com até 24 jogadores, que são orientados por técnicos licenciados pela UEFA.

As categorias inferiores do Barcelona são consideradas as maiores produtoras de jogadores de alto nível, chegando a levar até 15 anos para formar um atleta. Josep Guardiola foi um dos garotos levados diretamente por Cruijff ao time principal.

Em 2010, foi nomeado presidente de honra do Ajax. Meses depois, porém, a honraria lhe foi retirada pelo presidente do clube, Sandro Rosell. Rosell, sob a justificativa que a decisão do mandatário anterior, Joan Laporta, fora antidemocrática, sem consulta aos sócios.
Cruijff foi condecorado com a classe de cavaleiro da Ordem da Casa de Orange.

Era também membro honorário da Real Associação de Futebol dos Países Baixos e do Ajax. Foi eleito em 2004 o sexto maior neerlandês da história, estando à frente de nomes como Anne Frank, Rembrandt e Vincent van Gogh.

Além do futebol, também gostava de jogar golfe. Na década de 1970, ele chegou a gravar uma música de relativo sucesso nas paradas neerlandesas, "Oei Oei Oei (Dat Was Me Weer een Loei)" - em português, "Oi Oi Oi (Que belo chute)", que foi relançada após sua transferência para a Espanha, onde foi ainda mais popular.

Era casado com Danny Coster desde antes da fama internacional, em 1968, e a considerava a pessoa mais importante da sua vida. O casal escandalizava a conservadora sociedade espanhola nos tempos franquistas, em que agiam como jovens europeus modernos, fumando e usando cabelos compridos (no caso de Cruijff) e minissaia (no caso da mulher). Tiveram três filhos, Chantal, Susila e Jordi.

Sua fama de rebelde também se fez presente na Espanha, onde desafiava árbitros e policiais. Mas se identificou com a cultura catalã, tanto que batizou o filho mas novo com a versão local do nome de São Jorge, o santo padroeiro da região, além de viver na cidade até morrer. Falava o espanhol com sotaque catalão. E se considerava “um cara do mundo”.

Títulos. Campeonato Neerlandês (1965-66, 1966-67, 1967-68, 1969-70, 1971-72, 1972-73, 1981-82 e 1982-83); Copa dos Países Baixos (1966-67, 1969-70, 1970-71, 1971-72 e 1982-83); Copa dos Campeões da Europa (1970-71, 1971-72 e 1972-73); Copa Intercontinental (1972); Supercopa Europeia (1972 e 1973);

Barcelona: Campeonato Espanhol (1973-74); Copa do Rei (1977-78); Feyenoord: Campeonato Neerlandês (1984); Copa dos Países Baixos (1984).

Como técnico. Ajax: Copa dos Países Baixos (1985-86 e 1986-87); Recopa Europeia (1986-87); Barcelona: Campeonato Espanhol (1990-91, 1991-92, 1992-93 e 1993-94); Supercopa da Espanha (1991, 1992 e 1994); Copa do Rei (1989-90); Copa dos Campeões da Europa (1991-92); Supercopa Europeia (1992); Recopa Europeia (1988-89).

Títulos individuais. FIFA 100 (2004); All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA (1974); Ballon d'Or (1971,1973,1974); Melhor jogador Estrangeiro de La Liga (1977,1978, 1979, 1980); Considerado o melhor de todos os tempos; Artilheiro do ano (1976,1978,1979,1980). (Pesquisa: Nilo Dias)