Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

domingo, 1 de março de 2009

O emergente Resende Futebol Clube

O Resende Futebol Clube, o “Gigante do Vale”, que hoje a tarde decide a Taça Guanabara ou o primeiro turno do Campeonato Carioca deste ano, não é um clube qualquer, igual a tantos outros que participam do outrora mais charmoso regional do Brasil. Pelo contrário, é um clube de muita tradição e que no próximo dia 6 de junho estará fazendo parte da seleta lista de agremiações centenárias do futebol brasileiro. E neste ano especial, o Resende vive o melhor momento de toda a sua história.

Com quase cem anos de existência, a agremiação, que só saiu do amadorismo há pouco mais de três anos, apenas o ano passado deixou o anonimato e se juntou pela primeira vez à elite do campeonato estadual do Rio de Janeiro. A cidade de Resende, que fica a 160 quilômetros da capital, antes só chamava a atenção pela grande quantidade de empresas automotivas lá estabelecidas, passou a ter também no seu time de futebol, mais um bom motivo para se orgulhar.

O segredo dessa meteórica ascensão do Resende foi uma bem sucedida parceria com a empresa “Gol de Placa Marketing Esportivo”, que profissionalizou o futebol no clube. Os resultados positivos apareceram de imediato, e apenas dois anos depois de iniciado o projeto (agosto/2006), o time carimbou o acesso para a primeira divisão do campeonato carioca.

Sob o comando do técnico Carlos Roy, o mesmo da decisão de hoje, o Resende terminou a “segundona” estadual com 49 pontos, 14 vitórias, sete empates e sete derrotas, 36 gols a favor, 30 contra e saldo positivo de 6 gols. Jogando em casa, no Estádio do Trabalhador, o Resende não conheceu derrota, venceu quatro partidas (Madureira 1 X 0, Americano 1 X 0, Boa Vista 5 X 4 e Cardoso Moreira 3 X 0) e empatou apenas uma (Macaé 2 X 2).

Como a história do Resende no futebol profissional é bem recente, os jogadores que fazem parte da sua galeria de ídolos também são de agora, muitos daqueles que conseguiram a proeza de colocar o time entre os principais do futebol carioca. Entre eles estão o atacante Raphael, que marcou 11 gols na competição, o experiente volante Márcio Costa, de 36 anos, que conquistou títulos importantes jogando pelo Corinthians (Mundial Interclubes de 2000) e Fluminense (Estadual de 1995), o zagueiro Edinho, que atuou na maioria dos jogos como titular e o goleiro Rodolpho.

O maior dos ídolos não joga, é o técnico Carlos Roy, que com um time sem estrelas, conseguiu formar um elenco unido e capaz de chegar ao título da segunda divisão do Estadual do Rio e agora a decisão da Taça Guanabara.

Segundo o site www.pontevelha.com o futebol chegou em Resende no início do século XX, a exemplo do que aconteceu em muitas outras cidades brasileiras. No começo o novo esporte não tinha nenhuma organização, era praticado apenas em treinos, “rachas” ou “peladas” no campo do “Manejo”, e na várzea, onde hoje se encontra o campo do Resende Futebol Clube.

Num segundo estágio e contando com um número maior de praticantes, tornou-se comum a realização de partidas de desafio entre os quadros “Vermelho” e “Azul”. Entre os jogadores daquela época destacavam-se, entre outros, os irmãos João e Luiz Ferreira de Souza Leal, os irmãos Romeu e Arthur Martins, Felipe Bruno, Adílio Monteiro Filho e Mário Guimarães, tio de Augusto de Carvalho e avô do doutor Niquinho.

O primeiro clube de futebol organizado que surgiu na cidade foi o Fluminense F.C, que depois mudou o nome para o atual Resende F.C, com uniforme nas cores preta e branca e tendo como símbolo uma estrela solitária, similar a do Botafogo do Rio, adversário de hoje. Seu primeiro time era muito forte e respeitado nos confrontos com equipes de cidades vizinhas do Vale do Paraíba. O primeiro jogo foi um empate de 3 X 3 frente um combinado de Barra Mansa (RJ).Jogavam nessa época: Dico Novais no gol – Lindo - Consentino e Tatão Anechino na zaga - Chico Soares e Barbosa na linha media - Mário Gambá - Filhinho Veloso - Rodolfo Peline - Jezer Brasileiro e Lecy Lobato no ataque.

Durante algum tempo o Resende, por influência de Noel de Carvalho, filho da terra e presidente do Bangu Atlético Clube, utilizou jogadores do clube carioca, que os adversários chamavam de “enxertos”. Eram partidas contra Barra Mansa, Cruzeiro, Guará e equipes de outras cidades vizinhas.

A vinda para Resende do Fiscal de Imposto de Consumo, doutor Pedro Rocha, irmão do famoso Carlito Rocha, e muito ligado ao Botafogo F. R, foi fundamental para o desenvolvimento do futebol na cidade. Não demorou para chegar a presidente do Resende F.C. Em sua administração o campo ganhou muros e foi lançada a pedra fundamental das arquibancadas. E conscientizou os demais dirigentes de que o clube deveria dar prioridade ao aproveitamento de jogadores da terra. Foi assim que o Resende conseguiu formar um dos melhores times de toda a sua história: Mendonça - Waldhy e Gumercindo - Mineiro ou Villaça - Castorino e Silva Sapateiro - Mário Gambá – Nélson – Jézer - Silveira e Joaquim Fernandes.

O estádio do Resende começou a ser erguido em 1916, durante os festejos da visita de Santos Dumont, o “pai da aviação”, à cidade. E no local, até hoje são realizadas atividades sociais, recreativas e educacionais. Hoje, o clube realiza seus jogos no “Estádio Municipal do Trabalhador”, inaugurado em 1 de outubro de 1992 e que tem capacidade para 10 mil torcedores.

Construído na década de 80, pertence ao Serviço Social da Indústria (SESI) e é administrado pela prefeitura de Resende. Está situado em bairro nobre de Resende na região central da cidade, rodeado por edifícios residenciais, árvores, parques e clubes e aos principais serviços da cidade. Sua alta arquibancada, com 140m de comprimento por 20m de largura é um excelente mirante da cidade.

Na década de 1930 o futebol na cidade já havia virado uma verdadeira coqueluche. Os praticantes eram muitos e além do Resende existiam, o Aventureiro F.C., de Campos Elíseos e o Juvenil e o “Charuto que não jogava contra nenhum adversário, apenas promovia animados treinos nas manhãs de domingo. O nome era uma homenagem a um crioulo, querido por todos, e que era o dono da bola. O “Charuto”, com o advento da Liga Desportiva de Resende (LDR), se tornou o Cruzeiro do Sul F.C., que teve vida curta. O futebol também se desenvolveu nos distritos. Em Itatiaia havia o Campo Belo F.C. e em Porto Real o Colônia.

Com a vinda da Escola Militar e com uma população maior, o esporte na cidade, de maneira geral, ganhou nova feição. Surgiram novos clubes: Tabajaras, Campos Elíseos, Alambari, Ordem e Progresso, Lavapés, Flamenguinho, Nacional de Itatiaia e Agulhas Negras, formado por cadetes da Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN).

Posteriormente foi fundado o Paraíso F. C. que possui hoje uma ótima praça de esportes. A Liga organizou acirrados campeonatos, disputados por clubes da cidade, Campos Elíseos, Itatiaia, Engenheiro Passos e Porto Real.

Com a construção da rodovia Presidente Dutra e do Maracanã, ficou fácil sair após o almoço para assistir jogos do Campeonato Carioca, e voltar no mesmo dia. Com isso, os jogos locais foram perdendo interesse. Depois, com o televisionamento dos jogos do Campeonato Carioca, tudo piorou ainda mais.

Nestes quase 100 anos, o Resende conseguiu estes títulos: Torneio Início do Vale do Paraíba (1957); Copa Vale do Paraíba (1968); Campeão da categoria Dente de Leite, no Torneio Prefeito Noel de Carvalho (1981); Campeão do Torneio Juniors da Cidade de Resende (1982); Campeão da Categoria Mirim, na Copa da Cidade de Resende (1983); Bicampeão da Mini Copa Dente de Leite (1983/1984); Campeão Amador da Cidade de Resende (1985); Campeão da Primeira Fase do Torneio Brasil e USA (1987); Campeão de Juniores da Liga Desportiva de Resende (1990); Vice Campeão da categoria mirim da cidade de Resende (1991); Vice Campeão Juvenil do Troféu Brasil (2000); Vice Campeão Infantil da Copa João Queiroz (2003) e Campeão Carioca da Segunda Divisão (2007).

A mascote do Resende é um lobo Guará. Os patrocinadores são a Prefeitura Municipal de Resende e Volkswagen Caminhões que pela primeira vez patrocina um time de futebol do Rio de Janeiro. O material esportivo é fornecido pela UM2 e o presidente do clube é o desportista Ricardo Tuffick. (Pesquisa: Nilo Dias)

Primeiro time do Resende, no ano da fundação,1909. Antenor Ferreira, Pedro Ferreira, João de Souza Leal, João Pinheiro Guimarães, Chico Soares, Antônio Português, José Domingos dos Santos, Artur Martins, Mário Guimarães, Francisco Maia e Felipe Bruno. (Foto: Jornal "Ponte Velha")

COMENTÁRIOS DE LEITORES

Luiz Felipe disse...
Oi Nilo,
Eu vi seu artigo e acho que o atacante Lecy Lobato era meu bizavô, será que vc teria uma foto daquele time?
Obrigado
23 de agosto de 2009 22:25

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Juventus, o “Moleque Travesso”

O Clube Atlético Juventus, tradicional agremiação esportiva de São Paulo foi fundado em 20 de Abril de 1924 pelos funcionários do Cotonifício Rodolfo Crespi. Mas a sua história começou bem antes, por volta de 1893, quando chegou ao Brasil o imigrante italiano Rodolfo Crespi, que cinco anos depois instalou sua indústria de tecelagem em um grande prédio localizado no bairro paulistano da Mooca, entre as ruas dos Trilhos, Taquari, Visconde de Laguna e Jaguari.

O Cotonifício Rodolfo Crespi deu emprego a centenas de pessoas que trabalhavam em setores que iam desde a limpeza do algodão até a produção de tecidos e roupas. E foram esses operários que resolveram criar um time de futebol, para se divertirem nos momentos de lazer. Foi assim que no dia 20 de abril de 1924 nasceu o “Extra São Paulo”.

Em pouco tempo o time ganhou o respeito dos adversários, o que motivou o interesse dos integrantes da família Crespi, que aproveitaram para estreitar o relacionamento com os funcionários. Em 1 de maio de 1925, um ano depois de ser fundado o clube passou a chamar-se Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube, resultado de uma fusão com o Cavalheiro Crespi F.C., também formado por empregados da fábrica de tecidos.

Na histórica reunião realizada em uma pequena casa no bairro da Mooca, decidiu-se por manter as cores do Extra São Paulo, vermelho, preto e branco, como sendo as oficiais da nova agremiação, aproveitando deste clube a maioria dos jogadores que já gozavam de certo prestígio nos "campinhos do bairro". Em contrapartida, o Cavalheiro Crespi F.C. cedeu a sua sede social, localizada na Rua dos Trilhos, nº 42 (antigo), preservando como data simbólica de fundação do clube o dia 20 de abril de 1924.

Com a fusão foi possível ganhar o apoio da família italiana, que de imediato cedeu um terreno que era usado como cocheira de cavalos, para a construção de um campo de futebol. Esse apoio da família Crespi foi fundamental para que o clube, que ainda era amador, desse os primeiros passos rumo a profissionalização. Em 1929 o Cotonifício Rodolfo Crespi foi campeão paulista da Segunda Divisão, depois de uma campanha fantástica: 16 partidas, 13 vitórias, 2 empates e apenas uma derrota, com 46 gols marcados e 13 gols sofridos.

Com a inauguração do estádio, localizado na Rua Alameda Javry, nº 117, atual Javari, tudo ficou mais fácil. No dia 26 de janeiro de 1930, em seu estádio, o Cotonifício Rodolfo Crespi F.C. venceu a A.A. República por 1 x 0, gol marcado por Piccinin, conquistando o título de campeão da Liga Amadora de São Paulo, o que lhe deu o direito de disputar o campeonato principal da Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA). A entidade organizadora do campeonato fez uma exigência: que o clube trocasse de nome.

Rodolfo Crespi, como patrono do Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube foi consultado para sugerir qual nome o clube adotaria. Como era torcedor da Juventus de Turim, não deu outra: no dia 19 de fevereiro de 1930 nasceu o Clube Atlético Juventus. As cores preferenciais para o uniforme foram o preto e o branco, as mesmas da Juventus italiana.

Mas isso criou um impasse, já que muitos dos clubes filiados na divisão principal paulista, entre os quais Corinthians, Ipiranga e Santos já ostentavam essas cores. Sem muitas opções, e não querendo aderir às cores já existentes nas demais agremiações, muito menos as suas tradicionais, o preto, vermelho e branco, estas também adotadas pelo extinto São Paulo da Floresta e S.C. Internacional, procurou-se outra sem semelhantes em clubes daquela divisão.

Mais uma vez coube ao benfeitor do clube, o conde Rodolfo Crespi resolver o impasse: assim nasceu o uniforme grená e branco, cuja semelhança tratava-se justamente da outra equipe da mesma cidade de Turim, o Torino.

A estréia do C.A. Juventus na elite do futebol estadual aconteceu no dia 16 de março de 1930, quando enfrentou o Santos F.C., no estádio da Vila Belmiro. O resultado não foi nada animador, uma derrota por 6 x 1. O Juventus entrou em campo com a seguinte formação: José – Berti e Segalla – Romeu - Túllio (capitão) e Rafael – Raul e Balista – Moacyr – Bellacosa e Pedro (Piccinin). Técnico: Anniello Annunziato. O primeiro gol juventino na história do Paulistão foi marcado pelo avante Piccinin.

Com nova denominação e cor, o clube da Mooca não demorou para fazer bonito. Naquele ano de 1930 começaram as travessuras que deram fama ao time, quando derrotou o poderoso Corinthians por 2 X 1, em pleno Parque São Jorge, com gols marcados por Nico e Piola. Nasceu ali o carinhoso apelido de “Moleque Travesso”, batismo dado pelo saudoso jornalista Tomáz Mazzoni, que disse em sua crônica do jogo, que tratava-se de “travessura de um moleque que ousou vencer um gigante em seus próprios domínios”.

Em 1932 conquistou um heróico terceiro lugar, ficando apenas seis pontos atrás do Palestra Itália, que sagrou-se campeão. Foi a melhor campanha do Juventus em toda história do Campeonato Paulista da Divisão Principal. A equipe era formada por José - Segalla e Piola – Joãozinho – Brandão e Rafael – Vazio – Nico – Orlando – Moacyr e Hércules, dirigida pelo técnico Raphael Liguori. A imprensa da época batizou esse time como "Os Inesquecíveis” ou “Máquina Juventina".

Nesse mesmo ano foi deflagrada uma grande campanha para a profissionalização do futebol paulistano. Com a Revolução Constitucionalista de 1932, o Cotonifício Rodolfo Crespi passou por dificuldades financeiras, não tendo recursos para continuar bancando o time nas competições oficiais.

Isso originou uma nova troca de nome. Em 1933 passou a chamar-se Clube Atlético Fiorentino, usando camisetas grenás e uma flor de lis branca no peito como escudo e disputou o Campeonato Paulista Amador, promovido pela Federação Paulista de Futebol. Naquele ano houve uma cisão no futebol brasileiro e os clubes mais tradicionais aderiram ao profissionalismo e criaram a Federação Brasileira de Futebol (FBF), que não era reconhecida pela FIFA.

Em 1934 conquistou o campeonato da cidade de São Paulo de forma invicta. No dia 2 de setembro de 1934 bateu no jogo final a Ponte Preta de Campinas na Rua Javari por 5 x 3, gols marcados por Euvaldo, Euclydes, Raul, Bellacosa e Moacyr.

Esse resultado credenciou o C.A. Fiorentino, para a disputa da final do Campeonato Estadual promovido pela FPF numa melhor de três partidas diante da Ferroviária de Pindamonhangaba, campeão do interior, clube fundado por funcionários da extinta Estrada de Ferro Campos do Jordão e que enrolou a bandeira na década de 1960.

Com expressivas vitórias por 5 x 0 e 3 x 1, o C.A. Fiorentino sagrou-se campeão estadual amador de 1934. A finalíssima aconteceu no dia 28 de outubro de 1934 no Estádio da Rua Javari. Sabratti e Raul (2) marcaram para o Fiorentino. Guedes fez o único gol da equipe do interior paulista. Raul da Rocha Soares, que na vitória por 5 x 0 em Pindamonhangaba já havia marcado três gols, foi carregado em triunfo pelos torcedores.

Em 1935 o clube também optou pelo profissionalismo, já na Liga Bandeirante de Foot-Ball e voltou a adotar o nome de Clube Atlético Juventus. Cerca de 15 anos depois os Crespi deixaram de ter participação na equipe, o que gerou uma nova crise, e por isso cogitou-se até mesmo uma fusão com a A.A. Ponte Preta de Campinas, que foi recusada pelo Conselho Deliberativo grená.

O C.A. Juventus conseguiu vencer todas as dificuldades e se manter vivo e forte até hoje. Nesses quase 85 anos de existência, o clube fez história. No dia 1 de maio de 1940 foi organizado o Torneio Relâmpago de inauguração do Pacaembu, em comemoração ao novo estádio municipal. Eliminando o Hespanha, de Santos e o Santos, o C.A. Juventus credenciou-se para a grande final programada para 5 de maio de 1940 diante da Portuguesa de Desportos. O "Moleque Travesso" entrou disposto a mostrar o seu valor e goleou a Lusa por 3 x 0, gols marcados por Ferrari, Danilo e Neves, o que fez da equipe grená o primeiro campeão do Pacaembu.

Conquistou a Taça de Prata do campeonato Brasileiro de 1983, derrotando o CSA de Alagoas na partida final. Em 1986 venceu o Torneio Início do Campeonato Paulista. Foi um feito histórico, pois ganhou a competição sem marcar e nem sofrer gols. A equipe comandada pelo técnico Candinho empatou todas as quatro partidas que disputou por 0 x 0, avançando no torneio, ora nas disputas por escanteios, ora nas penalidades.

Na decisão diante do Santo André, no Estádio do Pacaembu no dia 16 de fevereiro de 1986, após empate em 0 x 0 no tempo normal, o goleiro Barbiroto decidiu o título a favor dos grenás ao defender dois pênaltis.

Em 1971, sagrou-se Campeã do torneio classificatório do campeonato paulista, o "Paulistinha", que reuniu as principais equipes do Estado de São Paulo, exceto Palmeiras, Corinthians, Portuguesa, São Paulo e Santos.

Em 1953 o Juventus realizou uma temporada internacional pela Europa, jogando em gramados da Itália, Espanha, Suécia, Alemanha, Suíça, Áustria e na antiga Iugoslávia. Para coroar o ano, o Juventus venceu o Torneio Interestadual Jânio Quadros, ao derrotar a Portuguesa Santista por 1 x 0. Em 1956 fez uma nova temporada internacional, desta feita pela Argentina, onde enfrentou as principais equipes daquele país entre as quais o Boca Juniors. Em 1977 o Juventus foi de novo ao velho continente, jogando contra times da Itália, Romênia, França e Bulgária.

Em 1974, o Juventus ganhou o Torneio Internacional do Japão disputado em Tóquio, ao vencer a Seleção Japonesa por 2 x 0. Em 1983, numa final disputada em melhor de três partidas diante do CSA de Alagoas, obteve a sua maior conquista, o título de Campeão Brasileiro da Série B. No último jogo vitória de 1 x 0, gol de Paulo Martins, no dia 4 de maio de 1983, no Estádio do Parque São Jorge.

Na história do clube da Rua Javari, ainda estão o vice-campeonato da série B em 1986 e da C em 1997. No dia 26 de junho de 2005, numa campanha memorável, o Juventus venceu o Noroeste de Bauru por 2 x 1 no Estádio da Rua Javari, gols marcados por Johnson e Luis Carlos sagrando-se campeão paulista da série A-2, o que garantiu o retorno do time da Mooca a divisão principal do futebol estadual.

Muitos jogadores de expressão no futebol vestiram a camisa do Juventus. Entre eles César Luiz Menotti, o treinador campeão Mundial pela Argentina em 1978, Félix, goleiro campeão mundial pelo Brasil em 1970 e até mesmo Deco, da Seleção Portuguesa que atuou no clube, nas categorias de base.

O atual estádio da rua Javari foi reinaugurado no dia 13 de julho de 1941 num festival esportivo. Na preliminar jogaram Nacional e Ypiranga. Na partida principal o Corinthians venceu o Juventus por 3 x 1. Ferrari de pênalti fez o primeiro gol juventino na nova casa.

No ano de 1960 o Juventus lançou um grande empreendimento, através da construção de um moderno espaço poliesportivo em um terreno adquirido da Companhia Imobiliária Parque da Mooca. Em 15 de abril de 1962 foi lançada a pedra fundamental do parque poliesportivo onde hoje está localizada a sede social do Clube Atlético Juventus numa área de aproximadamente 80 mil m², no Parque da Mooca.

No decorrer dos anos, o Clube se transformou num dos maiores da América Latina. Foram inaugurados ginásios de basquete, vôlei, futebol de salão, Karatê, judô, canchas de bocha e quadras de tênis. (Pesquisa: Nilo Dias)


Equipe e dirigentes do Cotonifício Rodolfo Crespi, na década de 1920 (Foto: Acervo do C.A. Juventus)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Um grande estádio no interior gaúcho

É lamentável que a imprensa esportiva do centro do país só noticie regularmente o que acontece no eixo Rio-São Paulo. Fora disso é preciso que aconteça alguma coisa de muito bom ou de ruim nos outros Estados para que mereça alguma citação. Foi assim que o G.E. Brasil de Pelotas foi noticia recentemente. Isso devido à tragédia que matou dois de seus atletas e o preparador de goleiros. E nesta última semana se falou em Erechim, cidade do interior gaúcho, distante 370 quilômetros de Porto Alegre, só porque lá foi disputado o Gre-Nal de número 374, o maior clássico do futebol brasileiro e um dos maiores do mundo, segundo pesquisa da revista “Trivela”.

Graças ao Gre-Nal, que não tinha como ser deixado em segundo plano, o Brasil inteiro ficou sabendo que na cidade de Erechim existe um grande estádio, o “Colosso da Lagoa”, o terceiro maior do estado, com capacidade para 25 mil torcedores. O estádio pertence ao clube local, Ypiranga F.C. e foi inaugurado no dia 2 de setembro de 1970, no jogo em que Pelé marcou seu gol de número 1.040, na vitória por 2 X 0 do Santos sobre o Grêmio, feito que mereceu uma placa em bronze oferecida pela Rádio Tupi de São Paulo, com o prefixo 1040.

Na inauguração do “Colosso da Lagoa” foi realizado um festival de futebol. Além de Santos X Grêmio outros grandes espetáculos foram oferecidos ao público de Erechim. A segunda rodada de jogos foi realizada no dia 06 de Setembro de 1970. Na preliminar o Ypiranga derrotou o Esportivo de Bento Gonçalves, por 3 X 2. No jogo de fundo o Botafogo do Rio de Janeiro goleou o Internacional por 5 X 2, debaixo de forte chuva. Jairzinho marcou três vezes e Nilson Dias e Arlindo uma vez cada para o onze carioca. Sérgio Galocha e Valdomiro descontaram para os gaúchos.

O Botafogo formou com Ubirajara Motta (Cao) - Moreira (Edinho) – Moisés - Osmar e Waltencir - Nei Conceição (Zé Carlos II) e Arlindo (Pojito) – Zequinha - Ferretti (Nílson Dias) - Jairzinho e Careca. O técnico era Paraguaio. O Inter jogou com Gainete - Édson Madureira – Pontes - Valmir e Jorge Andrade - Paulo César Carpegiani (Carbone) - Tovar e Dorinho – Valdomiro – Sérgio Galocha e Claudiomiro. O técnico era Daltro Menezes.

Também jogaram no “Festival de Inauguração”, dia 8 de setembro, Cruzeiro de Piaza, Zé Carlos e Tostão, contra o Independiente da Argentina; o clássico da cidade ATLANGA, reunindo Atlântico X Ypiranga e por fim Ypiranga x Ta-Guá, de Getulio Vargas (RS).

Poucas pessoas sabem que o gramado do Colosso da Lagoa é o maior entre todos os estádios brasileiros, medindo 110m X 80m. O Maracanã tem 110m X 75m, o Beira Rio, 108m X 72m, o Olímpico, 105 m X 68m, a Ilha do Retiro, do Sport, 105m X 78 m, entre outros. O estádio tem capacidade para 25 mil torcedores, mas no jogo de ontem, por questão de segurança, recebeu 20 mil torcedores. O recorde de público no estádio foi de 25 mil expectadores, no jogo Ypiranga 0 X 2 Internacional, no dia 18 de agosto de 1974, válido pelo campeonato gaúcho.

O Ypiranga F.C. foi fundado em 18 de agosto de 1924, e viveu momentos importantes, que marcaram a história do futebol de Erechim. Nas primeiras décadas funcionou como clube social e, em 1950 foi Campeão Estadual de Amadores. Sagrou-se campeão municipal de Erechim 7 vezes: 1928, 1945, 1949, 1950, 1951, 1952 e 1953. Em 2006 foi campeão do Torneio Internacional de São Gabriel. Participou do Campeonato Gaúcho da 2ª Divisão em 1965, 1982, 1984, 1985, 1986, 1987, 1988, 1989, 2000, 2001, 2002, 2003, 2006, 2007 e 2008 e da Divisão Principal em 1968, 1971, 1972, 1973, 1974, 1975, 1976, 1977, 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998 e 1999.

A última vez que um clássico Gre-Nal foi disputado longe de Porto Alegre, e o primeiro de caráter oficial, ocorreu em 4 de abril de 2004, em Bento Gonçalves com vitória do Internacional por 2 X 1, gols de Edinho e Nilmar. Foi o Gre-Nal de número 359, pelo Campeonato Gaúcho e que foi incluído na festa de inauguração do estádio “Montanha dos Vinhedos” do Esportivo.

Grêmio e Internacional se defrontaram no interior do Estado outras quatro vezes: em 7 de setembro de 1962, num amistoso disputado no Estádio Doutor Waldemar Fetter (hoje Aldo Dapuzzo), em Rio Grande, com vitória do Grêmio por 2 X 1. Élton e Marino marcaram para o Grêmio e Flávio Minuano para o Inter.

Eu lembro bem desse clássico, de número 161, o primeiro em uma cidade interiorana, que foi comemorativo aos 25 anos de fundação da Refinaria de Petróleo Ypiranga. Naquela época eu trabalhava na Rádio Tupancy, de Pelotas e narrei o jogo em dupla com o meu parceiro Antônio Carlos Alves. O Gre-Nal terminou debaixo de forte chuva. Não havia cabines no estádio suficientes para todas as rádios e por isso tivemos que transmitir o jogo de dentro do campo. Molhados e com frio, precisamos segurar o microfone com uma blusa de lá, para nos defendermos de incômodos choques elétricos.

No dia 19 de abril de 1964, no Estádio dos Plátanos em Santa Cruz do Sul, aconteceu o Gre-Nal de número 169 (amistoso), que terminou com vitória colorada por 1 X 0, gol de Vanderlei. Em 21 de março de 1965, tivemos no Estádio Alfredo Jaconni, em Caxias do Sul, o Gre-Nal 176, dentro das comemorações da festa da Uva, que acabou empatado sem gols. E em 21 de junho de 1992, também em Erechim o Gre-Nal 314, que terminou empatado em 0 X 0. (Pesquisa: Nilo Dias)

Estádio Olímpico Colosso da Lagoa (Foto: Acervo do Ypiranga F.C.)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A aristocracia entra em campo

O primeiro goleiro a vestir a camisa titular da Seleção Brasileira de Futebol foi Marcos Carneiro de Mendonça, jogador do Fluminense Foot Ball Club. No dia 21 de julho de 1914, no campo da Rua Guanabara, 94, em plena era do amadorismo, pela primeira vez uma representação nacional foi formada e para enfrentar um adversário profissional, o poderoso Exceter City, da Inglaterra. O selecionado brasileiro, que contou apenas com jogadores do Rio de Janeiro e São Paulo formou naquele histórico jogo com Marcos – Pindaro e Nery – Lagreca – Rubens Sales e Rolando – Oswaldo Gomes – Abelardo – Friedenreich – Osman e Formiga. O time nacional venceu por 2 X 0, gols de Oswaldo Gomes e Osman.

Essa mesma seleção, no dia 27 de setembro daquele ano foi protagonista de outro feito histórico, quando derrotou pela primeira vez a então poderosa seleção da Argentina. Em jogo disputado em Buenos Aires, o Brasil venceu por 1 X 0, gol de Rubens Salles.

Marcos Carneiro de Mendonça não foi apenas o primeiro goleiro a jogar pela Seleção Brasileira, mas também o mais novo até hoje a envergar a camisa número 1 do nosso selecionado, aos 19 anos e 6 meses de vida. Ele nasceu em Cataguases (MG), no dia de 25 de dezembro de 1894. Sua carreira de futebolista começou quando tinha apenas 13 anos de idade e foi jogar no Haddock Lobo Football Club, antigo clube do bairro da Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro, fundado em 1908.

O Haddock Lobo chegou a disputar os campeonatos estaduais de 1909 e 1910. Suas cores eram o marrom e branco. O primeiro uniforme do clube consistia em camisas marrons com gravatas brancas, calções brancos e meias negras. Logo esse uniforme foi mudado para camisas listradas alvi-marrons, permanecendo os calções e meiões.
Em 1911, em meio à uma crise financeira, o clube fundiu-se ao América Football Club.

A proposta inicial era a formação de um novo clube chamado Haddock Lobo-América Football Club. Mas graças à habilidade dos dirigentes rubros as cores e o nome do América permaneceram na fusão que na prática, acabou sendo apenas uma aquisição dos terrenos do Haddock Lobo. O América herdou seu estádio, na rua Campos Sales, onde hoje funciona sua sede social e integração de seus atletas, entre eles Marcos Carneiro de Mendonça, já que a sua identidade permaneceu inalterada.

Há registros de um outro Haddock Lobo Football Club em meados da década de 10, talvez formado por ex-membros do então já extinto clube. Esse segundo Haddock Lobo não participou de nenhuma competição importante, e teve vida breve.

Foi na infância que Marcos escolheu a posição de goleiro, costumeiramente reservada aos menos hábeis com a bola nos pés, quando teve febre amarela, sarampo, forte infecção intestinal e problemas pulmonares. Como estava sempre cercado de cuidados, e impedido de fazer grades esforços, achou que no gol seria menos exigido e realizaria seu sonho de ser jogador de futebol.

Marcos defendeu as cores americanas até 1913, quando se sagrou campeão carioca. A conquista do título não foi suficiente para que continuasse no América. Assim como outras dezenas de sócios e atletas descontentes com a diretoria americana, em 1914 se transferiu para o Fluminense, clube de seu coração, onde jogou até o fim da carreira.

Naquela época romântica do futebol brasileiro, quando os atletas, na esmagadora maioria eram moços de cor branca e filhos das famílias mais abastadas e de sobrenomes tradicionais, era comum a presença feminina nos estádios, não só para apreciar os jogos, mas também para admirar o porte atlético e a elegância dos jogadores. E nesse quesito Marcos também se destacava. Dono de reflexos apurados, grande sentido de colocação, estilo clássico e refinado, com seus 1,94 metro de altura, chamava atenção pela maneira elegante como trajava o uniforme tricolor.

O seu sentido de colocação era tão preciso que sempre ao final dos jogos a camisa e calção se mantinham limpos, pois raras vezes precisava se jogar ao chão para fazer alguma defesa. Era grande pegador de pênaltis, estudava maneiras eficazes para suas defesas e saídas do gol, tinha sangue frio e reflexos apurados. Para Marcos, o futebol era uma ciência geométrica. Os jornais da época destacavam que ele era o alvo preferido dos corações das mocinhas que acompanhavam os jogos do tricolor carioca nas Laranjeiras. Costumava usar presa ao calção uma fita roxa dada por sua esposa, o que motivava constantes provocações dos adversários e suspiros das demais torcedoras.

Mas até os craques passam por aqueles dias em que nada dá certo e com nosso ídolo, não foi diferente. O jornalista Paulo Guilherme, em seu livro “Goleiros - heróis e anti-heróis da camisa 1”, editado pela Alameda, relata um “frangaço” tomado pelo aristocrático Marcos Carneiro de Mendonça, tão logo ele, que acreditava na teoria da cobertura dos ângulos, receita infalível para evitar gols, foi traído pela soberba em um jogo entre o Fluminense e o time do Vila Isabel, equipe fraquíssima. Em certa altura do jogo, o zagueiro Chico Netto atrasou uma bola para Marcos, que abaixou-se desatento para segurar a redonda e acabou por deixá-la passar por entre seus dedos, num lance absolutamente ridículo. Foi o gol que deu a vitória ao Vila Isabel e impediu o Fluminense de ganhar o título de 1918 de maneira invicta.

A poetisa Anna Amélia de Queiroz, que depois seria sua esposa (casaram em 1917), costumava dedicar a Marcos versos que o comparavam a um deus grego, por seu refinamento, graça e nobreza, como no poema “O salto”:

Ao ver-te hoje saltar para um torneio atlético,
Sereno, forte, audaz como um vulto da Ilíada
Todo meu ser vibrou num ímpeto frenético
Como diante de um grego, herói de uma Olimpíada.

Estremeci fitando esse teu porte estético
Como diante de Apolo estremecera a dríada.
Era um conjunto de arte esplendoroso e poético,
Enredo de inspiração para uma heliconíada.

No cenário sem par de um pálido crepúsculo
Tu te enlaçaste no ar, vibrando em cada músculo
Por entre aclamações da massa entusiástica,

Como um Deus a baixar do Olimpo, airoso, lépido
Tocaste o solo, enfim, glorioso, ardente intrépido,
Belo na perfeição da grega e antiga plástica.

Sua carreira acabou precocemente, quando tinha apenas 29 anos de idade e sofreu uma séria lesão. Em 1928, aos 34 anos, tentou voltar a jogar e ainda pelo Fluminense, quando houve um desentendimento do goleiro Batalha com a diretoria do Clube. O retorno aconteceu num jogo contra o Bangu, em 26 de agosto de 1928, com vitória do tricolor por 2 X 1.

Os jornais da época noticiaram com destaque a reestréia do jogador: "Marcos Carneiro de Mendonça, o grande arqueiro que reapareceu ontem, após um longo período de ausência, foi recebido na sua entrada em campo com uma estrondosa aclamação. O nome do grande player ouvia-se pronunciado em todos os cantos da praça de esportes. O valoroso footballer trajava como antigamente, camisa e calção de cor branca, ostentando na cintura aquela tradicional fita roxa dos seus áureos tempos.” Seu último jogo ocorreu em 03 de setembro daquele ano, contra o Sírio Libanês, quando o Fluminense perdeu por 3 X 1.

Defendeu o Fluminense em 127 jogos e sofreu 164 gols, o que tem explicação no fato de que os primeiros times da história do futebol buscavam sempre o ataque, abdicando de sistemas defensivos mais rígidos, como acontece hoje. O resultado era grande quantidade de gols. Na Seleção Brasileira, Marcos jogou 15 partidas (10 oficiais e 5 amistosos) entre 1914 e 1923. Marcos foi campeão carioca quatro vezes: 1913 (América), 1917, 1918 e 1919 (Fluminense), campeão do Torneio Início (1916), campeão da Taça Ioduran, um torneio equivalente ao Rio-São Paulo (1919) e campeão sul-americano (1919 e 1922) e da Copa Rocca (1919) pela Seleção Brasileira.

Mesmo fora dos gramados o ex-goleiro não abandonou o gosto pelo futebol, continuando a participar das atividades do Fluminense, chegando a ser presidente do clube entre maio de 1941 e agosto de 1943. Além disso, tornou-se historiador. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB) e criador do Centro de Estudos e Pesquisas Históricas (CEPH), Marcos dedicou parte de sua vida à pesquisa sobre o século XVIII no Brasil e especializou-se no período do Marquês de Pombal. Foi fundador da Comissão de Estudos e Pesquisas Históricas (CEPHAS) e também presidente da Sociedade Capistrano de Abreu e membro, dentre outros, do Conimbricensis Instituti, de Portugal, da Academia Portuguesa da História e da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro.

O casal Carneiro Mendonça era também grande incentivador da cultura. Ocasionalmente, promoviam palestras, seminários e exposições no célebre “Solar dos Abacaxis”, assim chamado por ter abacaxis de ferro enfeitando as sacadas. Foi por décadas a residência do casal Carneiro de Mendonça. O palacete foi construído em 1843, na rua Cosme Velho, 857, a poucos metros do Largo do Boticário, a mando do comendador Manuel Borges da Costa, bisavô de Anna Amélia. A propriedade é de tamanho monumental, são dez quartos, cinco salas, biblioteca, clarabóia, sótão, porão, jardim e uma grande área verde nos fundos.

O solar foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 12 de setembro de 1990. A Exposição de Arte Sacra, na década de 70, com obras das coleções da família e de amigos foi uma das últimas abertas ao público. A renda dos ingressos foi revertida para projetos sociais que apoiavam. Marcos reuniu uma majestosa biblioteca com 11 mil volumes, hoje de posse da Academia Brasileira de Letras. Ainda trabalhou no escritório da Usina Esperança, a primeira siderúrgica a funcionar regularmente no país, que pertencia à família de Anna Amelia. Além de fundar a Casa do Estudante, ela militou pelo voto feminino. O casal teve três filhos, Márcia, Juko e a critica teatral, Barbara Heliodora, de 85 anos (29-08-1923). Marcos morreu em 19 de outubro de 1988, aos 94 anos. (Pesquisa: Nilo Dias)

Anna Amélia e Marcos Carneiro de Mendonça. (Foto: Biblioteca Nacional)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Fábrica de craques

A edição de número 40 da Copa São Paulo de Futebol Júnior chega ao seu final na manhã de hoje quando a partir das 11 horas as equipes do S.C. Corinthians Paulista e Clube Atlético Paranaense, decidem o título. Este ano a competição, que é a principal da categoria no Brasil, contou com a participação de 88 equipes vindas dos mais distantes locais e representando todos os Estados da Federação. Esse número exagerado de equipes e atletas prejudica o propósito de revelar talentos.

A Copa São Paulo começou em 1969 e nas suas duas primeiras edições participaram somente quatro clubes paulistas. Corinthians e Nacional foram os finalistas do primeiro torneio, com o time do Parque São Jorge levando a melhor. A partir de 1971 passou a receber clubes de todo o Brasil.

Entre 1993 e 1997, foram convidadas equipes estrangeiras para participarem da disputa: Boca Juniors (Argentina), Peñarol (Uruguai), Cerro Porteño (Paraguai), Nagoya Grampus Eight e Yomiuri Verdy (ambos do Japão), além das seleções sub-20 do Japão e da China. O primeiro clube estrangeiro a participar da competição foi o Bayern de Munique (Alemanha) em 1985. Como todas elas caíram na primeira fase, a organização da Copinha abandonou a idéia.

Originalmente a competição era chamada de Taça São Paulo de Juniores e era organizada pela Prefeitura de São Paulo. Em 1987, o então prefeito Jânio Quadros decidiu não arcar com os custos da competição, que não foi realizada naquele ano. Em 1988 a Federação Paulista de Futebol tomou para si a responsabilidade do torneio - o que acontece até hoje - e inovando ao marcar jogos para cidades do interior do Estado. A Copa São Paulo é disputada no inicio de cada ano, de modo que a Final coincida com a data de aniversário da cidade de São Paulo, 25 de Janeiro.

Mas nem sempre a decisão do Torneio aconteceu exatamente em 25 de janeiro. Teve casos em que a final foi realizada antes do mês de janeiro: 1981, (23 de dezembro de 1980); 1982, (19 de dezembro de 1981) e 1983 (18 de dezembro de 1982). O título chegou a ser decidido em 19 de janeiro de 1989; 20 de janeiro, nos anos de 1979, 1980 e 1985; 22 de janeiro de 1984; 23 de janeiro de 1976; 24 de janeiro de 1988; 26 de janeiro de 1986 e 1991; 31 de janeiro de 1990 e até em 6 de março de 1971.

O Corinthians Paulista, com seis títulos é o maior vencedor da Copa (1969, 1970, 1995, 1999, 2004 e 2005), seguido de Fluminense, do Rio de Janeiro, com cinco conquistas (1971, 1973, 1977, 1986 e 1989), Internacional, de Porto Alegre-RS, com quatro (1974, 1978, 1980 e 1998) e Atlético Mineiro com 3 (1975, 1976 e 1983). Com dois títulos, São Paulo (1993 e 2000), Ponte Preta, de Campinas-SP (1981 e 1982), Nacional, de São Paulo (1972 e 1988) e Portuguesa de Desportos, de São Paulo (1991 e 2002). Foram campeões uma única vez as equipes do Juventus, de São Paulo (1985), Cruzeiro, de Belo Horizonte-MG (2007), Santos, de Santos-SP (1984), Vasco da Gama, do Rio de Janeiro (1992), Guarani, de Campinas-SP (1994), América (São José do Rio Preto-SP-2006), Marília, de Marília-SP (1979), Flamengo, do Rio de Janeiro (1990), América, de Belo Horizonte-MG (1996), Paulista, de Jundiaí-SP (1997), Roma Barueri, de Barueri-SP (2001), Santo André, de Santo André-SP (2003) e Figueirense, de Florianópolis-SC (2008).

O Corinthians é o maior recordista de finais, 14 ao todo (contando a de hoje), com 6 títulos, sendo que 2 títulos foram conquistados em cima de seus maiores rivais: Palmeiras em 1970 e São Paulo em 2004. O Palmeiras é a única equipe, das 6 existentes na cidade de São Paulo (São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Portuguesa, Juventus e Nacional), que ainda não venceu a competição.

A Portuguesa de Desportos possui o melhor aproveitamento em finais, vencendo as duas decisões que disputou. Em 1991 a “lusa” realizou a melhor campanha da história da Copa São Paulo, ao vencer seus nove jogos, marcando 32 gols. O América de São José do Rio Preto (SP) foi campeão da Copinha em 2006 e tem a segunda melhor campanha da história, mesmo com o time sendo formado somente a 60 dias da competição.

Só em três anos os times paulistas não estiveram presentes nas finais. Nestas ocasiões houve confrontos entre Fluminense X Botafogo em 1971 (ambos cariocas; campeão: Fluminense), em 1980 entre Internacional X Atlético Mineiro (mineiros x gaúchos; campeão: Internacional) e em 1996 entre América X Cruzeiro (ambos mineiros; campeão: América).

Em 1995 a Federação Paulista organizou a Supercopa dos Campeões da Copa São Paulo, tendo como vitorioso nesta única edição o Palmeiras, que participou como convidado, ao vencer na final o São Paulo num jogo que ficou marcado pela batalha campal promovida por facções de torcedores após o jogo, que resultou na morte de um torcedor sãopaulino.

Nos últimos anos o torneio passou a ter a presença quase obrigatória de empresários e olheiros vindos de todo do mundo em busca de novos craques, antes que estes passem a valer verdadeiras fortunas. Em 2007 houve uma alteração significativa no regulamento, e desde então apenas atletas sub-18 podem participar dos jogos, ao contrário das edições anteriores, nas quais eram permitidas as inscrições para jogadores de até 20 anos.

A baixa idade dos participantes (até atletas de 15 anos estão autorizados a jogar) foi uma das condições criadas pela FPF para inibir a ação de empresários e, desta forma, cativar os grandes clubes a estarem na competição. Nos últimos anos, Flamengo e Vasco chegaram a abdicar de sua vaga para priorizar o Campeonato Carioca Sub-20. Nesta edição da Copinha, o desfalque foi o Botafogo (RJ), pelo mesmo motivo.

Pela Copa São Paulo já passaram grandes nomes do futebol brasileiro como Rivelino, Falcão, Casagrande, Jardel, Djalminha, Toninho Cerezo, Rogério Ceni, Raí, Cafu, Kaká e Robinho, entre outros. Mas um jogador ninguém jamais vai esquecer: Dener, um furacão que surgiu na edição de 1991 quando ao lado de Tico, Sinval e Pereira conduziu a Portuguesa ao título contra o Grêmio. (Pesquisa: Nilo Dias)

Dener foi uma das maiores revelações da Copa São Paulo. (Foto Divulgação)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Vale a pena visitar

CONVIDO A TODOS OS LEITORES DESTE BLOG A VISITAREM A MINHA NOVA PÁGINA, ONDE BUSCO RESGATAR A MEMÓRIA DO NOSSO FUTEBOL, EM FOTOS. O ENDEREÇO É :

www.reliquiasdofutebol.blogspot.com

MANDE FOTOS E DETALHES SOBRE O CLUBE DE SUA CIDADE. DESDE JÁ, O FUTEBOL BRASILEIRO AGRADECE.

Para ser xavante não basta uma vida

O blog faz sua homenagem ao glorioso G.E. Brasil, de Pelotas, reproduzindo um bonito e emotivo artigo assinado pelo jornalista Nauro Júnior, 39 anos, fotógrafo de "Zero Hora", em Pelotas e publicado no blog "Rumos do Sul", no site do jornal "Zero Hora", de Porto Alegre.

"O futebol gaúcho se vestiu de luto, e as cores da tristeza são o vermelho e o preto. A torcida do Brasil de Pelotas, conhecida pela irreverência e pela alegria, acordou incrédula na última sexta-feira.

Uma tragédia na noite de quinta-feira tirou a vida do maior ídolo xavante dos últimos anos. Ele era amado e amava driblar, ouvindo o urro ensurdecedor que vinha das arquibancadas do caldeirão da Baixada. Junto com ele se foram o zagueiro Régis e o preparador de goleiros Giovani, dois tímidos guerreiros que, assim como Claudio Milar, amavam vestir as cores do time mais alucinado do interior do Estado.

Na quinta-feira de manhã, a delegação do Brasil de Pelotas saiu para jogar um amistoso em Santa Cruz. Claudio Milar, o craque, me dizia na saída que pretendia voltar até a 1h para dormir em casa com a sua amada Caroline e o pequeno Agustín. Não voltou mais. Doze horas depois de termos nos visto, quando ele projetava que este era o ano do xavante, me encontrei novamente com o amigo já sem vida.

Milar sempre me pedia pelas mais de 500 fotos que tenho dele vibrando, fazendo gols, dando autógrafos para seus admiradores, e até uma dele vestindo a camisa com o número 100 às costas, a preferida dele. Jamais imaginei que teria de fazer uma foto do amigo morto.

Era 1h30min da madrugada de sexta feira quando tive a incumbência de dar a terrível notícia pela Rádio Gaúcha. Milar, Régis e Giovani já faziam parte da delegação Xavante em outra dimensão. Minutos depois, em Pelotas, xavantes começaram a vagar pela volta do Estádio Bento Freitas como almas à procura de alguma explicação.

Os caixões só chegaram ao Bento Freitas no meio-dia de sexta, quando torcedores lotavas as arquibancadas. Como São Tomé, talvez só vendo acreditassem que não se tratava de um pesadelo. Junto com a xavantada, entravam abraçados torcedores do Pelotas, do Farroupilha, colorados, gremistas, jogadores, ex-jogadores, habitantes de uma cidade que ama o futebol. Em cada canto do estádio havia um rosto incrédulo. Velhos, moços, mulheres, crianças, gente de todas as raças e classes sociais choravam como se houvesse morrido alguém da família. E quem disse que Milar, Régis e Giovani não eram da família? Na claque xavante, todos têm o mesmo DNA. São apaixonados, loucos, fiéis e não desistem nunca. É isso mesmo, não desistem nunca.

O caixão de Milar foi o primeiro a sair do estádio, e os gritos da torcida vinham da arquibancada como nos tempos recentes em que o uruguaio entortava zagueiros com o seu drible desconcertante bem próximo ao alambrado, lá na ponta direita, onde os xavantes e o ídolo se encontravam no momento de maior cumplicidade e paixão.

Com os gritos de guerra "Ei, Ei,Ei, Milar é nosso Rei", a majestade foi embora para ser enterrada no Uruguai. O túmulo de Milar será um templo de peregrinação dos torcedores do Brasil.

O corpo de Régis e Giovani foram velados pelo resto da tarde. Milhares de pessoas passaram para dar o último adeus. Às 18h entrou no estádio um silencioso caminhão de bombeiros e nele foram colocados os dois caixões, cobertos por uma montanha de coroas de flores. Minutos depois o veículo começou a sair lentamente do estádio, e uma horda de xavantes começou a caminhar atrás do cortejo. À medida que o caminhão vermelho aumentava a velocidade, eles apressavam o passo e cantavam, enquanto Régis e Giovani passavam pela última vez pelas ruas da cidade onde nasceram. As pessoas derramavam lágrimas em sacadas de prédio, portões das casas e nas esquinas.

Por um momento parecia que o tempo parou, tudo parou, somente se ouvia a sirene do caminhão que se movia em câmera lenta, com uma multidão que não desistia de correr atrás gritando. O suor se misturava as lágrimas, e as lágrimas se misturavam com as cores da dor em cada esquina. Pois naquele dia Pelotas chorava lágrimas em vermelho e preto. Os torcedores rubro-negro invadiram o cemitério de Pelotas, a família pediu um momento de intimidade, que foi aceito, mas não compreendido, pois todos que estavam ali eram da família de Régis e Giovani, da família xavante.

Às 19h, os caixões foram depositados nos túmulos. Na mesma hora suas almas alçaram voo, e já foram treinar em um gramado encantado de um estádio que tem lá no céu, onde só quem tem um amor inexplicável como a paixão que os xavantes sentem conseguem o ingresso para entrar. Depois chegou o Milar e se juntou a eles, com a xavantada que mora lá em cima há muito tempo. Para amar como os xavantes amam, não basta uma vida."

Torcida do Brasil de Pelotas transformou cemitério em estádio. (Foto: Globoesporte.com)

O técnico Cuca, do Flamengo, que já treinou o Brasil de Pelotas, colocou uma camisa especial no amitoso contra o Tupi, de Juiz de Fora (MG), para homenagear clube gaúcho. (Foto: Globoesporte.com)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Tragédia no Sul

Um acidente de graves proporções aconteceu por volta de 23 horas da noite de ontem (15) envolvendo um ônibus da empresa Bosembecker, que transportava a delegação do G.E. Brasil, de Pelotas, que a tarde jogara e vencera por 2 X 1 uma partida amistosa na cidade de Vale do Sol, contra o F.C. Santa Cruz. O veículo seguia pela alça de acesso da RS-471 para rodovia BR-392, mas não conseguiu vencer uma curva acentuada, capotou na pista, passou sobre um guard rail e caiu em um barranco numa altura entre 40 a 50 metros, o equivalente a um prédio de 15 andares, ficando com as rodas para cima. O motorista não soube explicar como o acidente aconteceu.

O acidente deixou um saldo de três mortes: os jogadores Cláudio Milar, atacante,que marcou o primeiro gol do jogo realizado a tarde, e Régis, zagueiro e ainda o preparador de goleiros Giovani Guimarães. O goleiro Danrlei, ex-Grêmio, machucou um braço, foi socorrido e passa bem. O pronto-socorro de Pelotas atendeu 11 vítimas e três delas tiveram de ser operadas: os jogadores Edu e Xuxa e o auxiliar técnico Paulo Roberto, mas nenhuma corre risco de morte. No Hospital de Caridade de Canguçu, foram atendidas e liberadas 13 pessoas.

O velório será no Estádio Bento Freitas. O zagueiro Régis e o preparador de goleiros Giovani Guimarães serão sepultados no Cemitério de Pelotas hoje a noite. Já o corpo do atacante Claudio Milar será levado às 14 horas para ser sepultado em sua cidade natal, Chuy, no Uruguai, amanhã (sábado) as 10 horas.

O jogador uruguaio Claudio Milar era o principal jogador da equipe e maior ídolo da história recente do Brasil de Pelotas, tendo jogado mais de 200 partidas e marcado mais de 100 gols com a camisa rubro-negra. A forma como comemorava os gols se tornou marca registrada, ao imitar o mascote do clube – o índio xavante – como se jogasse uma flecha em direção às arquibancadas.

Milar era dono de uma habilidade fora do comum. Sua principal jogada consistia em avançar pela lateral do campo, chegar a linha de fundo e, com dribles curtos se aproximar do gol. Se não finalizava, deixava um companheiro na feição para marcar. Ele chegou ao G.E. Brasil em 2002. Depois, em 2004, quando de nova passagem pelo clube foi o artilheiro da segundona gaúcha, na campanha que levou o “xavante” de volta à primeira divisão.

Desde que vestiu a camisa vermelha e preta pela primeira vez, ganhou a admiração da torcida, que sentiu muito sua falta nas duas oportunidades em que deixou o Brasil para jogar em Israel e na Polônia. Foram ausências curtas e poucos meses depois estava de volta ao Bento Freitas, para ver seu rosto pintado em uma bandeira sempre pendurada no alambrado do estádio.

O uruguaio também se afeiçoou ao rubro-negro pelotense e a cidade. Levou seu pai para ser preparador físico do time. Tinha até cidadania brasileira. Nos anos de 2006 e 2008 participou das campanhas do clube na Série C do Campeonato Brasileiro e lamentava não ter conseguido realizar o sonho de subir à Série B. Aos 34 anos, deixou a mulher, Caroline, e um filho de três anos, Agustín.

Roberto Claudio Milar Decuadra, nasceu em 6 de abril de 1974, na cidade de Chuy, no Uruguai. Jogou de 1991 a 1997 no Nacional de seu país. Em 1997, transferiu-se para o Godoy Cruz, da Argentina. No ano seguinte foi contratado pelo Caxias, de Caxias do Sul. Em 1999 defendeu a Portuguesa Santista e depois o Santa Cruz, de Recife. No ano de 2000 vestiu a camisa do Náutico, de Recife. Em 2001 foi jogar no Club Africain, da Tunísia e na volta vestiu a camisa do Botafogo, do Rio de Janeiro.

Esse verdadeiro cigano do futebol em 2002 foi parar no LKS PTAK, da Polônia e no retorno ao Brasil foi contratado pelo Brasil, de Pelotas. Em 2003 aceitou convite para jogar no Hapoel Far Saba, de Israel. Em 2004 voltou ao Brasil, para sair em 2005 e jogar no Pogon, da Polônia. Em 2006 estava de volta a “taba xavante”, onde ficou até a morte.

Muitas tragédias já aconteceram pelo mundo envolvendo clubes de futebol. Em 4 de maio de 1949, após disputar um amistoso contra o Benfica, em Lisboa, o avião Fiat G212 que trazia a delegação da equipe italiana do Torino Calcio chocou-se contra a fachada da Basílica de Superga, próximo a Turin. Não houve sobreviventes. Nos funerais dos jogadores compareceram cerca de 500 mil pessoas.

Em 6 de fevereiro de 1958, o Manchester United, da Inglaterra, voltava de avião, da extinta Iugoslávia, onde havia feito um jogo pela Copa dos Campeões da Europa. O aparelho, um Bea Elizabethan G-ALZU, movido a hélice, não tinha capacidade suficiente de combustível para fazer o vôo direto entre Belgrado e Manchester, por isso aterrissou em Munique, na região da Baviera para reabastecimento. Havia mau tempo.

Duas tentativas de decolagem foram abortadas. Na terceira, um dos motores perdeu subitamente potência e o avião deslizou sem controle ao longo da pista, atravessando a rede do perímetro do aeroporto até parar, depois de bater numa casa abandonada e em várias árvores. Os bombeiros não demoraram mais que alguns segundos a chegar, mas já era tarde. No acidente morreram 28 pessoas entre passageiros e moradores do local da queda do avião. Oito jogadores estavam entre os mortos.

Em 03 de abril de 1961 o avião Douglas DC-3 da LAN Chile, prefixo CC-CLD-P210, realizava o vôo 210 trazendo de volta a equipe do Chile Green Cross (hoje Deportes Temuco) de uma partida em Osorno, pelo Torneio Apertura da Copa Chile. Voando com visibilidade ruim, chocou-se contra a Serra de Las Animas, na Cordilheira de Linares, matando todos os seus 20 passageiros e quatro tripulantes.

No dia 11 de agosto de 1979, uma colisão aérea entre dois aviões russos Tupolev 134As da Aeroflot, vitimou a equipe de futebol do Pakhtakor Tashkent, do Uzbequistão, que fazia o vôo 7880, rota Tashkent - Donetsk - Minsk sobre a antiga União Soviética. Uma falha do controle de tráfego aéreo da Rússia na separação aérea das aeronaves causou o choque entre elas, a 27,2 mil pés de altitude, que vieram a cair sobre a cidade de Dneprodzerzhinsk, na Ucrânia.

No avião prefixo CCCP-65735 da delegação do Pakhtakor Tashkent morreram todos os 84 ocupantes, entre eles os 14 jogadores e os três membros da comissão técnica. Na outra aeronave, a de prefixo CCCP-65816, morreram os 94 ocupantes. Computando as duas aeronaves o saldo foi de 178 mortos.

Em 24 de setembro de 1969, feriado local, a equipe do The Strongest foi convidada para participar de um jogo amistoso organizado pela Associação de Futebol de Santa Cruz de La Sierra. Na noite do dia 26 de setembro, soube-se que o avião, um DC-6 da Lloyd Aéreo Boliviano havia desaparecido. Passadas vinte e quatro horas do desaparecimento, e já sem muita esperança, o país recebeu a notícia: o avião havia se precipitado contra uma região montanhosa chamada La Cancha, na região mineira de Viloco, a cerca de 100 km de La Paz. Todos os 9 tripulantes e os 69 passageiros, entre os quais 16 jogadores, morreram.

Em 8 de dezembro de 1987 o time de futebol do Alianza Lima voltava, de avião, de uma partida na cidade de Pucallpa. Foi quando aconteceu a tragédia que matou toda a equipe e o corpo técnico do popular clube peruano. O acidente ocorreu de maneira estúpida. O Fokker F-27 da Marinha de Guerra do Peru, fretado pelo Alianza, chegou a sobrevoar o aeroporto Jorge Chávez, de Lima, para depois cair no mar, vitimando um total de 43 pessoas: 16 jogadores, seis integrantes da comissão técnica, quatro auxiliares, oito torcedores, três árbitros e seis tripulantes do avião. O único sobrevivente foi o próprio piloto, Edilberto Villar Molina, que depois viveria oculto, em outro país.

No dia 28 de abril de 1993 uma aeronave De Havilland DHC-5 da Força Aérea da Zâmbia, prefixo AF-319, que levava a Seleção do país para uma partida das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994, explodiu logo após decolar de um aeroporto em Libreville, no Gabão, onde havia sido reabastecido. Dezoito jogadores, três dirigentes da Associação de Futebol da Zâmbia (FAZ) e cinco militares morreram. ((Pesquisa: Nilo Dias)

O uruguaio Millar era o maior ídolo da torcida "xavante" (Foto: Blog Xavante)
O ônibus caiu de uma altura equivalente a um prédio de 15 andares (Foto: Divulgação)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Morre mais um personagem da tragédia de 1950

Morreu ontem (12-1-2009) aos 84 anos de idade, o ex-futebolista Albino FRIAÇA Cardoso, vítima de falência múltipla de órgãos. Ele estava internado há 45 dias no Centro de Terapia Intensiva (CTI), do Hospital São José do Avaí, em Itaperuna, interior do Rio, por causa de uma pneumonia e teve morte confirmada às 9h10min. O corpo foi velado no salão nobre da Câmara Municipal de Porciúncula, sua cidade natal, e o sepultamento aconteceu na tarde de hoje no cemitério da cidade. O prefeito Antonio Jogaib decretou três dias de luto no município.

Friaça era um dos dois únicos titulares daquela equipe ainda vivos. O outro é o zagueiro Juvenal, que vive em Salvador, doente aos 83 anos, com artrose que o impede de caminhar. Outros três jogadores que fizeram parte do grupo, Olavo Rodrigues Barbosa, o Nena (85 anos), reside em Goiânia, Nilton Santos (83 anos), no Rio de Janeiro e Alfredo Ramos dos Santos, o Alfredo II (89 anos), também no Rio de Janeiro, estão vivos.

Mesmo com a derrota para o Uruguai por 2 X 1 na partida final, que frustrou 200 mil torcedores presentes ao Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, Friaça entrou definitivamente para a história do futebol brasileiro por ter marcado a 1m18s da segunda etapa, o gol que chegou a dar esperanças de uma conquista até então inédita para o Brasil. O curioso é que ele nem deveria ter jogado a Copa do Mundo. Isso só aconteceu porque o ponteiro titular, Tesourinha se lesionou seriamente e teve de ser cortado da Seleção.

Friaça nasceu no dia 21 de outubro de 1924, na pequena cidade de Porciúncula (343 km do Rio de Janeiro), na região Noroeste fluminense, divisa entre Rio e Minas Gerais. Com 21 anos de idade, em 1943, deu início à carreira de futebolista profissional, defendendo o C.R. Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, aos tempos do famoso “Expresso da Vitória". Foi lá que viveu os melhores momentos como jogador. A velocidade e o chute forte e certeiro logo chamaram a atenção da imprensa e da direção da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), sendo convocado para a Seleção Brasileira. Também batia faltas com maestria e era emérito cruzador de bolas.

Sua carreira foi marcada pela instabilidade. Em 1949, resolveu trocar o Vasco pelo São Paulo F.C. No clube paulista teve uma passagem curta e vitoriosa. Em 1950 foi para a Ponte Preta de Campinas, onde jogou por uma temporada. Estava no clube campineiro quando foi chamado para a Copa do Mundo. Em 1951, retornou ao Vasco da Gama. Em 1953 estava de volta a Ponte Preta. Em 1954, outra vez no Vasco. Em 1955, retornou a Ponte Preta. No final de 1957 trocou a Ponte Preta pelo rival Guarani.

No time bugrino jogou apenas quatro meses, quando resolveu encerrar a carreira de jogador de futebol e se dedicar a treinar as categorias de base do clube esmeraldino, o que fez por curto período. Ao deixar completamente o futebol, Friaça continuou morando por algum tempo em Campinas, chegando a abrir uma quitanda no centro da cidade, que funcionou por pouco tempo. Friaça foi chamado ao Rio de Janeiro para administrar uma loja de materiais de construção, de propriedade da família. Depois, Friaça entregou a loja aos filhos. Ele, que sempre fora um homem alegre, ficou debilitado principalmente por causa da morte de um dos filhos em acidente de asa delta, na metade dos anos 1990. Depois da tragédia, começou a abusar do uso de cigarro e bebida alcoólica, que prejudicaram sua saúde.

Durante o tempo que jogou bola, Friaça conquistou os títulos de campeão do Torneio Relâmpago em 1946, pelo Vasco da Gama; campeão do Torneio Municipal em 1946 e 1947, pelo Vasco da Gama; campeão carioca em 1945, 1947 e 1952, pelo Vasco da Gama; campeão da Copa Rio Branco em 1947 e 1950, pela Seleção Brasileira; Campeão Sul Americano de clubes em 1948 pelo Vasco da Gama; Campeão Paulista de 1949, pelo São Paulo, ano em que também foi o artilheiro da competição com 24 gols; campeão da Copa América de 1949, pela Seleção Brasileira; campeão da Taça Oswaldo Cruz em 1950, pela Seleção Brasileira; campeão Pan-Americano em 1952, pela Seleção Brasileira; campeão do Torneio Quadrangular do Rio em 1953, pelo Vasco da Gama, e campeão do Torneio Rivadávia Corrêa Meyer em 1953, pelo Vasco da Gama.

Vestiu a camisa da Seleção brasileira (que naquele tempo era branca) em 13 jogos, conseguindo 8 vitórias, 3 empates, 2 derrotas e marcando 1 gol, aquele contra o Uruguai na decisão da Copa de 1950. Em Copas do Mundo foram 4 jogos, 2 vitórias, 1 empate, 1 derrota e 1 gol. Contra seleções nacionais 12 jogos, 7 vitórias, 3 empates, 2 derrotas e 1 gol. E contra clubes e combinados 1 jogo e 1 vitória.

No livro “Dossiê 50”, o jornalista Geneton Moraes Neto entrevistou todos os titulares daquela decisão. Eles falaram de seus dramas. O texto a seguir é um trecho do depoimento de Friaça, da alegria quase incontrolável ao marcar o gol que poderia dar o título ao Brasil ao desespero da derrota:

"Fiquei andando de noite em volta do campo"

(...) Albino Friaça Cardoso tinha 25 anos, oito meses e 26 dias quando realizou o sonho dos jogadores brasileiros de todas as épocas: fazer um gol numa final de Copa do Mundo dentro do Maracanã superlotado. O gol sai logo no primeiro minuto do segundo tempo. O Maracanã enlouquece. Friaça também.

“A emoção foi tão grande que só me lembro de uma pessoa que veio me abraçar: César de Alencar, o locutor. Quando a bola estava lá dentro, ele gritou: "Friaça, você fez o gol!" Naquela confusão, ele entrou em campo e me abraçou. Nós dois caímos dentro da grande área.”

Louco de alegria, Friaça só se lembra com clareza do rosto de César de Alencar. “Passei uns trinta minutos fora de mim. Eu não acreditava que tinha feito o gol. Eu tinha potencial, mas estava ao lado de craques como Zizinho, Ademir e Jair. E logo eu é que fiz o gol.”

Se o Brasil precisava apenas de um empate, então o jogo estava liquidado: a Seleção ia ser campeã do mundo. “Ali nós já éramos deuses”, admite Friaça.

Friaça só não poderia imaginar que outras cenas inacreditáveis iriam acontecer ali - além da queda de César de Alencar dentro da grande área, numa explosão de alegria. Consumada a tragédia brasileira, diante da maior platéia até hoje reunida para um jogo de futebol, a dor da derrota desnorteou o autor do gol do Brasil.

“O trauma foi enorme. Vim para o Vasco. Fiquei, em companhia de outros jogadores, andando de noite em volta do campo, ali na pista. O assunto era um só: como é que a gente foi perder com um gol daqueles”.

Dos 22 jogadores convocados em 1950, 18 já faleceram: Barbosa (7-4-2000), Castilhos (2-12-1987), Augusto (1-2-2004), Bauer (4-2-2007), Eli do Amparo (9-3-1991), Danilo Alvim (16-5-1996), Rui (2-1-2002), João Ferreira, o Bigode (31-7-2003), Noronha (27-7-2003), Zizinho (8-2-2001), Maneca (28-6-1961), Baltazar (25-3-1997), Adãozinho (6-8-1991), Jair da Rosa Pinto (28-7-2005), Ademir de Menezes (11-5-1996), Francisco Aramburu, o Chico (1-10-1997) e Rodrigues (30-10-1998). O técnico Flávio Costa faleceu em 22-11-1999 e o massagista Mário Américo, em 9-4-1990. (Pesquisa: Nilo Dias)



Hagen disse...
Nilo, vc teria qualquer contato do Alfredo Ramos dos Santos? Sabe o estado de saude dele?
Estou trabalhando em um documentario e seria interessante um depoimento dele, caso ele ainda esteja em condicões...
20 de março de 2009 15:22

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Marta, a "Pelé" de saia

A brasileira Marta Vieira da Silva, que este ano trocou o Umeå IK, da Suécia pelo Los Angeles Sol, dos Estados Unidos, foi eleita pelo terceiro ano seguido a melhor jogadora de futebol feminino do mundo. O anúncio foi feito hoje na festa anual da Fédération Internationale de Football Association, o “FIFA World Player Gala 2008”, realizada no Opera House, em Zurich, na Suíça. Ela já havia sido escolhida melhor do mundo em 2006 e 2007.

A “rainha” Marta, uma legitima mulher nordestina nasceu no dia 19 de fevereiro de 1986, em Dois Riachos, um pequeno e pobre município de 12 mil habitantes, no sertão alagoano, distante 193 quilômetros da capital Maceió. Hoje, ela é a grande celebridade local. Os primeiros chutes, Marta começou a dar aos 7 anos de idade, num pequeno campinho de terra, embaixo de uma ponte. “Aos 10 ou 12 anos ela já jogava futebol no meio dos homens, aplicava dribles, fazia gols, e mostrava muita habilidade", conta José Julio de Freitas, o Tota, 66 anos, primeiro técnico da jogadora e uma espécie de fã número um.

O irmão mais velho de Marta e arrimo da família, José Vieira, não gostava que ela jogasse. "Os colegas mexiam comigo, diziam que minha irmã era mulher e jogava melhor do que eu.” Apesar das dificuldades Marta passou por cima da discriminação e foi ao encontro de seu sonho. Com 12 anos, já jogava no CSA, um dos grandes de Alagoas - a única menina e craque do time.

Em 2000 surgiu uma proposta para jogar no time feminino do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. A notícia de que ia mudar para uma cidade grande, a mais de 2 mil km de casa, num primeiro momento não agradou à família de Marta. Depois de um tempo, os familiares perceberam que era realmente o que ela queria e aceitaram numa boa. Faltava só arranjar o dinheiro da passagem. Foi o primo Roberto e alguns amigos de Dois Riachos que fizeram uma “vaquinha”.

No Vasco, Marta jogou tão bem que ganhou o apelido de “Pelé de Saia”. Não demorou a chegar na Seleção Brasileira e hoje é a maior estrela do futebol feminino mundial. Marta ganhou fama mundial como a jogadora que “entortava” as adversárias e foi convidada para jogar em um time da Suécia, uma potência do futebol feminino. Tudo isso aconteceu quando ela nem tinha completado 18 anos.

Quando chegou sozinha à Suécia, em pleno inverno levou um susto, o país tem um dos climas mais rigorosos do planeta, com temperaturas que podem atingir 15 graus abaixo de zero. Para poder jogar era preciso usar luvas, gorro e proteções para pernas e braços. Fora o frio, a vida na Suécia foi boa para Marta: que morou num apartamento pago pelo time, ganhou um bom dinheiro e de sobra ainda viajou pelo mundo todo. A jogadora nem sabe dizer ao certo quantos países conheceu.

Em sua vitoriosa carreira Marta conquistou pela Seleção Brasileira títulos de grande expressão, como as medalhas de ouro nos Jogos Pan-americanos de 2003 realizados em Santo Domingo, na República Dominicana, quando tinha apenas 17 anos, e de 2007 no Brasil, quando foi artilheira com 12 gols e mais uma vez comparada a Pelé.

Também ajudou o Brasil a ganhar a medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas, em 2004 e o vice-campeonato mundial em 2007, na China, onde conquistou a artilharia com 7 gols. Na semifinal da competição, contra os EUA, Marta marcou o gol mais bonito de toda a história do torneio e foi escolhida melhor jogadora, recebendo o prêmio “Bola de Ouro.

Marta foi a primeira e até agora única mulher a deixar a marca de seus pés na “Calçada da Fama”, do Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Além disso, integra o “Hall da Fama”, do Estádio Rei Pelé, em Maceió (AL) e detentora da “Comenda Nise da Silveira“, a maior homenagem pública conferida pelo governo de Alagoas.

A fama não lhe tirou a humildade e continua a valorizar e prestigiar sua terra e os amigos. Toda a vez que tem oportunidade vai para Dois Riachos onde participa de animadas rodas de samba e de “peladas” nos campinhos da cidade.

O prestigio da jogadora é tão grande em todo o Estado, que até a Assembléia Leguslativa de Alagoas aprovou um projeto que muda o nome do tradicional estádio “Rei Pelé”, em Maceió, para estádio “Rainha Marta”, o que vem gerando muita polêmica em todo o Brasil.

Em Dois Riachos, o Governo do Estado construiu um ginásio poliesportivo que custou R$ 800 mil e que homenageia a jogadora. O espaço possui capacidade para cerca de mil pessoas e conta com arquibancadas, bateria de banheiros e piso paviflex, o que se constitui num grande avanço para um município onde falta quase tudo.

O jornalista argentino radicado em São Paulo, Diego Graciano escreveu o livro “Marta, você é mulher”, que conta toda a vida da grande jogadora. Por enquanto o livro não chegou às livrarias, o que deve acontecer nas próximas semanas e tem tudo para ser um sucesso de vendas. (Pesquisa: Nilo Dias)

(Foto: Site da Fifa)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Como surgiu o termo “gandula”

O meu amigo Horácio Gomes, lá da querida cidade de Rio Grande (RS), grande figura humana e o melhor repórter esportivo que conheci, continua atento como nos velhos tempos da Rádio Cultura Riograndina. Acompanhante assíduo do blog, o Horácio está sempre pronto a colaborar e dia desses sugeriu a publicação de matéria contando as origens do termo “gandula”, dado ao indivíduo que tem a função de buscar a bola quando esta sai pela linha de fundo ou de lado, durante um jogo de futebol.

Eu até lembro que em alguns lugares do Rio Grande do Sul, e aí eu incluo a minha terra natal, Dom Pedrito, o encarregado desse trabalho é chamado de “marrecão”. Porque, não me perguntem, que não sei. E lá em São Gabriel, quando eu era presidente da S.E.R. São Gabriel, a função era disputadíssima pela garotada que assim entrava de graça no jogo.

Existem várias versões para explicar como surgiu esse personagem que se tornou importante nos jogos de futebol. Alguns “estudiosos” afirmam que foi logo após a construção do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, e por causa das bolas que caiam no fosso em volta do gramado e precisavam ser recolhidas. Lá em São Gabriel também colocávamos apanhadores de bolas no lado de fora do estádio, pois tinha gente que ficava só esperando que a “redonda” caisse na rua para pegá-la e dar no pé. Isso causou muitos prejuizos ao clube.

E por que o termo “gandula”? A versão que parece mais condizente é de que o nome veio em homenagem ao meia-esquerda argentino Bernardo José Gandulla, que o C.R. Vasco da Gama, contratou do Ferro Carril Oeste, de Buenos Aires, no distante ano de 1939, junto com o ponteiro-esquerdo Emeal. Como não era dono do passe e a legislação esportiva da época não era muito clara sobre transferências internacionais, Gandulla ficou impedido de jogar.

Tremenda injustiça fazem alguns ditos ”pesquisadores” ao dizerem que o argentino era ruim de bola, por isso não era escalado, quando a verdade é outra. Para não se tornar inútil ao clube, Gandulla queria mostrar serviço e costumava correr em volta do gramado para devolver as bolas que saiam para fora. Esse costumeiro gesto do jogador foi bem recebido pelos torcedores, tanto que após retornar para a Argentina, em 1940, seu nome virou referência para a função de apanhador de bolas.

A segunda versão não é muito diferente da primeira. Ela procede da Argentina e também envolve o atacante Bernardo Gandulla, já quando defendia a equipe do Boca Juniors. Contam os colegas do vizinho país que em todos os jogos, ele mesmo corria atrás da bola para dar seqüência à partida. Dessa maneira Gandula conquistou a simpatia da massa torcedora, que via esse gesto como vontade de vencer e de jogar. Foi o que bastou para que a imprensa e os torcedores “porteños” passasem a chamar de “gandula” os pegadores de bola.

Mesmo não tendo boa sorte no Vasco da Gama, Bernardo José Gandulla foi destaque na Argentina como jogador e técnico. Sua carreira teve início no Ferro Carril Oeste em 1934. Fez parte de uma famosa linha atacante denominada “La Pandilla”, integrada por Además, Maril, Bornia, Sarlanga y Emeal. Cinco anos depois foi para o Vasco da Gama. Em 1940 transferiu-se para o Boca Juniors, onde teve oportunidade de mostrar todas as suas qualidades técnicas que o consagraram como verdadeiro craque. Era eximio armador de jogadas, além de grande capacidade para marcar gols. Só em 1940, seu primeiro ano no Boca, marcou 18 gols. Foi campeão argentino em 1940 e 1943, pelo clube de La Bombonera (Estádio Alberto J. Armando).

Em 1944, depois de se recuperar de uma grave contusão, Gandulla voltou ao seu clube de origem, o Ferro Carril Oeste, onde jogou por mais dois anos. Mesmo sendo considerado um “fora de série”, Gandulla vestiu a camisa da Seleção Argentina, em uma única oportunidade, em 1940. Em toda a carreira, disputou 249 partidas e anotou 123 gols. Além do Ferro Carril Oeste, Vasco da Gama e Boca Juniors, Gandula defendeu o River Plate, o Auxerre, da Suiça e o manchester City, da Inglaterra.

Gandula, após “pendurar as chuteiras”, se dedicou a treinar as categorias amadoras do Boca Juniors, ganhando o apelido de “Maestro”, pela capacidade de revelar bons valores para o futebol argentino, entre eles Rattin, Ponce e Mouzo. Como técnico de equipes profissionais, dirigiu o Boca Juniors nos anos de 1957 e 1958, e depois nas temporadas de 1967, 1971 e 1972.

Bernardo José Gandulla nasceu no dia 1 de março de 1916 e faleceu, vítima de problemas respiratórios em 7 de julho de 1999, aos 83 anos, em Buenos Aires, Argentina. Os restos mortais de Gandulla estão sepultados no Panteon do Boca Juniors, no cemitério de Chacarita. Sua importância para o futebol argentino é tão grande, que seu nome foi imortalizado no “Trofeo Gandulla”, que é dado ao melhor futebolista de cada ano. (Pesquisa: Nilo Dias)

O craque Gandulla, quando jogava no Boca Juniors (Foto: www.informexeneize.com.ar)

domingo, 28 de dezembro de 2008

Apaixonados pelo futebol

Eu conheci algumas pessoas que dedicaram boa parte de suas vidas a juntar em suas casas, coisas que os leigos achavam ser lixo, quando na verdade, com o passar dos anos se tornaram verdadeiros tesouros. Eu lembro dos amigos que já se foram, Romeu Machado dos Santos, o popular Machadinho, em Pelotas, e Alexandre Degani, em Rio Grande. Os dois guardaram anos a fio, jornais, revistas, fotografias, fitas de gravações e qualquer coisa que lembrasse uma de suas grandes paixões comuns, o futebol.

Com o Machadinho eu tive um contato maior, pois fomos colegas na Rádio Pelotense, a mais antiga emissora gaúcha e a terceira a ser fundada no Brasil. Talvez porque tudo na Pelotense cheirasse a história – eu lembro bem do velho prédio da rua Félix da Cunha – ele tivesse um carinho especial para com ela, onde foi plantão esportivo por muitos anos.

Parece até que estou a ouvir o Machadinho fazendo a sua chamada característica, para anunciar algum resultado de jogo: “Alô Martines...”. E o velho amigo e narrador de futebol, Luis Carlos Martines, com sua voz inconfundível respondia: “Fala Machado”. São tempos que não voltam mais, mas ficam carinhosamente guardados em minha memória. Eu estive na casa do Machadinho várias vezes. Eram pilhas de jornais e revistas espalhadas por toda a parte. Hoje, todo esse acervo está a disposição do público para pesquisas, pois foi adquirido pela Prefeitura Municipal.

Eu até tenho vontade de dar uma olhada nesse material, pois certamente vou encontrar algumas fitas daquelas de rolo, com jogos que narrei, tanto na Rádio Tupancy, quanto na Pelotense. E velhas crônicas que escrevi nos tempos de editor de esportes do jornal “Diário Popular”.

Já o Degani tive o prazer de conhecer pessoalmente quando fui trabalhar em Rio Grande, em 1975, no jornal “Agora” e na Sucursal da Companhia Jornalística Caldas Júnior, que editava os jornais “Correio do Povo”, “Folha da Manhã” e “Folha da Tarde”. Além de ser proprietária da Rádio Guaíba, a primeira emissora do Rio Grande do Sul a transmitir uma Copa do Mundo (1958, na Suécia). O Degani era o plantão esportivo da Rádio Minuano, que tinha como narrador e chefe da equipe esportiva o saudoso Américo Souto. Também escrevia uma coluna semanal no jornal “Agora”, com dados estatísticos dos três clubes profissionais da cidade.

O valioso acervo deixado pelo Degani, segundo um de seus netos, Alexandre, encontra-se guardado na casa de veraneio da família na praia do Cassino. Eu, que penso em escrever um livro sobre os 100 anos do F.B.C. Rio-Grandense, que ocorre em 11 de julho do ano que vem, bem que gostaria de ter acesso a pasta destinada ao “guri” centenário, em busca de fatos históricos importantes. Mas isso é assunto para depois.

Eu sempre gostei de vasculhar o passado, por isso acabei me tornando um pesquisador. É claro que não cheguei a empilhar em casa coleções de velhos jornais e revistas, até porque a minha esposa Teresinha dava bronca. O que não impediu que eu tenha um armário, parte de um guarda-roupa e algumas sacolas plásticas, estrategicamente guardadas, contendo algum material importante. E os tempos hoje são outros. O computador facilitou tudo com suas “prateleiras” virtuais.

E nessas andanças pelo mundo da pesquisa encontrei várias referências ao jornalista paulista, Delphim Ferreira da Rocha Netto, falecido em 2003, aos 90 anos de idade, que deixou o mais completo arquivo sobre futebol já organizado no país. Foi, sem dúvida, o maior de todos os pesquisadores do futebol. Para que se tenha uma idéia do tamanho das informações que colecionou, basta dizer que tudo começou no distante ano de 1919, quando com apenas 6 anos de idade (nasceu em 09/07/1913), guardou os primeiros documentos e fotografias do futebol brasileiro e internacional.

No arquivo construído em 84 anos têm de tudo, correspondências recebidas de várias partes do Brasil e do exterior, cartões de prata, troféus, medalhas, flâmulas, faixas, louças, camisas, diplomas e outros prêmios ganhos em sua carreira de ex-futebolista, desportista e dirigente cobrindo praticamente todo o século XX. O tamanho do arquivo é descomunal, tanto que por muitos anos ocupou uma área de 1,4 mil metros quadrados, em dois imóveis, no centro de Piracicaba(SP).

O jornal “Gazeta de Piracicaba”, cidade onde o jornalista morou desde 1916 (era natural de Itu-SP), publicou matéria que revela detalhes do acervo: são cerca de 50 mil fotografias, súmulas de jogos oficiais, uniformes, troféus, coleções de periódicos, recortes de jornais, revistas e livros, além de reportagens e publicações nacionais e internacionais. Há relatos sobre a chegada da primeira bola de futebol ao Brasil. Cada clube brasileiro e internacional possui sua própria pasta, o que permite o acesso às informações desejadas em poucos minutos. As fotos individuais de cada atleta estão classificadas por ordem alfabética juntamente com a ficha de seus dados.

A importância desse acervo, considerado uma verdadeira enciclopédia esportiva é inquestionável. Ele já serviu para restabelecer a verdade de fatos mal contados e até para levantar a vida profissional de atletas, que dele dependeram para obter o “Prêmio Belfort Duarte” ou o direito à aposentadoria.

Doado ainda em vida, o acervo do jornalista Delphim da Rocha Netto encontra-se no Centro Cultural do Instituto Educacional Piracicabano/UNIMEP, onde estão abrigados outros acervos. Ele recebeu várias propostas milionárias para venda do arquivo, mas recusou todas, dizendo: “Meu arquivo vale minha vida e não tem preço”.

A jornalista Ângela Rodrigues foi quem fez a última entrevista com Rocha Netto, antes de sua morte. O velho jornalista, apesar da idade avançada mostrava grande lucidez e fez um relato de toda a sua vida. Uma história que misturou paixão e dedicação. Ele mostrou a entrevistadora uma velha foto de 1906, onde seu pai, Francisco Nazaré da Rocha, aparecia numa partida de futebol. O pesquisador explicou que o seu fanatismo pelo esporte foi herança do pai, que ele perdeu quando tinha apenas 4 anos de idade, vítima de complicações decorrentes de um acidente de trabalho.

Depois de uma carreira de cerca de 30 anos no futebol amador, jogando como goleiro, Rocha Netto encerrou sua atuação no esporte em 1944, após machucar-se numa partida contra o Palmeiras da Cidade Alta, time que revelou De Sordi, lateral-direito da Seleção Brasileira na Copa de 1958. Rocha Netto jogava no Paulista Futebol Clube, de Piracicaba. Teve ferimentos na cabeça e na mão esquerda.

A sua outra grande paixão era o XV de Novembro, de Piracicaba, clube fundado em 1913 e do qual foi presidente de honra. Rocha Neto escreveu dois livros contando a história do clube. O dinheiro arrecadado com a venda dos livros foi doado para entidades assistenciais da cidade.

Rocha Netto era técnico em contabilidade e trabalhou como fiscal da Secretaria Estadual da Fazenda. A carreira jornalística começou em 1930. Naquela época não era exigido registro profissional para o trabalho. Nas horas livres escrevia para os jornais. Seus primeiros passos na imprensa foram como colaborador do “Jornal de Piracicaba”.

Passou por veículos importantes como a extinta “A Gazeta Esportiva”, que parou de circular em 19 de novembro de 2001. Uma despedida melancólica, registrada numa edição de 14 mil exemplares. Quase nada para o jornal que chegou a uma tiragem de 534 mil exemplares no final da Copa de 1970. Rocha Netto chegou a ser chefe de reportagem do jornal quando havia uma sucursal em Piracicaba. Estão guardadas no arquivo todas as publicações de “A Gazeta Esportiva”, do primeiro ao último exemplar.

Quando Rocha Netto morreu, o site de “A Gazeta Esportiva” publicou uma notícia de apenas cinco linhas. Foi como o jornalista Cláudio Glória, escreveu no jornal de esportes “Todo Dia”: “Triste. Pelo menos ele não viveu este desgosto com uma empresa que adorava e da qual fez parte durante algumas décadas, quando ainda existia a saudosa versão impressa do maior jornal de esportes que o Brasil já teve”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Alexandre Degani foi a memória do futebol de Rio Grande (Foto: Página do Orkut: "Saudades do Degani")

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Artista da bola e do pincel

No Brasil é costume chamar qualquer bom jogador de futebol, de artista. Confesso que nas minhas andanças pelo mundo da pesquisa, só encontrei um, que realmente fez jus ao epíteto: Francisco Rebollo Gonsales, ou simplesmente Rebolo, artista de verdade, nos campos de futebol e nas telas de pinturas. Tanto, que o grande Jorge Amado foi feliz na frase que resumiu quem era Rebolo: “um homem de duas artes: emocionou pintando e jogando futebol.

Filho de imigrantes espanhóis que vieram para o Brasil no final do século XIX, Rebolo nasceu no dia 22/08/1902, em uma casa da rua Visconde de Parnaíba, em São Paulo. Rebolo foi o quinto filho do casal Francisco Rebollo Merguizo e Rosa Gonsales Rodrigues.

Em 1910 começou a cursar o Primário, no Grupo Escolar da Mooca, na capital paulista. Em 1914 foi trabalhar como entregador, em uma loja de chapéus. Em 1915, aos 13 anos teve o seu primeiro contato com pincéis e tintas, se tornando aprendiz de decorador, trabalhando em restauro de igrejas e executando projetos de decoração em residências onde era comum a pintura rococó, cheia de floreados e exageros. Isso o motivou a estudar na Escola Profissional Masculina do Brás durante dois anos.

Desde tenra idade Rebolo gostava de futebol e deu seus primeiros chutes na várzea paulistana. Bom de bola, apesar de seu 1m60 de altura, era rápido e certeiro, o que chamou a atenção de dirigentes da Associação Atlética São Bento. Em 1917, aos 15 anos já jogava no time de cima. Em 1922, ano do Centenário da Independência, foi para o S.C. Corinthians, onde atuou como ponteiro-direito.

A torcida logo o apelidou de “Formiguinha”, pois fazia um incessante trabalho de ir e vir, que confundia os adversários. Foi importante na conquista do título de Campeão do Centenário. Rebolo era um daqueles “baixinhos” que fazem furor, surgindo sempre de surpresa e desnorteando os zagueiros com a rapidez dos movimentos e com a facilidade em se desvencilhar da marcação.

Rebolo ainda jogou pelo C.A. Juventus e pelo C.A. Ypiranga, ambos da capital paulista. Como o futebol de antigamente não garantia as despesas, paralelamente trabalhou como decorador de residências. Só em 1934, aos 32 anos de idade é que trocou definitivamente a bola pelo pincel.

Ele já havia trocado as chuteiras pelos pincéis quando foi convocado para dar traços definitivos ao emblema do Corinthians. Ao círculo com a bandeira do Estado, adicionou remos e uma âncora, referência aos esportes aquáticos praticados na época no Parque São Jorge. Assim nascia o "Timão", apelido de duplo sentido originado do desenho feito por Rebolo, que lembra um leme de navio.

Em 2002, pela primeira vez, o distintivo alvinegro ganhou status de obra de arte numa retrospectiva montada pelo Museu de Arte Moderna (MAM) e organizada pela filha de Rebolo, a professora Lisbeth Rebolo Gonçalves, em comemoração ao centenário de nascimento do artista. Em meio a 150 pinturas, um pôster criado em 1982 traz as diversas versões da famosa insígnia.

Ao despedir-se dos gramados o artista falou aos jornalistas: "Antes da pintura, o futebol já tinha marcado minha vida. Como no futebol, acho que na arte a gente deve fazer coisas espontâneas, com a marca do amor e entusiasmo, para poder se emocionar e emocionar as pessoas."

A capa do livro de Mário Filho, “O Negro no Futebol Brasileiro”, um dos mais importantes já escritos sobre o futebol no país, é na verdade um auto-retrato de Rebolo, datado de 1936, no qual dois atletas disputam a posse da bola, um branco e outro preto. Na época, Rebolo também era conhecido por defender a presença – raríssima – de jogadores negros nos clubes da cidade. O jogador que está sendo driblado na imagem é ele próprio.

A longa carreira de Rebolo, já exclusivamente como pintor começou em meados da década de 1930, ao alugar duas salas do Edifício Santa Helena (hoje demolido), na Praça da Sé, no centro de São Paulo. Ali ele montou seu ateliê de pintura de cavalete, e como microempresário também atendia a clientela de pintura ornamental de residências.

O ateliê de Rebolo passou a ser um local de encontro de artistas. Era comum a presença de alguns nomes que acabaram entrando para a história da arte brasileira, como Fulvio Pennacchi, Aldo Bonadei, Humberto Rosa, Manuel Martins, Clóvis Graciano, Mario Zanini, Alfredo Volpi e Alfredo Rizzotti, entre outros. Graças a essa convivência e proximidade surgiu o que a crítica da época batizou como “Grupo Santa Helena”, o primeiro núcleo de artistas paulistas trabalhando em conjunto e criando uma nova tendência na arte brasileira.

Sobre o grupo, Rebolo costumava dizer: "Somos meia dúzia de amigos, cujo traço comum é não gostar dos acadêmicos e querer a pintura verdadeira, que não seja anedótica ou narrativa. A pintura pela pintura."

O espírito de liderança de Rebolo era evidente, o que o levou a ser um dos fundadores do Sindicato dos Artistas e Amigos da Arte, o “Clubinho”, que se tornou uma verdadeira legenda do mundo cultural e boêmio paulistano. Anos depois, lá estava ele participando do grupo que trabalhou pela criação do Museu da Arte Moderna (MAM-SP) e também da Bienal, onde se destacou como expositor e jurado.

Em 1944, Rebolo arriscou-se a fazer sua primeira exposição individual na Livraria Brasiliense, mas, a despeito do sucesso, nesta e em outras exposições, somente dez anos após, em 1954, é que pode ser efetivamente notado, quando ganhou um prêmio de viagem à Europa, no 3º Salão Nacional de Arte Moderna.

Foi a grande oportunidade, bem aproveitada, para aperfeiçoamento de sua arte, numa turnê, em companhia da família, percorrendo Itália, Espanha, Alemanha, França, Áustria e Holanda, além de participar de um curso de restauração no Museu do Vaticano.

Sem perder a simplicidade, o Rebolo que retornou ao Brasil foi outro, bem mais amadurecido, com uma pintura de técnica bem mais desenvolvida e menos ingênua. Daí em diante, registrou-se uma sucessão de exposições, de entrevistas e de encomendas. Foi a consagração, com a qual jamais sonhara, ainda que tardia, chegou à sua vida. Rebolo amava tudo o que fazia: "O dia em que não pinto, não vivo. É um dia perdido!", costumava dizer.

Ganhando não apenas status, como também uma condição financeira mais sólida, Rebolo conseguiu realizar um dos sonhos de sua vida. Construiu uma confortável casa no bairro do Morumbi, a cinqüenta metros da antiga chácara em que passou sua infância de privações. Foi lá que faleceu, aos 79 anos de idade, no dia 10 de julho de 1980. A antiga vila de chacareiros já se tornara então um dos mais ricos e populosos bairros de São Paulo, o que não lhe tolheu os costumes do menino pobre, que ali nasceu e passou sua infância.

Rebolo é considerado um dos mais importantes paisagistas da pintura brasileira. Sua obra, com um total estimado superior a 3.000 pinturas, centenas de desenhos e um conjunto de cinqüenta diferentes gravuras, de variadas técnicas, além das paisagens, envolve também como temática um expressivo conjunto de retratos, figuras, naturezas-mortas e flores. No mercado, os quadros de Rebolo estão cotados hoje entre R$ 20 mil a R$ 50 mil.

Em 1985, cinco anos após seu falecimento, o Museu Lasar Segall expôs cerca de 80 trabalhos de sua produção e, em 1986, foi lançado um livro que, igualmente, pôs em destaque seu percurso artístico e sua obra (edição MWM/IFK). Sua obra vem participando de mostras coletivas voltadas para a história da arte moderna no Brasil e está presente nos acervos dos principais museus de arte do País e em órgãos culturais e governamentais e em coleções particulares.

O ex-jogador corinthiano Sócrates também é um craque com o pincel. Embora não tenha formação específica ou estudo das diversas técnicas, ele produz belas telas que decoram o seu apartamento em Ribeirão Preto. Avesso a badalações, mostra apenas para um restrito grupo de amigos que freqüenta a sua casa.

Sócrates tampouco planeja exibir seu acervo em uma exposição pública. Tudo começou anos atrás, quando ele entrou num curso de pintura de paredes. Como teve problemas na coluna, passou para as telas, sem nenhuma preocupação de seguir determinada escola ou tendência nas artes plásticas. O interesse do ex-jogador por arte é antiga. Ele sempre gostou de ir a museus e a exposições.

Carlos Alberto Parreira, ex-técnico do Corinthians e da seleção brasileira, é outro que gosta de pintar. Já fez uma exposição de 12 quadros de sua autoria na galeria Britto Central, em São Paulo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Rebolo, quando jogava pelo S.C. Corinthians (Foto: Acervo da família)