Samuel Wainer, dono do jornal “Última Hora” tinha algo em comum com Nelson: a tuberculose. Propôs a Nelson que escrevesse, com pagamento extra, uma coluna diária sobre um fato real. Poderia se chamar "Atire a primeira pedra". Nelson sugeriu "A vida como ela é..." e, sugestão aceita, foi para a máquina escrever a primeira coluna. O sucesso foi estrondoso. Em 1951 relançou “Suzana Flag”, em "O homem proibido".
Carlos Lacerda queria derrubar o presidente Getúlio e, para tanto, batia firme em Samuel Wainer e no jornal “Última Hora”. Nelson não escapou da pancadaria e era chamado de "tarado" por ele. Outro que também o atacava era o católico Gustavo Corção, da “Tribuna da Imprensa”.
Em março de 1955 a família Rodrigues ganhou uma ação contra o governo de indenização pela destruição do jornal "Crítica". Em 1956 receberam o equivalente a US$1.800.000,00. A parte que coube a Nelson foi utilizada na compra de um apartamento em Teresópolis, em nome dos filhos e de um carro para Elza. O que sobrou, investiu no teatro.
Apresentado por sua irmã Helena, Nelson conheceu Lúcia Cruz Lima, que logo passou a ser sua namorada. Só que desta vez a coisa era séria. Casada e bem casada, mãe de três filhos, ela logo se apaixonou, deixou o marido e voltou a viver com os pais. Ele demorou dois anos para se separar de Elza.
Nos primeiros meses de 1963 nada impedia a separação de Nelson. Já havia alugado um pequeno apartamento e Lúcia estava grávida. Após um almoço de despedida, após o qual Elza tentou suicidar-se, ele partiu de malas e bagagens para o apartamento de sua mãe. Ia ficar lá uns tempos até acertar tudo.
Lúcia deu um trato na aparência do escritor, já que ele participava desde 1960 do programa esportivo "Grande Resenha Facit" na TV Rio, por obra e graça de Walter Clark, e era, portanto, um artista. Ela teve uma gravidez nada normal e um parto difícil. Daniela, a filha, nasceu com 1,5 quilo, e não conseguia respirar. Perdeu minutos de oxigenação no cérebro até que seus pulmões funcionassem.
Daniela passou o primeiro ano de vida numa tenda de oxigênio, tinha má circulação nas pernas, chorava sem parar em virtude das dores que sentia. Devido à paralisia cerebral nunca conseguiu andar ou articular um movimento e era irreversivelmente cega.
Nelson escreveu sobre futebol em diversas publicações, como “O Globo” e “Manchete Esportiva”, onde tinha o costume de destacar o personagem da semana, não necessariamente o que melhor jogou, mas o que tinha a história mais interessante.
Ele era um cara diferente da época, não tinha compromisso com o politicamente correto que hoje preocupa muita gente. Ele falava o que pensava e com frases que viraram verdadeiras pérolas.
Nelson Rodrigues nunca aproveitou suas credenciais de jornalista e escritor famoso para ter contato com os jogadores do clube ou acompanhar treinamentos, mas recebeu de um setorista, jornalista que trabalha cobrindo o dia a dia dos clubes, as informações sobre uma das primeiras atividades do craque Mário Sérgio e perguntou em sua coluna: "Será que está nascendo um craque?".
Ele era um cronista tão perfeito que nem precisava ver o jogo. O resultado da partida, as escaramuças dos jogadores, os esquemas táticos, tudo isso não passava de detalhes secundários aos seus olhos. Pouco lhe interessava a distribuição de beques ou atacantes no gramado. Dizia que o relato dessas banalidades cabia aos “idiotas da objetividade”. A missão que Nélson Rodrigues outorgou a si mesmo era outra: traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão brasileira – o futebol. E costumava dizer, que no futebol, o pior cego é o que só vê a bola.
Nelson teve sério problema de vesícula e, após a operação de alto risco ficou três meses sem publicar sua coluna no jornal de Wainer. Sua coluna em "A Manchete Esportiva" também deixou de ser publicada de novembro de 1958 a março de 1959.
Os anos 70 marcaram o início dos anos duros da ditadura militar no Brasil. Nelson, conhecido e admirado pelos militares, lutou para tirar da prisão os amigos Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura. Com mais de 57 anos, ele se sentia desgastado, sem espaço — seu apartamento vivia lotado de enfermeiras por causa de sua filha, enfim, era chegada a hora de se separar de Lúcia, o que ocorreu sem traumas.
Logo em seguida foi morar com Helena Maria, que era 35 anos mais nova que ele, e que trabalhava no jornal. Em 1972 começou nova luta: seu filho, Nelsinho era um dos terroristas mais procurados pelas forças armadas. "Prancha", seu codinome, foi preso em 30 de março de 1972. Dois anos antes, quando seu filho já vivia na clandestinidade, Nelson conseguiu com o presidente da República, general Médici, que ele saísse do país. Nelsinho não aceitou o privilégio.
O drama de Nelsinho se desenrolou longe dos olhos de Nelson. Apesar disso, face ao seu prestígio e contatos com os militares, era muito procurado para ajudar pessoas em apuros com o regime militar. De 1969 a 1973 ele teve participação ativa na localização, libertação ou fuga de diversos suspeitos de crimes políticos. Após a prisão de Nelsinho, começou a luta para localizá-lo e procurar mantê-lo vivo, pois a tortura corria solta.
Nelson escreveu "Anti-Nelson Rodrigues", no final de 1973. Em 1974, a peça fazia bela carreira no teatro do Serviço Nacional do Teatro. O autor faz alguns exames e foi levado de imediato para São Paulo para ser operado de um aneurisma da aorta. Passou por duas operações, quase morreu, retornou ao Rio e, apesar de terminantemente proibido pelo médico, voltou a fumar. Em abril de 1977 foi internado com uma arritmia ventricular grave e nova insuficiência respiratória. Elza voltou para casa e passaram a viver juntos outra vez.
Na verdade, já se encontravam há tempos quase todas as noites no restaurante "O bigode do meu tio", em Vila Isabel, de propriedade de Joffre.
O autor escreveu sua grande e última peça — "A Serpente" — em meados de 1979, pouco antes de seu filho Nelsinho iniciar greve de fome com 13 companheiros, os últimos presos políticos cariocas, com a finalidade de transformar a anistia ampla em anistia total e irrestrita. Finalmente, no dia 23 de agosto, dia do aniversário de seu pai, Nelsinho foi autorizado a deixar a prisão e assistir ao nascimento da filha Cristiana. No dia 16 de outubro Nelsinho recebeu a liberdade condicional, mas não pode ver seu pai: ele estava inconsciente no hospital Pró-Cardíaco.
Nelson Rodrigues faleceu na manhã do domingo 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos de idade, deixando seis filhos: Jofre, Nelson, Maria Lucia, Paulo César, Sonia e Daniela. No fim da tarde daquele dia ele faria 13 pontos na Loteria Esportiva, num "bolo" com seu irmão Augusto e alguns amigos de "O Globo". Dois meses depois, Elza cumpriu o seu pedido — de, ainda em vida, gravar o seu nome ao lado do dele na lápide, sob a inscrição: "Unidos para além da vida e da morte. É só". Nelson foi enterrado no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Nelson Rodrigues morreu 21 dias depois de o zagueiro Edinho marcar o gol do título carioca do Fluminense contra o Vasco, no Maracanã. Com a saúde muito debilitada, não poderia ter grandes emoções e estava proibido de assistir aos jogos do clube do seu coração.
O seu filho Nelsinho contou que Nelson acompanhou a partida pelo rádio. E ele teve todo o cuidado do mundo para contar ao pai que o Fluminense era campeão estadual pela 24ª vez na história. Nelson comemorou sentando novamente em sua máquina de escrever, e tentando digitar a última coluna da vida. Eventualmente desistiu e a ditou para o filho.
No texto que teve o título "Fluminense campeão demais", publicado no jornal “O Globo”, o escritor disse que o elenco do seu time era "fabuloso do goleiro ao ponta-esquerda" e apenas os "lorpas e pascácios não viam que o futebol brasileiro estava encarnado nos craques tricolores”. Acreditou até o fim que o Fluminense era o melhor time do mundo, apesar de os fatos provarem o contrário.
Nelson ainda fez história na televisão brasileira. Participou de mesas-redondas com comentaristas como Luis Mendes e João Saldanha. Foi pioneiro na teledramaturgia brasileira, ao escrever para a TV Rio a novela "A Morta Sem Espelho". Acompanhou a adaptação de sua obra para o cinema e chegou a colaborar com o roteiro de "A Dama do Lotação", de Neville D’Almeida, "Bonitinha, mas ordinária" e "Álbum de Família", de Braz Chediak. Escreveu, também, os diálogos para dois filmes: "Somos Dois", de Milton Rodrigues, e "Como ganhar na loteria sem perder a esportiva", de J. B. Tanko. (Pesquisa: Nilo Dias)
Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
O torcedor maldito (II)
Mas, em maio de 1931 Euricles também faleceu e Roberto Marinho então convidou Mário Filho para assumir a página de esportes de “O Globo”. Mário aceitou desde que pudesse levar seus irmãos Nelson e Joffre. Roberto Marinho concordou, mas com a condição de só pagar salário a Mário Filho.
Nelson trabalhou alguns meses no jornal “O Tempo”. Joffre foi para “A Nota”, onde estava o outro irmão, Milton. Com a ajuda de Mário Martins e o beneplácito de Roberto Marinho, Mário Filho lançou o seu jornal, “Mundo Esportivo”, justamente no fim do campeonato de futebol. Sem ter assunto, inventaram algo que seria uma mina de dinheiro anos depois: o concurso das escolas de samba.
Em 1932, Nelson Rodrigues teve sua carteira assinada em “O Globo”, um ano após começar a trabalhar naquele diário, com um ordenado de 500 mil réis por mês. Entregava todo o dinheiro para sua mãe e recebia uns trocados de volta para comprar seus cigarros (média de quatro carteiras por dia).
Para arranjar mais algum dinheiro, trabalhou como redator da firma “Ponce & Kamp; Irmão”, distribuidora no Rio dos filmes da “RKO Radio Pictures”. Criava textos para os anúncios dos filmes nos jornais.
Como cronista esportivo, Nelson escreveu textos antológicos sobre o Fluminense Football Club, para quem torcia fervorosamente. A maioria dos textos foram publicados no “Jornal dos Sports“. Junto com seu irmão, o jornalista Mário Filho, Nelson foi fundamental para que o clássico Fla-Flu conquistasse o prestígio que tem hoje, de ser um dos grandes clássicos do futebol brasileiro.
Nelson Rodrigues criou e evocou personagens fictícios como “Gravatinha” e “Sobrenatural de Almeida”, para elaborar textos a respeito dos acontecimentos esportivos relacionados ao clube do coração.
Nesse meio tempo estava apaixonado por Loreta Carbonell uma argentina de olhos azuis, bailarina do Municipal e por Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, também bailarina, uma linda e jovem morena. Dividia com seu irmão Joffre a paixão por ela. Depois vieram Clélia, uma estudante de Copacabana e Alice, professora de Ipanema.
A tosse seca e uma febre baixa, porém persistente, ao por do sol, foram os avisos dados a Nelson, além de sua magreza. Sua irmã Stella, já médica, arranjou uma consulta. Foi diagnosticada a tuberculose pulmonar, o grande fantasma do ano de 1934. Por falta de um diagnóstico precoce, o autor já havia, com apenas 21 anos, arrancado todos os dentes e posto dentadura, numa tentativa de debelar a febre que insistia em não ir embora.
Foi, então, para Campos do Jordão (SP), local recomendado para tratamento, sozinho e sem saber se voltaria. Foi a primeira de uma série de seis internações. Roberto Marinho, sabendo das dificuldades da família, continuou pagando seu ordenado normalmente. Nelson passou 14 meses no “Sanatórinho”, de abril de 1934 a junho de 1935.
Nelson pediu ao secretário do jornal “O Globo” que o transferisse da página de esportes para a de cultura. Queria escrever sobre ópera. Com a ajuda de Roberto Marinho conseguiu a transferência e começou arrasando com "Esmeralda", ópera brasileira do compositor Carlos de Mesquita. Foi sua única incursão nessa área.
Em abril de 1936, a terrível doença atacou seu irmão Joffre, com 21 anos, que foi levado para o Sanatório, em Correias (RJ). Nelson ficou ao seu lado durante sete meses. No dia 16 de dezembro de 1936, ele faleceu.
Em 1937 a redação do jornal só tinha homens. Após muita conversa Roberto Marinho concordou em contratar Elza Bretanha, apadrinhada do diretor administrativo, como secretária de Henrique Tavares, gerente de “O Globo Juvenil”. Voltando de sua segunda estada em Campos de Jordão, Nelson foi informado da presença de Elza, 19 anos, moradora do Estácio e dura na queda. Mas ele sentenciou, essa está no papo. Errou.
Nelson se aproximou de Elza, expôs sua situação de penúria de saúde e financeira, e falou em casamento. Consultada sua família, não encontrou objeção. Afinal, já tinha 25 anos. A mãe de Elza, dona Concetta, siciliana das boas, quase teve um ataque, tendo a honra de ter sido acompanhada nisso por Roberto Marinho. Ele disse a Elza: "Está sabendo que vai se casar com um rapaz muito inteligente e de grande talento, mas pobre, absolutamente preguiçoso e doente? Sua mãe está coberta de razão!"
Mesmo assim marcaram para se casar no dia do aniversário de Elza, 8 de maio de 1939. Se fosse preciso, fugiriam. Porém, em 13 de maio, mandou para a noiva um recado que dizia: "Amor, estou com a alma cheia de pressentimentos tristes". Era a tuberculose que o atacava novamente.
Nos quatro meses em que ficou internado, Nelson mostrou seu lado ciumento. Vivia atormentado com isso e, na volta, acabou desfazendo o noivado. Mas o coração falou mais forte do que o infundado ciúme e marcaram novamente o casamento, contrariando a mãe da noiva e o patrão de ambos.
No dia 29 de abril de 1940, sem externar qualquer anormalidade, Elza saiu para trabalhar, foi para a casa de uma amiga onde trocou de roupa e casou-se no civil, diante do juiz.
Os irmãos de Elza ficaram sabendo e falaram até em matá-lo. Nelson, com a alma leve, alugou uma casinha no Engenho Novo. Era sua volta ao subúrbio. Compraram móveis de segunda mão e Mário, o irmão, lhe deu de presente a cama de casal e a penteadeira.
Finalmente dona Concetta deu o "de acordo" e o casamento religioso se realizou, em 17 de maio, após Nelson, com quase 28 anos, ter sido batizado, ter feito a primeira comunhão e estudado o catecismo, como manda a Igreja Católica.
Após seis meses de casamento, certa manhã Nelson acordou e comunicou a Elza que estava cego. Não enxergava nada. Descobriu, indo ao médico, que se tratava de uma seqüela da tuberculose. Tomou muito antiinflamatório, melhorou, mas 30% de sua visão estava perdida para sempre, nos dois olhos. Apesar do estado de penúria em que se encontravam, Nelson pediu a Elza que deixasse o emprego quando se casassem.
Logo que pode comprou um telefone e ligava para ela de hora em hora. Saudades ou ciúme? Nelson procurava uma saída para seu aperto financeiro. Elza estava grávida e seu salário estava estagnado nos 500 mil réis mensais. Um dia, ao passar em frente ao Teatro Rival, viu uma enorme fila que se formava para assistir "A família Lerolero", de R. Magalhães Júnior. Alguém comentou: "Esta chanchada está rendendo os tubos!" Uma luz se acendeu na cabeça de Nelson. “Por que não escrever teatro?”
Em seguida nasceu Joffre, o seu primeiro filho. E Nelson, por ordens médicas, não podia ficar perto do filho. Para piorar as coisas, descobriu que também tinha uma úlcera do duodeno. O médico prescreveu rígido regime alimentar e mandou que não tomasse mais café e parasse de fumar, coisa que nunca fez.
Depois de muito trabalho conseguiu levar à cena a peça teatral “A mulher sem pecado”, com direção de Rodolfo Mayer, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Lá ficou por duas semanas e não teve repercussão nenhuma perante o público. Alguns críticos e amigos elogiaram, e isso bastou ao autor.
Em fevereiro de 1945 foi surpreendido por uma proposta inacreditável: Freddy Chateaubriand, lhe convidou para trabalhar na revista “O Cruzeiro”, com salário de cinco contos de réis, mais de sete vezes o que lhe pagava Roberto Marinho.
Nelson só não disse o “sim” na hora, porque pediu para falar antes com o doutor Roberto, a quem devia favores. Esse não se opôs, como ainda desejou-lhe boa sorte e deu-lhe dez mil cruzeiros. Nelson foi para seu novo emprego: diretor de redação das revistas “Detetive” e “O Guri”.
Em março de 1945 foi atacado, novamente, pela tuberculose. O ano anterior havia sido ótimo: além do lançamento em livro do “Vestido de noiva”, ele viu seu filho crescer com saúde e Elza esperava um novo filho. Resolveram ir todos para Campos de Jordão, inclusive a sogra, dona Concetta. Depois de uma semana viram que aquilo não fazia sentido e a família retornou. Em junho teve alta e, face à proximidade do parto de sua mulher, voltou correndo para o Rio. Nasceu, então, Nelsinho.
Uma mulher chamou a atenção de Nelsom nas coxias do Teatro Phoenix, quando da encenação de “Anjo negro”. Era Eleonor Bruno, conhecida como “Nonoca”, linda "mingnonne", tímida, recatada e soprano lírico, que estava ali para tomar conta de sua filha de apenas 13 anos, Nicete, que estreava como atriz. Embora nunca tivesse reclamado, seu casamento não ia bem, por isso Nelson teve um caso com “Nonoca”, sob às bênçãos da família dela.
Alugou um pequeno apartamento em Copacabana, em sociedade com o amigo Pompeu de Souza, para servir-lhes de "garçonnière", até que num dia de 1950 sua esposa Elza bateu na porta, fez um escândalo e ele voltou com o rabo entre as pernas para casa. Seu romance com “Nonoca” terminou ali.
Em 1949 Freddy Chateaubriand foi comandar o jornal "Diário da Noite" e levou Nelson consigo. Para trás ficou a personagem “Suzana Flag”, que havia rendido muito sucesso e dinheiro. O autor não agüentava mais. Em seu lugar surgiu “Myrna”, a nova máscara feminina do biografado. A diferença era que “Myrna” respondia a cartas de leitoras.
Em 1950 Nelson deu adeus a Freddy Chateaubriand e aos "Diários Associados" e ficou esperando convites de outros jornais. Ficou um ano esperando. Nesse período, salvaram a família as economias de Elza e um "bico" no “Jornal dos Sports”, de seu irmão Mário Filho. No ano seguinte saiu do buraco e foi para o jornal “Última Hora”, com salário inicial de 10 mil cruzeiros, considerado não tão ruim, tendo em vista seu baixíssimo prestígio naquela época. (Pesquisa: Nilo Dias)
Nelson trabalhou alguns meses no jornal “O Tempo”. Joffre foi para “A Nota”, onde estava o outro irmão, Milton. Com a ajuda de Mário Martins e o beneplácito de Roberto Marinho, Mário Filho lançou o seu jornal, “Mundo Esportivo”, justamente no fim do campeonato de futebol. Sem ter assunto, inventaram algo que seria uma mina de dinheiro anos depois: o concurso das escolas de samba.
Em 1932, Nelson Rodrigues teve sua carteira assinada em “O Globo”, um ano após começar a trabalhar naquele diário, com um ordenado de 500 mil réis por mês. Entregava todo o dinheiro para sua mãe e recebia uns trocados de volta para comprar seus cigarros (média de quatro carteiras por dia).
Para arranjar mais algum dinheiro, trabalhou como redator da firma “Ponce & Kamp; Irmão”, distribuidora no Rio dos filmes da “RKO Radio Pictures”. Criava textos para os anúncios dos filmes nos jornais.
Como cronista esportivo, Nelson escreveu textos antológicos sobre o Fluminense Football Club, para quem torcia fervorosamente. A maioria dos textos foram publicados no “Jornal dos Sports“. Junto com seu irmão, o jornalista Mário Filho, Nelson foi fundamental para que o clássico Fla-Flu conquistasse o prestígio que tem hoje, de ser um dos grandes clássicos do futebol brasileiro.
Nelson Rodrigues criou e evocou personagens fictícios como “Gravatinha” e “Sobrenatural de Almeida”, para elaborar textos a respeito dos acontecimentos esportivos relacionados ao clube do coração.
Nesse meio tempo estava apaixonado por Loreta Carbonell uma argentina de olhos azuis, bailarina do Municipal e por Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, também bailarina, uma linda e jovem morena. Dividia com seu irmão Joffre a paixão por ela. Depois vieram Clélia, uma estudante de Copacabana e Alice, professora de Ipanema.
A tosse seca e uma febre baixa, porém persistente, ao por do sol, foram os avisos dados a Nelson, além de sua magreza. Sua irmã Stella, já médica, arranjou uma consulta. Foi diagnosticada a tuberculose pulmonar, o grande fantasma do ano de 1934. Por falta de um diagnóstico precoce, o autor já havia, com apenas 21 anos, arrancado todos os dentes e posto dentadura, numa tentativa de debelar a febre que insistia em não ir embora.
Foi, então, para Campos do Jordão (SP), local recomendado para tratamento, sozinho e sem saber se voltaria. Foi a primeira de uma série de seis internações. Roberto Marinho, sabendo das dificuldades da família, continuou pagando seu ordenado normalmente. Nelson passou 14 meses no “Sanatórinho”, de abril de 1934 a junho de 1935.
Nelson pediu ao secretário do jornal “O Globo” que o transferisse da página de esportes para a de cultura. Queria escrever sobre ópera. Com a ajuda de Roberto Marinho conseguiu a transferência e começou arrasando com "Esmeralda", ópera brasileira do compositor Carlos de Mesquita. Foi sua única incursão nessa área.
Em abril de 1936, a terrível doença atacou seu irmão Joffre, com 21 anos, que foi levado para o Sanatório, em Correias (RJ). Nelson ficou ao seu lado durante sete meses. No dia 16 de dezembro de 1936, ele faleceu.
Em 1937 a redação do jornal só tinha homens. Após muita conversa Roberto Marinho concordou em contratar Elza Bretanha, apadrinhada do diretor administrativo, como secretária de Henrique Tavares, gerente de “O Globo Juvenil”. Voltando de sua segunda estada em Campos de Jordão, Nelson foi informado da presença de Elza, 19 anos, moradora do Estácio e dura na queda. Mas ele sentenciou, essa está no papo. Errou.
Nelson se aproximou de Elza, expôs sua situação de penúria de saúde e financeira, e falou em casamento. Consultada sua família, não encontrou objeção. Afinal, já tinha 25 anos. A mãe de Elza, dona Concetta, siciliana das boas, quase teve um ataque, tendo a honra de ter sido acompanhada nisso por Roberto Marinho. Ele disse a Elza: "Está sabendo que vai se casar com um rapaz muito inteligente e de grande talento, mas pobre, absolutamente preguiçoso e doente? Sua mãe está coberta de razão!"
Mesmo assim marcaram para se casar no dia do aniversário de Elza, 8 de maio de 1939. Se fosse preciso, fugiriam. Porém, em 13 de maio, mandou para a noiva um recado que dizia: "Amor, estou com a alma cheia de pressentimentos tristes". Era a tuberculose que o atacava novamente.
Nos quatro meses em que ficou internado, Nelson mostrou seu lado ciumento. Vivia atormentado com isso e, na volta, acabou desfazendo o noivado. Mas o coração falou mais forte do que o infundado ciúme e marcaram novamente o casamento, contrariando a mãe da noiva e o patrão de ambos.
No dia 29 de abril de 1940, sem externar qualquer anormalidade, Elza saiu para trabalhar, foi para a casa de uma amiga onde trocou de roupa e casou-se no civil, diante do juiz.
Os irmãos de Elza ficaram sabendo e falaram até em matá-lo. Nelson, com a alma leve, alugou uma casinha no Engenho Novo. Era sua volta ao subúrbio. Compraram móveis de segunda mão e Mário, o irmão, lhe deu de presente a cama de casal e a penteadeira.
Finalmente dona Concetta deu o "de acordo" e o casamento religioso se realizou, em 17 de maio, após Nelson, com quase 28 anos, ter sido batizado, ter feito a primeira comunhão e estudado o catecismo, como manda a Igreja Católica.
Após seis meses de casamento, certa manhã Nelson acordou e comunicou a Elza que estava cego. Não enxergava nada. Descobriu, indo ao médico, que se tratava de uma seqüela da tuberculose. Tomou muito antiinflamatório, melhorou, mas 30% de sua visão estava perdida para sempre, nos dois olhos. Apesar do estado de penúria em que se encontravam, Nelson pediu a Elza que deixasse o emprego quando se casassem.
Logo que pode comprou um telefone e ligava para ela de hora em hora. Saudades ou ciúme? Nelson procurava uma saída para seu aperto financeiro. Elza estava grávida e seu salário estava estagnado nos 500 mil réis mensais. Um dia, ao passar em frente ao Teatro Rival, viu uma enorme fila que se formava para assistir "A família Lerolero", de R. Magalhães Júnior. Alguém comentou: "Esta chanchada está rendendo os tubos!" Uma luz se acendeu na cabeça de Nelson. “Por que não escrever teatro?”
Em seguida nasceu Joffre, o seu primeiro filho. E Nelson, por ordens médicas, não podia ficar perto do filho. Para piorar as coisas, descobriu que também tinha uma úlcera do duodeno. O médico prescreveu rígido regime alimentar e mandou que não tomasse mais café e parasse de fumar, coisa que nunca fez.
Depois de muito trabalho conseguiu levar à cena a peça teatral “A mulher sem pecado”, com direção de Rodolfo Mayer, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Lá ficou por duas semanas e não teve repercussão nenhuma perante o público. Alguns críticos e amigos elogiaram, e isso bastou ao autor.
Em fevereiro de 1945 foi surpreendido por uma proposta inacreditável: Freddy Chateaubriand, lhe convidou para trabalhar na revista “O Cruzeiro”, com salário de cinco contos de réis, mais de sete vezes o que lhe pagava Roberto Marinho.
Nelson só não disse o “sim” na hora, porque pediu para falar antes com o doutor Roberto, a quem devia favores. Esse não se opôs, como ainda desejou-lhe boa sorte e deu-lhe dez mil cruzeiros. Nelson foi para seu novo emprego: diretor de redação das revistas “Detetive” e “O Guri”.
Em março de 1945 foi atacado, novamente, pela tuberculose. O ano anterior havia sido ótimo: além do lançamento em livro do “Vestido de noiva”, ele viu seu filho crescer com saúde e Elza esperava um novo filho. Resolveram ir todos para Campos de Jordão, inclusive a sogra, dona Concetta. Depois de uma semana viram que aquilo não fazia sentido e a família retornou. Em junho teve alta e, face à proximidade do parto de sua mulher, voltou correndo para o Rio. Nasceu, então, Nelsinho.
Uma mulher chamou a atenção de Nelsom nas coxias do Teatro Phoenix, quando da encenação de “Anjo negro”. Era Eleonor Bruno, conhecida como “Nonoca”, linda "mingnonne", tímida, recatada e soprano lírico, que estava ali para tomar conta de sua filha de apenas 13 anos, Nicete, que estreava como atriz. Embora nunca tivesse reclamado, seu casamento não ia bem, por isso Nelson teve um caso com “Nonoca”, sob às bênçãos da família dela.
Alugou um pequeno apartamento em Copacabana, em sociedade com o amigo Pompeu de Souza, para servir-lhes de "garçonnière", até que num dia de 1950 sua esposa Elza bateu na porta, fez um escândalo e ele voltou com o rabo entre as pernas para casa. Seu romance com “Nonoca” terminou ali.
Em 1949 Freddy Chateaubriand foi comandar o jornal "Diário da Noite" e levou Nelson consigo. Para trás ficou a personagem “Suzana Flag”, que havia rendido muito sucesso e dinheiro. O autor não agüentava mais. Em seu lugar surgiu “Myrna”, a nova máscara feminina do biografado. A diferença era que “Myrna” respondia a cartas de leitoras.
Em 1950 Nelson deu adeus a Freddy Chateaubriand e aos "Diários Associados" e ficou esperando convites de outros jornais. Ficou um ano esperando. Nesse período, salvaram a família as economias de Elza e um "bico" no “Jornal dos Sports”, de seu irmão Mário Filho. No ano seguinte saiu do buraco e foi para o jornal “Última Hora”, com salário inicial de 10 mil cruzeiros, considerado não tão ruim, tendo em vista seu baixíssimo prestígio naquela época. (Pesquisa: Nilo Dias)
Nelson Rodrigues foi chamado de "anjo pornográfico".
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
O torcedor maldito (I)
Nelson Rodrigues nasceu da cidade do Recife (PE), em 23 de agosto de 1912. Foi o quinto filho dos 14 que o casal Maria Esther Falcão e o jornalista Mário Rodrigues colocaram no mundo. Além dele, os irmãos Milton, Roberto, Mário Filho, Stella e Joffre, também nasceram na capital pernambucana. Já Maria Clara, Augustinho, Irene, Paulo, Helena, Dorinha, Elsinha e Dulcinha nasceram no Rio de Janeiro.
Durante três capítulos contarei a história daquele que foi chamado de “maldito”, por questionar os valores morais de uma sociedade que vivia da aparência. Nelson foi o autor de textos como “Bonitinha, mas ordinária”, “Vestido de Noiva” e “Os sete gatinhos”. Nos jornais, escreveu as crônicas de “A vida como ela é”.
No esporte, entretanto, foi o primeiro autor a enxergar o verdadeiro papel que o futebol desempenha para a definição da idéia de “ser brasileiro”. Nelson escreveu frases antológicas dentro e fora do esporte. Eis algumas:
“O Fla X Flu nasceu 40 minutos antes do nada.“, “Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”; “Se o Fluminense jogasse no céu, morreria para vê-lo jogar”; “O Flamengo tem mais torcida, o Fluminense tem mais gente”; “O Fluminense é o único time tricolor do mundo. O resto são só times de três cores”; “Sou tricolor, sempre fui tricolor. Eu diria que já era Fluminense em vidas passadas, muito antes da presente encarnação”; “Pode-se identificar um tricolor entre milhares, entre milhões. Ele se distingue dos demais por uma irradiação específica e deslumbradora”; "Grande são os outros, o Fluminense é enorme”. E por aí vai.
Mario Rodrigues, pai de Nelson era deputado e jornalista do “Jornal do Recife”. Em razão de problemas políticos teve que se mudar para o Rio de Janeiro, onde conseguiu trabalho como redator parlamentar do jornal “Correio da Manhã”. Isso em 1916. Depois sua esposa dona Maria Esther e os filhos chegaram ao Rio de Janeiro a bordo de um vapor do Lloyd.
Para cobrir as despesas de viagem venderam tudo o que tinham no Recife. No Rio de Janeiro a família ficou hospedada na casa de Olegário Mariano por algum tempo. Em agosto do mesmo ano conseguiram alugar uma casa na Aldeia Campista, bairro da Zona Norte da cidade, na rua Alegre, 135, atual rua Almirante João Cândido Brasil.
Nelson costumava dizer que seu grande laboratório e inspiração foi a infância vivida na Zona Norte da cidade. De lá saíram para suas crônicas e peças teatrais as situações provocadas pela moral vigente na classe média dos primeiros anos do século XX, e suas tensões morais e materiais. Sua infância foi marcada por este clima.
Era um garoto retraído e um leitor compulsivo de livros românticos do século XIX. Nesta época ocorreu também para Nelson a descoberta do futebol, uma paixão que o acompanharia por toda a vida e que lhe marcaria o estilo literário. E passou também a torcer pelo Fluminense, junto com o irmão Mário Filho. Mas não iam aos jogos porque não tinham dinheiro para tal.
Em 1919, quando completou sete anos, foi matriculado na Escola Prudente de Morais, que ficava próxima da sua casa. Aprendeu a ler rapidamente, recebendo muitos elogios da primeira professora, dona Amália Cristófaro.
Certa ocasião Nelson causou espanto na escola, ao escrever uma redação em que contava um caso de adultério, seguido de morte. Fatos como esse se tornaram mais tarde, marca registrada do escritor.
Em 1922, Mário Rodrigues mudou-se para a Tijuca, o que evidenciava uma grande melhoria de vida. Como seu pai estava sempre envolvido em política e jornalismo, Nélson seguia sua vida de estudante, até que em 1926 foi expulso por rebeldia, do Colégio Batista, na Tijuca, quando cursava a 2ª Série do Ginasial. Depois desse episódio, teve que ser matriculado no Curso Normal de Preparatórios, na rua do Ouvidor, pois seu pai queria que futuramente ele prestasse exames no renomado Colégio Pedro II.
Nélson seguidamente visitava o pai que chegou ao cargo de diretor no jornal, mas este não queria que seus filhos seguissem a carreira de jornalista. Sonhava em ver Nelson e seus irmãos como advogados e as meninas médicas.
Em 1924 Mário envolveu-se em uma batalha entre Epitácio Pessoa e Artur Bernardes, o que lhe custou um ano de cadeia. Tudo porque noticiou que usineiros pernambucanos haviam presenteado a esposa do presidente Epitácio Pessoa, dona Mary, com um colar no valor de 120 contos de réis. Antes de ser preso, Mário e a família tinham se mudado para uma casa na rua Inhangá, próxima ao Copacabana Palace.
Com a prisão, Mário deixou de receber o salário do jornal. A esposa recebia apenas o suficiente para pagar o aluguel da casa. Quem ajudou o jornalista nesse período de dificuldades foi Geraldo Rocha, dono do jornal “A Noite”, concorrente do “Correio da Manha”. Não fosse isso, com certeza sua família teria passado fome.
Ao ser libertado, e de volta ao jornal, Mário pediu demissão porque o dono do “Correio da Manhã” estava tentando se aproximar de seu desafeto, Epitácio Pessoa. Foi quando surgiu o seu próprio jornal, “A Manhã”. Nelson foi trabalhar no jornal de seu pai, como repórter policial, com um salário de 30 mil réis por mês. Tinha pouco mais de 13 anos.
O jornal tinha colaboradores ilustres como Antônio Torres, Medeiros e Albuquerque, Agripino Grieco, Ronald de Carvalho e Maurício de Lacerda. Além desses, havia a turma da casa: Danton Jobim, Orestes Barbosa, Renato Viana, Joracy Camargo, Odilon Azevedo e Henrique Pongetti. Outra figura de “A Manhã” era Apparício Torelly, que mais tarde se autodenominaria "Barão de Itararé".
Nelson chegou a criar um tablóide de quatro páginas, de nome “Alma Infantil”, nascido da troca de correspondências com seu primo Augusto Rodrigues Filho, que não conhecia pessoalmente e que morava no Recife. Ele sonhava ser como seu pai, um espadachim verbal. Depois de cinco números e muitos ataques a políticos pernambucanos e cariocas, Nelson desistiu do tablóide.
A irmã Dorinha morreu em setembro de 1927, aos nove meses, vitima de gastrenterite. Em 1928 a família se mudou para uma nova e luxuosa casa na rua Joaquim Nabuco, 62, em Copacabana. Foi uma época em que esbanjaram dinheiro e fartura.
Nelson e seus irmãos mais velhos trabalhavam no jornal “A Manhã”. Milton era o secretário, Roberto ilustrava algumas reportagens, Mário Filho começou como gerente, indo depois para a página literária e posteriormente a de esportes. Nelson havia abandonado desde 1927 a terceira série do ginásio no Curso Normal de Preparatórios. Nunca mais voltou à escola.
Com uma coluna assinada na página principal, Nelson publicou o seu primeiro artigo em 7 de fevereiro de 1928, com o título "A tragédia de pedra...", com reticências e tudo. Depois, em outro artigo criticou duramente a Ruy Barbosa, a “Águia de Haia”. Seu pai não gostou e Nelson perdeu o espaço na página 3, voltando a ser repórter policial pelos cinco meses que se seguiram.
Quando voltou a publicar sua coluna na página três, o jornal se encontrava mal administrado e cheio de dívidas. O sócio de seu pai, Antônio Faustino Porto, que há tempos vinha arcando com os pagamentos urgentes, tornou-se sócio majoritário e ofereceu o emprego de diretor a Mário. Este aceitou, mas ficou só um dia. A intervenção do novo dono em seus artigos fez com que ele e a família deixassem o jornal.
Amigo de Melo Viana, vice-presidente da República, no dia 21 de março de 1928, quando completou 43 anos, e apenas 49 dias depois de perder o jornal “A Manhã”, Mário Rodrigues lançou seu novo jornal, “Crítica”, que alcançou grande sucesso, chegando a ter uma circulação diária de 130 mil exemplares.
Desconfiado de que um membro da família Rodrigues tivesse envolvimento na morte do argentino Carlos Pinto, repórter de “A Democracia”, o tenente-coronel Carlos Reis mandou a Polícia prender todos os Rodrigues que encontrasse. Foram, pai e irmãos, todos presos. Nelson escapou por não se encontrar no Rio, em viagem para o Recife. Estava em um estado depressivo, por não saber ao certo por quem estava mais apaixonado: Lilia, Carolina ou Marisa Torá, estrela da companhia teatral de Alda Garrido.
Ao lado dos primos Augusto e Netinha, com quem manteve durante algum tempo um namoro epistolar, conheceu Recife e Olinda, a praia da Boa Viagem e, com Augusto, a zona de mulheres do Cais do Porto, considerada a maior da América do Sul. Sua prima, não se sabe como, tirou-o da depressão, fazendo-o voltar a todo vapor para a redação da “Crítica”.
Mas o jornal existiria por pouco tempo. Em 26 de dezembro de 1929, a primeira página de “Crítica” trouxe o relato da separação do casal Sylvia Serafim e João Thibau Jr. Ilustrada por Roberto e assinada pelo repórter Orestes Barbosa, a matéria provocou uma tragédia.
Sylvia, a esposa que se desquitara do marido e cujo nome fora exposto na reportagem, invadiu a redação de “Crítica” e atirou em Roberto com uma arma comprada naquele dia. Nelson testemunhou o crime e a agonia do irmão, que morreu dias depois.
Apenas 67 dias depois da morte do filho, Mário Rodrigues sofreu, aos 44 anos, uma trombose cerebral. Faleceu dias depois de encefalite aguda e hemorragia. Diante de tão sentidas perdas a família não encontrou mais condições de morar na mesma casa. Mudaram-se para outra casa na rua Sousa Lima, também em Copacabana.
Sylvia, apoiada pelas sufragistas e por boa parte da imprensa concorrente de “Crítica”, foi absolvida do crime. Finalmente, durante a Revolução de 30, a gráfica e a redação de “Crítica” foram empastelados e o jornal deixou de existir.
Sem seu chefe e sem fonte de sustento, a família Rodrigues mergulhou em decadência financeira. Foram anos de fome e dificuldades para todos.
Os irmãos começam a procurar emprego. Foram meses batendo em portas fechadas. Começaram a vender tudo o que tinham para poder sobreviver e, devido ao aluguel sempre atrasado, eram obrigados a mudar de casa a cada três meses. Até que um dia uma porta se abriu para Mário Filho e os outros irmãos penetraram por ela.
Irineu Marinho havia fundado o jornal “O Globo” em 1925, mas, apenas 21 dias após o jornal circular pela primeira vez, morreu de enfarte. Roberto Marinho, filho de Irineu, era o sucessor natural, mas achou-se muito inexperiente para comandar um jornal. Chamou um velho companheiro de seu pai, Euricles de Matos, para tocar o negócio. (Pesquisa: Nilo Dias)
Nelson Rodrigues e filhos no Maracanã, durante um jogo do Fluminense. (Foto: Divulgação)
Durante três capítulos contarei a história daquele que foi chamado de “maldito”, por questionar os valores morais de uma sociedade que vivia da aparência. Nelson foi o autor de textos como “Bonitinha, mas ordinária”, “Vestido de Noiva” e “Os sete gatinhos”. Nos jornais, escreveu as crônicas de “A vida como ela é”.
No esporte, entretanto, foi o primeiro autor a enxergar o verdadeiro papel que o futebol desempenha para a definição da idéia de “ser brasileiro”. Nelson escreveu frases antológicas dentro e fora do esporte. Eis algumas:
“O Fla X Flu nasceu 40 minutos antes do nada.“, “Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”; “Se o Fluminense jogasse no céu, morreria para vê-lo jogar”; “O Flamengo tem mais torcida, o Fluminense tem mais gente”; “O Fluminense é o único time tricolor do mundo. O resto são só times de três cores”; “Sou tricolor, sempre fui tricolor. Eu diria que já era Fluminense em vidas passadas, muito antes da presente encarnação”; “Pode-se identificar um tricolor entre milhares, entre milhões. Ele se distingue dos demais por uma irradiação específica e deslumbradora”; "Grande são os outros, o Fluminense é enorme”. E por aí vai.
Mario Rodrigues, pai de Nelson era deputado e jornalista do “Jornal do Recife”. Em razão de problemas políticos teve que se mudar para o Rio de Janeiro, onde conseguiu trabalho como redator parlamentar do jornal “Correio da Manhã”. Isso em 1916. Depois sua esposa dona Maria Esther e os filhos chegaram ao Rio de Janeiro a bordo de um vapor do Lloyd.
Para cobrir as despesas de viagem venderam tudo o que tinham no Recife. No Rio de Janeiro a família ficou hospedada na casa de Olegário Mariano por algum tempo. Em agosto do mesmo ano conseguiram alugar uma casa na Aldeia Campista, bairro da Zona Norte da cidade, na rua Alegre, 135, atual rua Almirante João Cândido Brasil.
Nelson costumava dizer que seu grande laboratório e inspiração foi a infância vivida na Zona Norte da cidade. De lá saíram para suas crônicas e peças teatrais as situações provocadas pela moral vigente na classe média dos primeiros anos do século XX, e suas tensões morais e materiais. Sua infância foi marcada por este clima.
Era um garoto retraído e um leitor compulsivo de livros românticos do século XIX. Nesta época ocorreu também para Nelson a descoberta do futebol, uma paixão que o acompanharia por toda a vida e que lhe marcaria o estilo literário. E passou também a torcer pelo Fluminense, junto com o irmão Mário Filho. Mas não iam aos jogos porque não tinham dinheiro para tal.
Em 1919, quando completou sete anos, foi matriculado na Escola Prudente de Morais, que ficava próxima da sua casa. Aprendeu a ler rapidamente, recebendo muitos elogios da primeira professora, dona Amália Cristófaro.
Certa ocasião Nelson causou espanto na escola, ao escrever uma redação em que contava um caso de adultério, seguido de morte. Fatos como esse se tornaram mais tarde, marca registrada do escritor.
Em 1922, Mário Rodrigues mudou-se para a Tijuca, o que evidenciava uma grande melhoria de vida. Como seu pai estava sempre envolvido em política e jornalismo, Nélson seguia sua vida de estudante, até que em 1926 foi expulso por rebeldia, do Colégio Batista, na Tijuca, quando cursava a 2ª Série do Ginasial. Depois desse episódio, teve que ser matriculado no Curso Normal de Preparatórios, na rua do Ouvidor, pois seu pai queria que futuramente ele prestasse exames no renomado Colégio Pedro II.
Nélson seguidamente visitava o pai que chegou ao cargo de diretor no jornal, mas este não queria que seus filhos seguissem a carreira de jornalista. Sonhava em ver Nelson e seus irmãos como advogados e as meninas médicas.
Em 1924 Mário envolveu-se em uma batalha entre Epitácio Pessoa e Artur Bernardes, o que lhe custou um ano de cadeia. Tudo porque noticiou que usineiros pernambucanos haviam presenteado a esposa do presidente Epitácio Pessoa, dona Mary, com um colar no valor de 120 contos de réis. Antes de ser preso, Mário e a família tinham se mudado para uma casa na rua Inhangá, próxima ao Copacabana Palace.
Com a prisão, Mário deixou de receber o salário do jornal. A esposa recebia apenas o suficiente para pagar o aluguel da casa. Quem ajudou o jornalista nesse período de dificuldades foi Geraldo Rocha, dono do jornal “A Noite”, concorrente do “Correio da Manha”. Não fosse isso, com certeza sua família teria passado fome.
Ao ser libertado, e de volta ao jornal, Mário pediu demissão porque o dono do “Correio da Manhã” estava tentando se aproximar de seu desafeto, Epitácio Pessoa. Foi quando surgiu o seu próprio jornal, “A Manhã”. Nelson foi trabalhar no jornal de seu pai, como repórter policial, com um salário de 30 mil réis por mês. Tinha pouco mais de 13 anos.
O jornal tinha colaboradores ilustres como Antônio Torres, Medeiros e Albuquerque, Agripino Grieco, Ronald de Carvalho e Maurício de Lacerda. Além desses, havia a turma da casa: Danton Jobim, Orestes Barbosa, Renato Viana, Joracy Camargo, Odilon Azevedo e Henrique Pongetti. Outra figura de “A Manhã” era Apparício Torelly, que mais tarde se autodenominaria "Barão de Itararé".
Nelson chegou a criar um tablóide de quatro páginas, de nome “Alma Infantil”, nascido da troca de correspondências com seu primo Augusto Rodrigues Filho, que não conhecia pessoalmente e que morava no Recife. Ele sonhava ser como seu pai, um espadachim verbal. Depois de cinco números e muitos ataques a políticos pernambucanos e cariocas, Nelson desistiu do tablóide.
A irmã Dorinha morreu em setembro de 1927, aos nove meses, vitima de gastrenterite. Em 1928 a família se mudou para uma nova e luxuosa casa na rua Joaquim Nabuco, 62, em Copacabana. Foi uma época em que esbanjaram dinheiro e fartura.
Nelson e seus irmãos mais velhos trabalhavam no jornal “A Manhã”. Milton era o secretário, Roberto ilustrava algumas reportagens, Mário Filho começou como gerente, indo depois para a página literária e posteriormente a de esportes. Nelson havia abandonado desde 1927 a terceira série do ginásio no Curso Normal de Preparatórios. Nunca mais voltou à escola.
Com uma coluna assinada na página principal, Nelson publicou o seu primeiro artigo em 7 de fevereiro de 1928, com o título "A tragédia de pedra...", com reticências e tudo. Depois, em outro artigo criticou duramente a Ruy Barbosa, a “Águia de Haia”. Seu pai não gostou e Nelson perdeu o espaço na página 3, voltando a ser repórter policial pelos cinco meses que se seguiram.
Quando voltou a publicar sua coluna na página três, o jornal se encontrava mal administrado e cheio de dívidas. O sócio de seu pai, Antônio Faustino Porto, que há tempos vinha arcando com os pagamentos urgentes, tornou-se sócio majoritário e ofereceu o emprego de diretor a Mário. Este aceitou, mas ficou só um dia. A intervenção do novo dono em seus artigos fez com que ele e a família deixassem o jornal.
Amigo de Melo Viana, vice-presidente da República, no dia 21 de março de 1928, quando completou 43 anos, e apenas 49 dias depois de perder o jornal “A Manhã”, Mário Rodrigues lançou seu novo jornal, “Crítica”, que alcançou grande sucesso, chegando a ter uma circulação diária de 130 mil exemplares.
Desconfiado de que um membro da família Rodrigues tivesse envolvimento na morte do argentino Carlos Pinto, repórter de “A Democracia”, o tenente-coronel Carlos Reis mandou a Polícia prender todos os Rodrigues que encontrasse. Foram, pai e irmãos, todos presos. Nelson escapou por não se encontrar no Rio, em viagem para o Recife. Estava em um estado depressivo, por não saber ao certo por quem estava mais apaixonado: Lilia, Carolina ou Marisa Torá, estrela da companhia teatral de Alda Garrido.
Ao lado dos primos Augusto e Netinha, com quem manteve durante algum tempo um namoro epistolar, conheceu Recife e Olinda, a praia da Boa Viagem e, com Augusto, a zona de mulheres do Cais do Porto, considerada a maior da América do Sul. Sua prima, não se sabe como, tirou-o da depressão, fazendo-o voltar a todo vapor para a redação da “Crítica”.
Mas o jornal existiria por pouco tempo. Em 26 de dezembro de 1929, a primeira página de “Crítica” trouxe o relato da separação do casal Sylvia Serafim e João Thibau Jr. Ilustrada por Roberto e assinada pelo repórter Orestes Barbosa, a matéria provocou uma tragédia.
Sylvia, a esposa que se desquitara do marido e cujo nome fora exposto na reportagem, invadiu a redação de “Crítica” e atirou em Roberto com uma arma comprada naquele dia. Nelson testemunhou o crime e a agonia do irmão, que morreu dias depois.
Apenas 67 dias depois da morte do filho, Mário Rodrigues sofreu, aos 44 anos, uma trombose cerebral. Faleceu dias depois de encefalite aguda e hemorragia. Diante de tão sentidas perdas a família não encontrou mais condições de morar na mesma casa. Mudaram-se para outra casa na rua Sousa Lima, também em Copacabana.
Sylvia, apoiada pelas sufragistas e por boa parte da imprensa concorrente de “Crítica”, foi absolvida do crime. Finalmente, durante a Revolução de 30, a gráfica e a redação de “Crítica” foram empastelados e o jornal deixou de existir.
Sem seu chefe e sem fonte de sustento, a família Rodrigues mergulhou em decadência financeira. Foram anos de fome e dificuldades para todos.
Os irmãos começam a procurar emprego. Foram meses batendo em portas fechadas. Começaram a vender tudo o que tinham para poder sobreviver e, devido ao aluguel sempre atrasado, eram obrigados a mudar de casa a cada três meses. Até que um dia uma porta se abriu para Mário Filho e os outros irmãos penetraram por ela.
Irineu Marinho havia fundado o jornal “O Globo” em 1925, mas, apenas 21 dias após o jornal circular pela primeira vez, morreu de enfarte. Roberto Marinho, filho de Irineu, era o sucessor natural, mas achou-se muito inexperiente para comandar um jornal. Chamou um velho companheiro de seu pai, Euricles de Matos, para tocar o negócio. (Pesquisa: Nilo Dias)
Nelson Rodrigues e filhos no Maracanã, durante um jogo do Fluminense. (Foto: Divulgação)
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
A Liga contra o futebol
O futebol sempre provocou polêmicas. Uma das mais interessantes envolvendo o chamado “esporte bretão” envolveu dois grandes nomes da literatura brasileira: Coelho Netto, ardoroso defensor do futebol e Lima Barreto, crítico feroz do novo esporte.
Depois se ficou sabendo que o debate envolvendo o futebol, não passava de um subterfúgio para esconder uma rixa pessoal entre os dois escritores. Em 15 de fevereiro de 1918, Lima Barreto colocou em uma de suas colunas, que “Coelho Netto era o sujeito mais nefasto que apareceu no meio intelectual brasileiro”.
Afonso Henriques de Lima Barreto, mais conhecido por Lima Barreto, foi um jornalista e escritor, nascido no Rio de Janeiro em 13 de maio de 1881 e falecido na mesma cidade, em 1 de novembro de 1922. E o que ele teve a ver com o futebol?
Lima Barreto foi um grande opositor do futebol, tendo escrito uma série de artigos em jornais e revistas da época, nos quais dizia que o esporte inventado pelos ingleses, contribuía para a desorganização do viver urbano.
Com espaço assegurado nos círculos literários, com três romances e uma infinidade de crônicas, Lima inaugurou seus ataques em 15 de agosto de 1918 no artigo “Sobre o Foot-ball” no jornal “Brás Cubas”:
“Diabo! A cousa é assim tão séria? Pois um divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apaixonado a um escrito? (...)
Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões: isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas, não senhor! A cousa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas...
Não conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhecê-los; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligências entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo nada de foot-ball.“
Transformando-se no paladino do combate ao futebol, Lima elegeria justamente Coelho Neto como o principal adversário. Teve início então um acirrado confronto pelas páginas da imprensa carioca, logo depois de um empolgante discurso de Neto, por ocasião da inauguração da piscina do Fluminense, em 1919 — discurso que para Lima parecia um verdadeiro pecado, manifestado na crônica “Histrião ou literato”, na “Revista Contemporânea”, de 15 de fevereiro de 1919:
Lima Barreto acusava Coelho Neto de fazer “somente brindes de sobremesa para satisfação dos ricaços”, e sustentava que a simpatia de Neto pelo futebol seria mero oportunismo, um meio de agradar às ricas famílias, vindo de “um homem que não entende sequer a alma de uma criada negra”.
A partir daí, Lima aumentou a quantidade e intensidade dos ataques, em crônicas agressivas e irônicas, nas quais surgia a imagem de um jogo brutal e sem sentido, totalmente diferente do elemento de regeneração social preconizado por Coelho Neto, para desespero da imprensa carioca, quase toda ela empenhada em prestigiar o futebol.
Havia raríssimas exceções como o jornalista e escritor Carlos Sussekind de Mendonça, que aliou-se a Lima Barreto na luta contra o futebol, que ele considerava entre outros aspectos “micróbio de corrupção e imbecilidade”, “estrangeirismo estéril e inútil”.
Lima Barreto chamava o esporte de “blefe de regeneração social”, salientando os malefícios “físicos, sanitários, sociais e culturais” de sua disseminação. Em 1921, então editor do jornal “A Época”, do Rio de Janeiro, Sussekind de Mendonça teve seu livro “O sport está deseducando a mocidade brasileira” - hoje obra raríssima - publicado com o subtítulo “dedicado a Lima Barreto”.
Ainda em 1919, outros intelectuais se juntaram a Lima Barreto. Entre eles o doutor Mário de Lima Valverde, que meses antes discorrera para Lima sobre os malefícios à saúde provocados pela prática de futebol, o jornalista Antonio Noronha Santos e o “homem de letras”, Coelho Cavalcanti. Foi quando eles resolveram criar, em março de 1919, uma “Liga Contra o Futebol”, cuja constituição foi discretamente anunciada em pequena nota na edição do “Rio-Jornal”, de 12 de março.
A Liga serviria para debelar do convívio social, o que ele chamava de “Caixa de Pandora”, cujos malefícios seduziam inadvertidamente os homens de bem daquelas metrópoles modernas.
A notícia de que Lima Barreto e alguns companheiros tratavam de fundar uma “Liga contra o Football”, levou um grupo de esportistas à sua casa, para obter mais esclarecimentos sobre os destinos e fins da entidade. Ele respondeu que conversara com o médico Mário de Lima Valverde em uma confeitaria do Méier. Na ocasião, ele expôs os prejuízos de toda a ordem que o abuso imoderado dos sports, sobretudo o football, trazia à nossa economia vital.
Tempos depois Lima Barreto explicou que a Liga não foi avante, não somente pelos motivos que Sussekind Mendonça escreveu no seu livro, mas também porque faltou dinheiro. Quando a Liga foi fundada, Barreto foi alvejado com os mais diversos insultos pelos jornais. Foi até ameaçado.
Lima Barreto denunciava as “verdadeiras atrocidades promovidas pelo futebol”, como na crônica “Divertimento?”, publicada na revista “Careta”, em 4 de dezembro de 1920, em que destacava os inúmeros conflitos e constantes brigas ocorridos nos campos, com tumultos e batalhas entre torcidas diferentes, registradas nos jornais diários a cada segunda-feira, culminando com o tiroteio num jogo do Metropolitano, em 18 de dezembro de 1920.
Lima criticava os “favores e favorezinhos” que os clubes de futebol recebiam do Governo. Segundo ele, os clubes de futebol eram “portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça, etc”. Isso porque os defensores do futebol, com Coelho Neto à frente, sustentavam ser “um sport que só pode ser praticado por pessoas da mesma educação e cultivo “ (Jornal Sports, de 6 de agosto de 1915) e reclamavam “que alguns jogadores não tinham o nível social de há uns anos atrás” (Jornal do Brasil, de 3 de maio de 1920).
Porém, não eram apenas econômicas e sociais as distinções combatidas por Lima Barreto, mas também raciais, “vedando aos negros a participação nos grandes clubes de futebol”. Em 1921 quando o próprio presidente Epitácio Pessoa proibiu jogadores negros de fazerem parte do selecionado que ia à Argentina disputar um campeonato, Lima foi duro nas críticas, publicando no mesmo dia 1 de outubro de 1921 dois artigos: “O meu conselho” e “Bendito foot-ball” — no jornal “A . B. C.”, onde afirmava que “quando não havia foot-ball, a gente de cor podia ir representar o Brasil em qualquer parte”.
Vendo nos sócios dos grandes clubes os herdeiros dos antigos senhores de escravos, Lima enxergou no futebol “uma das formas de continuação da dominação exercida durante décadas pelo regime escravista, onde se trocava a violência pela humilhação de quem paga impostos para sustentar com subvenções oficiais, um jogo ao qual não tem acesso”.
O alvo preferencial de Lima Barreto foi justamente o literato que mais vivamente argumentava em prol do esporte naqueles dias: Coelho Netto. Seus ataques eram às vezes irônicos; outras vezes buscavam argumentações mais firmes, porém suas críticas eram sempre diretas:
“(...) O senhor Neto esqueceu-se da dignidade do seu nome, da grandeza da sua missão de homem de letras, para ir discursar em semelhante futilidade. Os literatos, os grandes, sempre souberam morrer de fome, mas não rebaixaram a sua arte para simples prazer dos ricos. Os que sabiam alguma coisa de letras e tal faziam, eram os histriões; e estes nunca se sentaram nas sociedades sábias”.
Henrique Coelho Netto, ou simplesmente Coelho Netto foi um dos mais destacados intelectuais brasileiros do período. A atração que o futebol exercia sobre ele manifestou-se já em seu romance “Esfinge”, publicado em 1908, em que o personagem James Marian, um inglês hóspede da pensão de miss Barkley, tinha o hábito de “aos domingos, sair cedo com seu material de tênis e com roupa para o foot-ball”.
Adorava futebol e associou-se ao Fluminense Football Club, do qual foi o grande orador e chegou mesmo a compor seu primeiro hino. Era um apaixonado pelo clube, prova disso que quando era deputado federal foi protagonista, bengala à mão, da primeira invasão de campo que se tem notícia no futebol.
Tudo por conta de um pênalti marcado em prol do Flamengo, quando o placar já era desfavorável ao Fluminense em 3 X 2, num Fla-Flu disputado no campo da rua Paissandu, em 22 de outubro de 1916. Junto com Coelho Neto também invadiu o campo o delegado de Polícia, Ataliba Dutra e boa parte da torcida. Esse ato provocou a anulação do jogo.
Coelho Netto acreditava que o espraiamento do futebol facilitaria a intervenção no cotidiano de diversos grupos de trabalhadores, propagandeando os “sentimentos nobres” atribuídos as “raças superiores”, como o senso de disciplina, a harmonia social e o amor à pátria.
O escritor explicitou esse pensamento em trechos da letra do primeiro hino do Fluminense, em 1915: “(...) Lutando em justos de alegria/O nosso esforço se congraça/Em torno do ideal viril/De avigorar a nova raça do Brasil.”
Coelho Netto educou seus filhos dentro do ambiente esportivo do seu clube do coração, o Fluminense. O filho João Coelho Netto, o “Preguinho”. Nascido em 1905, talvez tenha sido seu maior orgulho, além da melhor personificação de seu pensamento esportivo.
O apelido “Preguinho” ele ganhou quando tinha apenas oito anos de idade, e numa brincadeira com companheiros, Foi jogado num rio e, nervoso por não saber nadar direito, atrapalhou-se e afundou como um prego. “Preguinho” teve uma educação esportiva variada, tendo sido campeão de basquete nos anos de 1924, 1925, 1926, 1927 e 1931; foi campeão de atletismo em 1931; praticou com destaque o pólo-aquático, o vôlei, a natação e o hóquei sobre patins.
Mas teve às maiores glórias no futebol: foi campeão carioca em 1933, 1937 e 1938 pelo Fluminense, clube que defendeu desde 1925. Como atacante marcou 184 gols pelo tricolor, e teve atuações destacadas que o levaram à seleção brasileira. Participou da primeira Copa do Mundo da história,em 1930, no Uruguai. Foi ele que marcou o primeiro gol brasileiro na competição.
O preparo técnico e físico fizeram dele nas décadas de 20 e 30, presença obrigatória em seleções cariocas e brasileiras. Em que pese todo o sucesso, jogou a vida inteira como amador: em 1933 durante o período mais intenso de profissionalização de atletas no Rio de Janeiro, recusou-se a receber dinheiro para defender o clube. (Pesquisa: Nilo Dias)
Coelho Netto.
Depois se ficou sabendo que o debate envolvendo o futebol, não passava de um subterfúgio para esconder uma rixa pessoal entre os dois escritores. Em 15 de fevereiro de 1918, Lima Barreto colocou em uma de suas colunas, que “Coelho Netto era o sujeito mais nefasto que apareceu no meio intelectual brasileiro”.
Afonso Henriques de Lima Barreto, mais conhecido por Lima Barreto, foi um jornalista e escritor, nascido no Rio de Janeiro em 13 de maio de 1881 e falecido na mesma cidade, em 1 de novembro de 1922. E o que ele teve a ver com o futebol?
Lima Barreto foi um grande opositor do futebol, tendo escrito uma série de artigos em jornais e revistas da época, nos quais dizia que o esporte inventado pelos ingleses, contribuía para a desorganização do viver urbano.
Com espaço assegurado nos círculos literários, com três romances e uma infinidade de crônicas, Lima inaugurou seus ataques em 15 de agosto de 1918 no artigo “Sobre o Foot-ball” no jornal “Brás Cubas”:
“Diabo! A cousa é assim tão séria? Pois um divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apaixonado a um escrito? (...)
Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões: isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas, não senhor! A cousa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas...
Não conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhecê-los; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligências entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo nada de foot-ball.“
Transformando-se no paladino do combate ao futebol, Lima elegeria justamente Coelho Neto como o principal adversário. Teve início então um acirrado confronto pelas páginas da imprensa carioca, logo depois de um empolgante discurso de Neto, por ocasião da inauguração da piscina do Fluminense, em 1919 — discurso que para Lima parecia um verdadeiro pecado, manifestado na crônica “Histrião ou literato”, na “Revista Contemporânea”, de 15 de fevereiro de 1919:
Lima Barreto acusava Coelho Neto de fazer “somente brindes de sobremesa para satisfação dos ricaços”, e sustentava que a simpatia de Neto pelo futebol seria mero oportunismo, um meio de agradar às ricas famílias, vindo de “um homem que não entende sequer a alma de uma criada negra”.
A partir daí, Lima aumentou a quantidade e intensidade dos ataques, em crônicas agressivas e irônicas, nas quais surgia a imagem de um jogo brutal e sem sentido, totalmente diferente do elemento de regeneração social preconizado por Coelho Neto, para desespero da imprensa carioca, quase toda ela empenhada em prestigiar o futebol.
Havia raríssimas exceções como o jornalista e escritor Carlos Sussekind de Mendonça, que aliou-se a Lima Barreto na luta contra o futebol, que ele considerava entre outros aspectos “micróbio de corrupção e imbecilidade”, “estrangeirismo estéril e inútil”.
Lima Barreto chamava o esporte de “blefe de regeneração social”, salientando os malefícios “físicos, sanitários, sociais e culturais” de sua disseminação. Em 1921, então editor do jornal “A Época”, do Rio de Janeiro, Sussekind de Mendonça teve seu livro “O sport está deseducando a mocidade brasileira” - hoje obra raríssima - publicado com o subtítulo “dedicado a Lima Barreto”.
Ainda em 1919, outros intelectuais se juntaram a Lima Barreto. Entre eles o doutor Mário de Lima Valverde, que meses antes discorrera para Lima sobre os malefícios à saúde provocados pela prática de futebol, o jornalista Antonio Noronha Santos e o “homem de letras”, Coelho Cavalcanti. Foi quando eles resolveram criar, em março de 1919, uma “Liga Contra o Futebol”, cuja constituição foi discretamente anunciada em pequena nota na edição do “Rio-Jornal”, de 12 de março.
A Liga serviria para debelar do convívio social, o que ele chamava de “Caixa de Pandora”, cujos malefícios seduziam inadvertidamente os homens de bem daquelas metrópoles modernas.
A notícia de que Lima Barreto e alguns companheiros tratavam de fundar uma “Liga contra o Football”, levou um grupo de esportistas à sua casa, para obter mais esclarecimentos sobre os destinos e fins da entidade. Ele respondeu que conversara com o médico Mário de Lima Valverde em uma confeitaria do Méier. Na ocasião, ele expôs os prejuízos de toda a ordem que o abuso imoderado dos sports, sobretudo o football, trazia à nossa economia vital.
Tempos depois Lima Barreto explicou que a Liga não foi avante, não somente pelos motivos que Sussekind Mendonça escreveu no seu livro, mas também porque faltou dinheiro. Quando a Liga foi fundada, Barreto foi alvejado com os mais diversos insultos pelos jornais. Foi até ameaçado.
Lima Barreto denunciava as “verdadeiras atrocidades promovidas pelo futebol”, como na crônica “Divertimento?”, publicada na revista “Careta”, em 4 de dezembro de 1920, em que destacava os inúmeros conflitos e constantes brigas ocorridos nos campos, com tumultos e batalhas entre torcidas diferentes, registradas nos jornais diários a cada segunda-feira, culminando com o tiroteio num jogo do Metropolitano, em 18 de dezembro de 1920.
Lima criticava os “favores e favorezinhos” que os clubes de futebol recebiam do Governo. Segundo ele, os clubes de futebol eram “portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça, etc”. Isso porque os defensores do futebol, com Coelho Neto à frente, sustentavam ser “um sport que só pode ser praticado por pessoas da mesma educação e cultivo “ (Jornal Sports, de 6 de agosto de 1915) e reclamavam “que alguns jogadores não tinham o nível social de há uns anos atrás” (Jornal do Brasil, de 3 de maio de 1920).
Porém, não eram apenas econômicas e sociais as distinções combatidas por Lima Barreto, mas também raciais, “vedando aos negros a participação nos grandes clubes de futebol”. Em 1921 quando o próprio presidente Epitácio Pessoa proibiu jogadores negros de fazerem parte do selecionado que ia à Argentina disputar um campeonato, Lima foi duro nas críticas, publicando no mesmo dia 1 de outubro de 1921 dois artigos: “O meu conselho” e “Bendito foot-ball” — no jornal “A . B. C.”, onde afirmava que “quando não havia foot-ball, a gente de cor podia ir representar o Brasil em qualquer parte”.
Vendo nos sócios dos grandes clubes os herdeiros dos antigos senhores de escravos, Lima enxergou no futebol “uma das formas de continuação da dominação exercida durante décadas pelo regime escravista, onde se trocava a violência pela humilhação de quem paga impostos para sustentar com subvenções oficiais, um jogo ao qual não tem acesso”.
O alvo preferencial de Lima Barreto foi justamente o literato que mais vivamente argumentava em prol do esporte naqueles dias: Coelho Netto. Seus ataques eram às vezes irônicos; outras vezes buscavam argumentações mais firmes, porém suas críticas eram sempre diretas:
“(...) O senhor Neto esqueceu-se da dignidade do seu nome, da grandeza da sua missão de homem de letras, para ir discursar em semelhante futilidade. Os literatos, os grandes, sempre souberam morrer de fome, mas não rebaixaram a sua arte para simples prazer dos ricos. Os que sabiam alguma coisa de letras e tal faziam, eram os histriões; e estes nunca se sentaram nas sociedades sábias”.
Henrique Coelho Netto, ou simplesmente Coelho Netto foi um dos mais destacados intelectuais brasileiros do período. A atração que o futebol exercia sobre ele manifestou-se já em seu romance “Esfinge”, publicado em 1908, em que o personagem James Marian, um inglês hóspede da pensão de miss Barkley, tinha o hábito de “aos domingos, sair cedo com seu material de tênis e com roupa para o foot-ball”.
Adorava futebol e associou-se ao Fluminense Football Club, do qual foi o grande orador e chegou mesmo a compor seu primeiro hino. Era um apaixonado pelo clube, prova disso que quando era deputado federal foi protagonista, bengala à mão, da primeira invasão de campo que se tem notícia no futebol.
Tudo por conta de um pênalti marcado em prol do Flamengo, quando o placar já era desfavorável ao Fluminense em 3 X 2, num Fla-Flu disputado no campo da rua Paissandu, em 22 de outubro de 1916. Junto com Coelho Neto também invadiu o campo o delegado de Polícia, Ataliba Dutra e boa parte da torcida. Esse ato provocou a anulação do jogo.
Coelho Netto acreditava que o espraiamento do futebol facilitaria a intervenção no cotidiano de diversos grupos de trabalhadores, propagandeando os “sentimentos nobres” atribuídos as “raças superiores”, como o senso de disciplina, a harmonia social e o amor à pátria.
O escritor explicitou esse pensamento em trechos da letra do primeiro hino do Fluminense, em 1915: “(...) Lutando em justos de alegria/O nosso esforço se congraça/Em torno do ideal viril/De avigorar a nova raça do Brasil.”
Coelho Netto educou seus filhos dentro do ambiente esportivo do seu clube do coração, o Fluminense. O filho João Coelho Netto, o “Preguinho”. Nascido em 1905, talvez tenha sido seu maior orgulho, além da melhor personificação de seu pensamento esportivo.
O apelido “Preguinho” ele ganhou quando tinha apenas oito anos de idade, e numa brincadeira com companheiros, Foi jogado num rio e, nervoso por não saber nadar direito, atrapalhou-se e afundou como um prego. “Preguinho” teve uma educação esportiva variada, tendo sido campeão de basquete nos anos de 1924, 1925, 1926, 1927 e 1931; foi campeão de atletismo em 1931; praticou com destaque o pólo-aquático, o vôlei, a natação e o hóquei sobre patins.
Mas teve às maiores glórias no futebol: foi campeão carioca em 1933, 1937 e 1938 pelo Fluminense, clube que defendeu desde 1925. Como atacante marcou 184 gols pelo tricolor, e teve atuações destacadas que o levaram à seleção brasileira. Participou da primeira Copa do Mundo da história,em 1930, no Uruguai. Foi ele que marcou o primeiro gol brasileiro na competição.
O preparo técnico e físico fizeram dele nas décadas de 20 e 30, presença obrigatória em seleções cariocas e brasileiras. Em que pese todo o sucesso, jogou a vida inteira como amador: em 1933 durante o período mais intenso de profissionalização de atletas no Rio de Janeiro, recusou-se a receber dinheiro para defender o clube. (Pesquisa: Nilo Dias)
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Morreu o goleiro do tri
Félix Mielli Venerando, ou simplesmente “Félix”, goleiro tri-campeão do mundo pela Seleção Brasileira, em 1970, no México, nasceu em Caratinga (MG), no dia 24 de dezembro de 1937 e faleceu hoje, às 7 horas, aos 74 anos, no Hospital Vitória, no Jardim Anália Franco, na Zona Leste de São Paulo, em decorrência a um enfisema e posterior a várias paradas cardiorrespiratórias. Félix esteve internado por seis dias. O sepultamento acontecerá amanhã, sábado, pela manhã, no Cemitério do Araçá, na capital paulista.
Félix começou a carreira nas divisões de base do Nacional A.C., de São Paulo. Depois, com apenas 15 anos de idade foi para o Juventus, onde se profissionalizou algum tempo depois. Jogou no time grená de 1951 a 1954. Em 1955 transferiu-se para a Portuguesa de Desportos, onde ficou até 1968.
Sua estréia no clube luso aconteceu no dia 26 de março de 1956, no jogo pelo Torneio Rio-São Paulo Internacional, frente o Newell’s Old Boys, da Argentina, com vitória de 2 X 1. O titular, Cabeção estava defendendo a Seleção Brasileira.
Com a saída de Cabeção em 1957, a Portuguesa contratou no ano seguinte o goleiro Carlos Alberto, que havia jogado no Vasco da Gama. Félix passou a treinar com os aspirantes e foi Campeão Paulista em 1957. Depois foi emprestado ao Nacional, da capital paulista. Retornou à Portuguesa no final de 1960, a pedido do treinador Nena, e assim finalmente, vestiu a camisa número 1 da Lusa. Foi titular absoluto de 1961 até 1963.
De 1964 até 1968, Félix passou a dividir a titularidade com o goleiro Orlando, que veio do São Cristóvão, do Rio de Janeiro. Em 1964, a Lusa participou da Feira Internacional de Nova York, quando enfrentou uma Seleção local, em jogo realizado em Massachusetts.
No time da Portuguesa se destacavam os jogadores Ivair, chamado de “Príncipe” e Henrique Frade. O jogo foi de uma facilidade espantosa. Quando o placar era de 9 X 0, Orlando substituiu Félix, que em vez de sair de campo foi jogar de atacante. Depois de um cruzamento de Almir pela direita, invadiu a área e anotou o 10º gol. O escore final foi 12 X 1.
Quando era jogador da Portuguesa, vestiu a camisa da Seleção Brasileira em quatro oportunidades. Sua estréia se deu pela chamada “Seleção Azul”, num amistoso contra a Hungria, disputado no Pacaembu, dia 22 de novembro de 1965, vencido por 5 X 3. Essa equipe era formada por jogadores paulistas. A escalação foi esta: Félix - Carlos Alberto - Djalma Dias - Procópio e Edílson (Geraldino) - Lima e Nair – Marcos - Prado (Coutinho) - Servílio e Abel.
Félix também participou entre 25 de junho e 1 de julho de 1965, da Copa Roca, realizada em Montevidéu, que teve três empates contra o Uruguai, 0 X 0, 2 X 2 e 1 X 1. O seu jogo de despedida da Portuguesa aconteceu em 3 de março de 1968, num empate sem gols com o São Paulo. Foi vendido para o Fluminense carioca, no dia 20 de julho de 1968, um dia antes do aniversário de 66 anos do clube, por 150 mil cruzeiros.
Félix disputou um total de 48 partidas pela Seleção do Brasil, tendo se sagrado bi-campeão da Copa Rio Branco em 1967 e 1968, e tricampeão do mundo na Copa de 1970. O goleiro sempre guardou uma mágoa, revelada em seu último pedido: "Pelo menos quando eu morrer que parem de dizer que o Brasil ganhou a Copa de 70, apesar do Félix. O Barbosa foi crucificado por não ter ganho a Copa de 50 e eu por ter ganho a Copa de 70. Duas grandes injustiças!"
No clube das Laranjeiras Félix permaneceu até 1977, ano em que encerrou a carreira. Pelo tricolor foi Campeão Carioca em 1969, 1971, 1973 e 1975, além de campeão da Taça de Prata em 1970, do Torneio de Paris em 1976 e de diversos outros torneios. Ele foi indicado ao Fluminense, por ninguém menos do que Telê Santana. Jogou no Fluminense até 1976, quando resolveu encerrar a carreira, após o diagnóstico de uma calcificação de 7 cm no ombro direito.
Em 1970, ganhou o Prêmio Belfort Duarte, destinado a jogadores de futebol profissional que passassem 10 anos sem serem expulsos, e que tenham jogado pelo menos 200 partidas nacionais ou internacionais. Em 1982, Félix ainda teve uma curta experiência como treinador no Avaí, de Santa Catarina, onde participou de 18 jogos, com seis vitórias, quatro empates e oito derrotas.
Neste fim de semana, todos os jogos do Campeonato Brasileiro terão de obedecer um minuto de silêncio em homenagem a Félix. O seu apelido era "Papel" devido a sua magreza e aos vôos espetaculares que dava para agarrar a bola. Segundo diziam os comentaristas esportivos, voava como um papel.
Depois que encerrou a carreira futebolística, Félix foi diretor comercial da “Funilaria Liar Especial Car”, no milionário Jardim Anália Franco, situado na avenida vereador Abel Ferreira nº 1.000. A empresa era de seu genro Angelo Cardoso Coelho, casado com Lígia, uma das três filhas do ex-goleiro.
Os últimos dias de sua vida o ex-goleiro viveu em São Paulo, onde coordenou uma escolinha de futebol comunitário, voltada para as crianças carentes. Além de passar toda a sua experiência dentro e fora dos gramados, em palestras para empresas e faculdades.
Em 2007, trabalhou como diretor técnico da Internacional, de Limeira, que disputou a Série A2 do Campeonato Paulista. Antes passou por Categorias de Base de alguns clubes e ter se aposentado como preparador de goleiros do Fluminense ainda em 1977, onde ficou ainda até 1980. (Pesquisa: Nilo Dias)
domingo, 19 de agosto de 2012
Nos primórdios do futebol
O estádio de futebol mais antigo do mundo encontra-se na cidade inglesa de Sheffield, localizada no Condado de South Yorkshire, centro-norte da Inglaterra. É o “Sandygate Road”, pertencente ao Hallam Football Club, o segundo clube mais antigo da história, fundado em 4 de setembro de 1860. O Hallam joga desde sua fundação nesse campo, que fica num subúrbio de Sheffield.
O “Sandygate Road” existe desde 1804. Inicialmente era utilizado como campo de cricket, o desporto mais popular do século XIX na Inglaterra. Só a partir de meados de 1850 começaram a disputar-se os primeiros encontros não oficiais de futebol. Em 1860 fundou-se num "pub próximo" o Hallam F.C., clube amador que ainda hoje subsiste. Nesse mesmo ano o clube decidiu organizar com os rivais locais o primeiro jogo oficial entre clubes.
A partir daí o recinto passou a ser a base de desenvolvimento do futebol na cidade. Durante dois anos foi o único local onde se realizaram encontros oficiais entre um número, cada vez mais crescente, de clubes na cidade. O primeiro jogo de futebol que se tem notícia, aconteceu no dia 26 de dezembro de 1860, no Estádio “Sandygate Road”, em Sheffield, entre Nort Counts Club X Hallam F.C., com resultado desconhecido.
Em 1862, quando o “Bramall Lane” – atual estádio do Sheffield United – deixou de receber jogos de cricket para dedicar-se ao futebol, já havia 15 clubes na cidade e a utilização de “Sandygate Road” tinha atingido o seu auge de popularidade.
O “Bramall Lane” foi inaugurado em 30 de abril de 1885, inicialmente para a prática do críquete, outro tradicional esporte bretão. Mas sete anos depois passou a ser utilizado para o futebol, quando o Sheffield F.C. e o Sheffield Wednesday, times da cidade, passaram a mandar seus jogos por lá. Em 1889, o Sheffield United, outro clube local, passou a administrar e realizar suas partidas no estádio. O projeto inicial deu condições para abrigar quase 70 mil pessoas, em pé e sentadas.
Apesar de seus 127 anos de existência, a primeira partida de futebol apenas aconteceu em “Bramall Lane” em 29 de dezembro de 1862 entre Sheffield F.C. X Hallam F.C., em prol de um fundo de auxílio a pessoas necessitadas e terminou empatada em 0 X 0.
Chegaram a disputar-se, no mesmo dia, quatro jogos distintos no velho “Sandygate Road”. A popularidade do futebol em Sheffield era tal que se chegou a criar um conjunto de regras exclusivas para os clubes da cidade, conhecidas mais tarde como “Sheffield Rules”, um dos elementos fundamentais no que viria mais tarde a ser a base do "Football Association".
Até ao final do século XIX, “Sandygate Road” continuou a ser utilizado entre Hallam, Sheffield FC, Sheffield United e Sheffield Wednesday, os times da cidade. Mas a crescente popularidade do jogo e a maior capacidade do “Bramall Lane”, construído em 1855 e do “Hillsborough”, inaugurado em 1899, levaram progressivamente a que o pequeno recinto se dedicasse exclusivamente a torneios para clubes amadores na cidade, funcionando como sede regular do Hallam FC. Tal e qual como hoje em dia, mais de um século depois.
O "clássico" ou "derby" mais antigo da história do futebol é jogado até os dias atuais entre o Hallam FC X Sheffield Football Club, fundado em 1857 e reconhecido pela FIFA como o clube de futebol mais antigo do mundo, em atividade.
Em 1855, membros do clube de críquete de Sheffield começaram a realizar partidas informais de futebol, sem nenhum tipo de uso de regras formais, até que os membros Nathaniel Creswick e William Prest decidiram fundar o Sheffield Football Club. A reunião inaugural do Sheffield FC aconteceu em 24 de Outubro de 1857, em Parkfield House, nos subúrbios de Highfield.
A sede original era uma estufa abandonada na "East Bank Road", emprestada por Thomas Asline Ward, pai de Frederick Ward, o primeiro presidente do Sheffield F.C. O espaço ao redor da estufa se tornou o primeiro campo de treino do time.
Nos primeiros tempos o Sheffield F.C. promovia partidas entre seus associados, do tipo “Casados X Solteiros”, ou "Profissionais contra o Resto". Os desportistas Creswick e Prest conceberam às regras de jogo do clube, que foram estabelecidas em 21 de Outubro de 1858, dando origem ao que se achou por bem chamar de “Às Regras de Sheffield”.
Até então, antes da formação da "Football Association", a entidade que controla o futebol na Inglaterra, muitos tipos diferentes de futebol eram praticados no país. Os colégios públicos, por exemplo, realizavam partidas de futebol de acordo com regras próprias, que variavam muito.
Às primeiras regras eram constitutivas e não previam o impedimento, mas introduziram os tiros livre após uma jogada faltosa. As regras do futebol australiano, que viriam algum tempo depois, eram bastante parecidas com “Às Regras de Sheffield”. Sabe-se que em 1862, quando já existiam 15 clubes em Sheffield, essas regras foram adotadas pela "Associação de Futebol " da cidade, criada em 1867.
Até então o Sheffield F.C. só realizava partidas com equipes de fora da região, buscando um desafio maior. Em 30 de Novembro de 1863, o clube se associou à "Football Association", apesar de continuar a seguir suas próprias regras, adotando as regras nacionais apenas em 1878.
O melhor momento do Sheffield F.C. se deu em 1904, quando foi campeão da "FA Amateur Cup", competição criada por sugestão do próprio clube. Também foi vice-campeão na "FA Vase", em 1977, competição exclusive para os times menores do futebol inglês. O clube foi agraciado pela FIFA com a "Ordem de Mérito", recebendo a honraria de estar no "Hall da Fama", por seu papel importante na história do futebol mundial.
Atualmente o clube disputa a "Northern Premier League Division One South", afundado nas complexas castas de divisões amadoras do futebol britânico. Já o clube de futebol mais antigo de todos os tempos é o Foot-Ball Club, fundado na cidade de Edinburgh, na Escócia, em 1824.
O Notts County Football Club, fundado em 28 de novembro de 1862, na cidade de Nottinghan é o clube de futebol profissional mais antigo do mundo, perdendo para o Sheffield, que foi fundado cinco anos antes. Foi um dos fundadores da Liga inglesa.
O futebol no Nottingham Football Club começou nos Jardins de "Cremorne Gardens", quando W. Arkwright e Chas Deakin chutavam uma bola, um contra o outro, terminando empatados em 2 X 2. A Sua definição oficial como clube se deu em 1864 com o nome de Notts Football Club. No período entre 1864 e 1888, foram realizadas partidas amistosas com outros clubes da Inglaterra e Escócia. Neste período o clube chegou a ter oito atletas relacionados na seleção nacional.
O primeiro campeonato oficial disputado pelo Notts foi em 1877, quando participou da Copa da Inglaterra. Com boas apresentações, o time conseguiu chegar as semifinais em 1883 e 1884. De 1883 à 1910 o Notts mandava seus jogos na "Trent Bridge" e ocasionalmente em "Castle Cricket Ground" e na "Floresta de Town Ground", na cidade de Nottingham. Em 1910 passou a sediar seus jogos em "Meadow Lane".
Na temporada de 1890/1891 o Notts terminou em terceiro na Liga Inglesa e foi finalista na Copa, sendo derrotado por 3 X 1 pelo Blackburn Rovers. Já sua primeira conquista se deu em 1894, um ano após seu rebaixamento à segunda divisão, quando um público de 37 mil torcedores assistiu sua vitória na final da "FA Cup" (Copa da Inglaterra), frente ao Bolton pelo placar de 4 X 1, tornando-se o primeiro clube de uma Segunda Divisão a ganhar o torneio.
Em março de 1867 ocorreu o primeiro torneio de clubes: a "Youdan Cup", vencida pelo Hallam F.C.. Lá também ocorreu a primeira partida entre duas seleções fora de Londres e Glasgow: em 10 de março de 1883 se enfrentaram Inglaterra X Escócia. Por fim, foi palco das semifinais da "FA Cup" (Copa da Inglaterra) entre 1889 e 1938.
O Sheffield Wednesday, outro clube antigo de Sheffield foi fundado em 4 de setembro de 1867. Sedia seus jogos no atual "Hillsborough",que até 1914 se chamava "Owlerton Stadium". Possui capacidade para 39.859 pessoas. Nesse estádio foram disputadas partidas da Copa do Mundo de 1966, entre as seleções da Alemanha Oriental, Argentina, Suiça e Espanha, bem como o jogo das quartas de final entre Alemanha Oriental 4 X 0 Uruguai.
Em 15 de abril de 1989 nesse estádio faleceram 96 pessoas na chamada "Tragédia de Hillsborough", que aconteceu durante a partida de futebol entre o Liverpool F.C. X Nottingham Forest F.C., pelas semi-finais da Copa da Associação da Inglaterra. As 96 pessoas falecidas eram torcedoras do Liverpool FC, que acabaram sufocadas (esmagadas) pela grade que separava os torcedores do campo.
O acontecimento serviu para expressivas mudanças no futebol da Inglaterra, que até então sofria com a ação dos "Hooligans", torcedores que cometiam atos violentos durante os jogos de futebol. Depois da tragédia os clubes ingleses foram banidos de competições continentais pela UEFA, entidade máxima do futebol europeu.
Entre as principais mudanças após a tragédia, foram proibidas grades ou alambrados de separação, disponibilidade de cadeiras numeradas para acompanhar as partidas, além da abolição das "gerais", espaço onde os espectadores ficavam em pé. (Pesquisa: Nilo Dias)
"Sandygate Road", o estádio de futebol mais antigo do mundo.
O “Sandygate Road” existe desde 1804. Inicialmente era utilizado como campo de cricket, o desporto mais popular do século XIX na Inglaterra. Só a partir de meados de 1850 começaram a disputar-se os primeiros encontros não oficiais de futebol. Em 1860 fundou-se num "pub próximo" o Hallam F.C., clube amador que ainda hoje subsiste. Nesse mesmo ano o clube decidiu organizar com os rivais locais o primeiro jogo oficial entre clubes.
A partir daí o recinto passou a ser a base de desenvolvimento do futebol na cidade. Durante dois anos foi o único local onde se realizaram encontros oficiais entre um número, cada vez mais crescente, de clubes na cidade. O primeiro jogo de futebol que se tem notícia, aconteceu no dia 26 de dezembro de 1860, no Estádio “Sandygate Road”, em Sheffield, entre Nort Counts Club X Hallam F.C., com resultado desconhecido.
Em 1862, quando o “Bramall Lane” – atual estádio do Sheffield United – deixou de receber jogos de cricket para dedicar-se ao futebol, já havia 15 clubes na cidade e a utilização de “Sandygate Road” tinha atingido o seu auge de popularidade.
O “Bramall Lane” foi inaugurado em 30 de abril de 1885, inicialmente para a prática do críquete, outro tradicional esporte bretão. Mas sete anos depois passou a ser utilizado para o futebol, quando o Sheffield F.C. e o Sheffield Wednesday, times da cidade, passaram a mandar seus jogos por lá. Em 1889, o Sheffield United, outro clube local, passou a administrar e realizar suas partidas no estádio. O projeto inicial deu condições para abrigar quase 70 mil pessoas, em pé e sentadas.
Apesar de seus 127 anos de existência, a primeira partida de futebol apenas aconteceu em “Bramall Lane” em 29 de dezembro de 1862 entre Sheffield F.C. X Hallam F.C., em prol de um fundo de auxílio a pessoas necessitadas e terminou empatada em 0 X 0.
Chegaram a disputar-se, no mesmo dia, quatro jogos distintos no velho “Sandygate Road”. A popularidade do futebol em Sheffield era tal que se chegou a criar um conjunto de regras exclusivas para os clubes da cidade, conhecidas mais tarde como “Sheffield Rules”, um dos elementos fundamentais no que viria mais tarde a ser a base do "Football Association".
Até ao final do século XIX, “Sandygate Road” continuou a ser utilizado entre Hallam, Sheffield FC, Sheffield United e Sheffield Wednesday, os times da cidade. Mas a crescente popularidade do jogo e a maior capacidade do “Bramall Lane”, construído em 1855 e do “Hillsborough”, inaugurado em 1899, levaram progressivamente a que o pequeno recinto se dedicasse exclusivamente a torneios para clubes amadores na cidade, funcionando como sede regular do Hallam FC. Tal e qual como hoje em dia, mais de um século depois.
O "clássico" ou "derby" mais antigo da história do futebol é jogado até os dias atuais entre o Hallam FC X Sheffield Football Club, fundado em 1857 e reconhecido pela FIFA como o clube de futebol mais antigo do mundo, em atividade.
Em 1855, membros do clube de críquete de Sheffield começaram a realizar partidas informais de futebol, sem nenhum tipo de uso de regras formais, até que os membros Nathaniel Creswick e William Prest decidiram fundar o Sheffield Football Club. A reunião inaugural do Sheffield FC aconteceu em 24 de Outubro de 1857, em Parkfield House, nos subúrbios de Highfield.
A sede original era uma estufa abandonada na "East Bank Road", emprestada por Thomas Asline Ward, pai de Frederick Ward, o primeiro presidente do Sheffield F.C. O espaço ao redor da estufa se tornou o primeiro campo de treino do time.
Nos primeiros tempos o Sheffield F.C. promovia partidas entre seus associados, do tipo “Casados X Solteiros”, ou "Profissionais contra o Resto". Os desportistas Creswick e Prest conceberam às regras de jogo do clube, que foram estabelecidas em 21 de Outubro de 1858, dando origem ao que se achou por bem chamar de “Às Regras de Sheffield”.
Até então, antes da formação da "Football Association", a entidade que controla o futebol na Inglaterra, muitos tipos diferentes de futebol eram praticados no país. Os colégios públicos, por exemplo, realizavam partidas de futebol de acordo com regras próprias, que variavam muito.
Às primeiras regras eram constitutivas e não previam o impedimento, mas introduziram os tiros livre após uma jogada faltosa. As regras do futebol australiano, que viriam algum tempo depois, eram bastante parecidas com “Às Regras de Sheffield”. Sabe-se que em 1862, quando já existiam 15 clubes em Sheffield, essas regras foram adotadas pela "Associação de Futebol " da cidade, criada em 1867.
Até então o Sheffield F.C. só realizava partidas com equipes de fora da região, buscando um desafio maior. Em 30 de Novembro de 1863, o clube se associou à "Football Association", apesar de continuar a seguir suas próprias regras, adotando as regras nacionais apenas em 1878.
O melhor momento do Sheffield F.C. se deu em 1904, quando foi campeão da "FA Amateur Cup", competição criada por sugestão do próprio clube. Também foi vice-campeão na "FA Vase", em 1977, competição exclusive para os times menores do futebol inglês. O clube foi agraciado pela FIFA com a "Ordem de Mérito", recebendo a honraria de estar no "Hall da Fama", por seu papel importante na história do futebol mundial.
Atualmente o clube disputa a "Northern Premier League Division One South", afundado nas complexas castas de divisões amadoras do futebol britânico. Já o clube de futebol mais antigo de todos os tempos é o Foot-Ball Club, fundado na cidade de Edinburgh, na Escócia, em 1824.
O Notts County Football Club, fundado em 28 de novembro de 1862, na cidade de Nottinghan é o clube de futebol profissional mais antigo do mundo, perdendo para o Sheffield, que foi fundado cinco anos antes. Foi um dos fundadores da Liga inglesa.
O futebol no Nottingham Football Club começou nos Jardins de "Cremorne Gardens", quando W. Arkwright e Chas Deakin chutavam uma bola, um contra o outro, terminando empatados em 2 X 2. A Sua definição oficial como clube se deu em 1864 com o nome de Notts Football Club. No período entre 1864 e 1888, foram realizadas partidas amistosas com outros clubes da Inglaterra e Escócia. Neste período o clube chegou a ter oito atletas relacionados na seleção nacional.
O primeiro campeonato oficial disputado pelo Notts foi em 1877, quando participou da Copa da Inglaterra. Com boas apresentações, o time conseguiu chegar as semifinais em 1883 e 1884. De 1883 à 1910 o Notts mandava seus jogos na "Trent Bridge" e ocasionalmente em "Castle Cricket Ground" e na "Floresta de Town Ground", na cidade de Nottingham. Em 1910 passou a sediar seus jogos em "Meadow Lane".
Na temporada de 1890/1891 o Notts terminou em terceiro na Liga Inglesa e foi finalista na Copa, sendo derrotado por 3 X 1 pelo Blackburn Rovers. Já sua primeira conquista se deu em 1894, um ano após seu rebaixamento à segunda divisão, quando um público de 37 mil torcedores assistiu sua vitória na final da "FA Cup" (Copa da Inglaterra), frente ao Bolton pelo placar de 4 X 1, tornando-se o primeiro clube de uma Segunda Divisão a ganhar o torneio.
Em março de 1867 ocorreu o primeiro torneio de clubes: a "Youdan Cup", vencida pelo Hallam F.C.. Lá também ocorreu a primeira partida entre duas seleções fora de Londres e Glasgow: em 10 de março de 1883 se enfrentaram Inglaterra X Escócia. Por fim, foi palco das semifinais da "FA Cup" (Copa da Inglaterra) entre 1889 e 1938.
O Sheffield Wednesday, outro clube antigo de Sheffield foi fundado em 4 de setembro de 1867. Sedia seus jogos no atual "Hillsborough",que até 1914 se chamava "Owlerton Stadium". Possui capacidade para 39.859 pessoas. Nesse estádio foram disputadas partidas da Copa do Mundo de 1966, entre as seleções da Alemanha Oriental, Argentina, Suiça e Espanha, bem como o jogo das quartas de final entre Alemanha Oriental 4 X 0 Uruguai.
Em 15 de abril de 1989 nesse estádio faleceram 96 pessoas na chamada "Tragédia de Hillsborough", que aconteceu durante a partida de futebol entre o Liverpool F.C. X Nottingham Forest F.C., pelas semi-finais da Copa da Associação da Inglaterra. As 96 pessoas falecidas eram torcedoras do Liverpool FC, que acabaram sufocadas (esmagadas) pela grade que separava os torcedores do campo.
O acontecimento serviu para expressivas mudanças no futebol da Inglaterra, que até então sofria com a ação dos "Hooligans", torcedores que cometiam atos violentos durante os jogos de futebol. Depois da tragédia os clubes ingleses foram banidos de competições continentais pela UEFA, entidade máxima do futebol europeu.
Entre as principais mudanças após a tragédia, foram proibidas grades ou alambrados de separação, disponibilidade de cadeiras numeradas para acompanhar as partidas, além da abolição das "gerais", espaço onde os espectadores ficavam em pé. (Pesquisa: Nilo Dias)
"Sandygate Road", o estádio de futebol mais antigo do mundo.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Villadoniga, “El Architeto”
Segundo Villadoniga, uruguaio de Montevidéu , nascido 6 de novembro de 1915, foi um dos bons jogadores estrangeiros que atuaram no futebol brasileiro. Jogava como meia. Ele começou a carreira no Atlético Cerro, um pequeno clube uruguaio e depois se transferiu para o Montevidéu Guanderes. Ganhou destaque ao ser tricampeão uruguaio pelo Peñarol nos anos de 1935, 1936 e 1937. Foi contratado pelo Vasco da Gama, do Rio de janeiro para ser um dos destaques do time.
Na equipe carioca jogou entre os anos de 1938 e 1942, atuando ao lado de craques como Zarzur, Niginho, Bernardo Gandulla e Alfredo II. Em 1942 foi para o Palmeiras, que ainda se chamava Palestra Itália, aonde jogou até 1946. A estréia de Villadoniga pelo time alviverde foi em 26 de julho de 1942, numa vitória por 3 X 2 sobre o São Paulo Railway. Sua despedida se deu em 18 de dezembro de 1946, após triunfo sobre o River Plate, da Argentina, por 2 X 1. Em 1947 retornou ao Uruguai, encerrando a carreira em 1950, jogando pelo Peñarol.
Villadoniga ganhou o apelido de “El Architeto” devido a habilidade em armar as jogadas. Era um jogador habilidoso, altamente técnico, cheio de malícia e de invejável espírito de luta. Foi convocado diversas vezes para a Seleção Uruguaia, tendo disputado a Copa América de 1937, na Argentina, quando o seu país foi terceiro colocado.
No Palmeiras foi um grande ídolo, tendo envergado a camisa palmeirense em 134 jogos, com 79 vitórias, 27 empates e 28 derrotas, tendo marcado 50 gols. Os dados constam no "Almanaque do Palmeiras", de Celso Unzelte e Mário Venditti. Dono de uma habilidade extraordinária, foi peça decisiva na célebre partida de 1942, contra o São Paulo, quando o clube mudou de nome, deixando de ser Palestra Itália e passando a chamar-se Sociedade Esportiva Palmeiras.
Jogando pelo Peñarol foi campeão uruguaio nos anos de 1935, 1936 e 1937. Pelo Vasco da Gama conquistou o Torneio Luiz Aranha, em 1940. Ainda jogando pelo Vasco foi considerado o melhor jogador do futebol carioca, nos anos de 1939 e 1940. E pelo Palmeiras foi duas vezes campeão paulista, em 1942 e 1944 e duas vezes campeão da Taça Cidade de São Paulo, 1945 e 1946. E ainda campeão da “Taça de Campeões Rio-São Paulo” de 1942 e Torneio Início Paulista de 1946.
Depois que deixou o futebol Villadoniga foi morar em São Paulo, onde chegou a trabalhar de garçom na “Trattoria Del Michelle”, pertencente a um italiano chamado Michelle, procedente de Tívoli. O local era um reduto palmeirense, pois ficava próximo ao Parque Antártica.
Villadoniga morreu de causas naturais em 26 de outubro de 2006, aos 90 anos de idade. Ele morava na capital paulista, no bairro de Perdizes, e frequentava a sede do Palmeiras. Pouca gente sabe, mas após parar com o futebol passou a jogar bocha, tendo defendido o “Verdão” em vários campeonatos, inclusive sendo campeão interno dessa modalidade. (Pesquisa: Nilo Dias)
Na equipe carioca jogou entre os anos de 1938 e 1942, atuando ao lado de craques como Zarzur, Niginho, Bernardo Gandulla e Alfredo II. Em 1942 foi para o Palmeiras, que ainda se chamava Palestra Itália, aonde jogou até 1946. A estréia de Villadoniga pelo time alviverde foi em 26 de julho de 1942, numa vitória por 3 X 2 sobre o São Paulo Railway. Sua despedida se deu em 18 de dezembro de 1946, após triunfo sobre o River Plate, da Argentina, por 2 X 1. Em 1947 retornou ao Uruguai, encerrando a carreira em 1950, jogando pelo Peñarol.
Villadoniga ganhou o apelido de “El Architeto” devido a habilidade em armar as jogadas. Era um jogador habilidoso, altamente técnico, cheio de malícia e de invejável espírito de luta. Foi convocado diversas vezes para a Seleção Uruguaia, tendo disputado a Copa América de 1937, na Argentina, quando o seu país foi terceiro colocado.
No Palmeiras foi um grande ídolo, tendo envergado a camisa palmeirense em 134 jogos, com 79 vitórias, 27 empates e 28 derrotas, tendo marcado 50 gols. Os dados constam no "Almanaque do Palmeiras", de Celso Unzelte e Mário Venditti. Dono de uma habilidade extraordinária, foi peça decisiva na célebre partida de 1942, contra o São Paulo, quando o clube mudou de nome, deixando de ser Palestra Itália e passando a chamar-se Sociedade Esportiva Palmeiras.
Jogando pelo Peñarol foi campeão uruguaio nos anos de 1935, 1936 e 1937. Pelo Vasco da Gama conquistou o Torneio Luiz Aranha, em 1940. Ainda jogando pelo Vasco foi considerado o melhor jogador do futebol carioca, nos anos de 1939 e 1940. E pelo Palmeiras foi duas vezes campeão paulista, em 1942 e 1944 e duas vezes campeão da Taça Cidade de São Paulo, 1945 e 1946. E ainda campeão da “Taça de Campeões Rio-São Paulo” de 1942 e Torneio Início Paulista de 1946.
Depois que deixou o futebol Villadoniga foi morar em São Paulo, onde chegou a trabalhar de garçom na “Trattoria Del Michelle”, pertencente a um italiano chamado Michelle, procedente de Tívoli. O local era um reduto palmeirense, pois ficava próximo ao Parque Antártica.
Villadoniga morreu de causas naturais em 26 de outubro de 2006, aos 90 anos de idade. Ele morava na capital paulista, no bairro de Perdizes, e frequentava a sede do Palmeiras. Pouca gente sabe, mas após parar com o futebol passou a jogar bocha, tendo defendido o “Verdão” em vários campeonatos, inclusive sendo campeão interno dessa modalidade. (Pesquisa: Nilo Dias)
Villadoniga com a camisa do Palmeiras.
domingo, 12 de agosto de 2012
Bino, o "gato selvagem"
Setembrino da Costa Alves, o “Bino”, nasceu na cidade litorânea de Antonina (PR), no dia 1 de setembro de 1920, mesmo dia em que o Corinthians Paulista foi fundado. Quando “Bino” nasceu, o Corinthians tinha apenas 10 anos. Ele começou a carreira futebolística no Clube Atlético Antoninense, de sua cidade natal.
Em 1938 se transferiu para o Clube Atlético Paranaense, onde ficou até 1939, quando retornou ao time de sua terra, por lá permanecendo até 1941, ano em que se sagrou campeão pelo Antoninense.
Ainda foi vice-campeão do Paraná de Seleções em 1941, jogando pela Seleção de Antonina, evento promovido pela Federação Paranaense de Futebol. A Seleção de Antonina formava com: Bino - Argentino e Marcelo (Lídio) - Dégas - Estoquero e Sêgoa - Edgar – Birulha – Coceira - Pintado e Alcendino.
Em 1942 foi contratado pelo Coritiba F.C., ajudando o clube a conquistar o título estadual daquele ano. Em 1943 assinou com o Corinthians Paulista. Fez sua estréia pelo clube do Parque São Jorge em fevereiro de 1943, num amistoso interestadual contra o Vasco da gama, vencido pelos cariocas.
Em 1950, “Bino” foi lembrado para a Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo, mas acabou não sendo convocado. A imprensa paulista dava como certa a sua convocação, mas o técnico Flávio Costa, que pertencia ao Vasco da Gama, por questões políticas deu preferência aos jogadores cariocas e mais precisamente aos atletas do próprio Vasco, que foi campeão invicto do Rio de Janeiro em 1949 e também campeão em 1950, ano da Copa. Em sua passagem pelo Corinthians, foi convocado para a Seleção Paulista.
No “timão” ficou longos nove anos, oito deles sem conhecer nenhum título. “Bino” deixou o Corinthians em 1951, tendo sido campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1950 e campeão paulista em 1951, mesmo quase não jogando. Estava com 31 anos e disputava apenas amistosos pelo interior do Brasil. O goleiro titular era “Cabeção” e o reserva imediato Gylmar, que depois se tornaria um dos maiores ídolos da história corinthiana.
Foi em sua passagem pelo Corinthians que ganhou os apelidos de “Gato Selvagem” e “Gato Preto”, devido a sua ousadia e a mania de se vestir todo de preto. Era muito rápido, arrojado, voador e capaz de realizar defesas milagrosas. Além disso, dizem que foi um arqueiro por natureza, experiente e com muita lucidez e segurança.
Pelo alvinegro paulista fez 232 jogos, com 133 vitórias, 44 empates e 55 derrotas. Sofreu 383 gols e marcou um contra, segundo números do "Almanaque do Corinthians", de Celso Unzelte. O goleiro paranaense fez parte de um fortíssimo time corintiano: Bino - Domingos da Guia e Belacosa – Palmer - Hélio e Aleixo - Cláudio (ou Colombo) – Luizinho – Nardo - Rafael e Nelsinho (ou Noronha).
Em 1952 retornou ao Paraná, onde jogou pela A.A. Cambarense durante um ano. Em 1956 e 1957, defendeu a o S.C. Rio Branco, de Paranaguá. E de 1958 até 1962, vestiu a camisa da A.A. 29 de Maio, de Antonina, onde encerrou a carreira.
“Bino” faleceu em 30 de agosto de 1979, com 59 anos na cidade de Antonina. Ele foi homenageado com o nome de uma praça de esportes na sua cidade natal, no Bairro do Jardim Maria Luiza, próximo ao local onde iniciou sua carreira esportiva no Clube Atlético Antoninense. (Pesquisa: Nilo Dias)
Em 1938 se transferiu para o Clube Atlético Paranaense, onde ficou até 1939, quando retornou ao time de sua terra, por lá permanecendo até 1941, ano em que se sagrou campeão pelo Antoninense.
Ainda foi vice-campeão do Paraná de Seleções em 1941, jogando pela Seleção de Antonina, evento promovido pela Federação Paranaense de Futebol. A Seleção de Antonina formava com: Bino - Argentino e Marcelo (Lídio) - Dégas - Estoquero e Sêgoa - Edgar – Birulha – Coceira - Pintado e Alcendino.
Em 1942 foi contratado pelo Coritiba F.C., ajudando o clube a conquistar o título estadual daquele ano. Em 1943 assinou com o Corinthians Paulista. Fez sua estréia pelo clube do Parque São Jorge em fevereiro de 1943, num amistoso interestadual contra o Vasco da gama, vencido pelos cariocas.
Em 1950, “Bino” foi lembrado para a Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo, mas acabou não sendo convocado. A imprensa paulista dava como certa a sua convocação, mas o técnico Flávio Costa, que pertencia ao Vasco da Gama, por questões políticas deu preferência aos jogadores cariocas e mais precisamente aos atletas do próprio Vasco, que foi campeão invicto do Rio de Janeiro em 1949 e também campeão em 1950, ano da Copa. Em sua passagem pelo Corinthians, foi convocado para a Seleção Paulista.
No “timão” ficou longos nove anos, oito deles sem conhecer nenhum título. “Bino” deixou o Corinthians em 1951, tendo sido campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1950 e campeão paulista em 1951, mesmo quase não jogando. Estava com 31 anos e disputava apenas amistosos pelo interior do Brasil. O goleiro titular era “Cabeção” e o reserva imediato Gylmar, que depois se tornaria um dos maiores ídolos da história corinthiana.
Foi em sua passagem pelo Corinthians que ganhou os apelidos de “Gato Selvagem” e “Gato Preto”, devido a sua ousadia e a mania de se vestir todo de preto. Era muito rápido, arrojado, voador e capaz de realizar defesas milagrosas. Além disso, dizem que foi um arqueiro por natureza, experiente e com muita lucidez e segurança.
Pelo alvinegro paulista fez 232 jogos, com 133 vitórias, 44 empates e 55 derrotas. Sofreu 383 gols e marcou um contra, segundo números do "Almanaque do Corinthians", de Celso Unzelte. O goleiro paranaense fez parte de um fortíssimo time corintiano: Bino - Domingos da Guia e Belacosa – Palmer - Hélio e Aleixo - Cláudio (ou Colombo) – Luizinho – Nardo - Rafael e Nelsinho (ou Noronha).
Em 1952 retornou ao Paraná, onde jogou pela A.A. Cambarense durante um ano. Em 1956 e 1957, defendeu a o S.C. Rio Branco, de Paranaguá. E de 1958 até 1962, vestiu a camisa da A.A. 29 de Maio, de Antonina, onde encerrou a carreira.
“Bino” faleceu em 30 de agosto de 1979, com 59 anos na cidade de Antonina. Ele foi homenageado com o nome de uma praça de esportes na sua cidade natal, no Bairro do Jardim Maria Luiza, próximo ao local onde iniciou sua carreira esportiva no Clube Atlético Antoninense. (Pesquisa: Nilo Dias)
domingo, 5 de agosto de 2012
Vitor Baptista, o gênio louco
Vitor Baptista poderia ter sido o maior craque do futebol português em todos os tempos, a frente de Eusébio. Poderia, mas não foi. E por um motivo muito simples, deixou-se envolver pelas drogas, o álcool, as mulheres e o mundo do crime. Talvez porque alcançou a fama e ganhou muito dinheiro cedo demais. Tudo terminou para ele de forma trágica, esmolando na rua, pouco tempo antes de morrer.
Ganhou notoriedade pela sua genialidade, excentricidade, irreverência e imprevisibilidade, pois não tinha muita disciplina táctica. Isso tudo contribuiu para que ele conseguisse pular da glória à tragédia em minutos. Foi várias vezes preso, trabalhou como jardineiro, em cemitérios e como funcionário da Câmara de Setúbal para limpar as ruas. Era no Estádio da Luz, do Benfica, que dormia. Acabou sem nada, quando poderia ter tido tudo e nada conquistou.
Seu nome completo: Vitor Manuel Ferreira Baptista. A sua vida não foi nada fácil no início. Oriundo de uma família de classe operária e de pescadores, Vítor Baptista precocemente teve de começar os seus primeiros passos no mundo do trabalho árduo, primeiramente como eletricista e, mais tarde, como ajudante de marceneiro, para ajudar nas despesas de casa.
Com apenas dez anos de idade, o ainda precoce Vítor Baptista ganhou os seus primeiros trocado, levando recados de prostitutas locais, bem como, apanhando moedas que eram jogadas em uma fonte de água.
Aos 16 anos, quando trabalhava de aprendiz de eletricista e nas horas vagas jogava futebol de salão, chamou a atenção de dirigentes do Vitória, de Setubal que o contrataram por 500 escudos por mês e refeições pagas na Pensão Vitória. Talvez a perda do pai ainda cedo, tenha contribuído para tudo que aconteceu de ruim na sua vida.
Contam que num torneio de Futebol de Salão onde foi o segundo artilheiro, ficando atrás apenas de Quinito, que mais tarde foi treinador de futebol, deu o passo decisivo para a carreira de futebolista. Os olheiros do Vitória nem ficaram muito entusiasmados com ele, mas a insistência do jovem rebelde o levou ao time de Setubal.
Aos 18 anos já era titular absoluto da equipe setubalense, tendo vencido uma Taça de Portugal. Foi quando o técnico José Maria Pedroto o convocou para a seleção nacional de Juniores.
Não demorou para chamar a atenção do Benfica, clube para quem se transferiu na maior transação do futebol português na época. O passe de Baptista custou aos cofres benfiquenses três mil contos e mais três jogadores, entre eles o lendário José Torres. Os outros dois foram Praia e Martine. Baptista recebeu luvas no valor de 750 contos e um salário de 8 contos de réis. No Vitória ganhava 2 contos e 500 por mês.
Nesse tempo Vitor Baptista era ainda uma espécie de “menino grande. Para ele, a vida era uma brincadeira, um grande jogo. Tinha coração de ouro, dava a camisa pelos amigos, mas não levava as coisas a sério. Isso haveria de lhe ser fatal.
Uma das muitas histórias que contam sobre Baptista aconteceu num jogo no Estádio das Antas. O técnico Pedroto, no intervalo de uma partida contra o Porto, acendeu um cigarro com um isqueiro de ouro que Vitor Baptista cobiçou. O técnico prometeu-lhe a preciosidade se ele fizesse dois gols. E marcou mesmo, e ao segundo correu para o banco de reservas a reivindicar o prêmio.
Uma das histórias mais impressionantes ocorridas com Baptista aconteceu num clássico contra o Sporting. O atacante do Benfica recebeu uma bola no peito, deu um lençol num adversário, driblou outro e desferiu um petardo para o fundo da rede. Foi quando notou que havia perdido um brinco de ouro e diamante, que custou mais de 10 contos, quantia expressiva para a época. Baptista fez o jogo parar e os atletas dos dois times, o juiz Rosa Santos e os bandeirinhas procuraram a jóia por longos 15 minutos, sem sucesso. Ao final do jogo reclamou: “O brinco valia 12 contos e o prêmio do jogo só 8”.
Ainda assim, pegou seu carro e foi para um restaurante, onde pediu um vinho da melhor qualidade e uma lagosta. Como virou atração e todos os clientes não lhe tiravam o olhar, bebeu o vinho de um só gole e foi embora.
No Benfica ele alternou momentos de rara qualidade com outros que haveriam de o levar à decadência: muitos foram os episódios envolvendo dinheiro, carros, álcool, mulheres e drogas, enfim um cocktail verdadeiramente explosivo e pouco condizente com a vida de um profissional de futebol.
Mesmo jogando em Lisboa, Vítor Baptista preferia morar em Setubal. Comprou um carro “Jaguar” por 150 contos e nos primeiros tempos arranjou um motorista para o conduzir aos treinos. Um motorista com boné, para delírio dos gozadores companheiros de equipe..
Contam que depois dos treinos do Benfica, Vítor Baptista costumava dar algumas voltas com seu “Jaguar”, em redor do Estádio da Luz. Dizia que não era por vaidade, mas sim para secar o cabelo.
Em Outubro de 1976, Vítor Baptista ao renovar seu contrato com o Benfica, deu uma a entrevista ao jornal “A Bola”, quando disse que era o melhor jogador português, citando outros bons, como o Chalana, mas afirmando que ele era o melhor. Foi quando começou a surgir uma lenda no cenário futebolístico português.
O homem era mesmo bom de bola. E também mestre em soltar pérolas como esta, em que, a propósito de um gol que tinha sido atribuído a Eusébio: "O gol foi meu. Eu tava entalado junto à linha de fundo e vi logo que se passasse a bola ao Eusébio ele a perderia. Por isso, fiz pontaria na cabeça do “gajo” e rematei com força. A bola só tabelou na cabeça dele, portanto o gol é meu!"
Suas atitudes impressionavam, parecendo agir como se estivesse fora do normal. Talvez por efeitos das drogas. Um dia amarrou um cão a trave de uma goleira do Estádio da Luz, antes de um treino matinal do Benfica, com os companheiros, direção técnica e alguns torcedores todos de boca aberta, face tamanha atitude. Já ninguém ligava para os seus atos. Houve um jogo em Portimão, que Victor Batista foi expulso por cuspir em um adversário. Mesmo com 10 jogadores em campo, o Benfica acabaou por vencer a muito custo.
Na sua irreverência, Vítor Baptista quando não era escalado para sair jogando, pegava o que era seu e ia embora. Nunca aceitou ser reserva.
No primeiro jogo do Benfica contra o Liverpool, pelas eliminatórias da “Taça dos Campeões da Europa” de 1978, Baptista não quis jogar e simulou uma lesão, fato que quase causou sua expulsão do clube. Isso não aconteceu porque os jogadores Humberto e Toni, seus grandes amigos, evitaram. Esse foi um dos momentos mais difíceis da relação entre Vitor Baptista e o Benfica. O Benfica perdeu o jogo. O jogador Toni confessou à imprensa que a lesão de Baptista era simulada e que ele era um ingrato em relação ao Benfica.
Tudo aconteceu porque ele pediu um “Porsche Carrera” e 650 contos mensais para renovar contrato com o Benfica. O clube concordou em dar o carro, mas não aceitou as pretensões salariais, oferecendo 550 contos. Baptista não quis e logo depois do jogo contra o Liverpool preferiu voltar ao Vitória, de Setubal para ganhar 100 contos de réis por mês. Foi o início do fim.
O primeiro gol que marcou pelo Benfica foi exatamente contra seu ex-clube, o Vitória, de Setubal. Ao longo das sete temporadas em que defendeu o Benfica, participou de 150 jogos oficiais, tendo marcado 62 gols. O seu último gol pelo Benfica foi frente ao rival Sporting num jogo realizado no Estádio da Luz a 12 de Fevereiro de 1978.
Quando dessa sua nova estada no Vitória, dois companheiros de equipe contam que o viram frente a um espelho, dizendo para si mesmo: “Ó meu Deus, porque me fizeste tão belo?" Foi quando nasceu o apelido de “Meu Deus”. E devido a algumas fanfarronices, também lhe chamavam de “Gargantas”. Ainda ganhou outros apelidos: ”O rapaz do brinco” e “O rapaz dos pés de ouro”. Mas para si mesmo era apenas “O Maior”. E isso resumia a sua vida. O maior, para o bem e para o mal.
Depois foi para o Bessa, onde, para variar também se desentendeu com relação a salários. Nesse tempo já andava envolvido com drogas pesadas.
Numa excursão do Benfica à Russia recusou-se a entrar em campo, pois os russos pareciam-lhe amadores, e ele dizia que só jogava contra profissionais. Apresentou-se no aeroporto vestindo calças rotas, enquanto todos os outros jogadores vestiam ternos. E não atendeu aos apelos dos companheiros para que trocasse de roupa.
No regresso a Portugal, organizou uma tourada em Setubal. Estádio cheio, com populares lotando às arquibancadas. Eis que de repente aparece Vitor Baptista sobressaltado. Tinha-se esquecido dos touros.
Quando jogou no Boavista, aparecia nos treinos de “Jaguar”, vestido com terno, gravata e chinelos de dedo. No União de Tomar, onde também jogou, reza a lenda que expulsou várias vezes o treinador do vestiário, pois simplesmente não gostava de ouvir sua voz.
Em 1980, a convite de António Simões, foi parar no San Jose Earthquakes, nos Estados Unidos, onde jogou com George Best, Guus Hiddink, Milan Mandaric e Bill Foulkes, entre outros. Apesar do contrato de 2,5 milhões de dólares e de um luxuoso “Corvette” conversível, Baptista não ficou muito tempo por lá: foram apenas dois jogos e o regresso a Lisboa.
Em Portugal jogou ainda no Amora, no Montijo, na Universidade Tomar, no Monte da Caparica e acabou nos regionais, defendendo o amador Estrelas do Faralhão, onde ganhava só para comer. Nesses clubes quase nunca viu a cor do dinheiro. Para alimentar a dependência da droga e do álcool começou a roubar, sendo preso várias vezes. Mas não deixou nunca de ser um rebelde, um gênio louco, que brigava facilmente com os seus treinadores.
Alguns exemplos: Mário Wilson em 1975, John Mortimore e José Maria Pedroto em 1976 e Juca, que era o técnico da seleção português, em 1977. Com este passou todos os limites. Chegou atrasado ao treino e ainda insultou o técnico, chamando-o de maluco, na frente dos colegas de time. Jogou pela seleção portuguesa em apenas por onze vezes. Devido a esse desentendimento com Juca, foi afastado definitivamente da representação nacional.
Vitor Baptista nasceu em São Julião / Setúbal, Portugal, no dia 18 de Outubro de 1948 e faleceu a 1 de Janeiro de 1999, aos 50 anos de idade, devido a um acidente vascular cerebral. A sua morte foi confirmada pelo diretor do Hospital Distrital de Setúbal, às 11h20min da manhã de 1 de Janeiro de 1999, após ter sido hospitalizado nas vésperas de Ano Novo, em pleno estado de coma.
Ele foi sepultado no dia seguinte no cemitério de Algeruz, na sua terra natal, Setúbal. Muitos foram os que se fizeram presentes ao ato. Por ser uma das lendas do futebol português, todos os jogos da primeira divisão começaram com um minuto de silêncio, em sua homenagem.
Tinha 1,78 m, pesava 76 quilos e jogava como atacante. Em sua atribulada carreira defendeu os seguintes clubes:
1966/1967, Vitória, de Setubal, nenhum jogo e nenhum gol. 1967/1968, Vitória, de Setúbal, 15 Jogos e nenhum gol. 1968/1969, Vitória, de Setubal, 17 jogos e nenhum gol. 1969/1970, Vitória, de Setúbal, 22 jogos e 11 gols. 1970/1971, Vitória, de Setubal, 26 jogos e 22 gols. 1971/1972, Benfica, 17 jogos e 9 gols. 1972/1973, Benfica, 14 jogos e 6 gols. 1973/1974, Benfica, 21 jogos e 9 gols. 1974/1975, Benfica, 23 jogos e 3 gols. 1975/1976, Benfica, 16 jogos e 9 gols. 1976/1977, Benfica, 6 jogos e 6 gols. 1977/1978, Benfica, 15 jogos e 8 gols. 1978/1979, Vitória, de Setubal, 19 jogos e 7 gols. 1979/1980, Boavista, 15 jogos e 8 gols. 1980, San Jose Earthquakes (EUA), 2 jogos e ? gols. 1980/1981, Amora, 4 Jogos e nenhum gol. 1981/1982, Montijo (jogador e treinador), ? jogos e ? gols. 1982/1983, Universidade Tomar, ? jogos e ? gols. 1983/1984, Monte da Caparica, ? jogos e ? gols. 1985/1986, Estrelas Faralhão, ? jogos e ? gols. E encerrando a carreira, 1984/1985, Estrelas Faralhão, ? jogos e ? gols. Estava com 37 anos de idade.
Títulos conquistados: Taça de Portugal, em 198/1967, pelo Vitória, de Setubal; Campeonato de Portugal, pelo Benfica: 1971/72, 1972/73, 1974/75, 1975/76, 1976/77 e Taça de Portugal, também pelo Benfica, em 1971/72.
A fama de Vitor Baptista foi tão grande, que mereceu até uma música, de autoria de José Jorge Letria (letra) e Vitorino (música). “Rapaz do brinco”:
Eras o rapaz do brinco/Eras o herói da tarde/Driblador cheio de afinco/Médio seguro ou trinco/Da alegria dessa idade/Eras a festa do jogo,/Com o resultado incerto,/Entre a água e o fogo,/Adeus Vítor até logo/Que a vitória andou perto.
Eras o brinco perdido/Na parcela do relvado/Onde em sonhos tidas lido/As promessas sem sentido/De um contrato renovado.
Eras o ponta de lança/Da infância sem ternura,/O campeão que foi esperança/E essa eterna criança/Sempre às portas da loucura/Foste a sombra do que eras,/A carreira interrompida,/Gazela no meio das feras,/A ruína das quimeras,/Destroço de um fim de vida.
Foste esse brinco perdido/Em grande tarde de glória/E podias ter vencido,/Mesmo vergado e rendido/Pelas traições da memória.
Foste o brinco jóia rara/Desse tempo de conquista;/A loucura sai tão cara/E se a grandeza é tão rara/Que viva o Vítor Baptista.
Desperdiçou dinheiro aos montes, envolveu-se em crimes, foi preso e nunca largou o consumo excessivo de drogas. Toda a gente o tentou ajudar, mas ele nunca resistiu aos apelos da má vida. Um dos melhores exemplos de um colega que sempre o admirou e quis ajudar foi Toni que chegou a dizer: “ele poderia estar coberto de ouro, tal era o seu talento, mas deixou-se levar por pessoas que se diziam amigas e a droga o destruiu”.
Vitor Baptista também foi tema de um livro que retrata e descreve a vida e a carreira desportiva de um homem e extraordinário jogador de futebol, cuja trajetória e percurso futebolísticos foi feito de altos e baixos, de glórias e tristezas, acabando por culminar de forma dramática, para não dizer trágica, na morte, aos 50 anos.
O livro que tem como título ”Vitor Baptista o Maior” começa com uma introdução na qual é registrada a vida e a carreira de Vítor Baptista, tendo o autor e jornalista Frederico Duarte Carvalho (do semanário "Tal&Qual") consultado jornais desportivos da época. A seguir, é apresentada uma longa entrevista de 5 horas de duração, feita pelo autor ao próprio Vítor Baptista, por sinal a última entrevista dada por este em vida, a qual se realizou na Páscoa de 1998, poucos meses antes da sua morte. E o livro termina apresentando uma biografia do jogador, com fotos de arquivo dos jornais "Record" e "O Benfica", do "24 Horas" e do semanário "Tal&Qual".
A vida atribulada e acidentada que Vítor Baptista levou e que o conduziu a uma morte prematura, e acima de tudo a um final de vida degradante e humilhante, deve servir de alerta e um sério aviso para muitos jovens jogadores que enveredam pelo futebol profissional, no sentido de não incorrerem nos mesmos erros e tentações daquele grande jogador dos anos 70. (Pesquisa: Nilo Dias)
Ganhou notoriedade pela sua genialidade, excentricidade, irreverência e imprevisibilidade, pois não tinha muita disciplina táctica. Isso tudo contribuiu para que ele conseguisse pular da glória à tragédia em minutos. Foi várias vezes preso, trabalhou como jardineiro, em cemitérios e como funcionário da Câmara de Setúbal para limpar as ruas. Era no Estádio da Luz, do Benfica, que dormia. Acabou sem nada, quando poderia ter tido tudo e nada conquistou.
Seu nome completo: Vitor Manuel Ferreira Baptista. A sua vida não foi nada fácil no início. Oriundo de uma família de classe operária e de pescadores, Vítor Baptista precocemente teve de começar os seus primeiros passos no mundo do trabalho árduo, primeiramente como eletricista e, mais tarde, como ajudante de marceneiro, para ajudar nas despesas de casa.
Com apenas dez anos de idade, o ainda precoce Vítor Baptista ganhou os seus primeiros trocado, levando recados de prostitutas locais, bem como, apanhando moedas que eram jogadas em uma fonte de água.
Aos 16 anos, quando trabalhava de aprendiz de eletricista e nas horas vagas jogava futebol de salão, chamou a atenção de dirigentes do Vitória, de Setubal que o contrataram por 500 escudos por mês e refeições pagas na Pensão Vitória. Talvez a perda do pai ainda cedo, tenha contribuído para tudo que aconteceu de ruim na sua vida.
Contam que num torneio de Futebol de Salão onde foi o segundo artilheiro, ficando atrás apenas de Quinito, que mais tarde foi treinador de futebol, deu o passo decisivo para a carreira de futebolista. Os olheiros do Vitória nem ficaram muito entusiasmados com ele, mas a insistência do jovem rebelde o levou ao time de Setubal.
Aos 18 anos já era titular absoluto da equipe setubalense, tendo vencido uma Taça de Portugal. Foi quando o técnico José Maria Pedroto o convocou para a seleção nacional de Juniores.
Não demorou para chamar a atenção do Benfica, clube para quem se transferiu na maior transação do futebol português na época. O passe de Baptista custou aos cofres benfiquenses três mil contos e mais três jogadores, entre eles o lendário José Torres. Os outros dois foram Praia e Martine. Baptista recebeu luvas no valor de 750 contos e um salário de 8 contos de réis. No Vitória ganhava 2 contos e 500 por mês.
Nesse tempo Vitor Baptista era ainda uma espécie de “menino grande. Para ele, a vida era uma brincadeira, um grande jogo. Tinha coração de ouro, dava a camisa pelos amigos, mas não levava as coisas a sério. Isso haveria de lhe ser fatal.
Uma das muitas histórias que contam sobre Baptista aconteceu num jogo no Estádio das Antas. O técnico Pedroto, no intervalo de uma partida contra o Porto, acendeu um cigarro com um isqueiro de ouro que Vitor Baptista cobiçou. O técnico prometeu-lhe a preciosidade se ele fizesse dois gols. E marcou mesmo, e ao segundo correu para o banco de reservas a reivindicar o prêmio.
Uma das histórias mais impressionantes ocorridas com Baptista aconteceu num clássico contra o Sporting. O atacante do Benfica recebeu uma bola no peito, deu um lençol num adversário, driblou outro e desferiu um petardo para o fundo da rede. Foi quando notou que havia perdido um brinco de ouro e diamante, que custou mais de 10 contos, quantia expressiva para a época. Baptista fez o jogo parar e os atletas dos dois times, o juiz Rosa Santos e os bandeirinhas procuraram a jóia por longos 15 minutos, sem sucesso. Ao final do jogo reclamou: “O brinco valia 12 contos e o prêmio do jogo só 8”.
Ainda assim, pegou seu carro e foi para um restaurante, onde pediu um vinho da melhor qualidade e uma lagosta. Como virou atração e todos os clientes não lhe tiravam o olhar, bebeu o vinho de um só gole e foi embora.
No Benfica ele alternou momentos de rara qualidade com outros que haveriam de o levar à decadência: muitos foram os episódios envolvendo dinheiro, carros, álcool, mulheres e drogas, enfim um cocktail verdadeiramente explosivo e pouco condizente com a vida de um profissional de futebol.
Mesmo jogando em Lisboa, Vítor Baptista preferia morar em Setubal. Comprou um carro “Jaguar” por 150 contos e nos primeiros tempos arranjou um motorista para o conduzir aos treinos. Um motorista com boné, para delírio dos gozadores companheiros de equipe..
Contam que depois dos treinos do Benfica, Vítor Baptista costumava dar algumas voltas com seu “Jaguar”, em redor do Estádio da Luz. Dizia que não era por vaidade, mas sim para secar o cabelo.
Em Outubro de 1976, Vítor Baptista ao renovar seu contrato com o Benfica, deu uma a entrevista ao jornal “A Bola”, quando disse que era o melhor jogador português, citando outros bons, como o Chalana, mas afirmando que ele era o melhor. Foi quando começou a surgir uma lenda no cenário futebolístico português.
O homem era mesmo bom de bola. E também mestre em soltar pérolas como esta, em que, a propósito de um gol que tinha sido atribuído a Eusébio: "O gol foi meu. Eu tava entalado junto à linha de fundo e vi logo que se passasse a bola ao Eusébio ele a perderia. Por isso, fiz pontaria na cabeça do “gajo” e rematei com força. A bola só tabelou na cabeça dele, portanto o gol é meu!"
Suas atitudes impressionavam, parecendo agir como se estivesse fora do normal. Talvez por efeitos das drogas. Um dia amarrou um cão a trave de uma goleira do Estádio da Luz, antes de um treino matinal do Benfica, com os companheiros, direção técnica e alguns torcedores todos de boca aberta, face tamanha atitude. Já ninguém ligava para os seus atos. Houve um jogo em Portimão, que Victor Batista foi expulso por cuspir em um adversário. Mesmo com 10 jogadores em campo, o Benfica acabaou por vencer a muito custo.
Na sua irreverência, Vítor Baptista quando não era escalado para sair jogando, pegava o que era seu e ia embora. Nunca aceitou ser reserva.
No primeiro jogo do Benfica contra o Liverpool, pelas eliminatórias da “Taça dos Campeões da Europa” de 1978, Baptista não quis jogar e simulou uma lesão, fato que quase causou sua expulsão do clube. Isso não aconteceu porque os jogadores Humberto e Toni, seus grandes amigos, evitaram. Esse foi um dos momentos mais difíceis da relação entre Vitor Baptista e o Benfica. O Benfica perdeu o jogo. O jogador Toni confessou à imprensa que a lesão de Baptista era simulada e que ele era um ingrato em relação ao Benfica.
Tudo aconteceu porque ele pediu um “Porsche Carrera” e 650 contos mensais para renovar contrato com o Benfica. O clube concordou em dar o carro, mas não aceitou as pretensões salariais, oferecendo 550 contos. Baptista não quis e logo depois do jogo contra o Liverpool preferiu voltar ao Vitória, de Setubal para ganhar 100 contos de réis por mês. Foi o início do fim.
O primeiro gol que marcou pelo Benfica foi exatamente contra seu ex-clube, o Vitória, de Setubal. Ao longo das sete temporadas em que defendeu o Benfica, participou de 150 jogos oficiais, tendo marcado 62 gols. O seu último gol pelo Benfica foi frente ao rival Sporting num jogo realizado no Estádio da Luz a 12 de Fevereiro de 1978.
Quando dessa sua nova estada no Vitória, dois companheiros de equipe contam que o viram frente a um espelho, dizendo para si mesmo: “Ó meu Deus, porque me fizeste tão belo?" Foi quando nasceu o apelido de “Meu Deus”. E devido a algumas fanfarronices, também lhe chamavam de “Gargantas”. Ainda ganhou outros apelidos: ”O rapaz do brinco” e “O rapaz dos pés de ouro”. Mas para si mesmo era apenas “O Maior”. E isso resumia a sua vida. O maior, para o bem e para o mal.
Depois foi para o Bessa, onde, para variar também se desentendeu com relação a salários. Nesse tempo já andava envolvido com drogas pesadas.
Numa excursão do Benfica à Russia recusou-se a entrar em campo, pois os russos pareciam-lhe amadores, e ele dizia que só jogava contra profissionais. Apresentou-se no aeroporto vestindo calças rotas, enquanto todos os outros jogadores vestiam ternos. E não atendeu aos apelos dos companheiros para que trocasse de roupa.
No regresso a Portugal, organizou uma tourada em Setubal. Estádio cheio, com populares lotando às arquibancadas. Eis que de repente aparece Vitor Baptista sobressaltado. Tinha-se esquecido dos touros.
Quando jogou no Boavista, aparecia nos treinos de “Jaguar”, vestido com terno, gravata e chinelos de dedo. No União de Tomar, onde também jogou, reza a lenda que expulsou várias vezes o treinador do vestiário, pois simplesmente não gostava de ouvir sua voz.
Em 1980, a convite de António Simões, foi parar no San Jose Earthquakes, nos Estados Unidos, onde jogou com George Best, Guus Hiddink, Milan Mandaric e Bill Foulkes, entre outros. Apesar do contrato de 2,5 milhões de dólares e de um luxuoso “Corvette” conversível, Baptista não ficou muito tempo por lá: foram apenas dois jogos e o regresso a Lisboa.
Em Portugal jogou ainda no Amora, no Montijo, na Universidade Tomar, no Monte da Caparica e acabou nos regionais, defendendo o amador Estrelas do Faralhão, onde ganhava só para comer. Nesses clubes quase nunca viu a cor do dinheiro. Para alimentar a dependência da droga e do álcool começou a roubar, sendo preso várias vezes. Mas não deixou nunca de ser um rebelde, um gênio louco, que brigava facilmente com os seus treinadores.
Alguns exemplos: Mário Wilson em 1975, John Mortimore e José Maria Pedroto em 1976 e Juca, que era o técnico da seleção português, em 1977. Com este passou todos os limites. Chegou atrasado ao treino e ainda insultou o técnico, chamando-o de maluco, na frente dos colegas de time. Jogou pela seleção portuguesa em apenas por onze vezes. Devido a esse desentendimento com Juca, foi afastado definitivamente da representação nacional.
Vitor Baptista nasceu em São Julião / Setúbal, Portugal, no dia 18 de Outubro de 1948 e faleceu a 1 de Janeiro de 1999, aos 50 anos de idade, devido a um acidente vascular cerebral. A sua morte foi confirmada pelo diretor do Hospital Distrital de Setúbal, às 11h20min da manhã de 1 de Janeiro de 1999, após ter sido hospitalizado nas vésperas de Ano Novo, em pleno estado de coma.
Ele foi sepultado no dia seguinte no cemitério de Algeruz, na sua terra natal, Setúbal. Muitos foram os que se fizeram presentes ao ato. Por ser uma das lendas do futebol português, todos os jogos da primeira divisão começaram com um minuto de silêncio, em sua homenagem.
Tinha 1,78 m, pesava 76 quilos e jogava como atacante. Em sua atribulada carreira defendeu os seguintes clubes:
1966/1967, Vitória, de Setubal, nenhum jogo e nenhum gol. 1967/1968, Vitória, de Setúbal, 15 Jogos e nenhum gol. 1968/1969, Vitória, de Setubal, 17 jogos e nenhum gol. 1969/1970, Vitória, de Setúbal, 22 jogos e 11 gols. 1970/1971, Vitória, de Setubal, 26 jogos e 22 gols. 1971/1972, Benfica, 17 jogos e 9 gols. 1972/1973, Benfica, 14 jogos e 6 gols. 1973/1974, Benfica, 21 jogos e 9 gols. 1974/1975, Benfica, 23 jogos e 3 gols. 1975/1976, Benfica, 16 jogos e 9 gols. 1976/1977, Benfica, 6 jogos e 6 gols. 1977/1978, Benfica, 15 jogos e 8 gols. 1978/1979, Vitória, de Setubal, 19 jogos e 7 gols. 1979/1980, Boavista, 15 jogos e 8 gols. 1980, San Jose Earthquakes (EUA), 2 jogos e ? gols. 1980/1981, Amora, 4 Jogos e nenhum gol. 1981/1982, Montijo (jogador e treinador), ? jogos e ? gols. 1982/1983, Universidade Tomar, ? jogos e ? gols. 1983/1984, Monte da Caparica, ? jogos e ? gols. 1985/1986, Estrelas Faralhão, ? jogos e ? gols. E encerrando a carreira, 1984/1985, Estrelas Faralhão, ? jogos e ? gols. Estava com 37 anos de idade.
Títulos conquistados: Taça de Portugal, em 198/1967, pelo Vitória, de Setubal; Campeonato de Portugal, pelo Benfica: 1971/72, 1972/73, 1974/75, 1975/76, 1976/77 e Taça de Portugal, também pelo Benfica, em 1971/72.
A fama de Vitor Baptista foi tão grande, que mereceu até uma música, de autoria de José Jorge Letria (letra) e Vitorino (música). “Rapaz do brinco”:
Eras o rapaz do brinco/Eras o herói da tarde/Driblador cheio de afinco/Médio seguro ou trinco/Da alegria dessa idade/Eras a festa do jogo,/Com o resultado incerto,/Entre a água e o fogo,/Adeus Vítor até logo/Que a vitória andou perto.
Eras o brinco perdido/Na parcela do relvado/Onde em sonhos tidas lido/As promessas sem sentido/De um contrato renovado.
Eras o ponta de lança/Da infância sem ternura,/O campeão que foi esperança/E essa eterna criança/Sempre às portas da loucura/Foste a sombra do que eras,/A carreira interrompida,/Gazela no meio das feras,/A ruína das quimeras,/Destroço de um fim de vida.
Foste esse brinco perdido/Em grande tarde de glória/E podias ter vencido,/Mesmo vergado e rendido/Pelas traições da memória.
Foste o brinco jóia rara/Desse tempo de conquista;/A loucura sai tão cara/E se a grandeza é tão rara/Que viva o Vítor Baptista.
Desperdiçou dinheiro aos montes, envolveu-se em crimes, foi preso e nunca largou o consumo excessivo de drogas. Toda a gente o tentou ajudar, mas ele nunca resistiu aos apelos da má vida. Um dos melhores exemplos de um colega que sempre o admirou e quis ajudar foi Toni que chegou a dizer: “ele poderia estar coberto de ouro, tal era o seu talento, mas deixou-se levar por pessoas que se diziam amigas e a droga o destruiu”.
Vitor Baptista também foi tema de um livro que retrata e descreve a vida e a carreira desportiva de um homem e extraordinário jogador de futebol, cuja trajetória e percurso futebolísticos foi feito de altos e baixos, de glórias e tristezas, acabando por culminar de forma dramática, para não dizer trágica, na morte, aos 50 anos.
O livro que tem como título ”Vitor Baptista o Maior” começa com uma introdução na qual é registrada a vida e a carreira de Vítor Baptista, tendo o autor e jornalista Frederico Duarte Carvalho (do semanário "Tal&Qual") consultado jornais desportivos da época. A seguir, é apresentada uma longa entrevista de 5 horas de duração, feita pelo autor ao próprio Vítor Baptista, por sinal a última entrevista dada por este em vida, a qual se realizou na Páscoa de 1998, poucos meses antes da sua morte. E o livro termina apresentando uma biografia do jogador, com fotos de arquivo dos jornais "Record" e "O Benfica", do "24 Horas" e do semanário "Tal&Qual".
A vida atribulada e acidentada que Vítor Baptista levou e que o conduziu a uma morte prematura, e acima de tudo a um final de vida degradante e humilhante, deve servir de alerta e um sério aviso para muitos jovens jogadores que enveredam pelo futebol profissional, no sentido de não incorrerem nos mesmos erros e tentações daquele grande jogador dos anos 70. (Pesquisa: Nilo Dias)
segunda-feira, 16 de julho de 2012
O legendário "Tarzan"
Otacílio Batista do Nascimento, o “Tarzan”, foi um chefe de torcida do Botafogo, do Rio de Janeiro, nos tempos gloriosos do clube da estrela solitária. Nasceu em Minas Gerais em 1927 e faleceu no Rio de Janeiro em 1990, aos 63 anos de idade. Em Belo Horizonte, Otacílio era camelô e torcedor do Atlético Mineiro.
Ao assistir um jogo entre Atlético X Vila Nova, entusiasmou-se pela atuação do jogador Guará, e passou a fazer parte da torcida atleticana. Mudando-se para o Rio de Janeiro, depois de andar por Minas Gerais e São Paulo, logo se tornou torcedor do Botafogo, porque tinha as mesmas cores que o “Galo” mineiro.
Quando criança Otacílio tinha o apelido de "Botafogo", nome que em Minas Gerais é associado a alguém que seja provocador de discórdias ou suscitador de rixas. E escolheu precisamente um clube adequado ao seu apelido de infância – o Botafogo de Futebol e Regatas.
Já o apelido "Tarzan", surgiu graças a mania que tinha de amarrar um feixe de palha de milho a um barbante, pedindo aos empregados da fazenda do pai que lhe ateassem fogo, e agarrado à outra ponta, ele saia correndo. Esse era um dos seus divertimentos preferidos, pois gostava de ver a fumaceira e as fagulhas que se formavam.
Como bom torcedor, “Tarzan” acompanhou o Botafogo em todas as partidas desde 1953. Mas foi somente quatro anos depois, em 1957, que começou a entrar nos estádios carregando bandeiras e fogos de estampido. Não demorou para que o aclamassem chefe da torcida do alvinegro. Essa devoção pelo clube custava caro.
A antiga atleta de basquete e também torcedora do Botafogo, Ivone Santos, chegou a comentar que se o time continuasse muito tempo na liderança do campeonato, “Tarzan” certamente iria a falência, tais os gastos com os fogos. Mas “Tarzan” não ficou preocupado e disse que aquilo que gastava com o clube recebia de retorno multiplicado, “pois mais vale uma satisfação que dinheiro amealhado.”
Sua posição de líder da torcida, permitia que discutisse com a imprensa os problemas do Botafogo. Ele fazia comícios, opinava, acusava, elogiava e aplaudia sempre que fosse caso disso. “Tarzan” não poupava nem mesmo os maiores craques do time. Ele considerava “Garrincha” um péssimo exemplo para os jovens. Também não livrou Didi, Quarentinha e Zagallo por várias razões.
Se dependesse dele, todos esses jogadores teriam sido vendidos. E, se contasse com força no Conselho Deliberativo, teria afastado os dirigentes que na sua opinião impediam o crescimento do clube.
Por suas posições fortes, “Tarzan” enfrentou muitas dificuldades. Havia gente que não gostava de suas manifestações em defesa do Botafogo, tanto dentro de campo, onde comparecia com uma charanga e profuso foguetório, quer nas ruas, quando as autoridades agiam violentamente para o impedir de vender e ganhar a vida. “Tarzan” era camelô.
A sua vida foi atribulada, mas “Tarzan” defendia-se dizendo que se o tratassem bem não haveria brigas. Mas como sempre dois ou três o atacavam sem motivos, aos murros e pontapés, reagia à altura. E depois acabava preso e processado. Mas nunca foi condenado, porque os juízes sempre reconheceram que agira em legítima defesa.
A figura de “Tarzan” como torcedor apaixonado mereceu respeito e admiração até dos torcedores rivais. A torcida do Vasco da Gama o agraciou com um escudo de ouro do clube, em 1957. A do América lhe deu uma flâmula representativa do clube, em 1959. E a do Flamengo o presenteou com um belo quadro de seu clube, em 1962.
Embora tivesse um bom relacionamento com o Flamengo, foi “Tarzan” quem lançou o apelido de “Urubu” ao clube rubro-negro, alusão racista à grande massa de torcedores rubro-negros afro-descendentes e pobres. Tal apelido de cunho ofensivo nunca foi bem recebido pela torcida do Flamengo até o dia 31 de maio de 1969.
Era um domingo, quando os torcedores rubro-negros Luiz Otávio Vaz, Romilson Meirelles e Victor Ellery resolveram levar a ave para um jogo entre o Flamengo e Botafogo no Maracanã. Na época, os dois clubes faziam o clássico de maior rivalidade pós-Garrincha e o Flamengo não vencia o rival havia dois anos. Nas arquibancadas, os torcedores do Botafogo gritavam, como sempre, que o Flamengo era time de "urubu".
O urubu foi solto na arquibancada com uma bandeira presa nos pés, e quando caiu no gramado, pouco antes do jogo iniciar, a torcida fez a festa, vibrando e gritando: "é urubu, é urubu". O Flamengo venceu o jogo por 2 X 1, numa partida que marcou também a estréia de Doval.
E, a partir daí, o novo mascote consagrou-se, tomando o lugar do "Popeye". O cartunista Henfil, rubro-negro, tratou de humanizá-lo em suas charges esportivas em jornais e revistas, e o Urubu tornou-se um mascote popular.
Em 9 de setembro de 1969, a torcida organizada pelo legendário “Tarzan”, motivou a fundação do Grêmio Recreativo Torcida Jovem do Botafogo (TJB), que até hoje é a mais antiga em atividade. (Pesquisa: Nilo Dias)
Ao assistir um jogo entre Atlético X Vila Nova, entusiasmou-se pela atuação do jogador Guará, e passou a fazer parte da torcida atleticana. Mudando-se para o Rio de Janeiro, depois de andar por Minas Gerais e São Paulo, logo se tornou torcedor do Botafogo, porque tinha as mesmas cores que o “Galo” mineiro.
Quando criança Otacílio tinha o apelido de "Botafogo", nome que em Minas Gerais é associado a alguém que seja provocador de discórdias ou suscitador de rixas. E escolheu precisamente um clube adequado ao seu apelido de infância – o Botafogo de Futebol e Regatas.
Já o apelido "Tarzan", surgiu graças a mania que tinha de amarrar um feixe de palha de milho a um barbante, pedindo aos empregados da fazenda do pai que lhe ateassem fogo, e agarrado à outra ponta, ele saia correndo. Esse era um dos seus divertimentos preferidos, pois gostava de ver a fumaceira e as fagulhas que se formavam.
Como bom torcedor, “Tarzan” acompanhou o Botafogo em todas as partidas desde 1953. Mas foi somente quatro anos depois, em 1957, que começou a entrar nos estádios carregando bandeiras e fogos de estampido. Não demorou para que o aclamassem chefe da torcida do alvinegro. Essa devoção pelo clube custava caro.
A antiga atleta de basquete e também torcedora do Botafogo, Ivone Santos, chegou a comentar que se o time continuasse muito tempo na liderança do campeonato, “Tarzan” certamente iria a falência, tais os gastos com os fogos. Mas “Tarzan” não ficou preocupado e disse que aquilo que gastava com o clube recebia de retorno multiplicado, “pois mais vale uma satisfação que dinheiro amealhado.”
Sua posição de líder da torcida, permitia que discutisse com a imprensa os problemas do Botafogo. Ele fazia comícios, opinava, acusava, elogiava e aplaudia sempre que fosse caso disso. “Tarzan” não poupava nem mesmo os maiores craques do time. Ele considerava “Garrincha” um péssimo exemplo para os jovens. Também não livrou Didi, Quarentinha e Zagallo por várias razões.
Se dependesse dele, todos esses jogadores teriam sido vendidos. E, se contasse com força no Conselho Deliberativo, teria afastado os dirigentes que na sua opinião impediam o crescimento do clube.
Por suas posições fortes, “Tarzan” enfrentou muitas dificuldades. Havia gente que não gostava de suas manifestações em defesa do Botafogo, tanto dentro de campo, onde comparecia com uma charanga e profuso foguetório, quer nas ruas, quando as autoridades agiam violentamente para o impedir de vender e ganhar a vida. “Tarzan” era camelô.
A sua vida foi atribulada, mas “Tarzan” defendia-se dizendo que se o tratassem bem não haveria brigas. Mas como sempre dois ou três o atacavam sem motivos, aos murros e pontapés, reagia à altura. E depois acabava preso e processado. Mas nunca foi condenado, porque os juízes sempre reconheceram que agira em legítima defesa.
A figura de “Tarzan” como torcedor apaixonado mereceu respeito e admiração até dos torcedores rivais. A torcida do Vasco da Gama o agraciou com um escudo de ouro do clube, em 1957. A do América lhe deu uma flâmula representativa do clube, em 1959. E a do Flamengo o presenteou com um belo quadro de seu clube, em 1962.
Embora tivesse um bom relacionamento com o Flamengo, foi “Tarzan” quem lançou o apelido de “Urubu” ao clube rubro-negro, alusão racista à grande massa de torcedores rubro-negros afro-descendentes e pobres. Tal apelido de cunho ofensivo nunca foi bem recebido pela torcida do Flamengo até o dia 31 de maio de 1969.
Era um domingo, quando os torcedores rubro-negros Luiz Otávio Vaz, Romilson Meirelles e Victor Ellery resolveram levar a ave para um jogo entre o Flamengo e Botafogo no Maracanã. Na época, os dois clubes faziam o clássico de maior rivalidade pós-Garrincha e o Flamengo não vencia o rival havia dois anos. Nas arquibancadas, os torcedores do Botafogo gritavam, como sempre, que o Flamengo era time de "urubu".
O urubu foi solto na arquibancada com uma bandeira presa nos pés, e quando caiu no gramado, pouco antes do jogo iniciar, a torcida fez a festa, vibrando e gritando: "é urubu, é urubu". O Flamengo venceu o jogo por 2 X 1, numa partida que marcou também a estréia de Doval.
E, a partir daí, o novo mascote consagrou-se, tomando o lugar do "Popeye". O cartunista Henfil, rubro-negro, tratou de humanizá-lo em suas charges esportivas em jornais e revistas, e o Urubu tornou-se um mascote popular.
Em 9 de setembro de 1969, a torcida organizada pelo legendário “Tarzan”, motivou a fundação do Grêmio Recreativo Torcida Jovem do Botafogo (TJB), que até hoje é a mais antiga em atividade. (Pesquisa: Nilo Dias)
sexta-feira, 13 de julho de 2012
O folclórico “Sabará” da Paraíba
José Cosme, o “Sabará”, nasceu na cidade de Pombal (PB), mas quem o vê a primeira vez aposta que é carioca, pelo seu gingado típico de malandro. O apelido foi devido a sua parecença com um ex-jogador do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro.
É uma das figuras mais interessante com quem se pode conversar na progressista cidade paraibana de Campina Grande, onde costuma frequentar diariamente um banco no “Calçadão” da rua Cardoso Vieira, em frente à banca da mulher que vende pamonha. O “Calçadão” da Cardoso Vieira é considerado uma espécie de “capital da república de Campina Grande.
Hoje com mais de 70 anos de idade, cabelos e sobrancelhas brancas, “Sabará” está muito diferente do ex-jogador de futebol profissional, um dos mais folclóricos e engraçados que já surgiu nos gramados da Paraíba. E “Sabará” gosta de ser reconhecido pelos torcedores mais velhos.
Como jogador defendeu as equipes do Treze, de Campina Grande, Nacional, de Patos, Nacional, de Paulistano, Campinense, de Campina Grande e União, de João Pessoa, entre outros clubes do Nordeste.
A carreira futebolística de “Sabará” foi encerrada na década de 60, quando tinha 34 anos. Mudou-se para o Bairro São José, em Campina Grande. Sua situação financeira não ficou das melhores. Garante que ganhou muito dinheiro, mas, mas também gastou com extravagâncias.
Gostava de comprar roupar caras e de fechar uma boate inteira só para ele. Mas ainda assim investiu na compra de um terreno, que é uma espécie de sítio. Hoje viúvo, tem casa, carro, muitos filhos, dizem que são mais de 12 e muitos netos.
Quando parou de jogar, foi trabalhar em uma indústria de Campina Grande e por lá ficou. Depois abriu seu próprio negócio, um bar que ele batizou com o nome de “Sabará Bar”, que se localizava no bairro do Catolé perto do estádio “Amigão”. Lá ele relembrava o seu passado de atleta, mas não gostava de pensar no que poderia ter vivido se não tivesse gastado tanto dinheiro. Preferia falar de temas mais atuais.
Fora dos gramados como atleta profissional, matava a saudade da bola jogando pelo Everton Esporte Clube, que ele ajudou a fundar e se tornou um dos melhores times amadores do futebol campinense em todos os tempos. Durante alguns anos “Sabará”' foi um dos jogadores mais populares entre os torcedores do clube. Ele ainda hoje mantém o seu jeito folclórico e engraçado. Depois, jogou alguns anos no Grêmio, de Nêgo Ribeiro, onde encerrou definitivamente a carreira.
O ex-craque marcou para sempre o seu nome na história do futebol campinense, ao marcar o primeiro gol no na inauguração do Estádio Plínio Lemos. No jogo preliminar, em que o Sport Club, da Liberdade derrotou o Flamengo, de José Pinheiro, por 2x1, “Sabará” fez o primeiro gol do Sport, com Adauto completando o marcador. Manuelzão descontou para o Flamengo. A partida principal foi disputada debaixo de muita chuva, quando o Bahia venceu o Treze por 1 x 0, gol de Juvenal II, aos 12 minutos do segundo tempo.
No futebol viveu bom e maus momentos. Foi coroado rei dos pênaltis e faltas. Ninguém superava “Sabará” nas cobranças dos pênaltis. Uma pequena corrida, a bola colocada num canto e o goleiro no outro.
Segundo contam os mais antigos, “Sabará” construiu em torno de si um rico repertório de histórias folclóricas, piadas e lendas. Nos seus bons tempos de jogador mostrou sempre um temperamento alegre, sendo uma espécie de “comediante” dos clubes em que atuou. Ele tornava as concentrações, ônibus e hotéis mais divertidos. Alegre e boêmio, não desprezava uma cervejinha. Gostava mais de seus pequenos prazeres, do que levar a sério a sua profissão. Ainda assim, por vários anos jogou no futebol profissional.
E não foi um jogador qualquer. Tinha muita categoria e versatilidade. Jogava sem problemas tanto na meia-direita, como no meio campo, ou de centro avante e até de zagueiro. Em qualquer posição que jogasse, mostrava sempre um bonito toque de classe e categoria. Em campo, não era de correr muito, mas tinha um chute rasante, certeiro e mortal. Raramente errava um passe, era criativo e de reflexos rápidos, sabia como ninguém antever a seqüência de um lance à frente dos adversários e executar as jogadas mais imprevisíveis do seu imenso repertório.
De quebra, ainda fazia gol às pampas. Decidiu muitos jogos marcando gols de faltas e de pênaltis. Não era chegado a trombadas com os zagueiros. Mesmo dono de tantas virtudes, jogava futebol apenas por divertimento. Sua principal preocupação era ganhar alguns trocados para fazer uma coisa que gostava demais, namorar e viver na boemia.
No final da década de 50 o Campinense queria contratar alguns bons jogadores do Paulistano, entre eles “Lelé”, “Zé Preto”, “Tonho Zeca” e “Sabará”, para tentar impedir mais uma conquista do rival Treze. Mas “Sabará” não foi contratado, porque os dirigentes do Campinense concluíram que ele gostava mais de namorar e ser boêmio, do que jogar futebol.
A figura de “Sabará” sempre chamou a atenção. Ele viveu de maneira extravagante e excêntrica, misturando o talento para o futebol com uma vida cheia de passagens folclóricas. Existiram muitos fatos pitorescos à sua lenda pessoal. Uns publicáveis, outros nem tanto, contados sempre com o seu autêntico sotaque de paraibano do interior. Uma das melhores histórias contadas por “Sabará” foi esta:
O Everton era um grande time, mas estava apenas no começo. Quase ninguém conhecia. O time foi convidado para um jogo na Palmeira, contra uma equipe em que jogava Gonzaga, um ex-atleta do Treze. Era um tipo arrogante, que pediu para enfrentar um time bom, pois caso contrário ia ficar feio, pois segundo ele o seu time era imbatível em seu reduto.
“Sabará” nunca foi de engolir intimidações e retrucou: “O que o seu time tem que os outros não têm?". E o adversário respondeu: "Só tem craques meu amigo". E “Gonzaga” apenas disse: “Vamos ao jogo”. No inicio a partida se mostrava tensa, o placar não saia do 0 X 0. O ex-zagueiro do Treze insistia no chutão para frente. O pior é que nada passava. O cara era intransponível. Foi quando “Sabará” pensou: “Vou mexer com esse sujeito”.
A certa altura do jogo a bola subiu e veio na direção de “Sabará”, que saltou, matou a bola no peito e a colocou no chão com classe. Olhou para o zagueiro com desprezo e disse: "Aprende comigo".
O lance que decidiu a partida ocorreu quando o volante do time de “Sabará” fez um lançamento. A bola foi em direção ao zagueiro. Gonzaga não deu o esperado chutão. Ele estufou o peito para amortecer a bola. Mas a classe não era seu forte. A bola espirrou no pé do atacante Naninho e 1 X 0 no placar. Desmoralizado o zagueiro sumiu do jogo e o time de “Sabará” goleou por 4 X 1.
Com a experiência que ganhou no futebol, “Sabará” se tornou treinador. Dirigiu a seleção Universitária da FURNE onde se sagrou tetra campeão universitário. Depois dirigiu o Socremo, de Monteiro, as categorias de base do Campinense e a escolinha da AGAPE. (Pesquisa: Nilo Dias)
É uma das figuras mais interessante com quem se pode conversar na progressista cidade paraibana de Campina Grande, onde costuma frequentar diariamente um banco no “Calçadão” da rua Cardoso Vieira, em frente à banca da mulher que vende pamonha. O “Calçadão” da Cardoso Vieira é considerado uma espécie de “capital da república de Campina Grande.
Hoje com mais de 70 anos de idade, cabelos e sobrancelhas brancas, “Sabará” está muito diferente do ex-jogador de futebol profissional, um dos mais folclóricos e engraçados que já surgiu nos gramados da Paraíba. E “Sabará” gosta de ser reconhecido pelos torcedores mais velhos.
Como jogador defendeu as equipes do Treze, de Campina Grande, Nacional, de Patos, Nacional, de Paulistano, Campinense, de Campina Grande e União, de João Pessoa, entre outros clubes do Nordeste.
A carreira futebolística de “Sabará” foi encerrada na década de 60, quando tinha 34 anos. Mudou-se para o Bairro São José, em Campina Grande. Sua situação financeira não ficou das melhores. Garante que ganhou muito dinheiro, mas, mas também gastou com extravagâncias.
Gostava de comprar roupar caras e de fechar uma boate inteira só para ele. Mas ainda assim investiu na compra de um terreno, que é uma espécie de sítio. Hoje viúvo, tem casa, carro, muitos filhos, dizem que são mais de 12 e muitos netos.
Quando parou de jogar, foi trabalhar em uma indústria de Campina Grande e por lá ficou. Depois abriu seu próprio negócio, um bar que ele batizou com o nome de “Sabará Bar”, que se localizava no bairro do Catolé perto do estádio “Amigão”. Lá ele relembrava o seu passado de atleta, mas não gostava de pensar no que poderia ter vivido se não tivesse gastado tanto dinheiro. Preferia falar de temas mais atuais.
Fora dos gramados como atleta profissional, matava a saudade da bola jogando pelo Everton Esporte Clube, que ele ajudou a fundar e se tornou um dos melhores times amadores do futebol campinense em todos os tempos. Durante alguns anos “Sabará”' foi um dos jogadores mais populares entre os torcedores do clube. Ele ainda hoje mantém o seu jeito folclórico e engraçado. Depois, jogou alguns anos no Grêmio, de Nêgo Ribeiro, onde encerrou definitivamente a carreira.
O ex-craque marcou para sempre o seu nome na história do futebol campinense, ao marcar o primeiro gol no na inauguração do Estádio Plínio Lemos. No jogo preliminar, em que o Sport Club, da Liberdade derrotou o Flamengo, de José Pinheiro, por 2x1, “Sabará” fez o primeiro gol do Sport, com Adauto completando o marcador. Manuelzão descontou para o Flamengo. A partida principal foi disputada debaixo de muita chuva, quando o Bahia venceu o Treze por 1 x 0, gol de Juvenal II, aos 12 minutos do segundo tempo.
No futebol viveu bom e maus momentos. Foi coroado rei dos pênaltis e faltas. Ninguém superava “Sabará” nas cobranças dos pênaltis. Uma pequena corrida, a bola colocada num canto e o goleiro no outro.
Segundo contam os mais antigos, “Sabará” construiu em torno de si um rico repertório de histórias folclóricas, piadas e lendas. Nos seus bons tempos de jogador mostrou sempre um temperamento alegre, sendo uma espécie de “comediante” dos clubes em que atuou. Ele tornava as concentrações, ônibus e hotéis mais divertidos. Alegre e boêmio, não desprezava uma cervejinha. Gostava mais de seus pequenos prazeres, do que levar a sério a sua profissão. Ainda assim, por vários anos jogou no futebol profissional.
E não foi um jogador qualquer. Tinha muita categoria e versatilidade. Jogava sem problemas tanto na meia-direita, como no meio campo, ou de centro avante e até de zagueiro. Em qualquer posição que jogasse, mostrava sempre um bonito toque de classe e categoria. Em campo, não era de correr muito, mas tinha um chute rasante, certeiro e mortal. Raramente errava um passe, era criativo e de reflexos rápidos, sabia como ninguém antever a seqüência de um lance à frente dos adversários e executar as jogadas mais imprevisíveis do seu imenso repertório.
De quebra, ainda fazia gol às pampas. Decidiu muitos jogos marcando gols de faltas e de pênaltis. Não era chegado a trombadas com os zagueiros. Mesmo dono de tantas virtudes, jogava futebol apenas por divertimento. Sua principal preocupação era ganhar alguns trocados para fazer uma coisa que gostava demais, namorar e viver na boemia.
No final da década de 50 o Campinense queria contratar alguns bons jogadores do Paulistano, entre eles “Lelé”, “Zé Preto”, “Tonho Zeca” e “Sabará”, para tentar impedir mais uma conquista do rival Treze. Mas “Sabará” não foi contratado, porque os dirigentes do Campinense concluíram que ele gostava mais de namorar e ser boêmio, do que jogar futebol.
A figura de “Sabará” sempre chamou a atenção. Ele viveu de maneira extravagante e excêntrica, misturando o talento para o futebol com uma vida cheia de passagens folclóricas. Existiram muitos fatos pitorescos à sua lenda pessoal. Uns publicáveis, outros nem tanto, contados sempre com o seu autêntico sotaque de paraibano do interior. Uma das melhores histórias contadas por “Sabará” foi esta:
O Everton era um grande time, mas estava apenas no começo. Quase ninguém conhecia. O time foi convidado para um jogo na Palmeira, contra uma equipe em que jogava Gonzaga, um ex-atleta do Treze. Era um tipo arrogante, que pediu para enfrentar um time bom, pois caso contrário ia ficar feio, pois segundo ele o seu time era imbatível em seu reduto.
“Sabará” nunca foi de engolir intimidações e retrucou: “O que o seu time tem que os outros não têm?". E o adversário respondeu: "Só tem craques meu amigo". E “Gonzaga” apenas disse: “Vamos ao jogo”. No inicio a partida se mostrava tensa, o placar não saia do 0 X 0. O ex-zagueiro do Treze insistia no chutão para frente. O pior é que nada passava. O cara era intransponível. Foi quando “Sabará” pensou: “Vou mexer com esse sujeito”.
A certa altura do jogo a bola subiu e veio na direção de “Sabará”, que saltou, matou a bola no peito e a colocou no chão com classe. Olhou para o zagueiro com desprezo e disse: "Aprende comigo".
O lance que decidiu a partida ocorreu quando o volante do time de “Sabará” fez um lançamento. A bola foi em direção ao zagueiro. Gonzaga não deu o esperado chutão. Ele estufou o peito para amortecer a bola. Mas a classe não era seu forte. A bola espirrou no pé do atacante Naninho e 1 X 0 no placar. Desmoralizado o zagueiro sumiu do jogo e o time de “Sabará” goleou por 4 X 1.
Com a experiência que ganhou no futebol, “Sabará” se tornou treinador. Dirigiu a seleção Universitária da FURNE onde se sagrou tetra campeão universitário. Depois dirigiu o Socremo, de Monteiro, as categorias de base do Campinense e a escolinha da AGAPE. (Pesquisa: Nilo Dias)
sábado, 7 de julho de 2012
100 anos de Fla-Flu
Em 7 de julho de 1912 foi disputado o primeiro jogo da história entre Flamengo e Fluminense. O jogo aconteceu seis meses depois que o clube tricolor havia perdido nove de seus jogadores titulares, que se transferiram para o Flamengo e lá abriram o Departamento de Futebol. Deles, apenas um, Andrews, não entrou em campo. Até então o rubro-negro se dedicava unicamente ao remo. Mesmo assim o Fluminense ganhou por 3 X 2.
O jogo, válido pelo Campeonato Carioca foi disputado no Campo da Rua Guanabara, que ficava no mesmo local do Estádio das Laranjeiras, tendo como árbitro Frank Robinson. O público foi de apenas 800 torcedores. E. Calvert, do Fluminense marcou o primeiro gol da história do Fla-Flu, a um minuto de jogo; Arnaldo, aos 4 minutos empatou; James Calvert, aos 12 do segundo tempo fez Fluminense 2 X 1; Píndaro, aos 25 empatou em 2 X 2 e Bartô, aos 27 decretou a vitória tricolor.
Fluminense: Laport - Belo e Maia – Leal - Mutzembecker e Pernambuco – Osvaldo – Bartô – Behrmann - Edward Calvert e James Calvert. Flamengo: Baena - Píndaro e Nery – Cintra - Gilberto e Galo – Orlando – Arnaldo – Borghert - Gustavo e Amarante.
O Flamengo com a derrota perdeu o título, que foi para o Paysandu. O Flamengo antes do clássico vinha embalado por três grandes goleadas: 16 X 2 no Mangueira, 6 X 3 no América e 7 x 4 no Bangu. Perdera apenas para o Paysandu, por 2 X 1. Já o Fluminense vinha de derrotas: 2 X 1 para o Rio Cricket e 5 X 0 para o Paysandu; uma vitória sobre o São Cristóvão, por 1 X 0 e um empate com o América em 0 X 0.
Nos jornais, o turfe e o remo dividiam as atenções. Futebol ainda era um esporte que não ocupava muito espaço. Tanto que alguns diários, como "A Noite" e "Correio da Manhã" sequer registraram o encontro nas Laranjeiras, como conta o livro "Fla x Flu, o Jogo do Século", do colunista do jornal “Lance!” Roberto Assaf e de Clóvis Martins.
O primeiro Fla-Flu não era Fla-Flu. Só muito mais tarde, em 1933, é que Mário Filho inventou e promoveu a abreviação, quando procurava recursos para motivar o comparecimento das torcidas ao campeonato da recém criada Liga de Futebol. O segundo clássico aconteceu poucos meses depois do primeiro, e o Flamengo aplicou a primeira goleada da história, 4 X 0. Mas a maior goleada do clássico Fla-Flu, foi pelo Torneio Municipal em 10 de junho de 1945, com vitória do Flamengo por 7 X 0.
O clássico sempre foi cheio de emoções e de fatos inusitados. Por exemplo, em 22 de outubro de 1916, o Flamengo vencia o Fluminense por 2 X 1 quando o árbitro R. Davies marcou um pênalti contra o tricolor. Rienner bateu e perdeu. Logo depois, o juiz marcou outro pênalti contra o Fluminense. Sidney cobrou e Marcos de Mendonça defendeu.
O juiz mandou cobrar outra vez alegando que não havia apitado. Sidney bateu e novamente Marcos de Mendonça defendeu. O juiz mandou cobrar de novo, alegando que jogadores do Fluminense haviam invadido a área. Foi aí que o escritor Coelho Neto e o delegado de Policia Ataliba Correia Dutra pularam a grade e correram para o campo. Os torcedores também invadiram o gramado.
O regulamento do campeonato dizia que o jogo que fosse paralisado por cinco minutos seria suspenso definitivamente. Como a paralisação propositada foi além dos sete minutos, o jogo foi dado como anulado. Foi a primeira anulação de um jogo de campeonato carioca. No dia 8 de dezembro, no campo do Botafogo, foi realizada uma nova partida e o Fluminense ganhou por 3 X 1.
Em 1925, a Seleção Carioca disputou o Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Como havia dificuldade de convocar jogadores dos diversos clubes, a solução foi chamar apenas jogadores de Flamengo e do Fluminense. Em principio isso causou revolta entre os torcedores, que não consideraram a equipe como uma Seleção Carioca, sim um "Combinado Fla-Flu". Esta Seleção Carioca acabou campeã, o que mudou o sentimento popular em relação a ela.
O primeiro jogo entre Flamengo e Fluminense que decidiu um Campeonato Carioca aconteceu em 1919, no Estádio das Laranjeiras, que teve lotação máxima. Até o Presidente da República, Epitácio Pessoa compareceu ao jogo. O campeonato era por pontos corridos, e o Fla-Flu aconteceu na penúltima rodada. O tricolor era líder e só poderia ser alcançado pelo próprio Flamengo. Com a vitória por 4 X 0, o Fluminense ganhou o título e ficou definitivamente com a Taça Colombo.
Nas finais do estadual de 1928, o jogador Preguinho, que serviria à seleção na Copa do Uruguai, responderia à uma provocação do goleiro rubro-negro Amado, o qual teria mandado um suposto telegrama escrito “És sopa! Amanhã não farás gol!” O atacante tricolor respondeu dizendo “Farei dois gols, no mínimo”.
No primeiro minuto de jogo, o goleiro rubro-negro falhou ao quicar a bola para repô-la em jogo, e Preguinho faz 1 x 0. Aos 10 do primeiro tempo, Preguinho ampliou. O resultado final foi 4 x 1 para o Fluminense que venceu o campeonato e o rival justamente na Rua do Payssandú. Só muito tempo depois, é que o atacante veio, a saber, que o goleiro rubro-negro jamais lhe mandara qualquer telegrama e que, o autor fora o sócio do Fluminense, Affonso de Castro, o "Castrinho".
Em 1936, já com a denominação de Fla-Flu, o clássico decidiu o campeonato. Foi uma melhor-de-três, outra vez no Estádio das Laranjeiras. No primeiro jogo houve empate em 2 X 2; no segundo, o Fluminense goleou por 4 X 1 e no terceiro, empate em 1 X 1. O campeão foi novamente o Fluminense, que começava ali um período de hegemonia no futebol carioca, que se estenderia até 1941.
A terceira decisão entre Flamengo e Fluminense, aconteceu em 1941 e o jogo ficou conhecido como o "Fla-Flu da Lagoa", e foi realizado na Gávea, na última rodada do campeonato. Os dois times lideravam a competição, mas como o Fluminense possuía melhor campanha, 44 pontos contra 43, bastava um empate para comemorar o título.
Ao final do jogo igualdade em 2 X 2 e mais uma taça nas Laranjeiras. O tricolor chegou a abrir 2 X 0, com Pedro Amorim e Russo. Pirilo marcou dois gols rubro-negros, o segundo aos 38 minutos do segundo tempo. O público foi de 15.312 pagantes.
Outro ponto destacado do jogo foi o heroísmo do goleiro Batatais, do Fluminense. Ele não podia ser substituído e, mesmo com a clavícula deslocada, permaneceu em campo e ajudou o seu time com algumas defesas importantes. A atitude do jogador contagiou os companheiros, que conseguiram segurar a pressão do Flamengo. Segundo os jornais da época, o destaque daquele clássico foi o centromédio – hoje conhecido como meia – Brant.
Como o empate garantia o título para o Fluminense, reza a lenda que os tricolores jogavam as bolas para a Lagoa Rodrigo de Freitas, cuja distância era de três metros do campo da Gávea. Na época aquela parte da Lagoa ainda não havia sido aterrada. Contam que os dirigentes do Flamengo, desesperados, mandavam os remadores do clube buscar as bolas.
Algumas, realmente, foram buscadas na Lagoa. Não se diz quantas, nem como. Naquela época existiam mais jornais do que nos dias de hoje no Rio de Janeiro. E nenhum deles deu destaque ou fez registro desses fatos. O único que escreveu alguma coisa foi Mario Filho, no “Jornal dos Sports”, fazendo um pequeno comentário: “Duas ou três bolas foram chutadas para fora do estádio.” Mas ele não fez muito alarde. Se tivesse ocorrido, com certeza iria ganhar espaço nos jornais.
Roberto Assaf, um dos autores do livro "Fla x Flu, o jogo do Século", explica que o imaginário popular se encarregou de alterar o que realmente aconteceu. Naquela época, o futebol tinha cronômetro, como no basquete. Toda vez que a bola saía de campo, o juiz parava o relógio. Portanto, o tempo não ia passar enquanto a bola não voltasse a rolar.
Mesmo já passados 71 anos, a lenda do "Fla-Flu da Lagoa" ainda se mantém viva, fazendo daquele jogo um dos mais épicos da história centenária do clássico.
O quarto Fla-Flu decisivo de um Campeonato Carioca, e o primeiro na era Maracanã, ocorreu em 1963 e mantém até hoje o recorde mundial de maior público da história em um jogo entre clubes, em qualquer esporte: 194.603 torcedores presenciaram o confronto. O Flamengo que possuía a vantagem do empate, sagrou-se campeão depois de uma igualdade sem gols.
Em 1968, valendo pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Fla-Flu entrou para a história com um gol de mão. Aos 13 do primeiro tempo, Wilson do Fluminense, recebeu lançamento de Serginho em posição de impedimento, e sem o menor constrangimento à la Maradona, ao dividir com o goleiro Marco Aurélio do Flamengo, deu um soco na bola, desviando a trajetória e ficando livre para chutá-la para as redes.
Armando Marques, consultou o bandeirinha que confirmou a legalidade, e só então correu para o meio do campo validando o gol que deu a vitória simples para o tricolor. Ainda hoje, mais de 30 anos depois, esse gol escandaloso é comentando nos corredores da Gávea.
Até hoje aconteceram 11 decisões de campeonatos cariocas, reunindo Flamengo e Fluminense, com oito conquistas do tricolor e três do rubro-negro. O Fluminense ganhou do Flamengo em decisões de campeonato, em 1919, 1936, 1941, 1969, 1973, 1983, 1984 e 1995. O Flamengo foi campeão estadual sobre o Fluminense em 1963,1972 e 1991.
Além do Campeonato Carioca, ocorreu mais uma decisão Fla-Flu, que foi na Taça Guanabara de 1966, que nessa época era uma competição à parte. O Fluminense venceu por 3 X 1 e sagrou-se campeão.
Em 2009, foi realizado o primeiro confronto entre Flamengo e Fluminense válido por uma competição internacional oficial. Na Copa Sul-americana, os times se enfrentaram logo na primeira fase em jogos de ida e volta, com os dois jogos sendo realizados no Maracanã.
O primeiro jogo, com mando do Fluminense, terminou 0 X 0, e o segundo também acabou empatado, desta vez em 1 X 1, gols de Roni, para o Fluminense e Denis Marques, para o Flamengo. Pela regra do gol fora de casa o Fluminense se classificou para a próxima fase e terminou a competição como vice-campeão, perdendo a final para a LDU, do Equador.
Ary Barroso, o sambista e compositor de “Aquarela do Brasil”, era um fanático torcedor do Flamengo e narrador esportivo, totalmente parcial ao "Mengo", nas rádios Cruzeiro do Sul e Tupy do Rio de Janeiro. Conta a história que num Fla-Flu, entre os anos 50 e 60, o Fluminense fez 1 X 0 e Ary Barroso simplesmente ignorou o gol, narrando a seqüência do jogo normalmente, divulgando inclusive que o placar estava 0 X 0. Verdade ou não, o fato entrou para a história do clássico.
Quem seriam os maiores personagens do Fla-Flu nestes 100 anos de história? Pelo lado do Flamengo, provavelmente foi Zico, com 19 gols marcados, embora Pirilo tenha feito 18 na década de 40, mas sem ganhar tantos títulos pelo rubro-negro quanto o "galinho de Quintino".
Pelo lado do Fluminense, Ézio fez 12 gols na pior década da história do Fluminense, nos anos 90; Hércules marcou 15 na década de 30; Russo 13 na de 40; Renato Gaúcho fez um gol de barriga na decisão do Campeonato Carioca de 1995, ano do centenário do clube rival. Mas provavelmente o grande nome foi Assis, o carrasco dos anos 80, que marcou gols nas decisões dos campeonatos cariocas de 1983 e de 1984, sendo que em 1983, no último minuto do jogo .
A estatística do Fla-Flu é favorável ao Flamengo. Até hoje foram disputados 390 clássicos, com 139 vitórias do Flamengo, 123 do Fluminense e 127 empates. O Flamengo marcou 568 gols e o Fluminense 518. O Fluminense desconsidera dez partidas válidas pelo Torneio Início entre 1918 e 1965.
O campeonato era disputado em apenas um dia, no mesmo estádio, na véspera do início do Carioca. As partidas tinham apenas 20 minutos, sendo dois tempos de 10 minutos cada. Apenas a final tinha 60 minutos. Se houvesse empate, seria o vencedor quem tivesse mais escanteios a favor.
Pelos números do Flamengo, o time, em 390 partidas, tem 139 vitórias, 128 empates e 123 derrotas, com 568 gols pró. Na conta do Fluminense, nos 380 jogos, são 119 vitórias, 134 empates e 137 derrotas, com 511 gols pró.
Os dois clubes detém 62 títulos estaduais. Os dois times reúnem juntos oito Campeonatos Brasileiros, excluindo a Copa União de 1987, três Copas do Brasil, três Torneios Rio-São Paulo e 62 Campeonatos Cariocas.
O último clássico Fla-Flu foi realizado em 11 de março deste ano, no Engenhão, válido pelo Campeonato Carioca, com vitória do Flamengo por 2 X 0 , gols de Ronaldinho Gaúcho e Kléberson. Amanhã, no Engenhão, teremos o clássico de número 391 (para o Flamengo) ou 381 (para o Fluminense) da história, válido pelo Campeonato Brasileiro deste ano.
O Fla-Flu foi imortalizado em frases e crônicas célebres dos irmãos Nélson Rodrigues e Mário Filho. Como as de Nélson: “No dia da inauguração do paraíso, houve um Fla-Flu de portões abertos, e escorria gente pelas paredes”; “Tudo é Fla-Flu, o resto é paisagem“; ou “o Fla-Flu foi criado seis mil anos antes do nada”. (Pesquisa: Nilo Dias)
Foto do primeiro Fla-Flu da história.
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