Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sábado, 8 de outubro de 2016

E Deus não para de levar meus antigos colegas

Minha Nossa Senhora, o que está havendo? Deus está levando embora muitos companheiros de imprensa, que comigo conviveram durante muito tempo.  Dia desses foi o Jonas Cardoso, uma das mais bonitas vozes do rádio de Rio Grande. Fez parte da equipe esportiva da Rádio Cultura Riograndina, por mim comandada nos anos 80, e com certeza uma das melhores que existiram na Zona Sul do Estado, em todos os tempos.

Antes, já haviam partido o Jorge Ravara, advogado e comentarista esportivo dos melhores que conheci. Gilson Tilmann, repórter de campo experiente. E mais recentemente Ney Amado Costa, que além de comentarista esportivo teve carreiras brilhantes como jogador e depois técnico. Poucos dias atrás se foi o Pedro Pinheiro, excelente narrador de futebol.

O rádio esportivo de Rio Grande já tinha perdido, anteriormente, outros valores de renome, como o comentarista Volni Dutra e o narrador Paulo Corrêa, este, sem dúvida o grande nome da imprensa esportiva pelotense e riograndina em todos os tempos. E ainda José Paulo Rodrigues Nobre, narrador de qualidade e poeta admirável.

E nesta semana mais um golpe inesperado, com o falecimento do grande narrador de futebol, Carlos Roberto de Freitas Brauner, com quem tive a honra de trabalhar na Rádio Pelotense, nos anos 1970. Brauner nasceu em Pelotas, no dia 7 de novembro de 1951 e faleceu em Porto Alegre, ontem, 7 de outubro de 2016, na idade de 64 anos. 

Era sobrinho de Clóvis Brauner, grande jogador de futebol do passado, que brilhou no E.C. Pelotas, Grêmio Gabrielense, Santos e Seleção Brasileira.

Em um post em sua página no Fabebook, o narrador esportivo Mário Lima, da Rádio Eldorado, divulgou uma nota de pesar, ontem, sexta-feira pela morte do colega radialista Roberto Brauner.

Na mensagem, Mário Lima lamentou a perda do colega: “Dia triste para todos que conviveram com o querido Roberto Brauner, um cara do bem e grande narrador esportivo. Trabalhamos em prefixos diferentes desde os anos oitenta e dividimos muitas viagens e muitas mesas com muitas histórias ao final de cada transmissão. O “Bob, como eu o chamava não passou em vão neste plano. Vá em paz parceiro”.

Também fui colega do Mário Lima, na Cultura Riograndina. Eu o levei para lá. Pena que tenha ficado pouco tempo. A saudade de Porto Alegre falou mais alto e ele preferiu voltar para o rádio da Capital.

Desde cedo Brauner mostrava vocação para a narração esportiva. Já aos 11 anos de idade andava pelos corredores da Rádio Universidade, de Pelotas, ensaiando transmissões esportivas. Com menos de 20 anos, já era o narrador principal da emissora da Universidade Católica.

Depois foi para a Rádio Pelotense, levado por mim. Eu era o chefe da equipe esportiva da mais velha emissora gaúcha. Além do Brauner levei outro narrador de grandes qualidades, Luiz Carlos Martinez, falecido há pouco tempo.

O Martinez, além de excelente radialista foi um goleiro de futebol de salão dos melhores que o Estado do Rio Grande do Sul conheceu. Defendeu a meta salonista do E.C. Pelotas, que tinha um timaço: Martinez - Rosinha - Vianinha - Aldrovando Dutra – Joca - Galego e Gringo. O "Galego" era o grande treinador Paulo de Souza Lobo.

Eu e o Brauner apresentávamos quase todos os programas esportivos da emissora. Aos domingos à noite ia ao ar a “Grande Resenha Esportiva Mesbla”, também com a presença do Martinez.

O Brauner ria por qualquer coisa. Certa vez, em meio ao programa, o saudoso plantão esportivo Romeu Machado dos Santos, o “Machadinho”, abriu a porta do estúdio com o programa no ar, perguntando insistentemente: “Interessa bolão?”. Ele se referia a noticias sobre o bolão, esporte muito praticado em Pelotas, especialmente pela colônia alemã lá existente.

Foi o que bastou para o Brauner explodir em risadas. E como eu não era e nem sou de ferro, acabava por rir, também, o que provocava a pronta intervenção do técnico de som, colocando uma providencial cortina musical.

Muitas foram às transmissões esportivas que fizemos juntos. Uma, foi inesquecível. O Pelotas foi jogar em São Leopoldo, contra o Aimoré, em uma quarta-feira a tarde. A direção da emissora esqueceu de pedir a linha. Mas ainda assim eu e o Brauner fomos para São Leopoldo e conseguimos junto a Companhia Telefônica a condição para transmitir o jogo.

O telefone foi cedido pelo dono de um restaurante, que ficava a uns 300 metros do Estádio Cristo Rei. Mas houve a condição de que nós instalássemos a linha. A Telefônica nos cedeu uma escada e os fios, e fizemos o trabalho em tempo recorde.

A tarde transmitimos o jogo. O Brauner de narrador e eu de comentarista e repórter. Quase ao fim do jogo, o atacante Mortosa, aquele mesmo que é o eterno companheiro de Luiz Felipe Scolari, o “Felipão”, ponteiro-direito do áureo-cerúleo foi derrubado dentro da área. E gritamos ao mesmo tempo: é pênalti que o juiz não marcou.

Para que. Os torcedores que se encontravam abaixo da nossa cabine, partiram para a agressão. Derrubaram o aparelho de transmissão no chão. E se não fosse a pronta intervenção de soldados da Brigada Militar, não sei o que de pior poderia ter acontecido.

Brauner já alcançara a condição de narrador tipo exportação. Pelotas já ficara pequena para sua grandeza. E foi buscar novos horizontes, indo para a Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, onde estreou no dia 2 de fevereiro de 1977, narrando a final da “Copa Governador do Estado”, entre Brasil, de Pelotas e Esportivo, de Bento Gonçalves.

Permaneceu na rádio por mais de 20 anos, tendo  feito a cobertura das Copas do Mundo de 1978, 1982, 1986, 1990, 1994, 1998 e 2002.

Além de futebol era excelente narrador de outras modalidades esportivas. Esteve presente no tricampeonato de Ayrton Senna, jogos de Gustavo Kuerten na Copa Davis, jogos de vôlei da Frangosul, as 24 horas de Tarumã, as Olimpíadas de Atlanta 96 e várias outras modalidades, dentre elas, o basquete.

Em 1999 trocou de endereço, indo para à Rádio Pampa onde permaneceu até 2007, quando a emissora fechou o Departamento de Esportes. Apresentou o programa matutino “Grande Porto Alegre”, na Rádio Bandeirantes, entre 2007 e 2009.

Depois transferiu-se para à Rádio Eldorado, de Criciúma (SC), onde narrou os jogos da equipe do Criciúma na Série B. Foi demitido no mesmo ano, por ter alto salário na emissora e pelo fato de o time criciumense não ter subido àquele ano. Ganhou três “Prêmios Press” de melhor narrador esportivo em 2000, 2001 e 2002.

Além de esportes, Brauner também atuou em eleições, em Porto Alegre, quando estava na Rádio Gaúcha. Aposentado, confessou estar sentindo muita falta da vida de comunicador.

O velório aconteceu entre 15h e 20h, no Cemitério São Miguel e Almas, onde o corpo foi sepultado.

Fazia muito tempo que eu não via o Brauner. A última vez que falei com ele foi em 1991, quando eu era presidente da S.E.R. São Gabriel. Depois de um jogo amistoso com o Internacional, de Porto Alegre, vencido pelo “colorado” por 2 X 0, oferecemos um churrasco aos visitantes, no salão de festa dos Lederes, frente o Estádio.

E lá estava o Brauner, que havia narrado o jogo pela Rádio Gaúcha. Conversamos bastante e matamos à saudade dos bons tempos do rádio em Pelotas.

Para concluir esta matéria de saudade, lembro também de outros companheiros de rádio esportivo em Pelotas, que Deus já levou: Dinei Avelar, que foi o melhor plantão esportivo da cidade, levado por mim para a Rádio Tupancy. Depois foi para a RU, onde ganhou notoriedade.

Izabelino Tavares, meu irmão, que foi plantão esportivo na Rádio Tupancy. Benito Amato, comentarista esportivo. Trabalhamos juntos na Rádio Pelotense, nos tempos do prédio da rua Félix da Cunha. E também Paulo de Souza Lobo, o "Galego".

Fernando Cunha e Honório Sinott, colegas no jornal “Diário Popular”. Abrãao Gonçalves, o “repórter do rei”, que levei para a Rádio Pelotense. Antônio Carlos Alves, com quem formei uma inédita dupla de narradores de futebol, na Rádio Tupancy. E quem sabe tenha esquecido de outros, e peço desculpas por isso (Texto e pesquisa: Nilo Dias)


Roberto Brauner.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Uma incrível homenagem póstuma

Já pensou na possibilidade de seu clube de futebol lhe fazer uma homenagem com um minuto de silêncio, antes de começar um jogo de futebol e você estiver vivo? Pode parecer piada de mau gosto, mas isso aconteceu.

Na tarde de 24 de julho deste ano, o Jabaquara Futebol Clube, tradicional agremiação esportiva da cidade praiana de Santos (SP) jogou e venceu ao Grêmio Prudente, de Presidente Prudente, por 3 X 2, em partida válida pela primeira rodada da segunda fase do Campeonato Paulista da Série A2.

O início do jogo contou com um momento inusitado. O sistema de som do “Estádio Espanha”, do clube santista, na “Caneleira”, anunciou um minuto de silêncio após a notícia de que o presidente do Jabaquara, Antônio Gilberto Amaral da Silva, 70 anos, havia falecido.

Ao final do primeiro tempo, no entanto, a organização do clube esclareceu que a informação estava equivocada e que o dirigente ainda estava vivo.

O acontecimento seria cômico se não fosse trágico. Ricardo Gonçalves da Silva, filho de Antônio Gilberto esteve no estádio e explicou que seu pai sofreu uma complicação na cirurgia de que foi paciente, mas ainda estava sendo avaliado pelos médicos.

Antônio Gilberto estava há meses com um problema na coluna. Ele já havia operado o fêmur. Estava afastado do cargo pelos problemas de saúde, e já não andava mais. O presidente havia operado a cervical na semana passada, e na última sexta-feira passou mal e voltou para o hospital.

O falecimento ocorreu após a terceira cirurgia que Antônio teve de passar. Curiosamente sua morte aconteceu três dias depois da gafe da equipe ganhar destaque no país.

Ele chegou a jogar profissionalmente pelo Jabaquara na década de 60. Silva era presidente do clube desde setembro do ano passado, quando assumiu o posto no lugar de Manoel Rodriguez Gonzales, que morreu de câncer.

O velório aconteceu no “Memorial Necrópole Ecumênica”, em Santos, onde se realizou o sepultamento. O Jabaquara Atlético Clube lamentou a morte de seu presidente e lançou nota oficial prestando solidariedade aos familiares.

No jogo contra o Prudente, o Jabaquara marcou dois gols em apenas nove minutos no primeiro tempo. Aos 2 minutos, Welder marcou o primeiro gol do time da casa em uma jogada com Caique.

Logo depois, aos 9 minutos, Alef recebeu livre e não deu chances de defesa para o goleiro Douglas Silva. O início avassalador garantiu uma tranquilidade para a equipe que venceu o jogo por 3 X 2.

Ainda no primeiro tempo, o Grêmio Prudente descontou aos 30 minutos. Gustavo derrubou Renatinho na área. O próprio reduziu a diferença, cobrando pênalti com um chute certeiro no canto esquerdo.

Aos 19 do segundo tempo, Jé ampliou a vantagem do Jabaquara para 3 X 1. No final da partida, aos 46 minutos, Renatinho marcou mais uma vez para o time visitante. Reação tardia e os três pontos foram garantidos para o “Jabuca”.

Torcedor fervoroso do Jabaquara, Gilberto chegou a atuar com a camisa do “Leão da Caneleira” em 1965, mas devido a uma torção no joelho, acabou deixando o futebol. Apesar de ter participado por décadas da vida política do clube, ficou menos de um ano no cargo de presidente.

O Jabaquara foi fundado a 15 de novembro de 1914. Suas cores são o amarelo e o vermelho. A agremiação, anteriormente chamada de “Hespanha”, foi um dos membros fundadores da Federação Paulista de Futebol.

Disputou a Primeira Divisão estadual (atual A-1) entre os anos de 1927 a 1963, com sete ausências. Atualmente, disputa a Segunda Divisão do Campeonato Paulista de Futebol, organizado pela FPF.

O histórico do clube conta que ele foi fundado por um grupo de jornaleiros espanhóis, ou "tribuneiros", como eram chamados, ao início do século 20, que costumavam se reunir em torno do atual bairro do Jabaquara, em Santos.

Várias denominações foram sugeridas para a nova agremiação, como nova Cintra e Jabaquara. Mas acabou prevalecendo “Hespanha”, sugestão de um senhor negro, ex-escravo. E assim surgiu o “Hespanha Foot Ball Club”, em 15 de novembro de 1914.

A sua primeira partida oficial ocorreu em 1916, contra o Clube Afonso XIII, um resultado de 1 X 1, ocasião em que foi levantado o primeiro pavilhão do clube.

Nos anos de 1918 a 1920, conquistou a "Taça Grande Café D'Oeste" e participou como convidado na inauguração do estádio da Associação Atlética Portuguesa.

A partir dai o clube alcançou um grande crescimento, obrigando os dirigentes a construírem em 1924 uma praça esportiva maior, que se localizava no bairro do “Macuco”, o "Estádio Antônio Alonso", que levou o nome do seu proprietário. 

O primeiro jogo internacional do “Hespanha” aconteceu em 1930, tendo como adversário uma Seleção de Buenos Aires. Os brasileiros venceram por 3 X 2.

O Hespanha Foot Ball Club, como foi chamado até 1941, entrou para a Liga Santista em 1917. Dez anos mais tarde, a equipe começou a ganhar seu espaço e com campanhas impressionantes recebeu o carinhoso apelido de “Leão do Macuco”, numa alusão ao bairro em que ficava sua sede.

Uma lei datada da década de 1940, quando da Segunda Guerra Mundial, obrigou a mudança de nome. O clube, depois de uma votação, passou a chamar-se Jabaquara, em homenagem ao seu bairro de origem.

O ano de 1944 foi histórico. O ataque do time foi o melhor do futebol paulista. Esse período de grandeza resistiu até 1957, quando o treinador era Arnaldo de Oliveira, popularmente conhecido como “Papa”.

Tempos de revelações de grandes jogadores, como o goleiro Gilmar, com passagem pelo Sport Club Corinthians Paulista e campeão mundial pelo Santos Futebol Clube e Seleção Brasileira de Futebol. E Osvaldo da Silva, o famoso “Baltazar”, que depois se consagrou no Corinthians, recebendo o apelido de “Cabecinha de Ouro”.

Durante sua centenária trajetória o Jabaquara revelou outros bons jogadores, casos de Marcos (revelado para o Corinthians), Feijó, Getúlio, Ramiro e Álvaro (para o Santos), Célio (para o Vasco da Gama,do Rio de Janeiro) e Melão, (do Santos para a Itália).

Em 1945 o clube sofreu grave crise financeira e por pouco não foi rebaixado para à Segunda Divisão. Teve de vender um valorizado terreno, próximo à praia, no bairro “Ponta da Praia”, que não saldou as dívidas do clube. Restou treinar em um campo na cidade vizinha de São Vicente.

O ano de 1957 foi marcante na história do clube, que conseguiu bater de virada o rival Santos, em partida inesquecível disputada na Vila Belmiro.

O técnico do Jabaquara era Nelson Ernesto Filpo Nuñes, que a partir dali passou a ser chamado de “Dom Filpo” pelo seu feito de vitórias consecutivas no clube. Ele ainda salvou o clube de um rebaixamento em 1959. O inevitável rebaixamento ocorreu em 1963.

Em 1963 o Jabaquara comprou uma grande área de 67.380 m2, em um local alagadiço e pouco valorizado, mas que contribuiu para o crescimento no bairro da “Caneleira”, onde construiu seu atual estádio, que leva o nome de “Hespanha”. A área é bem maior que do Estádio Urbano Caldeira, da Vila Belmiro. Essa é a origem do nome da mascote, "Leão da Caneleira".

As seguidas crises de ordem financeira fizeram com que o clube se dedicasse durante algum tempo, a equipes amadoras, deixando o futebol profissional. O retorno aconteceu somente em 1977 inserido na Terceira Divisão (atual A-3).

A partir dai o Jabaquara vive uma alternância entre a Segunda Divisão (atual A-2) e a Terceira, mesmo sendo um privilegiado fundador da Federação Paulista de Futebol.

Em 2002 o clube parecia que ia se recuperar dentro de campo, quando foi campeão paulista da Série B3, antiga Sexta Divisão, atualmente extinta, chegando a se manter invicto por 23 jogos.

E assim tem sido sua trajetória. Em 2006 e 2007 na Quarta Divisão
Em 2008 a equipe anexou ao seu patrimônio o Litoral Futebol Clube, entidade de um projeto social idealizado por “Pelé”.

Com isso a equipe conseguiu apoio para as disputas da Série B estadual e para as categorias de base, além de um patrocínio com a empresa alemã “Puma”, fornecedora de materiais esportivos. Além do Jabaquara, o Monte Alegre e o Paulista, de Jundiaí também fazem parte do projeto.

Participações em campeonatos. Campeonatos Paulista: Série A1: 30 participações (1927, 1928, 1929, 1935, 1936, 1937, 1938, 1939, 1940, 1941, 1942, 1943, 1944, 1945, 1946, 1947, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952, 1955, 1956, 1957, 1958, 1959, 1960, 1961, 1962 e 1963); Série A2: 6 participações (1964, 1965, 1966, 1967, 1980, e 1982); Série A3: 12 participações (1981, 1983, 1984, 1985, 1986, 1987, 1988, 1989, 1990, 1991, 1992 e 1993); Segunda Divisão: 20 participações – 1977, 1978, 1979, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015; Série B2 (extinta): 4 participações (2000, 2001, 2003 e 2004); Série B3 (extinta): 1 participação (2002). Títulos Estaduais. Campeonato Paulista - Série A3 (1993) e Campeonato Paulista Segunda Divisão (2002).

Campanhas de Destaque. Taça Grande Café D'Oeste: (1918, 1919 e 1920); Vice-Campeonato Paulista Sub-20 - 2ª Divisão (2011 e 2012) e Vice-Campeonato Paulista (1927).

O Jabaquara Atlético Clube conta apenas com uma torcida organizada: a “Fúria Rubro-Amarela”, fundada em 2008. Essa torcida vem se destacando no cenário paulista da segunda divisão, comparecendo aos jogos, incentivando e apoiando o clube em todos os momentos. O seu lema é "Lado a lado com o Jabuca". (Pesquisa: Nilo Dias)

Antônio Gilberto Amaral da Silva, presidente do Jabaquara, que recebeu homenagem de um minuto de silêncio, ainda em vida. (Foto: Divulgação)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

O “santo” massagista do América de São José do Rio Preto

Homem de um milhão de amigos dentro e fora do futebol, de caráter ilibado e sempre solícito, Antônio Sutto, o “Tio Nico”, foi o maior massagista da história do América Futebol Clube, de São José do Rio Preto. Foram 33 anos dedicados ao “rubro”, uma de suas grandes paixões.

Nascido em Neves Paulista, no dia 10 de agosto de 1933, em sua longa carreira curou contusões de jogadores e de todos que o procuravam no alto da Vila Santa Cruz, na antiga sede do América, no estádio Mário Alves Mendonça.

Entre as muitas histórias que se contam sobre ele, o debutante América fazia boa campanha na elite paulista, com vitórias sobre o Taubaté, Ferroviária, 15 de Jaú e Guarani, de Campinas, empates com Portuguesa Santista e Nacional e somente uma derrota, para o Botafogo, de Ribeirão Preto.

"Nico", apelido que carregou desde a infância, ainda não era massagista do seu clube de coração. Trabalhava como enfermeiro no Pronto Socorro Municipal, no cruzamento das ruas Voluntários de São Paulo e Saldanha Marinho, frente o antigo “Tiro de Guerra”, no Centro de Rio Preto.

Seu irmão Arlindo Sutto e o amigo João Manoel Pereira Filho, também prestavam serviços no local. Os massagistas Osmar e Francis tinham deixado o América logo após a vitória de 3 X 0 sobre o Guarani, em Rio Preto, dia 18 de junho, pela sétima rodada do Paulistão.

Profissional qualificado, apaixonado pela profissão, nunca passou pela cabeça de "Nico" qualquer envolvimento com o futebol, a não ser o de torcedor.  

Foi quando o médico Carlos Cabbaz e o diretor Osvaldo Meucci, o “Dico”, foram até a sua casa pedir para que ele colaborasse com o América, que no domingo seguinte jogaria com o Jabaquara, em Santos.

Prestativo como ele só, "Nico" conseguiu uma folga no Pronto Socorro e foi com a delegação vermelha para o litoral santista. Deu sorte e o América conseguiu empatar em 0 X 0. E dessa maneira teve início a sua carreira de massagista.

O técnico americano era o argentino Filpo Nuñez. O time era bom e a torcida sabia a escalação de cor e salteado: Vilera - Xatara e Fogosa. Adésio - Bertolino e Ambrózio. Cuca – Leal – Dozinho - Vidal e Orias.

Era um mundo completamente diferente daquele que estava habituado. Além das injeções e medicamentos diversos, vestiário, jogadores, óleo elétrico e muita massagem também fizeram parte do seu cotidiano.

Passou a viver ativamente a vida do clube. Os jogadores aprenderam a gostar dele e confiarem no seu profissionalismo. Na hora da dor, era só consultar o "Nico" para ter alívio imediato.

Mas ele era exigente e gostava que os jogadores seguissem à risca as suas determinações. Costumava dizer que era mais fácil trabalhar quando todos são disciplinados e obedientes.

A atenção que "Nico" dedicava a todos, fez com que também se tornasse um verdadeiro conselheiro dos atletas. Muitos contavam a ele até intimidades. Foi assim com o jovem atacante Cardoso, artilheiro da equipe americana na conquista do título da Segunda Divisão de 1963.

Amante de pescaria, o “santo massagista do América” curtia os raros momentos de folga na beira do rio Turvo. Alguns atletas viraram companheiros de pesca, como o zagueiro "Nelson Coruja", que depois foi para o Palmeiras, e o goleiro Reis.

O jogador “Nélson Coruja”, que havia jogado no América e foi para o Palmeiras, chegou a indicar ao alviverde a contratação de "Nico" . Mas este agradeceu o convite e preferiu ficar no América, clube que aprendeu a amar. Além de manter suas raízes de riopretano.

"Nico" dizia que a parte financeira não era o que mais importava. Ganhando bem ou mal, o importante era executar o trabalho com dedicação, disse, em entrevista publicada em 1969 pelo jornal “Diário da Região”.

Trabalhou no América até 1991. Neste período, foi campeão da “Segunda Divisão”, de 1963 (atual A-2), com acesso ao Paulistão, e do “Torneio José Maria Marin”, de 1987 (equivalente a Copa Paulista de hoje).

Ainda participou da conquista da “Taça dos Invictos”, de 1973, quando o América ficou 17 jogos sem perder no “Paulistinha”. Também viu a equipe disputar os campeonatos brasileiros de 1978 e de 1980.

"Tio Nico" trabalhou com os treinadores Filpo Nuñez, Américo Brumell, Conrado Ross, João Avelino, Antonio Julião, Gilson Silva, Rubens Minelli, João Leal Neto, Wilson Francisco Alves, o “Capão”, Vail Mota, Urubatão Calvo Nunes, Barbatana, Candinho e outros conceituados mestres.

Em junho de 1992, Antônio Sutto sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o que complicou bastante a sua saúde. Os últimos 18 meses de vida foram passados em uma cadeira de rodas. Apesar da lucidez, conversava pouco.

Era um quadro bem diferente, que em nada lembrava daquela pessoa falante e divertida, dos tempos de massagista, que animava o vestiário ao contar causos saborosos.

“Nico” foi casado com Célia Rodrigues e teve os filhos Marcos Antônio, Márcio e Márcia Bruna, mas separou-se da mulher na década de 1980.

Com a saúde debilitada, foi morar em uma casa em Santa Fé do Sul, alugada por seu irmão Arlindo. Tinha acompanhamento diário de médico e de enfermeira.

Morreu de insuficiência respiratória aos 60 anos, no dia 9 de dezembro de 1993, numa manhã cinzenta de nuvens carregadas, como se o céu também chorasse a sua partida deste plano espiritual. (Pesquisa: Nilo Dias, baseada em artigo de Edwellington Villa, do jornal "Diário da Região", de São José do Rio Preto)


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O jogador que nunca fez gol

Izídio Osorio, o “Cascudo”, foi um bom lateral direito que jogou no futebol de Pelotas (RS) nos anos 1950, 1960 e 1970. Teve uma particularidade, nunca fez um gol sequer na carreira em que defendeu os três clubes da cidade, Brasil, Farroupilha e Pelotas.

“Cascudo” nasceu em Pelotas no dia 13 de janeiro de 1935 e faleceu em sua terra natal no dia 15 de junho de 2015, aos 80 anos de idade. O ex-lateral foi sepultado pela manhã no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula.

Ele esteve internado por um longo período em uma casa de geriatria, localizada na rua General Osório entre Dom Pedro II e Telles e sofria do “Mal de Alzheimer”.

Começou a carreira no G.E. Brasil onde participou de 80 jogos, ao longo das temporadas de 1954, 1955, 1956 e 1957. Esteve em campo no amistoso realizado em março de 1957, entre Brasil X Santos, com “Pelé” no time paulista.

Em 1960, aos 25 anos de idade, transferiu-se para o rival, Esporte Clube Pelotas, e depois para o Grêmio Atlético Farroupilha, onde participou do time que ficou conhecido como “Academia Tricolor”, que marcou época nas décadas de 1960 e 1970.

O time base do Farroupilha era: Caramuru – Cascudo – Osmarino - Zéquinha (Noel) e Betinho. Noredim e Gilnei. Celso – Lelo - Wilson Carvalho e Dias. Depois de encerrar a carreira de jogador foi técnico do próprio Farroupilha.

Segundo registro do jornalista Augusto Santos, Izídio era o técnico do Farroupilha em 1980 quando este venceu o Grêmio Portoalegrense, em pleno Estádio Olímpico, em Porto Alegre. Foi homenageado em 2001 como ex-atleta do Farroupilha.

Quando o escritor pelotense Manoel Soares Magalhães soube do fato, ficou sem saber o que pensar. Confira a seguir sua crônica.

"Dizer o quê de um atleta que jogou profissionalmente e jamais fez um gol. Até hoje não havia pensado nessa possibilidade. Achava impossível existir um jogador que não tivesse feito pelo menos um golzinho. Um meio gol, talvez, com a ajuda do goleiro, do montinho artilheiro, de um Deus de plantão, cuja benevolência extrapolou.

Folheando o excelente livro escrito por Marco Antonio Damian, escritor e historiador, e de Luiz Cesar Freitas, comentarista e cronista esportivo, chamado “Enciclopédia do Futebol Gaúcho – Volume I - Ídolos e Craques”, lançado em 2009, descobri que houve esse jogador.

Chamava-se Isídio Osório, conhecido como “Cascudo”. Sim, “Cascudo” é o nome do jogador que jamais marcou um gol jogando profissionalmente. Encerrou sua carreira sem nunca ter marcado um gol. Sem jamais ter experimentado na alma a quentura de um gol, revolvendo suas entranhas, arremessando-o às alturas.

O ex-atleta já morreu. O que terá pensado no instante do passamento? Que procurou tratar bem a bola, porém, caprichosa como solista de ópera, frustrou suas expectativas? Difícil saber o que terá imaginado o velho lateral-direito “Cascudo”, cujo profissionalismo e dedicação aos clubes que defendeu fora grande. Isso são coisas intangíveis, inimagináveis.

O fato é que o velho “Cascudo” jamais balançou a rede. Não teve esse gosto. Por uma estranha e infeliz ironia".

Dentre os jogadores que se consagraram na academia tricolor daquela época, e que costumava derrotar Grêmio e Internacional nos jogos no “Estádio Nicolau Fico”, alguns já são falecidos: Osmarino, Gilnei, Lelo e Dias, por exemplo. O treinador tricolor, tenente José Avelino Pires da Fonseca também já morreu.

O Grêmio Esportivo Brasil, que também possuía uma equipe consagrada nesta mesma época, tinha Geovio – Adilson – Jocely - Moacir e Bahia. Caçapava e Birinha. Edy – Oli - Fonseca ou Pintinho e João Borges.

Desse time “Xavante”, já são falecidos Geóvio, Bahia, Caçapava, Edy, Oli, Pintinho e João Borges. O consagrado treinador Paulo de Souza Lobo, o Galego, também já morreu.

O Esporte Clube Pelotas também possuía um time de respeito: Piva - Hermínio – Osmar - Walmir e Severo. Serafim ou Luizito e Jara ou Joaquinzinho. Sidnei Buttini - Leal - Walter e Paraguaio.

Dos atletas da “Boca do Lobo” das décadas de 60 e 70, já são falecidos Hermínio, Osmar (Gauchão), Serafim, Joaquinzinho e Humberto Severo. O famoso treinador Oswaldo Rolla (Foguinho), e o treinador das categorias de base, Getúlio Saldanha, também já morreram.

Nessa época eu morava em Pelotas e trabalhava na imprensa local: Rádios Pelotense e Tupancy, jornal “Diário Popular” e Sucursal da Companhia Jornalística Caldas Júnior.

Era torcedor do Farroupilha, por inspiração do saudoso Gabriel Vargas Campelo, que era sogro do meu também saudoso irmão, Izabelino Tavares. O seu Campelo era dono do “Expresso Ponche Verde”, que transportava cargas de Dom Pedrito, minha terra natal, para o Porto de Rio grande e vice-versa.

Por isso conheci e fui amigo de muitos jogadores do Farroupilha, nos seus bons tempos.

Também teve destaque no Farroupilha, Luís Carlos Machado, mais conhecido como “Escurinho”, gaúcho de Porto Alegre, onde nasceu em 18 de janeiro de 1950. Morreu em Porto Alegre mesmo, em 27 de setembro de 2011, aos 61 anos de idade.

Perdeu a batalha para o diabetes que já tinha sido responsável pela amputação de uma perna. Quando morreu morava em Guaíba, tendo enfrentado dificuldades financeiras, mas conseguiu ajuda junto ao Internacional e por alguns dirigentes e conselheiros do clube.

“Escurinho” teve dois filhos, D’Marcelus e Cássius, que tentaram a sorte no futebol. Jogaram nas categorias de base de Grêmio e Internacional e por clubes do interior, mas em momento algum alcançaram o sucesso do pai. D’Marcelus jogou, também, no Paraná.

Eu conheci bem o “Escurinho”. No tempo que ele jogou no Farroupilha fizemos uma sólida amizade. Era um cara espetacular, ótimo sambista e compositor. Ele chegou ao clube por empréstimo, junto do também atacante Pedro.

Anos depois os dois atuaram juntos no Palmeiras, de São Paulo. Em fim de carreira teve passagens discretas, por Caxias e Novo Hamburgo.

Contam que era muito cuidadoso com a imagem. Vestia bem, gostava de usar calça branca, apertada, sapatos brancos, sempre bem lustrados, e camisa “volta ao mundo”, quase sempre estampadas e coloridas.

O que ele mais cuidava era o cabelo, sempre bem penteado. Gostava do “Black Power”, que era moda na sua época. Dizem que ficava duas horas antes do treino, e outras duas horas, depois, ajeitando a cabeleira arredondada, usando como pente, um garfo comprido.

“Escurinho”, certa ocasião foi convidado para participar de um programa de esportes da TV Tuiuti, Canal 4, hoje RBS TV, de Pelotas, quando seria entrevistado ao vivo.

Botou a melhor roupa, penteou o cabelo por três horas e ai notou que sua calça de linho, branca, tinha uma pequena rasgadura, bem acima do zíper, coisa de meio centímetro, imperceptível.

Mas mesmo assim, “Escurinho” entrou em pânico. Já era seis da tarde e o programa era as sete. O táxi estava para chegar e de nada adiantava os companheiros dizerem que ninguém iria notar.

Quem o convenceu que ninguém ia notar, foi o companheiro Izidio Osório, o “Cascudo”. Mas alguns jogadores mais sacanas, entre os quais o goleiro César, não quiseram perder a oportunidade de fazerem uma brincadeira com o colega.

Foram todos para a calçada, frente o Estádio, encostados na parede. Quando Escurinho apareceu, para embarcar no taxi, gritaram ao mesmo tempo: “Pô negão, tu vai na TV com essa calça rasgada. Tu tá com um baita rasgão em cima do fecho. Vai trocar de calça, pô”.

E “Escurinho”, chorou de raiva, abraçado ao técnico “Cascudo”. Disse que não iria mais. Que ia passar vergonha. E só depois de ser convencido que tudo não passava de uma brincadeira, é que Escurinho embarcou no táxi, rumo ao programa de TV, e ainda assim, desconfiadíssimo. (Pesquisa: Nilo Dias)



domingo, 28 de agosto de 2016

A morte do "Bugre Xucro"

Alcindo Martha de Freitas, mais conhecido como Alcindo, nasceu na cidade gaúcha de Sapucaia do Sul, no dia 31 de março de 1945, e morreu em Porto Alegre, no dia 27 de agosto de 2016, na idade de 71 anos.

O ex-jogador de futebol estava internado no Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Porto Alegre, há mais de três meses devido a complicações originadas pela diabetes.

Em julho, o Grêmio chegou a fazer uma campanha junto aos seus torcedores para a doação de sangue ao ídolo, que defendeu a camisa gremista entre 1964 e 1971, e também em 1977, somando 264 gols no clube, sendo 13 em Gre-Nais.

Com passagens também pelo Santos e pelo futebol mexicano, foram 636 gols marcados na carreira. Em 1966, fez parte do elenco que tentou o tri na Copa do Mundo disputada na Inglaterra.

Alcindo começou a carreira nas categorias de base do Aimoré, de São Leopoldo, tendo depois sido transferido para os juvenis do Lansul, de Esteio. Quando de um jogo com os aspirantes do Internacional, em 1958, Alcindo, que tinha apenas 13 anos de idade foi contratado pelo time colorado.

Ao final dos anos 50 foi dispensado pelo Internacional, em razão de ter pedido uma ajuda de custo para poder comparecer aos treinos. Por isso foi parar nas categorias de base do Grêmio, que o emprestou ao S.C. Rio Grande, de Rio Grande, em 1963, onde teve destacada atuação.

No ano seguinte retornou ao Grêmio para jogar nos profissionais do clube. No tricolor, formou uma boa dupla de ataque com João Carlos Severiano. Em 1972 foi para o Santos, convidado por Carlos Alberto Torres e atraído por jogar com Pelé.

Em 1973 foi jogar no Jalisco, do México, a convite do treinador Mauro Ramos. Ainda no México, se transferiu para o América. Foi lá na Cidade do México que nasceu seu filho, Juan Carlos.

O “Bugre Xucro”, apelido dado pelo narrador paulista Geraldo José de Almeida, estreou com a camisa tricolor em 1964. Tinha uma jogada mortal: recebia a bola na entrada da área e, de costas para o gol, protegia-a com o corpo e girava rápido, para o chute certeiro.

Veloz, fazia a festa com os lançamentos milimétricos do meia Sérgio Lopes. Alcindo tinha na força física e na intimidade com o gol adversário as suas principais virtudes. 

Se consagrou como o segundo maior artilheiro da história dos Grenais com 13 gols, ficando atrás apenas de Luiz Carvalho, que marcou 17 vezes pelo tricolor no clássico. É o primeiro jogador, na lista dos 10 maiores artilheiros do clube, com 231 gols ao todo.

Jogou a Copa do Mundo de 1966 pela Seleção Brasileira. Com a camisa canarinho fez sete jogos, sendo quatro vitórias, dois empates e uma derrota. Marcou um gol. Seu companheiro de ataque foi Tostão. Encerrou a carreira profissional em 1978, consagrado como um dos maiores ídolos da história do Grêmio.

Alcindo é o maior goleador do Olímpico. Foram 129 gols em 186 jogos. No total, ali e em outros campos, em 11 anos de Grêmio, ele fez 231 gols em 377 partidas. O Olímpico foi o seu templo.

Alcindo inspirou milhares de crianças e adolescentes a serem gremistas. A maioria, que ouvia a narração das partidas pelo rádio, nunca o viu jogar. O centroavante foi a estrela de um time vencedor, numa época em que a competição regional dava a medida da rivalidade Gre-Nal.

Alcindo estreiou num Gre-Nal no dia 23 de abril de 1964, uma quinta-feira à noite. Havia completado 19 anos no dia 31 de março. O Grêmio tinha Arlindo, Renato Silva, Airton, Áureo, Ortunho, Cleo, Marinho, Sergio Lopes, Joãozinho, Alcindo e Vieira. O Inter vinha com Gainete, Edmilson, Rui, Luís Carlos, Sadi, Sapiranga, Parobé, Nilzo, Vanderley, Gaspar e Cacildo.

Aos 25 minutos do primeiro tempo, Alcindo faz o que considerou o gol mais importante da sua vida, porque o consagrou na estreia de um Gre-Nal. O lateral Renato Silva chutou de longe, a bola bateu no joelho de Gainete, e o Bugre marcou no rebote. Aos 35 minutos, Alcindo marcou de novo.

Alcindo adorava Gre-Nal. Jogou 31 clássicos, ganhou 11, perdeu nove e empatou 11. Fez 12 gols em Gainete, Schneider, Silveira, Guaporé e Manga.

Quantos viram Alcindo jogar? Logo que parou, ele sonhava que continuava fazendo gols. O pesquisador Laert Lopes sabe que, se Alcindo fez 129 gols em 186 jogos no Olímpico, sua média era de dois gols a cada três partidas. Em 57 jogos na Arena, Barcos fez 14 gols. Um gol a cada quatro jogos. Não há como não ter saudade de Alcindo.

Fica a memória do “Estádio Olímpico”, com números também monumentais. Desde o primeiro jogo, no dia 19 de setembro de 1954, até o último, em 17 de fevereiro de 2013, o Olímpico teve 1.768 partidas. O Grêmio venceu 1.159 vezes, empatou 382 e perdeu 227. Fez 3.510 gols, sofreu 1.306.

Títulos. Grêmio: Campeão Gaúcho (1964, 1965, 1966, 1967, 1968 e 1977); Santos: Campeão Paulista (1973); Campeão da Copa dos Campeões Brasileiros (1975); América do México: Campeão Nacional (1976). (Pesquisa: Nilo Dias)


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O adeus a Jonas Cardoso

O rádio gaúcho e brasileiro está de luto com o falecimento ocorrido ontem (24) do diretor da Rádio Minuano, de Rio Grande, Joanes Vladimir Lázarus da Cunha Cardoso ou simplesmente Jonas Cardoso, como era mais conhecido pela sua grande legião de ouvintes.

Tinha 62 anos de idade. Os amigos mais íntimos o chamavam carinhosamente de “Carioca” ou “Sapo”. O sepultamento é hoje (25), saindo da capela A, às 11 horas.

Natural de Carazinho (RS), onde nasceu em 25 de junho de 1954, mudou-se para Rio Grande em meados da década de 1960, tendo trabalhado nas três emissoras AM da cidade, Cultura Riograndina, Cassino e Minuano, da qual era diretor nas últimas quase duas décadas.

E também nos jornais “O Tempo” e na Sucursal da Empresa jornalística Caldas Junior, junto com o também saudoso Marcos Rezende e com a amiga Iara Bandeira, da qual nunca mais tive notícias. E por fim na Assessoria de Imprensa da prefeitura de Rio Grande.

Creio que em sua última passagem pela Cultura Riograndina foi levado por mim, ao tempo que a emissora era dirigida pelo saudoso Paulo Nahuys Coelho e pertencia ao Grupo Delfim. Ele foi comentarista e repórter esportivo, além de noticiarista e apresentador de programas musicais.

Em passagem anterior pela emissora, Jonas apresentava um programa vespertino chamado "Super Som Dimensionado", isso lá pela metade dos anos 1970.

Ainda hoje pela manhã, conversando com o amigo e jornalista Willy César lembrei de um costume diário do Jonas. Todas as manhãs quando chegava na emissora, no velho prédio da Silva Paes, ao passar pelo corredor que levava aos banheiros, sempre com o jornal “Zero Hora” embaixo do braço, parava na janela do Departamento de Esportes e Jornalismo, ambos dirigidos por mim e brincando, dizia a minha esposa Teresinha Motta, que era repórter: “Terê, vou tirar um barro”. 
  
Não esqueço das idas diárias ao “Bar Minuano”, que ficava na Silva Paes esquina Andrade Neves, bem próximo da rádio, onde derrubávamos as cervejas do meio-dia e depois almoçávamos por lá. A noite o endereço era o “Bar do Beledón”, também na Silva Paes, esquina com a Praça Tamandaré.

O Beledón era um uruguaio, que preparava o melhor mocotó da cidade. Um boa praça, que depois de fechar o seu estabelecimento comercial costumava tomar a “saideira” no bar do abrigo de ônibus, na Praça Tamandaré. Ele morava no “Lar Gaúcho”, e certa vez exagerou na dose e entrou dentro do lago que existia ou existe, ainda, na Refinaria de Petróleo Ipiranga. Foi salvo por um dos guardas da indústria.

Mas essa é outra história. No "Bar do Beledón" a gente acompanhava os jornais local e nacional da TV. Na época eu estava na Zero Hora e TV Rio Grande. Era grande a concorrência com a Caldas Júnior, onde o Jonas e o Marcos Rezende trabalhavam na Sucursal.

Certa ocasião eu fiz uma reportagem exclusiva em São José do Norte, quando do resgate de um barco pesqueiro, o “Brasil Atlantic V”, que havia sido jogado na praia após um tremendo temporal na costa nortense.

Jonas e Marcos, apavorados assistiram a reportagem e só não me chamaram de santo, porque não era. Mas rivalidades jornalísticas a parte éramos todos grandes amigos.

Aos domingos o programa era diferente. A gente ia ao Clube de Regatas Rio Grande ou ao Hipódromo da Vila São Miguel, que lamentavelmente não existe mais. Quando chovia o galho era quebrado no "Restaurante Tamandaré", frente a praça de igual nome.

Vez por outra nos aventurávamos a locais mais longe do centro da cidade, como o “Bar Gato Preto”, passando o pórtico. E a gente não desprezava nenhuma festa, fosse longe ou perto.

Em outra oportunidade eu e o Jonas acompanhamos o nosso Rio-Grandense até São Gabriel, para o jogo decisivo pelo campeonato de Ascenso do Rio Grande do Sul. O nosso time perdeu nos pênaltis. Ao chegarmos em Rio Grande, quase ao clarear do dia, deu ainda para tomarmos a saideira no Bar do Abrigo.

Jonas também foi atleta. Excelente goleiro de futebol de salão, defendeu por muitos anos o time do Bossa Nova, clube riograndino de futebol de salão que se sagrou campeão estadual em 1974. Depois jogou no Rio-Grandense futebol de salão, que era dirigido pelo saudoso Bento Castelã.

E também brincava no time do "Bar Minuano", onde eu também jogava e o pessoal me chamava de “Geraldão”, em referencia ao atacante que na época jogava no Internacional, de Porto Alegre. Modéstia a parte, eu era um artilheiro nato.

Na década de 1960, antes de se mudar para Rio Grande, Jonas já atuava como goleiro de futebol de salão e de campo em sua terra natal, Carazinho.

O amigo comum, jornalista Willy César escreveu em sua página no Facebook:

“Aprendi a gostar do Jonas, ouvindo seus programas em rádio, no início dos anos 1970. Lembro de uma parada de sucessos aos sábados, à noite, na Rádio Cultura Riograndina, programa que simplesmente adorava, na inocência dos meus 14 anos. Foi um dos meus ídolos do rádio.

Quis o destino que nos tornássemos amigos e colegas de profissão, no rádio e no jornalismo. Trabalhamos em rádio, no mesmo momento, ele na Cassino, depois na Minuano; eu na Rádio Universidade FM, atual Furg FM.

E entre os anos de 1997 e 2001, atuamos juntos no Gabinete de Imprensa, da Prefeitura Municipal de Rio Grande, como repórteres. Foi um aprendizado muito bom para ambos.

Com ele, aprendi muitos macetes do fazer jornalístico dentro da Prefeitura, situação familiar a ele. Eu dei algumas dicas como escrever em computador, pela primeira vez na vida dele, e dali, deslanchou.

Entrevistei-o na Rádio da Furg, em 1992. Voz linda, perfeita. Ele contou passagens de sua vida como goleiro de futebol de campo e salão. Atuando no Bossa Nova, como goleiro, foi campeão estadual de futsal. Também revelou detalhes incríveis de sua vida de radialista e jornalista. Esta gravação está no Museu da Comunicação "Rodolfo Martensen"/Furg.

Como delegado regional dos jornalistas de Rio Grande, tive a incumbência de montar o processo para obtenção de registro de jornalista profissional, que lhe foi entregue em 1993, embora já atuasse desde os anos 1970.

Foi um exemplo para todos nós. Quando apareceram dois cânceres na garganta, livrou-se deles, um após o outro, mas perdeu a voz. Lutou como um leão, submeteu-se a um transplante de rim, fez diálise, até a hora da morte. Há poucos dias, teve uma perna amputada, mas já pensava em adquirir prótese mecânica. Continuava lutando pela vida.

Como excelente goleiro que foi, defendeu-se das envenenadas "bolas" da morte, matando-as no osso do peito algumas vezes, partida que só perdeu agora, deixando-nos tristes e melancólicos. Foi um bravo, um guerreiro incansável, exemplo que serve a todos os seus familiares, e aos seus amigos e colegas, que com ele aprendemos e juntos crescemos na profissão de radialistas e jornalistas.

Muita luz na reentrada celestial, parceiro Jonas Cardoso. Abraços carinhosos aos irmãos e sobrinhos”.

A última vez que vi o Jonas foi em 2011, em uma bonita festa na Pizzaria Passione, na avenida Domingos de Almeida, em Rio Grande, organizada pelo Willy César e o Célio Soares, em minha homenagem, com a presença de amigos da imprensa e do F.B.C. Rio-Grandense.

Também foi a última vez que vi o amigo comum Ney Amado Costa. Havia uma particularidade entre eu o Jonas e o Ney. Os três torcíamos pelo Rio-Grandense e pelo Internacional, de Porto Alegre. Mais pelo colorado riograndino, é claro.

Conto essas historinhas para lembrar da grande amizade que nos uniu por mais de 40 anos. Tempo bom que não volta mais. Mas fica a lembrança que nada pode apagar. Que descanse em paz. (Texto: Nilo Dias)

Eu e Jonas, no Bar Minuano, em 2011. (Foto: Meu arquivo pessoal(

Time do Bossa Nova, campeão estadual, com Jonas no gol. (Foto: Arquivo de Claudio Carvalho de Moura)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

“Silva Cão”, o endiabrado

Averaldo Dantas da Silva, conhecido como Silva "Cão", nasceu em 9 de maio de 1948, no bairro do Mutange, em Maceió. O apelido ganhou quando ainda era criança e jogava futebol na rua. E o acompanha até hoje. Silva cresceu sendo chamado de “Cão” por causa de seu estilo de jogo incisivo. Chegou até a ser comparado ao “diabo” porque costumava infernizar os adversários.

O futebol de Alagoas pode até não ser dos mais adiantados do país, o que não impede que muitas vezes surjam jogadores de alta condição técnica e que acabam se transferindo para centros maiores. Foi o caso dele, considerado até hoje um dos maiores ponteiros esquerdos do futebol alagoano.

Aos 16 anos, foi campeão jogando no Bebedourense, time amador de Maceió, quando ainda era um pré-juvenil. Após sair do Bebedourense, foi levado ao CSA, mas não foi aproveitado porque o então técnico Hélio Miranda o achava magrinho e só servia para cruzar a bola.

Rejeitado no time azulino, o então dirigente Binel o viu jogar e o levou ao CRB. Lá ele ficou e o CRB adquiriu o seu atestado liberatório dando em troca uma série de meiões ao Bebedourense. Naquela época, 1965, ainda era um juvenil.

Hábil e driblador, "Silva Cão", aos 18 anos já era titular do CRB. Seu estilo de jogo era mesmo esfuziante. Oportunista e manhoso, o craque superava seus adversários com muita categoria. Seus dribles sensacionais deixavam, quase sempre, em polvorosa as defesas adversárias.

Em 1965, jogando pelo CRB surgiu como a grande revelação do campeonato. Seu primeiro treinador foi Claudinho que confiou no futebol e o lançou no time principal. Aos 18 anos já era um craque cobiçado pelo Sport, de Recife, mas o CRB não o deixou se transferir para o futebol pernambucano.

Na sua estreia no profissional do CRB, em 1966, Silva jogou contra o time do extinto Estivadores e marcou o gol da vitória do Galo por 1 X 0 no campo da Pajuçara, o velho “Estádio Severiano Gomes Filho”.

Mas o bom foi a partida seguinte, uma quarta-feira à noite, também no campo da Pajuçara, que, na época, tinha iluminação. O CRB ganhou por 3 X 1 do CSA e “Silva Cão” fez os três gols. Foi a consagração, mesmo no início da carreira. Daí em diante, deslanchou.

Nesse período foi campeão alagoano em 1969. Quando surgiu a oportunidade para ir jogar no Vasco da Gama, o clube da Pajuçara fechou o negócio e Silva teve bons momentos em São Januário.

Retornou ao CRB em 1972, e se transformou mais uma vez no grande destaque da equipe. Ganhou os títulos de campeão nos anos de 1972/73 e o tetra campeonato 1976/77/78/79.

Silva se destacava nas cobranças de pênaltis. Uma pequena corrida, a bola colocada num canto e o goleiro no outro. Essa era a fotografia da cobrança de um pênalti por Silva.

Foi o jogador a disputar mais jogos na história do clássico entre CRB e CSA, com 95 participações. Silva tem um recorde nacional de gols em clássicos regionais. Marcou, nada menos, que 65 gols no clássico alagoano, superando até mesmo a marca de Pelé contra o Corinthians que é de 50 gols.

Foi artilheiro dos Campeonatos Alagoanos de 1968 (11 gols), 1972 (21 gols) e 1977 (16 gols). Foi sete vezes campeão alagoano pelo CRB (1969/72/73/76/77/78/79). E  três vezes artilheiro do Campeonato Alagoano (1968/72/77)

Diferentemente de outros personagens, "Silva Cão" garante que nunca sofreu discriminação dentro do futebol por causa do preconceito de cor nos seus quase 20 anos como jogador. E rodou o Brasil jogando por times intermediários e grandes, como o Vasco da Gama, em 1967, Vitória (BA), e o Sport, do Recife, nos anos 70.

Ele sabia que companheiros seus sofreram discriminação por causa da pele, principalmente no Náutico, do Recife. Dizia que por lá, houve uma época que a coisa era pesada. Quando chegou ao CRB, jogadores que foram ídolos no final dos anos 50 e nos anos 60, como o atacante Xavier, não podiam frequentar as festas do clube, por pura discriminação.

Ele, no entanto, salienta que a única coisa que poderia soar como uma suposta discriminação era o fato de a torcida do CSA, sua maior vítima, o apelidar de “Wanderleia”, em alusão à cantora e musa da Jovem Guarda. 

Houve um tempo que quando ele partia para cima do marcador, se fosse do CSA, a torcida o chamava de "Wanderleia, porque antes de dar o bote e o drible, rebolava muito na frente do cara.

Daí a razão do apelido. Ele revela que Ciro foi quem o marcou melhor ao longo da sua bem-sucedida carreira.

Ao lado de “Silva Cão”, tinha o Geraldo Alves dos Santos, o Geraldo "Cassetete", jogador do rival CSA. Hoje amigos, ponta-esquerda e lateral-direito travaram embates memoráveis no gramado do “Trapichão”. 

“Silva Cão”, endiabrado, infernizava a zaga azulina, enquanto “Cassetete”, viril, parava as jogadas do “Galo”, muitas vezes com faltas, chegando a quebrar um braço do colega de profissão em disputa de uma bola.

Geraldo conta que ganhou o apelido de “Cassetete” quando já havia se profissionalizado. Por causa de suas entradas mais ríspidas, o narrador Arivaldo Maia, da Rádio Gazeta, foi o idealizador da alcunha que o consagrou como carrasco dos pontas do futebol alagoano. 

Ele tinha o costume de adjetivar os jogadores da época. Graças a ele, ficou reconhecido como “Geraldo Cassetete”. Na rua, as pessoas só o conhecem pelo apelido.

O radialista lembra também do “Jorge da Sorte”, que jogou no CRB e no Ferroviário. Ele costumava ficar no banco de reservas, mas, quando entrava em campo, sempre marcava o gol da vitória do seu time. Ele era um talismã e realmente dava sorte às equipes que defendia. Além dele, teve também o “Capeta”, entre tantos outros ícones do nosso futebol, dizia.

“Silva Cao” conta que a própria torcida do CRB cobrava que ele driblasse Geraldo, mesmo que este o quebrasse ao meio. Já o lateral dizia que era cobrado pelos seus torcedores para que tirasse o atacante de campo, pois, ele sempre se dava bem contra o CSA nos clássicos. A missão de Geraldo era não deixar ele jogar, e não importava como.

O curioso é que, após a aposentadoria, a dupla, agora, dedica-se aos números. E se engana quem pensa que a contabilidade diz respeito ao futebol. É que ambos passaram a trabalhar com finanças. Silva, já com 68 anos, atua como contador da Secretaria de Estado da Assistência e Desenvolvimento Social (Seades), enquanto Geraldo, que tem 59, é servidor do Tribunal de Contas do Estado de Alagoas (TCE).

Hoje, Silva e Geraldo vivem a harmonia de uma amizade que, no passado, esteve longe de existir, com direito à provocação antes, durante e após o jogo. “Silva Cão” era um ponta habilidoso, vindo a se tornar o maior artilheiro do clássico das multidões. Já o segundo, um implacável lateral-direito, cuja vontade com a qual entrava em campo deixou marcas em ambos.

Silva, que é também comentarista esportivo, afirma que Geraldo foi o seu maior algoz. O artilheiro diz que ainda carrega consigo as lembranças da rivalidade, um braço quebrado numa jogada pela linha de fundo em que ele chegou forte e o derrubou com um carrinho. Na queda, sofreu a fratura e ficou ausente do time por vários dias.

O ex-ponta do CRB conta que nunca alimentou nenhum rancor e que sabia que aquele era o estilo de jogo do amigo Geraldo, apesar de, à época, o pai de “Silva Cão” ter desejado vingar o filho quando “Cassetete” foi visitá-lo no hospital. Seu pai foi quem ficou furioso com ele e quase o expulsou do quarto.

Apesar da fama de jogador violento, Geraldo garante que apenas seguia as orientações de seus treinadores. Destacou que seu estilo de jogo tinha a força como principal característica, assegurando, no entanto, que nunca agiu de forma desleal. Para ele, Silva foi o adversário mais difícil de marcar, preparando-se de maneira diferenciada para enfrentá-lo.

Explica que não era violento, sempre foi um jogador de marcação firme. Não deixava ninguém passar. Sempre visava à bola quando estava dentro de campo. Confessa, porém, que a sua preparação era outra quando não tinha o Silva pela frente, pois, sabia que, se vacilasse, tomaria muitos dribles.

Contratado pelo CSA em 1981, “Silva Cão” finalmente se viu livre dos pontapés dados pelo algoz Geraldo. E como ambos passaram a ser companheiros de time, a amizade, que dura até hoje, logo se fortaleceu.

Residindo em bairros próximos, “Cão” passou a dar carona para “Cassetete” em idas e vindas para os treinamentos no “CT Gustavo Paiva”, no “Mutange”. (Pesquisa: Nilo Dias)


"Silva Cão" e "Geraldo Cassetete", hoje são amigos. (Foto: Fillipe Lima)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A morte de João Havelange

Morreu hoje no Hospital Samaritano, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro o advogado, empresário, atleta e dirigente esportivo brasileiro Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, mais conhecido como João Havelange.

Ele estava internado para tratamento de uma pneumonia desde julho. O corpo foi enterrado à tarde, no cemitério São João Batista.
No final do ano passado, Havelange foi internado no mesmo hospital em decorrência de problemas pulmonares. Ele havia completado 100 anos de idade no último dia 8 de maio.

Em junho de 2014, ele foi internado por causa de infecção respiratória e permaneceu no mesmo hospital, em Botafogo, por quatro dias até receber alta.

Já em 2012, Havelange chegou a ficar em estado grave com quadro de infecção bacteriana, mas recebeu tratamento no mesmo local e se recuperou. Desta vez, o ex-dirigente não resistiu aos problemas de saúde.

Era filho do belga Faustin Havelange, um comerciante de armas radicado no Rio de Janeiro, que possuía uma grande propriedade que se estendia pelos atuais bairros de Laranjeiras, Cosme Velho e Santa Teresa.

Durante entrevista no programa da SporTV, "Histórias com Galvão Bueno", João Havelange contou que após a morte de seu pai, recebeu convite de uma empresa belga para dar continuidade aos negócios do comércio de armas de seu pai.

Mas não aceitou, dizendo que tinha verdadeira aversão a armas, por se tratar de instrumento de morte e violência. E declarou que nunca teve uma arma em sua vida.

Havelange, que nasceu no Rio de Janeiro em 8 de maio de 1916, desde a infância se dedicou aos esportes. Como atleta praticou natação e polo aquático profissionalmente, obtendo uma medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de 1955.

No Fluminense, foi escoteiro e atleta, infantil, juvenil e adulto, destacando-se em vários esportes, inclusive no futebol, pois em 1931 foi campeão carioca juvenil.

Ainda nesta década graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense e competiu como nadador nas Olimpíadas de Berlim, em 1936. Brilhou como jogador de pólo aquático em Helsinque, em 1952, além de comandar a delegação brasileira em Melbourne, em 1956.

Posteriormente, foi dirigente de esporte, inicialmente na Federação Paulista de Natação, já que residia em São Paulo na época, em 1948. Quando retornou ao Rio de Janeiro em 1952, se tornou Presidente da Federação Metropolitana de Natação e vice-presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD).

A essa época já havia se formado advogado e além de acionista, ocupava o cargo de diretor executivo da Viação Cometa, tradicional empresa de transporte rodoviário de passageiros que opera nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná.

Havelange presidiu a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) de 1956 a 1974, como sucessor de Sylvio Correa Pacheco. Na época a entidade, além do futebol, congregava 24 modalidades esportivas.

Foi nesse período que o futebol brasileiro teve maior sucesso, sagrando-se Tricampeão Mundial de Futebol nas conquistas das Copas do Mundo de 1958, na Suécia, de 1962, no Chile e de 1970, no México.

Depois foi eleito o sétimo presidente da FIFA, cargo que ocupou de 1974 a 1998, substituindo a Sir Stanley Rous. Ao sair, foi sucedido por Joseph Blatter. De 1963 a 2011, foi membro do Comitê Olímpico Internacional. Com mais de 40 anos de mandato ininterrupto, foi decano desse órgão. Foi um dos dois únicos brasileiros que foram membros do COI. O outro foi Carlos Arthur Nuzman, atual presidente do Comitê Olímpico Brasileiro(COB).

Em 1998 foi eleito Presidente de Honra da FIFA, sendo também torcedor e presidente de honra do Fluminense. Apesar de ser torcedor do tricolor carioca, Havelange também foi presidente do Vasco da Gama.

Em 1 de Setembro de 1960 foi eleito Comendador da Ordem da Instrução Pública e a 28 de Fevereiro de 1961 foi eleito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

A 13 de Novembro de 1963 foi elevado a Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública. A 21 de Junho de 1991 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito. Em 2010, foi eleito a "Personalidade do ano de 2009" no prêmio "Faz Diferença" do jornal O Globo.

Eleito para a FIFA em 1974 permaneceu à frente da entidade até 1998. Organizou seis Copas do Mundo, visitou 186 países e trouxe a China, desligada por mais de 25 anos por razões políticas, de volta à FIFA. Criou também os Campeonatos Mundiais de Futebol nas categorias infanto-juvenil, juvenil, juniores e feminina.

Neste período, tornou-se amigo de Horst Dassler, herdeiro da marca esportiva Adidas, e dono da ISL, considerada a maior empresa de marketing esportivo do mundo, que comercializa os direitos de televisionamento e publicidade das Copas do Mundo de futebol e das Olimpíadas.

Quando deixou a Presidência da FIFA, em 1998, já eleito Presidente de Honra, passou a se dedicar ao trabalho filantrópico junto às Aldeias Internacionais SOS, patrocinado pela entidade em 131 países. Ganhou prêmios por isso e foi cotado para ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz.

Em abril de 2013, aos 96 anos de idade, suspeito de envolvimento em casos de corrupção, renunciou à Presidência de honra da FIFA para escapar de qualquer punição.

Dois anos antes, ele já havia deixado de ser membro do Comitê Olímpico Internacional (COI). Nos dois casos, Havelange foi acusado – ao lado de inúmeros outros dirigentes – de receber propinas da empresa de marketing ISL em troca de contratos de transmissão para a Copa do Mundo.

O jornalista investigativo Andrew Jennings, em seu livro “Foul! The Secret World of FIFA: Bribes, Vote-Rigging and Ticket Scandals”, lançado em 2006, descreve Havelange como um dirigente corrupto.

Segundo o escritor, o filho do fundador e ex-diretor da Adidas, Horst Dassler, comprou votos de delegados indecisos na primeira eleição de Havelange. Dois anos depois, o brasileiro retribuiu o favor entregando a Dassler o poder exclusivo sobre a comercialização dos principais torneios mundiais.

Por outro lado, Havelange foi apontado em pesquisa realizada pelo COI, em 1999, como um dos três maiores “Dirigentes do Século”, junto do Barão Pierre de Coubertin, fundador do COI e idealizador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, e o ех-Presidente do órgão, Juan Antônio Samaranch.

Durante sua vida Havelange colecionou medalhas, como a “Legion d'Honneur” (França), “A Ordem de Mérito Especial em Esportes” (Brasil), “Comandante da Ordem do Infante Dom Henrique” (Portugal), “Cavaleiro da Ordem de Vasa” (Suécia) e, em 2002, recebeu do reitor Paulo Alonso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o título de “Doutor Honoris Causa”.

O “Engenhão”, no Rio de Janeiro tinha o nome oficial de “Estádio Olímpico João Havelange”, que depois foi mudado para “Estádio Olímpico Nilton Santos”, cedido em comodato ao Botafogo. Em Uberlândia, o maior estádio multiuso do interior do Estado de Minas Gerais tem o nome de João Havelange.


Apesar de sua morte ter ocorrido em meio à realização dos jogos olímpicos em sua cidade, e da importância que teve na articulação da escolha do Rio de Janeiro como sede, o COI se negou a prestar homenagens ao seu ex-membro.  (Pesquisa: Nilo Dias)

João Havelange, em foto 2010 (Foto: Wikipedia)