Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

CBF tem novo presidente

O novo presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e do Comitê Organizador para a Copa do Mundo de 2014 (COL), José Maria Marin nasceu em São Paulo no dia 6 de maio de 1932. Seu pai, Joaquín Marín y Umañes, de origem galega foi boxeador e ajudou a disseminar o esporte no Brasil.

Ao contrário de Ricardo Teixeira, que não teve qualquer experiência esportiva, Marin foi atleta, tendo jogado no São Paulo F.C., entre 1950 e 1952, como meio de custear parte dos estudos na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Pelo tricolor participou de 20 jogos, com 12 vitórias, quatro empates e quatro derrotas. Era ponta direita e marcou cinco gols.

Marin se formou advogado em 1955. Entrou na política ao final dos anos 50 e construiu uma carreira vitoriosa e meteórica. Em 1960 elegeu-se vereador pelo antigo Partido de Representação Popular (PRP), fundado pelo integralista Plínio Salgado. Em 1969 foi presidente da Casa.

Nos anos 70 ganhou uma cadeira na Assembléia Legislativa paulista, pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o partido da ditadura militar. Entre maio de 1982 e março de 1983, na condição de vice-governador, assumiu o Governo do Estado substituindo o titular Paulo Maluf, que se desincompatibilizara para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Marin foi o último governador biônico do Estado.

Como governador, deu prosseguimento ao projeto energético estadual iniciado por Maluf, inaugurando hidrelétricas em municípios interioranos. Foi ele que assinou a extinção do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no Estado, órgão de repressão policial da ditadura militar. Mas a exemplo de Maluf, enfrentou denúncias por permitir ações truculentas da Polícia Militar contra opositores de seu governo. Em março de 1983 foi substituído pelo governador eleito, Franco Montoro, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).

Em 1985 foi um dos principais coordenadores da campanha que levou Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo. Com o fim da ditadura militar Marin foi perdendo o prestigio político, prova disso que em 1986 candidatou-se ao Senado pelo Partido da Frente Liberal (PFL), ficando em quarto lugar, atrás de Hélio Bicudo e dos eleitos Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso.

Em 1987 foi disputado um campeonato de futebol que levou o nome de “José Maria Marin”. Participaram da competição 14 equipes, todas do interior do Estado: América (São José do Rio Preto), Bandeirante (Birigui), Estrela (Itu), Ferroviária (Araraquara), Jabaquara (Santos), Jacareí (Jacareí), Matonense (Matão), Mogi Mirim (Mogi Mirim), Noroeste (Bauru), Novorizontino (Novo Horizonte), Santo André (Santo André), São Bento (Sorocaba), XV de Jaú (Jaú) e XV de Piracicaba (Piracicaba).

As equipes foram divididas em dois grupos de cinco, e um de quatro, jogando todos contra todos em turno e returno, indo para as semifinais os times com melhor aproveitamento. Chegaram às finais as equipes do São Bento e América. No primeiro jogo decisivo houve empate de 1 X 1. No jogo de volta, disputado em 9 de dezembro de 1987 em São José do Rio Preto, o América garantiu o título goleando por 5 X 2.

Em 2000, Marin disputou à prefeitura de São Paulo pelo Partido Social Cristão (PSC), somando apenas 9.691 votos, míseros 0,18% dos válidos. Em 2002, nova desilusão política: concorreu ao Senado e teve apenas 63.641 votos, ou 0,2% dos válidos. Em 2007 filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileira (PTB).

Entre os anos de 1982 a 1988 presidiu por duas vezes a Federação Paulista de Futebol. Durante a Copa do Mundo de 1986, realizada no México, Marin foi um dos chefes da delegação brasileira. Em 2008, exerceu a vice-presidência da CBF na Região Sudeste, indicado por Marco Polo Del Nero, presidente da FPP.

No dia 8 de março deste ano, assumiu interinamente a presidência da CBF, depois que o presidente Ricardo Teixeira pediu licença, alegando problemas de saúde. Quatro dias depois assumiu o cargo em definitivo, com a renúncia de Ricardo Teixeira, que mandou e desmandou na CBF durante 23 anos.

A sua ascensão ao cargo mais importante do futebol brasileiro teve de superar a resistência de várias federações que não o queriam na presidência da CBF, como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A imprensa esportiva continua a fazer críticas, ainda mais depois que ele declarou que dará continuidade ao trabalho de Ricardo Teixeira.

Em 25 de janeiro deste ano foi protagonista do chamado “escândalo da medalha”. Quando da premiação da Copa São Paulo de Futebol Junior, no Pacaembu, vencida pelo S.C.Corinthians Paulista, ele “disfarçadamente" surrupiou uma das medalhas, que seria entregue ao jogador Mateus do Corinthians.

A TV Bandeirante, que cobria o ato, flagrou a ação de Marin e a mostrou ao vivo em rede nacional. O episódio causou revolta e ganhou repercussão nacional. Logo depois, na tentativa de minimizar o episódio, a FPF explicou que a medalha já estava prometida para o dirigente como um presente de Marco Polo Del Nero, presidente da entidade maior do futebol paulista e "padrinho" do colega na CBF.

Com a saída de Ricardo Teixeira, o São Paulo F.C., que estava em litígio com a CBF, fez as pazes com a entidade e até divulgou uma nota desejando boa sorte ao novo mandatário do futebol brasileiro.

"O Dr. Marín é um advogado ilustre, com uma trajetória importante no futebol. Inclusive com experiência dentro do campo. Temos plena confiança de que ele vai trazer um novo momento para o futebol brasileiro. Desejamos a ele toda sorte e apoio neste momento", disse o presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio. (Pesquisa: Nilo Dias)

sexta-feira, 9 de março de 2012

100 anos de futebol em São Gabriel

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Mestre Ziza

Quem viu Zizinho jogar, e eu tive essa honra, sabe que ele foi um dos grandes jogadores surgidos no futebol brasileiro em todos os tempos. Pena que naquele tempo quase não havia televisão e poucas são as imagens que ficaram, mostrando lances em que o grande craque participou. Por isso os torcedores da nova geração não sabem quem ele foi. Alguns até o compararam a Pelé, que dizia ter se inspirado em Zizinho, seu grande ídolo.

Eu não me arriscaria a fazer comparações entre Pelé e Zizinho. Considero Pelé o melhor de todos e dificilmente alguém virá a superá-lo. Sei que agora está brilhando o argentino Messi, mas terá que ralar muito para chegar perto do que foi Pelé, que marcou mais de mil gols e ganhou todos os títulos imagináveis. Para mim, depois de Pelé Zizinho foi o melhor. Nem tem para Zico, brilhante jogador do Flamengo.

Tomás Soares da Silva, mais conhecido como Zizinho, nasceu em São Gonçalo (RJ), no dia 14 de setembro de 1921 e faleceu em Niterói (RJ), no dia 8 de fevereiro de 2002. Começou a carreira nas divisões de base do Byron, de Niterói. Em 1939, com 18 anos de idade foi para o Flamengo, depois de uma rápida passagem pelo São Cristóvão e uma recusa do América (RJ).

No primeiro treino que fez na Gávea, entrou no time titular faltando 10 minutos para o seu término, depois que Leônidas da Silva se machucou. E partiu para o tudo ou nada. O tempo era curto, por isso Zizinho tratou de prender a bola, driblar e fazer gol. Na primeira bola que recebeu foi desarmado, na segunda partiu em zigue-zague driblando um, dois três adversários e na saída do goleiro bateu em seu contrapé. Depois marcou outro gol, encobrindo o goleiro com um leve toque.

Com 19 anos era titular absoluto em um Flamengo que contava com Domingos da Guia e Leônidas da Silva. Seu primeiro jogo no rubro-negro foi um amistoso, no dia 24 de dezembro de 1939, em que o Flamengo perdeu por 4 X 3 para o Independiente, da Argentina.

Com ele no time o rubro-negro ganhou o campeonato carioca de 1939 e ainda foi tricampeão estadual em 1942, 1943 e 1944, quando foi apontado como principal responsável pela conquista. O genial Nelson Rodrigues, quando “Mestre Ziza” jogava no Flamengo, costumava dizer: ”basta os alto-falantes do Maracanã anunciarem o nome de Zizinho, para saber quem será o vencedor da partida”.

Zizinho deixou o Flamengo antes da Copa de 50, depois de atuar em 329 partidas, quando foi vendido pelo presidente Dario de Melo Pinto ao Bangu por uma fortuna, sem ao menos ser consultado. Segundo registros 800 mil cruzeiros. Na época o Bangu era mantido integralmente pela família Andrade, onde figurava outro “Zizinho” – Zizinho Andrade, pai de Castor de Andrade – e onde o dinheiro corria “frouxo”.

O jogador assinou o contrato sem ao menos ler. E dizem que fez um único comentário: “Se o Bangu pagou tanto pelo meu passe é porque reconhece o meu futebol". No primeiro jogo contra o ex-clube deixou clara a sua mágoa. O Bangu goleou por 6 x 0, e ele teve uma atuação de gala.

No livro "Nação Rubro-negra", de Edilberto Coutinho, Zizinho desabafou: "Difícil dizer o que me magoou mais, se a perda da Copa de 50 ou a minha saída do Flamengo... acho que foi a saída do Flamengo. A maneira como os homens que dirigiam o clube fizeram a transação me machucou muito... nunca aceitei". Zizinho era apaixonado de corpo e alma pela equipe da Gávea. No Bangu ficou por 6 anos e marcou 120 gols, sendo um dos maiores artilheiros da história do clube.

Na Copa de 1950 suas grandes atuações maravilharam o público. Na vitória contra a Yugoslávia, por 2 X 0, em que ele marcou um dos gols, muitos críticos dizem que essa foi a melhor partida individual de um jogador brasileiro em todos os tempos, por uma seleção nacional. Mesmo com a inesperada derrota brasileira para o Uruguai na final, Zizinho foi eleito o melhor jogador da competição.

Ele não teve sorte na Seleção, onde jogou 54 vezes. Em 1953 houve o problema no sul-americano de Lima, no qual ele acabou rotulado de mercenário pelo escritor José Lins do Rego, chefe da delegação brasileira na ocasião. Esse episódio, inclusive, motivou Zizinho a escrever o livro “Verdades e Mentiras no Futebol”, em 2001.

Zizinho era tão bom e dono de uma classe e valentia impressionantes, que antes mesmo de completar 25 anos era chamado de "Mestre Ziza", apelido que ganhou do jornalista italiano Giordano Fatori, que cobriu a copa de 1950 para o jornal "Gazzetta dello Sport". Ele escreveu: "O futebol de Zizinho me faz recordar Da Vinci pintando alguma coisa rara", comparando o futebol do jogador com um dos maiores mestres da pintura de todos os tempos.

Já no fim de carreira em 1957, aos 35 anos, os companheiros de equipe o chamavam de "Seu Zizinho", tamanho o respeito. Também foi um fantástico artilheiro marcando 336 gols em sua carreira. Com a camisa do Flamengo foram 145; no Bangu 120; na Seleção Brasileira, 31; no Audax Italiano (Chile), 16 e ainda 24 pelo São Paulo. Mesmo com sua grande identificação com o Flamengo foi no Bangu que Zizinho conseguiu ser artilheiro de um campeonato carioca ao marcar 19 gols em 1952.

Em 1957, já com 35 anos, foi jogar no São Paulo F.C. por indicação do técnico húngaro Bella Gutman, onde ficou até 1958 e conquistou seu quinto título estadual (1957), marcando 24 gols.

Seu último clube foi o Audax Italiano, do Chile. Aos 39 anos, depois de ficar três anos fora do futebol, foi chamado para ser técnico do clube chileno. Atendendo ao pedido de fazer um jogo de exibição acabou atuando por toda a temporada, encerrando a carreira em 1962 aos 40 anos e ainda deixando 16 gols nas redes adversárias. Era chamado pelos companheiros de equipe de "professor" ou "doutor".

Zizinho foi protagonista de uma das mais interessantes histórias do futebol. Jogavam Bangu e Vasco no Maracanã, na decisão do campeonato carioca de 1956, vencido pelos cruzmaltinos por 2 X 1. O árbitro era Eunápio de Queiroz. Quando acabou o primeiro tempo, o repórter de rádio Luiz Fernando levou seu microfone até Zizinho para algumas declarações sobre a primeira etapa. O Bangu estava perdendo. “Que tal o jogo, Zizinho?”, perguntou. E Zizinho respondeu: “Está difícil porque esse juiz não é Eunápio de Queiroz, é Larápio de Queiroz”.

O repórter não perdeu tempo e contou tudo ao árbitro. Quando os times voltaram a campo, Eunápio perguntou a Zizinho: “É verdade que o senhor disse que eu deveria me chamar Larápio de Queiroz?”. E Zizinho confirmou: “Foi, eu disse”. E Eunápio: “Então pode voltar para o vestiário, o senhor está expulso de campo”. E foi assim que Zizinho transformou-se num dos raros jogadores da história expulso no intervalo.

Certa vez, dois times argentinos, o Independiente e o Racing, vieram participar de um torneio quadrangular no Maracanã, o “Torneio do Atlântico”, juntamente com o Vasco e o Flamengo. Terminava o ano de 1955 e o Vasco resolveu reunir a famosa dupla Ademir e Zizinho.

O Bangu cedeu Zizinho por empréstimo e aconteceu o que parecia impossível: “Mestre Ziza” vestido de vascaíno. Zizinho foi, assim, vascaíno não somente por um dia, mas sim dois. O Vasco perdeu a primeira partida para o Independiente e venceu o Racing na disputa do terceiro lugar. O Flamengo foi o campeão do torneio.

Vale recordar que tempos depois, já como técnico, Zizinho trabalhou no Vasco em duas oportunidades, 1967 e 1972. Em ambas, a equipe não realizou boa campanha e ele durou poucos meses no cargo.

Títulos conquistados. Pelo Flamengo: Torneio Inicio Carioca (1946); Campeonato Carioca: (1939, 1942, 1943 e 1944); Torneio Relâmpago do Rio de Janeiro (1943); Troféu Cezar Aboud (1948); Troféu Embaixada Brasileira na Guatemala (1949); Troféu EL Comite Nacional Olímpico da Guatemala (1949) e Taça Cidade de Ilhéus (1950).

Pelo Bangu: Torneio Início Carioca (1950 e 1955); Torneio Triangular do Equador (1957); Torneio Triangular do Rio de Janeiro (1957) e Torneio Triangular de Porto Alegre (1957). Pelo São Paulo: Campeão Paulista (1957). Pela Seleção Brasileira: Copa Rocca (1945); Copa America (1949); Taça Oswaldo Cruz (1950); Copa Rio Branco (1950); Campeonato Pan-Americano (1952); Taça Oswaldo Cruz (1956) e Taça do Atlântico (1956).

Prêmios: Melhor jogador da Copa do Mundo (1950); Craque do time das estrelas da Copa do Mundo (1950); Artilheiro do Campeonato Carioca pelo Bangu, com 19 gols (1952); Quarto Maior jogador Brasileiro do Século XX pela IFFHS (1999) e Décimo Maior jogador Sulamericano do Século XX pela IFFHS (1999).

Após encerrar a carreira, Zizinho tornou-se fiscal de rendas do Estado do Rio de Janeiro, função que exerceu até a aposentadoria. Morreu em 8 de fevereiro de 2002, aos 80 anos, após sofrer um ataque cardíaco na casa da filha, em Niterói, no Rio de Janeiro.

No dia em que Zizinho completaria 89 anos, a filha Katia Regina, e as netas Simone e Suzana levaram as bisnetas Milena e Maria Eduarda, que estava completando 6 anos (nasceu na mesma data que Zizinho), para conhecerem as marcas dos pés do famoso bisavô, imortalizado na “Calçada da Fama”, do Maracanã. A filha Katia estava presente, do dia 16 de junho de 1950, quando Zizinho participou da festa que homenageava 51 dos maiores jogadores do futebol brasileiro de todos os tempos. (Pesquisa: Nilo Dias)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O lavador de pratos que virou herói (Final)

Joseph Édouard Gaetjens, mais conhecido como Joe Gaetjens, nasceu em Porto Príncipe, no dia 19 de Março de 1924 e faleceu (provavelmente) no dia 8 de Julho de 1964. Filho de um belga com uma haitiana, começou cedo no futebol. Aos 14 anos, já atuava pelo L'Etoile, clube da capital do Haiti.

Em 1947, Gaetjens viajou para Nova York para estudar contabilidade na Universidade de Columbia. Lavou pratos num restaurante cujo dono arrumou para ele uma vaga no time do Brookhatten, que disputava a Liga Americana de "soccer".

Gaetjens se firmou na equipe e foi artilheiro do campeonato norte-americano em 1949. Porém, só foi chamado para a seleção dos Estados Unidos semanas antes da Copa. As normas da época permitiam que ele jogasse sem se naturalizar.

Além de duas partidas contra combinados, Gaetjens só disputou três jogos oficiais pelos Estados Unidos - exatamente os três da Copa de 1950. Era o único negro na equipe estadunidense, e se tornou o primeiro jogador a marcar gol contra a seleção inglesa, em Copas do Mundo. Em 1953, ele ainda defendeu a seleção do Haiti em uma oportunidade.

Logo após a Copa de 1950, Gaetjens se mudou para a França para jogar pelo Racing Club de Paris e, depois, pelo Troyes, da 2ª divisão. Voltou para o Haiti em 1954 para trabalhar nos negócios de sua família.

Joe nunca se envolveu com política, mas sua família era ligada a Louis Dejoie, rival de François "Papa Doc" Duvalier nas eleições presidenciais de 1957. "Papa Doc" venceu, implantou uma ditadura brutal e perseguiu os parentes do ex-jogador.

A família preferiu deixar o país, mas Joe quis ficar, já que não era engajado e achava que não teria problemas. Ele se enganou: em 8 de julho de 1964, dois "tonton macoute", a violenta equipe de repressão do ditador Duvalier prenderam Gaetjens e o levaram para a delegacia central de Porto Príncipe.

Gaetjens nunca mais foi visto com vida e sua família estima que ele tenha sido executado três ou quatro dias depois de sua detenção clandestina. Em 1976, época em que Pelé brilhava no novaiorquino Cosmos, Gaetjens foi incluído no Hall da Fama do futebol estadunidense. Em 1997, o Haiti, já livre das ditaduras de "Papa Doc" e de seu filho e sucessor "Baby Doc", lançou um selo em homenagem ao ex-jogador.

Naquela memorável noite, o time semi-profissional americano tinha na sua formação, além de um lavador de pratos, representantes de outras profissões que nada tinham a ver com o futebol. O goleiro Frank Borghi, por exemplo, era motorista de carro funerário. E havia também professores e carteiros. O único profissional da equipe era Ed Mcilvenny, que jogava pelo Philadelphia Nationals.

Quando, no dia 29 de junho de 1950, a redação do New York Times recebeu a notícia de que a seleção dos Estados Unidos havia vencido a Inglaterra em uma partida oficial da Copa do Mundo do Brasil, ninguém comemorou. Segundo Geoffrey Douglas, que escreveu o livro "The Game of Their Lives", sobre a partida histórica, ninguém sequer acreditou.

O despacho da agência de notícias chegou perto do horário de fechamento do jornal e o jogo, devido a desconfiança geral, acabou não sendo noticiado. Alguns jornais acreditaram haver um erro de digitação, e que o resultado deveria ser 10 X 1 para a Inglaterra, e não 1 X 0 para os EUA.

Naquela época o interesse pelo futebol nos Estados Unidos era quase nulo, e o “milagre na grama”, como ficou conhecida a partida, não ajudou a popularizar o esporte. Na verdade, os EUA passaram 40 anos sem ir para a Copa depois de 1950. Foram em 1990, sediaram o evento em 1994 e disputaram em 1998, 2002, 2006 e 2010.

Walter Alfred Bahr, que deu o passe para o gol de Gaetgens, hoje com 84 anos, foi o primeiro norte-americano na seleção oficial dos melhores jogadores de uma Copa. Depois dele, só Claudio Reyna, na Copa de 2002. Os outros ex-jogadores, remanescentes daquela memorável jornada são: Borghi Frank, 86 anos, Harry Keough, 84 anos e John Souza, 91 anos.

A vitória americana sobre a Inglaterra motivou o filme “Duelo de Campeões” (The Game of Their Lives), produzido em 2005, pelo diretor David Anspaugh. O filme conta a história de um grupo de jovens americanos, na maioria, ex-soldados, praticantes do “soccer”.

Esses rapazes recebem a notícia de um teste para a Seleção de Futebol dos Estados Unidos. Os jogadores escolhidos irão para o Brasil participar da Copa do Mundo de 1950. A seletiva é feita em Saint Louis, cidade onde é forte a presença de imigrantes e o “soccer” se destaca bastante. Participam dessa seletiva os rapazes de Saint Louis e os da Costa Leste.

A fragilidade do time é grande, todos os jogadores são amadores, isso acaba causando desânimo em alguns atletas da própria seleção antes da seletiva. Os jogadores, após a escalação, percebem a importância que tem para seu país. Nesse contexto entra a Inglaterra, que é considerada uma das melhores seleções do mundo além de ter inventado o futebol. A partir de então, os ingleses passam a ser o grande desafio dos americanos.

Inglaterra a grande rival é destacada, principalmente, por intermédio do jogador Stanley Mortenson, que é o craque inglês, e o maior temor americano na seleção inglesa.

Na seleção americana os jogadores que se destacam mais são o goleiro Frank Borghi, que faz grandes defesas, além de ser um dos líderes do time. Walter Bahr, o mais empenhado em unir os jogadores e fazer da seleção americana uma grande equipe.

Importantes jogadores como Pee Wee Wallace, Gino Pariani, Gaetjens, são também destacados no filme e que exercem um papel fundamental no decorrer da trama.

O filme se baseia nessa única partida da Copa filmada no Brasil no Estádio das Laranjeiras (o jogo verdadeiro foi no Estádio Independência, em Belo Horizonte), onde os Estados Unidos ganharam de 1 X 0. O gol de Gaetjens, um negro, deu a vitória aos norte-americanos. Neste período os Estados Unidos era palco de sangrentos conflitos racistas no sul do país.

Esse jogo para os americanos foi como a final da Copa do Mundo. O filme não precisaria de mais nada, afinal se fossem falar das outras partidas contra Chile e Espanha, apenas estariam danificando uma boa trama. Após a vitória contra a Inglaterra, os americanos, que antes foram derrotados pelos espanhóis, depois perderam para os chilenos e ficaram em último lugar no grupo.

O filme mostra que mesmo em dificuldades e diferenças de cada jogador, com a união e a força de vontade eles conseguiram alcançar o seu objetivo. Mostraram quem era a seleção americana, um time que buscou algo mais do que uma simples vitória dentro de campo.

No final do longa-metragem os jogadores da seleção americana de 1950 são homenageados. Os jogadores Gino Pariani (falecido em 09-05-2007), Walter Bahr, Frank Borghi, John Souza e Harry Keough ganham destaque pelo bom desempenho apresentado na partida.

Destacam-se no filme a grande aproximação da realidade feita pelo diretor, além dos jogos e treinos serem muito bem caracterizados. A caracterização do Brasil da década de 50 foi bem realizada, mostrando nos botecos da Lapa, um samba sendo tocado sem a sensualidade presente na cultura de hoje.

O jogo principal não possui uma grande valorização dos Estados Unidos, se for levado em conta aquele jogo foi considerado uma das maiores “zebras” da história das Copas. Em contra partida, já que o filme é baseado nesse jogo contra a Inglaterra, o diretor deveria ter dado um destaque maior ao gol de Gaetjens, o que daria mais emoção ao filme. (Pesquisa: Nilo Dias)

Joe Gaetgens carregado por torcedores brasileiros, após a vitória contra a Inglaterra.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O lavador de pratos que virou herói (1)

Na Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil, aconteceu o jogo que até hoje é apontado como a “mãe de todas as zebras”: a vitória impensável dos Estados Unidos sobre a toda poderosa Inglaterra, inventora do futebol. Passaram-se 62 anos desse jogo, que a maioria das pessoas nem ouviu falar. E nem existia o termo zebra, inventado pelo técnico Gentil Cardoso, em 1964.

Foi num jogo em que a modesta Portuguesa Carioca derrotou o grande Vasco da Gama, por 2 X 1, pelo Campeonato Carioca, em partida disputada no Estádio das Laranjeiras. Antes do jogo Gentil comentou: “Se meu time vencer hoje vai ser como dar "zebra" na cabeça no jogo do bicho”, sabendo que ela não existe na loteria zoológica.

Com o surgimento da Loteria Esportiva em 1970, a expressão “zebra” se tornou popular e passou a designar todo e qualquer resultado que não fosse a vitória dos favoritos, evitando que as pessoas fizessem os tão sonhados 13 pontos e ficassem milionárias.

A Inglaterra até 1950 nunca havia participado de uma Copa do Mundo. Foram disputadas três, no Uruguai, na Itália e na França. Prepotentes, achavam que eram os melhores do mundo. Nas eliminatórias, não tomaram conhecimento dos vizinhos Escócia, Irlanda do Norte e Gales e carimbaram o passaporte para o Brasil, certos de que a Copa seria uma barbada. Como treino golearam a Seleção da Europa por 6 X 1.

A Chave em que caíram foi tipo "mamão com mel": Espanha, Chile e os Estados Unidos. Estes disputaram as eliminatórias contra o México, e levaram duas surras, 6 x 0 e 6 x 2, mas ganharam de Cuba por 5 X 2 e empataram em 1 X 1. O Canadá não participou. De última hora alguns países desistiram e acabou sobrando uma vaguinha para os americanos.

O time deles nem parecia americano, pois em sua formação tinham nomes como Barghi, Maca, Colombo, Pariani e João Souza. Naquele tempo não havia futebol profissional nos Estados Unidos, nem mesmo campeonatos nacionais. Por isso um time, na maioria, só de esforçados imigrantes.

Os Estados Unidos tinham participado das Olimpíadas de 1948 em Londres, quando tiveram desastrosa atuação. Perderam de 9 X 0 para a Itália na primeira rodada. Depois levaram 11 X 0 da Noruega e 5 X 0 da Irlanda do Norte.

Pensando em evitar nova humilhação no Brasil, a Federação dos Estados Unidos foi buscar novos e melhores jogadores de fora da tradicional St. Louis. Da equipe olímpica de 1948 alguns foram selecionados para a equipe de 1949, e desta havia cinco ou seis que foram selecionados para jogar em 1950.

Formar o time não foi tarefa simples. Ninguém vivia só do futebol, todos tinham um emprego. Bahr, um dos remanescentes da equipe olímpica de 48, por exemplo, era professor de ginásio na Filadélfia. Mas nem todos os empregadores foram compreensivos, caso de Ben McLaughlin, da Filadélfia, que teve de se retirar da equipe, porque não foi possível deixar o seu trabalho. Os jogadores receberiam US$ 100 por semana na Copa do Mundo.

Cinco ou seis eram de St. Louis e dois rapazes da Filadélfia. A equipe tinha alguns jogadores muito bons, mas sem experiência. Não houve nenhum treinamento ou qualquer tipo de preparação, antes da viagem para o Brasil. Um dia antes de sair para o Brasil, três jogadores foram adicionados ao grupo: Joseph Maca, que nasceu na Bélgica; Ed McIlvenny, um escocês; e Joe Gaetjens, haitiano.

Todos os jogadores praticamente se conheceram durante a viagem e no período que antecedeu o jogo contra a Espanha, em Curitiba. Os “americanos” estrearam na Copa no dia 25 de junho de 1950, no Estádio Dorival de Brito e Silva, em Curitiba, quando perderam de 3 X 0 para a Espanha. O resultado foi festejado quase que como uma vitória.

O jogo seguinte, no Estádio Independência, em Belo Horizonte, seria no dia 29, contra a Inglaterra. E nem por isso o jogo foi tratado de maneira diferente. Já os ingleses começaram a Copa no Maracanã, no Rio de Janeiro, ganhando do Chile sem maiores dificuldades, por 2 X 0.

O Jogo Inglaterra X Estados Unidos estava sendo tratado pela imprensa mundial como um combate entre Davi e Golias. O próprio técnico americano, Bill Jeffrey, estava conformado e dizia que sua equipe era como "ovelhas prontas para serem abatidas”. As apostas na Bolsa de Londres eram de 500 por 1.

No estádio havia um público calculado em 10 mil expectadores, a maioria de brasileiros que torceram para os Estados Unidos, porque não queriam uma final contra os ingleses. Americanos mesmo, tinham poucos, vindos de uma base da Marinha ou força aérea. Uma rádio brasileira transmitiu o jogo.

Como era esperado, a Inglaterra dominou todo o jogo e teve a maior parte das chances, que redundaram em nada. Aos 37 minutos do primeiro tempo, um lançamento do lateral McIlvenny foi recebido no lado direito por Bahr. Este tentou um tiro diagonal de longa distância. O goleiro inglês Bert Williams correu em busca do que parecia ser uma bola fácil, quando surgiu Gaetjens, que de cabeça marcou o gol que deu a vitória aos americanos.

Depois a Inglaterra perdeu de 1 X 0 para a Espanha e não avançou à fase final. Os Estados Unidos perderam seu último jogo para o Chile, por 5 X 2 e terminaram em último lugar no grupo 2.

O zagueiro americano Colombo, que usava luvas com dedos cortados em todos os jogos que participou, não importando se estava quente ou não, teria recebido proposta para contrato profissional com um clube brasileiro um dia após o jogo. Ele recusou e voltou para St. Louis.

Os serviços de telégrafo publicaram com precisão o resultado de 1 X 0 para os Estados Unidos. Mas muita gente, mundo afora pensou, que o operador de telex tinha cometido um erro, e que o resultado seria 10 X 0 ou 10 X 1 para os ingleses. Um punhado de fotógrafos tinha assistido o jogo, mas não há nenhuma imagem conhecida do gol de cabeça de Gaetjens. Os fotógrafos tinham passado a maior parte do jogo atrás do gol dos Estados Unidos. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time americano que derrotou a Inglaterra, na Copa de 1950. Em pé: Jack Lyons - Joe Maca - Charlie Colombo - Frank Borghi - Harry Keough - Walter Bahr - Bill Jeffrey.Agachados: Frank Wallace - Ed McIlvenny - Gino Pariani - Joe Gaetjens - John Clarkie Souza e Ed Souza.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A lenda mineira

Mário de Castro foi um dos melhores jogadores surgidos no futebol mineiro, em todos os tempos. Natural da cidade interiorana de Formiga, onde nasceu no dia 30 de junho de 1905, Mário de Castro era de uma família rica e tradicional do oeste mineiro. Seu pai, Lindolfo Rodrigues de Castro, era um senhor de vastas terras e muito influente e poderoso na cidade de Formiga.

Quando o Senhor Lindolfo morreu prematuramente, foi sua esposa e mãe de Mário de Castro que assumiu o comando da família. Em 1925, dona Regina enviou seu filho a nova capital para que o mesmo estudasse medicina. Em BH Mário logo procurou uma equipe para jogar.

E primeiro foi ao América que abriu as portas imediatamente. Afinal, Mario de Castro era rico e estudante de medicina, dois atributos essenciais para se ingressar no América que só exigia um ou outro. Só que Mário de Castro tinha os dois e mais um, era um craque de bola.

No América participou de alguns treinos e de repente sumiu para aparecer alguns dias depois no Atlético. Numa época em que o futebol ainda começava a se profissionalizar, o time do Atlético era composto, basicamente, por estudantes.

Mário de Castro começou o seu "reinado" em 1926 em um jogo válido pela decisão do campeonato mineiro daquele ano. O jogo era entre Atlético X América e o endiabrado Mário de Castro fez 3 gols da vitória atleticana por 6 X 3 e impediu que o “Coelho” conquistasse o seu décimo primeiro título consecutivo. Só isso já bastou para que Mário de Castro conquistasse o coração da Massa. Mas o artilheiro não se contentou e marcou mais 192 gols totalizando 195 em sua curta passagem de cinco anos pelo “Glorioso”.

Não foi fácil para Mário driblar a vigilância implacável de sua mãe, dona Regina Oliveira, que não queria ver o filho trocar as aulas de Medicina pelos campos de futebol. Por isso ele teve de apelar para a criatividade, achando uma forma de vencer a resistência materna. Em vez de Mário, passou a chamar-se Oiram, seu nome invertido, para que a mãe não descobrisse a falseta, ouvindo as partidas pelo rádio. Algumas vezes na hora da foto, cobria o rosto com a mão ou se escondia.

Mário por durante 2 anos conseguiu manter seu verdadeiro nome preservado. Mas a notícia de que o filho de dona Regina andava correndo atrás de uma bola na capital chegou a cidade de Formiga. Indignada, dona Regina resolveu ir até BH. Ia impor ao filho uma escolha. A bola ou os estudos.

O futebol ao contrário do começo do século já não era muito bem visto pela alta sociedade. Visão que piorou quando veladamente os jogadores de futebol passaram a receber dinheiro para jogar. Em BH em conversa com o filho, dona Regina viu que Mário ia bem na faculdade e que financeiramente poderia se manter na capital sem a ajuda da família.

Sem como impor suas condições, a mãe de Mário de Castro acabou por aceitar que o filho ficasse com a bola e os livros. Voltou para Formiga convencida que o futebol não era tão nocivo assim. E Oiram, ou melhor agora Mário de Castro continuou no Atlético.

Naquele tempo o Campeonato Mineiro era o campeonato de Belo Horizonte, que tinha o América como principal campeão, tendo vencido a competição por 10 vezes consecutivas, feito só igualado pelo ABC, de Natal (RN).

A mudança dos rumos do futebol da capital mineira começou a acontecer após a chegada de Mário de Castro no Atlético. Com ele, o “Galo” foi bicampeão em 1926 e 1927, e ele o artilheiro nas duas conquistas, com 21 e 28 gols respectivamente. Em ambos os campeonatos, somente não marcou na última partida, quando o time já era campeão.

Mário de Castro foi um craque fenomenal, chutava com os dois pés e os seus tiros tinham a precisão e a força que só os grandes jogadores têm. Foi um dos maiores artilheiros do futebol mineiro. Seus números são impressionantes. Nos 100 jogos em que comandou o ataque atleticano entre 1926 e 1931 - jogava-se pouco, naquele tempo - balançou as redes 195 vezes, o que dá uma média de 1,95 gols por partida, a maior conhecida entre atletas de futebol do Brasil e do mundo em todos os tempos.

Foi o terceiro maior artilheiro da história atleticana, atrás apenas de Reinaldo e Dario, que fizeram 255 e 211 gols, respectivamente. Sua melhor temporada foi a de 1927, quando marcou 44 gols, 28 deles pelo Campeonato Mineiro.

Diz a lenda que fez gols em todos os jogos em que atuou com a camisa atleticana. Isso, com certeza, é verdade. Ele mesmo dizia: “Eu marcava meus gols quase sempre no segundo tempo e não me lembro de ter passado uma partida sem marcar um gol". Quem o viu jogar garante que era incapaz de errar um chute a gol. Ou a bola entrava ou era defendida pelo goleiro. Para fora, ela nunca ia. Batia na pelota com elegância, tinha senso de colocação e era voluntarioso.

José Secundino, antigo torcedor do Atlético afirmava que além da precisão no chute, nunca viu outro atleta possuir tanta habilidade com os pés. E considerava Mário de Castro muito melhor do que Pelé. Secundino nasceu em 19 de agosto de 1904 e faleceu em 2005, pouco antes de completar 101 anos. Era o sócio de número 1130 do clube. Assistiu, "in loco", à inauguração do Estádio Antônio Carlos, no bairro de Lourdes, em 1929, e, durante 76 anos nunca deixou de assistir sequer uma partida. Nunca torceu para outro time.

A precisão do tiro era apenas um dos detalhes do talento daquele gênio. "Ele dava um chute forte e a bola pegava um efeito tão impressionante que voltava para seus pés", recorda Fileto de Oliveira Sobrinho, que jogou no Atlético em 1923 e 1924. "Os outros tentavam fazer igual, mas ninguém conseguia". Mário transformou-se em verdadeira lenda, capaz de escrever o próprio nome no campo com a bola, ao driblar os adversários!

No dia 27 de novembro de 1927 aconteceu um esperado clássico entre Atlético X América, no antigo campo da Avenida Paraopeba. O primeiro tempo terminou com o placar de 2 X 1 para o Atlético. Veio a segunda etapa e os gols foram saindo num ritmo alucinante: três, quatro, cinco... nove tentos para o “Galo”. Todo o ataque atleticano teve participação na goleada de 9 X 2. Os gols mais bonitos – dois – e quase todas as jogadas que resultaram naquela goleada histórica, saíram dos pés de um jogador esguio e elegante identificado pelos jornais da época pelo nome de Oiram.

A partida em que, ao lado de seus companheiros de ataque, ajudou a trucidar o America foi apenas uma entre os diversos confrontos memoráveis em que defendeu as cores alvinegras. Em 1929, o “Fabuloso”, como era conhecido, fez nova proeza ao assinalar dois gols na vitória do Atlético por 4 X 2 sobre o Corinthians. Essa partida marcou a inauguração do estádio Presidente Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.

Sua última partida foi uma exibição de gala. Em 27 de setembro de 1931, no “Alçapão do Bonfim”, em Nova Lima o Atlético perdia do Villa Nova por 4 x 1, ainda na primeira etapa. De ressaca, Mário de Castro "andava" em campo. Insultado pela torcida do Villa, Mário de Castro foi para o intervalo, limpou o estômago (vomitou) e voltou para a segunda etapa e acordou: em apenas 15 minutos, ele marcou quatro gols seguidos.

O Atlético virou o jogo para 5 X 4 e conquistou o campeonato de forma inesquecível. Aí, o clima fechou no estadinho do Villa. Com o fim do jogo a delegação atleticana teve que fugir correndo da cidade com a torcida do “Leão” atrás. Até tiros foram dados e um torcedor do Villa Nova foi morto por um diretor atleticano. Para Mário de Castro esse fato foi um aviso que já era hora de parar e parou , aos 26 anos.

Assim era Mário de Castro, artilheiro de um tempo em que se jogava com amor à camisa, com o coração nas chuteiras e com o orgulho de se defender as tradições de seu clube. Era genial e genioso: de personalidade forte, não admitia que ninguém falasse mal do Atlético. E rejeitava a glória fácil em nome do respeito que ele e seu clube mereciam.

Mário formou com Said e Jairo, aquele que é considerado por muitos o melhor ataque do futebol mineiro em todos os tempos. O "Trio Maldito", como eram conhecidos os três atletas, foi responsável por 459 gols para o Atlético. Este trio, que imortalizou o seu nome no futebol mineiro, somente se reuniu novamente em 1998, após o falecimento de Mário de Castro. O craque foi enterrado no cemitério do Bonfim, em um túmulo próximo ao dos dois amigos.

Em 1929, o Fluminense do Rio veio a Belo Horizonte para contratar Mário de Castro, oferecendo-lhe cem contos de réis de luvas e dois contos de ordenados, para seguir com o clube carioca e se transformar em profissional. Mário não aceitou, encerrando as conversações. Mas os dirigentes do Fluminense não desistiram, pediram a Mário que desse o seu preço. Mário o fez: queria duzentos contos de réis depositados em um banco, e mais quinhentos mil réis por gol assinalado. Além disso, Mário fazia outra exigência: a de voltar do Rio quando bem entendesse. Diante destas exigências, o Fluminense acabou por desistir.

Em 1930, Mário de Castro foi convocado para participar da disputa da Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. Foi o primeiro jogador de um time mineiro, e o primeiro jogador fora do eixo Rio-São Paulo a ser chamado para a Seleção Brasileira de futebol.

O jogo de inauguração do estádio de Lourdes, cuja grama ele ajudou a plantar, foi visto por um diretor da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), Horácio Werner, e por um representante da Associação dos Cronistas Desportivos do Rio de Janeiro, Aloysio de Hollanda Távora. Os dois ficaram estupefatos com o futebol do craque.

Dias depois, Mário de Castro recebeu o comunicado. Ele deveria se apresentar no Rio de Janeiro para integrar a Seleção. Seria o reserva de Carvalho Leite, atacante do Botafogo do Rio. Respondeu que só vestia a camisa do Atlético. Décadas mais tarde admitiu que talvez tivesse ido, se fosse na condição de titular. E, assim, o Atlético não teve representantes na primeira Copa do Mundo, a de 1930.

Após a Copa, a diretoria do Atlético desafiou o Botafogo para um jogo em Belo Horizonte, disputado em 30 de agosto de 1930. O time mineiro venceu por 3 X 2, e Mário de Castro marcou os três gols de sua equipe. Na revanche, na festa de inauguração dos refletores do estádio do Botafogo, no Rio de Janeiro, em 1º de outubro do mesmo ano, o Botafogo deu o troco: 6 x 3. Carvalho Leite, que não marcou no confronto em Belo Horizonte, fez três. Mário de Castro, dois. No final, o artilheiro do Atlético venceu o duelo por 5 X 3. Estava provado: Mário era o melhor.

O Atlético Mineiro foi sua única equipe oficial, entre os anos de 1925 e 1931, quando se formou em Medicina, deixando os gramados de Belo Horizonte. Não sem antes conquistar mais um título de campeão mineiro pelo Atlético, naquele que foi o último campeonato antes do profissionalismo. Com a camisa do “Galo” foi campeão mineiro em 1926, 1927 e 1931.

Voltou para Formiga, onde trabalhou como médico durante 22 anos, até se aposentar, prestando grandes serviços à população. Nunca largou o futebol. Continuou a atuar no time local enquanto teve condições físicas.

Fez sua despedida do Atlético Mineiro em um jogo no ano de 1940, contra o Madureira, do Rio de Janeiro. E Mário de Castro marcou a sua despedida com o seu gol de número 195. Encerrava-se ali, uma das mais marcantes carreiras de futebol em Minas Gerais.

Mário casou-se com uma das primeiras mulheres a se formar em odontologia no país, a doutora Maria de Lourdes Cavalcanti de Castro, que exerceu sua profissão até aposentar-se, mantendo seu próprio consultório. Tiveram dois filhos, Wander Mário, médico ainda em exercício e Vanda Maria, contabilista aposentada, e adotaram Antônio Rosa, já falecido.

Ainda acompanhava as partidas do Galo pela TV, em seus últimos anos de vida, irritando-se profundamente quando percebia que um jogador não dava tudo de si. Em 1998, Mário de Castro faleceu com 90 anos, em Lavras, na casa de seu filho. (Pesquisa: Nilo Dias)

Mário de Castro, em 1929.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O criador da camisa canarinho

Eu conheci o jornalista Aldyr Garcia Schlee, que em 1953, aos 19 anos de idade, ganhou o concurso nacional promovido pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e pelo jornal carioca “Correio da Manhã, para desenhar um novo uniforme para a Seleção Brasileira de Futebol, diferente daquele da tragédia de 1950 no Maracanã. O uniforme da derrota para os uruguaios tinha camisas brancas com colarinho azul. A seleção usaria o projeto vencedor na Copa do Mundo de 1954, na Suíça.

Para participar do concurso existia uma única regra: o uniforme devia contemplar as quatro cores da nossa bandeira. Aldyr, que era desenhista e caricaturista, ganhou dos outros 201 concorrentes, colocando o verde e amarelo nas camisas e o azul e branco nos calções.

O modelo vencedor era assim: camisa amarela com colarinho e punhos verdes; calções azuis com uma faixa vertical branca; meias brancas com detalhes em verde e amarelo. Como não tinha o tom correto de azul celeste da bandeira, Aldyr usou o azul cobalto, que foi fielmente reproduzido e continua no uniforme até hoje. O Brasil estreou o novo uniforme no Maracanã, no dia 14 de Março de 1954, numa vitória de 1x0 sobre o Chile.

Nna final da Copa de 58 o Brasil enfrentou a Suécia, que também jogava de amarelo. Não tendo preparado um uniforme reserva, o Brasil recortou os escudos de suas camisas amarelas e os costurou sobre um jogo de camisas azuis compradas de última hora em uma feira livre de Estocolmo. Nasceu assim o uniforme de número dois da seleção brasileira.

Como prêmio, Aldyr ganhou o equivalente a vinte mil reais e um estágio no Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, onde pode conhecer e conviver com figuras expoentes do jornalismo da época como Nélson Rodrigues, Antonio Calado, Millor fernandes e Samuel Wayner.

A primeira vez que eu vi Aldyr Garcia Schlle, ele trabalhava no vespertino “Opinião Pública”, de Pelotas, fundado em 1896 e eu na Rádio Tupancy, que ficava em frente ao jornal. Quando cheguei ao matutino “Diário Popular”, no início dos anos 60, a “Opinião Pública” vivia seus últimos momentos, tendo fechado definitivamente em 1962.

Também trabalhou na “Opinião Pública” o jornalista e advogado Carlos Alberto Chiarelli, que tempos depois se elegeu deputado federal e senador. O editor de esportes era Salimen Júnior, que tempos depois brilhou na imprensa de Porto Alegre. Não lembro dos outros jornalistas, mas sei que era uma redação das mais qualificadas.

Aldyr Garcia Schlee nasceu em Jaguarão (RS), no dia 22 de novembro de 1934 e viveu sempre entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai. Além de jornalista é renomado escritor, tradutor, desenhista e professor universitário. As suas especialidades são a criação literária, a literatura uruguaia e gaúcha, a identidade cultural e as relações fronteiriças.

Doutor em Ciências Humanas, publicou vários livros de contos e participou de antologias, de contos e de ensaios. Alguns livros seus foram primeiramente publicados no Uruguai pela editora Banda Oriental. Traduziu a importante obra "Facundo", do escritor argentino Domingos Sarmiento, fez a edição crítica da obra do escritor pelotense João Simões Lopes Neto, quando estabeleceu a linguagem. Foi planejador gráfico do jornal “Última Hora”, repórter e redator.

Criou o jornal “Gazeta Pelotense”, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, foi fundador da Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), de onde foi expulso após o golpe militar de 1964, quando foi preso e respondeu a vários IPMs; foi professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), por mais de 30 anos, onde foi também pró-reitor de Extensão e Cultura. É torcedor do Brasil, de Pelotas, clube que chegou a ser tema do conto "Empate", publicado em "Contos de futebol" e também da Seleção Uruguaia.

Há uma explicação para o fato dele torcer para os uruguaios: Aldyr nasceu em Jaguarão a 200 metros do Uruguai e 600 km de Porto Alegre. Sua formação como torcedor foi baseada no futebol platino. Toda segunda chegavam em sua casa jornais de Buenos Aires e Montevidéu, com os craques e os jogos.

Recebeu duas vezes o prêmio da Bienal Nestlé de Literatura Brasileira e foi cinco vezes premiado com o Prêmio Açorianos de Literatura. Em novembro de 2009 pubicou "Os limites do impossível, os contos gardelianos", pela editora ARdoTEmpo e em 2010, pela mesma editora, o romance "Don Frutos", ano em que foi também destacado com o Prêmio Fato Literário de 2010.

Atualmente vive em um sítio no município de Capão do Leão. Tem três filhos, três netos e seu passatempo é o futebol de botão, cujo time "veste" a camiseta do Esporte Clube Cruzeiro, de Porto Alegre, com a escalação dos anos 60.Em Jaguarão, sua terra natal, existe uma rua chamada “Uma Terra Só,” em homenagem à obra e à história do escritor. (Pesquisa: Nilo Dias)

Aldyr Garcia Schlle e os três desenhos que criou para o concurso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Historinhas de juizes

Em 1974, na decisão do último campeonato amador de Brasília, jogavam CEUB X Ministério das Relações Exteriores, no antigo Estádio Pelezão. O juiz do jogo era Édson Rezende de Oliveira, que anos mais tarde foi presidente da Comissão de Arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Naquele tempo era comum acontecer de tudo no certame brasiliense, inclusive jogadores atuarem dopados.

Foi o caso de um zagueiro do Relações Exteriores, um tipo de altura descomunal, forte como um touro. Era daqueles jogadores que costumavam chamar de armários. Sob os efeitos das “bolinhas” milagrosas, o zagueirão estava com os olhos esbugalhados e derramando saliva pelos cantos da boca. Logo em seu primeiro lance no jogo, quase abriu ao meio um atacante do CEUB. Levou cartão amarelo.

Minutos depois outra entrada, ainda mais dura que a primeira. Precavido, para evitar ser agredido pelo violento jogador, o juiz discretamente chamou os dois únicos policiais presentes ao estádio. Assim que o “homão” foi seguro pelos PMs, Edson Rezende de Oliveira mostrou o cartão vermelho.

Foi então que o jogador completamente fora de si, tentou de todas as maneiras se desvencilhar dos PMs para sair em busca do juiz. Chegou a jogar um policial longe, acertou socos nos próprios colegas de time e gritava: “Eu quero achar ele. Cadê? Vou dividir este filho da p... em dois!”Finalmente algemado, foi levado ao distrito policial.

Em outubro de 1994, o Clube do Remo, de Belém do Pará, precisava vencer o Bragantino, de São Paulo, por 3 X 0, para escapar do rebaixamento para a Segundona do Brasileiro. O árbitro carioca Léo Feldman, preocupado com a hostilidade da fanática torcida local, sai do estádio de táxi, rumo ao hotel. No caminho, o motorista passa por um grupo de torcedores do Remo e grita:

“Ei pessoal, eu estou levando o juiz do jogo!”. Feldman, desesperado com a possibilidade de ser linchado, desce do táxi, correndo e consegue entrar em outro carro, livrando-se dos torcedores que corriam atrás dele.

Em 1997 as seleções do Paraguai e Colômbia jogavam no Defensores Del Chaco, em Assunció, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1998. O juiz era o brasileiro Wilson de Souza Mendonça. No gol paraguaio o polêmico goleiro Chilavert. Achando que o árbitro não estava olhando, deu uma cusparada em Asprilla. O colombiano passou a mão no rosto e revidou com um soco. Incontinente, Wilson foi até o local expulsou o agressor que saiu sem falar nada.

Caído, Chilavert recebeu o atendimento medico e após um bom tempo levantou- se meio zonzo. “ Tem condições de jogo?”, perguntou Mendonça. “Sim”, respondeu o goleiro. “Não, o senhor não pode. Está expulso!”. “O quê? Mas eu não fiz nada?”. “Eu sei o que vi e o senhor sabe o que fez “, completou Mendonça.

O estádio veio abaixo. Impassível, o árbitro esperou os ânimos serenarem, pegou a bola e apontou para a área do Paraguai: Pênalti! Nova confusão, mas a partida prosseguiu e a Colômbia marcou o gol. No final, o jogo terminou empatado e Wilson recebeu do inspetor de árbitros da FIFA uma das maiores notas da história da entidade: nove e meio.

Este fato eu contei no meu livro “100 anos de futebol em São Gabriel (RS). Segundo os jornais da época, no dia 8 de junho de 1935 foi disputada em São Gabriel, no “ground” existente no local onde hoje se acha o Ginásio São Gabriel e o Colégio Menna Barreto, “a mais sensacional, encardida e discutida partida de futebol já vista naquela cidade”.

Foram degladiantes as equipes do Artilharia F.B.C., que reunia militares do 6º Grupo de Artilharia de Campanha e G.S. Militar, formado por integrantes do 9º Regimento de Cavalaria independente. Os dois rivais eram considerados os “maiorais” do futebol gabrielense na época.

Antes do jogo o ambiente estava bastante carregado. Na cidade só se falava na possibilidade de haver uma grande briga entre os jogadores. Ninguém queria apitar o jogo. Por essa razão o prélio estava no sai não sai. Até que apareceu o salvador da pátria, o desportista Adair Menna Barreto de Abreu, considerado o melhor árbitro da cidade por muitos anos. “Competente, enérgico e rigorosamente imparcial”. Adair teve uma atuação sensacional, do principio ao fim, sem que houvesse um único lance de deslealdade entre os litigantes.

O pesquisador esportivo Celso Unzelte conta que certa vez, o Bangu foi jogar um amistoso em Barbacena, interior de Minas Gerais. A maior atração era Zizinho, o craque do time e da própria Seleção Brasileira vice-campeã mundial em 1950. Junto com a delegação, foi o juiz Eunápio de Queiroz, na época também apelidado pelos torcedores de “Larápio” de Queiroz, que dirigiu a partida.

Começa o jogo, Eunápio erra uma marcação e logo toma uma bronca de Zizinho: “Puxa, Eunápio, até em amistoso?” Eunápio não gostou e expulsou o Mestre Ziza. O jogador já ia saindo quando entram no campo os promotores do amistoso: “O que houve?” “Fui expulso.” “Nada disso. Volta já pro campo, porque nós pagamos um dinheirão foi pra ver você jogar, não pra ver esse cara aí apitar”. E quem acabou expulso foi o juiz.

Outra ótima historinha: nos anos 40, o São Paulo de Leônidas da Silva teria ido ao Recife jogar contra o Sport. E o juiz não deixava Leônidas avançar. Era só o “Diamante Negro” pegar na bola e lá vinha um apito, marcando falta, toque, impedimento, qualquer coisa que o impedisse de continuar a jogada.

Lá pelo segundo tempo, ainda 0 X 0, o juiz perdeu o apito, que sumiu na grama. Enquanto tateava o gramado na busca de seu instrumento de trabalho, o árbitro via Leônidas receber a bola e partir driblando para dentro da área. Então, desesperado, desistiu de procurar o apito e saiu gritando: “Perdi meu apito! Agarrem esse crioulo que ele vai fazer o gol!”

E para encerrar, a oração de Carlito Rocha, o histórico e folclórico presidente do Botafogo, destinada à arbitragem antes dos clássicos mais importantes: “Minha Nossa Senhora Aparecida, fazei com que esse ladrão roube hoje para nós!” (Pesquisa: Nilo Dias)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O lendário "Canhão 420"

Pedro Grané, um dos mais completos laterais direitos surgidos no futebol brasileiro, nasceu em São Paulo no dia 10 de novembro de1987 e morreu em São Paulo em 1985. Grané jogou de 1924 a 1932 no S.C. Corinthians Paulista. A simples menção de seu nome, fazia os goleiros de sua época e os meninos de uma década depois de ele ter pendurado as chuteiras tremerem de medo. Alto, forte, possuía, segundo os antigos, um petardo tão letal em seu pé direito, que logo foi apelidado de 420, o sinistro canhão do Kaiser utilizado na Primeira Grande Guerra Mundial.

Iniciou sua carreira no Ypiranga, que naquela época tinha um dos times de futebol mais fortes do cenário nacional, até se transferir para o Corinthians em 1924. Com a camisa do alvinegro do Parque São Jorge, Grané fez 51 gols em 179 partidas, o que lhe garante até hoje o título de defensor com maior números de gols na História do clube. Foram 113 vitórias, 30 empates e 36 derrotas.

No dia 22 de maio de 1932, na vitória por 5 X 1 diante do Atlético Santista, na Fazendinha, Grané cobrou um pênalti e marcou seu 50 gol com a camisa do Corinthians. Formou o mais famoso trio final do futebol paulista em todos os tempos, com o goleiro Tuffy e o zagueiro Del Debbio nos anos 20 e 30.

O sucesso do trio, chamado de “Divina Trindade”, foi tão grande, que o lateral-direito chegou a defender a Seleção Brasileira em seis oportunidades, marcando dois gols. Os principais títulos conquistados pelo Corinthians foram os Campeonatos Paulistas de 1924, 1928, 1929 e 1930.

Muitas lendas se criaram em torno de seu chute poderoso. Diziam que todas as vezes que Grané ia cobrar um tiro de meta os companheiros pediam para que chutasse devagar, senão a bola se perderia pela linha de fundo do gol adversário.

A mais célebre foi a de que Grané, num jogo decisivo viu-se na marca do pênalti diante de seu irmão Lara, goleiro do Ypiranga. Bem que Grané implorou várias vezes para o irmão sair da frente. Não saiu. Fez mais: saltou e agarrou o míssil com as duas mãos. E não mais se levantou. Estava mortinho da silva.

Num encontro entre Paulistas x Cariocas no Parque São Jorge, a "Casa Murano" oferecia uma vitrola ao jogador que marcasse o primeiro tento da partida. O juiz marcou uma penalidade contra os cariocas, e Grané que era o encarregado de bater as faltas, pois possuia o chute mais violento do Brasil, correu para a marca da cal, vibrando de alegria por dois motivos: a penalidade que na certa daria um tento para os paulistas, e pelo régio presente que iria abiscoitar. A torcida ficou apavorada e das arquibancadas pedia para Grané chutar devagar e não matar Jaguaré.

E antes do chute, gozava os companheiros: "amanhã apareçam em casa para ouvir discos em minha nova vitrola". Afastou quatro jardas e remeteu um violento chute contra o arco de Jaguaré, que era considerado o maior goleiro do Brasil na época (Jogou no Timão já no final de sua carreira em 1934).

Jaguaré que momentos antes disse "olha aqui, seu mastodonte.Vou tirar o seu chutinho com um soco. Tá ouvindo?" defendeu, mas largou a bola e foi cair meio desacordado e com um braço fraturado no fundo das redes! De Maria correu e consignou o tento! Depois, entre abraços e risos falou "amanhã vocês apareçam em casa para ouvir discos em minha nova vitrola" Grané ficou uma fera de tão brabo!

Grané seria presença certa na Seleção Brasileira que participou em 1930, no Uruguai, da primeira Copa do Mundo.Mão não foi convocado, porque naquela época, o "bairrismo" era muito presente no futebol brasileiro. Esse fator acabou prejudicando a campanha do país no Mundial, que não passou da primeira fase. A Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea) recusou-se a ceder à Confederação Brasileira de Desportos (CBD) os jogadores do Estado de São Paulo. O pretexto foi a recusa da CBD em admitir na comissão técnica um integrante da Apea. (Pesquisa: Nilo Dias)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O professor dos zagueiros

Agnelo Correia dos Santos, o Nelinho, certamente foi um dos melhores zagueiros surgidos no futebol baiano em todos os tempos. Sergipano de Estância, onde nasceu em 1934, começou a carreira no tradicional Botafogo Sport Club, de Salvador. No “diabo rubro” baiano formou uma linha média famosa, nos anos 1950, atuando ao lado de Flávio, volante e, mais tarde, campeão da Taça Brasil de 59, pelo Bahia, e Júlio, lateral-esquerdo.

Ainda nos anos 50 foi vendido para o Vitória, quando o Botafogo desmanchou o time todo para fazer caixa, a fim de construir sua badalada sede de praia, em Amaralina.

Em 1957 defendeu o Brasil, vestindo a camisa da Seleção, representada por uma seleção baiana na Copa O'Higgins, no Chile. Depois foi vendido pelo Vitória ao Flamengo do Rio, por quem disputou um torneio no Chile, sendo eleito o melhor jogador da competição.

Pretendido pelo Bahia, voltou para Salvador, acertando um contrato com o rival Vitória. Dessa vez teve de jogar de médio volante porque o jovem Roberto Rebouças, mais tarde ídolo eterno da zaga do Bahia, havia conquistado a posição.

Diziam, no Vitória, em tom de ironia, que Nelinho foi quem ensinou Medrado, Romenil, Tinho e muitos dos seus companheiros de zaga de como jogar bola. O dom de tanta categoria dava uma sede danada ao “professor dos zagueiros”. Contavam que numa passagem do Vitória pela cidade de Valença, no Baixo Sul, em 1964, Nelinho bebeu todas as garrafas de cerveja de um bar e o dono foi obrigado a buscar um novo engradado no vizinho.

Jogou no time bicampeão baiano 1964/1965. Sempre capitão, era o homem de confiança dos treinadores. Foi também campeão baiano pelo Galícia em 1968. Voltou ao Vitória, no final de carreira, tendo atuado no Leônico, ao lado de um garoto chamado Raimundo Varella. Encerrou a carreira no antigo Ilhéus Futebol e Regatas, onde foi jogador e treinador na década de 70.

De estilo clássico e elegante, o jogador é sempre lembrado com saudade pelos privilegiados torcedores e jornalistas que tiveram a sorte de vê-lo atuar nos anos 50 e 60. Contam que dava a impressão que as suas pernas tinham ímã para a bola. Ele dava o “bote” certo, porque sabia para que lado o atacante ia driblar. Tinha um senso de colocação fora do comum em campo.

Quem conviveu com ele, garante: era tanta facilidade com a bola que ela parecia querer, por vontade própria, ficar no seu pé. Nelinho desenvolveu essa habilidade de grudar a bola no pé, para compensar a falta de vigor que se exige de um zagueiro troncudo convencional.

Era baixo, uma antítese de zagueiro, mas tinha uma impulsão surpreendente. Seu estilo lembrava o de Gamarra, tomava a bola sem fazer falta. Dono de uma técnica invejável para um jogador de defesa, Nelinho impressionava também pela raça em campo. E tinha uma postura elegante de Beckembauer, sempre de cabeça erguida.

Nelinho morou a vida toda na Cidade Baixa, em Salvador. Dono de um apetite de fazer inveja, se esbaldava comendo mocotó e fazia farra a noite toda. E foi essa vida desregrada que acabou lhe causando sérios problemas no coração, logo depois que deixou de jogar. Havia parado de beber, mas não deixou o cigarro. Acabou sofrendo um infarto em casa, no bairro da Ribeira. Ultimamente os remédios não faziam mais efeito. Nelinho morreu aos 77 anos de idade, no dia 3 de maio do ano passado.

No velório, no cemitério Campo Santo, estiveram presentes os ex-jogadores Edmundo, Alencar, Ademir, André Catimba, Teixeira, Reginaldo, Catu, Paulo Leão e Valtinho. O Conselheiro Babau, único representante do Vitória no adeus a Nelinho, era só elogios: "Jogava como a porra, viu? Não teve zagueiro como ele".

André Catimba, acostumado aos duelos na área, garante: "Nelinho era um senhor quarto-zagueiro. Outro igual nunca existiu. Era craque". Pai do lateral Róbson, Nelinho encantou até o jornalista João Borges Bougê, que viu dezenas de zagueiros em ação, em 25 anos de carreira de cronista. “Nelinho era um negócio impressionante. Não dava um pontapé. Ele hoje seria um super-craque”, disse. (Pesquisa: Nilo Dias)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Clubes promovem cruzeiros maritimos

O navio italiano “Costa Concordia”, que recentemente naufragou depois de bater em uma rocha junto à ilha italiana de Giglio, participou dos festejos organizados pelo pelo S.C. Corinthians Paulista de 25 a 28 de fevereiro de 2010, para ceomemorar o seu centenário de fundação. Com cerca de 300 metros de comprimento, o navio levava 4.229 pessoas, sendo 3.200 turistas de 60 nacionalidades e mais de mil membros da tripulação, no momento do naufrágio. Ao menos 11 pessoas morreram no acidente.

A promoção corinthiana, até então inédita no futebol brasileiro, chamada de “Navio do Centenário”, se constituiu num cruzeiro marítimo levando jogadores, antigos ídolos, dirigentes e torcedores de Santos até Búzios e Ilha Bela, nos litorais do Rio de Janeiro e São Paulo.

Participaram da viagem, entre outros, Marlene Matheus, viúva do lendário ex-presidente Vicente Matheus, a família do torcedor Fernando Moraes Marques, que batizou seus dois filhos como Mateus e Vicente, Hortência, ex-jogadora de basquete, o cantor e compositor Toquinho, o ator Dan Stulbach, os apresentadores Serginho Groisman e Raul Gil e o piloto de Fórmula 1 Rubens Barrichello.

Entre os ex-jogadores, Basílio, Casagrande, Neto, Ronaldo (goleiro), Wladimir, Rivelino, Tobias, Dinei, Marcelinho Carioca, Marcio Bittencourt e Biro-Biro. A bateria da "Gaviões da Fiel" tocou no navio, que tinha escorregador gigante e feijoada com samba nas tardes.

Segundo a lista de passageiros, havia a bordo gente de 13 Estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal , Bahia, Pernambuco e Ceará, e de quatro diferentes países, Brasil, Portugal, Espanha e Argentina.

Os preços para os torcedores que participaram do cruzeiro variaram de R$ 1.550, para acomodação num quarto com quatro pessoas, até R$ 5.000, preço individual para a suíte mais luxuosa, para duas pessoas. O navio zarpou logo depois das 18h rumo a Búzios.

A idéia do S.C. Corinthians agradou a outros clubes, que também pretendem fazer cruzeiros comemorativos este ano. O São Paulo F.C. , por exemplo, vai realizar o seu “Navio Tricolor”, de 19 a 22 de abril, para comemorar os 20 anos do primeiro título mundial, em 1992, na vitória de 2 X 1 contra o Barcelona. Os craques do passado estarão a bordo do navio “MSC Armonia”, em uma viagem, que passará por Ilhabela e Búzios. A direção do São Paulo não fala em imitar o Corinthians, sim seguir o exemplo do clube italiano Milan, que recentemente promoveu um cruzeiro temático.

Com saída prevista para 19 de abril, a embarcação "MSC Armonia" deve zarpar com sua lotação máxima, ou seja, 1500 torcedores tricolores que devem se espalhar pelas 770 cabines. O clima no cruzeiro será de diversão durante o dia e à noite. Crianças podem conhecer de perto os grandes ídolos de seus pais, casais podem curtir uma viagem inesquecível e os solteiros podem aproveitar todas as mordomias do navio e as festas temáticas.

Além dos torcedores, ídolos da torcida são-paulina também estarão a bordo: Rogério Ceni, Raí, Cafú, Palhinha, Ronaldão, Serginho Chulapa, Oscar, Dario Pereira, Gilmar Rinaldi e Miller. Outros ex-atletas, que não foram campeões do mundo também estarão presentes. É o caso de Careca, campeão brasileiro em 86.

O cruzeiro sai de Santos e passa por Ilhabela e Búzios e prevê, entre outras atrações, sessões de cinema, uma mesa-redonda com os ex-atletas presentes, sessões de autógrafos, uma partida entre os times de amigos do Raí e amigos do Careca e uma grande festa, a "Vermelho, Branco e Preto".

Em seus 13 andares, o navio “MSC Armonia” comporta quatro piscinas, duas jacuzzis, um solarium com uma vista externa encantadora, academia de ginástica, quadra, pista de shuffleboard, campo de minigolfe, jogging, cassino, bares, restaurantes sofisticados, área para deixar as crianças ao cuidado de monitores com uma programação única, SPA e cabines luxuosas que mesclam o conforto e o requinte desde as cabinas internas até a suíte com varanda. As reservas de cabines podem ser feitas por meio do site “Navio Tricolor”. Os preços variam entre R$ 1450 e R$ 2290.

Assim como foi feito pelo Corinthians na temporada 2010, o Santos F.C. também terá o seu “Cruzeiro do Centenário”. O projeto pretende reunir até 1700 torcedores e simpatizantes no mês de março, em viagem que irá passar por Angra dos Reis e Búzios entre os dias 4 e 7. A expectativa da direção santista é faturar até US$ 500 mil (R$ 850 mil) com as vendas dos pacotes. A embarcação é o “Grand Mistral”, da Ibero Cruzeiros.

A possível presença de Neymar e de outros jogadores, e até de Pelé está sendo estudada. O cruzeiro terá grandes atrações de músicos torcedores do Santos, como Guilherme Arantes e Chorão, vocalista do Charlie Brown Júnior. O preço individual cobrado por cabine, no pacote mais simples, é de R$ 765, e vai até R$ 2730. Ambos têm o acréscimo das taxas portuárias.

Por fim, o S.C. Internacional, de Porto Alegre realiza de 30 de março a 2 de abril, o seu “Navio Colorado”. A embarcação, um “MSC Armonia”, de nove andares, sairá de Santos (SP) em 30 de março de 2012. O cruzeiro passará por Ilha Grande (RJ) e Ilhabela (SP) antes de retornar a Santos, dia 02 de abril.

O navio terá 103 cabines – em homenagem ao aniversário do Clube – exclusivamente reservadas a torcedores e convidados. Uma delas será sorteada entre os sócios adimplentes. O felizardo ganhará a viagem e poderá levar um acompanhante. (Pesquisa: Nilo Dias)

O navio "Costa Concordia", recentemente naufragado, esteve presente nas comemorações do centenário do S.C. Corinthians Paulista.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O time do Papai Noel

Quem disse que Papai Noel não existe, certamente nunca ouvir falar do F.C. Santa Claus, de Rovaniemi, que fica na região da Lapônia, na Finlândia. A cidade é a capital e centro comercial da Lapônia. Fica próxima ao Círculo Polar Ártico e possui cerca de 60 mil habitantes. Apresenta temperatura média anual de +0.2 °C, tendo registrado –47.5 °C, sua mínima absoluta, em 1999. Pela sua situação geográfica, é conhecida mundialmente como "A Terra Natal do Papai Noel".

Devido à inclinação do eixo da Terra em relação ao eixo do Sol, a Lapônia, passa até três meses no inverno sem que haja claridade e até três meses durante o verão sem que haja noite, no fenômeno conhecido como Sol da Meia-Noite.

O Santa Claus é uma equipe que participa da Terceira Divisão do campeonato finlandês, também conhecida como “Kakkonen”, onde os clubes têm seus nomes representados por siglas, como TP-47, FC YPA, PK-37, SJK. O Santa Claus já contou no seu elenco com dois jogadores brasileiros, Rafael de Oliveira Rodrigues e o centroavante Luiz Antonio, que foram dispensados em 2010.

Em 2010 o time fez a melhor temporada da sua história. O presente principal, no entanto, não veio. O time do “Bom Velhinho” foi o primeiro colocado entre os 14 que disputaram o Grupo Norte da Terceira Divisão e brigou por uma vaga com o melhor do Sul, na “Ykkönen”, como é chamada a Segundona de lá.

Na final, o Santa precisava de um empate para ser campeão, mas perdeu para o HIFK e não conseguiu o acesso. Já em 2011, o time não fez uma boa temporada, terminando em décimo lugar no grupo C da “Kakkonen” e só não caindo para a IV Divisão, por ter sido salvo pelo “goal-average”.

Em 1997, o F.C. Santa Claus também fez a alegria dos seus torcedores quando enfrentou o Crystal Palace, clube da segunda divisão inglesa, em um amistoso. Na ocasião, cerca de 4.500 torcedores assistiram a partida.

A temporada da “Kakkonen”dura aproximadamente seis meses. As partidas são disputadas de abril até outubro. Se a equipe não chega nos playoffs de promoção ou rebaixamento, a temporada dura um pouco menos. Na Finlândia o futebol deve ser praticado no verão, já que no inverno é impossível jogar devido a quantidade de neve.

O time manda as suas partidas em dois estádios, o “Saarenkylän Tekonurmi” e o “Susivoudin kenttä”, ambos em Rovaniemi, com capacidade para 2.000 e 400 torcedores, respectivamente. Seu uniforme é predominantemente vermelho, apenas as meias possuem cor diferente, são pretas, e a combinação branca é usada no segundo uniforme.

O número de torcedores do F.C. Santa Claus vem crescendo cada vez mais ao redor do mundo. Em dezembro de 2010, aproximadamente 17 mil fãs visitaram a página oficial do clube na Internet. Também existe muita publicidade internacional e grandes meios de comunicação esportivos já vieram conhecer o clube. A média de público nos jogos do Santa Claus fica entre 400 a 800 torcedores, e o objetivo é aumentar esse número.

Terminada a temporada, torcedores e jogadores se concentram no esporte principal do país, o hóquei. De novembro até maio de 2011, alguns jogadores do Santa Claus trocaram as chuteiras por patins e passaram a atuar em clubes de hóquei.

O FC Santa Claus ainda beira o amadorismo quando se fala do futebol dentro das quatro linhas. Os jogadores, por exemplo, são estudantes e trabalhadores que frequentam as escolas e as empresas locais. O Santa, porém, explora a boa imagem do clube para fazer uma fonte de renda extra para os seus atletas.

Sem uma dedicação exclusiva à equipe, os jogadores tiram férias prolongadas por conta do frio violento que atinge a região durante o inverno no hemisfério norte. Isso porque o campeonato vai de abril até outubro, quando a equipe avança para os playoffs, caso contrário o período fora de atividade é ainda maior. Nos meses restantes, atletas e comissão técnica têm mais tempo para priorizarem profissão e estudos.

No inverno os jogadores do F.C. Santa Claus participam junto com os visitantes da Escola de Futebol na Neve organizada pelo clube. Os atletas se juntam aos ajudantes do Papai Noel e jogam futebol com os turistas em um cenário que remonta a Lapônia, a terra do bom velhinho.

Os dirigentes sonham com a possibilidade de que algum clube internacional vá até Rovaniemi disputar uma partida na neve contra o F.C. Santa Claus. No inverno é muito difícil jogar futebol tradicional na Finlândia. Então, a temporada dá um tempo e o F.C. Santa Claus atua no futebol de neve.

Existem duas versões para a história da fundação do clube. Na oficial, a equipe finlandesa foi criada em 1993 após a fusão de dois clubes de Rovaniemi: o Rovaniemen Reipas e o Rovaniemen Lappi. Além dessa, há também a lenda de que o próprio Papai Noel teria fundado o time muitos anos atrás, e seus ajudantes formaram o primeiro elenco.

O marketing serve também para alavancar os projetos sociais tocados pelo F.C. Santa Claus. Parceiro da Unicef, o clube vende camisas e chapéus do clube para turistas, especialmente aqueles que visitam a Vila do Papai Noel, reservando 10 Euros (R$ 22) para a entidade. A Vila do Papai Noel está localizada no círculo polar. Partindo de Rovaniemi, calcula-se uma distância aproximada de 8 quilômetros do estádio até lá.

Anualmente, na primavera é realizado um torneio, em que toda a renda conseguida com a venda de ingressos é doada para a filial finlandesa da Unicef. Além dessas iniciativas, o clube participou de um projeto para levar água potável para o Sri Lanka, no verão de 2010.

Na Finlândia o “Bom Velhinho” é conhecido pelo nome de “Joulupukki”, e não Santa Claus, como nos países de língua inglesa. A escolha aconteceu porque com o nome de Santa Claus fica mais fácil a identificação.

Mitologias à parte, os fundadores decidiram levar ao clube a imagem do Papai Noel, que, segundo a lenda que se disseminou na Europa, habita a região da Lapônia. E o marketing chegou até lá e, com a venda de produtos licenciados e o investimento em jogos promocionais. A tradução foi um meio de globalizar a imagem do time.

A última vez que Papai Noel foi ao estádio assistir uma partida foi em abril de 2010, quando ele deu o pontapé inicial da temporada de futebol em Rovaniemi. Esta visita chamou a atenção da imprensa e até a Federação Finlandesa de Futebol anunciou o evento em sua página na internet. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time do F.C. Santa Claus, junto de Papai Noel. (Foto: Acervo do F.C. Santa Claus)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O artilheiro que virou lenda

João Baptista Ferrareto, o “Carruíra”, foi um dos mais habilidosos atacantes surgidos no futebol do Rio Grande do Sul. Era um artilheiro nato e exímio cobrador de pênaltis. Ele nasceu na cidade portuária de Rio Grande (RS), em 1913.

Começou a carreira futebolística no extinto General Osório, de sua terra natal. Em 1934, com 21 anos, foi jogar no S.C. Rio Grande.

Em 1935 foi contratado pelo F.B.C. Rio-Grandense, mas se deu mal. Meteu-se numa briga, em jogo válido pelo Campeonato da Cidade e foi punido com a suspensão dos campos de futebol, por um ano. Em 1936 retornou ao S.C. Rio Grande, para se sagrar campeão gaúcho.

As finais do campeonato reuniram o Botafogo F.B.C., de São Gabriel, campeão da região Fronteira, S.C. Novo Hamburgo, campeão da região Sudeste, Riograndense F.C., de Santa Maria, campeão da região Serra, S.C. Internacional, de Porto Alegre, campeão da região Metropolitana e S.C. Rio Grande, campeão da região Litoral.

O tricolor riograndino chegou ao título estadual derrotando o Novo Hamburgo, por 5 X 2 e no jogo final ao Internacional, por 3 x 2. O time campeão jogou com Munheco – Fruto e Cazuza – Juvêncio – Chinês e Roberto – Ernestinho – Darinho – Souza (Carruíra) – Marzol e Pecce. Técnico, Gustavo Kraemer Filho.

Em 1937 voltou ao F.B.C. Rio-Grandense, onde foi treinado pelo folclórico Gentil Cardoso. No colorado riograndino foi vice-campeão gaúcho em 1937 e 1938. Em 1939, finalmente o Rio-Grandense se sagrou campeão estadual e Carruíra ganhou o seu segundo título gaúcho, e também foi o artilheiro da competição.

O Rio-Grandense foi campeão derrotando o Grêmio Santanense numa final de "melhor de três", com uma vitória e dois empates. O time campeão jogou com Brandão – Cazuza e Armando – Martinez – Pacheco e Mariano – Osquinha – Carruíra – Cardeal – Chinês e Plá. Técnico: Aires Torres.

Carruíra faleceu em Rio Grande, no dia 26 de junho de 1982, aos 69 anos de idade, e não ficou no esquecimento. No Bairro Zona Portuária, em sua terra natal, existe a Travessa João Batista Ferrareto, homenagem da comunidade riograndina a um dos principais jogadores que pisou nos gramados da cidade.

Para que se tenha uma idéia do que Carruíra representou no futebol de Rio Grande, criou-se uma lenda envolvendo seu nome.

O famoso crônista Amaro Junior, que trabalhava para os jornais da Caldas Júnior, contava essa história e jurava ser verdade, garantindo que estava em Rio Grande e testemunhou tudo. La na "Cidade Maritima" só um jogador jogava na seleção gaúcha, era Carruíra, do S.C. Rio Grande, um esplêndido jogador.

E aí o Botafogo ia excursionar para a Argentina, mas havia uma epidemia de febre amarela no Rio e um jogador do clube alvi-negro carioca tinha morrido da doença. As autoridades sanitárias da Argentina mandaram que o navio que estava levando o Botafogo para jogar com o Boca Juniors, aportasse na cidade de Rio Grande, que eles iriam mandar seus representantes para fazer um exame no pessoal da delegação.

E demorava… um navio levava mais ou menos um mês para ir do Rio a Buenos Aires. E então, o Botafogo resolveu treinar lá e convidou para um jogo amistoso o S.C. Rio Grande, o "vovô dio futebol brasileiro", que era o clube de Carruíra. Foi o primeiro a ser fundado especificamente para o futebol, em 19 de julho de 1900.

Começou o jogo e o Botafogo fez um gol, com Carvalho Leite. Seguiu a partida e o Rio Grande tinha um ponta-esquerda chamado Chinês, pai do Chinesinho, que depois jogou no Inter, na seleção brasileira e no Milan, da Itália, jogava na meia-esquerda e na ponta-esquerda. Ele empatou o jogo.

Minutos depois, Benedito, que era um jogador gaúcho que atuava no Botafogo, fez o gol que deixou a partida em 2 X 1. Daí a pouco Carruíra pegou uma bola e driblou todo o time do Botafogo. Chegou na pequena área e botou a bola para fora do campo.

Quando ela voltou, naquele tempo se jogava com uma bola só, a FIFA é que determinava isso, o juiz mandou dar a saída do centro do campo. O capitão do Botafogo chegou para ele e disse: “Como? O jogador chutou a bola lá no meio da rua! Como o senhor quer dar a saída aí? Tem que dar tiro de meta”.

O juiz olhou para o capitão do Botafogo, botou a mão no ombro dele e com um sotaque bem de fronteira disse: “Bem se vê, moço, que você não é daqui. Se o senhor fosse daqui, nem vendo ia acreditar que o Carruíra, chegando na risca da pequena área fosse chutar pra fora. Eu não acredito! É gol!”.

Esse fato é comprovado, tem até a súmula no jornal "Correio da Manhã", do Rio de Janeiro. O Iata Anderson, que é um repórter de campo achou que isso era mentira e foi consultar os jornais da época e encontrou lá esse jogo e o famoso gol do Carruíra, sem dizer que não tinha sido gol.

Em 1944, Carruíra retirou-se dos gramados, voltando em 1946 como técnico do Rio-Grandense. Sua atuação como treinador foi a mais proveitosa, pois conseguiu levar o Rio-Grandense ao vice-campeonato estadual, com um time formado em parte com jogadores que foi buscar nas várzeas.

O Rio-Grandense abateu o Brasil, de Pelotas, o Floriano, de Novo Hamburgo e o Grêmio Santanense. Faltava o Grêmio Portoalegrense, mas como os tricolores constituíam a base do selecionado gaúcho em organização, a decisão do estadual foi deixada para depois do Campeonato Brasileiro, em 1947. Entrementes, Carruíra foi dispensado da direção técnica: “Essa foi a gratidão que demonstraram pelo meu trabalho”, disse ele.

Os melhores jogadores que conheceu foram Fruto, em Rio Grande, Mário Reis, em Pelotas e Lara, em Porto Alegre. Esse foi Carruíra, que atuou 25 anos em equipes principais da primeira divisão.

Foi encontrada uma legenda de fotografia publicada no jornal “O Tempo”, edição de 30-12-1949, que dizia: “Eis o maior de todos! A maior glória do E.C. Rio Grande, no tempo do esplendor do futebol papa-areia. Quando Carruíra aparecia em campo, milhares de olhos convergiam para a sua figura, que durante o jogo era um astro brilhando demais que os outros”.

Em Rio Grande quase ninguém sabe quem é João Batista Ferrareto. Mas basta falar no apelido deste homem, basta perguntar por Carruíra, que todos se prontificarão a informar, porém indagando antes? ”Quem, o novo ou o velho?” Carruíra tinha um filho que também desenvolvia um grande futebol. (Pesquisa: Nilo Dias)

domingo, 1 de janeiro de 2012

A morte de mais um ex--craque bageense

Parece que a “miudinha” chegou a Bagé nos últimos dias de 2011. Depois da morte de Vicente, zagueiro que marcou época no Santos de Pelé, agora faleceu Carlos Calvet, ponteiro-direito, também filho de Bagé e que jogou no Internacional, de Porto Alegre. Ele morreu na Santa Casa de Bagé, onde estava internado há várias semanas, tratando de problemas respiratórios. O enterro ocorreu no domingo, no Cemitério daquela cidade.

Carlos Donazar Calvet, o “Tóia”, nasceu em Bagé no dia 26 de julho de 1926. Mas a trajetória profissional foi iniciada fora da terra natal. Aos 18 anos foi morar em Pelotas. Quando estudava no Colégio Gonzaga, foi convidado a jogar nas categorias de base do E.C. Pelotas. Na Princesa do Sul atuou em 1944 e conquistou o vice-campeonato gaúcho de 1945.

Em 1946 foi contratado pelo Guarany, de Bagé e na mesma temporada foi negociado com o Botafogo, do Rio de Janeiro, onde atuou até meados de 1948 e serviu no Ministério da Guerra. A passagem pelo futebol carioca foi lembrada recentemente em entrevista concedida ao programa “Jogo Limpo” da "TV Sem Fronteira". “Excursionamos a Bolívia, onde fui interprete da delegação. Eles não sabiam nada de castelhano. Passamos um mês, jogamos três jogos, com duas vitórias e um empate” contou.

Atacante habilidoso, excelente finalizador e dono de forte chute, em 1948 foi contratado pelo Internacional, de Porto Alegre, com a função de substituir o craque Tesourinha, vendido ao Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. Em 1949 voltou a jogar pelo Guarany.

Em 1950 e 1951, foi jogador do Bagé. Em 1952, Carlos Calvet, retornou ao Guarany e jogou até 1961, quando aos 33 anos deu adeus à carreira vitoriosa como atleta. Várias vezes foi treinador do alvirrubro bageense. Atuou também pela Associação Atlética Gente Boa, no campeonato amador da cidade. E, a convite do radialista Mário Teixeira Codevilla, ainda jogou pela equipe de futebol da Rádio Difusora, na década de 1960.

O ex-jogador Carlos Calvet estava aposentado e residia no Bairro Getúlio Vargas, em Bagé. Artilheiro nato marcou 109 gols pela dupla Na-Gua, 84 gols pelo Guarany e 25 pelo Bagé, inclusive sendo o autor do gol 1000 do jalde-negro, na derrota por 4 X 3 para o Brasil, de Pelotas, em 12 de agosto de 1951.

Um dos grandes momentos da sua carreira profissional, aconteceu no dia 24 de março de 1957. O Santos F.C., que realizava uma série de jogos no Rio Grande do Sul, se apresentou em Bagé, no Estádio da “Pedra Moura”, diante da seleção Ba-Gua, jogo que terminou empatado em 1 X 1. Pelé marcou para os santistas, enquanto Carlos Calvet, que teve atuação destacada, anotou o gol do combinado.

Eu assisti aquele jogo. Tinha apenas 16 anos de idade e aproveitei a proximidade de minha terra natal, Dom Pedrito, com Bagé. O Santos de Pelé e companhia foi o primeiro grande time de futebol, que vi jogar. Na escalação monstros sagrados como Ramiro, Formiga, Del Vechio, Jair da Rosa Pinto, Pepe, Pelé e outros.

Carlos Calvet era irmão de Raul Calvet, que jogou no Grêmio e Santos e faleceu aos 72 anos de idade, no dia 29 de março de 2008, em Porto Alegre, onde se tratava de um câncer no esôfago. Um dia depois de sua morte, o corpo foi cremado na capital gaúcha.

Nascido em Bagé, no interior gaúcho, Raul Calvet foi revelado pelo Guarany local e depois esteve no Grêmio, antes de chegar na Vila Belmiro para vestir a camisa do Santos. No onze da Vila Belmiro foi bicampeão mundial, num time basicamente formado por Gilmar – Lima – Mauro - Calvet e Dalmo - Zito e Mengálvio – Dorval – Coutinho - Pelé e Pepe.

Jogou 10 partidas pela Seleção Brasileira e foi campeão mundial em 1962. Era considerado um jogador técnico e elegante. Abandonou o futebol aos 30 anos ao romper o tendão de Aquiles. (Pesquisa: Nilo Dias)

Carlos Calvet, quando jogava no Guarany, de Bagé.

Morre Mário Pereira, o "Perigo Loiro"

Morreu no último sábado, 31/12/2011, na cidade de Santos, onde residia, o último remanescente do time do Santos F.C., que conquistou o primeiro campeonato paulista para o clube, no distante ano de 1935. Mário Pereira tinha 97 anos de idade e na sua época de jogador era conhecido como “Perigo Loiro” por causa dos longos cabelos que já não possuia mais. A causa da morte não foi revelada.O corpo foi velado no Memorial Ecrópole Ecumênica, próximo ao estádio da Vila Belmiro.
Mário Pereira, que tinha 21 anos de idade, era titular absoluto da equipe que bateu o Corinthians no Parque São Jorge, por 2 X 0, gols de Araken Patusca e Raul Cabral Guedes, no jogo final, disputado no estádio de Parque São Jorge, que deu ao Santos o seu primeiro título de expressão. Hoje o clube soma 19 títulos estaduais.

Ele nasceu em Santos, no dia 4 de abril de 1914, dois anos após a fundação do alvinegro. Foi um meia-direita tão eficiente no ataque como na defesa, que marcou 24 gols nos 41 jogos que fez pelo Santos, média de 0,58 por jogo. Mário teve a carreira abreviada por uma grave lesão. Marcado às vezes com violência, teve a infelicidade de quebrar o joelho esquerdo em 1938, com apenas 24 anos, e ser obrigado a abandonar a carreira. “Nem me lembro quem foi. Só sei que entrou por trás e me quebrou aqui”, dizia ele, mostrando a cicatriz que já tinha 73 anos.

A última aparição pública de Mário Pereira foi em janeiro de 2011, no Memorial das Conquistas do Santos. Ao lado do Rei Pelé, o campeão paulista de 35 tirou fotos, distribuiu autógrafos e posou com a bola da competição que venceu sobre o Corinthians. O Santos estudava escalar o ex-meio-campista para uma série de ações referentes à celebração do centenário da equipe que será celebrado neste ano de 2012. Em 2004, como forma de homenagem, a equipe inaugurou um camarote com o nome do ídolo falecido neste sábado.

Ele adorava a cidade onde nasceu, foi criado e passou toda a vida. Nunca pensou em morar em outro lugar. Quando lhe perguntavam o que aconteceria se jogasse hoje e recebesse uma proposta milionária de um clube europeu, respondia apressadamente: “Não aceitaria nenhuma proposta para sair daqui. Aqui é a minha cidade, minha terra”, dizia sorrindo. Torcedor fanático do Santos, acompanhava todos os jogos do time pelo “pay per view”. Como ficava muito nervoso, colocava as mãos e os pés em bacias d’água, para se acalmar.

Antes de 1935 o Santos teve um período, mais especificamente de 1927 a 1931, em que foi um dos melhores times do país e poderia, naturalmente, ter sido campeão paulista em mais de uma temporada. Porém, vários fatores contribuíram para que isso não acontecesse. O Santos não só foi prejudicado pelo poder do futebol paulista, como pela intransigência de seus próprios dirigentes. Mário Pereira guardava certa bronca de um árbitro chamado Artur Cidrim, que segundo ele, beneficiava principalmente o Corinthians, que tinha “dirigentes dentro da liga” e “já era o time de maior torcida na época.

O ano de 1935 não começou bem para o Santos, que perdeu os dois primeiros amistosos que fez: 3 X 2 para o São Paulo e 1 X 0 para a Portuguesa de Desportos, ambos na Vila Belmiro. Como o Campeonato Paulista demoraria a começar, deu tempo para o time se redimir, com vitórias sobre Corinthians, por 3 X 2, São Cristóvão, 2 X 1 e Espanha, 10 X 1.

Deu até para aceitar um convite para uma excursão ao Rio Grande do Sul, de 12 a 26 de maio, quando venceu o Novo Hamburgo por 4 X 2 e Riograndense (Porto Alegre), 4 X 3, empate em 1 X 1 com o Internacional e derrotas para o Grêmio por 3 X 2 e Seleção Gaúcha, também por 3 X 2.

Uma excursão como essa, naqueles tempos de poucas viagens, era tudo que os jogadores queriam. Só que chegaram a Santos no dia 29 de maio e descobriram que a tabela marcava para o dia 2 a estréia contra o Palestra, que era o atual campeão paulista.

Logo de cara, um jogo decisivo, pois se o time tinha alguma pretensão de brigar pelas primeiras posições, deveria vencer o Palestra na Vila. No segundo turno o jogo seria no Parque Antártica e a dificuldade seria bem maior. Sabendo disso e lutando como nunca, o Santos venceu por 1 X 0, gol do centroavante Raul.

A vitória sobre um dos favoritos ao título animou os santistas, que em seguida venceram também o Espanha, no campo do Macuco, por 2 X 0, e o Paulista, da Capital, no Parque Antártica, por 5 X 1. No quarto jogo veio a derrota para o Corinthians, na Vila Belmiro, por 2 X 1. Mas o time se aprumou de novo e venceu a Portuguesa Santista, na Vila Belmiro, 3 X 1 e o Juventus, na Capital, 4 X 1. Nesta última partida, a que encerrou o primeiro turno, o time ganhou o reforço de Araken, que voltava ao Santos.

Na estréia do segundo turno, outro confronto com o Palestra, desta vez no Parque Antártica. Jogo tenso, difícil, que terminou sem gols. Depois, uma goleada no Espanha, na Vila, 4 X 1 e outra no Paulista, 5 X 2, também em casa. Mas a Portuguesa Santista complicou as coisas em Ulrico Mursa, empatando em 3 X 3. O time depois teve de vencer o Juventus em nervosos 2 X 1, na Vila. Na última partida, frente o Corinthians, no Parque São Jorge, o time precisava apenas de um empate para ser campeão.

Bilu, o técnico santista, temia que a emoção traísse seus jogadores, ou que o árbitro, Heitor Marcelino Domingues, pudesse puxar a sardinha para os times da Capital. O Corinthians não tinha chance de ser campeão, mas sua vitória daria o título ao Palestra Itália, mesmo clube que venceu o Santos na Vila Belmiro, em 1927, quando o empate bastaria para que a taça ficasse em Santos.

Bilu, que jogou a decisão de 1927 como zagueiro, jamais escondeu a mágoa pela forma com que o campeonato lhe tinha sido tirado, com uma atuação parcial e cínica do árbitro Antonio Molinaro. Naquele 17 de novembro, no Parque São Jorge, finalmente Bilu teria a chance de, por linhas tortas, saborear sua vingança.

A boa torcida que subiu de trem para São Paulo fez o time se sentir à vontade, mesmo no campo do rival. Um grupo de torcedores do Santos que trabalhava na estiva do Porto, cansados de ver o time ser prejudicado pela arbitragem em jogos decisivos, levou galões de gasolina para o estádio do Corinthians. Se o Santos fosse roubado mais uma vez, prometiam colocar fogo na Fazendinha. Mas não precisaram chegar a tal extremo. Jogando melhor, o Santos venceu por 2 X 0.

O título ficou mesmo com o melhor do campeonato. Em 12 jogos foram 9 vitórias, 2 empates, uma derrota, 32 gols marcados, 12 sofridos e saldo de 20 gols. Mário Pereira fez cinco gols na competição. O São Paulo faliu, nem disputou o campeonato, foi refundado no mesmo ano e voltou á Liga Paulista em 1936. O Palestra perdeu alguns jogadores para o Fluminense (RJ),como o meia Romeu Pelicciari. O Corinthians, depois de fazer um primeiro turno impecável, perdeu um jogo atrás do outro no segundo. O Santos não tinha nada com isso, e foi campeão.

Ficha Técnica do jogo que deu o primeiro título estadual ao Santos:

Corinthians 0 X 2 Santos
Data: 17 de novembro de 1935, domingo à tarde.
Local: Parque São Jorge
Gols: Raul aos 36 minutos do primeiro tempo; Araken aos 17 do segundo.
Árbitro: Heitor Marcelino Domingues.
Público: 15.000 pagantes.
Corinthians: José - Jaú e Carlos – Brito - Brandão e Munhoz – Teixeira – Carlito – Teleco - Alberto e De Maria. Técnico: José Foquer.
Santos: Cyro - Neves e Agostinho – Ferreira - Martelete e Jango – Sacy - Mário Pereira – Raul - Araken e Junqueira. Técnico: Bilu.

Em 2005, quando da comemoração dos 93 anos do Santos F.C., um dos momentos mais emocionantes, foi quando o presidente, na época, Marcelo Teixeira pediu uma salva de palmas para Mário Pereira, até então o único ex-jogador ainda vivo campeão paulista de 1935. Todos os convidados o aplaudiram de pé. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time do Santos, campeão paulista de 1935, com Mário Pereira.