Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O centenário do Santos F.C. (1)

Esta semana é muito significativa para o futebol brasileiro, pois coloca o Santos F.C., da cidade paulista, de Santos, no seleto grupo de clubes centenários. A agremiação alvinegra santista foi fundada no dia 14 de abril de 1912. E não foi o primeiro time de futebol da cidade. Mesmo com os esportes aquáticos como o remo serem os mais praticados pelos jovens, já existiam equipes fortes o bastante para disputarem com destaque o Campeonato Paulista de Futebol, criado em 1902: o Sport Clube Americano, fundado em 1903 e o Clube Atlético Internacional, fundado em 1902.

O Internacional foi extinto em 1910 e o Americano mudou sua sede para São Paulo, deixando alguns praticantes descontentes e que decidiram então criar o seu próprio clube na cidade. Em 1912, Santos já era a principal cidade exportadora de café do mundo. Os negócios iam bem e a cidade atraía cada vez mais o dinheiro dos fazendeiros do Interior.

Com um clima tão favorável, três desportistas da cidade, Raymundo Marques, Mário Ferraz de Campos e Argemiro de Souza Júnior, convocaram uma reunião para às 14 horas do domingo 14 de abril, na sede do Clube Concórdia, localizado na Rua do Rosário - atual Avenida João Pessoa, na parte superior da antiga padaria e confeitaria Suissa, para a criação de um time de futebol.

No dia 5 de abril de 1912, eles convocaram outros colegas de Santos – todos estudantes ou funcionários de empresas de comércio através de uma circular que dizia o seguinte: “Para tratar da fundação de um clube de futebol, queira v.s. comparecer, no dia 14, às 20 horas, no salão do Clube Concórdia, à rua do Rosário, n.º 10.”

Isso, pouco menos de 20 anos depois do jovem Charles Miller, precursor do futebol no Brasil, ter aportado em Santos com as duas primeiras bolas de futebol utilizadas no país.

Apenas 39 rapazes compareceram, dentre eles muitos que formariam nos primeiros times do Santos e alguns, como Millon e Arnaldo, que em menos de dois anos estariam defendendo a Seleção Brasileira. Raimundo Marques, que morreria seis anos depois, vítima da “gripe espanhola”, abriu a seção falando da necessidade de Santos ter um time de futebol, visto que o futebol na cidade, depois de um início promissor, tinha sido completamente abandonado.

Ao discutir-se o nome da nova agremiação surgiram algumas sugestões: “África” foi a primeira, rejeitada por Raimundo Marques depois de consultar o plenário. Em seguida sugeriu-se “Brasil”, nome também não aprovado. Álvaro de Barros Fontes quis fazer média com o clube que emprestara o salão para a reunião e arriscou “Concórdia”. Mas se já existia um clube com este nome, para que outro?

Foi então que Edmundo Jorge Araújo propôs “Santos Foot Ball Club”. Um silêncio, seguido de fortes aplausos aprovou adotar-se o nome da cidade, menor que as grandes capitais, mas que através de seu porto, um dos maiores do país, se ligava e se abria ao mundo. Raimundo Marques pôde então concluir: “Meus senhores, acaba de ser fundado o Santos Foot Ball Club. Eram 14 horas e 33 minutos do domingo, 14 de abril de 1912.

A primeira Diretoria ficou formada por Sizino Patuska (presidente), que tinha participado das fundações de Internacional e Americano; George Cox (vice-presidente); José G. Martins (1° secretário); Raul Dantas (2° secretário); Leonel Silva (1° tesoureiro) e Dario Frota (2° tesoureiro). Os diretores eram: Augusto Bulle, João Carlos de Mello, Henrique Cross, Raymundo Marques, Cícero F. da Silva e Jomas de C. Pacheco.

Na mesma reunião foram decididas as cores do clube. O uniforme oficial escolhido era constituído por uma camisa com listras verticais azuis e brancas, separadas por um fio dourado, em homenagem ao Clube Concórdia, onde a reunião foi realizada.

Mas devido a grande dificuldade de se confeccionar os uniformes, quase um ano depois, na terceira reunião de diretoria, o sócio Paulo Pelúcio sugeriu que o clube passasse a utilizar como cores oficiais o branco e o preto. Em defesa de sua idéia, disse que "o branco representa a paz, e o preto, a nobreza". E conseguiu aprovação geral dos presentes.

Na oportunidade, o presidente do Santos, Raymundo Marques, apresentou os modelos da bandeira do clube, que passaria a ser branca, diagonalmente atravessada por uma faixa preta com as iniciais do clube em letras brancas.

Para o primeiro jogo do Santos duas versões são dadas por historiadores do clube. A primeira, segundo o conselheiro Guilherme Gomez Guarche, aponta que o primeiro jogo teria ocorrido em 23 de junho de 1912 contra o combinado local do Thereza Team, no campo da Vila Macuco. Vitória de 2 X 1 com gols de Anacleto Ferramenta e Geraule Ribeiro. O time entrou em campo com: Julien Fauvel - Simon e Ari – Bandeira - Ambrósio e Oscar – Bulle – Geraule – Esteves - Fontes e Anacleto Ferramenta.

O historiador oficial do clube, Francisco Mendes Fernandes contesta isso, dizendo que esta partida foi um jogo treino. A outra, apontada por ele como a verdadeira, teria ocorrido apenas em 15 de setembro daquele ano contra a equipe do Santos Athletic Club, conhecido como “time dos ingleses”, no campo da avenida Ana Costa, nº 22 - local onde hoje se encontra a Igreja Coração de Maria. O Santos Futebol Clube venceu por 3 X 0.

O primeiro gol oficial da história do clube foi marcado por Arnaldo Silveira, que tinha o apelido de Miúdo. Os outros dois gols foram anotados pelo próprio Miúdo e por Adolpho Millon Júnior. O time santista entrou em campo com Julien Fauvel - Sidnei e Arantes – Ernani - Oscar e Montenegro – Millon – Hugo – Nilo - Simon e Arnaldo Silveira.

Em 1913, foi disputado pela primeira vez o Campeonato Santista de Futebol, contando com a participação de Santos, América, Escolástica Rosa e Atlético. O Alvinegro, que já era o time mais forte da cidade, não teve dificuldades para conquistar o título com seis vitórias em seis jogos, 35 gols pró e apenas sete contra. Este foi o primeiro título da história do clube, ganhando o direito de participar do Campeonato Paulista de Futebol, no mesmo ano. Porém, as dificuldades com as viagens constantes e os resultados ruins nos jogos, forçaram a equipe a abandonar o certame.

Esta foi a primeira competição oficial disputada pelo clube. Sua estréia aconteceu no dia 1° de junho, diante do Germânia. O resultado, porém, não foi nada animador: derrota por 8 X 1. O Santos formou com Durval Damasceno - Sebastião Arantes e Sydnei Simonsen - Geraule Ribeiro - Ambrósio Silva e José Pereira da Silva - Adolfo Millon - Nilo Arruda - Anacleto Ferramenta - Harold Cross e Arnaldo Silveira.

A única vitória foi justamente contra o time que no futuro se tornaria o principal rival, e que também estreava no campeonato naquele ano: o S.C. Corinthians Paulista. O resultado foi 6 X 3, em jogo disputado no Parque Antárctica, na capital.

Em 1915, o Santos voltou a disputar o Campeonato Santista, conseguindo o segundo título, embora tenha usado o nome de União F.C., porque a APEA, liga a qual permaneceu afiliado, não permitiu que usasse o nome oficial. Em 1916, disputou pela segunda vez o Campeonato Paulista.

Ary Patusca foi um dos primeiros ídolos do Santos F.C. Filho de Sizino Patuska, primeiro presidente da agremiação litorânea, estreiou como jogador em 1915. Jogou até 1923. Atacante goleador e grande cabeceador, marcou 103 gols em 85 jogos com a camisa santista, sendo o vigésimo maior artilheiro de sua história.

Foi também o primeiro jogador brasileiro a se destacar na Europa, aonde foi enviado para estudar na Suíça. Lá, entrou para o Brühl St. Gallen e foi campeão suíço de futebol, chegando até a jogar na seleção helvética. Depois atuou na Internazionale, de Milão, no período de 1913-1915. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time do Santos de 1913. Alguns garotos e dois negros (em destaque) (Foto: Divulgação / Santos FC)

terça-feira, 10 de abril de 2012

Um pioneiro do rádio gaúcho

Morreu no sábado (7) o advogado Farid Germano, 88 anos, um dos pioneiros do jornalismo esportivo gaúcho em rádio, vítima de insuficiência cardiorrespiratória e enfisema pulmonar, doença que destrói as células do pulmão. Em 1944, ele narrou a primeira partida de futebol transmitida de fora do Estado, entre as seleções do Rio Grande do Sul e do Paraná, pela Rádio Gaúcha direto de Curitiba. Ele era também procurador aposentado do Tribunal de Contas do Estado.

Farid era filho de pais sírio-libaneses e nasceu em Cachoeira do Sul (RS). Mudou-se para a capital para cursar Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Simultaneamente ao período de faculdade, trabalhou como locutor das rádios, Gaúcha por três anos e Difusora, um, e foi parceiro de nomes como Maurício Sirotsky Sobrinho, Cândido Norberto, Ernani Behs e Luiz Mendes.

Farid Germano era irmão do ex-vice-governador do Estado Otávio Germano. Ele foi também vice-presidente do E.C. Cruzeiro de Porto Alegre, vice-presidente do Jockey Club, diretor da Federação Gaúcha de Futebol e advogado da Fundação Zoobotânica. Era viúvo havia dois anos de Carmen Germano, com quem foi casado por 60 anos e teve os filhos Cristina (falecida), Farid Germano Filho e Carmen.

O corpo foi velado na capela D do Cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre, e o sepultamento aconteceu no domingo, 16 horas, no Cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre.

Uma missa em preito de saudade ao falecido será realizada na sexta-feira (13), na Igreja Sagrada Família, em Porto Alegre. (Pesquisa: Nilo Dias – Adaptada do site “Espaço Vital")

O craque "dentusco"

No futebol brasileiro foram vários os jogadores que chamaram a atenção mais pelo perfil folclórico, do que mesmo pelo futebol apresentado. Talvez o mais famoso deles tenha sido João Batista de Sales, o “Fio Maravilha”, mineiro de Conselheiro Pena, onde nasceu no dia 19 de janeiro de 1945.

“Fio” começou a carreira futebolística no Flamengo, aonde chegou aos 15 anos de idade, levado pelo irmão Germano, ex ponta esquerda do próprio clube da Gávea (1958/1962), Milan da Itália (1962/1964) e Palmeiras (1965/1966). Michila, que também era irmão de Germano foi outro que jogou no Flamengo.

Germano, que estava muito gordo morreu de infarto aos 55 anos, no dia 1 de outubro de 1997, em sua cidade natal, Conselheiro Pena, onde era fazendeiro. Lá vivia com a esposa do segundo casamento, dona Bernardina Ilida Ferreira, e mais dois filhos.

O primeiro jogo de “Fio” com a camisa rubro-negra foi no dia 21 de abril de 1965, quando o Flamengo foi derrotado pelo Bahia por 3 X 0. O técnico rubro-negro era Válter Miraglia. “Fio” jogou no Flamengo de 1965 a 1973, tendo marcado 79 gols em 288 partidas.

O apelido de "Fio Maravilha", ganhou após marcar o gol da vitória de 1 X 0 em um jogo amistoso contra o Benfica, de Portugal, disputado em 15 de janeiro de 1972, no Maracanã. O jogo estava empatado em 0 X 0 e a torcida do Flamengo pedia que o técnico Zagallo colocasse “Fio Maravilha”, então no banco de reservas e favorito a figurar no próximo listão de dispensas. O pedido da torcida foi atendido e “Fio” entrou no lugar de Arilson.

Aos 33 minutos do 2° tempo, ele construiu a obra-prima que inspirou Jorge Bem, ainda sem o Jor acrescido ao seu nome artístico. Driblou dois zagueiros, venceu o goleiro José Henrique e deu a vitória ao Flamengo com um gol sensacional que mereceu, ao final da partida, o seguinte comentário de Zagallo: “Fio só entrou porque Arilson sentiu o joelho, mas a verdade é que me surpreendeu. Não posso pensar em dispensar um jogador que faz um gol desses”.

Apaixonado torcedor do Flamengo estava no estádio o cantor e compositor Jorge Ben, que descreveu em versos a jogada: “Tabelou, driblou dois zagueiros / Deu um toque, driblou o goleiro / Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade”.

Defendida por Maria Alcina, a música ganhou o Festival Internacional da Canção de 1972 e virou clássico da MPB. Assim que Jorge Bem ficou sabendo da ação que o advogado de “Fio” movia contra ele, por conta própria, magoado, passou a cantar "Filho Maravilha". “Fio” ficou com fama de oportunista. Em entrevista à TV Globo em 2007, explicou o mal-entendido e autorizou Jorge a cantar a música com a letra original.

E novamente ele chegou/Com inspiração/Com muito amor, com emoção,/Com explosão em gol/Sacudindo a torcida aos 33 minutos/Do segundo tempo/Depois de fazer uma jogada/Celestial em gol/Tabelou, driblou dois zagueiros,/Deu um toque, driblou o goleiro/Só não entrou com bola e tudo/Porque teve humildade em gol/Foi um gol de classe onde ele /mostrou/Sua malícia e sua raça/Foi um gol de anjo/Um verdadeiro gol de placa/Que a galera agradecida assim cantava/"Fio Maravilha", nós gostamos de você/"Fio Maravilha", faz mais um prá gente ver.

“Fio” conta que, anos depois, quando jogava na Desportiva, do Espírito Santo, ouviu a conversa de duas senhoras: "Tá vendo esse cara? É o tal jogador mau-caráter que processou o Jorge Ben".

Apesar do futebol desengonçado e folclórico, “Fio” se tornou querido da torcida em razão dos dribles desconcertantes que aplicava nos zagueiros adversários e pelos gols feitos perdidos. Suas marcas registradas eram os dentes salientes, pouca técnica e muito carisma. Para João Saldanha, célebre técnico da seleção brasileira, “Fio Maravilha” disfarçava um excelente futebol atrás de uma postura desengonçada e de uma incrível dentadura.

No Maracanã, a galera rubro-negra tinha uma maneira especial de demonstrar sua afeição pelo craque, que geralmente entrava no time para consertar as partidas perdidas: no momento em que ele pisava no campo era saudado por uma gargalhada de 30 mil pessoas.

Inteligente, "Fio" não se deixava abater por essa estranha manifestação e dizia: “Olha, eu sou um cara alegre e tenho certeza de que o torcedor sente as coisas. Ele sabe que quando eu entro, eu mudo as coisas”.

Teve breve passagem pelo tradicional São Cristóvão (1979/1980), onde, em 29 de março de 1975, participou do jogo em que o time "cadete" derrotou o Flamengo em pleno Maracanã, por 3 X 2, de virada, pois perdia de 2 X 0. “Fio” marcou dois gols. No ano de 1972, levado pelo técnico Walter Miraglia, teve ainda uma rápida passagem pelo Avaí, de Florianópolis.

Contam que ao chegar ao Aeroporto da capital catarinense, após as costumeiras apresentações, “Fio" comentou: “Estou pronto para jogar, à disposição do treinador!”. No hotel, tomando um cafezinho com pouco açúcar e lendo os jornais que publicavam o nascimento de sua filha, afirmou rindo: “Não sabia que minha filha já era famosa e notícia nos jornais”.

O presidente Fernando Bastos, do Avai, levou "Fio" a concentração do clube para que o atacante conhecesse os novos companheiros. A expectativa era grande e logo o goleiro Rubens, com seu tradicional bom humor, deu o recado: “Quero em nome de todos dar as boas vindas ao lindo “Fio.”

Depois de muitas gozações, "Fio" comentou com Ademir num canto da sede: “Minha esposa era para ganhar no princípio do mês, mas quando soube que eu vinha para Florianópolis ficou nervosa e nasceu a Simone com 4 quilos e 150 gramas. Eu pensei que seria homem, mas veio mulher, estou muito contente”. Ademir, rindo, afirmou: “Se for parecida com o pai é linda”.

O único jogo de “Fio” pelo Avaí aconteceu no dia 2 de outubro de 1972, no estádio Adolfo Konder, contra o Pinheiros, do Paraná, pelo Torneio Integração. O lance mais eletrizante do jogo aconteceu aos 20 minutos.

Ademir, um ponta-direita muito bom, bateu o lateral adversário e cruzou bola para o miolo da área. Lica deixou a bola passar e “Fio”, que tinha entre si e a rede apenas um goleiro mal posicionado, chutou a bola com tremenda violência, e esta subiu cerca de 15 metros, indo se chocar contra um eucalipto á esquerda das gerais. “Fio” coçou a cabeça e voltou sorrindo. A torcida avaiana acabava de assistir a um lance típico de seu novo ídolo. “Fio” era assim.

O jogo acabou empatado em 1 X 1. O gol do Avaí foi de Ademir e o do Pinheiros obra de Gonzaga contra. Nesse jogo o atleta Ismael, do Avaí, teve uma fratura exposta no tornozelo direito.

Após o jogo contra o Pinheiros, no Adolfo Konder, “Fio” retornou ao Rio de Janeiro. E a culpa foi do sucesso da música "Fio Maravilha". O jogador acertou um contrato com a Rede Globo que o usaria em várias promoções, não concordando em hipótese alguma com sua saída do Rio de Janeiro, sede da emissora. Assim, “Fio Maravilha” não passou de uma atração isolada, de partida única.

“Fio Maravilha” jogou ainda pelo Paysandu, do Pará (1973/1975), CEUB, de Brasília (1975/1976) e Desportiva Ferroviária, de Cariacica, Espírito Santo (1977/1978). Conta o cronista esportivo Carlos Ferreira, no seu livro "Pisando na Bola", que o ex-jogador "Fio Maravilha", ao ser contratado pelo Paysandu, do Pará, já em final de carreira, foi recebido em Curuzu como astro de primeira grandeza, alimentando sonhos e ilusões.

Mas, em Belém, causou decepção aos bicolores. Ele não queria nada com o trabalho. Ao final de um treino, ouviu a seguinte pergunta de um repórter: "Por que você foge das divididas?" "Fui contratado pra somar no time e não pra dividir..."

Em 1981 “Fio” mudou-se para os Estados Unidos, onde foi atuar no New York Eagles. Defendeu a equipe durante quatro meses e depois recebeu convite para defender um time semiprofissional de Los Angeles, o Monte Belo Panthers, onde ficou de 1981 até 1983.

Foi naquela época que "Fio" conheceu San Francisco, jogando pelo San Francisco Mercury (1983/1985). Gostou tanto da cidade que quando encerrou a carreira foi morar por lá, tornando-se entregador de pizzas. Também foi técnico e treinador de equipes de futebol infanto-juvenis.

Títulos conquistados: Flamengo: Torneio Quadrangular de Vitoria (1965); Torneio Gilberto Alves (1965); Campeonato Carioca de Aspirantes (1970); Campeonato Carioca (1965 e 1972); Taça Guanabara (1970,1971 e 1972); Torneio Internacional de Verão do Rio de Janeiro: (1970 e 1972); Torneio do Povo (1972); Troféu Marechal Mendes de Morais (1970); Troféu Ary Barroso (1970); Troféu Ponto Frio Bonzão (1971); Troféu Pedro Pedrossian (1971); Taça Presidente Médici (1971); Troféu Sesquicentenário da Independência do Brasil (1972); Taça Cidade do Rio de Janeiro (1973); Taça 23º Aniversario da Rede Tupi de Televisão (1973); 400 Anos da Cidade de Niterói (1973); Taça Dr. Manoel dos Reis e Silva (1973). Pela Desportiva Ferroviária: Campeonato Capixaba (1977).

Hoje, mesmo estando com 67 anos de vida, “Fio Maravilha” nem pensa em voltar ao Brasil, receoso da violência desenfreada. Continua morando em San Francisco e assistindo jogos de beisebol e futebol americano. (Pesquisa: Nilo Dias)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Por que os times de futebol têm 11 jogadores

Um time de futebol poderia ter 9, 10, 12, 13 ou qualquer outro número de jogadores. Porque então se estabeleceu em 11 os componentes de uma equipe? Não se sabe qual das duas explicações existentes para isso é a correta.

O certo é que o futebol nos moldes atuais teve início na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Cada classe era composta por 10 alunos e 1 bedel, o equivalente a um monitor de classe hoje em dia. Ao ser realizado um Campeonato entre as classes, cada uma se apresentou com 11 elementos em campo, os 10 estudantes, mais o bedel, para quem sobrava a ingrata tarefa de ser o goleiro.

Essa é a versão aceita pela Fédération Internationale de Football Association(Fifa). Antes das primeiras regras, não havia padronização: existem registros de partidas com até 17 jogadores. O número 11 foi adotado no século 19 e até hoje permanece entre as 17 leis que regem o esporte.

A outra explicação é que teria sido feita uma homenagem aos 11 colégios que participaram da reunião em que foram determinadas as regras do futebol em 1863, na Inglaterra.

Outras regras mudaram bastante daqueles tempos para cá. Nos primórdios do futebol não havia nem juiz. As faltas eram acertadas entre os dois times, em um acordo de cavalheiros. O árbitro apareceu apenas em 1868 e, mesmo assim, ele apitava pouco: ficava de fora do campo e não tinha autonomia para marcar infrações.

Tudo precisava ser decidido junto com os capitães dos times: se um dos dois não aceitasse a marcação, nada feito. A autoridade do árbitro só passou a ser absoluta a partir de 1894, com a modernização das regras do esporte.

O papel do goleiro também se modificou: no século 19, ele podia segurar a bola no ar em qualquer parte do campo, só não podia conduzi-la com as mãos. A proibição de agarrar fora de sua área surgiu em 1912.

No caso da barreira que protege o gol na hora da falta, o máximo que a Fifa diz é que nenhum jogador pode ficar a menos de 9,14 metros de distância da bola quando ocorre uma infração. Os jogadores é que decidiram que a melhor forma de guardar a meta era formar um bloco compacto em frente à bola. Isso é muito comum no futebol: primeiro as coisas aparecem na prática para somente depois se tornarem regras.

No início do futebol, os gols eram dignos das peladas de rua: as metas não tinham limite superior. Cabia aos dois times decidir se a bola havia passado acima ou abaixo das traves laterais. Em 1865, uma fita passou a ligar os dois postes do gol. Dez anos depois, os primeiros travessões de madeira começaram a aparecer nos jogos. A novidade foi oficialmente incorporada às regras a partir de 1878

Quando a marcação surgiu em 1891, a bola podia ser batida de qualquer ponto a 11 metros do gol. Naquele tempo, o pênalti era considerado uma punição deselegante. Tanto que, no final do século 19, o Corinthian-Casuals F.C. da Inglaterra (time que inspirou a fundação do alvinegro paulista, em 1910) recusava-se a defender a infração. O goleiro simplesmente abandonava a meta e deixava o gol livrinho para o adversário estufar as redes

Parece incrível, mas os cartões amarelos e vermelhos são bem recentes: só surgiram na Copa do México, em 1970. Antes disso, as advertências eram todas verbais, o que causava uma bagunça geral quando árbitro e jogadores não falavam a mesma língua.

Poucos meses antes daquela Copa, ninguém sabia que forma os cartões teriam. Uma das sugestões era confeccionar pequenos discos coloridos para indicar as punições. No final, esses "pirulitos" acabaram substituídos pelos cartões retangulares que conhecemos hoje. (Pesquisa: Nilo Dias)

No futebol cada equipe tem 11 jogadores.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O zagueiro que driblava

Airton Ferreira da Silva, também conhecido por “Airton Pavilhão”, um dos melhores zagueiros surgidos no futebol gaúcho e brasileiro em todos os tempos, faleceu ontem na UTI do hospital Ernesto Dorneles, em Porto Alegre, onde estava internado desde a última sexta-feira com um quadro de septicemia, infecção generalizada.

O presidente do Grêmio, Paulo Odone decretou luto oficial por três dias e a bandeira gremista ficará a meio mastro neste período. O velório de Airton Ferreira da Silva se realiza no Salão Nobre do Conselho Deliberativo do Grêmio, desde às 23 horas de ontem, até as 17 horas de hoje. O enterro será no cemitério João XXIII, em Porto Alegre, na tarde desta quarta.

Airton nasceu em Porto Alegre no dia 31 de outubro de 1934. Surgiu para o futebol defendendo as cores do G.E. Força e Luz, da capital gaúcha, na época, um clube de ponta dentro do futebol do Estado. Com 13 anos de idade o menino esguio, filho de um sapateiro, chamava atenção pela técnica apurada. Já jogava na ponta-direita do time da Timbaúva.

Aos 20 anos, com um 1,87 metros e porte físico avantajado, se transformou em center-half, o nome como eram conhecidos os volantes de antigamente. Suas atuações exuberantes chamavam a atenção. Na metade do ano de 1954, foi cedido ao Grêmio, numa transação no mínimo curiosa.

Segundo se conta o Estádio da Baixada, antiga casa tricolor, localizado onde hoje é o Parque Moinhos de Vento, havia sido desmanchado. As tábuas da arquibancada estavam disponíveis. Na negociação com o Força e Luz, além de um valor em dinheiro (Cr$ 50 mil), foi entregue aquele lote de madeira. Este fato valeu ao jogador contratado o apelido de Aírton "Pavilhão".

Segundo se conta, o acerto gremista com Airton aconteceu dentro de um cinema de Porto Alegre. Em junho de 1954, o jogador se preparava para entrar no cinema, acompanhado da namorada. Enquanto a moça escolhia balas para degustar durante o filme, Airton foi abordado por dois emissários do Grêmio. A proposta era excepcional: além de um bom salário, incluía um automóvel. Nenhum jogador de futebol que atuava no Rio Grande do Sul, possuia carro naquela época.

Com a camisa tricolor, Airton foi uma unanimidade, um dos símbolos da garra gremista. Em sua primeira passagem pelo Grêmio ficou por seis anos, transferindo-se para o Santos. No ano seguinte, o atleta voltou ao Tricolor onde ficou por mais seis anos.

No Grêmio, o técnico Oswaldo Rolla, passou a escalá-lo na zaga central, ao lado de Ênio Rodrigues, também oriundo do Força e Luz. Foi uma zaga que marcou época. Marcador implacável, impunha-se também no cabeceio, mas principalmente pela técnica refinada, com a qual defendia a cidadela tricolor. Durante 13 anos, Aírton “Pavilhão” foi o principal jogador do Grêmio. O "zagueiro que driblava" marcou 120 gols na carreira.

Em um treino da seleção brasileira que se preparava para a Copa de 62, disputada no Chile. Aymoré Moreira, o técnico, não gostou de ver o zagueiro Airton, o único convocado de fora do eixo Rio-São Paulo, fazer uma jogada considerada perigosa: levou a bola em direção à linha lateral do campo, chegando junto à bandeirinha de escanteio puxando com ele os atacantes. De repente, virou o corpo e, colocando uma perna por trás da outra, de letra, recuou a bola para as mãos do goleiro Gilmar.

Todos ficaram boquiabertos com o lance, inclusive o treinador, Aymoré Moreira, que nunca vira nada parecido. E diante disso achou melhor dispensar Aírton do grupo que iria ao Mundial, com medo que ele repetisse e errasse a jogada durante o torneio.

Avesso a aviões, ele não acompanhava a delegação gremista em viagens aéreas curtas. Quando o Grêmio atuava no interior do Rio Grande do Sul, em Santa Catarina ou no Paraná, enquanto a delegação voava, ele seguia de ônibus ou de carro. Seu pânico por aviões era imenso. Na vitoriosa excursão gremista à Europa, em 1961, Aírton alegou problemas médicos e pediu dispensa. A Direção não lhe deu ouvidos e ele estava no grupo que brilhou nos gramados do Velho Continente.

Após marcar Pelé com maestria, Aírton foi jogar no Santos em 1960. Sem oportunidade para mostrar seu futebol (o Santos tinha Mauro Ramos), preferiu retornar ao Grêmio, sagrando-se Hexacampeão Gaúcho (1962-1967). Há quem diga que o verdadeiro motivo foi outro: aquele Santos de Pelé viajava demais. E, quase sempre, de avião.

Em 1967, com 33 anos, tendo vencido 12 campeonatos gaúchos em 13 disputados, marca nunca igualada, com uma distensão na virilha que limitava seus movimentos, Aírton despediu-se do Grêmio, indo atuar no Esporte Clube Cruzeiro de Porto Alegre. Posteriormente, foi convidado para ser técnico e zagueiro no Cruz Alta, onde se aposentou em 1971.

Na memória tricolor, porém, Aírton Ferreira da Silva nunca parou. No dia 04 de agosto de 2004, nos exatos 50 anos da estréia com a jaqueta gremista, Airton foi homenageado pelo clube. Antes de jogo contra o Santos, pelo Campeonato Brasileiro, o "Pavilhão" foi recebido no gramado do Olímpico, onde Luiz Felipe Scolari lhe entregou uma placa alusiva à data e uma camisa número 3 do Grêmio, com seu nome gravado. A torcida aplaudiu de pé e gritou seu nome em coro, como se tivesse acabado de assistir um gol de letra.

Airton foi um dos primeiros homenageados pelo Grêmio na Calçada da Fama em 1996, como forma de eternizar sua passagem pelo Clube. O ex-zagueiro também atuou como conselheiro do Clube, além de ter recebido o título de Atleta Laureado. (Pesquisa: Nilo Dias)

domingo, 1 de abril de 2012

O artilheiro do Cosmos

Morreu hoje, aos 65 anos de idade, na Flórida (EUA), o ex-jogador italiano Giorgio Chinaglia, que foi companheiro de Pelé no New York Cosmos, e tido como o maior atleta da história do clube norte-americano em todos os tempos. A morte de Chinaglia foi confirmada na manhã de hoje por seu filho Anthony. "Ele acordou para tomar um remédio e depois disse que iria deitar. Minutos depois ele já não respirava mais", disse Anthony em entrevista ao canal Skysport. Chinaglia havia passado por uma cirúrgia na última semana, após sofrer um ataque cardíaco.

O clube norte-americano, logo após a confirmação da morte de Chinaglia, emitiu nota oficial afirmando que ele foi um dos mais excepcionais jogadores que atuaram nos Estados Unidos e foi o maior jogador do Cosmos e também seu artilheiro máximo. O Cosmos foi um clube onde também se destacaram Pelé, Carlos Alberto Torres, o alemão Franz Beckenbauer, os holandeses Johan Neeskens e Johan Cruijff, o polonês Wladyslaw Zmuda e o paraguaio Romerito.

Giorgio Chinaglia nasceu na cidade italiana de Carrara, no dia 24 de janeiro de 1947. Apesar de ter nascido na Itália, passou sua infância e adolescência no País de Gales, o que lhe deu um perfeito domínio da língua inglesa. Foi lá que iniciou sua carreira futebolística no Swansea Town (1964-1966).

Em 1966 retornou para a Itália onde jogou pelos pequenos Massesse (1966-1967) e Internapoli (1967-1969). Em 1969 foi contratado pela equipe da Lazio, onde se sagrou campeão italiano da temporada 1973-1974, o primeiro da história do clube, sendo o artilheiro da competição com 24 gols. Em 209 partidas pelo clube italiano, marcou 98 gols, o que motivou os torcedores a chamá-lo de “Deus”.

Graças as suas estupendas atuações foi convocado para a Seleção da Itália para jogar a Copa do Mundo de 1974 na Alemanha Ocidental. Polêmico, o jogador chegou a xingar o técnico Ferruccio Valcareggi, da seleção italiana. Depois de uma inesquecível Copa, o jogador disse adeus à Itália e partiu para a América, onde em 1976 assinou contrato com o New York Cosmos.

No clube norte-americano se tornou famoso no mundo inteiro. Lá conquistou os campeonatos de 1977, 1978, 1980 e 1982, além de três “Trans-Atlantic Cup”, em 1980, 1983 e 1984. Marcou 242 gols em 254 partidas se tornando o maior artilheiro de todos os tempos na história da North American Soccer Leager. Foi artilheiro do campeonato dos Estados Unidos em 1976 (19 gols), 1978 (34 gols), 1980 (32 gols), 1981 (29 gols) e 1982 (20 gols). No Cosmos foi um verdadeiro ídolo cuja popularidade só esteve abaixo de Pelé.

O Cosmos foi fundado no dia 4 de fevereiro de 1971, por idéia dos irmãos turcos Nesuhi e Ahmet Ertegün, amantes do futebol. O clube disputou sua primeira partida oficial no dia 17 de abril de 1971, contra o Saint Louis Stars. Vitória do Cosmos por 2 X 1. Em 14 anos de história, foram 359 partidas oficiais, com 221 vitórias, 18 empates e 120 derrotas. Marcou 844 gols e sofreu 569.

Em 1984, Chinaglia comprou a equipe do Cosmos e a transformou em um time de “showbol” que durou pouco tempo. Depois, vendeu o clube para o seu ex-sócio Giuseppe “Peppe” Pinton, que se reservou a guardar a história do Cosmos em seu escritório em Nova Jersey. Ele foi seduzido diversas vezes a vender a marca Cosmos a fãs órfãos desse clube histórico. Tanto que depois de mais de 20 anos de inatividade, ele foi convencido de que tinha de vender os direitos do clube.

Em 2009, o empresário inglês e ex-diretor do Tottenham, Paul Kemsley comprou o New York Cosmos de Pinton por um valor não divulgado. No ano seguinte, em agosto, refundou o time, e em setembro Kemsley nomeou Pelé como presidente honorário do Cosmos. Ao mesmo tempo, o Rei anunciou em coletiva para a imprensa o renascimento do Cosmos, mas com atividades direcionadas à formação de jogadores.

No dia 19 de janeiro de 2011, o Cosmos retomou os sonhos de retorno ao futebol profissional e contratou o francês Eric Cantona para ser o diretor de futebol. O ex-jogador de Manchester United estará ao lado do Rei e do também ex-jogador norte-americano Cobi Jones. O ex-lateral da seleção americana, que também jogou no Vasco da Gama, será diretor adjunto e embaixador do clube. Os três trabalham juntos para fazer o Cosmos ter um time e incluí-lo na MLS o quanto antes.

Em 2000, Chinaglia entrou para o "National Soccer Hall of Fame", o hall da fama do futebol estadunidense. Trabalhou como comentarista de futebol tendo, inclusive, comentado a Copa do Mundo de 2006. Voltou para o Cosmos e trabalhou como embaixador internacional da equipe.

Depois que se aposentou dos gramados, Chinaglia se tornou presidente da Lázio entre 1983 e 1985. Recentemente, o ex-jogador tornou-se um fugitivo da Justiça italiana morando nos Estados Unidos, depois de ter seu nome relacionado com acusações de manipulação no mercado de ações.

A Lazio esteve prestes a ser controlada por um braço da máfia italiana. De acordo com autoridades responsáveis pela operação “Asas Quebradas”, que investigaram o caso, um grupo usaria dinheiro adquirido por suas ações violentas para adquirir o clube romano.

As suspeitas recaíram sobre o clã Casalesi, uma das facções da “Camorra”. A Justiça italiana emitiu dez mandados de prisão contra um grupo de pessoas envolvidas na compra da Lazio, há dois anos. Entre elas, estava Giorgio Chinaglia, ex-jogador e presidente do clube, que liderava um consórcio interessado em adquirir a equipe.

Em 2006, Cláudio Lotito, presidente da Lazio, recebeu proteção policial após sofrer ameaças de torcedores radicais. Eles tentavam intimidá-lo para que vendesse o clube a Chinaglia. O ex-presidente, que foi morar nos Estados Unidos, onde faleceu, sempre desmentiu as acusações. No inquérito, os Casalesi estariam por trás da proposta de Chinaglia e financiariam a negociação. Os responsáveis pela investigação fizeram escutas telefônicas e interceptaram ligações dele com membros da máfia

Em 7 de julho de 2006, a produtora estadunidense de filmes para o cinema, Miramax Films, passou a exibir nos cinemas dos EUA, um documentário chamado “Once in a Lifetime - The Extraordinary Story of The New York Cosmos”, baseado em um livro de igual nome de autoria do escritor Gavin Newsham. Na versão em português “Uma Vez na Vida - A Extraordinária História do New York Cosmos”.

Muito elogiado e narrado pelo ator Matt Dillon, este filme - como diz o título - conta a história da legendária equipe de futebol estadunidense. Chinaglia aparece em várias cenas do filme, como também é entrevistado. (Pesquisa: Nilo Dias)

Chinaglia e Pelé. (Foto: Divulgação)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Vicente Rao, primeiro e único

Alguns cronistas esportivos do centro do país insistem em dizer que a “Charanga RubroNegra”, do Jayme de Almeida, foi a primeira torcida organizada do futebol brasileiro. Não é verdade. Como também não é verdade que o Vasco da Gama tenha sido o primeiro clube a admitir negros em sua equipe. O pioneiro foi o Guarany F.C., de Bagé, que em 1920 tinha um time formado na maioria por uruguaios e negros.

O Vasco não foi pioneiro nem mesmo no Rio de Janeiro. O primeiro negro a jogar em um clube carioca foi Francisco Carregal, pelo Bangu, em 1905. Em 1914 havia um negro no Fluminense, Carlos Alberto, que usava talco na pele para parecer branco. O Vasco só em 1923 utilizou atletas negros, quando foi campeão carioca pela primeira vez.

Com relação a torcidas organizadas, dizer que a “Charanga Rubro-Negra”, criada por Jayme de Almeida em 11 de outubro de 1940 é a pioneira no futebol brasileiro, é prova de desconhecimento da história.

No mesmo ano, mas meses antes, foi fundado no Rio Grande do Sul o “Departamento de Cooperação e Propaganda do Internaconal”, (hoje “Camisa 12”) do qual foi chefe durante seis anos, coincidindo com o hexacampeonato gaúcho conquistado pelo clube. Na época, o time era formado na maioria por negros e pobres desassistidos, em contraste com o tradicional adversário elitista.

O DCP e Vicente Rao também foram pioneiros no uso de buzinas, faixas, serpentinas e foguetes entre as torcidas de futebol do país, fazendo a síntese entre o esporte e a alegria carnavalesca. Depois de algum tempo os rivais também aderiram a moda, o que inspirou Vicente Rao a preparar um contra-ataque.

Num clássico Gre-Nal disputado no velho Estádio da Timbaúva, que pertencia ao G.E. Força e Luz, Rao esperou que os gremistas levantassem a primeira faixa para erguer a sua, onde se lia em letras garrafais a frase provocativa e zombeteira: “Imitando os negrinhos, heim?”

Vicente Lomando Rao só podia mesmo ser colorado, pois nasceu no dia 4 de abril de 1908, data de aniversário do seu time de coração. Costumava dizer que não havia nascido: foi inaugurado. Filho do calabrês Michelangelo Rao, aos seis anos viajou com a família para a Itália e só pôde retornar ao Brasil (e a Porto Alegre) após o final da primeira guerra mundial, em 1918. Aos 11 anos matriculou-se no Ginásio Nacional (hoje Colégio Anchieta), onde teve que reaprender a falar português.

Trabalhou como aprendiz numa relojoaria, tornou-se sargento do Exército e acabou fazendo carreira como bancário, no Banco Nacional do Comércio. Sua atividade como carnavalesco começou em 1931, quando criou o bloco “Banda Filarmônica do Faxinal”. No mesmo ano, entrou de sócio do Sport Club Internacional e passou a jogar futebol no seu time principal, chegando a marcar um gol, de cabeça, numa partida contra o São Paulo, de Rio Grande, em que o Inter ganhou por 4 X 1.

No entanto, magro e com pouca resistência física, Vicente Rao logo foi dispensado do clube e abandonou a carreira de futebolista. Em 1936, no dia em que comemorou 28 anos, decidiu parar de beber e fumar, decisão que cumpriu pelo resto de sua vida.

A partir de 1947, Vicente Rao passou a trabalhar, sempre sem remuneração nas escolinhas de futebol do Inter, chegando a ter mais de 3 mil jovens cadastrados nas categorias infantil e juvenil, e inovando na conjugação entre esporte e estudo: os garotos só poderiam permanecer no clube se, paralelamente, apresentassem bom desempenho escolar.

Conheceu a primeira grande safra de craques do Internacional, o famoso “Rolo Compressor”, ainda no tempo dos Eucaliptos: Ivo – Alfeu – Nena – Abgail – Ávila – Villalba – Tesourinha – Viana – Adãozinho e Carlitos.

A denominação “Rolo Compressor” foi criada por ele, que desenhava charges para os jornais, até que o nome pegou. Certa vez, encontrou uma cabrita que pastava no terreno de um certo Lothar, e pediu-a emprestada. Batizou-a de “Chica”. A partir daí transformou-se na mascote do time, e freqüentava sempre as arquibancadas do velho estádio. Rao dizia que ela era o símbolo da sorte e da força do time.

Como o futebol sempre se prestou para superstições, até os adversários começaram a acreditar que a cabrita realmente dava sorte ao Internacional. Prova disso, é que no Gre-Nal decisivo do Campeonato Citadino de 1943, disputado no Fortim da Baixada, o primeiro estádio do Grêmio, Vicente Rao tentou entrar no campo gremista acompanhado de “Chica”. Os “azuis” acharam por bem impedi-la de entrar.

Sem se dar por vencido, Rao, com o auxilio de outros torcedores, arrancou algumas tábuas da arquibancada e colocou a cabrita para dentro do estádio, para desespero dos gremistas, quando viram “Chica”, feliz da vida, no meio da torcida. Reza a lenda que, no fim do disputado jogo, brilhou a estrela do "talismã" colorado, quando, na cobrança de falta de Rui, a bola que ia certa para a linha de fundo, desviou até cair na forquilha esquerda do gol do assombrado Júlio, que viu o Grêmio perder mais um título. No fim, “Chica” foi carregada nos ombros dos torcedores da Baixada até os Eucaliptos.

Vicente Rao morreu em setembro de 1973, aos 62 anos de idade, mas seu nome ficou eternizado por ter sido o “Rei Momo” mais brilhante e divertido de todos os carnavais da capital gaúcha. O seu reinado durou longos 22 anos, de 1950 a 1972.

Os que o conheceram, dizem que era um homem bondoso e ingênuo, dono de uma alegria e um enorme magnetismo pessoal. Chamado de "O Primeiro e Único", ele comandava o bloco "Tira o Dedo do Pudim", certamente o mais engraçado de todos. Depois de Rao vieram “Miudinho”, “Queixinho”, Otávio Frota Júnior e o atual Fábio Verçoza.

Semanas antes do Carnaval, Vicente Rao costumava escrever "comunicados" no estilo dos comandos militares. Claro, era pura galhofa. O extinto jornal "Folha da Tarde" os publicava sempre com destaque, e com a assinatura "Vi-100-T Rao". O seu bloco sempre aparecia cantando assim:

Ó meu amor
Não faz assim
Eu sou o bloco
Tira o Dedo do Pudim!

O bloco “Tira o Dedo do Pudim” foi criado em 1947 e constituiu-se durante três anos em grande sucesso no Carnaval de Porto Alegre. Até que, em 1949, um dos integrantes chegou bêbado para o ensaio, contrariando as orientações de Rao, que insistia no tema da "diversão saudável". Contrariado, o próprio Rao dissolveu o bloco que havia criado.

No ano seguinte, Rao investiu todas as suas economias numa fantasia luxuosa para o Carnaval que marcava a metade do século. A fantasia, o bom humor de Rao, sua popularidade em Porto Alegre e sua figura roliça, pesando cerca de 100 quilos, bem diferente do atleta magro que havia sido dispensado pelo time do Inter no início da década de 1930, fizeram com que ele fosse eleito “Rei Momo” da capital gaúcha, cargo que exerceu por 22 anos seguidos.

No natal de 1957, em festa promovida pela prefeitura de Porto Alegre, Rao desceu de helicóptero no meio do Parque da Redenção, fantasiado de Papai Noel. A partir daí, passou a ser também o Papai Noel oficial da cidade.

Em 1956, Rao foi eleito presidente da Federação dos Bancários do Rio Grande do Sul, passando a ser conhecido também como líder sindical. Em função disso, logo após o Golpe Militar de 1964 sua casa foi cercada pela polícia e pelo Exército. Rao foi preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional, acusado de fazer política partidária no sindicato. Foi posto em liberdade 24 horas depois, por falta de provas, mas continuou sendo processado até 1970, quando finalmente foi absolvido de todas as acusações.

Em dezembro de 1973, pouco mais de um ano após a sua morte, uma rua de Porto Alegre, no bairro Ipanema, recebeu em sua homenagem o nome de rua Vicente Rao. Na placa de identificação do logradouro, o título que o identifica não é o de bancário, nem “Rei Momo”, Papai Noel ou líder da torcida colorada, mas "alegria do povo".

A figura do “Rei Momo” como o monarca do Carnaval surgiu em 1937, por iniciativa do extinto jornal "A Noite", que criou um boneco de papelão com a forma de um homem obeso e bonachão, inspirado na figura olímpica do “Momo” dos rituais pagãos da Grécia antiga. Era a figura típica do fanfarrão, que não trabalhava e tirava onda de quem pegava no batente. O boneco virou símbolo dos desfiles carnavalescos, até que virou gente.

Em Porto Alegre, lá pela década de 30, ele era apresentado como um sujeito que mal cabia num fraque, e cercado de ajudantes. Anos depois, surgiriam os reis momos Lelé e Macalé, que animavam festas pelos bairros da cidade.

O S.C. Internacional não esqueceu um dos seus maiores símbolos e Vicente Rao virou nome do museu do clube, que foi fundado em 1994. Até pouco tempo atrás, ele se reduzia a uns poucos adereços guardados em caixas de papelão, numa sala do ginásio Gigantinho. Em novembro de 2005, a diretoria colorada finalmente fez um projeto de revitalização do antigo museu, que foi reinaugurado em 2006.

O Museu Vicente Rao está localizado na avenida Padre Cacique 891, no bairro Menino Deus, junto à Biblioteca Zeferino Brasil, no Ginásio Gigantinho. O Museu encontra-se atualmente fechado aguardando a reforma do novo espaço que está sendo construído no andar de cima da Loja Inter Sport.

O museu conta a história do primeiro Rei Momno oficial de Porto Alegre, Vicente Rao, e relembra seus 22 anos de reinado. Do acervo do museu constam fantasias, adereços e cerca de 1.800 fotos e correspondências, entre outros objetos do arquivo pessoal de Vicente Rao, que criou, no S.C. Internacional, a primeira escolinha de futebol, assim como a primeira torcida organizada do Brasil, denominada "Camisa 12". (Pesquisa: Nilo Dias)

terça-feira, 27 de março de 2012

Ineditismo gaúcho em Copas do Mundo

O Brasil não é o único país do mundo a sediar por duas vezes uma Copa do Mundo: Itália (1934 e 1990), França (1938 e 1998), México (1970 e 1986) e Alemanha (1974 e 2006) já fizeram isso. Mas dois fatos que aconteceram na Copa de 1950, no Brasil, são até hoje inéditos: um clube ter seu estádio indicado duas vezes para ser sede de jogos, e outro emprestar suas camisas para uma seleção estrangeira.

Os dois fatos ocorreram em Porto Alegre. O antigo Estádio dos Eucaliptos, que pertencia ao S.C. Internacional foi uma das seis sedes escolhidas pela FIFA. As outras foram Belo Horizonte, Estádio Raimundo Sampaio (Independência); Curitiba, Estádio Durival de Britto e Silva (Vila Capanema); Recife, Estádio Adelmar da Costa Carvalho (Ilha do Retiro); Rio de Janeiro, Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã) e São Paulo, Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho (Pacembu)

Inaugurado em 1931 pelo Internacional, o Estádio Ildo Meneghetti (que levava o nome do ex-governador do Rio Grande do Sul) foi escolhido para abrigar os jogos da Copa. O estádio recebeu este nome devido aos eucaliptos que o cercavam, trazidos de Viamão pelo ex-presidente do Internacional, Oscar Borba. As mudas foram coletadas na Chácara dos Eucaliptos, antigo campo do clube.

A inauguração ocorreu em 15 de março de 1931, com um Gre-Nal, vencido pelo Internacional por 3 X 0. A partir de 14 de fevereiro de 1944, o estádio recebeu o nome oficial de Ildo Meneghetti.

O final de década de 1940 marcou o estopim do crescimento do Internacional. Com capacidade inicial para 10 mil expectadores, o estádio passou por obras de ampliação em 1949, passando a receber 30 mil pessoas. O velho pavilhão de madeira da Rua Silveiro passou a ser de concreto. O investimento foi da Confederação Brasileira de Desportos (CDB).

Na Copa do Mundo de 1950, o Brasil tinha apenas 52 milhões de habitantes e a Fifa somente 34 países inscritos e desses somente 13 jogaram a Copa: Bolívia, Brasil, Chile, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Iogoslávia, México, Suécia, Suíça Paraguai e uruguai.

Nos Eucaliptos foram jogadas duas partidas: México 1 X 4 Iugoslávia e Suíça 2 X 1 México, seleções que estavam no grupo A, o mesmo do Brasil. Também estavam previstos para Porto Alegre os jogos da Seleção da França. Os franceses jogariam contra o Uruguai nos Eucaliptos, e quatro dias depois enfrentariam a Bolívia em Recife. A proximidade dos jogos motivou a desistência francesa.

Os jogos de Porto Alegre: 28 de junho de 1950, Iugoslávia 4 X 1 México. Público: 12.000. Árbitro: Reginald J. Leafe, auxiliado por Van der Meer e Gunner Dahlner. Gols: Bobek aos 19, Čajkovski, aos 23 e 52 e Tomašević aos 81 para os iogoslavos. Ortíz, aos 89 fez o gol de honra dos mexicanos.

2 de julho de 1950: México 1 X 2 Suíça. Público: 3.600. Árbitro: Ivan Eklind, auxiliado por Gunner Dahlner e Sérgio Bustamonte. Gols: Casarín aos 60 para o México e Bader, aos 11 e Antenen, aos 44 para os suíços.

A última partida nos Eucaliptos foi disputada no dia 26 de março de 1969. O Internacional ganhou do time mais antigo do futebol brasileiro, o S.C. Rio Grande, por 4 X 1. O velho ídolo Tesourinha, aos 48 anos de idade, entrou apenas no final da partida. Tesourinha jogou alguns minutos e, após o término, arrancou a rede de uma das goleiras como recordação, ao som da "Valsa do Adeus".

Em 1999, o então presidente do Internacional Paulo Rogério Amoretty, investiu aproximadamente R$ 800 mil na recuperação do estádio. E em 11 de dezembro de 1999, o Internacional voltou a disputar uma partida nos Eucaliptos. Foi um amistoso, novamente contra o Rio Grande, como havia acontecido na despedida do estádio em 1969. O placar do jogo foi 6 X 2 para o Internacional.

Até hoje Os Eucaliptos é o único estádio gaúcho a ter sediado jogos de Mundial. Em 2014 o Beira Rio repetirá o feito. Em 28 de agosto de 2010 o velho estádio foi vendido por um valor não divulgado, dinheiro reservado para as obras de modernização do Beira Rio. Os Eucaliptos começou a ser demolido em 9 de fevereiro deste ano, e no local será construído um prédio residencial com sete torres.

O outro fato inédito em Copas do Mundo envolveu o E.C. Cruzeiro, de Porto Alegre e aconteceu no dia 2 de julho, na partida México 1 x 2 Suíça. Na época, o México não utilizava o verde e branco, usava um vermelho grená muito parecido com o vermelho sangue da Suíça. A Fifa determinou que haveria um sorteio, ganho pelo México.

Num gesto altruísta, a seleção mexicana cedeu à Suíça o direito de usar a camisa vermelha. Então, os mexicanos resolveram homenagear um time de Porto Alegre, porque foram bem recebidos na cidade, e pediram o uniforme de uma equipe porto-alegrense.

A sede do Cruzeiro ficava na rua Porto Alegre, onde está o Cemitério João XXIII, no bairro Azenha, portanto bem próximo do antigos Eucaliptos, que ficava na rua Silveiro, no bairro Menino Deus. O Grêmio foi preterido porque era mais longe, lá nos Moinhos de Vento. O Inter não poderia ceder o fardamento por ser vermelho tal qual o da Suíça.Sobraram então as camisas listradas em azul e branco do Cruzeiro, na época um clube forte da capital gaúcha e primeiro time do Rio Grande do Sul a excursionar pela Europa. (Pesquisa: Nilo Dias)

O velho Estádio dos Eucaliptos.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Chico Anisio, um craque do humorismo

Os meios artísticos brasileiros perderam hoje um de seus mais legítimos representantes: morreu Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, conhecido como Chico Anysio, nascido no dia 12 de abril de 1931, na cidade cearense de Maranguape. Foi um pouco de tudo, humorista, ator, dublador, escritor, compositor e pintor.

Chico Anysio aparece neste blog porque também teve uma ligação muito forte com o futebol, ao início de sua carreira. Na Rádio Guanabara, do Rio de Janeiro, foi narrador e repórter de campo. Foi nesse tempo que surgiu a sua paixão pelo futebol.

A emissora havia contratado Raul Longras, “o homem do gol eletrizante”, e passou a transmitir futebol nas ondas do rádio. Com enorme talento e disposição, não demorou para Chico conseguir um lugar ao seu lado. Além dos comentários fazia narrações dos jogos e era repórter de campo.

Morador do Catete, era declaradamente torcedor do Vasco da Gama, o que contrariou a vontade do pai e do irmão mais velho, botafoguenses convictos. Mas trocou de camisa várias vezes: já torceu por outros clubes, só o Palmeiras jamais deixou de ter espaço. Vasco, América e Flamengo já se revezaram na preferência carioca. Mas também gostou do Cruzeiro, Grêmio, Santa Cruz e por último o Inter do amigo Falcão. Chico chegou a sonhar em ser jogador de futebol, mas desistiu cedo da idéia, porque a bola não era o seu forte.

Chico levou sua paixão pelo futebol para muitos de seus personagens. O principal deles foi “Coalhada”, que tinha o sonho de ser jogador de um grande time de futebol, mas era o maior perna de pau. Era ajudado pelo empresário “Bigode” (Amândio Silva Filho). Tinha o “Alfacinha”, um vendedor natural de Lisboa e torcedor do Benfica que vivia batendo de porta em porta, tentando vender seus produtos exóticos.

Quem não lembra do “Azambuja”, um malandro carioca, que foi jogador de futebol do Bonsucesso e participou de um conjunto musical na juventude. Vivia aplicando golpes em parceria com “Lingüiça” (Wilson Grey).

E o "Bolada", sujeito fanático por futebol, que tinha o cachorro “Jorge”, que era malufista, como seu melhor amigo. Havia também o “Fumaça”, um português e vascaíno, dono do Boteco do Idalino, conhecido por seus frequentadores como “Boteco do Fumaça”, nome pelo qual não gostava de ser chamado. Recebeu esse apelido por fumar escondido de todos.

E para completar a lista, não se pode esquecer do “Meinha”, que usava uma meia-calça na cabeça. O personagem era um jogador de futebol que saiu de times sem expressão no Brasil diretamente para a Europa.

Ao longo de seus 65 anos de carreira, Chico Anysio criou mais de 200 personagens, com destaque no rádio, na TV, no cinema e no teatro. Aos 80 anos, o humorista estava internado no Hospital Samaritano, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Completaria 81 anos dia 12 de abril.

Anysio apresentou uma piora nas funções respiratórias e renal na quarta-feira (21) e voltou a respirar com ajuda de aparelhos durante todo o dia. Ele estava no CTI do hospital carioca desde 22 de dezembro do ano passado por conta de um sangramento.

O comediante chegou a ter o problema controlado, mas apresentou uma infecção pulmonar e retornou à internação. Ele seguiu em sessões de fisioterapia respiratória e motora diariamente, somadas a antibióticos.

Chico foi internado pela primeira vez em maio de 2009, quando teve pneumonia. Em agosto de 2010, precisou ser internado para a retirada de parte do intestino grosso, após ser constatado um quadro de hemorragia no aparelho digestivo. Em 2 de dezembro de 2010, deu entrada no hospital devido a falta de ar. Na avaliação inicial, detectou-se obstrução da artéria coronariana, assim, foi submetido à angioplastia. Chico Anysio ficou 109 dias internado, recebendo alta apenas no dia 21 de março de 2011. Neste período, o humorista, na maior parte do tempo esteve na UTI.

Em 23 de abril de 2011, Chico Anysio retornou ao programa "Zorra Total" interpretando a personagem Salomé. No quadro, Salomé conversa de mulher para mulher com a presidenta Dilma Rousseff.

No dia 30 de novembro de 2011, foi internado novamente, devido a uma infecção urinária, tendo recebido alta em 21 de dezembro. Um dia depois, voltou ao Hospital Samaritano.

Chico Anísio deixou oito filhos. O ator Lug de Paula, do casamento com a atriz e comediante Nancy Wanderley, com quem se casou aos 22 anos; o também comediante Nizo Neto e o diretor de imagem Rico Rondelli, da união com a atriz e vedete Rose Rondelli; André Lucas, que é filho adotivo; o DJ Cícero Chaves, da relação com a ex-frenética Regina Chaves, de quem dizia quase não se lembrar; e o ator/escritor Bruno Mazzeo, do casamento com a ex modelo e atriz Alcione Mazzeo, casamento terminado por conta de um ensaio nu.

Também teve mais dois filhos com a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello, Rodrigo e Vitória.Foi a união que provocou mais polêmica. Chico contava que Zélia passou a ser uma pessoa de seu desagrado total, tendo sido um biombo para ela.

Era irmão da falecida atriz Lupe Gigliotti, com quem contracenou em vários trabalhos na televisão; do cineasta Zelito Viana; e do industrial, compositor e ex-produtor de rádio Elano de Paula. Também era tio do ator Marcos Palmeira, da atriz e diretora Cininha de Paula e é tio-avô da atriz Maria Maya, filha de Cininha com o ator e diretor Wolf Maya. Era casado com a empresária Malga Di Paula, com quem não teve filhos.

Quando tinha apenas sete anos de idade, os pais de Chico mudaram-se para o Rio de Janeiro, após a falência da empresa de ônibus da família. Ainda jovem resolveu fazer um teste para locutor de rádio, junto com uma irmã sua. Saiu-se muito bem, ficando em segundo lugar, somente atrás de outro jovem iniciante, Sílvio Santos.

Seu primeiro emprego foi na “Rádio Guanabara”, onde exerceu várias funções: radioator e comentarista de futebol, entre outras. Participou do programa “Papel Carbono”, de Renato Murce. Na década de 1950, trabalhou nas rádios "Mayrink Veiga", "Clube de Pernambuco” e “Clube do Brasil”. Nas chanchadas da década de 1950, Chico passou a escrever diálogos e, eventualmente, atuava como ator em filmes da Atlântida Cinematográfica.

Na TV Rio estreou em 1957 o “Noite de Gala”. Em 1959, estreou o programa “Só Tem Tantã”, lançado por Joaquim Silvério de Castro Barbosa, mais tarde chamado de “Chico Total”. Além de escrever e interpretar seus próprios textos no rádio, televisão e cinema, sempre com humor fino e inteligente, Chico se aventurou com relativo destaque pelo jornalismo esportivo, teatro, literatura e pintura, além de ter composto e gravado algumas canções.

Chico Anysio foi um dos responsáveis pela intermediação referente ao exílio de Caetano Veloso em Londres. Quando completou dois anos de exílio, Chico enviou uma carta para Veloso, para que este retornasse ao Brasil. Caetano e Gilberto Gil haviam sido presos em São Paulo, duas semanas depois da decretação do AI-5, o ato que dava poderes absolutos ao regime militar.

Trazidos ao Rio de carro, os dois passaram por três quartéis, até viajarem para Salvador, onde passaram seis meses sob regime de prisão domiciliar. Em seguida, em meados de 1969, receberam autorização para sair do Brasil, com destino a Londres, onde só retornariam no início de 1972.

Chico Anysio, além de seu humor fino, compôs mais de 300 músicas (algumas gravadas por grandes cantoras como Dolores Duran e Dalva de Oliveira). Esteve à frente de diversos espetáculos teatrais (“Uma noite com Chico Anysio”, “Olha Eu Aí Outra Vez” e “O Fofo”.

Além disso publicou diversos livros: “O Batizado da Vaca”, “Como Segurar Seu Casamento”, “O Enterro do Anão”, “A Curva do Calombo”, “Feijoada na Copa”, “O tocador de Tuba”, etc.).

Além de se dedicar ao humor, Chico também foi artista plástico. Apaixonado pela pintura, retratou paisagens ao redor do mundo a partir de fotografias que tirava dos países que visitava. Realizou exposições de seus quadros em diversas galerias do Brasil e chegou a afirmar que gostaria de ter dedicado mais tempo à atividade.

Desde 1968 encontrava-se ligado à Rede Globo, onde conseguiu o status de estrela num "cast" que contava com os artistas mais famosos do Brasil; e graças também a relação de mútua admiração e respeito que estabeleceu com o executivo Boni. Após a saída de Boni da Globo nos anos 1990, Chico perdeu paulatinamente espaço na programação, situação agravada em 1996 por um acidente em que fraturou a mandíbula.

Em 2005, fez uma participação no Sítio do Pica-pau Amarelo, onde interpretava o "Dr. Saraiva" e participou da novela “Sinhá Moça”, na Rede Globo. Chico tinha contrato com a emissora até este ano.

Dirigiu e trabalhou ao lado de grandes nomes do humor brasileiro no rádio e na televisão, como Paulo Gracindo, Grande Otelo, Costinha, Walter D'Ávila, Jô Soares, Renato Corte Real, Agildo Ribeiro, Ivon Curi, José Vasconcellos e muitos outros. Tornou-se um dos mais famosos, criativos e respeitados humoristas da história do país.

No cinema participou de vários filmes: 1959, “Entrei de Gaiato”; 1981, “O Mundo Mágico dos Trapalhões”; 1996, “Tieta”; 2009, “Se Eu Fosse Você”; 2009, “Up - Altas Aventuras”; 2009, “Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei” e 2010, “Uma Professora Muito Maluquinha”.

Em 2009, Chico foi tema da escola de samba “Unidos do Anil”, do Rio de Janeiro, desfilando com o enredo "Chico Total! Sou Anil e Faço Carnaval".

O seu personagem mais famoso foi o “Professor Raimundo”, cuja primeira aparição no vídeo aconteceu em 1957, na extinta TV Rio, no programa “Aí vem dona Isaura”. Até então o programa só havia sido veiculado pelo rádio. Mas outros personagens também ficaram famosos como o ator canastrão Alberto Roberto, o pão-duro Gastão Franco, o coronel Pantaleão, o pai-de-santo Véio Zuza, o velhinho ranzinza Popó, o alcoólatra Tavares e sua mulher Biscoito (Zezé Macedo) e o revoltado Jovem.

Com o passar dos anos, novos tipos foram criados e incorporados ao programa: o funcionário da TV Globo Bozó, que tentava impressionar as mulheres por conta de sua condição; o mulherengo e bonachão Nazareno, sempre de olho nas serviçais; o político corrupto Justo Veríssimo; e o pai de santo baiano e preguiçoso Painho são alguns dos mais populares.

Chico também atuou em novelas e especiais da Globo, como “Pé na jaca” (2007), “Sinhá Moça” (2006), “Guerra e paz” (2008) e “A diarista” (2004). Chico Anysio também teve um quadro fixo no Fantástico por 17 anos (de 1974 a 1991), e supervisionou a criação no programa “Os Trapalhões” no início dos anos 90.

Chico Anysio recebeu no ano 2000, em Brasília, uma homenagem que o colocou entre os 20 brasileiros vivos mais importantes deste século, ao lado de pessoas como Pelé, Raquel de Queiroz e Emerson Fittipaldi.

Em novembro de 2009 foi agraciado com a “Ordem do Mérito Cultural”, a mais alta comenda do governo brasileiro na área. Da vida, dizia levar apenas um arrependimento: “ter fumado durante 40 anos”. (Pesquisa: Nilo Dias)

Chico, com a camisa do Vasco.

segunda-feira, 12 de março de 2012

CBF tem novo presidente

O novo presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e do Comitê Organizador para a Copa do Mundo de 2014 (COL), José Maria Marin nasceu em São Paulo no dia 6 de maio de 1932. Seu pai, Joaquín Marín y Umañes, de origem galega foi boxeador e ajudou a disseminar o esporte no Brasil.

Ao contrário de Ricardo Teixeira, que não teve qualquer experiência esportiva, Marin foi atleta, tendo jogado no São Paulo F.C., entre 1950 e 1952, como meio de custear parte dos estudos na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Pelo tricolor participou de 20 jogos, com 12 vitórias, quatro empates e quatro derrotas. Era ponta direita e marcou cinco gols.

Marin se formou advogado em 1955. Entrou na política ao final dos anos 50 e construiu uma carreira vitoriosa e meteórica. Em 1960 elegeu-se vereador pelo antigo Partido de Representação Popular (PRP), fundado pelo integralista Plínio Salgado. Em 1969 foi presidente da Casa.

Nos anos 70 ganhou uma cadeira na Assembléia Legislativa paulista, pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o partido da ditadura militar. Entre maio de 1982 e março de 1983, na condição de vice-governador, assumiu o Governo do Estado substituindo o titular Paulo Maluf, que se desincompatibilizara para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Marin foi o último governador biônico do Estado.

Como governador, deu prosseguimento ao projeto energético estadual iniciado por Maluf, inaugurando hidrelétricas em municípios interioranos. Foi ele que assinou a extinção do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no Estado, órgão de repressão policial da ditadura militar. Mas a exemplo de Maluf, enfrentou denúncias por permitir ações truculentas da Polícia Militar contra opositores de seu governo. Em março de 1983 foi substituído pelo governador eleito, Franco Montoro, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).

Em 1985 foi um dos principais coordenadores da campanha que levou Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo. Com o fim da ditadura militar Marin foi perdendo o prestigio político, prova disso que em 1986 candidatou-se ao Senado pelo Partido da Frente Liberal (PFL), ficando em quarto lugar, atrás de Hélio Bicudo e dos eleitos Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso.

Em 1987 foi disputado um campeonato de futebol que levou o nome de “José Maria Marin”. Participaram da competição 14 equipes, todas do interior do Estado: América (São José do Rio Preto), Bandeirante (Birigui), Estrela (Itu), Ferroviária (Araraquara), Jabaquara (Santos), Jacareí (Jacareí), Matonense (Matão), Mogi Mirim (Mogi Mirim), Noroeste (Bauru), Novorizontino (Novo Horizonte), Santo André (Santo André), São Bento (Sorocaba), XV de Jaú (Jaú) e XV de Piracicaba (Piracicaba).

As equipes foram divididas em dois grupos de cinco, e um de quatro, jogando todos contra todos em turno e returno, indo para as semifinais os times com melhor aproveitamento. Chegaram às finais as equipes do São Bento e América. No primeiro jogo decisivo houve empate de 1 X 1. No jogo de volta, disputado em 9 de dezembro de 1987 em São José do Rio Preto, o América garantiu o título goleando por 5 X 2.

Em 2000, Marin disputou à prefeitura de São Paulo pelo Partido Social Cristão (PSC), somando apenas 9.691 votos, míseros 0,18% dos válidos. Em 2002, nova desilusão política: concorreu ao Senado e teve apenas 63.641 votos, ou 0,2% dos válidos. Em 2007 filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileira (PTB).

Entre os anos de 1982 a 1988 presidiu por duas vezes a Federação Paulista de Futebol. Durante a Copa do Mundo de 1986, realizada no México, Marin foi um dos chefes da delegação brasileira. Em 2008, exerceu a vice-presidência da CBF na Região Sudeste, indicado por Marco Polo Del Nero, presidente da FPP.

No dia 8 de março deste ano, assumiu interinamente a presidência da CBF, depois que o presidente Ricardo Teixeira pediu licença, alegando problemas de saúde. Quatro dias depois assumiu o cargo em definitivo, com a renúncia de Ricardo Teixeira, que mandou e desmandou na CBF durante 23 anos.

A sua ascensão ao cargo mais importante do futebol brasileiro teve de superar a resistência de várias federações que não o queriam na presidência da CBF, como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A imprensa esportiva continua a fazer críticas, ainda mais depois que ele declarou que dará continuidade ao trabalho de Ricardo Teixeira.

Em 25 de janeiro deste ano foi protagonista do chamado “escândalo da medalha”. Quando da premiação da Copa São Paulo de Futebol Junior, no Pacaembu, vencida pelo S.C.Corinthians Paulista, ele “disfarçadamente" surrupiou uma das medalhas, que seria entregue ao jogador Mateus do Corinthians.

A TV Bandeirante, que cobria o ato, flagrou a ação de Marin e a mostrou ao vivo em rede nacional. O episódio causou revolta e ganhou repercussão nacional. Logo depois, na tentativa de minimizar o episódio, a FPF explicou que a medalha já estava prometida para o dirigente como um presente de Marco Polo Del Nero, presidente da entidade maior do futebol paulista e "padrinho" do colega na CBF.

Com a saída de Ricardo Teixeira, o São Paulo F.C., que estava em litígio com a CBF, fez as pazes com a entidade e até divulgou uma nota desejando boa sorte ao novo mandatário do futebol brasileiro.

"O Dr. Marín é um advogado ilustre, com uma trajetória importante no futebol. Inclusive com experiência dentro do campo. Temos plena confiança de que ele vai trazer um novo momento para o futebol brasileiro. Desejamos a ele toda sorte e apoio neste momento", disse o presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio. (Pesquisa: Nilo Dias)

sexta-feira, 9 de março de 2012

100 anos de futebol em São Gabriel

Se alguém tiver interesse em adquirir o livro "100 anos de futebol em São Gabriel (RS), de autoria de Nilo Dias Tavares (operador deste blogue), basta adicionar R$ 56,00, valor do livro e do frete na seguinte conta bancária:

Caixa Econômica Federal
Agência: 0972 (Sobradinho-DF)
Conta: 013.00.010.331-1
Nome: Nilo Dias Tavares

E depois enviar para o e-mail nilodt@hotmail.com o endereço para remessa.

Mestre Ziza

Quem viu Zizinho jogar, e eu tive essa honra, sabe que ele foi um dos grandes jogadores surgidos no futebol brasileiro em todos os tempos. Pena que naquele tempo quase não havia televisão e poucas são as imagens que ficaram, mostrando lances em que o grande craque participou. Por isso os torcedores da nova geração não sabem quem ele foi. Alguns até o compararam a Pelé, que dizia ter se inspirado em Zizinho, seu grande ídolo.

Eu não me arriscaria a fazer comparações entre Pelé e Zizinho. Considero Pelé o melhor de todos e dificilmente alguém virá a superá-lo. Sei que agora está brilhando o argentino Messi, mas terá que ralar muito para chegar perto do que foi Pelé, que marcou mais de mil gols e ganhou todos os títulos imagináveis. Para mim, depois de Pelé Zizinho foi o melhor. Nem tem para Zico, brilhante jogador do Flamengo.

Tomás Soares da Silva, mais conhecido como Zizinho, nasceu em São Gonçalo (RJ), no dia 14 de setembro de 1921 e faleceu em Niterói (RJ), no dia 8 de fevereiro de 2002. Começou a carreira nas divisões de base do Byron, de Niterói. Em 1939, com 18 anos de idade foi para o Flamengo, depois de uma rápida passagem pelo São Cristóvão e uma recusa do América (RJ).

No primeiro treino que fez na Gávea, entrou no time titular faltando 10 minutos para o seu término, depois que Leônidas da Silva se machucou. E partiu para o tudo ou nada. O tempo era curto, por isso Zizinho tratou de prender a bola, driblar e fazer gol. Na primeira bola que recebeu foi desarmado, na segunda partiu em zigue-zague driblando um, dois três adversários e na saída do goleiro bateu em seu contrapé. Depois marcou outro gol, encobrindo o goleiro com um leve toque.

Com 19 anos era titular absoluto em um Flamengo que contava com Domingos da Guia e Leônidas da Silva. Seu primeiro jogo no rubro-negro foi um amistoso, no dia 24 de dezembro de 1939, em que o Flamengo perdeu por 4 X 3 para o Independiente, da Argentina.

Com ele no time o rubro-negro ganhou o campeonato carioca de 1939 e ainda foi tricampeão estadual em 1942, 1943 e 1944, quando foi apontado como principal responsável pela conquista. O genial Nelson Rodrigues, quando “Mestre Ziza” jogava no Flamengo, costumava dizer: ”basta os alto-falantes do Maracanã anunciarem o nome de Zizinho, para saber quem será o vencedor da partida”.

Zizinho deixou o Flamengo antes da Copa de 50, depois de atuar em 329 partidas, quando foi vendido pelo presidente Dario de Melo Pinto ao Bangu por uma fortuna, sem ao menos ser consultado. Segundo registros 800 mil cruzeiros. Na época o Bangu era mantido integralmente pela família Andrade, onde figurava outro “Zizinho” – Zizinho Andrade, pai de Castor de Andrade – e onde o dinheiro corria “frouxo”.

O jogador assinou o contrato sem ao menos ler. E dizem que fez um único comentário: “Se o Bangu pagou tanto pelo meu passe é porque reconhece o meu futebol". No primeiro jogo contra o ex-clube deixou clara a sua mágoa. O Bangu goleou por 6 x 0, e ele teve uma atuação de gala.

No livro "Nação Rubro-negra", de Edilberto Coutinho, Zizinho desabafou: "Difícil dizer o que me magoou mais, se a perda da Copa de 50 ou a minha saída do Flamengo... acho que foi a saída do Flamengo. A maneira como os homens que dirigiam o clube fizeram a transação me machucou muito... nunca aceitei". Zizinho era apaixonado de corpo e alma pela equipe da Gávea. No Bangu ficou por 6 anos e marcou 120 gols, sendo um dos maiores artilheiros da história do clube.

Na Copa de 1950 suas grandes atuações maravilharam o público. Na vitória contra a Yugoslávia, por 2 X 0, em que ele marcou um dos gols, muitos críticos dizem que essa foi a melhor partida individual de um jogador brasileiro em todos os tempos, por uma seleção nacional. Mesmo com a inesperada derrota brasileira para o Uruguai na final, Zizinho foi eleito o melhor jogador da competição.

Ele não teve sorte na Seleção, onde jogou 54 vezes. Em 1953 houve o problema no sul-americano de Lima, no qual ele acabou rotulado de mercenário pelo escritor José Lins do Rego, chefe da delegação brasileira na ocasião. Esse episódio, inclusive, motivou Zizinho a escrever o livro “Verdades e Mentiras no Futebol”, em 2001.

Zizinho era tão bom e dono de uma classe e valentia impressionantes, que antes mesmo de completar 25 anos era chamado de "Mestre Ziza", apelido que ganhou do jornalista italiano Giordano Fatori, que cobriu a copa de 1950 para o jornal "Gazzetta dello Sport". Ele escreveu: "O futebol de Zizinho me faz recordar Da Vinci pintando alguma coisa rara", comparando o futebol do jogador com um dos maiores mestres da pintura de todos os tempos.

Já no fim de carreira em 1957, aos 35 anos, os companheiros de equipe o chamavam de "Seu Zizinho", tamanho o respeito. Também foi um fantástico artilheiro marcando 336 gols em sua carreira. Com a camisa do Flamengo foram 145; no Bangu 120; na Seleção Brasileira, 31; no Audax Italiano (Chile), 16 e ainda 24 pelo São Paulo. Mesmo com sua grande identificação com o Flamengo foi no Bangu que Zizinho conseguiu ser artilheiro de um campeonato carioca ao marcar 19 gols em 1952.

Em 1957, já com 35 anos, foi jogar no São Paulo F.C. por indicação do técnico húngaro Bella Gutman, onde ficou até 1958 e conquistou seu quinto título estadual (1957), marcando 24 gols.

Seu último clube foi o Audax Italiano, do Chile. Aos 39 anos, depois de ficar três anos fora do futebol, foi chamado para ser técnico do clube chileno. Atendendo ao pedido de fazer um jogo de exibição acabou atuando por toda a temporada, encerrando a carreira em 1962 aos 40 anos e ainda deixando 16 gols nas redes adversárias. Era chamado pelos companheiros de equipe de "professor" ou "doutor".

Zizinho foi protagonista de uma das mais interessantes histórias do futebol. Jogavam Bangu e Vasco no Maracanã, na decisão do campeonato carioca de 1956, vencido pelos cruzmaltinos por 2 X 1. O árbitro era Eunápio de Queiroz. Quando acabou o primeiro tempo, o repórter de rádio Luiz Fernando levou seu microfone até Zizinho para algumas declarações sobre a primeira etapa. O Bangu estava perdendo. “Que tal o jogo, Zizinho?”, perguntou. E Zizinho respondeu: “Está difícil porque esse juiz não é Eunápio de Queiroz, é Larápio de Queiroz”.

O repórter não perdeu tempo e contou tudo ao árbitro. Quando os times voltaram a campo, Eunápio perguntou a Zizinho: “É verdade que o senhor disse que eu deveria me chamar Larápio de Queiroz?”. E Zizinho confirmou: “Foi, eu disse”. E Eunápio: “Então pode voltar para o vestiário, o senhor está expulso de campo”. E foi assim que Zizinho transformou-se num dos raros jogadores da história expulso no intervalo.

Certa vez, dois times argentinos, o Independiente e o Racing, vieram participar de um torneio quadrangular no Maracanã, o “Torneio do Atlântico”, juntamente com o Vasco e o Flamengo. Terminava o ano de 1955 e o Vasco resolveu reunir a famosa dupla Ademir e Zizinho.

O Bangu cedeu Zizinho por empréstimo e aconteceu o que parecia impossível: “Mestre Ziza” vestido de vascaíno. Zizinho foi, assim, vascaíno não somente por um dia, mas sim dois. O Vasco perdeu a primeira partida para o Independiente e venceu o Racing na disputa do terceiro lugar. O Flamengo foi o campeão do torneio.

Vale recordar que tempos depois, já como técnico, Zizinho trabalhou no Vasco em duas oportunidades, 1967 e 1972. Em ambas, a equipe não realizou boa campanha e ele durou poucos meses no cargo.

Títulos conquistados. Pelo Flamengo: Torneio Inicio Carioca (1946); Campeonato Carioca: (1939, 1942, 1943 e 1944); Torneio Relâmpago do Rio de Janeiro (1943); Troféu Cezar Aboud (1948); Troféu Embaixada Brasileira na Guatemala (1949); Troféu EL Comite Nacional Olímpico da Guatemala (1949) e Taça Cidade de Ilhéus (1950).

Pelo Bangu: Torneio Início Carioca (1950 e 1955); Torneio Triangular do Equador (1957); Torneio Triangular do Rio de Janeiro (1957) e Torneio Triangular de Porto Alegre (1957). Pelo São Paulo: Campeão Paulista (1957). Pela Seleção Brasileira: Copa Rocca (1945); Copa America (1949); Taça Oswaldo Cruz (1950); Copa Rio Branco (1950); Campeonato Pan-Americano (1952); Taça Oswaldo Cruz (1956) e Taça do Atlântico (1956).

Prêmios: Melhor jogador da Copa do Mundo (1950); Craque do time das estrelas da Copa do Mundo (1950); Artilheiro do Campeonato Carioca pelo Bangu, com 19 gols (1952); Quarto Maior jogador Brasileiro do Século XX pela IFFHS (1999) e Décimo Maior jogador Sulamericano do Século XX pela IFFHS (1999).

Após encerrar a carreira, Zizinho tornou-se fiscal de rendas do Estado do Rio de Janeiro, função que exerceu até a aposentadoria. Morreu em 8 de fevereiro de 2002, aos 80 anos, após sofrer um ataque cardíaco na casa da filha, em Niterói, no Rio de Janeiro.

No dia em que Zizinho completaria 89 anos, a filha Katia Regina, e as netas Simone e Suzana levaram as bisnetas Milena e Maria Eduarda, que estava completando 6 anos (nasceu na mesma data que Zizinho), para conhecerem as marcas dos pés do famoso bisavô, imortalizado na “Calçada da Fama”, do Maracanã. A filha Katia estava presente, do dia 16 de junho de 1950, quando Zizinho participou da festa que homenageava 51 dos maiores jogadores do futebol brasileiro de todos os tempos. (Pesquisa: Nilo Dias)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O lavador de pratos que virou herói (Final)

Joseph Édouard Gaetjens, mais conhecido como Joe Gaetjens, nasceu em Porto Príncipe, no dia 19 de Março de 1924 e faleceu (provavelmente) no dia 8 de Julho de 1964. Filho de um belga com uma haitiana, começou cedo no futebol. Aos 14 anos, já atuava pelo L'Etoile, clube da capital do Haiti.

Em 1947, Gaetjens viajou para Nova York para estudar contabilidade na Universidade de Columbia. Lavou pratos num restaurante cujo dono arrumou para ele uma vaga no time do Brookhatten, que disputava a Liga Americana de "soccer".

Gaetjens se firmou na equipe e foi artilheiro do campeonato norte-americano em 1949. Porém, só foi chamado para a seleção dos Estados Unidos semanas antes da Copa. As normas da época permitiam que ele jogasse sem se naturalizar.

Além de duas partidas contra combinados, Gaetjens só disputou três jogos oficiais pelos Estados Unidos - exatamente os três da Copa de 1950. Era o único negro na equipe estadunidense, e se tornou o primeiro jogador a marcar gol contra a seleção inglesa, em Copas do Mundo. Em 1953, ele ainda defendeu a seleção do Haiti em uma oportunidade.

Logo após a Copa de 1950, Gaetjens se mudou para a França para jogar pelo Racing Club de Paris e, depois, pelo Troyes, da 2ª divisão. Voltou para o Haiti em 1954 para trabalhar nos negócios de sua família.

Joe nunca se envolveu com política, mas sua família era ligada a Louis Dejoie, rival de François "Papa Doc" Duvalier nas eleições presidenciais de 1957. "Papa Doc" venceu, implantou uma ditadura brutal e perseguiu os parentes do ex-jogador.

A família preferiu deixar o país, mas Joe quis ficar, já que não era engajado e achava que não teria problemas. Ele se enganou: em 8 de julho de 1964, dois "tonton macoute", a violenta equipe de repressão do ditador Duvalier prenderam Gaetjens e o levaram para a delegacia central de Porto Príncipe.

Gaetjens nunca mais foi visto com vida e sua família estima que ele tenha sido executado três ou quatro dias depois de sua detenção clandestina. Em 1976, época em que Pelé brilhava no novaiorquino Cosmos, Gaetjens foi incluído no Hall da Fama do futebol estadunidense. Em 1997, o Haiti, já livre das ditaduras de "Papa Doc" e de seu filho e sucessor "Baby Doc", lançou um selo em homenagem ao ex-jogador.

Naquela memorável noite, o time semi-profissional americano tinha na sua formação, além de um lavador de pratos, representantes de outras profissões que nada tinham a ver com o futebol. O goleiro Frank Borghi, por exemplo, era motorista de carro funerário. E havia também professores e carteiros. O único profissional da equipe era Ed Mcilvenny, que jogava pelo Philadelphia Nationals.

Quando, no dia 29 de junho de 1950, a redação do New York Times recebeu a notícia de que a seleção dos Estados Unidos havia vencido a Inglaterra em uma partida oficial da Copa do Mundo do Brasil, ninguém comemorou. Segundo Geoffrey Douglas, que escreveu o livro "The Game of Their Lives", sobre a partida histórica, ninguém sequer acreditou.

O despacho da agência de notícias chegou perto do horário de fechamento do jornal e o jogo, devido a desconfiança geral, acabou não sendo noticiado. Alguns jornais acreditaram haver um erro de digitação, e que o resultado deveria ser 10 X 1 para a Inglaterra, e não 1 X 0 para os EUA.

Naquela época o interesse pelo futebol nos Estados Unidos era quase nulo, e o “milagre na grama”, como ficou conhecida a partida, não ajudou a popularizar o esporte. Na verdade, os EUA passaram 40 anos sem ir para a Copa depois de 1950. Foram em 1990, sediaram o evento em 1994 e disputaram em 1998, 2002, 2006 e 2010.

Walter Alfred Bahr, que deu o passe para o gol de Gaetgens, hoje com 84 anos, foi o primeiro norte-americano na seleção oficial dos melhores jogadores de uma Copa. Depois dele, só Claudio Reyna, na Copa de 2002. Os outros ex-jogadores, remanescentes daquela memorável jornada são: Borghi Frank, 86 anos, Harry Keough, 84 anos e John Souza, 91 anos.

A vitória americana sobre a Inglaterra motivou o filme “Duelo de Campeões” (The Game of Their Lives), produzido em 2005, pelo diretor David Anspaugh. O filme conta a história de um grupo de jovens americanos, na maioria, ex-soldados, praticantes do “soccer”.

Esses rapazes recebem a notícia de um teste para a Seleção de Futebol dos Estados Unidos. Os jogadores escolhidos irão para o Brasil participar da Copa do Mundo de 1950. A seletiva é feita em Saint Louis, cidade onde é forte a presença de imigrantes e o “soccer” se destaca bastante. Participam dessa seletiva os rapazes de Saint Louis e os da Costa Leste.

A fragilidade do time é grande, todos os jogadores são amadores, isso acaba causando desânimo em alguns atletas da própria seleção antes da seletiva. Os jogadores, após a escalação, percebem a importância que tem para seu país. Nesse contexto entra a Inglaterra, que é considerada uma das melhores seleções do mundo além de ter inventado o futebol. A partir de então, os ingleses passam a ser o grande desafio dos americanos.

Inglaterra a grande rival é destacada, principalmente, por intermédio do jogador Stanley Mortenson, que é o craque inglês, e o maior temor americano na seleção inglesa.

Na seleção americana os jogadores que se destacam mais são o goleiro Frank Borghi, que faz grandes defesas, além de ser um dos líderes do time. Walter Bahr, o mais empenhado em unir os jogadores e fazer da seleção americana uma grande equipe.

Importantes jogadores como Pee Wee Wallace, Gino Pariani, Gaetjens, são também destacados no filme e que exercem um papel fundamental no decorrer da trama.

O filme se baseia nessa única partida da Copa filmada no Brasil no Estádio das Laranjeiras (o jogo verdadeiro foi no Estádio Independência, em Belo Horizonte), onde os Estados Unidos ganharam de 1 X 0. O gol de Gaetjens, um negro, deu a vitória aos norte-americanos. Neste período os Estados Unidos era palco de sangrentos conflitos racistas no sul do país.

Esse jogo para os americanos foi como a final da Copa do Mundo. O filme não precisaria de mais nada, afinal se fossem falar das outras partidas contra Chile e Espanha, apenas estariam danificando uma boa trama. Após a vitória contra a Inglaterra, os americanos, que antes foram derrotados pelos espanhóis, depois perderam para os chilenos e ficaram em último lugar no grupo.

O filme mostra que mesmo em dificuldades e diferenças de cada jogador, com a união e a força de vontade eles conseguiram alcançar o seu objetivo. Mostraram quem era a seleção americana, um time que buscou algo mais do que uma simples vitória dentro de campo.

No final do longa-metragem os jogadores da seleção americana de 1950 são homenageados. Os jogadores Gino Pariani (falecido em 09-05-2007), Walter Bahr, Frank Borghi, John Souza e Harry Keough ganham destaque pelo bom desempenho apresentado na partida.

Destacam-se no filme a grande aproximação da realidade feita pelo diretor, além dos jogos e treinos serem muito bem caracterizados. A caracterização do Brasil da década de 50 foi bem realizada, mostrando nos botecos da Lapa, um samba sendo tocado sem a sensualidade presente na cultura de hoje.

O jogo principal não possui uma grande valorização dos Estados Unidos, se for levado em conta aquele jogo foi considerado uma das maiores “zebras” da história das Copas. Em contra partida, já que o filme é baseado nesse jogo contra a Inglaterra, o diretor deveria ter dado um destaque maior ao gol de Gaetjens, o que daria mais emoção ao filme. (Pesquisa: Nilo Dias)

Joe Gaetgens carregado por torcedores brasileiros, após a vitória contra a Inglaterra.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O lavador de pratos que virou herói (1)

Na Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil, aconteceu o jogo que até hoje é apontado como a “mãe de todas as zebras”: a vitória impensável dos Estados Unidos sobre a toda poderosa Inglaterra, inventora do futebol. Passaram-se 62 anos desse jogo, que a maioria das pessoas nem ouviu falar. E nem existia o termo zebra, inventado pelo técnico Gentil Cardoso, em 1964.

Foi num jogo em que a modesta Portuguesa Carioca derrotou o grande Vasco da Gama, por 2 X 1, pelo Campeonato Carioca, em partida disputada no Estádio das Laranjeiras. Antes do jogo Gentil comentou: “Se meu time vencer hoje vai ser como dar "zebra" na cabeça no jogo do bicho”, sabendo que ela não existe na loteria zoológica.

Com o surgimento da Loteria Esportiva em 1970, a expressão “zebra” se tornou popular e passou a designar todo e qualquer resultado que não fosse a vitória dos favoritos, evitando que as pessoas fizessem os tão sonhados 13 pontos e ficassem milionárias.

A Inglaterra até 1950 nunca havia participado de uma Copa do Mundo. Foram disputadas três, no Uruguai, na Itália e na França. Prepotentes, achavam que eram os melhores do mundo. Nas eliminatórias, não tomaram conhecimento dos vizinhos Escócia, Irlanda do Norte e Gales e carimbaram o passaporte para o Brasil, certos de que a Copa seria uma barbada. Como treino golearam a Seleção da Europa por 6 X 1.

A Chave em que caíram foi tipo "mamão com mel": Espanha, Chile e os Estados Unidos. Estes disputaram as eliminatórias contra o México, e levaram duas surras, 6 x 0 e 6 x 2, mas ganharam de Cuba por 5 X 2 e empataram em 1 X 1. O Canadá não participou. De última hora alguns países desistiram e acabou sobrando uma vaguinha para os americanos.

O time deles nem parecia americano, pois em sua formação tinham nomes como Barghi, Maca, Colombo, Pariani e João Souza. Naquele tempo não havia futebol profissional nos Estados Unidos, nem mesmo campeonatos nacionais. Por isso um time, na maioria, só de esforçados imigrantes.

Os Estados Unidos tinham participado das Olimpíadas de 1948 em Londres, quando tiveram desastrosa atuação. Perderam de 9 X 0 para a Itália na primeira rodada. Depois levaram 11 X 0 da Noruega e 5 X 0 da Irlanda do Norte.

Pensando em evitar nova humilhação no Brasil, a Federação dos Estados Unidos foi buscar novos e melhores jogadores de fora da tradicional St. Louis. Da equipe olímpica de 1948 alguns foram selecionados para a equipe de 1949, e desta havia cinco ou seis que foram selecionados para jogar em 1950.

Formar o time não foi tarefa simples. Ninguém vivia só do futebol, todos tinham um emprego. Bahr, um dos remanescentes da equipe olímpica de 48, por exemplo, era professor de ginásio na Filadélfia. Mas nem todos os empregadores foram compreensivos, caso de Ben McLaughlin, da Filadélfia, que teve de se retirar da equipe, porque não foi possível deixar o seu trabalho. Os jogadores receberiam US$ 100 por semana na Copa do Mundo.

Cinco ou seis eram de St. Louis e dois rapazes da Filadélfia. A equipe tinha alguns jogadores muito bons, mas sem experiência. Não houve nenhum treinamento ou qualquer tipo de preparação, antes da viagem para o Brasil. Um dia antes de sair para o Brasil, três jogadores foram adicionados ao grupo: Joseph Maca, que nasceu na Bélgica; Ed McIlvenny, um escocês; e Joe Gaetjens, haitiano.

Todos os jogadores praticamente se conheceram durante a viagem e no período que antecedeu o jogo contra a Espanha, em Curitiba. Os “americanos” estrearam na Copa no dia 25 de junho de 1950, no Estádio Dorival de Brito e Silva, em Curitiba, quando perderam de 3 X 0 para a Espanha. O resultado foi festejado quase que como uma vitória.

O jogo seguinte, no Estádio Independência, em Belo Horizonte, seria no dia 29, contra a Inglaterra. E nem por isso o jogo foi tratado de maneira diferente. Já os ingleses começaram a Copa no Maracanã, no Rio de Janeiro, ganhando do Chile sem maiores dificuldades, por 2 X 0.

O Jogo Inglaterra X Estados Unidos estava sendo tratado pela imprensa mundial como um combate entre Davi e Golias. O próprio técnico americano, Bill Jeffrey, estava conformado e dizia que sua equipe era como "ovelhas prontas para serem abatidas”. As apostas na Bolsa de Londres eram de 500 por 1.

No estádio havia um público calculado em 10 mil expectadores, a maioria de brasileiros que torceram para os Estados Unidos, porque não queriam uma final contra os ingleses. Americanos mesmo, tinham poucos, vindos de uma base da Marinha ou força aérea. Uma rádio brasileira transmitiu o jogo.

Como era esperado, a Inglaterra dominou todo o jogo e teve a maior parte das chances, que redundaram em nada. Aos 37 minutos do primeiro tempo, um lançamento do lateral McIlvenny foi recebido no lado direito por Bahr. Este tentou um tiro diagonal de longa distância. O goleiro inglês Bert Williams correu em busca do que parecia ser uma bola fácil, quando surgiu Gaetjens, que de cabeça marcou o gol que deu a vitória aos americanos.

Depois a Inglaterra perdeu de 1 X 0 para a Espanha e não avançou à fase final. Os Estados Unidos perderam seu último jogo para o Chile, por 5 X 2 e terminaram em último lugar no grupo 2.

O zagueiro americano Colombo, que usava luvas com dedos cortados em todos os jogos que participou, não importando se estava quente ou não, teria recebido proposta para contrato profissional com um clube brasileiro um dia após o jogo. Ele recusou e voltou para St. Louis.

Os serviços de telégrafo publicaram com precisão o resultado de 1 X 0 para os Estados Unidos. Mas muita gente, mundo afora pensou, que o operador de telex tinha cometido um erro, e que o resultado seria 10 X 0 ou 10 X 1 para os ingleses. Um punhado de fotógrafos tinha assistido o jogo, mas não há nenhuma imagem conhecida do gol de cabeça de Gaetjens. Os fotógrafos tinham passado a maior parte do jogo atrás do gol dos Estados Unidos. (Pesquisa: Nilo Dias)

Time americano que derrotou a Inglaterra, na Copa de 1950. Em pé: Jack Lyons - Joe Maca - Charlie Colombo - Frank Borghi - Harry Keough - Walter Bahr - Bill Jeffrey.Agachados: Frank Wallace - Ed McIlvenny - Gino Pariani - Joe Gaetjens - John Clarkie Souza e Ed Souza.