Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

domingo, 10 de novembro de 2013

Um campeão de longevidade

Alcebíades Brizolara, o “Tibirica”, foi um jogador símbolo de garra e perseverança na história centenária do G.E. Brasil, um dos mais tradicionais clubes de futebol do Rio Grande do Sul. Jogava de lateral-direito e tinha na marcação forte a sua maior virtude. Nasceu em Pelotas no dia 22 de setembro de 1924 e faleceu em sua cidade natal no dia 28 de setembro de 1985, seis dias antes de completar 61 anos.

Começou a carreira de futebolista no time amador do Marechal Floriano F.C. Depois foi para as categorias de base do G.E. Brasil, em 1942, quando tinha 18 anos de idade. De cara sagrou-se campeão pelotense da categoria de aspirantes. No ano seguinte, “Tibirica” já era titular absoluto.

Seu primeiro jogo no time de cima foi um amistoso disputado no antigo “Estádio das Oliveiras”, na cidade de Rio Grande, contra o S.C. Rio Grande, dia 4 de abril de 1943, que terminou empatado em 3 x 3.

Seu último jogo com a camisa rubro-negra foi no dia 11 de fevereiro de 1962, no “Estádio Bento Freitas”, em Pelotas, válido pelo “Torneio da Morte” do Campeonato Estadual da Divisão Especial, num empate em 1 X 1 com o E.C. São José, de Porto Alegre.

A camisa rubro-negra foi a única que vestiu ao longo de 20 anos de carreira. Ao todo foram 445 jogos pelo time “Xavante” e sete gols marcados. “Tibirica” encerrou a carreira em 1962, aos 38 anos de idade, um ano antes do G.E. Brasil comemorar o seu cinquentenário.

Em sua passagem como jogador  do “Xavante”, participou de momentos gloriosos da vida do clube, como a excursão ao Uruguai, em 1950, quando o G.E. Brasil enfrentou a “Celeste Olímpica”, que se preparava para o Campeonato Mundial daquele ano, onde se sagrou campeão, no famoso “Maracanazzo”.

Naquele jogo inesquecível o clube pelotense conseguiu uma estrondosa vitória por 2 X 1, surpreendendo os “orientales” em pleno Estádio Centenário. Os gols foram de Darci e Mortosa, este. pai de Flávio “Mortosa” Teixeira, auxiliar técnico de Luiz Felipe Scolari, na Seleção Brasileira.

“Tibirica” também esteve na excursão que o clube pelotense realizou em 1965, por 10 países das América Central e do Sul. Foi uma maratona de 104 dias pelo exterior e 28 jogos disputados em países diferentes. O saldo foi esplendido, 16 vitórias, 6 empates e 6 derrotas.

Ele fez parte de célebres linhas-médias do G.E. Brasil, tais como: Tibirica, Juvenal (zagueiro da Seleção em 50) e Tavares, em 1946; Tibirica, Garcia e Tavares, em 1948 e Tibirica, Seara e Jari, em 1954 e 1955.

Títulos conquistados: Campeão da Cidade (1946, 1948, 1949, 1950, 1952, 1953, 1954 e 1961); Campeão da Taça Eficiência (1945, 1946, 1947, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952, 1953, 1954, 1955 e 1957; Campeão do Torneio Início (1947, 1950, 1955, 1956 e 1957); Campeão da “Taça Galenogal” (1947); Campeão da “Taça Ouriversária Cruz” (1950); Campeão da “Taça Prefeitura Municipal de Pelotas” (1947); Campeão da “Taça White Star” (1956); Campeão do Interior (1953,1954 e 1955); Campeão Regional (1949, 1950, 1953, 1954, 1955 e 1961); Campeão da “Taça Casa Oliveira” (1955); Campeão do “Torneio Dia do Futebol” (1949); Campeão do “Torneio Quadrangular Internacional da República de El Salvador” (1956); Campeão Estadual da Divisão de Acesso (1961); Campeão do “Torneio Rio Grande-Pelotas” (1952); Campeão do “Torneio Triangular Bagé-Pelotas” (1954); Campeão do “Torneio Triangular Rio Grande-Pelotas” (1956) e Campeão do “Torneio 50º Aniversário do 9º Regimento de Infantaria Motorizada (1959).

Foi ainda: Vice-campeão Municipal (1943, 1945, 1951, 1957 e 1959); Vice-campeão estadual (1953, 1954 e 1955); Vice-Campeão da Festa da Liga Pelotense de Futebol (1961); Vice-campeão do Interior (1949, 1950 e 1952); Vice-campeão Regional (1946); Vice-campeão da ”Taça Companhia de Cigarros Sudan (1949); Vice-campeão da “Taça Confeitária Gaspar (1947); Vice-Campeão da Taça Eficiência (1943); Vice-campeão da “Taça Eva Perón” (1952); Vice-campeão da “Taça Fayacal” (1943); Vice-campeão da “Taça Prefeitura Municipal de Pelotas” (1950); Vice-campeão da “Taça Sezefredo Ernesto da Costa, o Cardeal” (1954); Vice-campeão do “Torneio Cidade de Pelotas” (1956); Vice-campeão do “Torneio Dia do Futebol “ (1953); Vice-campeão do Torneio Início (1949); Vice-campeão do Torneio Municipal (1946) e Vice-campeão do “Torneio 32º Aniversário do E.C. Cruzeiro” (1959).

Eu fui amigo do “Tibirica”. Muitas vezes nos encontramos no antigo “Bar Cruz de Malta”, na esquina das ruas XV de Novembro e Voluntários da Pátria e falávamos de futebol. Eu era editor de esportes do jornal “Diário Popular”, quando “Tibirica” deixou de jogar.

Mas eu o conheci nos tempos de jogador. Uma vez até participei de um treino do Brasil, quando o técnico era o saudoso Teotônio Soares. Por azar, me colocaram na ponta-esquerda, sendo marcado pelo “Tibirica”, que era um sujeito forte e grandalhão. Costumava jogar com os cotovelos a mostra. Bater nele era o mesmo que se chocar contra um muro.

Lançaram uma bola em velocidade e eu rapidamente me desfiz dela, colocando entra as “canetas” do "Tibirica". E ele, furioso, deu uma trombada que me fez desistir de voltar a atacar. A partir daí me limitei a ficar pelo meio de campo, como quem não quer nada.

Quando “Tibirica” morreu, em 1985, eu morava em São Gabriel. Fiquei muito sentido com o ocorrido, pois além de um amigo, foi com ele uma parte importante da história do futebol gaúcho e brasileiro. “Tibirica” foi um campeão de longevidade, jogando numa época em que o máximo que um atleta aguentava era jogar até os 33, 34 anos. Ele foi até os 38.

Quando perguntado qual era o segredo de ter jogado por tanto tempo, ele costumava dizer brincando: “Não bebo, não fumo, me alimento em horas certas, faço sexo regularmente e durmo cedo”. Na verdade, “Tibirica” era o contrário disso tudo. (Pesquisa: Nilo Dias)


"Tibirica" marcava forte. (Foto: "Colecionador Xavante")

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O “fabricante” de vitórias

Paulo de Souza Lobo, o “Galego”, foi um dos grandes técnicos do futebol gaúcho. Poderia ter feito uma carreira mais vitoriosa se tivesse aceitado os convites que lhe foram feitos por Grêmio e Internacional. Preferiu sempre treinar clubes do interior do Rio Grande do Sul. Prestou serviços em somente três cidades, Pelotas, Rio Grande e Bagé.

Eu conheci muito bem o “Galego”. Em certa ocasião fomos colegas de rádio, pois ele quando não estava treinando nenhum clube atuava como comentarista esportivo na Rádio Pelotense. Nós até chegamos a “bater” uma bolinha juntos, no time de Futebol de Salão da emissora.

Eu guardo até hoje um recorte do jornal “Diário Popular”, de Pelotas, com uma foto da equipe salonista em que “posaram para a posteridade” eu, “Galego”, Benito Amato, Amir Curi, Volney Castro e José Carlos Cortez Sica.

 “Galego” também trabalhou como motorista de taxi. Era dono de um carro no ponto frente o Bar Cruz de Malta, na esquina da XV de Novembro com Voluntários da Pátria.

Nasceu na histórica cidade de Piratini, no dia 23 de fevereiro de 1926. Ainda era criança, com apenas seis anos de idade quando se mudou para Pelotas junto com o irmão João Alfredo, após ficarem órfãos. Passou a infância como qualquer criança da época, estudando em escola pública e brincando pelas ruas nas horas vagas. E pensava em um dia ser jogador de futebol.

Começou a carreira no time amador do G.E.America, de Pelotas. Em 1944 chegou às categorias de base do G.E. Brasil. Em 1945, já era titular absoluto do time profissional, que era treinado por Francisco Duarte Júnior, o “Teté”, que depois marcou época no S.C. Internacional, de Porto Alegre, quando montou o fabuloso time que ficou conhecido por “Rolo Compressor”. “Galego” era um centro-médio de boa técnica e forte liderança.

Depois de se sagrar campeão pelotense e do Interior por diversas vezes, “Galego” foi emprestado ao E.C. Cruzeiro, de Porto Alegre, em 1950. Mas não deu sorte no “estrelado” portoalegrense, pois sofreu uma séria lesão em um dos joelhos e foi obrigado a abandonar o futebol, como atleta, aos 26 anos de idade. Como jogador do “xavante” pelotense atuou em 182 jogos e marcou 76 gols.

Mas não deixou o futebol, sua grande paixão. Tornou-se treinador, profissão onde alcançou maior sucesso que na carreira de futebolista. Começou como treinador das categorias de base do G.E. Brasil, conquistando cinco campeonatos consecutivos. Foi guindado ao comando da equipe principal em 1953.

Com a chegada do futebol de salão a Pelotas em 1955, jogou no E.C. Pelotas, de quem foi treinador do time profissional, onde continuou a sequência de conquistas, como campeão da cidade, em 1956, 1957 e 1958. Em Pelotas, também dirigiu o G.A. Farroupilha. Em Rio Grande comandou o S.C. São Paulo e o F.B.C. Rio-Grandense. Em Bagé, o G.E. Bagé e por três vezes dirigiu seleções gaúchas, chamando sempre jogadores que atuavam em clubes do interior.

Foi no Bagé que mais trabalhou. Chegou ao clube em fevereiro de 1971, levado pelo presidente Jorge Kalil, para substituir Athayde Tarouco, depois de uma derrota para o Ypiranga, de Erechim pelo Campeonato Gaúcho da Divisão de Honra, competição que o jalde-negro disputava pela primeira vez.

Seu primeiro jogo como treinador do Bagé foi no dia 10 de março de 1971, com derrota de 2 X 0 para o Brasil, em Pelotas. A estreia em casa foi em 4 de abril, nova derrota de 2 X 0, dessa feita para o Grêmio Portoalegrense. A primeira vitória ocorreu em 4 de abril de 1971, em Santo Ângelo, 2 X 1 frente o Tamoio.

“Galego” treinou o Bagé, de 1971 até 1977, tendo conquistado a “Copa Governador do Estado” em 1974 e a “Taça Cidade de Bagé”, por duas vezes, além de se sagrar campeão de grupos, tanto na Divisão Especial como na “Segundona” e ter levado o time à elite do futebol gaúcho. Os torcedores do jalde-negro passaram a chamá-lo de “fabricante de vitórias”, pois nunca antes em sua história, o clube havia alcançado tão altos patamares.

Em 1978, voltou a Pelotas. Em 1979, reassumiu no Bagé em meio ao campeonato e permaneceu até 1980, quando retornou definitivamente a Pelotas, onde trabalhou novamente na dupla Bra-Pel. Em 1983 um encontro histórico, Luiz Felipe Scolari era o técnico do Brasil e Paulo de Souza Lobo, o “Galego”, dirigia o Pelotas.

Ao todo os dois treinadores se enfrentaram em seis oportunidades. “Galego” levou a melhor, não tendo perdido nenhum clássico para o hoje treinador da Seleção Brasileira. Foram quatro empates e duas vitórias do áureo-cerúleo.

Em 1994, quando completou 50 anos de atividade profissional, "Galego" decidiu abandonar o futebol, às vésperas do jogo festivo Seleção da Rússia 2 X 1 Pelotas, no qual seria homenageado. Era 9 de fevereiro, quando a Diretoria do clube áureo-cerúleo lhe ofereceu um almoço que contou com a presença do técnico da Seleção Brasileira, na época, Carlos Alberto Parreira, e de seu auxiliar Zagalo.

O experiente treinador, que aglutinava também outros adjetivos como exigente e disciplinador, estava decidido que iria descansar na praia do Laranjal como legítimo aposentado. A decisão durou pouco tempo. No começo do ano seguinte já estava dirigindo o time do Pelotas no "Gauchão".

Dirigiu o Bagé em 311 jogos consecutivos, um recorde que persiste até hoje, com 120 vitórias, 94 derrotas e 97 empates, 314 gols marcados e 247 sofridos. Participou de 39 clássicos Ba-Guá, com 14 vitórias, 16 empates e 9 derrotas.

“Galego” foi muito mais que um treinador no G.E. Bagé. Era uma espécie de gerente. Morava na concentração junto com os jogadores e se encarregava até mesmo da alimentação dos seus comandados. Nos treinos era o técnico e ao mesmo tempo o preparador físico.

"Galego" sempre foi um faz tudo, como lembrou o saudoso cronista esportivo, Paulo Corrêa, em um comentário escrito no jornal "Agora", de Rio Grande:

"Jamais assinou contrato a valer mesmo e por isso não ficou riquíssimo. Dizia que o que vale é a palavra, porque papel se presta para tudo, até para embrulho. Não fumava, não bebia álcool nem permitia excessos nos seus jogadores, proibidos de dar pontapé. Era preparador técnico, físico, cozinheiro, dirigente, gerente, fazia rifas para ajudar o clube, cuidava da concentração, amparava famílias de jogadores, enfim, era um verdadeiro pai de todos".

Seus números como treinador impressionam. Ao todo foram 455 partidas pelos sete clubes que dirigiu. O seu trabalho mereceu o reconhecimento da Câmara Municipal de Bagé, que lhe concedeu o título de “Cidadão Bageense”, em 1977, por proposição do vereador Iolando Maurente. Em Pelotas foi homenageado com o título de “Cidadão Pelotense”, em 1988.

Era casado com Dona Geni Rodrigues Lobo, com quem teve três filhos. Morreu em 9 de outubro de 1996. Seus restos mortais estão sepultados no “Cemitério São Francisco de Paulo”, em Pelotas. “Paulo de Souza Lobo” é nome de rua, na Praia do Laranjal, em Pelotas. (Pesquisa: Nilo Dias)


domingo, 3 de novembro de 2013

O artilheiro que virou estátua

Gabriel Omar Batistuta, um dos melhores atacantes do futebol argentino de todos os tempos nasceu na cidade de Reconquista, província de Santa Fé, Argentina, em 1º de fevereiro de 1969, ano em que o homem foi à lua. Ele só começou a jogar futebol quando tinha 17 anos de idade. Seu pai preferia que ele estudasse do que ser jogador de futebol.

Até então jogava vôlei e basquetebol, devido a sua alta estatura (1m85). Em 1978, depois do título mundial ganho pela Argentina, trocou de esporte. E tudo por causa do artilheiro Mário Kempes.

Como não havia campos de futebol na sua cidade, Batistuta e seus amigos jogavam na rua, sem chuteiras, e usando árvores como traves. Com 15 anos, juntou-se ao jovem time do Platense, e depois no Reconquista, em 1987. Mas, em 1988, se mudou para Rosário.

No mesmo ano Batistuta jogou pelas categorias de base do Newell’s Old Boys, levado pelo desportista Jorge Griff. O clube de Rosário lhe pagava um salário de 20 mil dólares por ano. O jogador dormia num pequeno quarto dentro do estádio, sentia saudade da família e sempre tinha pouco dinheiro.

O Newell’s era treinado por Marcelo Bielsa que o colocou no time de cima no lugar de Abel Balbo, que fora vendido ao River Plate. Depois o time abocanhou o campeonato nacional da temporada 1987/88, com uma equipe toda formada por jogadores da casa.

Nos seus seis primeiros meses no Newell’s, Batistuta chegou à final da “Taça Libertadores da América”, contra o Nacional, de Montevidéu. No primeiro jogo, em Rosário, venceu por 1 X 0, mas no segundo, no “Centenário”, em Montevidéu, perdeu por 3 X 0, perante 75 mil torcedores. No certame argentino, temporada 1988/1989 o clube não foi bem, terminando em 12º lugar.

Em 1989 foi vendido ao agente Settimio Aloisio, que o colocou no River Plate, curiosamente para também substituir Abel Balbo, a exemplo do que acontecera quando da sua chegada ao Newell’s. Batistuta disputou a final da “Liguilla”, e marcou o único gol na decisão contra o San Lorenzo que deu o título e a vaga na “Libertadores” ao seu novo clube.

Em 1990 o River Plate classificou-se para às semifinais da “Taça Libertadores” de 1990, sendo eliminado nos pênaltis. Mas conquistou o campeonato argentino de 1989/1990. Batistuta não teve o bom desempenho do ano anterior, jogou poucas vezes, mas assim mesmo foi mais uma vez campeão nacional. Em vista disso o técnico Daniel Passarella não o aproveitou mais. Terminada a temporada transferiu-se para o eterno rival, Boca Juniors.

A ida de Batistuta para “La Bombonera” coincidiu com a introdução na temporada 1990/91 do sistema “Apertura” e “Clausura”, dividindo o campeonato. No “Apertura” o Boca terminou na oitava colocação.

No “Clausura” foi primeiro, com Batistuta fazendo grandes partidas e marcando cinco gols nos três primeiros jogos. O time azul e amarelo somou 13 vitórias e seis empates, marcando 32 gols, 20 deles pela dupla Batistuta e Diego Latorre, e apenas seis gols contra.

Batistuta chegou a errar um pênalti contra seu ex-clube, o River Plate. Mas isso não foi capaz de diminuir o brilho de sua participação naquele campeonato, o que lhe valeu a primeira convocação a Seleção Argentina, em 1991, pelo técnico Alfio Basile. A partir daquela temporada, o atacante tornou-se um “anti-River” e um dos principais jogadores a dar ao Boca Juniors uma supremacia nos clássicos.

Os dois clubes se enfrentaram duas vezes na “Taça Libertadores da América” naquele semestre, e Batistuta marcou os dois gols da vitória por 2 X 0. Antes, já havia vencido também no “Monumental”, por 4 X 3.

O Boca Juniors ainda venceu os times brasileiros do Corinthians e Flamengo no “mata-mata”, mas o sonho do título continental parou nas semifinais, quando foi derrotado pelo Colo-Colo, do Chile, num jogo cheio de polêmicas, que ficou conhecido como “A Batalha de Santiago”, repleta de catimbas, brigas e discussões.

Com a convocação de Batistuta para a Seleção, o Boca Juniors foi muito prejudicado, pois não pode contar com seu artilheiro na decisão do Campeonato Nacional da temporada 1990/1991, entre os campeões do “Apertura” e do “Clausura”.

Os jogos decisivos foram disputados em datas que coincidiram com a realização da “Copa América”. Cada time venceu um jogo por 1 X 0, levando a decisão para os pênaltis. Em plena “La Bombonera” o Boca perdeu o título. Curiosamente, no ano seguinte foi determinado que os campeões do “Apertura” e “Clausura” dividiriam o título nacional.

Terminada a “Copa América”, vencida pela Argentina e com Batistuta como artilheiro, com seis gols, um deles sobre o Brasil no quadrangular final que decidiu o torneio, o craque foi vendido para a Fiorentina, da Itália por 2,5 milhões de dólares. Vittorio Cecchi Gori, então vice-presidente do clube italiano assistiu todos os jogos da Seleção Argentina e ficou encantado com o futebol do atacante.

Dois anos depois, na Copa América de 1993, foi novamente campeão. Embora tenha marcado apenas três vezes, dois desses gols foram decisivos, pois deram a vitória à Argentina por 2 X 1 sobre o México, na final, garantindo o 14º título continental ao país.

Mesmo com a vitória na “Copa América”, por pouco a Argentina não ficou fora da Copa do Mundo de 1994, disputada nos Estados Unidos. Na última rodada das "Eliminatórias", foi goleada por 5 X 0 pela Colômbia, em Buenos Aires.

Os colombianos ficaram com a única vaga direta do grupo de quatro países. A Argentina só foi à repescagem porque o Paraguai não saiu de um empate com o Peru, que até então não havia pontuado.

Na repescagem, contando com a presença de Diego Maradona, os argentinos empataram com a Austrália, em Sydney e garantiram lugar nos Estados Unidos após vencerem em casa por 1 X 0, com Batistuta marcando o gol.

A Argentina tinha um time muito forte, com Batistuta, Maradona, Fernando Redondo, Claudio Caniggia e Ramón Medina Bello. Na Copa, Batistuta fez três gols no jogo de estréia, uma goleada de 4 X 0 sobre a Grécia. No segundo jogo ganhou de virada da Nigéria.

Depois dessa partida Maradona foi expulso do Torneio, no escândalo do "dopipng". Abalados, os argentinos perderam para a Bulgária e chegaram em terceiro no grupo. Só conseguiram classificação para a fase seguinte, porque foram um dos melhores terceiros colocados, sistema que vigorou até aquela Copa.

A eliminação veio frente a Romênia. Batistuta marcou seu quarto gol na derrota por 3 X 2. O ano seguinte também foi de decepções com a "Seleção". Na Copa América, foi eliminada nas semifinais frente ao Brasil. O título ficou com o Uruguai.

O técnico da Argentina já era Daniel Passarella, com quem Batistuta não se entendia desde os tempos de River Plate. Apesar da série regular de gols na Fiorentina, Batistuta chegou a passar quase um ano afastado da “Seleção” por Passarella, que não queria jogadores de cabelos longos no seu time.

Pelo mesmo motivo não foram convocados os jogadores Redondo e Caniggia. Para ir à “Copa do Mundo” de 1998, Batistuta concordou em cortar o cabelo e lançou até um perfume: “Essenza di Campione”. Na França, marcou quatro gols na primeira fase, um contra o Japão e três na Jamaica.

Fez seu quinto gol na Copa nas oitavas-de-final, contra a Inglaterra, quando homenageou o filho recém-nascido, embalando-o na imaginação, imitando a comemoração de Bebeto em 1994. A classificação veio nos pênaltis, e deu lugar à frustração na fase seguinte, quando empatou em 1 X 1 com a Holanda.

Nesse jogo Passarella substituiu Batistuta, que era o artilheiro do "Mundial". O croata Davor Šuker só o ultrapassou em um gol, na partida pelo terceiro lugar, dois jogos depois.

Em 2002, Batistuta foi ao seu terceiro mundial, já veterano e vindo de uma temporada difícil na Roma. Começou bem na “Copa da Coreia e Japão”, marcando o solitário gol da vitória sobre a Nigéria, na primeira rodada. E foi só.

Os argentinos foram precocemente eliminados na primeira fase, depois de perderem para a Inglaterra e empatarem com a Suécia. Batistuta errou um pênalti contra os suecos. Esse foi o seu último jogo pela Seleção da Argentina, da qual é o maior artilheiro em Copas, com 10 gols e no geral com um total de 56 gols em 78 partidas. Ele marcou na “Seleção” o dobro de gols que Diego Maradona, o maior ídolo futebolístico do país em todos os tempos.

Mesmo tendo uma passagem sem títulos pelo Boca Juniors, ele garantiu um lugar destacado na história do clube e nos corações dos seus torcedores.

O começo na Itália não foi dos melhores, porque o jogador encontrou dificuldades de adaptação. Mas algum tempo depois reencontrou seu bom futebol. Na 18ª rodada da temporada 1991-92, Batistuta marcou seu primeiro gol pela Fiorentina, na vitória de 2 X 0, sobre a Juventus. Na primeira temporada marcou 13 gols. Na segunda, 16 em 27 jogos. O seu clube, a Fiorentina acabou sendo rebaixado.

Mesmo disputando uma divisão secundária, Batistuta continuou na Fiorentina e, com seus gols, ajudou o clube a retornar à "Serie A" na temporada seguinte, 1994/1995. De regresso à elite do futebol italiano, foi o artilheiro da competição com 26 gols, um recorde no campeonato. Também superou outra marca no futebol italiano, quando marcou 13 gols em 11 partidas consecutivas.

A fama de Batistuta correu mundo. Já era considerado um dos melhores atacantes do planeta. Surgiram propostas de todos os lados da Europa.

O Manchester United, da Inglaterra chegou a oferecer 44 milhões de dólares para contratá-lo, mas ele preferiu continuar por várias temporadas na “Associazione Calcio Firense Fiorentina”, que é um clube mediano da Europa. Essa dedicação à agremiação valeu-lhe uma estátua de bronze em tamanho natural, na “Curva Fiésiole”, no “Estádio Artemio Franchi”, na cidade de Florença.

Batistuta ganhou a fama de “sex symbol”, tal era a admiração das mulheres pelo seu amor incondicional a Irina – sua esposa. A maior prova foi em 1996, quando marcou o gol decisivo na vitória por 2 X 1 sobre o A.C. Milan e disse para a câmera: “Amo-te Irina”.

A sua fama com a camisa da Fiorentina foi tanta que Florença decretou 30 de Outubro como “o Dia de Batistuta”, uma homenagem ao artilheiro que tantas alegrias deu à cidade.

A relação de Batistuta com os torcedores da Fiorentina era muito especial. Com ele em campo, era questão de tempo até o grito de gol ecoar nas arquibancadas. Um deles entrou para a galeria de imagens imortais do futebol italiano: o gol de empate contra o Barcelona em pleno “Camp Nou”, na semifinal da “Taça das Taças”, em Abril de 1997. Com o dedo em riste nos lábios, calou 100 mil adeptos do Barcelona, ao vencer com classe e garra o conhecido goleiro Vítor Baía.

No tempo em que defendeu a Fiorentina, atuou junto de destacados jogadores como o meio-campo português Rui Costa, o alemão Stefan Effenberg, o dinamarquês Brian Laudrup, o sueco Stefan Schwarz, o russo Andrey Kanchelskis, os selecionáveis italianos Michele Serena, Stefano Borgonovo, Sandro Cois e Angelo Di Livio e cinco brasileiros: os tetracampeões mundiais de 1994 Dunga, Mazinho e Márcio Santos, Edmundo e Luís Oliveira (naturalizado belga). E fez uma grande dupla ofensiva com Abel Balbo, de quem foi sombra no início de carreira.

Mesmo com toda a fidelidade ao clube, conquistou poucos títulos. Consta um terceiro lugar na temporada 1998/99, em que foi vice-artilheiro, com 21 gols, o que classificou a equipe para a “Liga dos Campeões da UEFA”. A Fiorentina foi eliminada da competição, em casa, na última rodada da segunda fase de grupos, quando apenas empatou nos acréscimos do jogo contra o Bordeaux, da França.

Além da "Serie B" de 1994 e de pequenos torneios amistosos, o único grande título de Batistuta pela Fiorentina foi a “Copa da Itália” de 1996, com ele marcando nos dois jogos da decisão contra o Atalanta.

Em 1999, no time italiano da Fiorentina, Batistuta adotou a comemoração de “matador”, nos seus gols, simulando portar uma metralhadora. Ainda nesse ano, ficou entre os três melhores jogadores do mundo, perdendo a eleição da FIFA para Rivaldo (1º) e Beckham (2º). Omar Batistuta foi “batizado” pelos “tifolis” de “Batigol” e “Rei León”.

Em 2001, depois de vestir a camisa da Fiorentina por 10 anos, período em que marcou 40% de todos os gols da equipe, foram 207  em 332 jogos, foi vendido para a Roma, por quase 30 milhões de dólares, protagonizando a segunda mais cara transferência da história do futebol mundial, na época.

Na Roma, Batistuta jogou ao lado de consagrados jogadores como Cafu, Vincenzo Montella, Marco Delvecchio e Francesco Totti. No seu primeiro ano no novo clube, o artilheiro marcou 20 gols, ajudando na conquista do campeonato italiano, algo que não acontecia desde a temporada 1982/1983, quando jogavam na equipe Falcão e Bruno Conti.

Dizem que a Roma está quebrada até hoje porque bancou essas contratações da fase do “scudetto”: Batistuta, Nakata, Emerson e Samuel.

Em 2001/2002 quase que a Roma foi campeã de novo. A Internazionale liderou o certame até a última rodada, quando o time de Batistuta conseguiu ultrapassá-la em um ponto. Mas o campeão foi a Juventus, que somou um ponto a mais.

Naquela temporada Batistuta não foi bem e acabou sendo emprestado à Internazionale. Com isso, a equipe de Milão conseguiu substituir Ronaldo “Fenômeno”. Junto com Batistuta também foi contratado Hernán Crespo, vindo da Lazio.

A temporada 2002/2003 rendeu um vice-campeonato a Internazionale. Mas Batistuta não ficou até o final do contrato. As constantes lesões o atrapalharam demais. Uma irresistível proposta financeira o fez ir para o Qatar, onde já se encontrava Romário. Lá jogou futebol e paralelamente golfe, enriquecendo a sua reforma de luxo.

No pequeno país do Oriente Médio, em uma liga bem menos técnica, foi campeão e artilheiro pelo Al-Arabi Doha, onde encerrou a carreira em 2005, aos 36 anos, após não conseguir um acerto com o Boca Juniors, devido a uma séria lesão em um dos tornozelos. Ele queria encerrar a carreira no time argentino e aumentar o número de gols que fez pelo clube, mais de 300.

Sua passagem pelo Qatar, posteriormente, fez com que fosse chamado para ser garoto-propaganda da vitoriosa campanha do país para ser sede da Copa do Mundo de 2022.

Batistuta era um jogador completo, emérito cabeceador, chutava forte com os dois pés, tinha arrancada e velocidade e esbanjava raça e oportunismo. É verdade que as vezes abusava do individualismo. O craque argentino foi sempre um grande homem, dentro e fora de campo, um marido exemplar, um pai amoroso, enfim, um exemplo a ser seguido, ao contrário de muitos ex-jogadores de futebol.

Títulos conqistados: Campeonato Argentino, pelo Newell's Old Boys (1987/88); Liguilla Pré-Libertadores, pelo River Plate (1989); Campeão da Recopa Sulamericana pelo River Plate (1990); Campeonato Argentino pelo River Plate (1989/90); Campeão do Torneio “Di Viareggio” pela Fiorentina (1992); Campeão da Copa Kirin, pela Fiorentina (1992); Campeonato Italiano da Série B, pela Fiorentina, da Itália (1993/94); Campeão da Copa da Itália, pela Fiorentina (1995/96); Campeão da Supercopa da Itália, pela Fiorentina (1996); Campeão Italiano pela Roma (2000/01); Campeão da Supercopa da Itália, pela Roma (2001); Campeão Italiano pela Internazionale (2002/03); Campeão do Qatar pelo Al-Arabi Doha (2004); Campeão da Copa América pela Seleção Argentina (1991 e 1993); Campeão da Copa das Confederações pela Seleção Argentina.. (1992) e Troféu Artemio Franchi, pela Seleção Argentina (1993).

Batistuta também ganhou muitas premiações em sua vitoriosa carreira: “Chuteira de Bronze da Copa do Mundo da Fifa” (1994 - 4 gols); “Chuteira de Prata da Copa do Mundo da Fifa” (1998 - 5 gols); “Melhor Jogador Estrangeiro do Ano na Serie A” (1999); “3o Melhor Jogador do Mundo da FIFA” (1999); “Chuteira de Ouro da Liga do Catar” (2004); “Melhor Jogador Argentino do Ano” (1998); “Maior Artilheiro da História da Fiorentina na Serie A” (152 gols); “Segundo Maior Artilheiro da História da Fiorentina” (207 gols em 332 jogos no total); “Maior Artilheiro da História da Seleção da Argentina” (56 gols em 78 jogos) e “Prêmio Fifa 100” (2004)

Logo depois que deixou os gramados, Batistuta teve problemas até para andar, devido a dores nos joelhos, herança das infiltrações que fez ao longo da carreira para aliviar a dor e reduzir o tempo de recuperação das lesões.

Além disso, ele foi submetido a diversas cirurgias nas pernas. Teve uma época em que chegou a pedir ao médico para lhe cortar uma perna, de tantas dores que sentia. Mas foi operado e melhorou bastante.

Batistuta desmentiu às notícias que davam conta de que ele mal se aguentava ficar de pé. E disse que está praticando esportes, como tênis e pólo, uma de suas paixões, defendendo a equipe do “Loro Plana”, de Santa Fé.

Só não pode mais jogar futebol, correr muito ou fazer piques. E ainda encontra tempo para assuntos burocráticos do futebol, como ser dirigente do “Cólon”, time de futebol da Argentina. (Pesquisa: Nilo Dias)


A estátua de Batistuta, em Florença, Itáli. (Foto: Divulgação)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O "Tremendão da Aerolândia"

O “Calouros do Ar Futebol Clube”, que hoje amarga uma terceira divisão do Campeonato Cearense, já viveu seus momentos de glória. Fundado em 1 de janeiro de 1952, é conhecido como o “time da Base Aérea de Fortaleza”, unidade de elite da Força Aérea Brasileira.

Até então o clube era apenas um despretensioso time de futebol, chamado América. Quando foi oficialmente fundado, mudou o nome para homenagear o conjunto musical da Base Aérea de Fortaleza e os aspirantes a oficial aviador que chegavam todo ano à cidade.

Ascendeu à divisão principal da Federação Cearense de Desportos (FCD) em 1953, vindo, por uma dessas anomalias de nosso futebol, da terceira divisão.

O Comando da corporação dava todo o apoio ao clube. A torcida era formada pelo efetivo da Base e pessoas da população. Os jogadores eram quase todos militares. Vez que outra vinha alguém de fora, principalmente do interior do Estado, desde que não custasse muito dinheiro.

O uniforme do “Calouros do Ar” lembra o do Fluminense F.C., do Rio de Janeiro, camisas com listras verticais em vermelho, verde e branco, calção branco e meias brancas ou verdes. A única diferença do time carioca é que esse tem a cor vinho, em lugar do vermelho.

Seu mascote é o “Tremendão da Aerolândia”. Também é conhecido como o “Tricolor da Base Aérea”. O estádio onde mandava seus jogos era o “Brigadeiro-Médico José da Silva Porto”, que se localizava dentro da Base Aérea e possuía secretaria, lavanderia e vestiários e sua capacidade era para 3 mil expectadores.  O estádio ainda existe, mas hoje é de uso exclusivo de militares.

O primeiro jogo do “Calouros do Ar” como clube profissional, foi no dia 10 de maio de 1953, quando empatou com o Gentilândia por 1 X 1, em jogo válido pelo Campeonato Estadual daquele ano. O clube não conseguiu chegar ás finais da competição.

Em 1954, o “Calouros do Ar” surpreendeu a todos, quando derrotou o Botafogo, do Rio de Janeiro, que foi a Fortaleza participar da festa dos 40 anos de fundação do Ceará Sporting. O diretor do clube alvinegro cearense, Ivonisio Mosca de Carvalho, queria que o “glorioso” se apresentasse com todas as suas grandes estrelas da época, o que não foi possível, por problemas no calendário.

De qualquer maneira o Botafogo, que era treinado por Gentil Cardoso, acabou por jogar duas partidas em Fortaleza. A primeira foi no sábado, 12 de junho, no Estádio Presidente Vargas, contra o “Calouros do Ar”, que venceu por 1 X 0. O time carioca só trouxe de titular o atacante Garrincha. Didi e Nilton Santos não viajaram.

O “Calouros do Ar” tinha um time bem certinho, com muito conjunto, onde pontificavam o goleiro Chico Martins, Zanata e Orlando Ciarlini. O empate em 0 X 0 persistia, até que no segundo tempo o time local fez uma substituição que foi decisiva: saiu o avante Beto e entrou Orlando Ciarlini, que aos 40 minutos marcou o gol que deu a vitória ao time da Base Aérea.

O goleiro Chico Martins fez uma partida memorável, entrando para a história do futebol cearense. A lenda assegura que o goleiro pegou até pênalti, batido por Garrincha, o que não é verdade. O atacante teve, isso sim, um gol anulado porque foi feito com a mão.

Ao término do jogo o goleiro Chico, entre outros presentes, ganhou uma garrafa de uísque e o direito de conversar algum tempo com Garrincha. Seu nome verdadeiro é Francisco Martins de Lima. Jogou pouco tempo no “Calouros do Ar”, pois preferiu seguir a profissão de armador.

Sua paixão pelo mar superou a paixão pelo futebol, o que o impediu de aceitar uma proposta para atuar no Botafogo, do Rio de Janeiro e de defender a Seleção Cearense, que disputava o Campeonato Nacional da época. Suas constantes viagens de navio o impediam de dedicar mais tempo ao futebol.

Hoje, aposentado, ele dedica a maior parte do seu tempo ao “Iate Clube de Fortaleza”, localizado na Praia do Mucuripe, que já dirigiu por muitos anos até virar sócio benemérito. Inclusive a sede social, que foi toda reformada em uma de suas gestões, leva o nome de “Comodoro Francisco Martins de Lima”. “Comodoro” é um título dado ao mais velho capitão ativo, em uma companhia de navegação.

Esse triunfo sobre o Botafogo é considerado o maior feito da história do clube, somente comparado ao título estadual de 1955. Orlando Ciarlini saiu de campo como um verdadeiro herói, e seu gol é lembrado até hoje pelos torcedores mais antigos.

O “Calouros do Ar” venceu com: Chico Martins - Pedrinho e Azevedo – Jandir - Helder (Zanata) e Índio – Luciano – Zezinho - Beto (Orlando Ciarlini) - Nelsinho e Zuzinha. Botafogo: Pianoswisky - Gerson e Floriano - Arati, Bob e Juvenal – Garrincha – Dino – Carlyle - Paulinho e Vinícius. Juiz: José Tosta, da Federação Cearense de Desportos (FCD).

No dia seguinte, domingo, com a festa dos 40 anos perdendo seu brilho pela vitória do “Calouros do Ar”, na véspera, o Botafogo conseguiu a reabilitação, derrotando o aniversariante Ceará Sporting, por 2 X 0.

Após esse feito o clube começou a ser mais respeitado, e provou sua qualidade no Estadual de 1955, quando tinha apenas três anos de existência e conquistou outro feito histórico: foi campeão cearense. Sua equipe era formada, na maioria, por elementos do efetivo da Base Aérea de Fortaleza.

O Ferroviário ganhou o primeiro turno invicto. No returno, a surpresa, ficou com o “Calouros do Ar”, que chegou em primeiro. Na decisão do Campeonato, o time da “Base Aérea” ganhou a primeira partida por 2 X 0 e perdeu a segunda por 3 X 0, o que provocou um terceiro jogo.

A grande finalíssima só ocorreu no dia 11 de março do ano seguinte, e o “Calouros do Ar” repetiu o escore do primeiro jogo, 2 X 0, gols de Zezinho e Zuzinha, se sagrando campeão cearense. É o único título de expressão do clube em toda a sua existência.

O “Calouros do Ar” foi campeão jogando com Jairo - Pedrinho e Coité – Luciano - Jandir e Jesus - Edilson Araújo – Zezinho – Beto - Hélder e Zuzinha.

O ano de 1955 foi o de “ouro” para o “Calouros do Ar”, que conquistou os três títulos disputados pelos clubes da Divisão Principal cearense, uma verdadeira “tríplice coroa”. Orientado pelo treinador Paulo Salgueiro, o time ganhou o “Torneio Preparatório”, o “Torneio Início” e o “Estadual”.

A campanha do time, no campeonato de 1955: Calouros do Ar 1 X 1 Ceará; Calouros do Ar 0 X 0 Ferroviário; Calouros do Ar 1 X 2 América; Calouros do Ar 1 X 1 Nacional; Calouros do Ar 2 x 2 Fortaleza; Calouros do Ar 1 X 0 Usina Ceará;  Calouros do Ar 4 X 0 Gentilândia;  Calouros do Ar 4 X 2 Ceará; Calouros do Ar 3 X 0 Fortaleza;  Calouros do Ar 2 X 2 Ferroviário; Calouros do Ar 3 X 2 América; Calouros do Ar 0 X 1 Usina Ceará; Calouros do Ar 2 X 0 Ferroviário; Calouros do Ar 0 X 3 Ferroviário e Calouros do Ar 2 X 0 Ferroviário.

Foram 15 jogos, com sete vitórias, cinco empates e três derrotas. O ataque marcou 26 gols e a defesa sofreu 16 gols.

Os mais antigos contam que o segredo do sucesso daquela equipe era sua homogeneidade. Ela era toda integrada por jovens com idades entre 18 e 24 anos e sem nenhuma “estrela” no grupo. Outro fato que deve ser levado em conta é que durante todo o Campeonato foram utilizados apenas 13 jogadores, o que significa dizer que manteve quase sempre a mesma formação.

O grupo tinha: Jairo (goleiro), 23 anos; Pedrinho (zagueiro-direito), 22 anos; Coité (zagueiro-central), 21 anos; Luciano (médio-direito), 22 anos; Jandir (centro-médio), 23 anos; Jesus (médio-esquerdo), 24 anos; Edílson (ponta-direita), 18 anos; Zezinho (meia-direita), 22 anos; Beto (centro-avante), 23 anos; Helder (meia-esquerda), 21 anos; Zuza (ponta-esquerda), 28 anos; Azevedo (zagueiro), 25 anos e Vandir (avante), 20 anos.

Dos 13 integrantes do plantel, apenas dois não eram cearenses: o gaúcho Jesus e o potiguar Jairo.

O título do “Calouros doAr” só é comparado ao feito de um outro jovem clube, o “Tramsways”, que ganhou o campeonato de 1940. O “Tramsways” foi fundado em 1933 e era ligado a “The Ceará Tramsways Light”, empresa inglesa fornecedora de luz, força, bondes e ônibus em Fortaleza.

Em 1956 o principal feito do clube foi uma goleada de 6 X 1 sobre o Clube do Remo, de Belém do Pará, em Fortaleza. Foi terceiro colocado no Campeonato Cearense em 1953, 1956, 1960 e 1968. Em 1960, Juarez, atacante da equipe, foi artilheiro do campeonato com 14 gols. Em 1968, o artilheiro foi Célio, com 9 gols.

Nos anos 90 o time tricolor ficou sempre nas últimas posições do estadual. Em 1995 chegou a levar 10 X 1 do Tiradentes, um vexame. Até que no ano de 1998 foi rebaixado para a Segunda Divisão, ficando na antipenúltima posição de seu grupo, sem nenhum ponto, após 44 anos de participações ininterruptas na elite cearense.

Na Segundona não obteve êxito de voltar à elite, tendo chegado perto em 1999 e 2003, quando foi terceiro colocado. Em 2004, após péssima participação no estadual da Segunda Divisão, o clube foi rebaixado para a Terceira Divisão.

Em 2005 o clube foi definitivamente desligado da Base Aérea, o que acelerou mais a sua debacle.  Um ano antes, a equipe já havia caído para a Terceira Divisão do Campeonato Cearense, de onde não saiu mais.

Em 2008 fez uma boa campanha na “Terceirona”, mas acabou por não subir. E em 2009, após uma eliminação precoce o clube se licenciou das competições e ficou suspenso por suspeita de manipulação de resultado, na derrota por 8 Xa 0 para o Tauá, no desfecho da Terceira Divisão de 2008.

Em 2010, não participou de nenhuma competição, por falta de condições financeiras e se licenciou por um ano. Retomou as atividades em 2011, quando assumiu nova diretoria que lançou um projeto para o reerguimento do clube. O ex-jogador Gilberto Alenquer assumiu como presidente e técnico, renovando todas as funções do clube.

Mas a situação da agremiação é muito difícil. O quadro de sócios, que no passado foi bastante expressivo, hoje se resume a apenas 20 pessoas, que na maioria nem assiste os jogos da equipe. Apenas comparecem nas assembleias que definem novas diretorias. É o resultado de anos de maus resultados.

Muitos torcedores recordam com saudade uma partida realizada na década de 1960, reunindo o América, campeão de 1966, e o “Calouros do Ar”, vencedor de 1955, que levou uma grande multidão de torcedores ao “Estádio Presidente Vargas”.

Em âmbito nacional o “Calouros do Ar” chegou a disputar o “Torneio Norte-Nordeste “de 1968 e a 2ª Divisão brasileira em 1971 e 1972, sem conseguir passar da primeira fase.

Nesses últimos dois anos o clube teve a presença de Gildo, maior artilheiro da história do Ceará.

Títulos: Campeão Cearense (1955); Campeão do Torneio Preparatório (1955); Campeão do Torneio Início (1955, 1958, 1968 e 1971).

Competições oficiais disputadas: Campeonato Brasileiro da Série B (1971 e 1972); Campeonato Cearense da Primeira Divisão (1953 a 1998); “Torneio Norte-Nordeste” (1968); Campeonato Cearense da Segunda Divisão (1999 a 2004); Campeonato Cearense da Terceira Divisão (de 2005 até hoje).

O clube tem apenas dois torcedores que se pode dizer “de coração”. Eliseu Alves Feitosa, de 72 anos, que foi massagista e roupeiro do clube. Trabalhou lá de 1965 a 2009. E guarda até hoje a camisa do time.
O outro é o militar reformado da Aeronáutica, Wambar Menescal, considerado o grande baluarte do clube. Ele guarda até hoje fotos, camisas, documentos raros e até o troféu do Campeonato Cearense de 1955, a maior conquista do “Calouros do Ar”.

Tudo o que ele tem sobre o “Calouros do Ar” é bem organizado e conservado, até a partitura do hino e as letras do primeiro e segundo hino do clube. Além da taça de 1955, traz na memória a emoção vivida quando da vitória sobre o Botafogo, do Rio de janeiro, em 1954.

Seu Wambar é o próprio “Calouros do Ar”. A história mais vitoriosa do clube está com ele, em documentos e na memória. (Pesquisa: Nilo Dias) 
  
1955 - Campeão Cearense da Divisão Principal. Em pé: Jairo - Pedrinho - Coité - Luciano - Jandir - Jesus e o major Salgueiro (diretor). Agachados: Porenga (massagista) - Vandir - Zezinho - Beto - Hélder e Zuzinha. (Foto: Acervo de Jurandy Neves)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O “tigre” curitibano

O futebol paranaense ostenta um recorde mundial de fusões, que acabaram pela criação do Paraná Clube. O clube para chegar a sua atual denominação passou por quase um século de fusões e trocas de nomes.

Essa história envolve vários clubes, Leão F.C. e Tigre F.C.: (que se uniram e formaram o Britânia S.C.). Savóia F.C. e E.C. Água Verde: (em 1926, após uma fusão entre eles foi criado o Savóia-Água Verde. No dia 3 de março de 1942 o clube foi obrigado pelo Governo Federal a mudar o nome para E.C. Brasil, pois havia sido declarada guerra à Itália e o nome Savóia, era uma clara homenagem áquela nação. Em 1944 voltou a chamar-se Água Verde. Em 1971 mudou o nome para E.C. Pinheiros).

Palestra Itália F.C.: (na guerra chamou-se Paranaense E.C., C.A. Comercial e S.E. Palmeiras. Depois voltou ao nome original. Era conhecido como “Periquito”, por conta da camisa e “Nem que Morra”, pelos jogadores. Em 1971 fundiu-se com o Britânia e o Ferroviário criando o Colorado E.C.).

C.A. Ferroviário: (uniu-se ao Britânia e ao Palestra Itália criando o Colorado E.C.). Colorado E.C.: (resultado da fusão entre Britânia, Ferroviário e Palestra Itália). E.C. Pinheiros: (antigo E.C. Água Verde que mudou de nome em 12 de agosto de 1971. Em 1989 o Pinnheiro uniu-se ao Colorado E.C. e foi criado o Paraná Clube).

Tudo teve início no distante dia 30 de novembro de 1914, quando um grupo de jovens funcionários da fábrica de vidros Solheid, fundou o Britânia Sport Club. Foi o resultado da fusão entre dois times do bairro Rebouças: o Leão F.C. e o Tigre F.C., ambos formados por adolescentes da região.

Depois de uma partida entre eles confraternizaram com um churrasco, isso no dia 19 de dezembro de 1914. Foi nesse ambiente de festa, que o senhor Carlos Thá teve a idéia de propor a fusão das duas equipes.

O nome Britânia foi escolhido para homenagear a Grã-Bretanha, já que alguns dos fundadores do clube eram ingleses. Os torcedores passaram a chamar o novo clube de “tigre”, pois o seu primeiro campo se localizava nos limites da cidade, e se dizia que dali daquele mato em diante poderia-se encontrar qualquer coisa, até “tigre” escondido.

Outra versão é de que o apelido “tigre” tenha sido herança do nome de um dos clubes que deu origem ao Britânia, o Tigre F.C. Seja uma versão, ou outra, a verdade é que a “fera” passou a ser a “mascote” da novel agremiação.

A primeira Diretoria ficou assim constituída: Presidente, Francisco Zanicotti; Secretário, João Tesserolli; Tesoureiro, João Felipe Galli. O Britânia mantinha um bom quadro social, em que despontavam as famílias Volpi, Zardo, Marinoni e Schiavon. Na sede social, eram realizados bailes famosos.

Nos seus primeiros anos de vida o Britânia treinava num terreno onde hoje fica a Tecnológica Federal do Paraná. Naquele tempo era uma área fora da cidade, pois o perimetro urbano terminava na rua Visconde de Guarapuava.

Em 1916 foi vice-campeão parananese. De 1918 a 1923, sagrou-se exa-campeão. O Britânia foi o primeiro clube no Paraná a conseguir tal feito. Os historiadores creditam essa surpreendente conquista ao fato do time, que ao contrário dos adversários, não fazia restrições a jogadores negros.

E não deixando de se reconhecer a regularidade da equipe, que se manteve a mesma desde 1915. O destaque do time era Joaquim Martin, o maior artilheiro da história do Britânia.

Alguns anos depois da fundação, o clube ergueu uma sede social num belo prédio na Praça Eufrásio Correia, em frente a antiga estação ferroviária.

Todos os domingos havia jogos, jantares e bailes. Eram os anos 1920 e 1930 e Curitiba era uma festa. As vitórias e títulos eram comemorados com grandes reuniões festivas, reunindo as moças mais bonitas da sociedade. Naquela época, as melhores e mais badaladas festas aconteciam no Britânia.

O clube ainda conquistou mais um campeonato estadual, em 1928, quando ainda contava com alguns jogadores veteranos do exa. Depois, nunca mais colocou a mão na taça. Mesmo assim, é um dos cinco clubes com o maior número de conquistas estaduais.

A partir daí passou a participar apenas como figurante nas competições que disputou. A exeção foi no campeonato de 1964, quando conseguiu sua última façanha: um honroso terceiro lugar.

Em 1922, a equipe excursionou pelo Rio de Janeiro, quando disputou dois jogos no estádio de General Severiano. A primeira partida do então penta-campeão paranaense aconteceu no dia 10 de dezembro, contra a equipe do Botafogo e empatou em 1 X 1.

No dia 17 de dezembro venceu a equipe do Vasco da Gama por 2 X 0. Foi a primeira viagem de uma equipe do Paraná para atuar em outro Estado brasileiro.

Enquanto o futebol se profissionalizava em todo o Estado, o Britânia agonizava numa lenta decadência, até que em 1971 se fundiu com outros dois clubes tradicionais, Ferroviário e Palestra Itália, formando o Colorado Esporte Clube.

A decadência do Britânia teve origem na criação do Clube Atlético Ferroviário, em 12 de janeiro de 1930, depois de uma cisão dentro do clube. O Britânia, com isso, perdeu a ajuda que recebia da Viação Ferroviária Paraná-Santa Catarina, desde a sua fundação.

A empresa pagava jogadores, como se fossem seus funcionários. A partir da fundação do Ferroviário, tudo mudou para pior. O patrocínio, os atletas-funcionários, os negros e até os torcedores guarda-freios, graxeiros e eletricistas dos trens, migraram para o novo clube. A partir daí os gozadores de plantão diziam que o “Tigre teve suas presas limadas”.

O Ferroviário chegou a ser um “gigante” do futebol paranaense, tendo sido bi-campeão estadual em 1937 e 1938 e também em 1944 e 1948. Levantou a taça ainda em 1953. Voltou a ser bicampeão em 1965 e 1966. Foi o primeiro representante do Estado no antigo “Torneio Roberto Gomes Pedrosa”, o “Brasileiro” da época.

O Ferroviário ganhou o apelido de "Esquadrão de Aço" na década de 40, quando realizou alguns amistosos no Rio Grande do Sul e voltou para Curitiba invicto. Foi campeão do "Ano Santo" em 1950 e sua maior conquista foi o título de "Campeão do Centenário" em 1953.

A decadência dos chamados clubes “pequenos” também foi obra do “trio de ferro”, Ferroviário, Atlético e Coritiba, que assediavam as revelações dessas equipes, oferecendo empregos e outras vantagens.

No caso do Atlético emprego no Governo Estadual; do Ferroviário, na Rede Ferroviária Federal; e o “Coxa” argumentava com recursos de empresários fortes. Os demais só olhavam sem nada poderem fazer.

Flávio Merinoni jogou no Bretânia e trabalhava na Rede Ferroviária Federal. Pressionado a ir para o Ferroviário, ele continouou no “Tigre”. Rafael Machado, o “Faéco” teve de optar em continuar no Britânia ou perder o emprego na Rede Ferroviária Federal. Preferiu deixar de vez o futebol.

Até o começo dos anos 30, o Coritiba F.C. alugava o estádio do “Parque Graciosa”, no Bairro “Juvevê”. Mas depois de um acerto com o proprietário, o clube foi ressarcido pelas benfeitorias feitas, e com o dinheiro recebido pagou a entrada do terreno no “Alto da Glória”. E até o “Belfort Duarte” ficar pronto continuou usando o “Parque Graciosa”.

Em 1933, com a ida do Coritiba para a sua nova casa, o Britânia passou a usar o “Parque Graciosa”, onde mandou seus jogos até 1940.

Os torcedores chamavam esse estádio de “Cimento Armado”, não pelas arquibancadas, que foram reformadas em 1927, mas pela dureza do gramado. A partir de 1941, passou a ser utilizado pelo Palestra Itália para treinamentos, depois vieram os jogos da “Suburbana”, um campeonato amador realizado em Curitiba, até ser loteado.

O Britânia só conseguiu ter o seu estádio próprio na década de 40, graças ao coronel Francisco de Paula Soares Netto, um médico do Exército Brasileiro que foi presidente da Federação Paranaense de Futebol (FPF) e do Britânia nas décadas de 30 e 40.

Ele tinha ótimos contatos e não teve dificuldades em conseguir os recursos para que o clube adquirisse uma área na rua Carlos Dietzsch, no Bairro “Portão”,próximo a igreja,  num local arborizado e belissimo conhecido como “Fazendinha”.

Em retribuição aos esforços do coronel, o Britânia batizou o seu estádio de “Paula Soares”. A inauguração aconteceu no dia 15 de agosto de 1943, com o jogo Avai (SC) 4 X 1 Britânia. Não chegava bem a ser um estádio, mas era fechado e ali o clube realizava treinos e alguns jogos.

Não demorou muito tempo para que o Britânia vendesse o estádio para à indústria textil Ibicatu Agro Industrial S.A., que também mantinha um time de futebol. Em compensação, recebeu da prefeitura permissão para erguer seu novo estádio em outra área.

Quando começou a construir seu novo “Estádio Paula Soares”, o prefeito revogou a autorização, porque a área havia sido doada à prefeitura com a condição de nela ser feita uma praça, que viria a ser a “Praça Botelho de Souza”.

Para não deixar o clube mal, doou um terreno localizado na “Estratégia”, nome da estrada entre Curitiba e São José dos Pinhais, construída pelos americanos durante a guerra.

Em 6 de junho de 1965, o Britânia inaugurou o seu último “Estádio Paula Soares”, que se localizava na avenida Comendador Franco, também conhecida por “avenida das torres”, no Bairro Guabirotuba, às margens da BR-116.

Na ocasião derrotou o Água Verde por 3 X 2, em jogo válido pelo Campeonato Paranaense. O time do Britânia, naquela ocasião, formou com Barbosa – Zé Carlos – Acir – Marcelo e Antero – Clayton – Grão – Fiúza e Airton - Kruger – Soca e Martins.

Soca fora campeão pelo Grêmio, de Maringá, em 1960 e Kruger viria a ser tempos depois um grande ídolo do Coritiba. O estádio era bem estruturado, com vestiários modernos e uma grande novidade, banheiras térmicas.

O novo “Paula Soares” não deu muita sorte ao time principal do Britânia, pois nesse mesmo ano de 1965 foi rebaixado, após perder o “Triangular da Morte”.  O mesmo não se pode dizer das categorias inferiores do clube: nesse período, o Britânia foi vice-campeão de aspirantes em 1965, bicampeão de juvenis em 1967-1968 e vice de juvenis em 1969.

Em 1998 o estádio foi vendido para a rede atacadista (Sonae Atacadista) que construiu a loja “Big Hipermercados”.

Em 1966 disputou a 2ª Divisão. Mas para resolver uma crise entre os clubes da “Primeirona”, foi estabelecido que o certame daquele ano contaria com 14 clubes.

A última vaga foi decidida num torneio hexagonal, denominado “Torneio Esperança”, que foi vencido pelo Britânia – seu último título. Conquistada a vaga, terminou a competição em último lugar, voltando a “Segundona”, em 1970, sem obter classificação.

Títulos do Britânia: Vice-Campeão Paranaense: (1916); Campeão Paranaense: (1918, 1919, 1920, 1921, 1922, 1923 e 1928); Torneio Início: (1919, 1923, 1926, 1928, 1933, 1959 e 1961); Torneio Esperança: (1968); Campeonato Paranaense de Juvenis: (1967 e 1968).

Artilheiros do clube no Campeonato Parananese: Joaquim Martin, com 17 gols em 1918, 7 gols em 1919, 9 gols em 1920, 17 gols em 1921 e 25 gols em 1922. “Faéco”, com 21 gols em 1923 e Marinoni, com 6 gols em 1928.

Além de ser um dos dois únicos clubes exa-campeões estaduais – o outro é o Coritiba -, o Britânia conquistou três campeonatos de forma invicta (1921, 1922 e 1923) e em sete ocasiões teve o artilheiro da competição. O Britânia das décadas de 1910 e 1920 era quase imbatível.

Em 17 de março de 1971, o Britânia fez fusão com o C.A. Ferroviário, que também vivia um período de decadência, pois não tinha mais o apoio da rede ferroviária, e o Palestra Itália F.C., que estava fora do futebol profissional desde 1967, para formação do Colorado E.C. O novo clube escolheu o Estádio Durival de Brito para sediar seus jogos.

O “Estádio Paula Soares” tinha instalações acanhadas, que não permitiriam seu aproveitamento em jogos oficiais, apenas para alguns treinamentos quando o gramado da Vila necessitasse ser poupado. Ou para abrigar as Feiras do Comércio e Indústria do Paraná (Fecip).

Em 19 de dezembro de 1989 o Colorado E.C. fez fusão com o E.C. Pinheiros, nascendo o Paraná Clube. O último jogo do Colorado aconteceu na tarde de 8 de julho de 1989. Jogando em seu estádio, o Durival de Brito e Silva, o time vermelho e branco empatou com o Coritiba em 3 X 3.

Luisinho marcou o último gol da história do Colorado, o terceiro de sua equipe no jogo. Roberto Gaúho, do Coritiba marcou o último gol sofrido pelo extinto clube da “Vila Capanema”.

Com a fusão, o Paraná Clube herdou os estádios Durival Britto (do Colorado, o “Paula Soares”, do Britânia, o do Palestra Itália, e os dois estádios do Pinheiros: “Erton Coelho de Queiroz”, que o Paraná ainda utilizou em algumas partidas e o “Orestes Thá”, na Vila Guaíra, que pertenceu ao extinto E.C. Água Verde. Na área onde se localizava o estádio, foi erguida a suntuosa sede do Paraná Clube.

Embora não faltassem estádios, o Paraná Clube ainda arrendou o “Pinheirão”, após o Atlético rescindir o contrato que tinha com a FPF, em 1994.

O Paraná Clube manda seus jogos no Durival de Brito, carinhosamente chamado de Vila “Capanema”. O estádio se localiza na região central de Curitiba, no bairro do “Jardim Botânico”.

A Construção do Estádio Durival Britto foi um marco na vida do Clube Atlético Ferroviário e na história do futebol paranaense. Depois de inaugurado em 23 de janeiro de 1947, ele passou a ser o terceiro maior estádio do país, na época, com capacidade inferior apenas ao Pacaembu, em São Paulo e ao São Januário, no Rio de Janeiro.

Para a pacata Curitiba dos anos 40, o majestoso estádio construído no antigo terreno da chácara do “Marquês de Capanema” foi um acontecimento histórico que mereceu os mais variados tipos de análises, avaliações e comemorações.

A “Vila Capanema” é um verdadeiro templo do futebol paranaense, pois foi a única praça esportiva do Estado a sediar uma partida pela Copa do Mundo, em 1950. São 58 mil metros quadrados de área e de tradição.

Palco de grandes momentos do passado, o estádio foi reinaugurado em setembro de 2.006, com a ampliação da capacidade de 12.100 para 20.083 espectadores.

A “Vila Capanema” passou por uma grande reforma, sendo totalmente revitalizada, ganhando uma nova arquibancada, novos camarotes, novas lanchonetes, novos sanitários, uma nova sala de imprensa e o maior estacionamento entre os estádios dos clubes da capital.

Com o abandono, o “Estádio Paula Soares” agonizou durante esse período. As arquibancadas continuavam em pé. As telhas caíam aos poucos. O mato tomava conta do entorno do campo. No entanto, o gramado mesmo continuava aparado.

Com um pouco de sorte, se via até alguma atividade, como um treino de jogadores, um “rachão” ou algo assim. Alguns sócios do Paraná Clube usavam o campo para treinar beisebol.

Tempos depois, do telhado só havia sobrado o esqueleto de concreto e o campo já tinha sido devidamente engolido pelo capim. As arquibancadas cinzentas do “Paula Soares” foram finalmente demolidas, em 1998, para construção de uma filial do Hipermercado “Big”.

O nome do coronel “Paula Soares”, porém, não teve o mesmo triste fim do estádio. Hoje ele é lembrado como “Patrono” do tricolor da “Vila Capanema”.

Uma curiosidade: no Cemitério Municipal de Curitiba existe uma cripta com o símbolo do clube e alguns jogadores sepultados – com foto e tudo. (Pesquisa: Nilo Dias)

Britânia S.C. no início do século XX. (Foto: Arquivo da Federação Paranaense de Futebol -FPF) 

sábado, 26 de outubro de 2013

A tragédia do “Albertão”

No último dia 26 de agosto fez 40 anos da chamada “Tragédia do Albertão”, ocorrida durante a inauguração do Estádio Alberto Silva, em Teresina, com o jogo amistoso entre o time local da Sociedade Esportiva Tiradentes, que pertencia ao Clube dos Oficiais da Polícia Militar do Estado do Piauí, e o Fluminense, do Rio de Janeiro.

O estádio recebeu aproximadamente 30 mil pessoas, que lotaram as arquibancadas. Vieram torcedores do interior do Estado e também do Maranhão. Por volta de 25 minutos de jogo, um avião que sobrevoava o estádio, causou uma sensação de tremor.

Um torcedor não identificado teria gritado: “O estádio está caindo". Foi o que bastou para provocar uma enorme confusão. Os torcedores corriam desesperados tentando sair das arquibancadas, e devido a forte pressão uma das barras de segurança rompeu, jogando várias pessoas dentro do fosso, que tinha uma profundidade de quase 3 metros.

Até hoje não há certeza absoluta de quantas pessoas morreram na queda, mas segundo os jornais da época, teriam sido de cinco a sete. E centenas de outros torcedores sofreram ferimentos. O jogo teve de ser paralisado por cerca de uma hora. Até os jogadores ajudaram no resgate das vítimas. Os feridos foram levados para os hospitais Getúlio Vargas, Casamater e Samdu, que ficaram superlotados.

O jogo recomeçou e foi até o seu final, porque o próprio presidente da CBD deu a opinião que o jogo continuasse, porque se não a repercussão ia ser pior ainda. Mas o estrago já estava feito, o que era para ser uma festa acabou em tragédia. O resultado foi um empate em 0 X 0.

O Tiradentes jogou com Toinho – Marinho - Ivan Limeira - Murilo e Tinteiro (Valdeci Lima) - Gérson Andreoti e Joel – Gringo – Sima – Ventilador (Russo) e Bira. O Fluminense levou a campo Vitório – Toninho – Bruñel - Assis e Marco Antônio - Carlos Alberto e Kléber (Adílson) – Marquinhos – Manfrini – Dionísio (Té) e Lula.

As investigações policiais que se seguiram, bucaram identificar o torcedor que teria gritado dizendo que o estádio estava caindo. Mas não obtiveram êxito. O avião que sobrevoara o estádio trouxera o presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, que veio assistir o jogo.

A imprensa da época abordou o caso de forma responsável, e até a oposição política ao governador do Estado portou-se de forma conveniente. A certeza era uma só, que algum irresponsável ao gritar que o estádio estava caindo, levou os demais torcedores a situações de desespero, resultando em algumas mortes.

Passados 40 anos da tragédia, inexplicávelmente até hoje não se chegou a um consenso no numero de mortos do acidente. Segundo as autoridades e noticias dos jornais da época ficou entre 5 a 7 mortos. Mas há quem diga que foi mais, e que a verdade não chegou ao público porque vivíamos no regime militar, e não era interessante a publicação de coisas negativas.

Depois da tragédia, o “Albertão” foi fechado por ordem das autoridades e ficou um ano sem sediar jogos, quando passou por profundas reformas. A partida de reabertura foi entre Flamengo (PI) X Vasco da Gama (RJ), pela Copa do Brasil, com vitória do time carioca por 4 X 1. O público registrado nessa partida foi de mais de 25 mil pagantes.

Tempos depois, por ordem da já Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a capacidade de público do “Albertão” foi diminuída para 40 mil expectadores. Por isso o recorde de público verificado em 1983, quando 60.271 torcedores assistiram o jogo Tiradentes 1 X 3 Flamengo, do Rio de Janeiro, nunca será quebrado. Antes, em 1975, o Flamengo já havia jogado no “Albertão”, quando enfrentou o mesmo Tiradentes e perdeu por 3 x 2, pelo Campeonato Brasileiro.

O recorde absoluto de público, no entanto, não foi obtido por torcedores de futebol e sim pelos fãs mirins do grupo musical “Balão Mágico”, que fez muito sucesso na primeira metade da década de 80.

O maior estádio do Piauí tem muita história. Por seu gramado já passaram craques da envergadura de Rivelino, Ronaldo “Fenômeno”, Dirceu Lopes, Zico, Sócrates, Dunga, Carpegianni, Edinho, Edu, Clodoaldo, Marco Antônio, Sima, Roberto Carlos, Tulio e tantos outros.

Um momento de muita emoção aconteceu em 1977, quando Flamengo e River, protagonistas do clássico “Rivengo”, decidiram o campeonato estadual em três jogos memoráveis. Mais de 100 mil pessoas foram assistir os jogos (40 mil só no terceiro jogo), no maior sucesso de bilheteria até hoje no certame piauiense.

Em 1982 aconteceu o jogo épico entre as seleções de Juniores do Piauí e Rio Grande do Sul, decidindo o Campeonato Brasileiro entre seleções estaduais. O Piauí venceu o forte time gaúcho, que contava com atletas do porte de Dunga e Branco, que depois se tornaram estrelas mundiais do futebol, por 2 X 1.

Embora vencendo o time piauiense perdeu o título no saldo de gols, já que o Rio Grande do Sul havia vencido o primeiro jogo por 2 X 0, em Porto Alegre.

Outro momento grandioso vivido no estádio foi quando o Tiradentes derrotou o Corinthians Paulista, por 2 X 1. Era o tempo da famosa “Democracia Corinthiana”, liderada pelo saudoso craque Sócrates.

Também não podem ser esquecidos outros jogos históricos pelo campeonato brasileiro: Tiradentes 1 X 0 Corinthians-SP (1973); Tiradentes 2 X 1 Botafogo-RJ (1974); Tiradentes 3 X 2 Flamengo-RJ (1975); Tiradentes 1 X 0 Palmeiras-SP (1975); River 3 X 1 Fluminense-RJ (1981) e Cori-Sabbá 1 X 0 Botafogo-RJ.

E o jogo em que a Seleção Brasileira, com três gols de Ronaldo “Fenômeno”, ganhou do selecionado da Lituânia por 3 X 0. Foi uma das melhores atuações do craque vestindo a camisa da Seleção. O time canarinho jogou outras duas vezes no “Albertão”: a primeira, em 1989, quando derrotou o Paraguai por 2 X 0. A outra, em 1991, oportunidade em que a Seleção Pré-Olímpica perdeu para a Argentina por 1 X 0.

O primeiro gol no “Albertão” foi marcado na noite de 29 de agosto de 1973 no jogo entre Cruzeiro, de Minas Gerais e Tiradentes. O autor foi Dirceu Lopes aos 17 minutos do segundo tempo, para o time mineiro. Sete minutos depois, Joel marcou para o Tiradentes e o placar final foi 1 X 1.

O Governador Alberto Silva construiu as primeiras etapas da obra. As seguintes, até chegar à capacidade total de 60 mil pessoas (hoje baixou para 40 mil), foram construídas nas administrações dos governadores Dirceu Arcoverde e Lucídio Portela.

Nos últimos tempos, pouco foi feito no “Albertão”. Partes importantes do projeto nunca foram executadas, por falta de interesse dos governos e por falta de trabalho dos clubes que não fazem boas campanhas nos campeonatos que disputam, e em consequência não  provocam ações concretas do poder público.

Neste ano de 2013, quando o “Albertão” completou 40 anos, apenas um jogo foi disputado lá: Flamengo (Piauí) 2 X 2 Santos, pela Copa do Brasil. No mais, o estádio permaneceu fechado e continua assim. Até quando, não se sabe. (Pesquisa: Nilo Dias)

A tragédia deixou um saldo de cinco a sete mortos. (Foto: Divulgação)