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terça-feira, 1 de outubro de 2019

Mais um clube gaúcho torna-se centenário

O Clube Esportivo Bento Gonçalves, conhecido apenas como Esportivo, é mais um clube gaúcho e brasileiro a se tornar centenário. Fundado no dia 28 de agosto de 1919, o clube tem sua sede na cidade de Bento Gonçalves.

O primeiro jogo oficial foi disputado no dia 21 de setembro do mesmo ano, tendo empatado pelo placar de 1 X 1 com a equipe do Garibaldi. O primeiro título amistoso foi em 1939, quando ganhou a “Taça Perdigueiro.”

A primeira conquista a nível estadual ocorreu em 1969, com o título da segunda divisão do “Campeonato Gaúcho”, estabelecendo assim uma expansão da marca do clube para todo o Estado.

No ano seguinte, em 1970, a equipe passou a disputar a primeira divisão do “Campeonato Gaúcho”, onde, naquele mesmo ano, se sagrou campeã do interior, ao terminar o campeonato na quarta posição.

Os principais títulos conquistados pelo clube foram a “Copa FGF” de 2004, a “Copa Governador do Estado” em três oportunidades, a “Divisão de Acesso” do “Campeonato Gaúcho”, também em três oportunidades e o “Campeonato do Interior” em seis oportunidades.

A equipe já participou de competições nacionais, como a “Copa do Brasil”, onde atingiu a segunda fase em 2005, bem como três vezes da “Série B” e outras três da “Série C” do “Campeonato Brasileiro”. Atualmente, integra a “Divisão de Acesso” do “Campeonato Gaúcho”.

Os jovens da recém formada cidade de Bento Gonçalves praticavam futebol aos finais de semana, jogando em campos improvisados, terrenos baldios, ou locais cedidos por alguma família, espalhados por diferentes zonas da cidade.

A cidade já possuía alguns times amadores, os principais eram São Luiz, Canto-Fura, Liberal e Caramuru. Por serem amadores, estes clubes não tinham consistência para enfrentar igualmente agremiações das cidades vizinhas de Caxias do Sul, Garibaldi, Carlos Barbosa, Alfredo Chaves, Prata e Montenegro.

Com a ideia de representar a cidade em competições intermunicipais, Leonardo Carlucci lançou a ideia de fundar um clube que pudesse tomar parte nas competições intermunicipais.

A sugestão foi aprovada por todos e foi criado o clube, que a princípio chamava-se "Club Sportivo Bento Gonçalves", afirmando a forte influência italiana. Em 24 de agosto de 1919, o clube formado, elegeu seu primeiro presidente, Gastão de Almeida, e vice-presidente, Ernesto Lorenzoni.

A inauguração do clube, no dia 21 de setembro de 1919, foi tida como um grande evento na cidade, marcado pelo comparecimento dos associados e vários convidados no ato realizado.

Depois, foram assistir ao primeiro jogo da equipe, enfrentando o Garibaldi. Antes da partida ocorreu a apresentação da banda de Bento Gonçalves.

Referente ao jogo entre os clubes de Bento Gonçalves e de Garibaldi não existem muitos relatos, porém sabe-se que a partida terminou empatada em 1 X 1.

O Esportivo estava assim escalado: Pasquetti - Holleben e Salton. Cardoso - Turcato e Enricone. Zanoni – Fedullo – Bissaco - Ros e Ponzoni.

Logo após sua fundação, o Esportivo começou a construir sua trajetória pelo interior do estado do Rio Grande do Sul. Como resultado disso, as agremiações de caráter amador que pertenciam a cidade de Bento Gonçalves acabaram cessando suas atividades, devido ao fato de praticamente todos os jogadores terem se transferido para o Esportivo.

O Esportivo em seus primeiros anos de existência realizava muitas excursões para as cidades vizinhas de Garibaldi e Carlos Barbosa. As viagens até o destino das partidas eram realizadas por meio de trem, carroças ou a cavalo.

Como os jogadores não recebiam nada pelos seus serviços e nem todos podiam cobrir as despesas de tais viagens, outros jogadores mais favorecidos economicamente e sócios custeavam esses valores.

Uma rivalidade grande com equipes de Caxias do Sul foi formada. Os principais adversários eram o Juvenil, Juventude e Americano. Os times caxienses eram mais antigos e possuíam reforços de jogadores estrangeiros, principalmente uruguaios que eram famosos na época.

Relatos afirmam que a rivalidade era tanta que muitas vezes as partidas não eram concluídas por confusões geradas dentro do campo de jogo. Porém, ao término do confronto, à noite o time mandante oferecia um baile aos visitantes, onde ocorria uma confraternização.

No ano de 1923, a cidade de Bento Gonçalves recebeu a equipe do Grêmio Foot Ball Porto Alegrense, que enfrentou o time local. O Esportivo terminou o primeiro tempo vencendo por 2 X 0 .

Entretanto, o Grêmio, comandado por Eurico Lara conseguiu se sobressair na segunda etapa devido ao melhor preparo físico, marcando seis gols e vencendo o jogo pelo placar de 6 X 2.

Somente 15 anos depois da visita do Grêmio, no dia 23 de outubro de 1938, o Esportivo disputou novamente um jogo com outro tradicional clube de Porto Alegre.

O Sport Club Internacional realizou um amistoso com o Esportivo, marcado por grande festividade, e homenagem do Esportivo presenteando o Internacional com um buquê de flores.

Na partida, a equipe do Esportivo obteve uma vantagem de 3 X 1, porém não resistiu à pressão imposta pelo Internacional, que empatou o jogo em 4 X 4.

Apenas 22 anos depois de sua fundação, no dia 24 de setembro de 1941, o Esportivo deu os primeiros passos para adquirir o próprio estádio. Erny Hugo Dreher, presidente do clube, enviou ofício ao então prefeito de Bento Gonçalves, João Dentice, solicitando junto a prefeitura a doação de um terreno para a construção de seu estádio.

Primeiramente, o presidente Dreher expôs que há mais de 20 anos já havia solicitado junto à prefeitura um terreno para a prática do futebol pelo clube. Também, disse que o terreno cedido pela prefeitura foi cercado e a infraestrutura melhorada com despesas pagas pelo próprio clube, mas que as melhorias já não se encontram mais em boas condições.

Outro ponto destacado pelo presidente do Esportivo foi a solicitação de auxílio financeiro de sete contos e quinhentos mil réis à prefeitura, para uma reforma no campo que já não estava em boas condições, principalmente para prática do futebol.

No ano seguinte, em 19 de abril de 1942, foi lançada a pedra fundamental para a construção do novo estádio. Enquanto as obras do estádio seguiam, o Esportivo continuava sua caminhada em jogos, já percorrendo todo estado, participando inclusive do campeonato estadual amador.

A inauguração do estádio do Esportivo ocorreu três anos depois de iniciadas, em 26 de agosto de 1945. A maior renda vista no estádio do Esportivo, nesta época, foi na data de sua inauguração, em uma partida comemorativa contra o Clube Atlântico da cidade de Erechim.

Cerca de quatro mil espectadores estavam presentes gerando uma renda de quase 900 mil cruzeiros, recorde no Estado naquele período. Os jogadores de ambos os times foram recebidos com fogos, confetes e serpentinas.

Dante Marcucci, fundador do Juventude, de Caxias do Sul sobrevoou as imediações do estádio com a esquadrilha de aviões do aeroclube de Caxias do Sul.

Além disso, clubes do Estado enviaram presentes ao Esportivo, parabenizando o clube pela data. A partida terminou empatada em 0 X 0. O estádio, denominado “Estádio da Montanha”, estava localizado em uma área elevada da cidade, onde hoje é o bairro “Cidade Alta”.

Em 1952, a equipe disputou sua primeira competição profissional, a “Segunda Divisão”, onde foi eliminado na fase de grupos. Jogou os campeonatos de 1953, 1954, quando foi campeão do torneio da zona leste e classificou-se para a fase final, onde terminou na terceira colocação. 

Em 1955, não participou de nenhum campeonato. Em 1956 e 1957 a equipe classificou-se para as semifinais e terminou a competição na terceira e quarta colocação, respectivamente. Entre os anos de 1958 e 1968, a equipe disputou os torneios preliminares da “Segunda Divisão”, porém não conseguiu classificar-se para a fase final.[

Continuou as disputas em 1969, alcançando pela primeira vez classificação para a primeira divisão do “Campeonato Gaúcho de 1970Entre os anos de 1971 e 1978, a equipe não fez grandes campanhas no “Campeonato Gaúcho”, terminando na terceira colocação nas edições de 1971 e 1976 e na quarta colocação em 1973 e 1978.

Nesta década, a equipe conquistou vitórias importantes sobra a dupla Grenal. Contra o Grêmio venceu por 5 X 2 em 1971, encerrando a sequência de 24 partidas sem derrotas da equipe, e contra o Internacional, onde venceu por 2 X 1, sendo a primeira equipe do interior gaúcho a vencer no “Estádio Beira-Rio”.

Já na edição de 1979, a equipe fez a melhor campanha da sua história no Campeonato Gaúcho. A equipe conquistou 17 pontos e foi vice-campeã do “Campeonato Gaúcho”, terminando o campeonato a frente de equipes tradicionais, como o Internacional e Juventude.

Com a conquista, a equipe teria direito de disputar a primeira divisão do “Campeonato Brasileiro”, porém, segundo anunciado pela “Federação Gaúcha de Futebol”, a equipe não teria um estádio adequado para a disputa da primeira divisão.

Entre 1970 e 1991, a equipe disputou a “Copa Governador do Estado”, na qual foi campeã em três oportunidades. 

No dia 30 de maio de 1979, ocorreu um jogo histórico no futebol brasileiro. O Esportivo enfrentou o Grêmio na “Montanha”, num jogo disputado com muita neve, numa temperatura que chegou a -2 °C. Pessoas que filmavam a partida aproveitaram para fazer tomadas deste jogo histórico. A partida terminou em 0 X 0 e foi batizada como "O Jogo da Neve".

Além destes títulos, a equipe também conquistou o “Campeonato do Interior Gaúcho” em seis oportunidades (1970, 1971, 1976, 1979, 1982 e 1987), título que era muito cobiçado pelas equipes do interior gaúcho na época.

No “Campeonato Gaúcho” de 1980, a equipe foi rebaixada para a “Segunda Divisão”. Na “Segunda Divisão” de 1981, a equipe terminou a primeira fase na primeira colocação e foi promovido novamente para a “Primeira Divisão”.

Na década de 80, a equipe passou a disputar competições a nível nacional, participando do “Série B” em três oportunidades. Em 1983 terminou na terceira colocação com seis pontos ganhos em cinco jogos, tendo duas vitórias, dois empates e uma derrota, não conseguindo qualificar-se para a próxima fase.

Disputou pela segunda vez em 1987, terminando na última colocação, com apenas dois pontos ganhos em cinco jogos, com nenhuma vitória, dois empates e três derrotas.

A última participação na “Série B” foi em 1989, terminando novamente na última colocação, com apenas dois pontos ganhos em 10 jogos, com nenhuma vitória, dois empates e oito derrotas.

A equipe participou da “Série C” também por três oportunidades. Na primeira participação, em 1988, ficou na terceira colocação com nove pontos ganhos em seis jogos, apenas a dois pontos da classificação para a próxima fase.

Participou novamente em 2004, terminando novamente em terceiro lugar, com cinco pontos conquistados em seis jogos, tendo uma vitória, dois empates e três derrotas.

Sua última e melhor participação foi na edição de 2007, onde foi eliminado somente na terceira fase.

No “Campeonato Gaúcho” de 1997, a equipe foi rebaixada após terminar o campeonato na última colocação, conquistando apenas sete pontos em 13 jogos disputados, com uma vitória, cinco empates e sete derrotas.

Já em 1999, a equipe conquistou seu bicampeonato da “Segunda Divisão”. No quadrangular final, a equipe terminou novamente na primeira colocação, com 15 pontos ganhos em seis jogos, tendo cinco vitórias e uma derrota, sagrando-se bicampeão da “Segunda Divisão” e conquistando a vaga para a “Série A” de 2000.

Entre os anos de 2000 e 2004, a equipe não fez campanhas de destaque no “Campeonato Gaúcho”, terminando sempre entre a quinta e a sétima colocação.

O ano de 2004 foi marcado por grandes conquistas para a equipe. No dia 29 de fevereiro de 2004, o Esportivo inaugurou seu novo estádio, o “Parque Esportivo Montanha dos Vinhedos”, durante amistoso contra o Pelotas, onde venceu por 2 X 0, com o primeiro gol marcado pelo jogador Ernestina do Esportivo.

O estádio, com capacidade para 12.859 pessoas, na época da inauguração era o terceiro estádio mais moderno do Rio Grande do Sul, ficando atrás apenas do “Estádio Beira-Rio” e “Estádio Olímpico Monumental”.

A construção do estádio foi iniciada em 1983, levando 21 anos para ser concluída. No dia 4 de abril de 2004, um mês após a inauguração, um clássico Grenal, válido pelo “Campeonato Gaúcho”, foi disputado no estádio, terminando com a vitória do Internacional pelo placar de 2 X 1.

Neste mesmo ano, a equipe disputou a primeira edição da “Copa FGF”, organizada pela “Federação Gaúcha de Futebol”. Na grande final, enfrentou a equipe do Gaúcho. No primeiro jogo em 15 de novembro, no “Parque Esportivo Montanha dos Vinhedos”, a equipe do Esportivo venceu por 3 X 0, com gols de Cadu, Caio e Jal.

No jogo de volta em 21 de novembro, no “Estádio Wolmar Salton”, a equipe venceu novamente por 2 X 0, conquistando o título e classificando-se para a “Copa do Brasil” de 2005. Além do título, o jogador Fernando Rech, do Esportivo foi o artilheiro da competição, com 13 gols marcados.

Classificado, disputou a “Copa do Brasil” de 2005. Na primeira fase, a equipe eliminou o Londrina, vencendo o primeiro jogo por 4 X 1 e perdendo o segundo jogo por 2 X 0.

Na segunda fase, enfrentou o Fluminense. O primeiro jogo, no “Parque Esportivo Montanha dos Vinhedos”, a equipe do Fluminense venceu por 2 X 1, com dois gols do jogador Gabriel.

A segunda partida foi histórica para a equipe, era a primeira vez que iriam jogar no “Estádio do Maracanã”, considerado o templo do futebol mundial na época.

Novamente o Fluminense venceu, por um placar de 1 X 0, com gol marcado pelo jogador Marquinho, eliminando o Esportivo da competição.

No “Campeonato Gaúcho” de 2010, a equipe foi rebaixada para a “Segunda Divisão”, após terminar o campeonato na penúltima colocação, com 10 pontos conquistados em 15 jogos, com três vitórias, um empate e 11 derrotas. Na “Segunda Divisão” de 2011, a equipe foi eliminada na segunda fase.

Na edição de 2012, a primeira denominada "Divisão de Acesso", ganhou o direito de disputar a “Primeira “Divisão” de 2013.

Na partida de ida da final, a equipe venceu por 2 X 1 em jogo no “Estádio Vermelhão da Serra”. No jogo de volta no “Parque Esportivo Montanha dos Vinhedos”, a equipe manteve o empate por 1 X 1 e conquistou o tricampeonato da “Divisão de Acesso”. A campanha perfeita da equipe no campeonato fez com que ela ganhasse o apelido de "Polenta Mecânica".

Em 2014, no dia 5 de março, num jogo contra o Veranópolis, no estádio “Montanha dos Vinhedos”, o Esportivo venceu por 3 X 2 e, após o apito final, o árbitro Márcio Chagas da Silva encontrou bananas em seu carro, estacionado no local reservado para árbitros dentro do estádio.

No dia 13 de março, ocorreu o primeiro julgamento deste caso, na sede da “Federação Gaúcha de Futebol”. O julgamento, que teve início às 17h30min, durou mais de quatro horas. Como resultado, o Esportivo perdeu cinco mandos de campo e teve que pagar uma multa de 30 mil reais.

No dia 10 de abril, ocorreu o segundo julgamento deste caso, também na sede da “Federação Gaúcha de Futebol”. Neste julgamento, por 6 votos a 2, o Esportivo perdeu nove pontos, 5 mandos de campo e foi multado em 30 mil reais.

Coube ao clube tentar recurso no “Superior Tribunal de Justiça Desportiva”, no Rio de Janeiro. Em novo julgamento, dia 17 de julho, o Esportivo recuperou seis dos nove pontos perdidos, além de reverter a perda dos mandos de campo.

Mas, como o Passo Fundo também havia conseguido recuperar oito pontos no tribunal, o Esportivo foi rebaixado à “Divisão de Acesso” do “Campeonato Gaúcho” de 2015.

Na “Divisão de Acesso” de 2015, a equipe fez uma campanha ruim, conquistando seis pontos em sete jogos, ficando com o mesmo número de pontos do Nova Prata, equipe que foi rebaixada.

No ano seguinte, em 2016, a equipe se recuperou e terminou a primeira fase na terceira colocação, com 22 pontos em 14 jogos.
Porém na segunda fase, a equipe foi eliminada após terminar na terceira colocação com 14 pontos em oito jogos.

Em 2017, a equipe se classificou na primeira fase na quarta colocação, com 22 pontos em 14 jogos. Porém, nas quartas de final, foi eliminado após vencer do Avenida em casa por 2 X 1 e perder no segundo jogo por 2 X 0.

Em 2019, o clube sagrou-se vice-campeão da "Divisão de Acesso", ao perder duas vezes para o Ypiranga, de Erechim, por 2 X 1. Mas conseguiu o retorno a elite do futebol gaúcho. (Pesquisa: Nilo Dias)

O Esportivo classificou-se para a elite gaúcha, ao sagrar-se este ano, vice-campeão da "Divisão de Acesso".

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Morre atacante histórico do Flamengo

Morreu na manhã de ontem (30), aos 70 anos de idade, o ex-ponteiro esquerdo Arílson, que defendeu o Flamengo, do Rio de Janeiro, nos anos 60 e 70, tendo disputado 224 jogos com a camisa do clube carioca, alcançando 107 vitórias, 64 empates, 53 derrotas e 36 gols marcados.

Ele conquistou a “Taça Guanabara” (1970, 1972 e 1973), os títulos cariocas de 1972 e 1974, além do “Torneio do Povo” (1972) e “Torneio de Verão” (1970 e 1972).

Em seu perfil oficial no Twitter, o Flamengo lamentou a morte do ex-jogador: “Lamentamos profundamente a morte do nosso ex-ponta esquerda Arílson, que nos deixou neste fim de semana. Obrigado por tudo o que você fez com o “Manto”. Muita força aos amigos e familiares neste momento.“

Arílson Pedro da Silva nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1948. Garoto bom de bola, seu futebol foi descoberto nos campinhos de terra batida do bairro Itacolomi, na “Ilha do Governador”. 

Mais tarde, o rapazola foi encaminhado aos quadros amadores da Associação Atlética Portuguesa, da “Ilha do Governador”. Jogador de rara habilidade, em pouco tempo foi aproveitado como ponteiro-esquerdo.

O futebol atrevido e vistoso logo despertou o interesse dos representantes do Clube de Regatas do Flamengo em 1965. No início de 1967, Arílson foi convocado pelo técnico Zagallo para a seleção carioca juvenil que jogaria o brasileiro da categoria em Belo Horizonte.

Na apresentação dos atletas, o repórter José Castelo, do “Jornal dos Sports”, assim definia seu futebol: “É esperança rubro-negra para 1967 e da própria seleção carioca com vistas ao penta brasileiro. Titular, tem a velocidade, o drible fácil e a potência de chute, qualidades exigidas de um bom ponteiro”.

Considerado então um jogador-chave nos juvenis do clube, Arílson tinha praticamente certa a sua promoção ao time de cima para o lugar do veterano Osvaldo “Ponte Aérea”, em vias de deixar a Gávea e retornar ao futebol paulista de onde viera.

Mas na metade do campeonato da categoria de base, o garoto sofreu uma violenta entorse no tornozelo direito que o tirou de ação por vários meses, adiando seu melhor aproveitamento.

Mesmo assim, de pé gessado, vestiria a faixa de campeão carioca de juvenis em junho. A lesão e as frequentes trocas de comando no time de cima foram minando as chances do garoto. Chegou a treinar como lateral e a ser oferecido como moeda de troca na tentativa de contratação do veterano ponteiro Dorval, ex-Santos, que estava no Atlético Paranaense.

Só no fim de 1968, durante o “Torneio Roberto Gomes Pedrosa”, ele ganhou uma certa sequência na equipe – retribuída com passes e assistências, aparecendo bem apesar da campanha fraca do time.

Sua virada aconteceria pelas mãos do técnico Tim. O experiente treinador, que chegou ao Flamengo no início de 1969, transformou o ponta o qual considerava indisciplinado taticamente – embora de inegável talento individual – num jogador solidário, que se sacrificava pelo time.

Assim, Arílson passou a ajudar a preencher o meio-campo e ajudar na cobertura do lateral, e ao mesmo tempo, aparecer mais bem colocado na frente para dar passes e até marcar mais gols.

Seu futebol cresceu a olhos vistos, e ele viveu a primeira grande fase da carreira, senão a melhor. O ano começou com uma excursão ao Suriname e ao Pará e Amazonas, nas quais o Flamengo levava como atração o velho “Mané Garrincha”, 35 anos, contratado em novembro do ano anterior.

Arílson, na outra ponta, fez bons jogos e alguns gols, mantendo o crédito conquistado pelas atuações no “Robertão”, mas sofreu uma distensão na coxa no fim de março, perdendo parte do turno do Carioca, em que o time acumulou alguns tropeços.

Com efeito, Arílson começou o ano de 1970 voando. Fez o primeiro gol do time na temporada, no empate em 1 X 1 com o América Mineiro num amistoso em Belo Horizonte.

E fez três partidas memoráveis no “Torneio Internacional de Verão”, quadrangular conquistado pelo Fla em fevereiro. Na estreia, uma folgada goleada de 4 X 1 sobre a seleção da Romênia, ele marcou dois gols – um em cobrança de falta na gaveta e outro numa inteligente tabela com Dionísio – e arrancou muitos aplausos entusiasmados da crônica esportiva.

No segundo jogo, outro massacre: 6 X 1 diante do forte Independiente, da Argentina. Arílson não balançou as redes, mas fez um lindo lançamento para Dionísio anotar o terceiro gol e foi apontado como o melhor do ataque pela imprensa, por sua eficiência e facilidade de jogar.

E no terceiro, a vitória por 2 X 0 sobre o Vasco que valeu o título, o ponta criou com Dionísio a jogada do primeiro gol, marcado por Liminha, e anotou ele mesmo o segundo, cabeceando cruzamento de Ademir da direita, sendo novamente escolhido o destaque.

Bastante elogiado também por treinadores de outras equipes que compareceram ao Maracanã para observar o torneio, Arílson caiu também nas graças de Zagallo, que em 18 de março daquele ano substituiria João Saldanha no comando da Seleção Brasileira.

Ele próprio um ex-ponta-esquerda rubro-negro e de estilo algo semelhante ao do jovem talento de 21 anos, o treinador surpreendeu ao incluí-lo, logo no dia seguinte ao que assumiu o cargo, na convocação de cinco novos nomes para os treinos de início de preparação para a “Copa do Mundo” do México.

Disputando um espaço com os mais experientes Paulo Cézar “Caju” e Edu, Arílson representava um meio-termo entre o estilo de ponta recuado, mais armador, do botafoguense e o jogo mais veloz e ofensivo do santista.

Porém, teve poucas chances de mostrar seu jogo. Nas semanas em que treinou com a Seleção, disputou apenas dois amistosos não oficiais por uma equipe B (contra a seleção amazonense B e o Olaria) e atuou até fora de sua posição, prejudicando sua observação. Acabou cortado em 27 de abril, a dois dias do amistoso contra a Áustria no Maracanã.

Reintegrado ao Flamengo, reforçou o time na reta final da “Taça Guanabara”, na época ainda um torneio separado do Estadual – e naquele ano disputada em três turnos, estendendo-se de março a maio.

Arílson chegou às vésperas do turno final, quando a equipe encaminhou o título batendo Vasco (2 X 0), Bangu (3 X 1, com dois gols seus), Botafogo (2 X 1) e América (2 X 0), finalizando com um empate em 1 X 1 diante do Fluminense que valeu o ponto necessário para a confirmação da conquista.

Só que, em meio à festa, começava um drama. Durante o jogo, Arílson dividiu uma bola com o lateral tricolor Oliveira e levou a pior, mas seguiu no jogo. Mais tarde descobriu: havia estourado os meniscos do joelho esquerdo.

Mal conseguindo suportar o incômodo das dores, uma primeira cirurgia no joelho foi marcada pelo departamento médico do clube. Depois da cirurgia, Arílson tentou voltar mas foi vencido pelas dores. Apesar do esforço, o atacante mal conseguia treinar.

O segundo parecer médico foi uma bomba. Quando Arílson revelou publicamente que ainda existiam fragmentos do menisco no joelho operado foi um escândalo. Os dirigentes então acusaram os jornalistas de sensacionalistas.

Para abafar o caso, Arílson foi proibido de falar. No terceiro andar do Hospital da Cruz Vermelha, o acesso ao quarto do jogador foi totalmente proibido e vigiado 24 horas. E como num passe de mágica, uma nova versão oficial apareceu do nada: Era o menisco externo que tinha estourado.

Em reportagem assinada por Fausto Neto, a revista “Placar” de 5 de fevereiro de 1971 ofereceu aos leitores um pouco do momento delicado vivido pelo jogador Arílson. Os médicos evitavam tocar no assunto, enquanto os dirigentes queriam mesmo era silenciar o jogador de qualquer maneira.

Talvez, o medo de revelar a evidente falta de estrutura que ainda assolava o futebol brasileiro no início da década de 1970. Mas o temor poderia ser bem maior. Quem sabe, o risco de tornar público os enganos médicos cometidos contra os jogadores Arílson, Dionísio e Tinho.

Algum tempo depois, outro diagnóstico apontou que de fato o menisco externo apresentava problemas. Todavia, os fragmentos não foram removidos totalmente na primeira cirurgia.

Sensibilizado, o jovem ponteiro-esquerdo do Flamengo agradeceu o apoio dos companheiros, principalmente do treinador Dorival Knippel, o conhecido Yustrich: “O seu Yustrich me deu muita força. Sempre perguntava como eu estava”.

Munido de esperanças para voltar rapidamente aos gramados, lá foi Arílson para o segundo procedimento cirúrgico. Na recuperação da cirurgia; algumas revistas de palavras cruzadas, embrulhos com maçãs e maços de cigarros tentavam melhorar o ambiente monótono. O tédio só era quebrado na presença do repórter da revista “Placar”.

Como a imprensa não era bem-vinda, o repórter Fausto Neto precisava mentir para o vigilante do quarto. “Sou primo dele e estou trazendo umas coisinhas”. Então Arílson acenava sorridente e o repórter tinha livre acesso ao leito do jogador.

Em sua volta aos gramados, Arílson foi aos poucos ganhando confiança. O rendimento não era mais o mesmo, mas o suficiente para colaborar nas grandes conquistas daquele período.

Arílson jogou ainda por um curto período no Corinthians em 1975. Depois, atuou pelo Americano e pelo Volta Redonda, clube onde encerrou sua trajetória nos gramados em 1977.

Conforme matéria da revista “Placar” de 16 de setembro de 1983, após deixar o futebol, Arílson dedicou seu tempo ao bar que inaugurou em 1980, no bairro carioca do Grajaú: “Minha sorte é que nos finais de semana aparecem por aqui o Carlinhos, o Dida e o Silva. Então, os clientes lotam o estabelecimento e eu faturo alto”, contou.

Posteriormente, Arílson ainda trabalhou nas categorias amadoras do Flamengo, até ser demitido sem qualquer explicação. (Pesquisa: Nilo Dias)


sábado, 28 de setembro de 2019

Um clube amador de muita tradição

Na comunidade mais antiga de Candiota, o Seival, também foi onde nasceu a equipe de futebol amador mais longeva da região, o Grêmio Sportivo Santa Rosa. Fundado em 1921 o Santa Rosa teve sua primeira ata lavrada em 16 de junho de 1927, que estabelecia a composição de sua Diretoria.

Naquele dia foi eleito o presidente Floriano Rosa, que dividia o comando da instituição com o secretário João Marimom Júnior e o tesoureiro  José Torres.

A história do  clube é contada no livro “Dentro e fora das quatro linhas”. Essa administração de 1927 semearia  o sonho de edificar uma sede. E ali começava uma tradição no Seival. O clube Santa Rosa era ativo, promovia festa todo o mês, recebendo, inclusive, pessoas de outras cidades da região.

Seus adversários mais tradicionais eram o Rio Negro, de Hulha Negra, Luz e Ordem, de Pinheiro Machado, Guarany, de Bagé e até o Brasil, de Pelotas. O time das cores vermelha e branca era respeitado e tinha fama de jogar bonito.

Sem a sede social, destruída pelo tempo, pelo descaso e vandalismo, o time também estava desativado desde 2011. Na história de quase 100 anos esta é a segunda vez que o time é retomado.

Na década de 1950, por questões de ordem financeira, o clube eu leva o nome da padroeira da localidade, foi forçado a fechar as portas por um ano. Em 1954, por conta de sua reinauguração a Diretoria foi presenteada com um poema, atribuído a Cadmo Artisone, mesmo artista que imortalizou a equipe numa tela a óleo, que até hoje está desaparecida.

Há algum tempo a retomada da equipe vinha amadurecendo. Uma nova Diretoria foi formada, tendo como presidente o desportista Danglar Azambuja.
As traves foram doadas pela UTE Pampa Sul e as obras dos novos vestiários feitas com auxilio da comunidade.

O campo de futebol do Santa Rosa, em Seival foi doado por Floriano Brisolara da Rosa. É um terreno cercado de casuarinas e eucaliptos. Os lances principais são na goleira de baixo, na direção da caixa d'àgua e da estrada antiga de quem vem de Bagé, pela estrada antiga, passando pela Trigolândia, na Hulha Negra.

A primeira vinícola registrada do Brasil ficava na Campanha Gaúcha, fundada por José Marimon. A “Vinícola J. Marimon & Filhos” iniciou o plantio de seus vinhedos em 1882, na Vila do Seival, onde hoje fica o município de Candiota. Seus primeiros vinhos foram elaborados em 1886 e manteve-se em atividade por 88 anos. (Pesquisa: Nilo Dias)

Santa Rita, o time de futebol amador mais longevo da região de Candiota. (Foto: Jornal "Tribuna do Pampa", de Candiota-RS)


Esta foto do Grêmio Sportivo Santa Rita é de 5 de agosto de 1939. (Fonte:Arquivo de Geraldo Tiaraju Barbosa)

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

"Sissi" a imperatriz do futebol feminino

Sisleide do Amor Lima, mais conhecida como “Sissi” foi uma jogadora de futebol feminino que antecedeu Marta e serviu como sua inspiração. Ela é baiana de Esplanada, onde nasceu em  2 de junho de 1967.

Começou a jogar futebol na rua, junto com os meninos, onde desenvolveu toda sua habilidade. Se descarta o rótulo de ser a “Marta antes de Marta”, "Sissi lembra" com carinho de uma transgressão tão simbólica quanto necessária: arrancar cabeças de bonecas, que faziam as vezes de bola de futebol. 

“Minha mãe ficava louca e eu quebrava tudo em casa. Quando ela descobriu que eu fui convidada para jogar em um time em Campo Formoso (na Bahia), não queria que fosse”, lembra. 

“O dono convenceu meu pai, que relutou, mas aceitou e a convenceu também. Sempre teve preconceito, é claro, mas nunca deixei que me afetasse. Só me dava mais força.”

Das ruas aos campos de terra batida no sertão baiano, a "Imperatriz do Futebol Feminino" deu seus primeiros passos no Flamengo, da Bahia. Depois, foi para o Bahia, clube no qual se desenvolveu. De lá, o voo mais distante, para a China, aos 21 anos, para representar a Seleção em 1988.

“É claro que dá orgulho ser a primeira camisa 10 da Seleção. Eu era fã do Zico, sempre quis jogar com esse número. Mas na época eu não tinha a dimensão. Era um tempo de muita luta. Mas valeu a pena, eu faria tudo de novo. Vejo a Seleção de hoje em campo e sei que elas estão lá porque nós estivemos antes”, comentou.

Aos 14 anos, a meio-campista saiu de sua cidade para ir morar em um alojamento, onde começou a treinar e profissionalizar-se.

“Sissi” foi  uma das grandes jogadoras da história do futebol feminino. Ela precisou driblar o preconceito até se tornar a primeira camisa 10 da história da Seleção. Começou em casa. Diziam que futebol não era coisa para menina e só a deixaram jogar se fosse para ser a “bobinha”, recordou.

Apareceu pela primeira vez nos “Jogos Olímpicos de Atlanta”, em 1996, levando o bom time da “Seleção Brasileira”, no entanto ainda desconhecido, para a semifinal, terminando a competição na quarta colocação.

No ano de 1999, na “Copa do Mundo Feminina”, organizada pela Fifa e disputada nos Estados Unidos, a jogadora comandou a equipe nacional que terminou a competição em terceiro lugar e ainda conquistou a “Chuteira de Ouro”, como artilheira do torneio.

A meio-campista muito habilidosa ainda participou da campanha dos “Jogos Olímpicos de Sidney”, em 2000, sempre como referência na armação de jogadas da equipe brasileira.

Disputou pela “Seleção Brasileira Feminina” duas “Copas do Mundo”: 1995 e 1999 (3º lugar), quando foi uma das artilheiras, com sete gols, empatada com a chinesa Sun Wen. Participou, também, dos “Jogos Olímpicos de 1996” (4º lugar), e dos “Jogos Olímpicos de 2000”.

A atleta foi um dos pilares da equipe tricolor na era de ouro da modalidade no “Clube do Morumbi”, entre 1997 e 2000, quando o São Paulo formou um grande time, que era a base da “Seleção Brasileira” do período.

Jogavam bonito, passavam por cima das adversárias e conquistaram inúmeros títulos para a equipe paulista. O auge foi na a final do “Brasileiro de 1997”, em que as tricolores venceram a Lusa Sant'Anna por 4 X 0.

Sissi ganhou tal notoriedade nessa época que a torcida tricolor chegou a "gritar para o técnico do time masculino na época, Muricy Ramalho: "Ei, Muricy, coloca a Sissi".

Atualmente, ela é a técnica da equipa feminina “Las Positas College Women's”, em Livermore, na Califórnia.

“Sissi” foi eleita pela “Federação Internacional de História e Estatística do Futebol” como a melhor jogadora de futebol do século 20 da América do Sul. Ela se constituiu no grande nome do Saad nos anos 90, quando liderou o clube na conquista de todos os títulos disputados entre os anos de 1995 e 1997.

Isso mesmo, entre 95 e 97 o Saad venceu 100% dos jogos que disputou, conquistando, a “Copa São Paulo”, a “Copa Campo Grande”, o “Campeonato Brasileiro” nas categorias adulto e Sub-17 e o “Troféu Comitê Olímpico Internacional”.

“Sissi” não brilhou apenas nos gramados. Ela chegou a ser nomeada pela FIFA como embaixadora do futebol feminino Mundial. A eterna camisa 10 do Brasil foi oficializada no cargo pelo presidente da entidade maior do futebol no mundo, na época, Joseph Blatter.

Nos Estados Unidos, ela conquistou o título de melhor jogadora da WUSA quando liderou o San Jose Ciberrays na conquista do título da mais forte liga profissional da história da modalidade.

Como jogadora no Brasil, “Sissi” foi eleita a segunda melhor jogadora do Mundo em 1999, foi pentacampeã brasileira defendendo as equipes do Saad, São Paulo e Radar. Foi tricampeã paulista com São Paulo e Palmeiras. No Futsal, ela foi Hexacampeã Brasileira defendendo as equipes do Bordon, Euroexport, Marvel e Sabesp.

Brasil: Lica – Marisa – Elane - Sandra e Fanta. Lúcia - Marcinha e Sissi. Pelezinha - Roseli e Cebola. Foi com essa escalação, no dia 1º de junho de 1988, que o Brasil fez sua primeira partida em uma competição da Fifa.

Com a base do Radar, grande time do país à época, a trajetória da “Seleção Feminina de Futebol” começou com um histórico bronze na China, sede do campeonato experimental. Dali até o reinado de Marta, seis vezes melhor jogadora de futebol do mundo, um tortuoso caminho foi percorrido pelas brasileiras. “Nunca vai ter uma seleção melhor”, resumiu a zagueira Elane.

O futebol feminino esteve proibido no País de 1941, no “Estado Novo”, até a revogação da lei, em 1979, na ditadura militar. Ainda que o esporte vivesse sob a marginalidade, a prática existia nas grandes cidades do país, onde times não oficiais se formavam em profusão.

Copacabana era o palco principal das competições no Rio. A cultura do futebol de praia no bairro, conhecido por sua diversidade, fez nascer o maior time de todos os tempos no futebol feminino do Brasil, o Esporte Clube Radar, capitaneado por Eurico Lyra. (Pesquisa: Nilo Dias)



segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O mago do futebol uruguaio

Héctor Pedro Scarone foi um futebolista uruguaio, nascido em Montevidéu, no dia 26 de novembro de 1898 e falecido em 4 de abril de 1967, aos 69 anos. Jogava como meio-campista e atacante. Apelidado de “El Gardel del fútbol” e “El Mago”, é considerado como um dos melhores atacantes do início da profissionalização do futebol.

Seu pai era um italiano chamado Giuseppe Scarone, proveniente de Savona para trabalhar, segundo algumas versões, na ferrovia que deu origem ao Peñarol, clube ao qual Giuseppe se afeiçoou.

Em outras, Giuseppe teria trabalhado no mercado de carne de Montevidéu, ausentando-se na maior parte do dia. Héctor, na prática, acabou criado por uma irmã mais velha, pois perdera ainda bastante novo a mãe.

Carlos Scarone, irmão 10 anos mais velho, foi a primeira referência no futebol, onde jogava como centroavante. Carlos começou a jogar no River Plate uruguaio em 1908, passando em 1909 ao Peñarol. Teve destaque neste mesmo ano, quando estreou pela "Seleção Uruguaia", participando até do primeiro jogo da camisa celeste, em 1910.

Em 1911, Carlos foi jogar na Argentina pelo Racing, que fazia sua estreia na "Primeira Divisão". O uruguaio inclusive converteu o primeiro gol do clube na elite argentina, em chute potente e baixo contra o San Isidro, mas terminou jogando pouquíssimo no país vizinho.

Argumentou não ter ficado por doença e não ter sido cuidado devidamente pelo Peñarol. O rival Nacional aproveitou-se e o buscou. A insatisfação de Carlos com o Peñarol, indiretamente, originou um dos apelidos deste clube, o de “Manya”, uma deformação à língua espanhola de um diálogo na língua italiana com o pai Giuseppe, sugerindo-lhe que se ficasse no Peñarol iria "comer (mangiare) merda".

O insulto fez-se conhecido e bastante usado por Carlos nos clássicos, e com o tempo foi adotado pela própria torcida aurinegra. Carlos, o Scarone "antipático", não tardou em brilhar como tricolor.

Já Héctor, o Scarone "simpático", seguiu-o e, após uma recusa inicial aos 15 anos de idade devido ao seu físico, estreou no time adulto do Nacional quando ainda tinha 17 anos.

Tal como Carlos, Héctor logo mostrou protagonismo, marcando dois gols em vitória por 3 X 1 em clássico pela segunda rodada de um "Campeonato Uruguaio" ganho com sete pontos de diferença para o rival, um recorde para a época, e de modo invicto.

O Nacional também ganhou do Rosário Central, por 6 X 1, a “Taça Ricardo Aldao”, doada ao vencedor em tira-teima entre o campeão uruguaio e o vencedor entre o campeão argentino e o do campeonato rosarino. Héctor fez um dos gols e o irmão Carlos, três.

No ano de 1917, o Nacional foi novamente campeão uruguaio, com Héctor já se convertendo no artilheiro do elenco tricolor, com 13 gols, um deles na goleada de 4 X 1 sobre o arquirrival.

Héctor Scarone também estreou pela "Seleção", convocado junto com o irmão à vitoriosa “Copa América” daquele ano. Novos títulos vieram em 1919, com a conquista do "Campeonato Uruguaio" garantida na última rodada; e também de nova “Taça Ricardo Aldao”, derrotando na decisão o Boca Juniors (já no ano seguinte) por 3 X 0 mesmo com os uruguaios jogando a partida inteira com um a menos em função de um acidente prévio de um dos titulares. Héctor fez o primeiro gol.

O Nacional foi novamente campeão uruguaio em 1920, com Scarone sendo outra vez o artilheiro do elenco, com 19 gols, ao lado de Santos Urdinarán; e da “Taça Ricardo Aldao”, novamente em embate com o Boca Juniors (2 X 1).

Scarone também foi protagonista de um clássico com o Peñarol pela “Taça Fermín Ferreira”, na qual o Nacional conseguiu uma reviravolta sem precedentes na rivalidade: perdia de 3 X 0 e empatou, quase virando o jogo com Scarone - a jogada que daria a vitória aos tricolores terminou em bola na trave.

Em 1922, o futebol uruguaio iniciou um cisma a durar até 1925, com o Nacional permanecendo na liga reconhecida pela FIFA e o Peñarol, em outra, privando os jogadores aurinegros de integrarem a seleção uruguaia.

O Nacional, vencedor contínuo da sua liga (Scarone foi em 1923 novamente o artilheiro do plantel, com 20 gols, formou então a base da “Celeste Olímpica”.

Nesse ínterim, Héctor se firmou como "o principal Scarone"; enquanto o irmão Carlos deixou em 1922 a seleção, Héctor foi um dos cinco jogadores tricolores que em 1924 ganharam as “Olimpíadas” e um dos oito na também vitoriosa “Copa América” daquele ano, conquistas que celebraram as bodas de prata da fundação do Nacional.

Outrora apelidado de “Rasquetita” em referência ao apelido de “Rasqueta” do irmão Carlos, Héctor passou a ser apelidado de “La Borelli”, em referência à atriz Lyda Borelli, emblema do cinema mudo italiano, devido às reações imprevisíveis e caprichosas. Outra alcunha foi “El Mago”.

Não houve campeonato uruguaio em 1925, um ano ainda assim marcante ao Nacional. O clube fez uma excursão consagradora à Europa. No ano seguinte ao primeiro ouro olímpico do futebol uruguaio e sul-americano, a viagem confirmou o valor do futebol uruguaio.

Cerca de 700 mil pessoas viram a equipe ao longo de 38 partidas. Foram 130 gols marcados, somente 30 sofridos, com 26 vitórias e somente cinco derrotas.

Scarone marcou 29 gols, convertendo-se na principal referência ofensiva após a séria lesão nos meniscos que o centroavante Pedro Petrone sofreu contra o Barcelona. Nessa partida, o clube catalão abriu 2 X 0 e foi de Scarone o gol do empate em 2 X 2.

Dos outros gols que marcou, Scarone fez dois na vitória por 3 X 0 em Gênova sobre o Genoa, dono de dois títulos italianos nas três temporadas anteriores e maior campeão do “Calcio” naquela época.

Fez dois em um 7 X 0 sobre a "Seleção Neerlandesa", em Roterdã; três em vitória por 5 X 1 sobre a "Seleção Belga", em Bruxelas; dois em vitória por 6 X 0 sobre a "Seleção Francesa", em Paris; dois em 5 X 2 sobre a "Seleção Suíça", na Basileia; um em vitória por 2 X 1 sobre a "Seleção Catalã",em Barcelona; e dois na vitória por 3 X 0 sobre o Deportivo La Coruña, na cidade do adversário.

O desempenho contra o Barcelona, por sua vez, preponderou para que os “Blaugranas” o contratassem em 1926. Hugo Meisl, crítico de futebol e futuro técnico do Wunderteam austríaco, qualificou Scarone como "o melhor forward do mundo", sendo dele o gol uruguaio em uma das poucas derrotas, um 2 X 1 para o Rapid Viena.

Scarone não foi o primeiro nativo da América do Sul no Barcelona, nem mesmo primeiro de seu país, pois o clube tem registros de uma partida amistosa disputada em 1903 por um uruguaio chamado Josep Mascaró.

Scarone foi, porém, a primeira contratação que o time fez de um jogador que previamente atuava em um clube sul-americano. Foi vista já na época como a primeira grande transferência internacional do clube.

O uruguaio chegou no ano de 1926 e estreou em amistoso contra o Osasuna ganho por 5 X 1. Não marcou gols, mas foi bastante elogiado, com a revista “Fútbol Association” relatando que “Hector terminou nos dando um curso do que deve ser um meio-campista. 

Vimos um jogador completo, de excepcionais faculdades, de agudíssima percepção do jogo, magistral como complemento do ataque e efetivo na colocação defensiva. O clube campeão ganhou um grande elemento".

Porém, como chegou após o período de inscrições nas competições oficiais, só poderia inicialmente jogar amistosos. Ao todo, entrou em campo só nove vezes. Em 21 de março é que foi liberado pela “Real Federação Espanhola de Futebol” para atuar oficialmente em jogos competitivos, após entraves no envio de documentos requisitados perante a associação uruguaia.

Recebeu então uma oferta de 50 mil pesetas para assinar contrato de cinco anos. Scarone, porém, preferiu voltar, gerando versões de que seria boicotado por Josep Samitier, algo desmentido por ambos.

O uruguaio sempre justificou que o que o afastou foi o temor de não disputar as “Olimpíadas”seguintes, pois o torneio proibia atletas profissionais. Àquela altura, o Barcelona tornara-se um clube profissional, enquanto o futebol uruguaio ainda era oficialmente amador:

"Eu pensava na minha pátria, que logo viriam as “Olimpíadas” e que deveria vestir a camisa celeste. Pensei no Nacional, clube do meu coração, e decidi não assinar", explicou Scarone em depoimento registrado no “Libro de Oro de Nacional”.

A decisão aumentou sua popularidade no Uruguai. Ainda assim, o célebre goleiro Ricardo Zamora chamou Scarone de "o símbolo do futebol". Décadas depois, a primeira "peña" (torcida organizada) oficial do Barcelona em Montevidéu, criada em 2008, recebeu o nome de “Héctor Scarone”, em evento com participação de um sobrinho-neto do craque.

Scarone voltou ao Nacional em 1926, a tempo de ser convocado à vitoriosa “Copa América” daquele ano, da qual foi também vice-artilheiro. Ainda em virtude do cisma encerrado em 1925, não houve em 1926 um campeonato uruguaio oficial, segundo o clube.

Em 1927, integrou outra excursão vitoriosa, dessa vez às Américas Central e do Norte, marcando 22 gols em 18 jogos. Dois deles vieram em duas partidas contra a "Seleção Mexicana" (vitórias de 3 X 1 e 9 X 0) e outros dois, em vitória de 8 X 1 sobre a "Seleção Espanhola".

Desde 1924, o Nacional, porém, só voltaria a ser campeão em 1933, nem sempre por falta de méritos: não houve campeonato em 1930 em função da primeira “Copa do Mundo”, realizada no Uruguai e para a qual o clube foi base da seleção, com quatro titulares na decisão e nove convocados, que seriam respectivamente cinco e 10 se o goleiro Andrés Mazali não fosse previamente afastado uma semana antes da estreia, por indisciplina ao abandonar a concentração de oito semanas.

Em 1928, além de novo título olímpico, Scarone voltou a enfrentar o Barcelona. Fez o último gol da vitória por 3 X 0 no “Estádio Gran Parque Central”. Depois da “Copa do Mundo FIFA” de 1930, já tendo mais de 30 anos, foi contratado pela Internazionale, na época chamada "Ambrosiana", sendo colega de Giuseppe Meazza, que sobre Scarone comentaria ser "o maior jogador que vi".

Marcou sete vezes na temporada 1931-32, incluindo contra Lazio (os dois em triunfo de 2 X 0) e a campeã Juventus; o time de Milão terminou em sexto, mas a dois pontos do terceiro lugar.

Após uma temporada em Milão, passou duas no Palermo. Em ambas, o clube da Sicília lutou para não cair. O uruguaio contribuiu com quatro gols na de 1932-33 (incluindo contra Torino e a própria "Ambrosiana") e nove na de 1933-34 (incluindo outro sobre o ex-clube). 

A passagem de Scarone pela Itália não chegou a ser brilhante, mas, para a sua idade avançada e lesões, foi considerada digna.

Scarone voltou uma vez mais ao Nacional em 1934. Passara a ser ponta-direita. O clube foi campeão na última rodada, em clássico com o Peñarol no qual o empate em 1 X 1 favoreceu os tricolores, que conseguiram o resultado mesmo jogando a última meia hora com dois jogadores a menos, expulsos.

Também foi em 1934 que o campeonato válido por 1933 foi finalizado, mas Scarone não pôde ser inscrito para os jogos finais. A temporada válida por 1934 foi a última em que jogou oficialmente pelo Nacional, ainda que prosseguisse jogando esporadicamente amistosos pelos tricolores. Em 1939, chegou a jogar pelo Montevideo Wanderers.

Scarone estreou pela Seleção Uruguaia em 1917 e a defendeu até 1930. Totalizou 70 jogos e 31 gols oficiais (e 52 no total), que fizeram dele o maior artilheiro da “Celeste” até 2011, quando foi superado inicialmente por Diego Forlán; atualmente, está abaixo também de Edinson Cavani e Luis Suárez.

Ainda assim, detém uma média de gols que dificilmente será superada por eles. 22 dos seus 31 gols oficiais vieram em jogos válidos pela “Copa América”, pelo futebol nos “Jogos Olímpicos” (quando estes eram a principal competição mundial desse esporte) e pela “Copa do Mundo FIFA”.

Estreou em 2 de setembro de 1917, data de vitória por 1 X 0 sobre a Argentina pela “Copa Newton”. Meses depois, participou junto com o irmão Carlos Scarone (que defendia a seleção desde 1909) da “Copa América” daquele ano, a primeira realizada no Uruguai.

O país venceu e Héctor foi vice-artilheiro com três gols, incluindo um na vitória por 4 X 0 sobre o Brasil e o do título, o único na vitória por 1 X 0 na rodada final contra a Argentina. Héctor terminou eleito o melhor jogador do torneio.

Na edição seguinte, a de 1919, os irmãos perderam para o Brasil, que sediava pela primeira vez a competição. Ainda assim, foi a muito custo e ameaçando os anfitriões, que só conseguiram garantir a conquista após 90 minutos regulamentares e duas prorrogações de meia hora cada uma, em uma das partidas mais longas da história do futebol, com Arthur Friedenreich marcando no minuto 122 o único gol.

O goleiro brasileiro Marcos Carneiro de Mendonça declararia ter feito "a defesa de sua vida" em lance de Héctor Scarone nessa partida.

Na “Copa América” de 1920, somente o irmão Carlos jogou. Nenhum deles esteve na de 1921, nem na de 1922, o último ano de Carlos Scarone pela seleção. Nessas edições, o Uruguai foi campeão apenas na de 1920.

Héctor Scarone voltou a participar na edição de 1923, marcando um gol, no 2 X 0 sobre o Paraguai. O Uruguai voltou a ser campeão. A edição também qualificava para as “Olimpíadas de 1924”.

A principal referência ofensiva do Uruguai nas “Olimpíadas de Paris” foi Pedro Petrone, artilheiro da competição. Mas Scarone também entrou nas estatísticas daquela edição, marcando em cada jogo até a final e ficando em terceiro na artilharia.

Fez o segundo no 7 X 0 na estreia contra a Iugoslávia; novamente o segundo no 3 X 0 na segunda rodada, contra os Estados Unidos; os dois primeiros no 5 X 1 sobre a anfitriã França, nas quartas-de-final; e o gol da vitória de virada, a nove minutos do fim, no 2 X 1 contra os Países Baixos, na semifinal - um gol polêmico, feito de pênalti no qual a bola batera na realidade no braço de Scarone e não no de um oponente.

Após a conquista, os uruguaios deram uma volta completa no campo, andando pela pista lateral e acenando para a plateia, inaugurando o gesto que ficaria conhecido como "volta olímpica", repetido por eles nas duas conquistas mundiais seguintes e posteriormente adotado por todos os países. Ainda em 1924, Scarone e a “Celeste” também ganharam a “Copa América” daquele ano.

O Uruguai ausentou-se da “Copa América” de 1925, voltando a participar do torneio na edição de 1926, da qual Scarone terminou campeão e na vice artilharia, com seis gols. Cinco deles foram na Bolívia, um recorde individual em uma só partida na competição.

Essa marca de cinco gols em um só jogo de “Copa América” ainda não foi superada, sendo posteriormente igualada pelos argentinos Juan Marvezi em 1941 (6 X 1 no Equador) e José Manuel Moreno em 1942 (12 X 0 no Equador); e pelo brasileiro Evaristo de Macedo em 1957 (9 X 0 na Colômbia).

Na edição de 1927, o Uruguai foi vice-campeão. Scarone teve a artilharia da competição, com três gols, marcando os dois gols uruguaios na derrota de 3 X 2 para a campeã Argentina na rodada final; seu segundo gol empatou em 2 X 2 a 11 minutos do fim, mas pouco depois o colega Adhemar Canavesi marcou contra. O vice-campeonato, porém, bastou para qualificar a “Celeste” às “Olimpíadas de 1928”.

Nos Jogos de Amsterdã, Scarone fez menos gols que em Paris, três, mas todos decisivos: o primeiro na vitória por 2 X 0 para eliminar ainda na fase inicial os anfitriões Países Baixos, cuja torcida passaria a vaiar e torcer contra os uruguaios; o último da “Celeste” na vitória por 3 X 2 sobre a Itália na semifinal; e o gol do título, no 2 X 1 sobre a rival Argentina, em notável chute de longa distância, a 40 metros do gol adversário.

Naquelas “Olimpíadas”, Scarone ausentou-se de algumas partidas por lesões, sendo substituído por Héctor Castro, que, embora tenha marcado no 4 X 1 sobre a Alemanha, sempre voltava à reserva assim que Scarone se recuperava.

Haviam sido necessárias duas partidas contra os argentinos após o empate na primeira, em que Castro jogou em seu lugar. Para a segunda, porém, o capitão José Nasazzi preferiu “El Mago”.

Tornou-se famoso o grito proferido por Nasazzi de "tua, Héctor!", quando Scarone recebeu passe de René Borjas para marcar o gol do ouro. A frase viraria no Uruguai sinônimo de uma entrega adequada para um companheiro ficar em condições de definir, sendo usada para além do âmbito esportivo.

Scarone esteve pela última vez na “Copa América”, edição de 1929, mas não jogou nenhuma partida e o Uruguai ficou em terceiro. Ao todo, marcou 13 vezes na competição, números que fazem dele o terceiro maior artilheiro da história do torneio, ao lado dos argentinos Gabriel Batistuta e José Manuel Moreno e dos brasileiros Jair da Rosa Pinto e Ademir de Menezes.

Na altura de 1929 Scarone era o maior artilheiro - apenas posteriormente é que foi igualado pelos outros quatro e superado por Severino Varela, Teodoro Fernández (que somaram 15) e os recordistas Zizinho e Norberto Méndez (17). Naquele mesmo ano, o país bicampeão olímpico foi escolhido por aclamação para sediar no ano seguinte a primeira “Copa do Mundo FIFA”.

Scarone não se fez presente na estreia, contra o Peru, em função de outra lesão. Tal como nas “Olimpíadas de 1928", Héctor Castro o substituiu, inclusive marcando o gol da vitória. Mas, também como em 1928, Castro voltou à reserva diante da recuperação de Scarone.

A partida, que inaugurou oficialmente o “Estádio Centenário”, foi vista com decepção por público e crítica após vitória magra por 1 X 0 contra uma seleção criada apenas três anos antes.

O jornal “El País” chegou a escrever que "os Deuses estão cansados!". Scarone voltou à titularidade na partida seguinte e o Uruguai bateu por 4 X 0 a Romênia, marcando todos os gols nos primeiros 35 minutos. Scarone fez o segundo deles, aos 24 minutos.

O "eterno reserva" Castro voltou a jogar a final da “Copa”, na qual faria o último gol, apenas porque outro titular, Peregrino Anselmo, se machucou na semifinal.

A decisão, contra a rival Argentina, teve duas viradas no placar: o Uruguai abriu 1 X 0, mas terminou o primeiro tempo perdendo por 2 X 1. Scarone sobressaiu-se especialmente na jogada do gol do empate, aos 13 minutos do segundo tempo: dominou a bola fora da área, pela meia-esquerda, marcado por dois adversários, mas sendo capaz de rolar a bola para José Pedro Cea ao vê-lo livre pelo centro.

Cea marcou de carrinho e acabou recebendo o apelido de “El Empatador Olímpico”. Adiante, a “Celeste” anotou 3 X 2 aos 23 minutos da segunda etapa, passando a ser bastante pressionada e só conseguindo garantir a conquista ao marcar o quarto (com Castro concluindo contra-ataque) já no penúltimo minuto.

A final, travada em 30 de julho, foi seu último jogo pelo Uruguai. Dos titulares campeões, somente Scarone havia nascido ainda na década de 1890. Além dele, o outro único jogador vencedor de “Copa do Mundo FIFA” nascido naquela década foi o colega Domingo Tejera, participante somente da estreia contra o Peru.

Scarone foi o primeiro técnico do Millonarios, de Bogotá no período conhecido como "Eldorado Colombiano", quando o campeonato da Colômbia, desfiliado perante a FIFA, tornou-se um atrativo polo de jogadores de todo o mundo, incluindo europeus.

O clube, a contar com Alfredo Di Stéfano, Adolfo Pedernera, Néstor Rossi e outros, foi a grande força nacional daquele período, conseguindo resultados expressivos também fora do país, como na vitória sobre o Real Madrid nas comemorações dos 50 anos da equipe espanhola.

“El Mago”, ex-jogador do Barcelona, treinou o próprio Real Madrid posteriormente, sendo presentado com um anel com a insígnia do clube, o qual passou a sempre carregar consigo. Outra versão aponta que na realidade tal anel seria do Barcelona, e que Scarone não teria deixado de usa-lo mesmo enquanto treinava o Real.

Como treinador ou como aposentado, Scarone gostava de demonstrar suas habilidades; um dos exercícios era, em tempos em que era comum o travessão em treinamentos ser segurado, além das duas traves laterais, por uma terceira ao meio para impedir que ele se curvasse, arredar a trave "central" (todas eram de madeira naquela época) para um dos cantos - Scarone então mirava a bola com precisão no espaço oco que deixava entre a trave lateral e a trave que havia sido deslocada para perto deste.

Sofreu, porém, a tragédia de perder seu filho único, que fraturou um membro enquanto praticava “Rugby Union”, não foi devidamente engessado e acabou sofrendo uma embolia que chegou ao coração.

Títulos. Competições nacionais: Campeonato Uruguaio: (1916, 1917, 1919, 1920, 1922, 1923, 1924 e 1934 - todos pelo Nacional); Competições internacionais pela Seleção Uruguaia. Copa do Mundo FIFA (1930 - 1 gol); Campeonato Olímpico: (1924 e 1928); Campeonato Sul-Americano: (1917, 1923, 1924 e 1926); Torneios internacionais pelo Club Nacional. Copa Ricardo Aldao ou Campeonato Rio-Platense (contra o campeão argentino): (1916, 1919 e 1920).

Foi eleito pela “Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol”, em rankings alusivos ao século XX, como o 21º melhor jogador sul-americano e o 40º maior jogador do mundo. (Pesquisa: Nilo Dias)