Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 4 de março de 2008

A bonita história do futebol de Votorantim

Este artigo eu escrevo mais a título de curiosidade, depois de receber de um freqüentador deste blog trechos do livro “Votorantim - História e Iconografia de uma cidade”, de autoria do historiador João dos Santos Júnior, de Votorantin (SP). A obra relata a trajetória de ingleses na cidade, que teriam fundado dois times de futebol, que no seu ponto de vista seriam os primeiros que surgiram no Brasil, específicos para a prática do futebol.

Em 1890 o Banco União de São Paulo S/A comprou terras no distrito de Votorantim, margeado pela Estrada de Ferro Sorocabana, e começou a contruir uma fábrica de tecidos. Em 1891, o Banco contratou engenheiros e operários ingleses vindos da região de Manchester para construção da fábrica, além da montagem e operação do maquinário. Entre os engenheiros encontravam-se os irmãos John e Willian Snapp, que se tornaram gerentes no empreendimento.

O Votorantin Athletic Club, segundo Santos Júnior teria sido fundado pelos irmãos Snapp em 1891, mas a data oficial da fundação do clube, 1º de janeiro de 1900, não combina com suas pesquisas. O Sport Club Savóia, também nasceu em 1º de janeiro de 1900, fundado por italianos. O nome do clube foi uma homenagem ao rei Humberto I, da Itália, assassinado em Monza, no dia 28 de Julho de 1900, pelo anarquista Gaetano Bresci. Votorantim (SP) era distrito de Sorocaba (SP) e ganhou autonomia política e administrativa somente em 1965.

A chegada em 1898, de imigrantes italianos, quase todos vindos da região do Piemonte deu aos operários ingleses que, nas folgas jogavam futebol nos pátios da fábrica, o incentivo que faltava para a organização de clubes representativos. Dessa combinação perfeita foi que surgiram as duas agremiações.

De qualquer maneira o livro parece ser bastante interessante. Também traz em suas páginas revelações extra futebol. Agora eu sei, por exemplo, que o empresário José Ermírio de Moraes deu o pontapé inicial em seu “império”, ao receber de herança as Indústrias Votorantim, que pertenciam ao sogro Antônio Pereira Inácio, falecido em 1951. Mas essa é outra história.

Continuo com o que interessa. O Votorantim passou a ser o clube oficial da fábrica, enquanto o Savóia jogava na várzea. Em 1901 o distrito já contava com mais dois times, o Sport Club Colonial e o Sport Club Germânia, também varzeanos. Em dezembro de 1902 foi fundada outra agremiação histórica, o Club Athlético Sorocabano.

Em 1905, um surto de febre amarela na região fez com que os ingleses começassem a debandada de volta ao seu país. Com isso o Votorantim Athletic Clube amargou a decadência e quase fechou. Ao contrário, o Savóia não parava de crescer. Os próprios irmãos Snapp lideraram uma comissão para que o time fosse guindado a condição de equipe principal da fábrica.

Em 1910, o Savóia participou de um torneio seletivo para uma vaga na elite do futebol paulista. Os adversários foram o Vila Buarque Futebol Clube e o Clube Atlético Ypiranga, que tinha em seu quadro um garoto de 18 anos chamado Arthur Friedenreich, que acabaria se tornando um dos maiores craques da história do futebol brasileiro. O Ypiranga é claro, derrotou o Savóia por 4 a 2, na final e ganhou a vaga.

Uma curiosidade: em janeiro de 1915 o recém-fundado Palestra itália, atual Sociedade Esportiva Palmeiras, escolheu para padrinho justamente o Sport Club Savóia. O jogo foi realizado no centenário Estádio Municipal Castelões, hoje denominado Domênico Paolo Metidieri, em Votorantim e os dois times ostentaram em suas camisas a Cruz de Savóia, símbolo da Itália unificada, como escudo. O Palmeiras venceu por 2 X 0, gols de Bianco cobrando falta e Alegretti, de pênalti e ganhou seu primeiro troféu, a “Taça Savóia”.

Em 1917 o Banco União foi à falência. O imigrante português Antônio Pereira Inácio e o seu amigo italiano Francisco Scarpa, patriarca de tradicional familia paulistana, arrendaram as instalações da fábrica de tecidos e criaram as Indústrias Votorantim. Esta continuou dando apoio a equipe de futebol do Savóia, inclusive trazendo jogadores que eram registrados como funcionários da fábrica, num procedimento que se tornaria comum na fase pré-profissional do futebol.

Com fartura de recursos não foi difícil ao clube construir seu estádio, que foi inaugurado em 28 de setembro de 1924. Numa demonstração de força trouxe para a festa inaugural as equipes do Sport Club Germânia e Club Athlético Paulistano, este tendo em seu elenco o então já consagrado Arthur Friedenreich. Nesse mesmo ano, José Ermírio de Moraes assumiu cargo diretivo na Indústria.

Em 1930 a equipe passou a ser conhecida como Esquadrão de Ferro, e conquistou vários títulos, entre eles o Campeonato Amador do Interior. Em 1942 a segunda guerra mundial ocasionou um forte abalo no clube, que foi obrigado a mudar de nome. O Brasil entrara no conflito e um decreto presidencial obrigava as agremiações que lembrassem Itália, Alemanha e Japão a mudarem de nome. Em 21 de dezembro de 1942 o Savóia passou a chamar-se Clube Atlético Votorantim. A antiga camisa azul, com gola branca deu lugar a um uniforme grená.

Mesmo assim o clube seguiu seu destino. Em 1947 conquistou o título da Liga Sorocabana de Futebol. De 1948 a 1952 disputou a Segunda Divisão do Campeonato Paulista de Futebol. Com a ascensão de José Ermirio de Morais a direção da empresa, ao final de 1952, foi retirado o apoio ao Savóia, que em conseqüência desativou o departamento de futebol profissional.

O Clube Atlético Votorantim, ex-Sport Club Savóia, fundado no dia 1 de janeiro de 1900 continua ativo. Não pratica mais o futebol profissional, mas é um dos principais clubes sociais da região. Esportivamente mantém apenas atividades amadoras. A cidade já tem um novo time profissional. É o Votoraty Futebol Clube, fundado em 12 de maio de 2005, que disputa o campeonato paulista da Série A3. Em Votorantim também é realizada a Copa Brasil de Futebol Infantil, evento de grande repercussão nacional e que reúne equipes de todo o país.

Para concluir. O S.C. Rio Grande, da cidade portuária de Rio Grande (RS) é oficialmente o clube mais velho do futebol brasileiro em atividade. Antes dele já existiam o C.R. Flamengo (1895), C.R. Vasco da Gama (1898) e E.C. Vitória (1899), mas só incorporaram o futebol em suas atividades já no século XX.

Os quatro primeiros clubes de futebol fundados no Brasil foram: São Paulo Athletic Club (1894), que mais tarde incluiu o futebol a seus esportes (o principal era o críquete). Mackenzie College (1898). Sport Club Internacional (1899) e Sport Club Germânia (1899). Porém, até a década de 1930, todos les já haviam sido extintos ou abandonado o futebol profissional. A eles, juntou-se o Clube Atlético Votorantim (1900). Dessa forma, o S.C. Rio Grande, na realidade o sexto clube de futebol mais antigo do Brasil, se tornou o primeiro. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)

No dia 24 de janeiro de 1915 a Societá Sportiva Palestra Itália, atual S.E. Palmeiras realizou o primeiro jogo de sua história, contra o Sport Club Savóia. Na foto a delegação “palestrina” frente o pavilhão do centenário Estádio Castelões, hoje denominado Domenico Paolo Mitidieri, em Votorantim. (Foto: Arquivo da S.E. Palmeiras)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Outros pioneiros do futebol brasileiro

Depois do jogo entre o "Team do Gaz" e a "The São Paulo Railway", o futebol encontrou dificuldades para se desenvolver, porque apenas o São Paulo Athletic Club, fundado por britânicos em 13 de maio de 1888 praticava a nova modalidade esportiva, resumida aos seus sócios. O alto custo dos uniformes, bolas e equipamentos, tudo importado, inibia a formação de novos clubes de futebol.

Essa situação começou a mudar somente a partir de 1897, com a chegada ao Brasil do imigrante alemão Hans Nobiling, ex-jogador do Germânia, da Alemanha, e apaixonado por futebol, que veio se estabelecer em São Paulo. Ele é reconhecido como o segundo incentivador do futebol no Brasil. O alemão trouxe em sua bagagem uma bola de futebol da marca “Fussball” e os estatutos do Deutschland S. V., de Hamburgo, sua cidade.

Logo que pisou em solo brasileiro, Nobiling já pensava em fundar um time e organizar campeonatos. Naqueles tempos pioneiros o esporte era privilégio de ingleses e dos alunos do Colégio Mackenzie, que fundaram em 1898 a Associação Atlética Mackenzie College.

O professor Augusto Shaw retornara de uma viagem aos Estados Unidos, em 1896 trazendo duas bolas, uma de basquete e outra de rugby. Certo de que seus alunos ficariam encantados com um dos dois esportes, Shaw tomou um susto ao ver que a moçada, em vez de usar as mãos para jogar basquete, chutava a bola. Mas não repreendeu os pupilos. Ao contrário, começou a jogar futebol com a própria bola de basquete. Daí, até o surgimento da Associação Atlética Mackenzie College, foi um passo. O Mackenzie foi o primeiro clube de brasileiros e para brasileiros. Apesar de vitórias esporádicas, nunca foi campeão de nada. O uniforme do time era camisas vermelhas, calções e gravatas brancos.

Tempos depois Nobiling conseguiu montar um time avulso, que passou a ocupar o campo da Companhia Paulista de Transportes, na Chácara Dulley, onde inicialmente o São Paulo Athletic Club fazia seus jogos, antes de fechar seu próprio campo no mesmo local. Era muito comum a invasão do campo pelos cavalos e burros que puxavam os bondes que circulavam pela capital paulista na época.

Esse time passou a ser chamado de “Nobilings Team”, ou time do Nobiling que, ao desaparecer, levou à fundação em 1899 do S.C. Germânia, atual Pinheiros. Também fundou o Sport Club Internacional. Esses clubes seriam mais tarde grandes forças do futebol brasileiro.

A Chácara Dulley, no bairro do Bom Retiro foi o primeiro campo demarcado no Brasil, com as medidas oficiais idênticas às dos gramados da Inglaterra e foi usado pelo São Paulo Athletic Club. Existiam outros campos na cidade, mas a maioria deles não respeitava as marcações oficiais.

Nos primeiros tempos o time de Nobiling, formado na maioria por descendentes de alemães, teve dificuldades para conseguir adversários. Mas, dobrou as resistências ao marcar o primeiro amistoso contra o Mackenzie, em março de 1899, jogo que terminou empatado em zero a zero. Esse amistoso pode ser considerado como o primeiro clássico da história do futebol brasileiro. Depois, o time de Nobiling venceu a Companhia de Gás por 1 x 0, com a presença recorde de 60 expectadores.

Não demorou muito e Nobiling resolveu fundar um clube de verdade. Na primeira reunião não houve consenso para escolha do nome. Cinco votos para Sport Club Germânia, 15 para Sport Club Internacional. Tratava-se de um clube cosmopolita, que reuniria brasileiros, alemães, franceses, portugueses e ingleses.

Os dissidentes germânicos, entre eles Hans Nobiling, dezoito dias depois, a 7 de setembro, fundariam o Sport Club Germania, que tinha como campo a área que ficava na Chácara Witte, atrás da antiga cadeia, onde mais tarde seria construída a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

O Germânia não chegou a disputar nenhuma divisão das diversas versões do Campeonato Paulista, mas merece registro por ter sido uma das primeiras equipes do nosso futebol, e por haver participado das primeiras partidas em nosso país. O Germânia participou, em 1899, do primeiro torneio de futebol que se tem notícia no Brasil, lançando assim as sementes para fazer surgir a Liga Paulista de Futebol e toda a história a partir dela.

Depois de Charles Miller e Hans Nobiling, apareceu Antônio Casemiro da Costa, um brasileiro, que até então morava na Suíça, e veio para São Paulo. Casemiro ajudou Charles Miller a fundar a primeira Liga, a Liga Paulista de Futebol, no dia 14 de dezembro de 1901, na Rua São Bento, n° 03, sala 1, sendo consagrado como seu primeiro presidente.

Tornou-se, ainda, o primeiro grande capitão de um time, o Sport Club Internacional. E, foi o idealizador da entrega de uma taça aos clubes campeões. Fora do campo foi um grande defensor da disciplina, das leis e regulamentos. Dentro do campo, um atleta leal e respeitador. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Ilustração de J.C. Lobo publicada em "A Tribuna, de Santos": A. A. Mackenzie College, primeiro clube de brasileiros.

Rodrigo Bauer disse...
Nilo, meus parabéns pelo Blog! Está muito bom, com muito conteúdo interessante para os amantes da história do futebol! Sucesso nesta empreitada!!
3 de março de 2008 13:01

Horácio disse...
Olá meu mestre. Tudo bem? Estou feliz em poder compartilhar comentários com o teu Blog. Felicidades!
3 de março de 2008 14:51

domingo, 2 de março de 2008

Charles Miller é o pai do futebol brasileiro

Pesquisadores e polêmicas a parte, não existe a menor dúvida de que Charles Miller foi pioneiro na introdução do futebol organizado no Brasil. Toda a razão para os que o credenciam como o “pai do futebol brasileiro”. As peladas nas praias e os bate bola descompromissados podem ter existido antes, mas não passavam de meras brincadeiras.

A coisa ganhou seriedade mesmo, quando Miller desembarcou de volta ao Brasil em 18 de fevereiro de 1894, depois de uma temporada de 10 anos de estudos na Inglaterra. E voltou com emprego garantido na São Paulo Railway Company, que naõ existe mais e se tornando correspondente da Coroa Britânica e vice-cônsul inglês em 1904.

Filho de um banqueiro escocês chamado John e de uma brasileira de ascendência inglesa, de nome Carlota Fox, Muller nasceu em São Paulo no dia 24 de novembro de 1874. Em 1884, como acontecia com quase todos os filhos de famílias ricas, ele foi estudar na Europa. Primeiro, na Banister Court School, em Southampton, extremo sul das ilhas britânicas. Depois, em uma escola pública no Condado de Hampshire, onde aprendeu a jogar futebol e criquete. Foi pelo time dessa escola que ele jogou a favor e contra o St. Mary e o Corinthian (sem o s), inspirador do Corinthians Paulista, fundado em 1910.

Aos 17 anos, Charles já se destacava no futebol, o que lhe deu a chance de disputar 34 partidas pela Banister School, marcando 51 gols. Pelo St. Mary ele jogou 13 partidas e fez três gols. Pelo Condado de Hampshire também emplacou três gols, só que em seis partidas. Nos 10 anos vividos na Inglaterra ganhou o apelido de “Nipper”, algo como “garoto”, ou “moleque”, por causa de seu jeito alegre e malandro de jogar.

No retorno ao Brasil trouxe na bagagem duas bolas da marca “Shoot”, fabricadas em Liverpool, presentes de um amigo, uma delas logo apelidada de "Peluda", por ainda conter pêlos no couro, uma bomba de ar, um grosso livro de regras, dois jogos de uniformes - da “Banister School” e do “St. Mary’s Football Club” - e um razoável conhecimento sobre o esporte criado pelos ingleses.

O saudoso jornalista e pesquisador De Vaney relata em seu livro, "Minhas Memórias do Futebol", in Cidade de Santos de 19 de dezembro de 1977, pág.3, que as duas bolas trazidas por Miller permaneceram fechadas em seu guarda-roupa desde a sua chegada, em 9 de junho de 1894 até 14 de abril de 1895. E se as tirou do armário foi tão-somente porque alguns de seus amigos ingleses pediram-lhe para trazê-las de sua casa.

Em conversas nas horas de folga, Miller convenceu seus colegas de trabalho e de críquete, todos altos funcionários da Companhia de Gás, do Banco de Londres e da Ferrovia São Paulo Railway, a participarem de um jogo de futebol, aos moldes do praticado na Inglaterra. Os treinos para o jogo eram realizados ao entardecer, num horário em que a Companhia de Viação Paulista soltava os animais na várzea. Por isso, era comum ter de espantá-los para ficar com toda a área à disposição.

Depois de todos terem entendido as regras e os termos em inglês, tais como “half-time”, “ground”, “match“ etc., Miller formou duas equipes, que ele denominou: "Team do Gaz" e "The São Paulo Railway", e promoveu o primeiro jogo de futebol realizado no Brasil dentro das regras oficialmente estabelecidas na Inglaterra, em 1863.

O jogo foi realizado no dia 14 ou 15, (a data não é precisa) de abril de 1895, tendo por local a Chácara Dulley, na Várzea do Carmo, ou do Gasômetro, nos arredores da rua do Gasômetro, situada entre os bairros da Luz e do Bom Retiro, em São Paulo, região que sofria com as constantes inundações do rio Tamanduateí.

Charles Miller marcou dois gols, na vitória de seu time, o "The São Paulo Railway" por 4 X 2. Como ainda não existiam uniformes específicos para a prática do futebol, os jogadores vestiram calças compridas. Segundo relatos da época, além de alguns poucos funcionários das empresas envolvidas no jogo, nenhum outro assistente. A não ser alguns burros que pastavam no local. Foi preciso enxotar os animais de dentro do gramado, para que o jogo se realizasse.

Depois disso o futebol começou a ganhar projeção na capital paulista e surgiram as primeiras equipes organizadas. Charles Miller foi fundamental na montagem do time do São Paulo Athletic e a Liga Paulista de Futebol, a primeira liga de futebol no Brasil. Com ele como artilheiro o São Paulo Athletic ganhou os três primeiros campeonatos em 1902, 1903 e 1904. Ele jogou no clube até 1910, quando encerrou a carreira e passou a atuar como arbitro. Também foi o fundador da Associação Paulista de Tênis (APT).

Miller morreu em 30 de junho de 1953. Em sua homenagem a praça junto ao Estádio do Pacaembu, criada em 1940, desde 1954 leva o seu nome. A Rede Globo de Televisão instituiu o “Troféu Charles Miller”, que premia os destaques futebolísticos de cada ano. Em 1955 foi realizado o “Torneio Internacional Charles Miller”, vencido pelo Corinthians Paulista. Miller criou o drible ou passe com o calcanhar, jogada que viria a ser conhecida com o nome de "Charles", em sua homenagem.

Miller teve apenas dois filhos, que geraram 6 netos, 11 bisnetos e 6 tataranetos. Uma neta, Maria Inês Rudge Miller, e seus filhos Rafael e Roberto Rudge Miller (bisnetos), nascidos em Curitiba são descendentes diretos de Charles William Miller. Rafael, apaixonado por futebol proferiu palestra no lançamento do livro “Charles Miller, o pai do futebol brasileiro”, do autor inglês John Mills.

Maria Inês chegou à Curitiba em 1971, a trabalho e voltou a São Paulo dois anos mais tarde, para finalmente se fixar na capital paranaense a partir de 1978. A família mora em um condomínio de classe média no bairro de Santa Felicidade. Dos descendentes de Miller, apenas Maria Inês e os filhos estão no Paraná – 90% da família mora em São Paulo, onde o Pai do Futebol nasceu (no bairro do Brás) e iniciou a difusão do futebol. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)

Time do Banister Court School, em Southampton, Inglaterra, com Charles Miller em destaque. (Foto: The book "Charles William Miller 1894 - 1994 Centenary Memoriam SPAC" by John R. Mills)

sábado, 1 de março de 2008

Pioneirismo de Charles Miller foi colocado em dúvida

No Brasil nada é definitivo. Muito menos a história. Desde criança leio e ouço falar que o surgimento do futebol em nosso país é atribuído a Charles Miller, um paulista filho de pais abastados que fora estudar na Inglaterra e lá conheceu o chamado “esporte bretão”.

Mas como a polêmica é marca registrada nacional, não faltou quem colocasse em dúvida o pioneirismo de Miller. Levantamentos históricos feitos por estudiosos do assunto garantem que os primeiros chutes dados em terras tupiniquins foram em “peladas” disputadas nas praias do Rio de Janeiro e de Santos, por marujos e funcionários de firmas inglesas. Isso, lá por volta de 1864. E em 1878, ocorreu uma famosa partida, disputada no Rio de Janeiro, em frente à residência da princesa Isabel, entre as ruas do Roso e do Paissandu. É certo que marinheiros mercantes e de guerra ingleses sempre batiam bola quando desembarcavam no Brasil.

Já o historiador José Moraes dos Santos Neto, formado pela Universidade de Campinas (Unicamp) escreveu o livro “Visão do Jogo - Primórdios do futebol no Brasil”, onde apresenta evidências de que o futebol teria chegado ao Brasil, através o Colégio São Luiz, de Itu (SP). As conclusões do escritor são fundamentadas em documentos obtidos nos acervos do Colégio São Luís, Mosteiro de Itaici e Arquivo do Estado de São Paulo e em entrevistas com descendentes diretos dos possíveis pioneiros do esporte no Brasil.

Para se entender como isso aconteceu é preciso voltar ao ano de 1858, quando o futebol começou a se propagar pela Europa e chegou a Itália. Lá, foi muito bem aceito pelos padres jesuítas do Colégio Pio-Americano, de Roma, que viram no novo esporte possibilidades de atender aos princípios pedagógicos na formação de jovens.

As conclusões do escritor campineiro encontram eco no livro “A Companhia de Jesus: sua pedagogia e seus resultados”, escrito pelo padre J. Madureira, que relata a atividade dos religiosos no Brasil. E conta que em 1880, coincidência ou não, chegaram ao Brasil dois padres ingleses, os irmãos Robert e William Godding. E teriam sido eles os introdutores do novo esporte, como recreio escolar no Colégio São Luiz, aos moldes do Colégio Pio-Americano, de Roma. Era o “bate-bolão”, sem traves, times, ou campo definido.

O possível pioneirismo do Colégio São Luis chamou a atenção de outros estabelecimentos religiosos de ensino, entre eles o Instituto Granbery, de Juiz de Fora (MG), que em 1893 também aderiu ao futebol como atividade recreativa.

Fala-se, também, que em 1875, ingleses, empregados de empresas de navegação, bancos e outros, já praticavam nas praias do Rio de Janeiro, de maneira informal, o “foot-ball association” como forma de passar o tempo, muitas vezes sob os olhares curiosos de populares, que não entendiam do que se tratava.

Outros historiadores afirmam que um inglês conhecido por Mr. Hugh, alto funcionário da “São Paulo Railway”, teria em 1882, difundido o futebol em Jundiaí (SP), formando equipes onde se misturavam ingleses e brasileiros. E um outro inglês, Mr. John, que depois teria sido técnico do Clube Atletico Paulistano, costumava reunir os empregados das empresas britânicas “Serviços das Docas”, “Cabo Submarino”, “City” e “Leopoldina Railway”, para a prática do futebol. Sabe-se, agora que essas peladas britânicas eram comuns nas cidades portuárias, onde proliferavam companhias inglesas, fábricas e colégios.

O historiador Carlos Molinari, no livro “Nós é que somos bangüenses” defende a versão de que entre os britânicos que vieram em 1892 para trabalhar na fábrica de tecidos Bangu, no Rio de Janeiro, o escocês Thomas Donohoe, fanático por futebol, apresentou o esporte aos brasileiros. Em viagem à Inglaterra, teria comprado a primeira bola de futebol usada em nosso país, em partida realizada em abril de 1894, com dois times de cinco jogadores, sem uniforme nem gols anotados.

Molinari acredita que pela falta de dados palpáveis, é que se prefere creditar a Charles Miller a introdução do futebol no Brasil em outubro de 1894 e a realização da primeira partida em abril de 1895, um ano depois do jogo de Donohoe.

Vou continuar contando fatos como estes, porque eles têm cunho histórico e não se pode esconder. O tema é bastante abrangente e merece outras considerações. O esporte pode ter sido praticado aqui, antes de Charles Miller, como passatempo e de forma improvisada. Mas é inegável que o futebol organizado, foi ele quem trouxe para o Brasil. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)

Padres jesuitas trouxeram um futebol improvisado para o Colégio São Luis, de Itu como forma de recreação.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O futebol nasceu da inspiração inglesa

Hoje quero encerrar esta série de artigos que tratam sobre as possíveis origens do futebol. Respeito qualquer teoria, mas creio que o esporte foi invenção da inspiração inglesa e nada tem a ver com esquimó, índio, chinês, japonês ou qualquer outra coisa do gênero. Pode ter acontecido que uma meia dúzia de diferentes jogos, em alguns aspectos fossem mais ou menos parecidos, e por isso classificados como raízes dele. Mas nada garante que o fato da bola ser jogada com os pés há milhares de anos tenha algo a ver com o esporte futebol.

O futebol moderno nasceu em 26 de outubro de 1863, durante uma reunião na “Freemasons Tavern", em Londres. Ali, um grupo de representantes de onze escolas e clubes estabeleceu a uniformização das regras e criou o primeiro órgão encarregado de coordenar as atividades futebolísticas: a Football Association (F.A.), que até hoje controla o futebol inglês.

O futebol já era praticado desde o século VIII nas Ilhas Britânicas, com disputas nas ruas, envolvendo povoados inteiros e pequenas cidades. Não existiam regras, quase tudo era permitido, menos assassinato ou homicídio. Até hoje o "Shrovetide Football" é praticado nos domingos de Carnaval em algumas cidades inglesas.

Os jogos entre homens casados e solteiros foi uma tradição que perdurou por muitos anos na Inglaterra. Em Inveresk (Escócia), ao final do século XVII as mulheres casadas e solteiras disputavam acirradas partidas, o que mostra que o futebol feminino não é tão novo assim.

A violência do futebol primitivo ocasionou proibições: por excesso de barulho, escândalo público, quebra de vidros de janelas, perturbação do descanso dominical e a mais famosa de todas: o decreto publicado pelo parlamento inglês, convocado por Jaime I em Perth em 1424: "That no man play at the Fute-ball" (Que nenhum homem jogue futebol).

Mas foi nas escolas que o futebol se renovou e refinou. O pedagogo Richard Mulcaster, diretor dos colégios de Merchant Taylors e St. Pauls, juntou ao esporte valores educativos positivos, como retirar os jovens da bebida e dos jogos de azar. Sem regulamentação, cada escola aplicava suas próprias regras. Apenas em 1846, em Rugby se fixaram as primeiras regras de caráter obrigatório, sendo permitido chutar a perna do adversário debaixo do joelho, mas não segurá-lo e chutá-lo ao mesmo tempo.

Na Universidade de Cambridge, em 1848, estudantes de diferentes escolas tentaram unificar as regras. A maioria era contra chutar a canela do adversário e levar a bola com a mão. A fração de Rugby saiu da reunião. Eles haviam desistido de chutar a perna do adversário, mas queriam manter o jogo com a mão e levar a bola debaixo do braço.

Essa reunião foi decisiva para a criação de um regulamento único. Em 26 de outubro de 1863 foi aprovado o estatuto da Football Association. Os pontos de discórdia, chutar a canela e levar a bola com a mão foram discutidos em detalhes. Finalmente, em 8 de dezembro daquele ano, o futebol se separou do rugby. Os defensores do rugby, em minoria queriam continuar chutando as canelas dos adversários e levando a bola com a mão.

Em 1871, a Associação Inglesa de Futebol já contava com 50 clubes. Nesse ano foi realizada a primeira competição organizada de futebol no mundo: a Copa Inglesa. O primeiro jogo internacional de futebol foi em 30 de novembro de 1872, em Glasgow, entre Inglaterra e Escócia. Como ainda não existia uma associação nacional na Escócia, o adversário dos ingleses foi o Queen's Park F.C., mais antigo clube de futebol do país.

O profissionalismo no futebol começou a ser discutido em 1879 quando o pequeno Darwen, clube de Lancashire, empatou duas vezes com o então imbatível Old Etonians. Dois jogadores do Darwen, os escoceses John Love e Fergus Suter, parecem ter sido os primeiros que receberam dinheiro para jogar futebol. Os casos se multiplicaram e em 1885, a F.A. legalizou oficialmente o profissionalismo.

Depois da Associação Inglesa de Futebol surgiram outras: na Escócia (1873); País de Gales (1875) e Irlanda (1880). Com a expansão do futebol pelo mundo surgiram outras associações: Holanda e Dinamarca (1889), Nova Zelândia (1891), Argentina (1893), Chile, Suíça e Bélgica (1895), Itália (1898), Alemanha e Uruguay (1900), Hungria (1901), Noruega (1902), Suécia (1904), Espanha (1905), Paraguay (1906) e Finlândia (1907). Quando da fundação da FIFA, em maio de 1904, sete países estiveram presentes: França, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Espanha (representada pelo Madrid FC), Suécia e Suíça. A Associação Alemã confirmou a filiação por telegrama, no mesmo dia. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)

A mais antiga cervejaria de Londres, a “Freemasons Arm” (antigamente conhecida como “Freemasons Tavern”), localizada no número 81-82 da Long Acre Street, Covent Garden-Londres, em Londres, teve sua fachada preservada. Foi nesse local que em 1863 onze respeitáveis cavalheiros, de bigodes e barbichas, estabeleceram as regras definitivas do futebol e fundaram uma associação para cuidar de organizar e administrar o novo esporte. Sob a luz de velas e regada a cerveja e uisque, as dezessete regras do futebol finalmente surgiram. (Foto: Beer in The Evening - Londres)

cpereir disse...
olá, amigo nilo... abraços e bom divertimento com esse negócio que resolveu inventar.. hehehehe.. abraço fraterno, claudemir pereira. Ah, não esqueça de entrar na minha página: www.claudemirpereira.com.br
29 de fevereiro de 2008 15:04

A TOCHA disse...
Parabéns pelo blog. Esta ferramenta é incrivel. Faço votos pelo sucesso do seu blog. Peço permissão para adicionar o link de seu blog nos meus blogs:
www.onossojornalsg.blogspot.com
www.a-tocha.blogspot.com.
Um abraço e sucesso
29 de fevereiro de 2008 19:42

Murillo disse...
Oi, Nilo. Muito boa a iniciativa do amigo. Falar sobre a paixão nacional e falar com propriedade de quem conhece o jogo. Um texto bom de ler, enxuto, interessante e com estilo. Coisa meio rara de ver hoje em dia na profusão de jornais que existem na terra dos marechais. Só quem tem escola sabe fazer. Parabéns! Sucesso!
um abraço do amigo Murillo.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Chutar não é sinônimo de futebol

Embora também contenha todas as teorias de que o futebol teve raízes em épocas que remontam muitos anos antes de Cristo, o artigo do doutor Wilfried Gerhardt publicado na página da FIFA, na Internet (http://es.fifa.com/classicfootball/history/), está mais condizente com o razoável. Eu, pelo menos, considero que de tudo que se escreveu até agora sobre as possíveis origens do futebol o artigo dele é o que mais se aproxima da verdade. O texto está publicado em inglês, alemão, francês e espanhol, mas me dei ao trabalho de traduzi-lo e posso encaminhar via e-mail para quem tiver interesse.

Gerhardt faz considerações sobre essas manifestações que podem ter acontecido em épocas remotíssimas, mas em momento algum afirma que elas tenham alguma coisa a ver com o futebol. Também eu me dou o direito de entrar no caminho das teorias: chutar, não é sinônimo de futebol. É uma tentação que eu não sei explicar. Quase ninguém resiste a dar um bom chute até em tampinha de garrafa. E com os antigos seria diferente?

O que aconteceu na China e no Japão milhares de anos atrás está mais para ser o ancestral das lutas marciais, que do futebol. Os chineses e japoneses usavam o "Ts'uh Kúh”, e o “Kemari” como atividade recreativa para melhorar a condição física dos militares, embora fosse também um excelente sistema de autodefesa. As artes marciais tiveram uma evolução gradual derivando de técnicas milenares. Sabe-se que imigrantes chineses chegados na península coreana desenvolveram uma luta chamada “Tae Kyon”, nos séculos V e VI A.D. na dinástia de Goguryo.

Os guerreiros de Hwarang, da Dinastia de Silla eram famosos em toda a Coréia por dominarem as técnicas do “Tae Kyon”, que significa "a arte de chutar". O “Tae Kyon”, como uma arte que desenvolve a capacidade de chutar com eficiência foi originária do novo “Taekwondo” e exportada para a China e Japão, desenvolvida e adaptada pelo “Kung Fu” através de chutes abaixo da linha da cintura. Mais tarde toda essa técnica foi para o Japão no desenvolvimento do “Karatê”.

Wilfried Gerhardt estava mais do que certo ao escrever que as manifestações primitivas que alguns dizem ser precursoras do futebol, aproximavam-se mais de lutas coletivas do que qualquer outra coisa. Os jogadores precisavam lutar com todo o corpo, movimentando também pernas e pés pela posse da bola em um grande tumulto, geralmente sem regras. Desde o começo, se considerava como extremamente difícil dominar a bola com os pés, o que exigia certa habilidade.

Não vou me alongar nesse aspecto, até porque o nosso assunto é futebol. Mas dá uma perfeita idéia de que os antigos estavam mais para se aperfeiçoar em lutas do que outra coisa. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Será que os chineses foram mesmo os precursores do futebol? (Foto: Agência Minutos 90 - Espanha)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Museu alemão rastreia as origens do futebol

Quem realmente inventou o futebol: os nativos americanos? Os índios sul-americanos? Foram os mexicanos, os chineses, os japoneses ou os esquimós? O Museu de Etnologia de Hamburgo (Völkerkundemuseum), Alemanha é uma entidade das mais respeitáveis no mundo e está empenhada em responder a essa pergunta que tanto intriga os historiadores: quem realmente inventou o futebol? O esporte tem alguma relação com alguns jogos que eram praticados desde a antiguidade? Para isso o Museu vem rastreando as raízes do esporte.

Uma exposição chamada “"Fascinação Futebol", exibe tudo o que já foi apurado até hoje. Imagens coloridas de bolas, roupas, chuteiras e outros equipamentos mostram o esporte antigo que teoricamente deu origem ao futebol moderno. A forma mais primária de um jogo com bola é geralmente associada a um jogo chinês chamado "Ts'uh Kúh”, criado há 4.700 anos para ensinar os soldados sobre a cooperação e vigilância. A exposição mostra um exemplo disso.

"Fascinação Futebol" fala de bolas de pedras de 6 mil anos desenterradas no sudoeste dos Estados Unidos que são similares às usadas hoje por nativos norte-americanos em dois tipos de jogos parecidos com o futebol. A exibição mostra um par de chuteiras pretas e vermelhas que foram usadas no Japão do século 7 por imperadores, cortesãos e samurais no jogo “kemari”. Nesse jogo o objetivo era se movimentar o menos possível e as solas das chuteiras não deveriam ser mostradas.

A exposição também detalha um jogo mexicano chamado “Ulama”, de 1500 A.C., sendo que uma versão dele ainda é jogado hoje em dia. Os jogadores têm que chutar a bola por anéis de pedra com seus quadris.

Um crânio e presas de morsa decoram a parte que explica como os esquimós acreditam que as Luzes do Norte brilham quando seus ancestrais estão jogando futebol com um crânio. Esquimós normalmente gostam de jogar em campos de gelo em temperaturas de 50 graus Celsius negativos e tradicionalmente recebem convidados desafiando-os para um jogo. O primeiro jogo de futebol intercontinental aparentemente aconteceu na Groenlândia em 1586, entre o explorador inglês e sua tripulação e os habitantes de Godthab.

Uma das partes mais atraentes mostra as origens do "calcio storico", de Florença, um jogo que apresenta similaridades com o rúgbi moderno e tem sido disputado desde o século 16.

Apesar de os ingleses terem criado à primeira associação de futebol em Londres, em 1863, a Escócia é apresentada como um berço do futebol moderno. A exposição utiliza várias peças do museu do futebol escocês de Glasgow. Os registros mostram que um jogo aconteceu em Aberdeen em 1633, incluindo goleiros e marcação homem a homem.

Mesmo que muitas dessas coisas nada tenha a ver com o futebol moderno, é inegável que se trata de um trabalho da mais alta qualidade e que merece ser visto. Não sei se a exposição "Fascinação Futebol" esteve alguma vez no Brasil. Se não esteve, seria ótimo que a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ou outra entidade a trouxesse para ser vista nas principais cidades brasileiras. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)

Funcionários do Museu Etnológico de Hamburgo cuidam dos últimos detalhes da exposição 'Fascinação Futebol', que narra a história do esporte em aproximadamente mil metros quadrados. Na foto, um dos objetos expostos: o relógio do estádio Hampden Park, da equipe escocesa Queen's Park FC, de Glasgow. (Foto: DW-WORLD.DE)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Quem garante as origens do futebol?

Confesso que não acredito nessa história de que o começo do futebol remonta a centenas de anos antes de Cristo. Eu até gostaria de saber como os pesquisadores chegaram a conclusões que fogem a razão. Eu li o livro “Memórias de uma bola de futebol”, do escritor paulista Renato Pompeu. Um ótimo livro, por sinal. A bola é a personagem central dele.

O autor mistura fatos reais e teóricos. Começa com as primeiras lembranças da bola, no círculo ártico, há 20 mil anos. Um casal de esquimós siberianos, vestidos com couros de rena, chutava uma bola para afastar o frio congelante. Não explica do que era feita essa bola. Como teoria, tudo bem.

São muitas as versões que pretendem contar a história do futebol. O Dr. Wilfried Gerhardt, ex-chefe de imprensa da Federação Alemã de Futebol (DFB), publicou em 1979, originalmente pela FIFA News um artigo que tem servido de pano de fundo para aqueles que buscam na antiguidade respostas para muitas perguntas.

Na antiga China, três mil anos antes de Cristo era praticado o "Ts'uh Kúh”, que consistia num jogo em que uma bola de couro com plumas e pêlos tinha de ser lançada com os pés a uma pequena rede, com uma abertura de 30 a 40 centímetros, fixada a largas varas de bambu. Esse jogo servia de treinamento militar e exigia habilidade, destreza e técnica.

E o que dizer do “Kemari” japonês, uma outra forma de jogo, que foi mencionado pela primeira vez há 500 ou 600 anos, e que é praticado até hoje? Wilfried Wilfried Gerhardt explica que se trata de um exercício cerimonial, que exige certa habilidade, mas não tem caráter competitivo como o jogo chinês e não representa nenhuma luta pela posse da bola. Em uma superfície relativamente pequena, os jogadores passam a bola, sem deixa-la cair no chão.

O que pensar do "Epislcyros" grego, do qual se sabe relativamente pouco, e do "Harpastum" romano? No jogo romano era usada uma bola pequena. Duas equipes jogavam em um terreno retangular, com linhas de marcação e divididos por uma linha média. A bola tinha que ser lançada detrás da linha de marcação do adversário. Os componentes de uma equipe tinham diferentes tarefas táticas e o público os incitava, com gritos, em suas jogadas e resultados.

Este esporte foi muito popular entre os anos 700 e 800. Os romanos introduziram o jogo na Bretânia, porém é muito duvidoso que possa ser considerado como o precursor do futebol, ou igual ao "Hurling", que era muito popular entre a população celta e que se pratica, até hoje em Cornwell e na Irlanda.

Eu devo concordar com o jornalista alemão, quando não deixa dúvidas de que o jogo que conhecemos hoje com o nome de futebol teve origem na Inglaterra e Escócia. A historia moderna do futebol comporta 145 anos de existência. Começou em 1863, quando na Inglaterra foram separados os caminhos do "rugby-foot ball" e da "associação football" e se fundou a associação de futebol mais antiga do mundo: a "Foot ball Association". Continuarei a escrever sobre o tema, que me parece muito interessante. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
(Kemari ainda é praticado no Japão (Foto: Tripod)