Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

terça-feira, 25 de março de 2008

Um “galo” centenário

O futebol brasileiro está em festa. Hoje, o Clube Atlético Mineiro, o “Galo Carijó” comemora 100 anos. E amanhã, 21h45min, no Mineirão, faz um jogo festivo contra o Penãrol de Montevidéu. O clube foi fundado em 25 de março de 1908 por um grupo de 22 estudantes “peladeiros”, que matavam aulas para chutarem uma bola de meia no Parque Municipal, em Belo Horizonte. Foi em meio a uma dessas “peladas” que surgiu a idéia de fundar um clube organizado. Assim nasceu o Atlético Mineiro Futebol Clube, primeiro nome do “Galo”. A mudança para Clube Atlético Mineiro aconteceu quatro anos depois.

Em 21 de março de 1909 aconteceu o primeiro jogo e a primeira vitória, 3 X 0 sobre o Sport Club Futebol, no gramado deste. Aníbal Machado, que mais tarde se consagraria como escritor, marcou o primeiro gol da história do Atlético. Dias depois, novo triunfo sobre o mesmo adversário, por 2 X 0 e um terceiro, por 4 X 0. Com a humilhação o Sport fechou e aderiu ao novo clube. A primeira derrota não tardou, uma goleada de 5 X 1 ante o Grambery, de Juiz de Fora. Na revanche, novo revés, 3 X 1. A vingança veio dias depois, um massacre por 7 X 0. Os torcedores, que já eram muitos, passaram a chamar o time de “Vingador”, o que explica a citação no hino oficial. O hino do Atlético foi escrito em 1969 por Vicente Mota.

O primeiro campo se localizava na Rua Guajajaras, entre São Paulo e Curitiba. Na primeira noite, as traves foram roubadas e Margival Mendes Leal, o primeiro presidente, tratou de procurar outro lugar para o campo. Conseguiu um bem central, na Avenida Paraopeba (hoje Augusto de Lima), mas este também foi logo requisitado pelo Governo para a construção da Secretaria da Saúde. Então o "Galo" passou a ocupar as velhas instalações do extinto Sport, junto à Praça da Estação até 1921, quando o Governo doou ao Atlético um quarteirão inteiro na Avenida Olegário Maciel para compensar o que havia tomado. Ali seria construído o estádio Antônio Carlos.

Em 1914, a Liga Mineira de Esportes promoveu um torneio, que é considerado o primeiro campeonato estadual. O campeão foi o Clube Atlético Mineiro, que ganhou o “Troféu Bueno Brandão”, o primeiro de sua história. No ano seguinte a competição se repetiu e foi considerada oficial e o Atlético repetiu a conquista. Depois, veio um longo jejum. O América colecionou títulos, 10 seguidos. Somente em 1926, o Atlético voltou a ser campeão, repartindo o título com o Cruzeiro. Repetiu o feito em 1927. E com gostinho especial: uma goleada de 9 X 2, sobre o Cruzeiro, ainda Palestra.

Em 1927 0 “Galo” precisava vencer o Vila Nova, em Nova Lima, para ser campeão. Um empate dava o título ao Palestra. Um jogo histórico. No primeiro tempo o Vila vencia por 4 X 1 e Mário de Castro era alvo de gozações. Parecia tudo perdido. Veio o segundo tempo, e com ele a impressionante reação: em 15 minutos Mário de Castro fez quatro gols, calando a torcida. No final, uma vitória heróica de 5 X 4 e a taça como prêmio.

Ninguém mais segurava o “Galo”, que clamava por um estádio próprio. Em 1928, por iniciativa do presidente Leandro Castilho de Moura, o sonho começou a virar realidade. Em 30 de maio de 1929 foi inaugurado o Estádio Presidente Antônio Carlos, para 5.000 pessoas. Ganhou o apelido de “Gigante", por estar dentro de uma cidade com pouco mais de 40 mil habitantes.

Foi uma tarde memorável. O próprio homenageado, Antônio Carlos, estava lá. O jogo inaugural teve o Sport Clube Corinthians, campeão paulista, como convidado. O Atlético Mineiro venceu por 4 X 2. Valeriano, jogador do Corinthians fez o primeiro gol no estádio. E Mário de Castro o destaque do time, o primeiro do Atlético. Ele marcou 195 gols com a camisa atleticana e foi convocado em 1929 para Seleção Brasileira. Por muito tempo o "Alçapão" foi conservado apenas em respeito à tradição, mas no início dos anos 70 ele foi destruído. Hoje no local está construído o Diamond Mall, shopping center mais luxuoso de Minas Gerais.

Nesse mesmo ano o Atlético fez o primeiro jogo internacional de um clube mineiro, derrotando por 3 X 1 o então campeão português, Victória, de Setúbal, no recém inaugurado Estádio Antônio Carlos. Em 1930, Jules Rimet, fundador e presidente da FIFA visitou o velho Estádio, também chamado de Lourdes e viu pela primeira vez um jogo de futebol à noite. De casa nova, o clube não teve dificuldade para chegar ao bicampeonato mineiro, em 1931 e 1932.

No início dos anos 30, o cartunista Mangabeira batizou cada time mineiro com um bicho. Para o Atlético coube o "Galo Carijó", preto e branco, um galo de briga forte e vingador. Foi sem dúvida o bicho de maior sucesso entre todos, adotado pela torcida como símbolo da paixão alvinegra.

Já consolidado como um grande clube, o Atlético Mineiro partiu para pulos mais altos. Em 1937, a Federação Brasileira de Futebol (FBF), depois CBD e CBF, organizou o torneio dos campeões estaduais, com a Portuguesa de Desportos (SP), Fluminense (RJ), Rio Branco (ES) e Atlético (MG). Em campanha impecável o clube mineiro sagrou-se o primeiro “Campeão dos Campeões do Brasil”. Repetiu o feito em 1958.

Em 1938, com Guará, um dos maiores jogadores a vestir a camisa preta e branca, Zezé Procópio e Alfredo Bernadinho, vindos do Vila Nova, o “Galo” passeou no campeonato mineiro, papando o título invicto. Ganhou de novo em 1941 e 1942 (11 jogos e 11 vitórias). Encerrou a década de 40, ainda com os títulos de 1946, 1947, 1949 e 1950.

Antigos torcedores consideram o time da segunda metade da década de 40 como o melhor de todos os tempos. A linha de frente tinha Lucas Miranda, Carlyle, Nívio e Lêro, e fez 250 gols. O time contava ainda com a firmeza de Kafunga, o jogador que mais vestiu a camisa atleticana (por 19 anos) e idolatrado como o melhor goleiro do clube em todos os tempos.

Os "Campeões do Gelo"

Em 1950 o Atlético ganhou o título de “Campeão do Gelo”, imortalizado no hino oficial, durante uma excursão a Europa, entre 2 de novembro a 7 de dezembro. Até o Campeonato Mineiro parou para a viagem acontecer. E nos gramados gelados da Alemanha a equipe conquistou o Torneio de Inverno, superando adversários da França, Bélgica, Alemanha e Áustria.

Se dentro de campo o time não tomou conhecimento da frieza do gelo, fora levou um calote do jornalista Eld Kalteneker, empresário que acertou a excursão de 8 jogos, quatro vitórias, 2 empates e duas derrotas. Ele passou a mão no dinheiro do torneio e de outras quatro partidas, e desapareceu. Sem dinheiro e adversários, e mais de um mês longe de casa, o chefe da delegação, Domingos D' Ângelo, teve de pedir auxílio ao clube no Brasil, para a viagem de volta. O presidente José Cabral fez das “tripas, coração”, para arranjar o dinheiro. As passagens foram compradas por etapas e os jogadores voltaram em pequenos grupos.

Nos anos 50, diziam que um jogador do Galo tinha parte com o diabo. Ubaldo Miranda era um ídolo humilde. Raçudo, boa gente, risonho, o crioulo era um assombro. Não havia bola perdida, o sujeito era danado para chutar uma bola em cima da linha de fundo e fazê-la chegar à rede. A torcida acreditava serem gols espíritas. Foram 140 gols em 7 anos. Ubaldo também foi o único jogador na história do Atlético a ser carregado, de calção e chuteira, do Estádio Independência até a Praça 7, no centro da cidade. Foram 5 km e meio percorridos nos ombros da massa !

Passado o susto ada excursão, o Atlético continuou o caminho de vitórias, conquistando o primeiro pentacampeonato (de 1952 a 1956) e sendo campeão em 1958. A década de 60 não foi boa, marcando a evolução do E.C. Cruzeiro, de Tostão e outras feras. Como consolo o bicampeonato mineiro, em 1962 e 1963, e uma histórica vitória de 2 X 1, em 3 de setembro de 1969, contra a Seleção Brasileira, de João Saldanha, que depois conquistaria o tricampeonato mundial no México. Até hoje o Atlético é o único clube de futebol a derrotar o scratch “canarinho”.

A vinda de Telê Santana, que treinou o time por seis anos (1970 a 1976), mudou tudo. Foi uma fase esplêndida, colecionando títulos. A equipe de 1970 tinha craques como Dario, Lôla, Vantuir e Grapete, e quebrou uma hegemonia de cinco anos do Cruzeiro. Ganhou a taça Belo Horizonte e sagrou-se o primeiro Campeão Brasileiro, o título mais importante da história do clube, superando São Paulo e Botafogo num triangular final.

Com Telê no comando foi bicampeão mineiro e tricampeão da Taça Belo Horizonte, bicampeão da Taça Minas Gerais (1975 e 1976) e campeão mineiro de 1976, quando surgiu Reinaldo, o mais importante jogador da vida do clube. Com ele, o Atlético, conquistou o inédito hexa-campeonato mineiro (de 1978 a 1983), e foi finalista do Campeonato Brasileiro por duas vezes. Em 1977 contra o São Paulo, e em 1980 contra o Flamengo, perdendo ambas. Nessa fase de ouro, além de Reinaldo, brilharam Cerezo, Éder, Luizinho, Paulo Isidoro, João Leite, Nelinho e Palhinha. Na década de 80 ganhou sete dos 10 títulos disputados no Estado.

Mas o grande time estava acabando. Reinaldo, contundido, encerrou a carreira aos 27 anos. Toninho Cerezo foi para a equipe do Roma. Éder Aleixo, para a Internacional de Limeira e Nelinho, pendurou as chuteiras. Com uma equipe renovada o Atlético conquistou os torneios de Amsterdã, na Holanda, e de Cadiz, na Espanha.

Em 1982, a revista Placar pediu que trinta torcedores, jogadores, cartolas e jornalistas escolhessem o Atlético Mineiro de todos os tempos. O time escolhido foi este: Kafunga, Mexicano, Murilo, Luizinho, Zé do Monte e Haroldo ; Lucas, Carlyle, Reinaldo, Toninho Cerezo e Éder Aleixo.

O Atlético teve dois escudos em sua história. O primeiro, utilizado nas primeiras décadas do clube, era oval e tinha as inicias CAM (Clube Atlético Mineiro). A partir da década de 30, o distintivo sofreu alterações até chegar ao formato atual. A estrela amarela, em cima do símbolo, representa o título do 1º Campeonato Brasileiro, conquistado pelo "Galo" em 1971.

Nos anos 90, apenas três títulos mineiros, 1991, 1995 e 1999. Fora de Minas, a Copa Conmebol (1992 e 1997), a Copa Millenium, em Miami, e a Copa dos Três Continentes, no Vietnã. Em 1999 chegou de novo a uma final do Campeonato Brasileiro, depois de 19 anos, perdendo para o Corinthians. Em 2000, como vice-campeão brasileiro jogou a Copa Libertadores e foi eliminado pelo mesmo Corinthians.

O Atlético foi absoluto no século 20, em Minas Gerais. Mas o novo milênio começou mal. Grito de campeão, só em 2007, com a conquista estadual. O pior foi no cenário nacional, a queda inédita para a Série B do Campeonato Brasileiro, uma desgraça anunciada. Em 2004, escapou na última rodada, com uma vitória sobre o São Caetano, no Mineirão, por 3 x 0. Em 2005, não teve jeito.

Foi só um ano no “inferno”. Com a força da torcida o “Galo” foi campeão da Série B, com a maior média de público no ano, entre todos os times do Brasil, voltando à elite do futebol brasileiro. No retorno, em 2007, garantiu uma vaga na Copa Sul-Americana de 2008. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Chegada a Belo Horizonte dos "Campeões do Gelo", em dezembro de 1950 (Foto: www.netgalo.com.br)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Árbitro, profissão perigo

Quem procura, acha. O velho ditado serve como uma luva para quem se atreve a ser árbitro de futebol. Hoje, até que a profissão rende um bom dinheiro, mas só em grandes centros e ainda assim em jogos importantes. Em algumas cidades do interior é diferente, principalmente em jogos envolvendo equipes amadoras, onde o contato com o público é direto. O dinheiro é pouco e a incomodação é muita. Neste artigo conto alguns fatos reais que os árbitros já enfrentaram nessa perigosa profissão.

Começo com uma historia do radialista catarinense João Küerten. Comentarista de um jogo entre Hercílio Luz e Tubarão, seu time do coração, não se conteve quando o árbitro marcou um pênalti que achou inexistente. Saiu da pista de onde transmitia, entrou em campo e foi até a marca do pênalti e deu um tiro na bola, não permitindo a cobrança.

Não são poucos os casos de agressões aos árbitros, seja por jogadores, seja por torcedores. No ano passado o árbitro Alexandre Barreto, foi agredido pelo jogador Rogerinho, do São Luiz de Ijuí, em jogo contra o Brasil de Pelotas, no Estádio Bento Freitas. O jogador não se conformou com a validação do segundo gol do Brasil. Ao ser expulso derrubou Barreto com um soco no rosto. Ainda tentou continuar com a agressão, mas foi contido pelos próprios colegas.

Em junho de 2003, no povoado Capitan Juan Antonio, em Artigas, no Uruguai, o juiz de um jogo entre duas equipes amadoras matou com uma facada um torcedor que tentou agredi-lo. O incidente aconteceu quando o árbitro mostrou cartão amarelo a dois jogadores que brigavam a socos. O campo foi invadido por torcedores e um deles, 26 anos e com antecedentes criminais, agrediu o árbitro que reagiu, sacando uma faca e matando o agressor com um golpe no peito, sendo preso em seguida.

O ex-árbitro de futebol, Estemir Vilhena da Silva, no livro “Memórias de um ex-arbítro de futebol”, conta que num jogo entre Rio-Grandense X Rio Grande, na cidade gaúcha de Rio Grande, passou por momentos difíceis. Torcedores do Rio Grande queriam “matá-lo”, porque expulsara o jogador Alfeu, aquele mesmo do Internacional (RS). Ao fim do jogo, na saída do vestiário para a rua, tinham de passar por um corredor formado por brigadianos. Era quase suicídio. Tudo se resolveu quando o auxiliar Orlando Simões, sargento do Exército engatilhou seu revólver e gritou para os torcedores: “O primeiro que tentar nos agredir vai morrer”.

Esta eu presenciei. Em 1982, na Praia do Cassino, em Rio Grande jogavam duas equipes amadoras pelo “Culturão”, competição promovida por uma emissora da cidade. O jogo estava quase no fim quando torcedores invadiram o campo para agredir o juiz. Este, prontamente sacou de uma navalha e se defendeu valentemente durante longos 20 minutos, até que a Brigada Militar chegou. “Paulinho Navalha”,como era conhecido, saiu ileso.

O ex-árbitro goiano Urias Crescente Alves Júnior, conta que num jogo entre Goiânia e Botafoguinho, em 1952, expulsou quatro jogadores. O jogo era irradiado e acompanhado em casa por sua mãe, uma italiana legítima. Durante a narração, o locutor disse que o juiz fora jurado de morte por alguns jogadores. Ao final do jogo, Urias viu sua mãe no estádio, com um revólver 38 cano longo debaixo do avental, aos gritos: “Quem vai bater no meu filho?”. Assustado, ele a levou para o vestiário. O episódio está descrito numa crônica do ex-presidente da Federação Goiana, Valdir Castro Quinta, publicada na “Folha de Goiás”, com o título: “A mãe vem em socorro do filho”.

Num jogo entre o Ceará e um time de Pernambuco, a torcida alvinegra, cansada de ver os árbitros errarem contra seu time, levou uma enorme faixa para o estádio, onde se lia: "Se roubar morre". Era uma brincadeira, mas foi levada a sério, tanto que a arbitragem foi correta. E, por via das dúvidas, o Ceará ganhou.

O normal é o jogador ser expulso de campo. Mas já aconteceu do juiz ser expulso. Foi no Estádio El Campín, na Colômbia, num jogo em que o Santos vencia o Millionarios, de Bogotá por 2 a 1. Depois de uma confusão o árbitro expulsou Pelé, que estava no meio apenas para apartar. Revoltada, a torcida ameaçou invadir o gramado e bater no juiz. Precavida, a polícia colombiana sugeriu uma alteração: “sai o juiz e entra um bandeirinha”. Isso foi feito. Pelé voltou, e agradeceu fazendo mais três gols.

E às vezes acontecem situações inexplicáveis. Em 2002 um jogador da Liga Amadora de Futebol da Holanda foi suspenso por beijar um árbitro na boca. A Associação de Futebol puniu o jogador com oito jogos de suspensão por comportamento impróprio.

Mas nem tudo são espinhos na profissão. Tem as rosas, também. É o lado folclórico da arbitragem. Caso do representante comercial e árbitro Clésio Moreira, o “Margarida” catarinense, que proporciona verdadeiros shows nos jogos que apita, para delírio dos torcedores. Ele se inspirou no polêmico “Margarida”, o árbitro carioca Jorge Emiliano (falecido), que dava o que falar, dentro e fora dos campos.

Clésio usa uniforme e chuteiras cor-de-rosa. No decorrer do jogo utiliza vários trejeitos, dois deles já famosos: o “passo da gazela” e a forma de mostrar cartões: faz uma ginga de corpo, joga as costas para trás e com força arranca o cartão do bolso e o levanta quase no rosto do jogador. Por causa de seu jeito “diferente” de apitar, foi afastado da Federação Catarinense. Mas continua dando shows particulares em jogos amistosos.

E os árbitros que se preparem. Vem “bomba” por aí. E não será no eixo Rio-São Paulo, mas no Rio Grande do Sul. Um grupo de torcedores do Grêmio está organizando uma facção denominada "Torcida 88", uma forma de dissimular a saudação nazista "Heil Hitler".

Num recente final de semana em Criciúma (SC), bandidos e vândalos disfarçados de torcedores jogaram bombas de fabricação caseira dentro do estádio. Uma delas atingiu um torcedor de 62 anos, deficiente físico, que teve uma das mãos dilacerada.

Mas a Justiça já começou a punir os agressores. Ano passado o árbitro Juscelito Antônio Viccari, agredido durante uma partida de futebol no Rio Grande do Sul ganhou duas indenizações pagas pela prefeitura de Ciríaco: R$ 716 por danos materiais e R$ 4 mil por danos morais.

Três jogadores de futebol amador, de Iporã do Oeste (SC) foram condenados a pagar R$ 10,5 mil de indenização por danos morais e R$ 120,00 por danos materiais ao árbitro Valdir Rohr. Ele foi agredido durante um jogo comemorativo ao Dia do Trabalho, em 1999, quando levou socos e pontapé, que ocasionaram um ferimento aberto na região mandibular direita, ranhuras no ombro direito com edema e traumatismo na coluna dorsal lombar.

O diretor de futebol Paulo Lasmar e o técnico Carlos Alberto Silva, do
América de Minas Gerais, também foram condenados a pagar R$ 15 mil de indenização por danos morais ao árbitro Cléver Assunção Gonçalves e a seu auxiliar Márcio Eustáquio Souza Santiago. Os juízes de futebol se sentiram ofendidos por declarações do cartola e do técnico após uma partida do Campeonato Mineiro de futebol, em 2004. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Clésio Moreira, o"Margarida" de Santa Catarina (Foto: site de Clésio Moreira)

Horácio disse...
Oi Nilo tudo bem? Aqui em Rio Grande, na Ilha da Torotama, que fica cerca de uma hora e meia distante da cidade,num clássico Novo Avante e Fiateci, o árbitro marcou um pênalti contra o Fiateci e a torcida invadiu o campo.
O Onedir Lilja, presidente do Novo Avante colocou o árbitro no seu caminhão e rumou para a cidade. No meio do caminho, o susto: "Tens que voltar Onedir. Esqueci o meu guri na beira do campo". Diz o Onedir que deixou o homem no meio do caminho e voltou para buscar a criança.Horácio Gomes
25 de março de 2008 17:41

domingo, 23 de março de 2008

O surgimento do árbitro de futebol

Só o juiz de futebol consegue ter duas mães: uma que fica em casa e aquela que o acompanha aos campos de futebol para ser xingada pela torcida. Brincadeiras a parte, juiz de futebol é uma das profissões mais difíceis do mundo. Ninguém entende o que leva alguém a querer apitar um esporte, onde a paixão muitas vezes fica acima da razão.

Eu tive uma única experiência como juiz num jogo de futebol. Faz muitos anos, foi em Capão do Leão, na época distrito de Pelotas (RS). Como trabalhava em rádio e jornal me colocaram a apito na boca e não tive como dizer não. Não agüentei mais que o primeiro tempo. Os dois times reclamavam de tudo. Saí do jogo com a sensação de ter desagradado os dois lados.

A história da arbitragem é no mínimo curiosa. Nos primeiros tempos, na Inglaterra eram os próprios jogadores que apontavam as faltas. Acreditavam no cavalheirismo de quem jogava. É claro que sempre havia quem destoasse. Já pensaram se isso fosse adotado hoje, no Brasil? Já houve um exemplo de dignidade num jogo entre as seleções do Brasil e Argentina, em Buenos Aires. É claro que o gesto de cavalheirismo não foi obra de nenhum brasileiro. O jogo estava 1 X 1 e os argentinos passaram a frente. Surpresa geral: mesmo com o gol confirmado pelo juiz, o jogador argentino pediu que fosse anulado, confessando que havia feito falta antes.

A meu ver a figura do “bandeirinha” surgiu antes do juiz, em 1874. Cada time escolhia entre os torcedores uma pessoa para ajudar a controlar o jogo. Os capitães das duas equipes os consultavam no caso de eventuais dúvidas. Eram chamados de “umpires” (fiscais, em inglês).

Em 1878 a Liga Inglesa criou a figura do "referee", que tinha poderes de apontar as faltas. O aceno de um lenço vermelho servia para chamar a atenção dos capitães. O apito só surgiu em 1881. Os primeiros foram fabricados pelo marceneiro inglês Joseph Hudson, que também atendia o Serviço de Polícia Metropolitana da Inglaterra. Mas foi somente a partir de 1894, que as decisões do "referee" passaram a ser irrecorríveis.

A primeira partida “apitada” que se tem notícia, foi entre as equipes inglesas do Nottingham Forest e do Sheffield Norfolk, em 1881. Mas não existem registros oficiais sobre a realização desse jogo. Parece estranho, mas é verdade, o apito não está previsto nas regras do futebol. Os árbitros o usam para indicar o início do jogo, paralisá-lo devido a uma infração, indicar o término do primeiro e do segundo tempo e para comunicação verbal com os jogadores.

Na Inglaterra, até 1902 os juízes usavam elegantes ternos, com colarinho e gravata, sapatos lustrados e chapéu de coco, que deram lugar a uma camisa de mangas compridas e short até o joelho. Depois foi a era do calção e camisa preta. Agora, temos a moda das camisas e calções de outras cores.

No futebol brasileiro o árbitro chegou bem mais tarde que na Europa. Era escolhido pelos clubes e depois indicava os bandeirinhas, quase sempre um associado de cada time. Nos primórdios do futebol brasileiro, até o final dos anos 30, eles vestiam calça comprida, camisas de malhas de lã, tipo suéter com mangas compridas e tênis branco. Outras vezes até paletó, gravata borboleta e chapéu de palhinha.

Os juízes não recebiam dinheiro para apitar. A paixão pelos clubes praticamente não existia, por isso a confiança era total nos escolhidos. Coisa comum e que não causava nenhum tipo de desconfiança, era os árbitros posarem nas fotografias junto das equipes. Se alguém fizesse isso hoje, certamente seria banido dos campos de futebol.

Durante longo tempo, o "referee" era chamado de juiz no Brasil. A partir de 1964, quando ocorreu a revolução que implantou o regime militar, as autoridades recomendaram à imprensa que, para diferenciar o juiz de futebol do magistrado, se usasse outra designação surgindo, assim, a de Árbitro. A figura do árbitro está prevista na regra 5 das leis do jogo. É um principal e dois assistentes. Hoje, também existe um quarto árbitro (ou árbitro reserva). Os árbitros assistentes (bandeirinhas) estão previstos na regra 6.

A grande revolução na arbitragem mundial foi a permissão para mulheres apitarem futebol jogado entre homens. Antes, elas só podiam atuar no futebol feminino. As “árbitras” brasileiras de mais sucesso são Sílvia Regina de Oliveira, Aline Lambert e Ana Paula de Oliveira. Elas foram as primeiras a dirigirem um jogo do Campeonato Brasileiro. Foi em 30 de junho de 2003, na vitória do São Paulo sobre o Guarani (Campinas) por 1 a 0. De lá para cá as árbitras triplicaram e se espalharam por todo o país. Ana Paula de Oliveira é a mais famosa de todas, tanto pelos erros cometidos num jogo do Botafogo (RJ), pela Copa do Brasil, quanto por ter posado nua para a revista “Playboy”.

As fotos na revista custaram à Ana Paula de Oliveira um afastamento de sete meses dos campos de futebol. A FPF alegou que a punição foi porque não passou nos testes físicos. Ela voltou num jogo em São José dos Campos (SP) e foi a estrela do espetáculo. Os torcedores levaram câmeras fotográficas e posaram ao lado dela. Ganhou o apoio unânime da torcida e teve uma atuação impecável. Na Série A1 do “Paulistão”, ela volta a trabalhar hoje, 23/03/2008, no jogo Rio Preto X Portuguesa de Desportos, no Estádio Anísio Hadaad, em São José do Rio Preto.

Acho que a grande maioria dos árbitros de futebol é honesta. Erram muito, é verdade. Porém errar é humano e não é fácil acertar sempre. As decisões são tomadas em frações de segundos. Mas os desonestos existem. A versão brasileira mais recente foi Edílson Pereira de Carvalho, que em 2005 foi figura central de um escândalo que protagonizou a anulação de vários jogos do Campeonato Brasileiro.

Mas não afetou a arbitragem nacional, nivelada as melhores do planeta. Duas finais de Copa do Mundo tiveram apitos brasileiros: em 1982, na Espanha, Itália X Alemanha, com Arnaldo César Coelho. E em 1986, no México, Romualdo Arppi Filho, no jogo Argentina e Alemanha.

No próximo artigo vou contar histórias envolvendo árbitros de futebol. Algumas folclóricas, outras nem tanto e que até sugerem o título: “Árbitro, profissão perigo”. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)

Silvia Regina de Oliveira, foi uma das três melhores árbitras do país (Foto: Jornal do Rádio)

sábado, 22 de março de 2008

Futebol tipo exportação e as Ilhas Faroe

Estou curioso em saber quantos jogadores brasileiros foram para o exterior o ano passado. Acho que o Banco Central ainda não divulgou esses números. Pelo menos não li e nem ouvi nada a respeito. Por enquanto o que se sabe é ainda parcial: no primeiro semestre de 2007 quase 600 jogadores brasileiros foram para fora do país, mas os valores que deram entrada aqui, não chegaram a US$ 50 milhões. Em 2006, 343 atletas (95% de futebol) saíram do país, rendendo US$ 131 milhões. E em 2005, o montante foi US$ 159,2 milhões.

Duas coisas chamam a atenção: primeira, os números do Banco Central, não batem com os da CBF. Por exemplo, em 2006, a entidade registrou 851 transferências, contra 343 do Banco. E em 2005, haviam sido 804. Segunda, o futebol “made in Brazil” tem rendido mais dólares ao país, que algumas exportações tradicionais, como banana, melão, mamão, uva e instrumentos e aparelhos médicos.

O Banco Central começou a contabilizar os valores das transferências de atletas em 1993. Desde então, a exportação de jogadores já rendeu ao país mais de US$ 1 bilhão.

Os jogadores saem de todos os lugares do Brasil e se espalham pelo mundo inteiro. O ano passado, de acordo com o Banco Central, o Brasil exportou atletas para clubes de 86 países, entre eles alguns de pouca ou nenhuma tradição no futebol: Líbia, Uzbequistão, Ilhas Faroe, Chipre, Vietnã, Tailândia. E times como Siroki Brijeg, na Bósnia-Herzegóvina, ou Wofoo Tai Po, de Hong Kong, região chinesa que contratou 15 jogadores tupiniquins.

Mas nem todos os que vão para o exterior conseguem sucesso, e voltam ao país. Em 2006, 311 jogadores fizeram a viagem de volta. Em 2005 foram 491. A lista dos “retornáveis” do ano passado ainda não foi divulgada oficialmente.

Mesmo com tantos negócios, raros foram os clubes brasileiros que ganharam um bom dinheiro nessas exportações. Talvez as exceções tenham sido o São Paulo e o Internacional (RS). Mesmo assim, em 2003, o Milan (Itália) contratou do São Paulo o meia atacante Kaká, por US$ 8,25 milhões, valor considerado baixo pelos próprios dirigentes italianos. Tanto é verdade que o presidente do Milan e ex-primeiro-ministro da Itália, Sílvio Berlusconi, disse: “Foi a maior contratação da história do Milan. E a preço de banana”.

A curiosidade fez com que procurasse me informar sobre os “clientes” do futebol brasileiro. E me chamou a atenção as tais Ilhas Faroe (ou Føroyar, como é chamado no idioma local, o faroense). É um lugar que foi habitado pelos históricos vikings. Agora sei que é um território pertencente à Dinamarca, mas que goza de autonomia. Sua população é de apenas 50 mil habitantes. Mas, ainda assim tem filiação na FIFA desde 2 de julho de 1988 e na UEFA desde 18 de abril de 1990. E disputa as eliminatórias da Copa do Mundo e da Copa da Europa. Anterior a 1930 já existia uma equipe nacional, porém não reconhecida.

Ouvi falar desse lugar, quando a imprensa noticiou que o governo local proibiu a exibição do filme “Código da Vinci”, por considerá-lo blasfemo. Talvez porque a maioria da população pertence à Igreja Luterana.

O futebol é jogado nas Ilhas desde o século XIX. A primeira liga nacional no arquipélago foi disputada em 1942. De 1942 a 1978 todo o futebol era gerido pela Associação Esportiva das Ilhas Faroe (ISF), que em 13 de janeiro de 1979 deu lugar a atual Associação de Futebol das Ilhas Faroe.

As 18 ilhas que formam o território estão localizadas no Norte da Europa, na chamada região escandinava, ocupando uma área de 1.499 Km2. Todas as ilhas são habitadas, exceto Lítla Dímun. É vizinha da Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega, Suécia e dos territórios de Svalbard, administrado pela Noruega, Åland, administrado pela Finlândia e Groenlândia administrado pela Dinamarca.

Os times de futebol de lá tem nomes esquisitos para a nossa cultura: B68, B71, B36. A capital é Torshavn (nome em honra ao deus viking Thor), uma simpática cidade com casas coloridas, mas sem muitas opções de lazer. O futebol é um dos passatempos preferidos. A Seleção Nacional não é nenhuma preciosidade, mas vem evoluindo. Na primeira participação em eliminatórias, para a Copa do Mundo de 1994 lembrou o tradicional e folclórico time pernambucano do Ibis: jogou 10 partidas, perdeu todas e teve um saldo negativo de 37 gols.

Em 1998, uma pequena reação: duas vitórias sobre Malta. Em 2002, dois triunfos sobre Luxemburgo e um empate contra a Eslovênia. Nas eliminatórias para 2006, não manteve a ascensão, conseguindo apenas um empate com Chipre. Na atual eliminatória para a Copa de 2010, os faroenses estão no Grupo 7, com França, Romênia, Sérvia, Lituânia e Áustria.

O maior feito do time foi uma vitória surpreendente de 1 X 0 sobre a Seleção da Áustria, em 1992. O jogo valia pelas eliminatórias da Copa da UEFA e foi o primeiro confronto internacional da história das ilhas. A Seleção disputa seus jogos no pequeno Estádio Svangaskard, com capacidade para 8.020 torcedores, inaugurado em 1980.

O campeonato nacional, que começou a ser disputado em 1942, tem, atualmente, duas divisões e 20 equipes, 10 em cada série. Os jogadores são estudantes e profissionais com atividades paralelas, já que os salários pagos pelos clubes são baixos. O maior artilheiro da história dos faroenses foi Todi Jonsson. O Johannensen foi o que mais jogou pela seleção nacional.

No livro “Futebol: o Brasil em campo”, o jornalista inglês Alex Bellos contou a história de um jogador brasileiro em Faroe, Marcelo Marcolino, que jogou no Tofta Itróttarfelagh (B68), equipe da não menos pequena cidade de Toftir, de apenas 1.000 habitantes, 10 vezes menos que na capital, Torshavn.

Como toda Faroe, o lugar é uma verdadeira geladeira. No verão a temperatura não passa de 10 graus e no inverno dispara abaixo de zero. É neve para tudo que é lado. A temperatura média anual é de 6,7ºC. O lugar é castigado pelo vento gelado e não existem bares, cinemas ou restaurantes. Possui um mercado de pesca, uma fábrica de pescado, uma igreja e um clube de futebol, que já teve três brasileiros em seu elenco, um deles Alexandro Castilho Cárdena, vindo do 7 de Setembro, de Dourados (MS). Como 90 % da população vive da pesca, e o time treina apenas 2 horas por dia, Marcolino trabalhou descarregando bacalhau e arenque no mercado de pesca, dirigido pelo presidente do clube.

Para agüentar um lugar como aquele, Marcelo Marcolino, carioca acostumado com o calor do Rio de Janeiro, praia, cerveja e belas mulheres, sofreu bastante. Seu desejo era ser jogador de futebol e no Flamengo. Mas não conseguiu. Por isso aceitou o desafio de jogar num lugar tão distante. Contou que uma vez seu time viajou num barco de pesca, navegando sobre enormes cubos de gelo. Experiência para não esquecer nunca mais.

Quando tirou o passaporte no consulado dinamarquês no Rio de janeiro, alguém o aconselhou: “Leve roupa grossa”. Levou apenas um casaco. Não imaginava o que viria pela frente. Em Copenhagen quase congelou e pensou: "Meu Deus, quero voltar para casa." Dirigentes do B68 foram esperá-lo no aeroporto da Ilha Vágar, ao oeste do arquipélago. De lá seguiram para a minúscula Toftir. Uma verdadeira aventura: travessia de balsa e mais uma hora de carro ao longo de contornos acidentados. E pela primeira vez na vida viu neve.

Uma coisa que descobri e não sei por que foi acontecer: O Clube Atlético Mineiro disputou uma partida contra a Seleção das ilhas Faroe. Foi em 29 de julho de 1986, um amistoso na Dinamarca, com vitória de 4 X 1. Deve ter sido o primeiro e único clube brasileiro a realizar tal proeza. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Um jogo do B68, na gelada Ilhas Faroe, tendo ao fundo a pequena cidade de Tofti. (Foto: site do Tofta Itróttarfelagh)

joão disse...
Nilo, muito bom estes dados do "retorno" dos jogadores brasileiros, vou utiliza-los citando com prazer a fonte, nos meus comentários na Guaiba.Te saúdo pela iniciativa, porque este bringuedinho saudável de blog para velhos jornalistas, é ótimo.Segue em frente que sempre alguém vai utilizar-se das tuas pesquisas.Segura a angústia, porque a gente quer falar de tudo o que sabe e pesquisa.Se quiseres, tens o meu blog genérico www.bloguedogarcia.blogspot.com
Um abraço e feliz pelo reencontro.
João Garcia -Porto Alegre
23 de março de 2008 23:13

quinta-feira, 20 de março de 2008

Pioneirismo de Charles Miller mais uma vez posto em dúvida

Não param de ser levantadas hipóteses que contrariam o pioneirismo de Charles Miller, na implantação do futebol no Brasil. Já tivemos o Colégio São Luiz, de Itu, o Votorantim Athletic Club, da cidade mineira de Votorantim e com certeza existem muitas outras versões. A última que me chegou às mãos foi publicada recentemente no caderno de esportes do jornal “O Liberal” (20-01-2008), de Belém do Pará. Segundo a reportagem o futebol teria chegado ao Pará, cinco anos antes do histórico jogo de 1895, na Várzea do Carmo, em São Paulo.

O jornal baseou a matéria em pesquisas realizadas pelo jornalista paraense Loris Baena, que escreveu o livro “A verdadeira história do futebol brasileiro”, onde conta que no final do século XIX existia uma linha regular de navios entre Belém e Liverpool, na Inglaterra, com algumas vantagens em relação as similares de Rio de janeiro e São Paulo, como preço menor e mais rapidez. O que explica a forte presença de ingleses na Belém do fim do século XIX.

E lá não era diferente de outras cidades brasileiras, onde dominava o capital europeu. Proliferavam empresas como as inglesas “Parah Gaz Company” e “Western Telegraph”. E os britânicos, “pais” do futebol teriam promovido, no distante ano de 1890, os primeiros bate-bolas no Brasil, onde hoje se localiza a Praça Batista Campos e no Largo de São Brás, atual Praça Floriano Peixoto e nos terrenos baldios, que existiam para todos os lados. Não havia ainda a especulação imobiliária que acabou com os campinhos de futebol, até mesmo nas periferias das pequenas cidades.

Na própria reportagem, “O Imparcial” destaca a falta de provas reais - existem apenas indícios -, que sacramentem as afirmativas de Loris Baena, calcadas em pesquisas de um outro jornalista, Julio Linch, já falecido. O jornal reconhece que por enquanto o provável é que tudo tenha origem na paixão que o povo do Pará tem pelo futebol. Baena discorda, mas ameniza: “se não foi aqui que se jogou futebol pela primeira vez no Brasil, deve ter sido, no máximo, o segundo ou terceiro lugar”.

Na entrevista dada ao “O Imparcial”, Loris Baena admite que sem provas consistentes, a teoria enfraquece muito. Mas não abre mão de afirmar que o futebol chegou ao mesmo tempo no Pará e Rio de Janeiro. “Por questão de meses, um praticou antes do outro. Mas pode-se dizer que os dois começaram no mesmo momento”, garante. Pelo menos isso. Antes de aprofundar pesquisas que apontem para bem antes, o jornalista prefere manter a cautela. Mas promete que vai vasculhar o passado em busca de documentos que apontem Belém, como a cidade onde começou o futebol em nosso país. Vamos aguardar.

Por enquanto o jornalista conseguiu apenas uma edição do jornal “Folha do Norte”, de Belém, datada de 24 de dezembro de 1903, que estava em poder de Júlio Linch, neto de um antigo funcionário da “Amazon Steam Navigation” e descendente de ingleses. O achado pode favorecer a teoria. Um leitor identificado apenas pelas iniciais M. F. contestou em carta, a coluna 'Notas Sportivas', que dizia ser o futebol uma novidade no Pará. Segundo M.F., “em 1896 já se disputava com freqüência, partidas de futebol na Praça Batista Campos, entre os sócios da Associação Dramática Recreativa Beneficente”.

Familiares de Lynch contam que antes dele falecer, procurava encontrar um homem que morava em Belém, que teria em seu poder fotos e documentos das primeiras partidas de futebol realizadas no Pará. Porém, ninguém da família tem conhecimento do nome desse importante personagem. E Lynch, em seu espólio não deixou nenhuma referência.

Por causa dessa descoberta, outros pesquisadores paraenses juntam-se a Baena e reforçam a tese de que a prática regular do futebol em 1896, entre paraenses, só teria sido possível depois de um aprendizado, provavelmente em anos anteriores, através de funcionários das empresas inglesas em Belém. Argumento respeitável, defendido por Júlio Lynch em um de seus últimos artigos, publicado em jornal de Belém.

Além de Júlio Lynch e Loris Baena, também o pesquisador paraense F.F. Alves da Cunha defende o pioneirismo do Estado na introdução do futebol no Brasil. No livro “A Enciclopédia do futebol paraense”, o jornalista Ferreira da Costa, uma autoridade em termos de história do futebol no Pará, cita os relatos de F. F. Alves da Cunha, que apontam um jogo realizado em 1892, por associados do Clube de Esgryma no largo de Nazaré, em frente à sede da associação, onde, posteriormente foi instalado o teatro Chalet e, depois, o cinema Moderno.

Mas o que se sabe de real, é que o primeiro jogo oficial acontecido no Pará, foi em 1906, válido pelo primeiro campeonato do Estado, e que não terminou. O escore era de 7 X 0 para o Parah Foot-Ball Club, frente o Belém Club (time dos ingleses), quando houve um desentendimento geral dentro de campo, que não permitiu a continuidade do “match”. O campeonato foi organizado pela Parah Foot-Ball Association, ancestral da Federação Paraense de Futebol.

Eu não sei se isso seria possível. Mas com tantas controvérsias e fatos, que não podem simplesmente ser tratados como “inconseqüentes”, a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF), patroa do futebol no nosso país, deveria ser a primeira a aprofundar tais questões. Nada contra Charles Miller, inegavelmente um nome que não pode ser esquecido em circunstância alguma. Ele foi o introdutor do futebol jogado de maneira organizada. O que não quer dizer que antes dele, ninguém pudesse ter dado alguns chutes, em divertidas brincadeiras. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Loris Baena, ao lado do locutor esportivo e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), José Rezende (Foto: ABI)

quarta-feira, 19 de março de 2008

Campeonato paraense começou antes do mineiro e gaúcho

Os campeonatos estaduais mais antigos do Brasil são os de São Paulo (1902), Bahia (1905) e Rio de Janeiro (1906), pela ordem. Depois vem o do Pará, que é disputado desde 1908. Os de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, duas das maiores forças do futebol brasileiro, vieram bem depois: o Mineiro em 1915 e o Gaúcho em 1919.

Uma curiosidade que é única do campeonato paraense, que está completando 100 anos: em 94 edições (1910, 1911, 1912, 1935 e 1946, não foi disputado), apenas quatro clubes foram campeões: o Payssandu, 42 vezes; Clube do Remo, 41; Tuna Luzo Brasileira, 10 e o extinto União Esportivo, duas vezes. Foi o primeiro campeão do Pará, em 1908.

Em julho a Federação paraense de Futebol (FPF) vai promover a “Copa dos Campeões do Centenário”, com os quatro campeões estaduais. O União Esportivo, já extinto, vai ressurgir, bancado pela FPF, apenas para a competição. Outra proposta interessante da FPF é a criação do Museu do Futebol Paraense, prevista para a segunda metade do ano, que vai resgatar parte da história secular do futebol do Pará.

A FPF precisava mesmo fazer alguma coisa, já que o futebol paraense vive momento muito ruim, sem nenhum representante nas Séries A e B, do Campeonato Brasileiro. O tradicional Paysandú está fora até da Série C, que tem o Clube do Remo, rebaixado da Série B de 2007, como único representante do Pará em uma competição nacional este ano.

O Paysandú é hoje o retrato vivo da decadência do futebol paraense. O clube, que foi o primeiro do Norte do país a disputar uma Libertadores da América, agora está longe dos holofotes, vivendo uma crise técnica sem precedentes e que parece não ter fim.

O Paysandu foi fundado em 2 de fevereiro de 1914, como resultado de um desentendimento entre o extinto Nort Club e a Liga Paraense de Foot-Ball. A briga aconteceu pela não anulação do jogo Nort Club 1 x 1 Guarany, realizado em 15 de novembro de 1913. O resultado deu o título ao Grupo do Remo (atual Clube do remo). O nome foi inspirado no episódio histórico "A Tomada de Paysandu", no Uruguai.

Primeiro, foi Paysandú Foot-Ball, e 17 dias depois mudou para Paysandú S.C. Hoje, além da denominação oficial é também conhecido como “Papão da Curuzu”, junção do seu mascote (bicho-papão) com o (Curuzu).O primeiro presidente foi Deodoro de Mendonça. O primeiro jogo contra o Clube do Remo, foi realizado em 10 de junho de 1914, válido pelo campeonato paraense e com vitória remista por 1 X 0.

Nessa trajetória de 94 anos, o Paysandú conquistou expressivos títulos: campeão paraense por 42 vezes; campeão brasileiro da Segunda Divisão em 2001; campeão da Copa dos Campeões em 2002, que deu o direito de disputar a Libertadores de 2003. O time ganhou projeção ao derrotar o Cerro Porteño do Paraguay, por 6 X 2 em Assunção e ao Boca Juniors, por 1 X 0, gol de Iarley, em plena La Bombonera”.

Em 2005 começou o inferno. Foi rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro. Em 2006, rebaixado à Série C. Em 2007, eliminado na primeira fase da competição. E este ano de 2008, o pior: está fora até da Série C.

A exemplo de outros clubes do futebol brasileiro, o Clube do Remo foi fundado em 28 de setembro de 1906, para a prática do remo, o esporte mais popular no Pará, ao início do século XX. Surgiu de uma cisão no Sport Club do Pará, com o nome de Grupo do Remo, passando a se chamar Clube do Remo só em 1911. Aderiu ao futebol em 1913. O primeiro jogo foi em 21 de abril do mesmo ano na praça Floriano Peixoto, contra o Guarani F.C., mas não há registro de quem venceu. O primeiro jogo oficial foi em 14 de julho, ainda em 1913, quando ganhou de 4 X 1 do União Esportiva.

O Clube do Remo é o único time paraense que jogou na Europa. Em maio de 1994 disputou um torneio internacional na França, com a seleção de Bucareste (Romênia) e o clube francês do Toulon empatou os dois jogos que fez. Com os romenos, 1 X 1 no tempo normal e vitória de 5 X 4 nos pênaltis. Frente os franceses, também 1 X 1 nos 90 minutos e derrota de 6 X 5 nos pênaltis.

Pelé, o maior jogador de todos os tempos, vestiu a camisa do Clube do Remo. Foi em 29 de abril de 1965, num amistoso entre Remo e Santos, no estádio Evandro Almeida, o “Baenão”. Pelé entrou em campo com o uniforme do Remo, em retribuição a um buquê de rosas que recebeu do clube paraense.

Ainda em 1965 o Clube do Remo jogou um jogo amistoso com o Benfica de Portugal, com Euzébio e tudo, na época um dos times mais fortes do mundo, e base da Seleção Portuguesa, terceiro lugar na Copa da Inglaterra, em 1966. O jogo foi no “Baenão”, lotado e terminou empatado em 1 X 1, com gols de Torres para o Benfica e Amoroso para o Remo.

Outros clubes do futebol paraense: Tuna Luso Brasileira (01-01-1903); Castanhal E.C. (07-09-1924); Pedreira E.C. (07-09-1925); Abaeté F.C. (05-08-1933); São Raimundo E.C. (09-01-1944); Vênus Atlético Clube (20-051949); S.C. Belém (01-12-1965); A.A. Tiradentes ( 21-04-1973); Bragantino Clube do Pará (06-03-1975); Clube Municipal Ananindeua (03-01-1978); Águia de Marabá F.C. (22-01-1982) e Clube Atlético Vila Rica (27-06-1987), todos integrantes da 1ª Divisão deste ano.

Independente Atlético Clube (28-11-1972); A.C. Izabelense (26-04-1924); Pinheirense Esporte Clube (08-12-19230; Redenção E.C.; Santa Rosa E.C. (06-10-1925);.Sport Belém (01-12-1965); C.A. Vila Rica (27-06-1987); São Francisco F.C. (20-10-1929, todos da 2ª Divisão de 2008.

E ainda Júlio César (extinto); Sport Club (extinto); Transviário (extinto); Sport Club do Pará (05-02-1905, extinto); Nort Club (extinto); União Sportiva (extinto); Time Negra Carajás Clube, ex-Carajás E.C. (27-06-1997, em atividade); Combatentes; E.C. Internacional (10-03-1956, em atividade); Aningal (em atividade); Elo Marítimo Recreativo Clube, E.C. Comercial e Marituba.

Se o futebol paraense vai mal na técnica, aparece bem no folclore. Nos anos 50, jogou no Paysandu um atacante com o sugestivo apelido de “Pau Preto”, goleador nato. Foi personagem de um episódio sui-generis, causado pela desatenção de um famoso locutor ao descrever um lance: “Partiu da intermediária, driblou meio time adversário, também o goleiro, chutou e é gooooooool de “Pau Preto”, que entrou com bola e tudo”.

Na década de 70 jogava no Clube do Remo um centroavante alto, forte e rápido chamado Alcino e apelidado de “Negão Motora”. Contam que num clássico frente o Paysandú sentou sobre a bola e fez um gol de bunda. A torcida do Paysandú passou a odiá-lo. E como represália, a cada gol feito no clássico “Negão Motora” baixava o calção e mostrava as partes baixas para desespero da galera adversária.

Mais recente foi Edil, que introduziu as comemorações irreverentes de gols, criando vários personagens. Em 1992, jogando no Paysandu, era o "Carrasco", levando sempre um capuz preso ao calção. Na hora do gol cobria o rosto e, com a ajuda de um companheiro, simulava a degola de um condenado com uma machadada imaginária.

Em 1996, quando jogou no Remo, criou o "Braddock", inspirado na série de filmes de Chuck Norris. A cada gol, dois ou três jogadores se alinhavam num paredão invisível e eram "metralhados" por Edil. Quando jogou no Castanhal, em 2000 inventou "Highlander, o goleador imortal". Ele deixava uma espada de plástico no banco de reservas, que depois de cada gol servia para hilariantes performances no gramado. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Não faz muito tempo que a torcida do Payssandú, lotava os estádios (Foto: Torcida Organizada Nação Bicolor)

terça-feira, 18 de março de 2008

Friedenreich, o artilheiro que encantou o mundo

A "The Encyclopedia of World Soccer", editada nos Estados Unidos por Richard Henshaw, que teve o aval da FIFA e da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), assegura que o maior artilheiro do futebol em todos os tempos foi Arthur Friedenreich. Ainda que não haja documentação oficial, a respeitada publicação credita a “El Tigre”, a marcação de 1.329 gols, em 1.239 jogos.

Esses números foram publicados até no “Guiness Boock”, o livro dos recordes. Mas existe quem discorde, caso do historiador Alexandre da Costa, que escreveu o livro “O tigre do futebol”, com pequenas histórias sobre a vida do jogador. Não sendo um livro de pesquisas, o autor se limitou a um levantamento nos jornais “Correio Paulistano” e “O Estado de São Paulo”, encontrando 554 gols marcados por Friedenreich, em 561 partidas.

Esse levantamento é colocado em dúvida, pois os jornais da época pouco se importavam com o futebol, não divulgando todos os jogos realizados. O próprio autor confessa que não se aprofundou na busca, esquecendo outros jornais, revistas e almanaques. E admite não ter publicado os dados de cerca de 30 jogos.

O jornalista Severino Filho, co-autor do livro “Fried versus Pelé”, credita 558 gols para o craque do passado, em 26 anos de carreira, média de 21 gols por ano. Sendo verdadeiro, significa quase 1 gol por jogo, média superior a de Pelé, que foi de 0,93 gol por partida. Também esses números não são confiáveis.

Já Pelé, tem seus 1.284 gols em 1.375 jogos, todos devidamente registrados, com datas e adversários. Não há como contestar. Ainda assim, essa terrível dúvida, que desafia pesquisadores de todo o planeta, vai continuar. Quem se habilita a garantir ou duvidar que foi Friedenreich, e não Pelé, o maior artilheiro do futebol mundial em todos os tempos?

O que se sabe de concreto é que o pai de Friedenreich anotava em um caderno todos os gols do filho. A partir de 1918, Fried passou a tarefa para o amigo e colega de time (Paulistano), o centro-avante Mário de Andrade (nada a ver com o escritor), que registrou todos os gols do artilheiro, até o final de sua carreira, em 1935.

O jornalista Adriano Neiva da Motta, o De Vaney (falecido), ficou sabendo, em 1962, da existência dessas anotações. As fichas em poder de Mário poderiam provar que Friedenreich fez mais gols que Pelé. Mas o destino não permitiu que isso acontecesse. Andrade faleceu em 1962, antes de entregar as fichas a De Vaney. Uma semana depois de sua morte, a viúva, achando que aquela papelada não tinha valor, jogou no lixo da cidade de Santos, todo o registro dos até hoje incontáveis gols de “El Tigre”. Perdia-se ali, valiosa parte da memória futebolística do país.

Baseado nas pesquisas de De Vaney, o jornalista carioca João Máximo, escreveu no livro “Gigantes do Futebol Brasileiro”, publicado no Rio de Janeiro, em 1965, que Friedenreich teria marcado os 1.329 gols, devidamente registrados na ex-CBD e reconhecidos pela FIFA. Mesmo sem poder provar, De Vaney havia tornado público os números. E há quem garanta que cometeu um erro, trocando a soma de gols, pela de jogos, o que não passa de especulação. A verdade é que a partir desse episódio livros, revistas, jornais, a FIFA, CBD e o “Guinnes Bock” entenderam a revelação como verdadeira.

Friedenreich, o primeiro grande craque do futebol brasileiro, nasceu em São Paulo, no dia 18 de julho de 1892. Era filho do comerciante alemão Oscar Friedenreich, que havia se mudado de Blumenau (SC) para São Paulo, e de Matilde, uma negra de rara beleza que nascera escrava. Estudou no Colégio Mackenzie, mas seu interesse maior era outro. Por isso, bem cedo trocou as salas de aulas pelos campos de futebol.

Naqueles tempos o racismo imperava nos clubes de futebol. Friedenreich teve de se valer da origem alemã para poder ingressar no elitizado mundo do futebol. Não foi difícil, porque tinha olhos verdes, a pele não era escura e o cabelo, com ajuda de brilhantina, ficava liso. Depois, no Germânia, seu primeiro clube, a impressionante habilidade com a bola se encarregou do resto.

Pena que Friedenreich não tenha jogado em nossos tempos de tevê e marketing. O que se sabe dele é o que foi publicado nos jornais da época. Jogou pelo Germânia, Mackenzie, onde foi pela primeira vez artilheiro do campeonato paulista, em 1912, Ypiranga, Paulistano e São Paulo da Floresta, todos de São Paulo, além do Flamengo, do Rio de Janeiro. Por nove vezes foi artilheiro do Campeonato Paulista. E colecionou os títulos de campeão paulista em 1918, 1919, 1921, 1926, 1927 e 1931, a maioria defendendo o Paulistano.

Pela Seleção Brasileira foi bi-campeão do Sul-Americano, em 1919 e 1920, jogou 22 partidas e fez 10 gols. No certame continental de 1919, no Rio de Janeiro, fez o gol da vitória de 1 a 0, na partida final contra o Uruguai, que teve três prorrogações. Esse foi o primeiro título internacional do Brasil. Ao término do jogo os uruguaios deram a Friedenreich um pergaminho lhe conferindo o título de “El Tigre”, por ter sido o melhor jogador do campeonato. Os argentinos também o chamavam de “El namorado de la América”.

Logo depois do jogo, em edição extra, o jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, que antes nunca publicara uma foto em sua capa, mostrava o pé esquerdo de Friedenreich, em tamanho natural, acompanhado da manchete: “Eis o pé da vitória”.

Friedenreich era relativamente magro, pesando 52 kg, mas alto, medindo 1,75 m. Depois de consagrado nos gramados sul-americanos, conquistou a Europa. O Paulistano, em 1925, foi protagonista da primeira excursão de um time de futebol brasileiro ao Velho Continente. Foram 10 jogos em gramados franceses, suíços e portugueses e uma só derrota. Na estréia massacrou a Seleção Francesa por 7 X 2, o que valeu manchete no “Le Journal”, que denominou os brasileiros como “os reis do futebol”.

A grande amargura de Friedenreich foi não ter jogado nenhuma Copa do Mundo. Poderia ter ido em 1930 e 1938, mas as confusões e brigas entre os “cartolas” do futebol brasileiro, não deixaram. Um fato ocorrido fora do futebol, também marcou intensamente a vida do homem Friedenreich. No ano de 1932, após alistar-se nas forças constitucionalistas paulistas, para lutar contra a ditadura de Getúlio Vargas, doou todos os seus valiosos troféus e medalhas de ouro. No campo de batalha comandou um batalhão de 800 jovens. Ao término do confronto, Fried voltou como tenente e condecorado por heroísmo.

Antes de encerrar a carreira, ainda fez um gol histórico: no dia 12 de março de 1933, na Vila Belmiro, ele marcou o primeiro gol da era profissional, pelo São Paulo F.C., na goleada de 5 X 1 sobre o Santos F.C. Encerrou a carreira em 1935, aos 43 anos, quando fazia jogos de exibição pelo Flamengo.

Friedenreich, que foi pai de apenas um filho, Oscar, com a esposa Joana, morava no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde morreu no dia 6 de setembro de 1969, incapaz de esclarecer o mistério dos seus gols. Sofria de uma doença degenerativa e não dizia mais do que algumas palavras vagas. Não lembrava nem o próprio nome. Seu final foi triste e melancólico, lembrando outro grande craque do nosso futebol, Heleno de Freitas, que morreu louco num sanatório de Barbacena (MG). Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Ypiranga de São Paulo, nos tempos de Friedenreich. (Foto: Arquivo pessoal da família Friedenreich)

Maryeelle disse...
olá amigo/parabéns pelo blog, afinal, futebol, é paixão nacional do Oiapoc ao Chuí!
beijo
Cida Torneros (RJ)
19 de março de 2008 08:42

segunda-feira, 17 de março de 2008

Íbis, o pior time do mundo (Parte III - Final)

O folclore também acompanha a vida do Ibis. Em 20 de julho de 1980 ele derrotou o Ferroviário, num jogo nos Aflitos, gol do atacante Almeida. Ansioso, Almeida esperou os jornais do dia seguinte para ler o comentário do jogo, pois sonhava em se transferir para uma grande equipe. E foi surpreendido com a informação errada, que atribuía o gol a um certo Valdir, que sequer jogou. Havia sim, Valdísio, parecido fisicamente com o desiludido Almeida.

Depois de uma vitória sobre o Náutico, os dirigentes e jogadores do Íbis foram comemorar num restaurante no bairro de Santo Amaro, tudo patrocinado por Leça, um vendedor de maçãs que ajudava o clube. O Sport, interessado no resultado deu Cr$ 5 mil para cada jogador ibiano. E até Amaro Silva, um dos fundadores, foi acordado em sua casa e levado para participar da festa. Mas como alegria de pobre dura pouco, o Íbis acabou perdendo os pontos no TJD, por ter escalado de maneira irregular o misto de jogador e marinheiro, Altino.

Uma goleada de 11 X 0, sofrida ante o Sport, foi creditada ao fato do jogo ter sido retardado por mais de uma hora, pela descoberta de uma casa de marimbondos, numa das traves do campo, exatamente onde estava o goleiro do Íbis. O árbitro teve que pedir socorro ao Corpo de bombeiros para poder recomeçar o jogo.

Mas o goleiro do Íbis passou o jogo todo ameaçado por dois ou três marimbondos que escaparam da blitz e retornaram a procura da casa. E outra coisa não fez, do que se esquivar dos ferrões. Ocupado em fugir dos marimbondos, deixou a goleira livre para alegria dos atacantes adversários.

Um dos episódios mais hilariantes envolvendo o Íbis aconteceu no início dos anos 70. O então chamado ”rubro-negro de Santo Amaro”, foi ao Estádio do Arruda para enfrentar o Sport. O treinador Batista levou um susto ao ver que não havia chuteiras suficientes para todo o time. A solução foi pedir ao adversário, seis pares de chuteiras emprestados.

Como o Sport levava o Íbis de barbada, pois na rodada anterior havia levado 6 X 0 do Náutico, cedeu o material, sem imaginar que estava botando asa para formiga voar. O Íbis venceu por 1 x 0, gol de Antônio Carlos, hoje advogado. Debaixo de vaias, o então técnico do Sport, que também dirigiu a seleção Brasileira, Zezé Moreira, jogou um caixão sobre os revoltados torcedores.

Numa das vitórias do Íbis sobre o Náutico, aconteceu um caso inusitado. Estava tudo pronto para o início do jogo, quando o juiz chamou a atenção para a falta de goleiro no time rubro-negro. Imediatamente foi chamado o reserva Banana, que há muito tempo não jogava e nem treinava. Entrou em campo só para completar os 11, pois era para perder mesmo e não faria diferença quem estivesse jogando.

Mas não foi isso que ocorreu em campo. O íbis segurou o ataque do Náutico de maneira quase heróica, com Banana operando verdadeiros milagres e os zagueiros dando chutões para todos os lados. Aos 43 minutos do segundo tempo, o improvável aconteceu: no único chute que deu, o Íbis fez 1 X 0 e o jogo acabou assim. Foi uma festa sem tamanho para a torcida ibiana: “Chico do Táxi”, o presidente do clube e três familiares.

Em outra ocasião jogavam Santa Cruz e Íbis, no Arruda. Os torcedores “corais” ocupavam todos os espaços. No meio deles “Chico do Táxi”, o torcedor número um do Íbis. Num contra ataque o rubro-negro fez gol e ele comemorou, chamando a atenção dos adversários. Só não foi linchado porque um torcedor mais ajuizado o salvou: “Se a gente matar esse cara, mata a torcida inteira do Ibis”.

Há coisas difíceis de explicar, como a decisão do jornaleiro Carlos Andrade, que era torcedor do Sport, e depois de assistir uma partida entre os dois rubro-negros, em 1988, trocou de time, mesmo com a goleada de 10 X 1 sofrida pelo Ibis. Ele garante que foi amor a primeira vista. É capaz de deixar sua casa, no distante bairro de Águas Compridas, para ver o Íbis jogar pela Segundona. Assim o fez, num feriado: foi a Paulista, em pleno domingo de Páscoa. Se diz fã do Íbis na vitória ou na derrota. E como se isso fosse pouco, tem um time de botão chamado Íbis, e guarda com carinho a revista “Placar” na qual o time aparece na capa, com o rótulo de "pior do mundo".

Como organização, o Íbis é o exemplo do que não deve ser um time de futebol. Em 1950, em jogo de campeonato, o próprio presidente do clube teve de entrar em campo para completar o número mínimo de sete jogadores.

A última eleição do Íbis, ano passado, era para ser realizada na sede de um clube carnavalesco no centro da cidade. Quase na hora da votação, à frente do prédio estavam a urna, os candidatos e os conselheiros votantes, menos o porteiro, que não apareceu. A eleição acabou sendo feita num bar ao lado e a comemoração começou logo em seguida, inclusive com a participação do candidato derrotado.

O Ibis foi ameaçado de desfiliação pela CBF em 2001, por haver desafiado a Seleção Brasileira. Já em 2002 convidou o S.C. Corinthians Paulista, que havia perdido 10 jogos seguidos, para uma partida amistosa que definiria qual o pior time do mundo. O clube paulista não aceitou. O ano passado o dirigente Felipe Gomes anunciou a disposição do clube em ajudar Romário a fazer o milésimo gol. Que escolhesse uma das duas opções: um amistoso com o Vasco ou jogar a segundona pernambucana pelo Íbis. Não houve resposta. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O Ibis aceitou a condição de pior time do mundo e a estampa em seus símbolos (Foto: Acervo do Ibis S.C.)

Íbis, o pior time do mundo (Parte II)

Com o passar dos anos a fama de pior time do mundo se consolidou tanto, que numa jogada de marketing o clube resolveu explorar isso comercialmente. Hoje se trata de uma marca registrada, não só no Brasil, como em todo o mundo. O clube dá força a essa condição ao escolher como slogan a frase: “O importante não é competir, mas sim existir”.

Nessa trajetória de quase 70 anos, não foram unicamente tristezas. Algumas poucas alegrias também fizeram a história do clube: Vice-Campeão Pernambucano da 2ª Divisão, em 1999 (perdeu a final para o Ferroviário de Serra Talhada); Campeão do Torneio Início em 1948 e 1950; Campeão do Torneio Incentivo em 1975 e 1976 e Campeão Pernambucano de Juniores em 1948 e 1995.

O torcedor mais importante do Íbis foi o governador Miguel Arraes, já falecido. Quando Arraes estava exilado na Argélia, em 1978, recebeu das mãos de seu filho uma revista “Placar”, com matéria sobre o folclórico “Chico do Táxi”, até então o único fiel torcedor do Íbis. Miguel Arraes, ao ler a matéria teria dito para o filho: "Agora, o Íbis tem dois torcedores".

Recentemente o Ibis ganhou um novo e influente torcedor, Pedro Arraes, filho do ex-governador Miguel Arraes, que recebeu dos dirigentes do “Pássaro Preto” a carteira de sócio e a camisa oficial do clube. Quanto à torcida, é incrível, existe, embora não vá aos jogos. Aquela residente no Brasil já se acostumou as derrotas e não se importa mais quando elas acontecem. O Ibis agora tem torcedores até em Portugal e na Holanda, que choram, ficam indignados e enviam telegramas de protesto quando o time ganha, “pois quebra a tradição”.

Mas torcedor, torcedor mesmo, de ir ao campo em todos os jogos, o Íbis só teve um: o motorista de táxi Francisco Imperiano, o “Chico do Táxi”. Mas nem ele escapou de cair em tentação. Quando se dirigia ao estádio da cidade de Paulista para assistir a mais uma derrota do Íbis, ele foi parado na rua por um passageiro que queria, de qualquer maneira, ir para João Pessoa, no vizinho Estado da Paraíba. Chico tentou resistir e pediu um preço absurdo. O homem aceitou. Pediu cinqüenta por cento no ato e o homem pagou.

Sem escolha, com o táxi a caminho da Paraíba, ele ligou o rádio e foi ouvindo o jogo. Na altura do município de Igarassu, o Íbis fez um gol. Chico foi para o acostamento, parou o carro, saltou e começou a gritar, a urrar e a dançar. O passageiro, assustado, pegou a mala e deu no pé. Chico deu meia-volta e ainda chegou ao estádio a tempo de ver o fim do jogo. O passageiro nunca mais apareceu.

Passaram pelo Ibis alguns nomes que fizeram história no futebol brasileiro: Bodinho, artilheiro do S.C. Internacional, de Porto Alegre nos anos 50; Vavá, centro-avante do Vasco da Gama e Seleção Brasileira, nos anos 50 e 60; Rildo, lateral-esquerdo que jogou pelo Santos, Botafogo e Seleção Brasileira e Vasconcelos, atacante que também defendeu o Santos.

Embora esses jogadores tenham alcançado grande sucesso profissional em outras equipes, nenhum deles representou tanto para o Íbis quanto o folclórico meia-esquerda e camisa 10, Mauro Shampoo, considerado o maior ídolo do clube em todos os tempos, embora tivesse marcado um único gol em toda a sua carreira de jogador profissional. Foi o gol de honra, na goleada de 8 X 1 sofrida frente o Ferroviário do Recife.

Shampoo teve uma infância pobre, cresceu trabalhando como engraxate na praia de Boa Viagem, no Recife, onde nos fins de tarde jogava peladas na areia. Ainda jovem aprendeu o ofício de cabeleireiro, que até hoje lhe garante o sustento. Sua grande paixão, porém, sempre foi o futebol. Durante 10 anos jogou pelo Íbis Sport Club, o time do seu coração, como diz até hoje.

Shampoo não é mais simplesmente o maior jogador da história do Íbis. É também ator cinematográfico. Os produtores Paulo Henrique Fontenelle e Leonardo Cunha Lima fizeram o documentário em curta metragem "Mauro Shampoo, jogador, cabeleireiro e homem". O título reproduz a maneira como o próprio personagem se define. Ao atender o telefone em seu salão, numa galeria no Terminal de Boa Viagem, diz: “Mauro Shampoo, jogador do Íbis, cabeleireiro, homem e um dos piores jogadores da história do futebol brasileiro". A trilha sonora do filme é de autoria de Oswaldo Montenegro, onde se destaca a música “A incrível história de Mauro Shampoo”, gravada em CD o ano passado.

No salão de Mauro, onde a clientela só fala de futebol, podem ser vistas mais de 500 fotografias do Íbis, inclusive algumas atuais onde aparece seu filho, Homed Thorpe, também centro-avante e que joga no Íbis, pensando em repetir “os feitos” do pai. Além de Shampoo, outra "grande" vedete do time foi o goleiro Jagunço, que sofreu 366 gols com a camisa rubro-negra. O substituto, Eudes, levou 129 gols entre 2003/2004.

A Diretoria do Íbis tem alguns planos ambiciosos para este ano de 2008: a publicação de um livro contando a vida do clube, o lançamento de um DVD histórico, comemorativo aos 70 anos de fundação, além de uma excursão para o exterior e a construção de um estádio próprio. Hoje, o Íbis realiza seus jogos em Paulista, na Região Metropolitana do Recife.

Se o Íbis não faz bonito no jogo, agora faz na apresentação. Por iniciativa do norte-americano Michael Getchell, que morou alguns anos em Pernambuco, o clube recebe seu material esportivo da multinacional Umbro. Já vão longe os tempos em que, como num jogo contra o Sport, no estádio da Ilha do Retiro, seus atletas entraram descalços no gramado, porque o time não tinha dinheiro nem patrocinador para pagar as chuteiras. (Texto e Pesquisa: Nilo Dias)
Cartaz do filme "Mauro Shampoo, jogador, cabeleireiro e homem". (Foto: Acervo particular de Mauro Shampoo)

Ibis, o pior time do mundo (Parte I)

Quando o empresário João Pessoa de Queiroz, dono da Tecelagem de Seda e Algodão de Pernambuco (TSAP) concordou que os seus funcionários organizassem um time de futebol, certamente não imaginava que no pátio de sua empresa estava começando uma história que com o passar dos anos chegaria ao “The New York Times” e ao “Livro Guinnes de Recordes”.

Era o dia 15 de novembro de 1938 quando Onildo Ramos, Alex Codiceira e Amaro Silva (todos já falecidos) fundaram o Íbis S.C., uma referência ao pássaro mitológico, símbolo da empresa. As cores do uniforme foram escolhidas por influência do Sport e se mantém até hoje: camisas vermelhas com listas diagonais pretas, calções pretos, meias vermelhas.

Nos primeiros tempos o Íbis foi apenas um time dos funcionários que jogava descompromissados amistosos nos fins de semana do bairro recifense de Santo Amaro. Ninguém pensava em futebol profissional. Com a morte de João Queiroz, os herdeiros implantaram uma política de contenção de despesas e os primeiros cortes tiveram como alvo o lazer dos operários. O Íbis estava condenado a desaparecer.

Não fosse a intervenção do gerente Onildo Ramos, um dos fundadores, o time do “pássaro preto” não existiria hoje. Ele atendeu o apelo do filho Ozir, que também trabalhava na fábrica e levou para dentro de casa, a responsabilidade de manter o Íbis em atividade. Tinha início uma nova etapa na vida do clube. Acabava a fase romântica do amadorismo.

O Íbis deixou de ser um time de empresa para se tornar um clube de futebol profissional. Foi um dos fundadores da atual Federação Pernambucana de Futebol, sendo o único clube filiado que nunca deixou de disputar todos os campeonatos promovidos pela Entidade. E passou por fases regulares e ruins. Boas, nunca. Enfrentou dificuldades de toda a ordem. Os jogadores recebiam salários simbólicos. A maioria jogava mais por amor ao clube, do que por qualquer outra coisa.

Ainda assim, o Íbis chegou a conseguir alguns patrocinadores fixos, como o Café Royal e o Café Soberano, que estampavam suas marcas nas camisas do time. Com o falecimento de Onildo, o filho Ozir assumiu a presidência do clube em 1957. Na ocasião disse que a paixão pelo Íbis “é como paixão de bêbado por cachaça. Sabe que faz mal, mas não larga o vício”. Ozir Ramos ficou mais de 30 anos no comando do clube.

Depois dele o Íbis teve entre os seus presidentes os desportistas Meibe Ramirez, Sóstenes Mesquita, Joaquim Caldas, Omar Júnior, coronel Carlos Alberto Pinto Carvalho e Ozir Ramos Júnior, atual primeiro mandatário, eleito em 2006.

O Íbis tem quase 60 conselheiros e cerca de 10 mil sócios, muito mais que Sport, Santa Cruz ou Náutico. Existe uma explicação: no mandato do presidente Joaquim Caldas foram distribuídas quase 10 mil carteirinhas de sócio. Como o clube não tem sede, não é cobrado qualquer taxa e as pessoas gostam de ter a carteirinha como souvenir.

Foi no final da década de 70 e início da década de 80 que o Íbis ganhou a fama de ser o pior clube de futebol de todos os tempos, não apenas do Brasil, mas do mundo. Dizem que foi o jornalista Lenivaldo Araújo, na época correspondente da revista “Placar”, o responsável pela titulação. Em 1979 jogou 12 partidas pelo campeonato pernambucano, perdeu todas, levou 51 gols e marcou 1 (um zagueiro adversário fez contra), no jogo em que o Sport venceu por 8 X 1. Foi essa campanha horrorosa que mereceu matéria no “The New York Times”.

Entre julho de 1980 e junho de 1984, a equipe passou exatos três anos, dez meses e 26 dias sem vencer. Foram 54 partidas, com 48 derrotas e seis empates. Dentro dessa estatística, em 1981, pelo campeonato pernambucano jogou 23 partidas e perdeu todas.

Ainda assim, as estatísticas sobre o Íbis são bastante imprecisas. Um levantamento feito em 2005 apontou um histórico de 1.064 jogos, com 137 vitórias, 145 empates e 782 derrotas. O saldo negativo era, então, de 2.221 gols. Depois disso ninguém mais se interessou em levantar dados, pois o clube vem passando por uma fase quase de esquecimento, por estar fora do foco do campeonato principal de Pernambuco. Inspirada no Íbis a turma do programa televisivo “Cassetta & Planeta”, da Rede Globo, criou o Tabajara Futebol Clube.

Antes de se tornar o pior time do mundo o Íbis foi durante muito tempo chamado pela imprensa pernambucana de "rubro negro das Salinas", em homenagem ao Santo Padroeiro do bairro de Santo Amaro das Salinas, onde tinha sua sede. Era a época em que o time, embora pequeno, às vezes assustava os grandes.

No inverno de 1947, estreante no campeonato principal fez 5 x 4 em cima do Sport. E 1 x 0 contra o Náutico, em janeiro de 1948, ambos os jogos nos Aflitos. Ainda em 1948 uma goleada em cima do Náutico por 5 x 3. Em 1950, outra proeza: empate em 4 x 4 com o Sport, escore repetido em 1953, diante do Santa Cruz. De outra feita, empate de 0 x 0 com o Sport, após o que o intermediário Cier Barbosa mandou todo o time do Íbis, inclusive o treinador Souza Arantes, para o Barreirense de Portugal.

Foi sempre assim, uma ou outra vitória apertada em cima de um grande: 1 X 0 ante o Náutico, em 1961, gol de Carlos Alberto, um soldado da Polícia Militar. E outro 1 x 0 mais adiante, em 16 de julho de 1965, contra o Santa Cruz, gol de Rildo, jogo em que o goleiro Jagunço realizou defesas “milagrosas”. E em 2000, mais uma vitória de 1 x 0 frente o Náutico. (Texto e Pesquisa: Nilo Dias)
Foi nessa indústria têxtil, no bairro de Santo Amaro, no Recife que nasceu o Ibis S.C. (Foto: Foto Acervo da família Queiroz)

filipe fernandes disse...
Ibis comemora 70 anos e projeta centro de treinamento de R$ 15 milhões
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http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Futebol/0,,MUL847121-9825,00.html
3 de novembro de 2008 14:41

domingo, 16 de março de 2008

O clube mais querido do Brasil

Eu sei que chamar o Flamengo de “mais querido do Brasil” traz um desconforto aos torcedores adversários. Mas é uma verdade incontestável. Basta sair às ruas que sempre vai se ver alguém usando a camisa rubro-negra. As pesquisas também mostram milhões de torcedores do Flamengo espalhados por todos os rincões deste imenso país.

Mas esse laurel não veio de graça. Em 1927 o “Jornal do Brasil” do Rio de Janeiro promoveu um concurso para eleger o clube mais querido do Brasil. Os leitores deveriam preencher cupons publicados no jornal apontando o time do coração.

Dizem as más línguas, que os jornaleiros lusitanos escondiam os exemplares e só os vendiam aos torcedores vascaínos. No dia da entrega dos cupons na sede do jornal, torcedores rubro-negros disfarçados de portugueses e com o distintivo do Vasco na lapela, recolheram os votos cruzmaltinos e jogaram no poço do elevador e nas latrinas. Na hora da contagem dos votos, o Flamengo foi eleito o “Mais Querido do Brasil”, comprovando a grande popularidade e força do clube e ganhando a "Taça Salutaris", troféu de cerca de um metro e meio, banhado em prata, oferecido por uma engarrafadora de água mineral do mesmo nome.

A história do Flamengo começou com alguns jovens reunidos no Café Lamas, no Largo do Machado, que pretendiam fundar um clube de remo. O desejo se concretizou na noite de 17 de novembro de 1895, quando fundaram o Grupo (depois Clube) de Regatas do Flamengo, tendo como primeiro presidente Domingos Marques de Azevedo. Mas foi decidido que a data oficial de fundação seria 15 de novembro, “para que a data do aniversário fosse sempre feriado nacional (Proclamação da República)”. Também foi escolhido o azul e ouro em listas largas e horizontais, como cores oficiais. Depois mudou para vermelho e preto.

Nos primeiros oito anos de existência o clube se dedicou exclusivamente ao remo. O futebol só chegou ao Flamengo a partir de 1903, e apenas para amistosos. No primeiro jogo, realizado em 25 de outubro de 1903 no Estádio do Paissandú Atlético Clube, perdeu para o Botafogo por 5 X 1, usando camisas brancas e shorts pretos. Nesses primeiros tempos o time de futebol não podia usar o uniforme oficial, pois não era bem visto pelo remo rubro-negro.

Em 1911, a história começou a mudar com a chegada ao clube de futebolistas egressos do Fluminense. Mesmo ganhando o Campeonato Carioca, o tricolor enfrentou séria crise interna. O capitão do time, Alberto Borgeth, se desentendeu com alguns dirigentes e liderou um movimento que culminou com a saída de 10 jogadores das Laranjeiras. No dia 8 de novembro de 1911, todos eles estavam no Flamengo.

Mesmo com o grupo de remadores contrários, não tinha mais como evitar. Em 24 de dezembro de 1911, o Flamengo criou oficialmente o seu time de futebol. No primeiro jogo oficial, realizado em 3 de maio de 1912, no campo do América F.C., na rua Campos Sales, o Flamengo massacrou o Mangueira, time da Fábrica de Chapéus Mangueira, por 15 X 2. Gustavo Adolpho de Carvalho marcou o primeiro gol oficial da história do clube e ainda fez outros três no jogo.

Sem ter campo próprio, o Flamengo mandou seus primeiros jogos no Fluminense, até arrendar um espaço na rua Paissandu, de propriedade da família Guinle. Mas foi nas Laranjeiras que aconteceu o primeiro Fla-Flu (o jornalista Mário Filho, criou o nome), no dia 7 de julho de 1912 e o Flamengo perdeu por 3 a 2.

Durante algum tempo foi comum a troca de uniforme do time de futebol. Em 1912, foi usada a famosa camisa quadriculada em vermelho e preto, que ganhou o jocoso apelido de “Papagaio de Vintém”, dado pelos adversários. Em 1913 mudou para a camisa com listas vermelha e preta, com um friso branco entre uma e outra. Os adversários não perdoaram, ganhou o apelido de “Cobra Coral”. Com a eclosão da guerra e como a bandeira da Alemanha tinha as mesmas cores, o uniforme foi abandonado. Finalmente em 1914 os remadores deixaram o futebol usar o uniforme oficial, implantando-se a igualdade nos dois esportes.

Depois do bicampeonato de 1914 e 1915, o Flamengo sofreu um duro golpe. A família Guinle não renovou o contrato de arrendamento do campo de treino da rua Paissandu, dando somente a opção de compra. Como não dispunha de dinheiro para um investimento de tal porte, teve de deixar o local.

Mas nada mais podia parar o Flamengo. Em 1920 o clube ganhou da prefeitura do Rio de Janeiro uma área de 34 mil metros quadrados, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. O primeiro jogo no campo improvisado da Gávea, sem muro e cercado por tábuas, aconteceu em 26 de novembro de 1926 entre a Liga de Amadores de Foot-Ball (São Paulo) e Association de Amateurs de Argentina.

Foi preciso alguns anos para que o estádio da Gávea se tornasse uma realidade. Em 1936, o Conselho Deliberativo autorizou a construção das arquibancadas. Foi feita uma campanha de venda de 500 títulos de sócio proprietário. Sucesso absoluto, todos foram vendidos em 30 dias. O Estádio da Gávea, que recebeu o nome de “José Bastos Padilha” (que presidiu o clube entre 1933 e 1937, abrindo suas portas aos jogadores negros), ficou pronto e foi inaugurado em 4 de setembro de 1938 com o jogo Flamengo 0 X 2 Vasco. A primeira vez que os dois tradicionais rivais se enfrentaram, foi em 1925, com vitória rubro-negra por 2 a 0.

Daí por diante o Flamengo seguiu uma trajetória cheia de altos e baixos, até chegar a sua fase de maior brilhantismo, aquela em que conheceu as maiores conquistas. A chegada de Zico em 1967, trazido pelo radialista Celso Garcia para as categorias de base, mudou a história rubro-negra.

Em 1980 veio a conquista do primeiro Campeonato Brasileiro. Em 1981, a glória suprema: foi campeão estadual, da Taça Libertadores da América e do Mundial de Clubes. No dia 13 de dezembro de 1981, o Flamengo disputou o jogo mais importante da sua história, derrotando o todo poderoso Liverpool, da Inglaterra por 3 X 0, gols de Nunes (2) e Adílio, chegando ao topo do mundo. O time era: Raul- Leandro – Marinho - Mozer e Júnior – Andrade - Adílio e Zico – Tita - Nunes e Lico.

Em 1982 ganhou o bicampeonato brasileiro e em 1983, o terceiro título e a coroação de melhor time do Brasil da década. Na final do Campeonato Brasileiro, o maior público de todos os tempos, mais de 155.253 pessoas superlotando o Maracanã.

Agora o Flamengo busca repetir a façanha de 1981. Está na Copa Libertadores da América pelo segundo ano consecutivo. E quem duvida que o ano termine com a torcida rubro-negra sorrindo de novo?

Encerrando este artigo conto um fato que demonstra o que significa ser Flamengo. Em 1927, o amadorismo estava chegando ao fim. Mas havia quem amasse a camisa que vestia. O jogador Moderato era um deles: jogou a última partida com uma cinta, porque sofrera uma cirurgia no apêndice, supurada dois dias antes. E o Flamengo ganhou outro título. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Time do Flamengo, campeão mundial de clubes de 1981 (Foto: Acervo do C.R. Flamengo)

sábado, 15 de março de 2008

O clube de futebol mais “baixo” do mundo

Alguém já pensou na possibilidade de acontecer um jogo de futebol entre as equipes do Club Unión Mina, de Cerro Pasco, no Peru e do Hilal Areeha, de Ramallah, capital da Cisjordânia? Certamente que não. Pelo fato de serem zeros à esquerda no contexto do futebol mundial, somado aos extremos que representam, nem a Fifa permitiria esse enfrentamento.

O Unión Mina é um clube da cidade mais alta do mundo. E o Hilal Areeha, da região do Mar Morto (417 metros abaixo do nível do mar), a mais baixa do mundo. Certamente os efeitos físicos para os atletas palestinos seriam catastróficos, pois subiriam a mais de 5 mil metros acima do nível do mar. Para os peruanos não sei o que a descida de 5 mil metros representaria. A literatura é escasa sobre o assunto. Descobri, apenas, que na região o oxigênio do ar é 20 % a mais, e o sol não queima a pele, pois a camada de ozônio é maior. E dentro da água do mar pode-se ficar de pé, deitar, sentar e rolar, que não há como afundar.

Na verdade não existe certeza absoluta de que o Hillal Areehae seja de fato o time mais baixo do mundo. A cidade mais baixa é Jericó, situada em território palestino a 240 metros abaixo do nível do mar. Lá também se joga futebol, o “Campeonato de Inverno de Jericó”, aos moldes da Copa da Palestina, considerado a competição mais “baixa” do mundo. Existem outros clubes menos expressivos, como o Albirah, Gabal el Mokaper, Jerusalem Hilal, Shabab al-Amaari, Shbab Alkhaleel, Silwan e Wade al-Nes.

Os problemas políticos na região dificultam a realização de um campeonato nacional legítimo. Existe uma Liga, a “West Bank Premier League”, que organiza torneios onde participam apenas equipes da Cisjordânia. Como o território está dividido em duas partes, Cisjordânia e Faixa de Gaza, é quase impossível uma união. Por causa disso o futebol profissional permanece como um sonho. Nem a seleção palestina consegue jogar direito.

Mesmo sem reconhecimento como nação independente, a Palestina tem no futebol uma forma de se mostrar ao mundo. A Autoridade Nacional Palestina é reconhecida pela Fifa e sua seleção nacional disputa as eliminatórias para a Copa do Mundo. A Palestina foi readmitida pela Fifa em 1998. Chegou a disputar as Eliminatórias da Copa de 1934 (foi eliminada pelo Egito, 7 X 1) antes de ser ocupada pelas tropas britânicas. Curioso é que seleção da Palestina era formada por árabes e judeus, já que ainda era um país unificado na região da Terra Santa. Só deixaria de existir com a criação de Israel, em 1948. Hoje, a Palestina é uma nação sem Estado que por enquanto, só é país oficial no futebol.

A volta aos jogos internacionais veio com a primeira vitória nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002: 1 a 0 sobre a Malásia, em Março de 2001, em Hong Kong, gol do atacante Mohammed Al Jeesh, primeiro ídolo na retomada do futebol palestino. O jogador morava num acampamento de refugiados.

A seleção da Palestina já deu adeus à possibilidade de jogar a Copa do Mundo de 2010. Disputou o Grupo 16, da fase preliminar asiática e foi eliminada por Cingapura que lhe impôs duas goleadas: 3 X 0, e 4 X 0. E nem podia ser diferente. Os jogadores palestinos estavam divididos em duas sedes: uma em Gaza, onde existe um único campo de grama e outra na Cisjordânia.

Para preencher a convocação, foram chamados descendentes palestinos de outros países. E raras vezes estiveram todos juntos num só lugar para treinar. Quando aconteceram, os treinos foram no Egito. E o jogo (08-10-2007) “em casa”, aconteceu em Doha, no Reino do Qatar, por questão de segurança.

A FIFA autorizou a “Palestinian Football Association” a recrutar jogadores de origem palestina em outros países devido a proibição, imposta por Israel, aos futebolistas que vivem nos territórios ocupados de viajar ao exterior. Atualmente a seleção conta com jogadores residentes em Gaza, Cisjordânia, Jordânia, Líbano, Egito e Chile. No Chile residem cerca de 350.000 pessoas de origem palestina.

A ajuda externa está sendo fundamental no desenvolvimento do futebol na Palestina. A Asociación Nacional de Fútbol Amador (Anfa), do Chile, entidade que organiza a terceira e quarta divisões bancou a participação de uma seleção palestina na Terceira Divisão chilena em 2003. Era uma equipe de jovens com raízes palestinas, chilenos, norte-americanos e até israelenses, libaneses e jordanianos. Era considerada uma filial sul-americana da seleção palestina principal.

Importante, mesmo foi a participação de Portugal, através do Instituto Português de Cooperação para o Desenvolvimento, que financiou a construção do novo estádio da cidade de Al-Kahder, nos arredores de Belém, na Cisjordânia. O estádio custou US$ dois milhões e tem capacidade para seis mil espectadores, certificado da FIFA e dispõe de piso sintético e iluminação. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Meninos jogam futebol nas ruas de Ramallah (Foto: ramallahonline)

sexta-feira, 14 de março de 2008

O clube de futebol mais "alto" do mundo

Volto ao tema “o clube de futebol mais alto do mundo”. No último artigo não me alonguei muito para não cansar o leitor. Mas cabem mais algumas considerações. O Club Unión Minas, de Cerro Pasco, uma pequena cidade mineira nos Andes peruanos, com 4,34 mil metros de altitude, e um ambiente hostil com temperaturas entre 10 e -5C, é verdadeiramente o clube de futebol “mais alto do mundo”. Essa condição é reconhecida pela revista oficial da FIFA, que usa o clube como exemplo para mostrar como o futebol sobrevive em qualquer ambiente.

Com 70 mil habitantes, Cerro Pasco depende dos recursos gerados pelas minas de zinco, cobre e prata. O futebol não é novo por lá. Os engenheiros e mineiros ingleses que vieram trabalhar nas minas, já praticavam o esporte desde 1912, como passatempo. O futebol profissional veio só em 23 de abril de 1974, quando os trabalhadores das minas fundaram o Unión Minas, com apoio da estatal Centromin.

Durante mais de 10 anos o “Club de la Mina”, assim chamado pelos torcedores, disputou somente os jogos regionais da Copa Peru, a segunda divisão local. Em 1986, a Federação Peruana de Futebol ampliou o número de equipes na primeira divisão e o Unión Minas foi beneficiado.

O apoio financeiro dado pela Centromin era limitado, e por isso o clube contratava apenas jogadores veteranos e rejeitados pelos grandes clubes do país. Mesmo assim, o Unión conseguiu se manter em posições intermediárias, graças ao Estádio Daniel Alcides Carrión, com capacidade para 8 mil expectadores, e localizado no alto do morro, a uma altitude de 4.512 metros. É a casa do Unión e um verdadeiro pesadelo para os adversários. Não apenas pelo ar rarefeito, mas principalmente pelas temperaturas abaixo de zero.

Na altitude de Cerro do Pasco a oxigenação diminui para pouco mais de 66%. A temperatura média durante o dia é de 12 graus. Os especialistas de futebol consideram um castigo para qualquer atleta de fora da cidade que seja contratado pelo time local. Para a saúde, os riscos de hipotermia são consideráveis.

Imaginem um clube brasileiro jogar num local em que até os times peruanos, acostumados a jogar na altitude, precisam tomar medidas especiais. O mais comum é passar a noite anterior em Huánuco (a 2 mil metros de altitude), na selva central do Peru e chegar ao estádio uma hora antes do jogo. Além disso, os times tomam medidas para abrir as fossas nasais e levar garrafas de oxigênio para o intervalo.

Outra medida adotada pelos clubes é dar aos jogadores uma xícara de chá de folha de coca, a mesma matéria-prima utilizada na produção de cocaína, para ajudar a combater o “soroche” (mal de altura, como os andinos chamam os efeitos da altitude). Para que os jogadores não sejam pegos no antidoping, os clubes visitantes só servem a bebida no intervalo, quando o sorteio para o exame já foi realizado.

Mas a ascensão do futebol de Cerro de Pasco não durou muito. Em 1997, a Centromin deixou de apoiar financeiramente o clube. Em 1998 o Unión Minas ainda fez uma boa campanha, ficando na quarta posição no Torneio "Apertura" e em sexto na temporada inteira. No ano seguinte o clube sentiu a falta de dinheiro e foi perdendo força. Com pouco público no estádio e sem condições de revelar bons jogadores, acabou rebaixado para a segundona peruana, em 2001, quando nem o ambiente hostil do Estádio Daniel Alcides Carrión foi capaz de ajudar o time. De lá para cá disputa o grupo do Departamento de Pasco da Copa Peru.

Em El Alto, cidade na região metropolitana de La Paz, a prefeitura construiu o estádio Olímpico de Los Andes. Como o próprio nome diz, El Alto é uma cidade bem alta, com 4,1 mil metros de altitude. O clube que se decidisse a jogar lá poderia ser classificado como o segundo mais alto da Bolívia e do mundo. A Universidad Iberoamericana, quarto clube de La Paz, aceitou se mudar, mas faliu antes de o estádio ficar pronto. O Mariscal Braun, da segunda divisão, também chegou a aceitar o convite da prefeitura de El Alto, mas acabou ficando em La Paz. A cidade tem um bom estádio, mas não tem nenhum time. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Vista do Estádio Daniel Alcides Carrión, em Cerro de Pasco, Peru (Foto: Governo do Peru)

A polêmica dos jogos de futebol na altitude

Em maio do ano passado a FIFA decidiu proibir a realização de jogos internacionais de futebol em estádios localizados a mais de 2.500 metros acima do nível do mar, alegando risco de vida para os atletas. A reação foi imediata. Liderados pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, os representantes das federações da Bolívia, Colômbia, Chile, Equador, Peru e Venezuela, lançaram uma declaração conjunta contestando o veto.

Por solicitação do presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), o peruano Nicolás Leoz, a Fifa acabou por revogar o veto aos clubes, e tudo voltou a ser como era antes. Para as seleções, o veto continua valendo. Agora quem está chiando são os clubes brasileiros e argentinos, principalmente, que são obrigados a enfrentar, além do adversário em campo, alturas acima de 4 mil metros.

A chiadeira se volta, especialmente, contra o Club Bamim Real Potosi (fundado em 20 de outubro de 1941), time da cidade boliviana de Potosi, que a imprensa teima em dizer que é a mais alta do mundo. Será? Com cerca de 130 mil habitantes, Potosi, patrimônio cultural da humanidade está localizada na província de Tomás Frias, aos pés da montanha “Cerro Rico”, nos Andes a cerca de 4.000 mil metros acima do mar. Eu confesso que não sei a altura exata. São muitas as desinformações publicadas pela imprensa: menos de 3.800 metros, 3.967, 3.976, 4.050, mais de 4.000, 4.500, 4.690 metros e por aí vai. Se alguém souber a altitude certa, por favor, mande me dizer.

O Real Potosi está incluído no Grupo 1 da Copa Libertadores da América deste ano, junto com Cruzeiro, de Belo Horizonte, San Lorenzo, da Argentina e Caracas, da Venezuela. O Real Potosi disputa seus jogos no Estádio Mário Mercado Vaca Guzmán, que tem capacidade para 18.000 torcedores, famoso pelo “sofrimento” que causa aos clubes visitantes.

A maioria dos clubes brasileiros ainda teme jogar no Estádio Garcilaso de La Vega, em Cuzco, no Peru, há 3.350 metros acima do nível do mar, com capacidade para receber 42.000 torcedores. É a casa do Cienciano, que está no Grupo 4 da Copa Libertadores da América, junto com Flamengo, Nacional do Uruguai e Coronel Bolognese, do Peru. E também em La Paz, no Hernando Silles, casa do La Paz Fútbol Club, que não está na Copa Libertadores deste ano. O estádio comporta 42.000 torcedores e fica a 3.700 metros acima do nível do mar.

Afinal de contas, quais os prejuízos que a altitude causa aos jogadores? Por que é tão difícil chegar ao topo do mundo? Os médicos dizem que quando estamos ao nível do mar, a respiração é tranqüila, não exige maiores esforços dos pulmões. Mas, à medida que se sobe, o organismo sente a diferença. Ela é conseqüência da diminuição da pressão atmosférica, fruto da força exercida pela camada de ar.

O doutor em Ensino de Química e professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília, Gerson de Souza Mól (gmol@unb.br) explica que quanto maior a altitude, menor será a camada de ar e, conseqüentemente, menor a pressão. Isso provoca um inchaço do cérebro que é responsável por dores de cabeça e náuseas. Num jogo de futebol a tendência é que os jogadores sintam-se mais ofegantes e se cansem mais rapidamente. E isto pode ser decisivo para o resultado final.

Acima de 6 mil metros de altitude, as pessoas não-aclimatadas encontram uma série de dificuldades e muitas chegam a perder a consciência. O ponto mais alto do mundo é o monte Everest, com 8.850 metros. Fica na cordilheira do Himalaia, na fronteira entre o Nepal e o Tibet. No Brasil, o ponto mais alto é o Pico da Neblina, com 3.014 metros de altitude. Fica em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, e faz fronteira com Colômbia e Venezuela.

E o outro lado? Como impossibilitar a realização de jogos em cidades como Potosí? O que seria dos clubes existentes nessas regiões altas? Será que eles não têm queixas por jogar em locais mais baixos? O que dizer do forte calor do Rio de Janeiro, e à grande presença de mosquitos por lá? E o surto de dengue no Paraguai? E os desertos, como o de Atacama, no Chile? Então, os clubes da altitude também encontrarão condições desfavoráveis aqui no Brasil e em outros países. Eu não estou defendendo aquela idéia de que pimenta nos olhos dos outros é colírio.

E Potosi é mesmo a cidade mais alta do mundo? Na verdade, não é. Nem onde se pratica o futebol. No próximo artigo escreverei sobre o verdadeiro “time mais alto do mundo”. As informações são desencontradas. Vejam só o que encontrei em minhas pesquisas: o local habitado mais elevado do mundo é “La Rinconada”, cidade erguida a 5.200 metros de altitude nos Andes peruanos. Por não ter o status de distrito, é apenas uma povoação informal que não tem apoio governamental e nem aparece nos mapas.

“Cerro do Pasco”, localizada nos Andes peruanos também ganha a condição de mais alta do mundo, com seus 4.380 metros de altitude. É lá que está o “time mais alto do mundo”, que será tema de meu próximo artigo. “El Alto”, na Bolívia, antigo bairro de La Paz e emancipada em setembro de 1988, é outra cidade apontada como a mais alta do mundo, com 700.000 habitantes que vivem a mais de 4.000 metros de altura, no frio e inóspito altiplano boliviano.

E o Livro Guiness, tão importante e acreditado o que diz sobre isso? Que a cidade mais alta do mundo está muito longe das regiões montanhosas da América do Sul. È “Wenzhuan”, no Tibet, 5.100 metros acima do nível do mar. (Texto e Pesquisa: Nilo Dias)