Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

O maior campeonato do mundo

Quem não lembra da Copa Arizona de Futebol, que foi disputada nos anos 70 e envolvia equipes amadoras de todos os Estados do Brasil. A competição era organizada pelo jornal “A Gazeta Esportiva”, de São Paulo e patrocinada pela Companhia Souza Cruz, fabricante dos cigarros Arizona. Foi considerado, na época pelo Livro Guinnes, o maior campeonato do mundo, ao reunir cinco mil equipes, sendo 1.032 só do Estado de São Paulo.

O regulamento era simples. Primeiro as fases regionais que classificavam os campeões de cada Estado. Depois vinham as finais disputadas na capital paulista e precedidas de uma grande festa. Em 1976, por exemplo, durante mais de duas horas jogadores amadores de todo o Brasil desfilaram frente um palanque armado na avenida São João, ao som de bandas e fanfarras.

Eu cheguei a participar de uma Copa Arizona, foi no ano de 1975, quando fui técnico de um time chamado Cruzeiro do Sul, na cidade de Pelotas. Saímos invictos da competição. Ganhamos a fase local e na regional fomos eliminados nos pênaltis pelo Internacional, de Arroio Grande, depois de 90 minutos e uma prorrogação de 30, com empates de 0 X 0. O Cruzeiro do Sul revelou um grande número de jogadores que depois brilharam em equipes profissionais, como Joaquim, zagueiro do Internacional de Porto Alegre.

A Copa Arizona disputava popularidade com os campeonatos dos times tradicionais de várzea. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a competição tinha tanto prestígio, que os clubes que se sagravam campeões, mesmo sem o reconhecimento da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), se auto proclamavam campeões estaduais de amadores.

Lembro que a cidade de Ijui, terra do técnico Dunga, da Seleção Brasileira tinha dois times quase imbatíveis, o Ouro Verde e o Estrela Vermelha, que abocanharam três estaduais, em 1975, 1977 e 1980.

Infelizmente eu não tenho a lista completa dos campeões nacionais da Copa Arizona. Tentei buscar esses dados com a Companhia de Cigarros Souza Cruz, mas a memória se esvaiu com o passar dos anos. Só a Gazeta Esportiva guarda essas informações na sua coleção de jornais.

Também não consegui nada, pois seria necessária uma pesquisa demorada e paga. Como moro em Brasília, num primeiro momento isso me pareceu inviável. Mas tenho fé que algum leitor deste artigo traga luz a esse escuro existente na história da maior competição esportiva que o país conheceu. Pena que não tenha tido continuidade.

A Copa Arizona começou em 1974 e só deu São Paulo. O ADC Frum, da Vila Maria foi o campeão. O vice foi o G.E. Black Power, e o Americano, de Américo Brasiliense, chegou em terceiro lugar. Em 1975, o Esporte Clube Golfinho, de São Paulo foi o campeão, e o vice o Ajax, de Florianópolis (SC). Em 1976 o Golfinho, foi bicampeão, com a Campineira, da cidade de Sobradinho (DF), onde moro, ficando com o vice-campeonato. Apenas como detalhe, a Campineira foi campeã de Brasília, nos tempos do amadorismo, em 1975.

Em 1977, o Francisco Xavier, do Rio de Janeiro, foi campeão ao derrotar o Lagoinha, de Minas Gerais, na final, por 3 X 0. Em 1978, o campeão foi a Associação Atlética Portofelicense, de Porto Feliz (SP), que derrotou na final o Elnema, também de São Paulo, por 3 X 0. O Francisco Xavier (RJ) foi terceiro colocado.

COPA ARIZONA DE FUTEBOL AMADOR – 1980

ZONA NORTE

RIO GRANDE DO NORTE

21/09/1980
Final
Gigante Rubro 2 X 0 São Paulo, de Eduardo Gomes
Local: Estádio Juvenal Lamartine, em Natal

PERNAMBUCO
27/09/1980
Final
Juventus de Camaragibe 2 X 2 Bandeirante, de Casa Amarela
Prorrogação: Juventus 1 X 0

PARAÍBA
Grupo de João Pessoa
Semifinals
16 e 17/agosto de 1980

Grupo A
Cinco de Agosto, de Palmeiras da Torre
Íbis, de Posto Nossa Senhora da Penha

Grupo B
Proserv, de São Paulo de Tambia
Esferal, de Cimepar

Grupo de Campina Grande
Final
Confiança 2 X 0 Renascença

Estágio Final
13/09/1980
Palmeiras da Torre X Confiança de Campina Grande

FINAIS REGIONAIS

CEARÁ E PIAUÍí
Redes Santana (CE) 0 X 3 Kosmos (PI)

PARAÍBA, ALAGOAS E PERNAMBUCO
Todas as partidas disputadas em João Pessoa (PB)
04/10/1980
Flamengo (AL) 1 X 2 Juventus (PE)
05/10/1980
Palmeiras (PB) 3 X 3 Juventus/ (PE)
Prorrogação: Palmeiras 1 X 0

RIO GRANDE DO NORTE
Gigante Rubro já classificado por sediar a etapa final

FINAIS DA ZONA NORTE
Todas as partidas disputadas no Estádio Juvenal Lamartine, em Natal
10/10/1980 – Gigante Rubro (RN) 1 X 0 Palmeiras (PB)
11/10/1980 – Palmeiras (PB) 2 X 2 Kosmos (PI)
12/10/1980 – Gigante Rubro (RN) 1 X 1 Kosmos(PI)
Gigante Rubro, campeão do Norte, classificado para as finais nacionais.

ZONA CENTRO

ESPÍRITO SANTO
Final
Estrelinha 1 X 0 Siderúrgico
Gol: Moacir Calado
Grêmio Atlético Estrelinha, de Jacutuquara/Vitória, classificado

MINAS GERAIS
Finais
Ferroviária 1 X 0 Rosário
Ferroviária 0 X 0 Rosário

RIO DE JANEIRO
Capital
Final
Francisco Xavier X Frigorífico, de Nilópolis
Petropolitano X Machado Viana, de Campos
Francisco Xavier classificado

FINAIS REGIONAIS

10/10/1980 - Ferroviária X Estrelinha
11/10/1980 - Francisco Xavier X Estrelinha
12/10/1980 - Ferroviária X Francisco Xavier

Francisco Xavier, campeão do Centro, classificado para as finais nacionais.

ZONA SUL
SÃO PAULO
Final
Buenópolis de Morungaba 4 X 0 Nove de Julho, de Bauru
São Paulo Capital
Final
ADC Frum 4 X 2 Progresso

RIO GRANDE DO SUL
Grupo Grande Porto Alegre
Finalistas
Safurfa, Gloriense, Guaspari, Dínamo, Alpes, Colônia, Unidos e Icotrom
Safurfa classificado

GRUPO DE CAXIAS DO SUL
Semifinals
Noroeste 2 X 0 Conceição
Randon 0 X 0 União Forquetense
Classificado o União Forquetense
Final
Noroeste 1 X 0 União Forquetense

Água Verde de Alegrete X Madureira, de Santa Maria
Cruzeiro, de Passo Fundo 0 X 0 Noroeste
Pênaltis: Cruzeiro 4 X 3
Ouro Verde de Ijuí  X Flamengo de Livramento
Água Verde de Alegrete X Tulipa
Operário X Novo Avante, de Rio Grande

SEMIFINAIS

Tulipa, de Cachoeira do Sul
Ouro Verde, de Ijuí
Cruzeiro, de Passo Fundo
Operário, de Bagé

FINAIS

Ouro Verde 3 X 1 Safurfa
Local: Estrelão, em Porto Alegre
Gols: Bertil, Dirceu e Lauri para o Ouro Verde. Zezé descontou para o Safurfa
Ouro Verde: Poty - Zé Galvão – Casca - Paulo Perin e Jair – Toni - Lauri e Pincho (Paulo Morais) - Bertil (Gelson) - Capucho e Dirceu.

FINAIS REGIONAIS

18/10/1980
Em São Paulo
Ouro Verde X Taquarassu (MS)
ADC Frum X Buenópolis
ADC Frum, campeão do Sul, classificado para as finais nacionais.

FINAIS NACIONAIS

Equipes participantes
Zona Norte – Gigante Rubro, de Natal (RN)
Zona Centro – Francisco Xavier E.C., do Rio de janeiro
Zona Sul – ADC Frum, de São Paulo

FASE FINAL

Francisco Xavier 1 X 0 Gigante Rubro
Data: 24/10/1980
Local: Estádio do Bonsucesso
Juiz: Valdo Luís Machado
Gol: Rui
Francisco Xavier: Delfino – Tizil – Geraldão - Otávio e Canário – Rui - Paulinho (Vila) e Djalma – Mendes - Izac e Cazela (Levi)
Gigante Rubro: Romildo - Saraiva, - João Maria - Grimaldi e Ronaldo – Álvaro - Valério e Marcos – Ferreira - Neto e Hideraldo.

ADC Frum 0 X 0 Gigante Rubro
Data: 25/10/1980
Local: Estádio do Bonsucesso
Juiz: Antônio Dornellas
ADC Frum: Zé Roberto – Valtão – Alemão - Leonardo e Gato – Zucheto - Junior e Novaes – Cerejeira - Kiko (Teixeira) e Mauro (Reginaldo).
Gigante Rubro: Romildo – Saraiva - João Maria - Grimaldi e Ronaldo - Álvaro (Marcos) - Valério e Tito – Ferreira - Neto (Viana) e Adelmo.

Francisco Xavier 1 X ADC Feum
Data: 26/10/1980
Local: Estádio do Bonsucesso
Juiz: Valdo Luís Machado
Gol: Izac aos 28 do segundo tempo
Francisco Xavier: Delfino – Tizil – Geraldão - Otávio e Canário - Rui (Vila) - Reinaldo e Djalma – Mendes - Izac e Levi.
ADC Frum: Zé Roberto – Reginaldo – Valtão - Alemão e Leonardo – Zucheto - Junior (Neovaldo) e Novaes – Kiko - Teixeira e Valverde (Mauro).
Observação: A partida foi encerrada aos 79 minutos pela expulsão de cinco jogadores da equipe paulista.

Francisco Xavier campeão

Segundo o Diário de Pernambuco, a ADC Frum declinou da decisão da segunda posição contra o Gigante Rubro, e o clube natalense sagrou-se vice-campeão.

Quando a Copa Arizona acabou, em 1980, totalizou a estrondosa participação de 104 mil jogadores entre os anos de 1974 a 1980.

A Copa Arizona teve também o seu lado folclórico. Esta, eu tirei da coluna “Baú do Guidugli”, do professor Marco Antônio Guidugli, no “Jornal do Povo”, de Cachoeira do Sul (RS).

Campeão amador do Rio Grande do Sul o Ferreira Futebol Clube foi jogar em São Paulo a fase nacional da Copa Arizona. Na viagem de avião os atletas Teco, Beto Scarparo e Homerinho divertiam-se comendo pastéis, cerveja, pedaços de galinha e refrigerantes.

Outro atleta, Claudionor, ficava apenas observando. Sem saber que toda a comida era gratuita, Claudionor foi orientado pelos colegas de que teria de pagar tudo quando desembarcasse. Com pouco dinheiro, resolveu economizar, não comendo nada a viagem toda. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
A equipe do Moleque Travesso que disputou a Copa Arizona de 1974. (Foto: Futebol Amador)

Manoel disse...
Sr. Nilo Dias boa tarde meu nome é Manoel Cardoso, sou de São Paulo-SP. Gostaria de lhe transmitir alguns dados das edições da Copa Arizona Futebol Amador 79/80, pois
participei destas duas edições sendo inclusive campeão em 79 e vice em 80. Caso queira informações entre em contato atraves de manoel@arcparts.com.br
que terei imenso prazer em lhe fornecer informações muito ricas com relação ao torneio.
Abraços
Manoel
me forneça seu e-mail
28 de novembro de 2008 13:11

vilmar facre disse...
Tenho a medalha e o trofeu de campeão da copa arizona de 1979.este time se chama Cruzeiro Esporte Clube (Três Rios-RJ. Este torneio era patrocinado pela Souza Cruz,e gostaria de alguma notícia sobre este campeonato.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Do velho “capotão” à alta tecnologia

O americano Charles Goodyear, nascido em New Haven, no dia 29 de dezembro de 1800 ficou mundialmente conhecido por ter descoberto a vulcanização da borracha. E o futebol agradece ao inventor pela criação da primeira bola de borracha vulcanizada, em 1855. Antes, as bolas tinham um aspecto horrível: bexigas de bois e porcos, com uma cobertura de couro para tentar um formato mais ou menos redondo, pois geralmente eram ovais. Às vezes era preciso pregar botões para conseguir fechá-las. O tamanho da bola variava de acordo com o tamanho da bexiga.

A fabricação de bolas verdadeiramente redondas, só aconteceu a partir de 1862. Isso, depois que um inglês de nome H. J. Lindon, desenvolveu a primeira bola inflável de borracha. Ele queria evitar que outras pessoas morressem de doenças respiratórias provocadas pelo esforço de encher com a boca milhares de bexigas. Foi assim que ele perdeu a esposa.

Mesmo com a nova tecnologia, durante algum tempo muitos fabricantes continuaram a usar botões. O envoltório de couro só apareceu a partir de 1880. Nas regras do futebol não havia nenhuma citação técnica sobre como a bola deveria ser. Por isso tinham pesos e tamanhos diferentes.

Com a fundação da Liga Inglesa de Futebol, em 1886 as empresas Mitre e Thomlinson’s deram início a produção maciça de bolas de futebol. A “Lillywhite”, número 5 foi escolhida como oficial. E quando começou a ser usada na “F A Cup” consagrou o “number 5” como tamanho padrão da bola de futebol. Mesmo assim os europeus ainda usaram a bola número 4 até 1940.

Em 1863 foi determinado que a circunferência da bola seria entre 68 e 70 centímetros, ou entre 27 e 28 polegadas. O peso só foi regulamentado em 1889: a bola deveria ter entre 340 e 420 gramas. Depois, em 1937, ela passou a pesar entre 410 e 450 gramas, ou entre 14 e 16 onças, que permanece até hoje.

Um exemplo das diferenças existentes entre os vários tipos de bolas, foi no jogo final da Copa do Mundo de 1930, entre as Seleções do Uruguai e da Argentina. Não houve acordo quanto à bola a ser usada. A solução foi jogar o primeiro tempo com bola argentina e o segundo com bola uruguaia. O Uruguai venceu por 4X 2. No primeiro tempo, com bola argentina perdia por 2 X 1.

No Brasil, as duas primeiras bolas chegaram em 1894. Eram inglesas, da marca “Shoot”, vindas na bagagem do estudante Charles Miller. O pioneirismo na fabricação de bolas brasileiras pertence ao padre Manuel Gonzáles, do Colégio Vicente de Paula, em Petrópolis, e a um sapateiro paulista chamado Caetano.

Quando começaram os jogos à noite, os jogadores tinham dificuldades em ver a bola, por causa da cor marrom. A idéia de se jogar com bolas brancas foi de um diretor do Vasco da Gama, Joaquim Simão Gomes, mais conhecido por “seu Gomes”, num amistoso com o São Paulo, ao início dos anos 30.

Ele sugeriu ao diretor tricolor, Mário Cunha Bueno que a bola fosse pintada de branco. Autorizado, comprou uma tinta da marca “Duco Alemão” e criou a primeira bola branca do futebol mundial. A partir desse jogo, ela correu pelos gramados do mundo.

Eu lembro bem das antigas bolas de “capotão” ou de costura, que lá na minha terra chamavam de “bola de tento”, por causa da tira de couro usada para fechar a abertura por onde se colocava a câmara de ar. Era uma bola bem mais pesada que as de hoje. Em dias de chuva pesava mais ainda. Quando o chute atingia a parte irregular da costura ou o “tento”, causava grande dor. O goleiro, dependendo da violência do chute, era o que mais sofria. Foi um alívio quando chegou a “bola de válvula”.

Hoje é tudo diferente. A tecnologia transformou a bola de futebol num instrumento quase de luxo, que é lançado em concorridos desfiles de grifes. O velho “balão de couro” costurado a mão deu lugar a materiais modernos. Há quem diga que se Pelé jogasse hoje, seria melhor ainda do que já foi. Se a velha e defeituosa bola de 1958 lhe obedecia cegamente, a de hoje lhe beijaria os pés. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Bola de futebol usada em gramados da Europa )Foto: Divulgação)

terça-feira, 8 de abril de 2008

O folclórico Gentil Cardoso

Gentil Cardoso foi talvez o mais folclórico técnico do futebol brasileiro. Ele começou a carreira de treinador no F.B.C. Rio-Grandense, de Rio Grande, por quem foi campeão gaúcho em 1939. Depois de Rio Grande, onde foi oficial da Marinha, Gentil Cardoso ganhou o Brasil e o mundo. Treinou vários clubes do futebol brasileiro, entre os quais Fluminense, Bangu, Vasco da Gama, Portuguesa de Desportos, Ponte Preta, São Paulo, Sport Recife, Santa Cruz e Náutico. Foi o primeiro negro a ser contratado pelo Náutico do Recife em 59 anos de existência.

Também treinou a famosa seleção pernambucana, chamada de “Cacareco”, que representou o Brasil no Sul-Americano Extra do Equador, em 1959. No exterior dirigiu o Sporting, de Lisboa, Portugal. Gentil Cardoso foi considerado um dos melhores treinadores brasileiros na época, mas ganhou fama pela facilidade de criar frases que entraram para o folclore do nosso futebol.

O técnico do Flamengo Joel Santana chama a atenção pela inseparável prancheta. Gentil, pelo quadro negro que usava para explicar táticas aos jogadores, recurso que ele aprendeu numa das viagens à Europa, quando ainda era marinheiro. Também não se separava do boné, outra de suas marcas registradas.

São muitas as passagens hilariantes atribuídas ao gordo treinador. Vamos conferir algumas delas:

Em 1946, contratado pelo Fluminense, prometeu: “Dêem-me Ademir de Menezes que lhes dou o título”. O jogador veio e o título, também. Depois voltou ao Vasco da Gama e repetiu a promessa. Não deu outra, faixa no peito de novo.

Em 1952, correu um boato de que o Vasco pretendia mandá-lo embora. Um repórter perguntou o que ele achava disso e a resposta foi imediata: “Eu estou com as massas, e as massas derrubam até governos". No outro dia foi despedido.

Foi Gentil Cardoso que lançou Garrincha no futebol carioca. O “homem das pernas tortas” chegou a General Severiano, em 1953, encaminhado pelo lateral Arati, para fazer testes. Disse que jogava de meia-direita no Palmeiras de Pau Grande, sua terra natal. Gentil olhou um treino e disse que ele seria ponteiro-direito, pois sua grande virtude era a arrancada.

Falavam na época, ninguém assegura se é ou não verdade, que antes do primeiro treino de Garrincha com os profissionais do Botafogo teria ocorrido este diálogo entre o técnico e o jogador: "Você joga de que, meu filho?", perguntou Gentil Cardoso. "De chuteiras, moço." Caíram todos na gargalhada e o garoto, chateado, tentou remendar: "Se quiser, posso jogar descalço. Não ligo para isso". De cara amarrada, o treinador explicou: "Qual é a posição?".

Gentil o colocou na ponta direita do time reserva, e ele descadeirou ninguém menos do que Nilton Santos, a “Enciclopédia do Futebol”, já consagrado como um dos maiores laterais do futebol brasileiro e mundial de todos os tempos. Anos depois, quando Garrincha já estava morto, Nilton Santos costumava dizer: "A bola era a maior amiga e a principal distração daquele garoto. Era só o que ele sabia fazer".

Mas, continuemos com o folclórico Gentil Cardoso: uma tarde, depois de uma derrota e cercado de repórteres alguém lhe perguntou por que havia perdido o jogo. E a resposta veio sem meias palavras: “Perdemos, porque o adversário fez mais gols".

Num treino do Vasco, um jogador “cabeça-de-bagre” tentou dar uma bicicleta e caiu no chão. Gentil, que olhava tudo, não agüentou e soltou esta frase antológica: “Meu filho, você já é ruim chutando em pé, imagine de cabeça para baixo’’.

Num treino da equipe juvenil, Gentil Cardoso se preparava para substituir um garoto alto e magro, ruim de bola, quando um sócio do clube gritou do outro lado da cerca: ”Aquele lá é meu filho. Sempre quis que ele crescesse e se tornasse um craque”. Gentil olhou nos olhos do pai coruja e cinicamente disse: ”Bem, pelo menos ele cresceu direitinho”.

Nos anos 50 jogava no Vasco um goleiro chamado Bituca, que tinha um medo terrível de mandinga. Gentil Cardoso treinava o Bangu e pediu ao atacante Mário que levasse para o campo uma mistura de areia e talco e jogasse na cabeça do goleiro, dizendo que era feitiço. Dito e feito. Mal começou o jogo e Bituca aceitou um frango fenomenal. Daí a pouco novo gol numa bola defensável. E um gol atrás do outro, para desespero do técnico vascaíno, Aimoré Moreira, que gritava: “Pega a bola, safado! Pega a bola”. E Bituca, quase chorando respondeu: “Não posso, tô macumbado”.

Em outra ocasião um jogador não parava de dar chutões para o alto. Irritado, Gentil Cardoso chamou o moço e perguntou: "Meu filho, bola é feita de quê?" “De couro seu Gentil”. "E couro, meu filho, vem de onde?" “Da vaca seu Gentil”. "Então, meu filho, aprende: vaca gosta de grama, bola gosta de rolar na grama”.

Quando era treinador da Ponte Preta, Gentil Cardoso levou um megafone para dentro de campo, durante um jogo amistoso. Na época jogava no time de Campinas, um volante de nome Pepino, muito bom de bola. Gentil pedia aos seus jogadores que tocassem a bola sempre de primeira. E gritava: "Zezinho, lança para o Marcos na esquerda. Isso, muito bem". Como era um jogador altamente técnico, Pepino abusava dos dribles, antes de fazer o passe. Gentil Cardoso não perdoava: "Eu falei pra você passar de primeira, Pepino".

No outro dia Pepino colocou as mãos na cintura, olhou para o treinador balançando a cabeça e mostrando-se contrariado. Gentil Cardoso não perdeu tempo, estufou o peito e gritou: "É a sua". O médico do clube, surpreso, disse ao treinador: "Mas ele não falou nada..." "Não falou, mas pensou", disse Gentil.

Foi Gentil Cardoso que criou a expressão “zebra”, hoje tão popular no futebol e que explica a vitória de um time pequeno, contra um grande: “deu zebra”. Gentil treinava a Portuguesa carioca, que no domingo ia jogar contra o Vasco. Um repórter perguntou o que o técnico achava do jogo: “Vai dar zebra”, foi a resposta. E deu, a Portuguesa cometeu o “crime” e venceu. A zebra, que não existe no Jogo do Bicho, simboliza o improvável na Loteria Esportiva.

Treinando a seleção “Cacareco”, Gentil conseguiu a proeza de derrotar a poderosa seleção paulista em jogo pelo campeonato brasileiro de seleções por 4 X 2. A equipe de São Paulo tinha craques como Pelé, Gilmar, Olavo, Zito, Julinho e Chinezinho. No lado pernambucano, os jogadores só eram conhecidos em Pernambuco.

Para finalizar, algumas frases célebres atribuídas ao grande treinador: "Quem se desloca, recebe, quem pede, tem preferência"; “Treino é treino, jogo é jogo”; "Quem não faz, leva"; “O craque trata a bola de você e não de Excelência"; “Futebol é uma caixinha de surpresa”; "Eu quero que vocês corram atrás da bola como se ela fosse um prato de comida". E a última frase da sua vida, quando estava no hospital, dias antes de morrer: “Eu quero sair daqui na vertical e não na horizontal”. Não deu. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O folclórico Gentil Cardoso, quando treinava o F.B.C. Rio-Grandense, de Rio Grande. (Foto: Livre)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O calvário do América do Rio

Perde o futebol carioca, perde o futebol brasileiro. Ninguém queria a queda do América F.C., para a 2ª Divisão do futebol carioca, uma verdadeira sucursal do inferno. Mas lamentavelmente aconteceu. No último sábado (5), o América dependia de uma improvável combinação de resultados para escapar. Não bastava vencer ao Friburguense, como aconteceu (2 X 0). Cardoso Moreira e Mesquita teriam de perder. Não deu. O Mesquita perdia de 2 X 0 e virou para 4 X 2. Fim de festa.

Chovia forte sobre Nova Friburgo. E lágrimas corriam dos olhos da apaixonada torcida americana, que deixou o estádio em comovente silêncio. Foi de doer no coração. Afinal de contas é um clube com 104 anos, vencedor de vários torneios nacionais e internacionais, uma Taça Guanabara (1974), uma Taça Rio (1982), um Torneio dos Campeões da CBF (1982) e sete títulos estaduais, 1913, 1916, 1922, campeão do Centenário da Independência do Brasil, 1928, 1931, 1935, e 1960, primeiro campeão do Estado da Guanabara.

Mesmo com todas essas glórias, o América acaba de entrar numa espécie de UTI do futebol, de onde dificilmente sairá com vida. A “Segundona” carioca é diferente de outros Estados, não é divulgada pela imprensa, não tem público e os clubes são na maioria patrocinados por prefeituras municipais. Quem vai querer patrocinar o América numa situação dessas?

Eu acho que a Federação carioca poderia fazer algo para melhorar seu campeonato, que vem piorando a cada ano. Os chamados clubes pequenos estão impedidos de jogar em seus estádios contra os “grandes”. E ainda enfrentam arbitragens suspeitas. É um campeonato de cartas marcadas. Eu lembro, e com saudade dos bons tempos em que o Carioca era o melhor torneio do Brasil. Hoje, perde disparado para São Paulo. Só se salvam os jogos finais. E olhe lá.

Onde estão clubes tradicionais como Bangu, Bonsucesso, Portuguesa, Olaria, Campo Grande, São Cristóvão e até o Canto do Rio? Sumiram nas divisões inferiores ou fecharam as portas. Desses “pequenos” só o Madureira resiste, e Deus sabe até quando. A desvalorização do campeonato regional e a incompetência dos “cartolas” da Federação levaram a isso. Sem dinheiro e sem incentivo, o América também afundou. E eu absolvo seus dirigentes de qualquer culpa. Fizeram o que era possível.

Não sou defensor de viradas de mesa. Mas no caso do América, vou torcer para que aconteça. E de carona também se salve o Bangu. É muita história para ser jogada fora. O futebol não merece isso. Eu até sugiro que se crie uma lei protegendo esses clubes tradicionais.

O América nasceu no dia 18 de outubro de 1904, fruto de uma cisão no Clube Atlético da Tijuca. O nome foi sugerido por um dos fundadores, Alfredo Koehler, em homenagem ao continente como um todo. No primeiro jogo oficial, a primeira derrota, 6 X 1 frente o Bangu Athletic Club, no dia 6 de agosto de 1905. O jogador Amilcar Teixeira Pinto, estudante de Medicina marcou o primeiro gol da história do clube.

O primeiro uniforme americano tinha camisas e meias pretas, calções e gravatas brancos. A camisa apresentava sete botões: dois no colarinho e cinco na camisa, que simbolizavam os sete fundadores do clube. Em 1908 foi adotada a camisa vermelha e calção branco, uma homenagem à Associação Athletica Mackenzie Colege, de São Paulo, a quem o América havia enfrentado em jogo amistoso interestadual.

O primeiro jogo internacional disputado pelo América foi em 18 de setembro de 1912, perdendo para a Seleção Chilena por 3 X 2. Em 1913 começou a se firmar como clube grande, com a conquista pela primeira vez do título carioca. Foram 12 vitórias e apenas 3 derrotas. No último jogo uma vitória suada de 1 X 0, frente o São Cristóvão (que era time grande) em 30 de novembro, gol de Gabriel de Carvalho.

Foi nesse campeonato que o jogador americano Belfort Duarte tocou a bola com a mão dentro da área, e como o árbitro não viu, ele próprio se acusou e o pênalti foi marcado. Belfort Duarte, que nunca foi expulso em sua carreira, virou nome de prêmio oferecido aos jogadores que não fossem expulsos durante 10 anos de carreira. Oportunamente escreverei sobre isso.

O América sempre foi um time de raça, honrando o vermelho cor de sangue de sua camisa. Em 18 de dezembro de 1938, foi escrita uma das mais emocionantes páginas da história do clube. Em jogo contra o Vasco, válido pelo campeonato carioca, na rua Campos Sales, o América conseguiu virar um resultado de 4 a 0, para um espetacular 6 a 4.

Em 1954 o Jornal dos Sports divulgou uma pesquisa do Ibope que media o tamanho das torcidas dos clubes cariocas. A maior é claro foi a do Flamengo com 29%. Depois, na ordem Fluminense 19%, Vasco 18%, América 6%, Botafogo 5%, Bangu 2% e São Cristóvão 1%. Só a partir da década de 1960, quando o Botafogo teve grandes momentos, é que sua torcida superou a do América.

Até 1986 o América disputou todas as edições do Campeonato Brasileiro na Série A. A partir dai começou a decadência. Até 1999 foram decepções que não paravam mais. A recuperação do clube começou em 2000 com a inauguração do estádio Giulite Coutinho, seguindo-se com as classificações para as Copas do Brasil de 2004 e 2005.

Em 2006 voltou a viver bons momentos, sendo a sensação do Campeonato Carioca, chegando as finais das Taças Guanabara e Rio. Em 2007 foi semifinalista da Taça Guanabara. E veio o trágico 2008. Nomes como Jorge Vieira, o técnico campeão de 1960 e Amarildo, ex-jogador da Seleção Brasileira, chamado de "O Possesso" não foram suficientes para salvar o América. Agora, está tudo nas mãos de Deus.

Alguns fatos marcantes na vida do clube. Em 12 de outubro de 1914, o América participou da segunda partida noturna no Brasil ao derrotar o Vila Isabel por 6 a 1. Em 30 de julho de 1939, em jogo contra o Vasco, o centroavante americano, Plácido de Assis Monsores fraturou o antebraço e continuou no jogo apenas com uma tipóia e ajudando o time a ganhar o clássico por 3 a 1. No dia 3 de novembro de 1929 o América aplicou uma das maiores goleadas do Campeonato Carioca, em todos os tempos: 11 X 2, em cima do Botafogo.

Em 1951 Arsenal e Portsmouth da Inglaterra excursionaram pelo Brasil, e ambos enfrentaram o América no Maracanã. Em 27 de maio o América bateu o Arsenal por 2 X 1 e em 8 de junho ao Portsmouth por 3 a 2. Em 18 de julho de 1951, data nacional uruguaia, o América conseguiu uma vitória que entrou para a história: diante de 65 mil torcedores, derrotou em plena Montevidéu ao Peñarol, base da “Celeste”, por 3 a 1. Em 1955, o América excursionou pela Europa, realizando 18 partidas, ganhando 13, empatando uma e perdendo duas.

Entre os anos de 1933 e 1937 o futebol carioca viveu séria crise, com duas ligas paralelas. América e Vasco da Gama fizeram um jogo para selar a paz. Daí o nome de “Clássico da Paz”. A firma “O Camiseiro”, ofereceu um troféu. Em 25 de agosto de 1938 o América venceu o jogo por 2 x0. Dias depois emprestou o Troféu ao Vasco da Gama para uma exposição. Até hoje não foi devolvido. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Times do América e Bangu, no primeiro jogo oficial do clube americano (Foto histórica: Acervo do América F.C.)

domingo, 6 de abril de 2008

As maiores goleadas da história do futebol

Alguém já imaginou um time levar 36 X 0, e ainda mais num jogo de campeonato? Eu nunca vi, nem nas tradicionais e saudosas “peladas” jogadas em qualquer campinho, com montes de roupas improvisando as goleiras e surradas bolas quase furando. Lembro que se combinava o jogo em até 10, com mudança de lado aos cinco gols. E muitos jogos ficavam com o escore pelo caminho, pois chegava a noite e não se via mais nada. Não era fácil levar muitos gols.

Palmas ao Bon Accord FC, de Aberdeen, que conseguiu a façanha de levar 36 gols num único jogo. Foi no distante dia 12 de setembro de 1885, pela primeira rodada da Copa da Escócia daquele ano. O jogo foi disputado na cidade de Arbroath e o time local do Arbroath F.C. (hoje na 3ª Divisão) foi o terrível carrasco. Só o atacante John Petrie, fez 13 gols e detém até hoje o recorde mundial de gols em um só jogo.

E bem que o escore poderia ter sido de 43 X 0, pois sete gols foram anulados pelo árbitro Dave Stormont. Naquela época não havia o travessão e nem redes, e algumas vezes não ficava claro se a bola passara dentro ou fora da meta. O goleiro do Arbroath, James Milne, também conhecido como "auld Milne", ou o homem de "olhos de águia" foi um privilegiado expectador. Não tocou na bola uma única vez. Ele passou a maior parte do jogo abrigado da chuva debaixo de uma sombrinha, emprestada por um torcedor.

Na temporada, os "Lichties" , como era chamado pelos torcedores, jogaram 42 vezes, ganharam 26 e perderam 11 partidas, marcando incríveis 178 gols e sofrendo 81. Em setembro de 1887, o Arbroath aplicou outra goleada fantástica: 20 X 0, sobre o Orion.

Parece mentira, mas é verdade. No mesmo dia aconteceu a segunda maior goleada da historia do futebol. O Dundee Harp aplicou 35 X 0 no Aberdee Rovers, também pela Copa da Escócia. Foi tanto gol que até o juiz ficou confuso, pois a chuva forte molhou o papel e apagou as anotações com os números do jogo. Ao final, os jogadores é que confirmaram o resultado. O árbitro pensou que tinha sido 37 X 0. A
dúvida ficou, e o resultado verdadeiro pode ter sido maior.

Teve um outro jogo com uma estratosférica goleada de 149 X 0, mas não foi levada a sério. Os jogadores do SOE, de Madagascar, fizeram um protesto e seus jogadores marcaram contra a própria meta por 149 vezes, no jogo com a Association Sportive Adema Analamanga, na segunda partida de um play-off entre as duas equipes, pelo campeonato local. Não existem outras informações desse jogo (?), nem mesmo a data.

Apenas a título de curiosidade algumas outras grandes goleadas: segundo o “Jornal de Pouso Alegre (MG)”, de 21 de setembro de 1968, o recorde mundial aconteceu lá. Foi no dia 15 de setembro de 1968, quando o Pouso Alegre Futebol Clube, em jogo amistoso aplicou 38 X 0 no Grêmio Recreativo Beta, equipe amadora da cidade de São Paulo.

Nos campeonatos regionais, Pernambuco é campeão de goleadas. Apenas algumas, pois a lista é enorme: 1 de janeiro de 1945, Náutico 21 X 3 Flamengo; 19 de junho de 1938, Sport 16 X 0 Flamengo; 26 de maio de 1935, Náutico 15 X 0 Encruzilhada; 21 de dezembro de 1944, América 15 x 2 Flamengo e 9 de março de 1969, Santa Cruz 15 X 2 Santo Amaro.

No campeonato paulista a maior goleada aconteceu no dia 16 de maio de 1920, quando o Paulistano fez 12 X 0 na Associação Atlética das Palmeiras. Depois, 28 de agosto de 1921, Paulistano 12 X 1 Ypiranga; 3 de maio de 1927, Santos 12 X 1 Ypiranga; 8 de julho de 1945, São Paulo 12 X 1 Jabaquara, a maior goleada da história do Pacembu; 27 de agosto de 1923, São Paulo da Floresta 12 x 1 Sírio e em 19 de novembro de 1959, Santos 12 x 1 Portuguesa Santista.

As maiores goleadas no estadual maranhense: em 2 de setembro de 1954, Sampaio Corrêa 20 x 0 Santos Dumont; 15 de outubro de 1933, Sampaio Corrêa 15 x 0 União e em 24 de abril de 1988, Imperatriz 14 x 2 Tocantins. A maior goleada já registrada, em campeonatos paraenses, foi aplicada pelo Paysandu Sport Clube sobre a equipe do Brasil Sport, em 16 de maio de 1915, 17 x 1.

No campeonato Mineiro as duas maiores goleadas pertencem aos times do Cruzeiro e América. Em 1928 o estrelado fez 14 X 0 no Alves Nogueira, de Sabará. No mesmo ano o América também aplicou 14 X 0 no Palmeiras, de Belo Horizonte.

Os maiores escores do clássico Gre-Nal: Grêmio 10 x 0 Internacional, em 18 de julho de 1909; Grêmio 10 x 1 Internacional, em 18 de junho de 1911; Internacional 7 x 0 Grêmio, em 17 de setembro de 1948 e Internacional 7 x 3 Grêmio, em 28 de maio de 1944. No Clássico-Rei, entre Fortaleza e Ceará, a maior goleada foi no Campeonato Cearense de 1927, Fortaleza 8 X 0 Ceará. No Ba-Vi, o Bahia aplicou a maior goleada, 10 x 1, em 8 de dezembro de 1937, no campo da Graça.

Nos clássicos do Rio de Janeiro a maior goleada foi registrada no campeonato estadual de 1927, quando o Botafogo fez 9 x 2 no Flamengo. No camepeonato estadual o maior escore foi Botafogo 24 X 0 Mangueira, que é recorde sulamericano. A maior goleada ocorrida no Maracanã foi no jogo Flamengo 12 x 0 São Cristóvão, pelo Campeonato Carioca, no dia 28 de outubro de 1956.

A maior goleada que a Seleção Brasileira já aplicou foi 14 x 0 em cima da Nicarágua pelos Jogos Pan-Americanos de 1977. Contra os argentinos, o maior placar a nosso favor aconteceu em 20 de dezembro de 1945, pela Copa Rocca, 6 X 2.

Em Copas do Mundo a Hungria fez a maior goleada: 10 X 1 em cima de El Salvador, no dia 15 de junho de 1982. Em eliminatórias para a Copa do Mundo o recorde pertence à seleção da Austrália, que em 11 de abril de 2001 massacrou a seleção da Samoa Americana por inacreditáveis 31 x 0. Dois dias antes, a Austrália já havia vencido Tonga por 22 x 0, na segunda maior goleada em jogos classificatórios para o Mundial.

Na Copa Libertadores da América a maior goleada aconteceu em 1970, quando o Peñarol de Montevidéu bateu o Valencia, da Venezuela, por 11 a 2. A maior goleada de um clube brasileiro foi de 9 a 1, do Santos sobre o Cerro Porteño, em 1962. Na Copa América os maiores escores da história foram: Argentina 12 x 0 Equador (Uruguai, 1942) e Argentina 11 x 0 Venezuela (Argentina, 1975).

A maior goleada de um time brasileiro contra estrangeiros, foi obra do América mineiro que aplicou 20 X 2 no Kaindorf, da Áustria, em partida amistosa realizada em julho de 1920.

Na extinta Taça Brasil as maiores goleadas foram: 31 de agosto de 1960, Fluminense 8 X 0 Fonseca (RJ) e Grêmio 8 X 0 Perdigão (SC), em 19 de novembro de 1967. No Campeonato Brasileiro, a maior goleada foi aplicada pelo Corinthians em cima da Sociedade Esportiva Tiradentes (PI), em 9 de fevereiro de 1983: 10 X 1. Já na Copa do Brasil, o Caiçara Esporte Clube (SC) apanhou de 11 X 0 do Atlético Mineiro, em 1991.

As maiores goleadas da Copa São Paulo de Juniores: Juventus (SP) 12 X 0 São Raimundo (AM), em 2000; Comerciário (MA) 0 X 12 Internacional (RS), em 10 de janeiro de 2007 e Grêmio 12 X 1 Ypiranga (PE), este ano.

No Futsal a Seleção Brasileira tem o recorde mundial, 76 X 0 no Timor Leste, nos Jogos da Lusofonia de 2006, disputados em Macau na China. O pivô Valdin, com 20 gols quebrou o recorde mundial num só jogo. O Brasil ainda aplicou 27 X 0 em Macau, que também foi goleado pela Seleção de Portugal, por 22 X 0. Antes desse torneio a maior goleada da história da seleção era um 38 X 3 sobre o Uruguai, em 1991. E no futebol feminino um escore lunar: o time inglês do Burton Brewers, disputando o campeonato da 5ª divisão feminina, temporada 2000/2001, levou a maior goleada que se tem notícia, 57 X 0 para o Willenhall Town, em 4 de março de 2001. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O Arbroath foi impiedoso ao protagonizar a maior goleada da história do futebol mundial (Foto: Acervo Arbroath F.C.)

Nilo,
Li uma matéria sua do dia 29/04 sobre torcedores fanáticos. Vc cita uma pessoa de nome Carlinhos, do Atlético Paranaense. Ele ainda é vivo? Você tem o nome completo dele e o contato? Estou fazendo uma pesquisa, preciso desse material.
Abraços. Adriana
adriana.lemos@rai.com.br

sábado, 5 de abril de 2008

Um verdadeiro saco de pancadas

A maior goleada já registrada em gramados brasileiros e sul-americanos aconteceu em 30 de maio de 1909, no antigo campo da rua Voluntários da Pátria, no Rio de Janeiro. Em jogo válido pelo Campeonato Carioca o Botafogo não teve pena dos jogadores-operários do Sport Club Mangueira e aplicou 24 X 0, escore que até hoje, passados 99 anos, não foi nem mesmo igualado. O jogador alvinegro Gilbert Himes cansou de fazer gols: foram nove.

No dia seguinte o jornal carioca “Gazeta de Notícias”, descreveu o jogo em apenas duas linhas: "O Botafogo dominou completamente o adversário, que deveria ter entregado antecipadamente os pontos, para evitar uma tão estrondosa derrota".

Azar do time do Mangueira, que além de muito ruim teve de enfrentar o Botafogo com apenas 10 jogadores em campo, pois um atacante se machucou logo ao inicio do jogo e naquela época não eram permitidas substituições. O “saco de pancadas” do futebol carioca, ainda naquele ano apanhou de 8 X 0 para o Fluminense e de 6 X O para o América, que por incrível que pareça, era time grande. A campanha mangueirense fala sozinha e diz tudo: 45 gols contra e três a favor. E é claro, a “lanterna” como troféu. E por certo provoca ciúmes históricos ao Íbis pernambucano.

O time nada teve a ver com a popular Escola de Samba da Mangueira. “Graças a Deus”, devem exclamar os sambistas da verde e rosa. O Sport Club Mangueira, fundado em 1906 reunia operários da extinta Fábrica de Chapéus Mangueira, demolida no final dos anos 60 para a construção do metrô Maracanã. A história do clube não poderia ser diferente: em 21 anos de existência, ganhou apenas um título, o de “campeão de derrotas”.

No dia 3 de maio de 1912, no antigo campo do América, na rua Campos Salles, o Mangueira escreveu seu nome na história do Flamengo, ao ser seu primeiro adversário em competições oficiais. O Flamengo recém fundara um departamento de futebol e seu time contava com nove ex-jogadores do Fluminense, entre esses o atacante Borgeth, um dos grandes craques da época. O Flamengo não tomou conhecimento do seu opositor e aplicou impiedosos 16 X 2.

Depois de sofrer goleadas do Botafogo, Flamengo, Fluminense e América só faltava o Vasco da Gama. Em 1922, o Sport Club Mangueira estava na segunda divisão e foi o último adversário vascaíno, que se sagrou campeão e ganhou o direito de disputar o principal campeonato do Rio de Janeiro. As referências sobre o jogo não existem. Nem mesmo o resultado. Os jornais da época divulgavam mais o turfe e esqueciam do futebol. E no caso do Vasco era bem pior, pois seu time era formado na maioria por negros, que eram mal vistos pela imprensa racista da época.

O Mangueira também teve seus 90 minutos de glória. Foi em 1917, na primeira fase do campeonato carioca. Em pleno Estádio das Laranjeiras conseguiu um empate de 0 X 0 com o Fluminense, que era considerado uma verdadeira máquina de jogar futebol, tendo em seu elenco craques da envergadura de Chico Neto, Welfare e do goleiro Marcos Mendonça, o 'fita roxa', que anos depois seria presidente do clube. Demorou dois anos para o Fluminense se vingar e enfiar 8 X 0 no Mangueira.

A despedida do Sport Club Mangueira aconteceu em 1924, quando disputou seu último campeonato. As camisas com listras verticais em vermelho e preto foram recolhidas e guardadas para sempre. Nos anos 40 alguém do Morro da Mangueira tentou trazer o time de volta, embora não fosse cria de lá, mas era tarde demais. A Escola de Samba já dominava as atenções dos moradores do morro.

No próximo artigo escreverei sobre outras goleadas registradas no futebol brasileiro e mundial. Que time nenhum entre em desespero, pois sempre vai existir um outro pior. Consolo para os “Mangueiras” e “Íbis” da vida: um time chamado “Bon Accord”, levou 36 X 0 do “Arbroath”, num jogo pela Copa da Escócia. Essa é até hoje a maior goleada do futebol mundial. Reconhecida, mas já houve maior. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
O Mangueira levou a maior goleada do futebol brasileiro em todos os tempos (Foto: Museu dos Esportes)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Por que são 11 jogadores nos times e outras coisas

Porque os times de futebol formam com 11 jogadores e não 10, 12, 13 ou mais, ou menos? Existe alguma razão especial para isso? Encontrei em minhas pesquisas duas explicações. Fica ao gosto do freguês, qualquer delas é digna de ser verdadeira. O número seria uma homenagem aos 11 colégios que participaram da reunião que determinou as regras do esporte em 1863, na Inglaterra. Ou, então, porque 11 era a quantidade de atletas nos times da Universidade de Cambridge, também na Inglaterra, primeira a publicar as definições básicas do jogo.

Essa segunda hipótese é um tanto curiosa. Cada classe, na época, tinha apenas dez estudantes, e para completar os times eram chamados os bedéis (inspetores de aulas), que jogavam sempre como goleiros. A FIFA aceita essa versão como a que mais se aproxima da lógica. O que se sabe de verdadeiro é que antes da fixação das regras não existia nenhuma padronização, jogava-se às vezes até com até 17 jogadores. E que o número de 11 jogadores foi adotado no século 19 e permanece até hoje entre as 17 leis do futebol.

Definido que cada equipe teria de ter 11 jogadores, a formação seria um goleiro, dois beques, um médio e sete atacantes. Em 1870 surgiu a clássica formação que mais tempo durou no futebol: um goleiro, dois beques, três médios e cinco atacantes. Desde 1877 os jogos de futebol são disputados em dois tempos de 45 minutos. No Brasil, até 1930, jogava-se em dois tempos de 40 minutos.

Nos primórdios do futebol o campo tinha 184 metros de comprimento e 90 metros de largura. Não existiam linhas demarcatórias, apenas quatro bandeirinhas. Todos os jogadores podiam usar as mãos para aparar a bola no ar e colocá-la no chão. Se o jogador recebesse um lançamento sem que existisse nenhum adversário entre a bola e a linha de fundo estava impedido.

O único jogador com posição fixa era o goleiro que podia pegar a bola com a mão em qualquer parte do campo, mas era proibido de conduzi-la com as mãos. Isso mudou desde 1912 que ele só pode pegar a bola dentro da sua área. A cada gol marcado os times trocavam de lado. A obstrução passou a ser cobrada em dois lances, mesmo quando dentro da área, a partir de 1951.

Nem todas as regras continuam até agora, como eram antes. Algumas tiveram sensíveis mudanças de lá para cá. Já escrevi um artigo enfocando a inexistência da figura do juiz, nos primeiros tempos do futebol. As faltas eram apontadas pelos jogadores em um acordo de cavalheiros. O árbitro surgiu somente em 1868 e, mesmo assim, apitava pouco: ficava de fora do campo e não tinha autonomia para marcar as faltas. Precisava decidir de comum acordo com os capitães. Bastava um não aceitar, que nada seria marcado. O árbitro passou a apitar para valer só a partir de 1894.

Quando o futebol começou não havia travessão e nem traves. Os próprios jogadores é que decidiam se a bola tinha passado abaixo ou acima dos dois postes laterais de 28 cms de altura e 7 metros de comprimento. Em 1865 foi colocada uma fita de tecido ligando os dois pontos. A barra da baliza, feita de madeira foi introduzida em 1875 e incorporada às regras em 1878. As redes apareceram em 1890, para identificar melhor a marcação dos gols.

O escanteio deu as caras somente em 1872. Uma curiosidade que muitos adeptos do futebol talvez não saibam: se na cobrança do escanteio a bola bater na trave e voltar, o mesmo jogador não poderá tocá-la pela segunda vez. A regra determina que o escanteio é uma forma de reiniciar o jogo, por isso não era prevista a marcação de um gol direto do tiro de canto. Isso só veio a acontecer a partir de 1924.

Num jogo entre Argentina X Uruguai, em Buenos Aires, em outubro daquele ano, vencido pelos argentinos por 2 X 1, o jogador Onzari tornou-se o primeiro jogador no mundo a marcar um gol de escanteio. Como o Uruguai era o campeão olímpico de futebol, a jogada foi batizada pelos “porteños” de Gol Olímpico.

Tem a Regra 3, que virou sinônimo de jogadores reservas, e saiu dos campos de futebol para ser usado para qualquer substituição, seja para pessoas, animais ou coisas. Ela é uma das 17 regras que, oficialmente, regulamentam o jogo de futebol, estabelecidas pela International Board, criada em 1886 pela FIFA. E a Regra 3 determina o número de jogadores.

E o pênalti? Surgiu em 1890, inventado pelo goleiro irlandês William McCrum, num match do campeonato do condado de Armagh, Irlanda do Norte. McGrum era dono de uma fábrica de tecidos e gostava de defender o gol de seu time. Um dia, para resolver o problema das faltas próxima ao gol, que geravam discussões e brigas, ele pegou a bola, “contou 12 jardas (cerca de 11 metros), marcou com tinta branca um lugar na grama e disse para colocarem a bola no local e sugeriu que um adversário e ele, debaixo do travessão resolvessem a questão “com um direct free kick sempre que houvesse um foul ou hands na grande área ou the Box (a caixa)”.

O pênalti só foi oficializado nas regras do futebol no dia 2 de junho de 1891, em uma reunião da International Board em Glasgow (Escócia). O cobrador podia bater de qualquer ponto distante 11 metros da meta. Não havia a chamada “marca fatal”, como existe hoje. Mas nem todos concordavam com a sua execução. Para alguns clubes, o pênalti era considerado uma punição deselegante. O Corinthia Tean, que inspirou a fundação do Corinthians Paulista, mandava seu goleiro afastar-se da meta, deixando o gol livre.

A última alteração ocorrida na regra das penalidades máximas obriga os goleiros, que antes podiam se adiantar até seis jardas, a permanecer sobre a linha até o momento da cobrança. O pênalti é a única infração no futebol que deve ser cobrada mesmo depois de encerrado o tempo de uma partida.

E o que dizer de situações comuns nos jogos que não estão previstas nas regras oficiais? Por exemplo: não tem nada escrito dizendo que pode ou não ser feita a chamada barreira. A FIFA apenas recomenda que nenhum jogador pode ficar a menos de 9m14cm de distância da bola, quando da cobrança de falta. A barreira foi invenção dos próprios jogadores para melhor proteger a meta.

Antes de 1970 os jogadores eram advertidos de forma verbal. Em jogos internacionais, quando o juiz falava um idioma e os jogadores outros, ninguém se entendia. Para solucionar isso a FIFA criou a partir da Copa do Mundo de 1970 os cartões vermelhos e amarelos.

Para conhecimento geral, eis as 17 regras do futebol: Regra 1 - O Campo de Jogo; Regra 2 - A Bola; Regra 3 - O Número de Jogadores; Regra 4 - O Equipamento dos Jogadores; Regra 5 - O Árbitro; Regra 6 - Os Árbitros Assistentes (Banderinhas); Regra 7 - A Duração da Partida; Regra 8 - O Início e o Reinício do Jogo; Regra 9 - A Bola em Jogo ou Fora do Jogo; Regra 10 - O Gol Marcado; Regra 11 - O Impedimento; Regra 12 - Faltas e Conduta Antiesportiva; Regra 13 - Os Tiros Livres; Regra 14 - O Pênalti; Regra 15 - O Arremesso Lateral; Regra 16 - O Tiro de Meta e Regra 17 - O Tiro de Canto (Escanteio).

Essas regras estão descritas em um livro publicado em 1862, escrito por J.C. Thring e intitulado ‘‘O Jogo de Inverno: Regras do Futebol’’. Até 1863 foi difícil unificar as regras do futebol. O esporte era praticado em várias escolas inglesas. E cada uma delas tinha as suas regras. Em 1848, uma reunião de quase oito horas resultou em um primeiro esboço das regras de Cambridge. Nos anos seguintes, regras foram testadas e reescritas. Até que, em 1856, Cambridge divulgou uma revisão das regras (cópia do documento pode ser vista hoje em uma biblioteca em Shrewsbury, Inglaterra). (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
Um elegante juíz, nos primórdios do futebol (Foto:Metrolink )

Suélem Jobim disse...
Bem, eu não sei nada de futebol e nem gosto muito (apesar de não abrir mão de ser Gremista eheh), mas quero lhe parabenizar pelo blog.
Abraços!!!
4 de abril de 2008 15:15

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Três goleiros da pesada

Será que todos os jogadores de futebol cumprem a risca regras rígidas para controle de peso? A idéia que se criou é de que um atleta deve ter uma dieta controlada, não pode abusar de certas tentações gastronômicas, não pode ter barriga saliente. Enfim, para ter um rendimento satisfatório em campo e não ouvir críticas de torcedores é preciso muito cuidado. Quem não lembra do Ronaldo “Fenômeno”, na última Copa do Mundo? Você, leitor desta coluna com certeza o chamou de “gordo”. Ou pensou.

Pasmem, o futebol com todas suas vicissitudes tem sido pródigo em mostrar que nem sempre as coisas seguem esses preceitos ao pé da letra. O “Livro Guinnes”, bem que poderia estar presente nas estantes dos incautos. Nele, encontramos coisas que até Deus duvida. Já imaginaram um cara com 165 quilos como goleiro de um time de futebol? O gol é uma posição que exige reflexo, elasticidade e impulsão.

O inglês Willie Henry Foulke, em parte desmentiu isso. Com 1m90cm de altura e 141 quilos ele foi por muitos anos o goleiro do Bradford City Athletic Football Club, entre o final do século XIX e o início do século XX. No final da carreira chegou a jogar com 165 quilos. Não foi por acaso que os torcedores o chamavam de “Fatty” (gordão).

No Brasil tivemos alguns goleiros com peso descomunal. “Juca Baleia”, que jogou no Sampaio Corrêa do Maranhão, na década de 1990 ficou famoso por nunca ter atuado abaixo de 100 quilos. Em algumas vezes chegou a pesar até 150 quilos. O que não o impediu de se tornar um dos maiores ídolos da história do clube. Quem o viu jogar garante que era um arqueiro imponente, de milagrosa agilidade, também chamado pelos torcedores de “Moby Dick“ e de "baleia voadora".

Mesmo sem nunca ter defendido clubes do Sul e Sudeste, Juca ganhou projeção nacional atuando pelo Sampaio Corrêa nos jogos contra o Palmeiras, pela Copa do Brasil de 1992. Seu time perdeu as duas partidas, 1 X 0 no Maranhão, e 4 X 0 em São Paulo, mas ele foi o melhor em campo nos dois confrontos e ganhou de presente a camisa do goleiro Carlos.

Juvenal Marinho dos Passos, o “Juca Baleia”, nasceu em São Luis, no dia 3 de Maio de 1959. Jogou pelo Moto Clube (1979), Expressinho (de 1979 a 1982), Maranhão Atlético Clube (1983) e Sampaio Corrêa (de 1990 a 1993). Foi tri-campeão maranhense em 1990, 1991 e 1992.

“Juca Baleia” deixou de jogar em 1993. Hoje, é gerente de uma empresa de construção civil, auxiliar em uma escolinha de futebol, comentarista esportivo de uma emissora de rádio de São Luis e goleiro do time de veteranos do Sampaio Corrêa. Já recebeu vários convites para ingressar na vida política, mas descartou todos. Por enquanto. Também foi sondado para ser treinador.

No Rio Grande do Sul o destaque peso-pesado foi o goleiro Orlando, que entrou para a história por ser recordista em levar gols num jogo só e por ter sido considerado o goleiro mais gordo do futebol brasileiro, na época. Orlando Moreira Alves, o “Orlando Pataca”, nasceu em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, em 14 de junho de 1949. Garante ser descendente de índios e bugres. Conta que tinha seis dedos em cada mão, que foram retirados quando ainda era criança.

Em 1972 Orlando ganhou projeção nacional. Foi capa da revista “Veja”, por dois motivos: ser o goleiro mais gordo do futebol brasileiro, com 106 quilos e 1m79cm. E por ter levado 14 gols num jogo de seu time, o Ferro Carril, de Uruguaiana contra o Internacional em 23 de maio de 1976, a melhor equipe do futebol brasileiro. O seu recorde se mantém ate hoje, nenhum outro goleiro no futebol brasileiro foi buscar a bola tantas vezes no fundo da rede como ele.

Orlando levou os 14 gols, cinco no primeiro tempo, nove no segundo, mas foi eleito pela crônica o melhor jogador de seu time. Foram 47 chutes com direção certeira na meta e outros tantos que saíram pela linha de fundo. O goleiro operou verdadeiros milagres naquele dia, evitando que a goleada fosse maior. Eu me lembro de tê-lo visto jogar. Apesar do grande peso, era mesmo um bom goleiro, por incrível que pareça;

“Pataca” jogou pelo E.C. 14 de Julho, de Santana do Livramento (1969), Fluminense F.C., de Santana do Livramento (de 1970 a 1974), Grêmio F.B. Santanense, de Santana do Livramento (1974), Guarany F.C., de Bagé (1975), Riograndense F.C., de Santa Maria (1975 e 1976) e E.C. Ferro Carril (Uruguaiana) (1976). Sua galeria de troféus está vazia, não ganhou nenhum título como jogador profissional de futebol.

Orlando Pataca, goleiro aposentado pesa hoje 120 quilos, 14 a mais do que quando jogava. Depois que parou com o futebol trabalhou como funcionário da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) e foi segurança em bares noturnos, e proprietário de uma boate chamada "Consulado da Cerveja". Hoje, mora na praia de Cidreira, no litoral gaúcho com a terceira esposa, Dione. Para matar o tempo, treina goleiros na Escola Profissionalizante de Futebol (Esprof) e conta histórias de seus tempos de jogador, como esta:

“Em 1972 o Ferro Carril recebeu o E.C. Pelotas num jogo de campeonato. No time deles tinha um atacante muito bom, o Ademar, um artilheiro que fazia muitos gols. Eu lembro bem, a bola vinha alta e ele pulou para cabecear. Eu pulei também e dei um soco na nuca dele. O cara caiu e ficou desacordado por uns 10 minutos. Cheguei a pensar que ele tinha morrido”. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)
(Juca Baleia ao lado do técnico do Sampaio Correia (Foto: Acervo pessoal de Juca baleia)

Anônimo disse...
O Orlando Pataca, no ano de 2008 continua treinando goleiros para a ESPROF em Barra Bonita - SP.
Fez parte de matéria jornalística (rádio, tv regional e jornais) de toda região Centro Oeste Paulista após eu encontrar matéria sobre ele no site do Pelé.net, o site do rei do futebol.
Autor do Texto: Orlando Mazetti Filho da Comunica Studio (www.comunicastudio.com)
16 de julho de 2008 10:50

terça-feira, 1 de abril de 2008

Hepatite A joga contra o Internacional

A Secretaria de Vigilância Sanitária do Rio Grande do Sul foi acionada pela direção do S.C. Internacional, de Porto Alegre para verificar a existência de um surto de Hepatite A, no Estádio Beira-Rio, na capital gaúcha. As suspeitas de que algo estranho estava ocorrendo começaram quinta-feira da semana passada, quando o jogador Maycon queixou-se de dores abdominais, febre, náuseas e falta de apetite, sintomas da Hepatite A. O clube mantinha as investigações sob sigilo, até que se confirmassem ou não as suspeitas. No entanto, a informação vazou através da Secretaria da Saúde na manhã de ontem segunda-feira.

Todos os jogadores do grupo fizeram exames de sangue, o que confirmou a presença do vírus no volante Maycon, que está internado no Hospital Mãe de Deus, e no fotógrafo do clube, Alexandre Lopes, que já recebeu alta. O goleiro titular Renan, é outro que deve ter confirmado o diagnóstico inicial de Hepatite A e está fora do jogo de sábado contra a Ulbra, pelo Campeonato Gaúcho. O jogador também corre o risco de não ser convocado para a Seleção Olímpica do Brasil, que vai a Pequim.

Já o terceiro goleiro, Muriel, o volante Edinho e o lateral-esquerdo Ramon estão sob suspeita e serão submetidos a exames de sangue a cada 48 horas nas próximas duas semanas para verificação do quadro. Se confirmada contaminação, esses jogadores não devem fazer nenhum esforço físico durante três semanas, o que deve deixá-los fora dos jogos restantes do “Gauchão”. Não está descartada a hipótese de que eles tenham de fazer uma nova pré-temporada com vistas ao campeonato Brasileiro.

Como a transmissão ocorre pela ingestão de água ou comida contaminadas por resíduos fecais, a Vigilância Sanitária e o Internacional começaram a revisar todo o sistema de abastecimento de água e de fornecimento de refeições do Beira-Rio. Mas o surto pode não ter origem no estádio. É possível que um ou mais jogadores ou funcionários tenham contraído o vírus em viagens ou em suas casas.

Além de investigar as origens da hepatite, o Internacional começou a vacinar os atletas que não foram infectados e nem possuem os anticorpos de defesa. Jonas, Gil, Adriano e familiares de Maycon e Renan foram ontem ao estádio receber a imunização. O médico Paulo Rabello disse que os jogadores que não estão em observação já se submeteram a exames e não correm perigo de contrair a doença. Também reiterou que o afastamento de Magrão e Iarley do jogo contra a Chapecoense, dia 19 de março, foi conseqüência de uma virose e não de hepatite.

A hepatite é uma inflamação do fígado. As dos tipos A, B, C, D e E são virais. A hepatite A é uma doença infecciosa aguda, transmitida por infecção oral ou fecal, e tem como sintomas febre, fadiga, mal-estar, perda do apetite, náuseas e vômitos. Pode ocorrer diarréia. É considerada uma hepatite branda, com baixa mortalidade.

As manifestações podem ocorrer cerca de 30 dias depois do contato com o vírus. É conhecida como a hepatite do viajante. Não existe tratamento específico, são usados apenas medicamentos para combater os sintomas. A recuperação leva no máximo dois meses e o vírus é eliminado do organismo.

Existem duas vacinas contra a hepatite A. Uma deve ser aplicada em duas doses com intervalo de seis meses e a outra, em três doses administradas nesses seis meses. A vacina contra a hepatite A não faz parte do programa oficial de vacinação oferecido pelo Ministério da Saúde, mas deve ser administrada a partir do primeiro ano de vida, porque sua eficácia é menor abaixo dessa faixa etária. Pessoas que pertençam ao grupo de risco ou que residam na mesma casa que o paciente infectado também devem ser vacinadas.

Muitos casos de viroses, algumas de causa conhecida, outras não, já foram registradas em equipes de futebol. Em fevereiro do ano passado sete jogadores do Nacional de Rolândia (PR), e integrantes da comissão técnica foram internados em hospitais devido a uma intoxicação alimentar. Em conseqüência não compareceram para um jogo com o Iguaçu, em União da Vitória pelo campeonato estadual.

Em maio do ano passado o Paulista de Jundiaí enfrentou um surto de gripe que atingiu o elenco, deixando sete jogadores doentes. O caso mais grave foi do volante Jairo, que nem viajou com a delegação. Os jogadores Rodrigo Fabri, Gilsinho, Dema, Tiago Vieira e Pedro Henrique também sofreram com tosses e espirros durante a semana.

Nos dias que antecederam a Copa do Mundo de 2006 a Seleção da Croácia, primeira adversária do Brasil na Copa do Mundo, passou por um sério problema que ninguém soube explicar. Um vírus desconhecido deixou diversos jogadores doentes. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)

OBSERVAÇÃO -Após a publicação deste artigo novas informações divulgadas nesta terça-feira (01/04) dão conta de que mais quatro jogadores tiveram confirmados sinais da doença. Afastados preventivamente das atividades físicas desde o início da semana pelo departamento médico do Colorado, Renan, Muriel, Edinho e Ramon não poderão mais defender o Internacional no Campeonato Gaúcho de 2008.

O resultado dos exames médicos realizados no quarteto deu positivo para hepatite A e os atletas se juntarão ao volante Maycon, primeiro a apresentar sinais da doença, e ao fotógrafo do clube, Alexandre Lopes. Os cinco jogadores ficarão afastados de qualquer atividade física por um período mínimo de três semanas.

Detectado o problema, o técnico Abel Braga terá de se virar para dar prosseguimento ao trabalho, principalmente em relação à posição de goleiro. Sem Renan e Muriel, o treinador conta apenas com o experiente Clemer e com o júnior Agenor para a função, já que Alison (irmão de Muriel) tem apenas 16 anos e não possui contrato assinado com o clube gaúcho.

Segundo o médico Luciano Ramirez, o Internacional seguirá realizando exames médicos nos demais atletas do elenco para ter a certeza de que o surto de hepatite A não fará novos pacientes para o departamento médico.

Dos atletas contaminados, apenas o volante Edinho e o goleiro Renan eram titulares do time de Abel Braga. Renan, inclusive, também é o dono da posição na seleção brasileira sub-23, que disputará os Jogos Olímpicos de Pequim em agosto (Zero Hora-RS).
Vigilância Sanitária procura cusas da Hepatite A, no Beira-Rio (Foto: Secretaria da Vigilância Sanitária do RS)

segunda-feira, 31 de março de 2008

O Pelé da crônica esportiva brasileira

A imprensa esportiva brasileira viveu ontem (30-03), uma tarde inesquecível para a história do futebol de nosso país. Antes do jogo Botafogo x Fluminense, pela Taça Rio, a Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Lazer, através da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj), fez justiça a um dos expoentes da crônica esportiva, o jornalista, poeta e escritor Armando Nogueira, com um espaço, que leva o seu nome, localizado na Tribuna de Imprensa do estádio do Maracanã.

O jornalista que, para mim, é o “Pelé da crônica esportiva brasileira”, mesmo enfrentando problemas de saúde esteve no Maracanã e se emocionou bastante com a homenagem, especialmente no momento em que foi descerrada uma placa na entrada do Espaço que leva seu nome, onde está gravado o poema “Maracanã”, de sua autoria, cujos direitos autorais ele repassou para a Suderj.

Além da placa em acrílico, onde está gravada a poesia, o Espaço Armando Nogueira tem em suas paredes, uma galeria da fama com os chamados “Notáveis do Rádio”. Figuram neste corredor fotos de grandes nomes da crônica esportiva, como Antônio Cordeiro, Ari Barroso, Benjamin Wright, Carlos Marcondes, Celso Garcia, Clóvis Filho, Deni Menezes, Doalcei Camargo, Iata Anderson, João Saldanha, Jorge Curi, José Cabral, José Carlos Araújo, Kléber Leite, Luiz Fernando Vassalo, Luiz Mendes, Luiz Penido, Mário Vianna, Oduvaldo Cozzi, Orlando Baptista, Ronaldo Castro, Ruy Porto, Waldir Amaral e Washington Rodrigues. Além desses radialistas, outros 50, também votados, terão suas fotos expostas no local.

As homenagens para Armando Nogueira não ficaram somente na Tribuna de Imprensa, tiveram continuidade com a outorga da “Medalha do Mérito Pan Americano”, pela Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, em sessão solene realizada nas próprias dependências do Maracanã. A homenagem foi sugerida pelo vereador Luiz Antônio Guaraná.

Em 29 de janeiro deste ano, em breve e emocionante solenidade no Palácio das Laranjeiras, Armando Nogueira recebeu das mãos do ministro das Comunicações, Hélio Costa, acompanhado do governador Sérgio Cabral, a “Medalha da Ordem do Mérito das Comunicações”. No Grau de Grã Cruz, a mais alta condecoração concedida a personalidades que prestaram notáveis serviços ao setor.

Filho de cearenses que um dia emigraram para o Acre, fugindo da seca, Armando Nogueira nasceu em Xapuri, no dia 14 de janeiro de 1927. Em 1944, com apenas 17 anos foi para o Rio de Janeiro, onde cursou Direito e trabalhou como ensacador, embora já pensasse em se tornar jornalista. E sem imaginar que um dia formaria ao lado de Mário Filho e Nélson Rodrigues, a Santíssima Trindade da crônica esportiva brasileira.

Em 1950, conseguiu trabalho na seção de esportes do jornal “Diário Carioca” (extinto), que na época reunia os mais destacados jornalistas cariocas, como Prudente de Moraes Neto, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Pompeu de Souza. O “Diário Carioca” é até hoje lembrado como uma verdadeira escola do jornalismo brasileiro.

Foi testemunha ocular do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, na Rua Toneleros, em Copacabana. Ao escrever sobre o episódio, fez história no jornalismo brasileiro: pela primeira vez numa reportagem um fato era narrado na primeira pessoa. Depois de permanecer por 13 anos no jornal, Armando Nogueira passou pelo “Diário da Noite”, revista “Manchete” (1957), “O Cruzeiro”, dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand e “Jornal do Brasil” (1959).

Armando foi um dos pioneiros da televisão brasileira, em 1959, quando trabalhou na primeira produtora independente do país, dirigida por Fernando Barbosa Lima. Ele escrevia textos para serem lidos pelos locutores Cid Moreira e Heron Domingues, na antiga TV-Rio. Em 1966, convidado por Walter Clark, foi para a Rede Globo onde implantou, com Alice Maria, o telejornalismo de qualidade da emissora, que passou a atrair o interesse dos profissionais e do público. Nos 25 anos em que esteve na emissora da família Marinho, introduziu o jornalismo em rede nacional e criou os noticiosos “Jornal Nacional” e “Globo Repórter”.

Em 1989, Armando Nogueira mostrou que além de grande jornalista também era um homem íntegro e que não pactuava com atos inescrupulosos. No segundo turno das eleições presidenciais daquele ano, a Rede Globo promoveu um debate entre os candidatos Fernando Collor de Melo e Luiz Inácio Lula da Silva. No compacto do evento, exibido no dia seguinte Jornal Nacional foi feita uma edição que favorecia Collor, apoiado direta ou indiretamente pelas empresas de Roberto Marinho.

Armando Nogueira, como diretor de jornalismo, não compactuou com aquilo e levou pessoalmente a Roberto Marinho a sua indignação. Por causa de seu comportamento ético e profissional, acabou sendo aposentado pelos donos da emissora, de onde se desligou em definitivo no ano seguinte.

O grande nome da imprensa brasileira e que merece o respeito de todos nós, mantém uma coluna diária que é reproduzida em mais de 60 jornais de todo o país, participa de um programa no canal por assinatura SporTV, de um programa de rádio e de um sítio na Internet. É o proprietário da Xapuri Produções, que faz vídeos institucionais para empresas, para as quais também profere palestras motivacionais.

No futebol, é torcedor apaixonado do Botafogo, desde 1944, quando chegou ao Rio de Janeiro e assistiu a um jogo entre Flamengo e Botafogo. Encantou-se por Heleno de Freitas. A grande paixão de Armando Nogueira foi sempre o esporte, particularmente o futebol. Cobriu 15 Copas do Mundo e 7 Olimpíadas e escreveu 10 livros, todos sobre esportes: “Drama e glória dos bicampeões (em parceria com Araújo Neto)”; “Na grande área”; “Bola na rede”; “O homem e a bola”; “Bola de cristal”; “O vôo das gazelas”; “A copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar (em parceria com Jô Soares e Roberto Muylaert)”; “O canto dos meus amores”, “A chama que não se apaga” e “A ginga e o jogo”.

Com um estilo poético de escrever, Armando Nogueira imortalizou várias frases. Eis algumas delas: “Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio”; "Ademir da Guia, tens o nome, o sobrenome e a bola do craque"; "Arthur Friedenreich jogava Futebol com o coração no peito do pé. Foi ele quem ensinou o caminho do gol à bola brasileira"; “É sempre melhor ser otimista do que ser pessimista. Até que tudo dê errado o otimista sofre menos"; "Se Pelé não tivesse nascido homem, teria nascido bola".
Caricatura de Armando Nogueira publicada na coluna de Sérgio Cabral, no jornal "Lance", edição de 20 de janeiro de 2008.

Anônimo disse...
Excelente cronista realmente, um pouco romântico demais, mas bem coerente nas suas colocações. Dono da frase mais bonita do centenário do meu Atlético Mineiro:
"Brasilia capital do Brasil. Atlético Mineiro capital de Minas Gerais"
31 de março de 2008 18:59

domingo, 30 de março de 2008

A bola quadrada e a taça cortada

É claro que uma "bola quadrada" não teria nenhuma utilidade. Mas nem por isso deixaram de inventar uma. Foi no Japão, onde existe a “Sociedade Internacional do Chindogu (ICS).” E que bicho é esse? Chindogu é o termo japonês usado para designar a arte da concepção de idéias inúteis, como deformar a utilidade de um objeto até transformá-lo em algo sem serventia. A “bola quadrada” que o professor Girafales prometeu ao Kiko, personagens da série televisiva “Chavez”, teve origem nas criações malucas do Chindogu.

O presidente da ICS, Dan Papi, explica que Chindogu vem de “dogu”, que quer dizer “ferramenta” e “chin”, que pode ser traduzido por “estranho”, embora, literalmente, signifique “pênis”. O termo foi inventado pelo comediante japonês Kenji Kawakami.

No futebol a “bola quadrada” serve para designar o passe mal feito: “a bola chegou quadrada nos pés de fulano”. E também o mau jogador: “Esse cara joga uma bola quadrada”. Mas qual a origem do termo? Os nossos queridos amigos portugueses sempre foram os nossos alvos preferidos de piadas, ao longo dos anos. Na Copa do Mundo de 1966, a Seleção do Brasil buscava o tri-campeonato em gramados ingleses. E nosso grupo tinha Portugal, Hungria e Bulgária.

Como a mania de superioridade sempre acompanhou o futebol brasileiro, dessa vez também não foi diferente. Mesmo com notícias dando conta de que Portugal armara um time poderoso, o melhor da sua história, com craques como Euzébio e Coluna, ninguém levou a sério. Tanto é verdade que um humorista de jornal carioca fez uma caricatura em que um negro português, provavelmente Eusébio, se preparava para chutar uma bola... quadrada!

Depois do nosso jogo com Portugal, em que perdemos por 3 X 1 e fomos eliminados da Copa, um jornalista lusitano, que acompanhou o desastre brasileiro, publicou uma crônica, famosa até hoje, com o título “A vingança da bola quadrada". E o termo popularizou.

Fiz toda essa explicação para poder contar um fato acontecido pouco tempo depois. O S.C. Corinthians não andava lá muito bem das pernas no campeonato paulista. Jogava um clássico, no Pacaembu, contra o eterno rival, o Palmeiras. Um pouco antes da “redonda” rolar, um gaiato torcedor palmeirense, não identificado jogou uma "bola quadrada" dentro do gramado.

Mas o episódio não foi levado a sério. Ao contrário, os torcedores corinthianos se divertiram muito, ainda mais que o time jogou bem e ganhou o jogo. A "bola quadrada" foi levada para a sala de troféus do clube, onde permanece visível até hoje, porém oculta na história do clube.

Já a história da taça cortada, é bem mais antiga. Aconteceu na década de 40, na cidade gaúcha de Rio Grande, terra do clube de futebol mais antigo do Brasil, o S.C. Rio Grande. E o episódio teve a participação do chamado “vovô”. Os três times da cidade, S.C. Rio Grande, F.B.C. Rio-Grandense e S.C. São Paulo, estavam de relações cortadas por problemas surgidos no campeonato da cidade, que era muito disputado e com uma rivalidade bastante acentuada.

Para promover a paz, foi realizado um torneio envolvendo os três clubes, com a denominação de “Taça Confraternização”. As equipes do S.C. Rio Grande e S.C. São Paulo foram finalistas. Depois de empatarem três partidas, uma prorrogação e baterem mais de 30 pênaltis sem que houvesse um vencedor, e com a chegada da noite (não havia refletores no estádio) e como nenhum dos dois times abria mão do troféu, alguém sugeriu uma solução salomônica: declarar as duas equipes campeãs. E assim foi feito: a taça foi dividida ao meio e cada um dos times recebeu a metade.

No tempo em que morei na cidade de Rio Grande, visitei as salas de troféus dos dois clubes. E lá estão, incrustadas em madeira e para quem quiser ver as duas metades da taça, que representam um invulgar episódio da história do futebol brasileiro, tão rica em situações folclóricas. (Texto e pesquisa: Nilo Dias)